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Quando a escola pediu uma redação do ponto de vista de um objeto,
Nora escolheu sem hesitar a casa da família.
Falou da barriga da casa,
que roncava quando ela descia a escada correndo com a irmã.
A casa que as via se esgueirar pelo buraco na cerca,
até chegarem à rua, onde a casa as perdia de vista.
Nora se perguntou se a casa preferia ser vazia e leve,
ou pesada e habitada.
Se o chão gostava de ser pisado,
se as paredes sentiam cócegas.
Se sentia dor às vezes.
Nora concluiu que, com certeza,
a casa preferia estar cheia.
Antes deles,
gerações de homens e animais se sucederam entre as paredes.
O tataravô morrera no quarto
onde a avó nasceu,
e onde os pais dormiam agora.
A casa era torta devido a uma rachadura
surgida na construção, um século antes.
Nora escreveu que a casa afundava, cedia,
mas em câmera lenta.
Todos os anos que a família passou lá
foram só um segundo na escala desse lento colapso.
Ao reler a redação, ela se espantou
por escolher a palavra "barulho" para as brigas dos pais.
Mas se a casa não gostava de barulho,
ela detestava o silêncio.
Após a partida do pai, a casa ficou mais leve.
Não ecoava mais o barulho dos pais.
Mas ela já sentia falta dos outros ruídos do pai.
O professor adorou a redação, o pai também.
Ela até pensou em usá-la no teste da escola de arte dramática.
Mas, depois, achou que faltava emoção ao texto.
Acabou fazendo o monólogo de Nina, em A Gaivota.
Sou uma gaivota. Não. Não. Sou uma atriz.
VALOR SENTIMENTAL
Legendado por Cabine de Projeção
Tradução e Revisão: Lzito
Nora?
- Nora? Pode abrir? - Não vou conseguir.
- Nora, abre! - Me dá um segundo.
Abre, por favor.
Tudo bem?
Estou relendo meu texto em silêncio.
Você já sabe o texto.
- Não é a primeira vez. - Dessa vez é diferente.
Não posso. Não vou conseguir.
Tudo bem. Você tem que respirar. Vamos respirar juntos?
Olha pra mim.
Respira.
Comigo.
Não dá com essa coisa.
A costureira arruma, vem.
Vamos.
- Estou com sede, não tenho água. - Você bebe lá embaixo.
É inadmissível.
Cinco minutos de atraso.
Não se preocupe.
Põe ela no palco que tudo se resolve, certo?
Está soltando.
Não, está bom.
Escuta, será que...
Preciso de uma coisa, vem cá.
Agora?
Estou nervosa.
Eu precisava... Eu preciso de...
Preciso de um negócio.
- Não dá tempo. - Dá sim.
- Para. - Temos tempo.
- Você é muito... - Me bate, então.
- Um tapa pra me animar. - Não.
Não vou conseguir entrar. Não vou conseguir...
Tudo bem?
Você é foda!
- Para! - Estou sufocando!
Não faz isso!
Me ajuda!
Vai rasgar!
Espera!
Yngvar?
Vinte segundos.
Pronta?
Estamos prontos.
Sim.
Escutem!
Vocês prometeram me salvar.
Mas me mandaram para a fogueira!
Acolhi seus filhos na minha casa.
Mesmo assim, testemunharam contra mim!
Devíamos ter chamado um buffet.
- Muito estresse. - Para.
O que houve?
Não foi nada, tá tudo bem.
- Mãe, posso pegar bolo? - Se quiser.
Acabei de dizer não.
Já comeu demais.
Por favor?
Comida primeiro.
Que discurso lindo você fez!
Falei por nós duas.
Sua mãe tinha tanto orgulho, falava de você sem parar.
Minha querida Sissel...
Ela me levava sempre ao Teatro Nacional.
- Sério? - Sim.
A vovó atendia os pacientes aqui, antes de ela adoecer.
Ela conversava pra ajudar. Quer dizer, eles quem falavam.
Contavam segredos.
E quando eu era pequena, eu ficava ouvindo.
Pelo duto do aquecedor.
E podia fazer isso?
Não, mas ninguém sabia.
Faz tempo já...
A gente não sabe se dá os pêsames ou os parabéns.
Mas no fim, terminamos em bons termos.
Que foi?
Nada.
Papai chegou.
- Você sabia? - Não.
Mas eu convidei.
Oi, pai.
Aí estão! Com licença.
Olá, minhas queridas.
- Viu o Erik? - Não, ele veio?
Erik?
Você não foi à igreja.
Não tive coragem.
E por que na igreja? Ela virou mística?
Não.
É mais bonito.
É muito...
É muito triste.
Era uma mãe maravilhosa. Era tão linda...
Linda?
Tanto quanto vocês.
E inteligente também!
Sempre tinha razão.
Diga oi pro avô.
E aí, garotão!
Oi.
- Oi. - Oi.
É o Even.
Eu reconheço o Even, claro.
Somos velhos amigos.
Como você cresceu!
- É o mais alto da turma? - Acho que não.
Acha que não?
Dá muito trabalho na escola?
Não?
Toma.
Estava pensando em você.
O que é?
Minhas caixas de som.
Você está bem?
Sim, por quê?
Queria te ver antes de ir embora.
Tenho uma coisa pra te falar.
Não pode falar agora?
Aqui não.
Está na hora de conversarmos, nós dois.
Não acha?
Fredrik vai levar no Toyota dele.
Obrigada.
Espero que ele não ache...
que preciso de um pai agora.
Pra me consolar.
Pelo menos está se esforçando.
Não é fácil pra ele também.
Pergunta o que ele vai fazer com a casa.
Como assim?
É dele.
- Sério? - Sim.
Deixou pra mamãe, mas nunca assinaram nada.
Confesso que a gente contava com esse dinheiro.
Fala com ele.
Você nunca contraria ele.
Acha isso? Tá bom.
Imagina.
- Claro que sim. - Não.
Você está radiante.
O que vai querer?
Só um café.
- Mais nada? - Não.
Um café pra moça bonita.
- Café? - Por favor.
E o senhor, tudo bem? Está bom?
Servido por você, tudo é bom.
Ela acha que somos um casal.
Me preocupo com você.
E você, como está?
Muito bem, muita coisa acontecendo.
Soube da minha retrospectiva na França?
Não, como eu saberia?
Mas o importante é que vou filmar.
Você é insistente.
É meu melhor roteiro.
Michael diz a mesma coisa.
Ele ainda produz?
Ele diz que voltei à moda.
Meu documentário está passando em todo lugar.
Estou em alta.
Queria me falar de alguma coisa?
Sim.
Meu filme conta a história...
de uma jovem, uma jovem mãe que...
Quero você no papel principal.
Escrevi pra você.
Só você pode fazer.
Obrigada.
Mas você nunca me viu atuar.
Vi várias vezes. Vi você em Medeia.
Você saiu no intervalo.
Não gosto de teatro.
E o cenário era medonho.
Mas você estava bem.
Em dois minutos, consigo enxergar o valor de um ator.
Esse papel te faria bem em todos os sentidos.
Combina mais com você
do que essas peças empoeiradas pra plateia de aposentados.
É um papel de cinema de verdade.
Comigo, você conseguiria até financiamento.
Minha série foi muito bem.
Sim, pode ajudar.
Falei com o Michael.
Ele tem certeza que a gente consegue a verba.
Vamos filmar lá em casa.
Na nossa casa?
Sim, vai ser perfeito.
Não conte comigo.
Sua série vai bem sem você.
A filmagem acabou.
Você merece coisa melhor.
- Você assistiu? - Claro.
E o que achou?
Não importa.
Quero muito saber o que você achou.
Não é pra mim. Falta visual.
Não vemos seu rosto nem seu olhar.
Mas dane-se, o público adora.
Me interessa o que você acha.
O problema não é você.
O papel que te ofereço...
te faria estourar.
Não vamos trabalhar juntos, pai.
A gente nem consegue conversar.
Pelo menos leia. Eu te ligo.
Para de me ligar!
Dá pra ouvir que está bêbado.
Me preocupo.
Proíbo você de se preocupar comigo.
Pelo menos leia!
Pra quê?
Não vai dar em nada mesmo.
Fica sentada.
Não se mexe.
Eu estava ao seu lado durante o filme,
e notei, quando te olhei,
que ficou muito, muito emocionado.
Sim.
Me perdoem. É que...
Fazia vinte anos que eu não via.
E tenho lembranças muito vivas, muito precisas,
dessa época...
das diárias de filmagem,
da equipe.
Faço filmes com meus amigos.
Formamos uma família.
Isso é ainda mais verdadeiro neste filme, não?
Fala da minha filha, Agnes?
É ela que faz a Anna.
Tenho uma última pergunta
que muitos gostariam de saber a resposta.
O senhor não filma desde O Idílio,
há quinze anos.
Teremos outro filme de Gustav Borg?
Espero que sim!
Também espero. Obrigado, Sr. Borg.
Gustav!
Com licença. Conhece Rachel Kemp?
Ela adorou seu filme e queria jantar com o senhor.
Está no Excelsior agora.
Conhece?
Convite do festival. Tudo pago, é claro.
Com licença, senhor. É uma festa privada.
Gustav Borg!
Obrigada por vir!
Vou pegar uma cadeira.
- Aqui. - Obrigado.
Fiquei impressionada com seu filme.
Uma obra-prima, de verdade.
Lindo filme.
Obrigado.
- Excepcional. - Magnífico.
E a sua exibição?
Correu bem.
Ah para, foi maravilhosa.
O público amou o filme, a Rachel. Ela estava fantástica.
Estreia logo, não perca.
- Como faço? - Abaixa isso.
Sonho em fazer filmes como o seu.
Percebi isso hoje.
Nunca vi um filme assim.
Fiquei muito...
realmente...
comovida.
Obrigado.
Faz tempo que quero uma pausa.
Mas vou emendar projetos...
Os papéis são bons, mas...
eles não têm nada a ver comigo.
Então recuse!
Sam surtaria se eu largasse tudo.
E seria compreensível.
Dane-se o Sam!
A vida é sua.
E o senhor?
Algum projeto em andamento?
Não. Achei que tinha, mas...
Sem verba?
Tipo isso.
Ele vai te levar até o hotel.
Obrigada.
- Foi um prazer te conhecer. - Igualmente.
Rachel!
Senhor!
Rachel, seu telefone!
Não tinha que ir?
Está me expulsando?
Antes que você fique...
todo meloso.
Não gosta de carinho?
Claro que gosto.
Você tem medo...
de intimidade?
Não parece fácil pra você.
Não, não é.
Pra mim é ótimo você ser casado.
Assim não tenho que assumir que sou lelé da cuca.
Sério? Você pega pesado.
Lelé até que ponto?
- De 1 a 100? - Sim.
80.
- 80. - Sobram 20%...
É a parte visível.
- Falou com o diretor do teatro? - Sim.
Ele recomendou...
que eu fizesse terapia.
Bom!
- Por que não? - Não fala isso!
Mas é meio verdade que você tem alguma fobia.
Eu podia te ajudar com isso.
Sem drama, só aconteceu uma vez...
Tive que te bater.
É verdade.
Desculpa.
Foi violento e...
Podia me processar.
- Prometo nunca fazer isso. - Por favor.
Eu me conheço bem demais.
- Não preciso de terapia. - Mas deveria!
- Não. - Por quê?
Minha mãe era... Era psicóloga.
Você não vai se consultar com ela.
Me beija de novo.
Tá bom, mas...
Acabou por hoje.
- Até amanhã. - Até.
Subir num palco não é algo intuitivo.
Seu corpo fica em alerta, o público te olhando...
Não tem onde se esconder.
Mas não é só angústia?
Não, eu adoro!
Na verdade...
ela sente frustração, raiva...
injustiça, porque tem que assumir tudo.
Se ela o acusa de covardia,
é porque ela é covarde e não suporta isso nela mesma.
O que eu mais gosto
é entrar num personagem,
adotar o ponto de vista,
os sentimentos.
Virar outra pessoa,
me conforta em relação ao que eu sinto.
Não gosta de ser você mesma?
É o que você diz.
O que a mamãe diria disso?
Trapaceiro, volta aqui!
Não, nem tanto.
Não, espera. Aqui!
Você tem namorado?
Não, não mesmo.
Não quer ter?
Quero.
Mas nem sempre é fácil.
Eu te amo.
Também te amo.
Quando eu crescer, vamos casar.
É gentil da sua parte, mas não é possível.
Eu sei.
Dormiu também?
Não.
Ele é fofo demais!
Até me pediu em casamento.
Parabéns.
Obrigada. Não é todo dia.
Mais cedo, voltando do parque,
ele me olhou e soltou:
"Eu vejo você."
- De onde ele tirou isso? - Sei lá.
Você fala isso?
Deve ter ouvido na escola.
Eles falam "Eu vejo você" na escola?
Tudo bem?
Desculpa.
Mas vai ficar bem?
Sim. Vou pra casa.
Espera.
- Vai passar. - Tem certeza?
Certeza? Aconteceu algo?
Desculpa.
Ela vai ficar bem?
Sim.
Acha... que ela pode recair?
Acho que não.
Só está se sentindo sozinha.
Te preocupa?
Um pouco.
- Oi. - Oi.
É estranho.
Quando a mamãe adoeceu, pensei por um momento
em assumir a casa pra morar com o Even e o Erik.
- Gostaria de morar aqui? - Não.
A gente nem tem dinheiro pra comprar.
Já separei tudo isso.
São papéis velhos.
Obrigada, fez um trabalho incrível.
Estou impressionada.
Joga fora o que não quiser.
Não quer nada? Tem coisas bonitas.
De valor sentimental.
Dá uma olhada.
Eu queria esse vaso.
É bonito mesmo.
Só porque eu escolhi?
Não. Pega se quiser.
Não, a ideia é entrar num acordo.
Vou levar, então.
NÃO ESQUECER DE DESLIGAR O FOGÃO!
Ele vai morar aqui por muito tempo?
Ele não disse.
Ele veio cuidar da venda?
Não sei também.
Ele chega às 14h, você pergunta.
Acho que não.
Vai ignorá-lo por quanto tempo?
Vou tentar.
Também achei que ele tinha vindo pra cuidar da venda.
Mas ele tem um projeto.
Como?
É algo bom, ele vai fazer um filme novo.
Que filme?
O que ele te ofereceu.
Meu filme? O papel que escreveu pra mim?
Sim, o papel que você recusou.
Conseguiu a verba?
Imagino que sim.
Acho que ele quer te contar.
Perguntou se você estaria aqui.
É ele?
Sim.
Nossa! Aquela não é a Rachel Kemp?
Merda!
Espera, Nora!
Espera... Nora!
Nada mudou.
Foi bom rever vocês.
Tem um café a dois minutos daqui.
A Rachel liga pra vocês.
A Nora está?
Não, teve que sair.
Esta é minha filha, Agnes.
- Olá. Rachel. - Prazer.
O prazer é meu.
É do ramo do cinema também?
Não.
Ela faz umas pesquisas pra mim às vezes.
Sou historiadora. Acadêmica.
Desculpe, estou gaguejando.
Reconhece ela?
Fez a Anna no meu filme.
Há muito tempo.
Mas é claro!
Você é a Anna!
Lembro de você.
Podemos tirar uma selfie?
- Claro. - Você é uma estrela!
Obrigada.
Ela está aqui, falando com o filho.
É a última cena, o fim.
Ela prepara comida pra ele.
É importante pra ela, uma atenção materna final.
Ele a abraça antes de sair.
Assim que a porta fecha, algo nela muda.
Parece que ela relaxa. Entende?
O menino vai encontrar o pai, ela não tem pressa.
Aqui tem uma corda de roupa, como se diz?
Um varal.
- Um varal. - Isso.
Aí ela entra nesta sala e arruma tudo.
De repente...
ouve outra porta abrir.
Vem cá.
É o filho.
Esqueceu a bandeira da Noruega.
É 17 de maio, feriado nacional de vocês.
Isso.
Te disse que é um plano-sequência?
Um plano só? A cena toda?
O final todo num plano só.
Sem cortes.
Sincronia perfeita de tempo e espaço.
Uau.
Então...
O menino para, a encara.
Tem algo errado, ele não sabe o quê.
Mas pega a bandeira
e sai correndo.
Ela vem pra cá,
pra garantir que, dessa vez, ele foi mesmo.
Ouvimos apenas a porta do jardim fechar atrás dele.
A câmera continua nela.
E isso é crucial.
A expressão do rosto.
No que ela pensa?
Exatamente.
Aí ela volta pra lá.
É aqui que acontece?
Sim.
Aguentaria o peso dela?
Foi assim com a minha mãe.
Sua mãe?
Sim.
Mas aqui?
Sim.
Faz muito tempo.
Não!
Com este banquinho.
Este banquinho?
Ela não era alta o bastante.
Mas não vamos ver a cena.
O plano termina na porta fechando atrás dela.
Só vamos ouvir.
E a câmera recua.
Por que não saíram da casa depois disso?
Nós saímos.
Para a Suécia, meu pai era sueco.
Queria que me falasse dela.
Não é minha mãe no roteiro.
Mas vão me deixar fazer?
Sim, sim, eu sei.
Vai ser bom.
Ela está empolgada.
Contei que este banquinho...
foi usado no suicídio da minha mãe.
O banquinho IKEA?
Será que sou eu?
Sou eu mesma? Com esses pensamentos, a insônia?
Não consigo aceitar
que sou eu de verdade.
Já falamos disso.
Não se reconhece mais?
Não.
Muitos anos antes,
o consultório era uma biblioteca.
Ficava quase sempre vazia,
e Karin, a mais velha,
gostava de encontrar as amigas ali pra ouvir música.
Durante a Guerra, Karin entrou para a resistência.
Numa noite de outono, em 1943,
a milícia veio prendê-la.
Ficou presa dois anos.
Ela nunca falou sobre o período no campo de Grini.
Pode ouvir agora.
Após a Libertação, Karin casou e voltou para a casa da família.
Deu à luz Gustav em 1951.
Anos depois, já cineasta,
Gustav gostava de dizer:
"Nada é mais belo que as sombras."
Revendo, então, a casa de sua infância.
A irmã de Karin, Edith, assumiu a casa com a amiga, Lillian.
Edith não quis filhos,
mas recebia Gustav todo verão.
Se reclamavam, Edith aumentava o som.
Tinha certeza que fora um vizinho quem denunciou a irmã à milícia.
Quando a tia morreu,
Gustav herdou a casa.
Em 1986, voltou a morar entre as paredes cheias de memória.
Há duas versões do encontro de Gustav e sua esposa, Sissel.
Ela dizia que foi em uma consulta para tratar a insônia dele.
Ela deduziu que voltar àquela casa
era mais difícil para ele do que ele admitia.
A versão de Gustav era mais fantasiosa.
Fui atropelado pela beleza dela.
Quando soube que ela era psicóloga,
inventei problemas.
Seis meses depois, Sissel estava grávida.
Casaram-se três semanas antes de Nora nascer,
em dezembro de 1987.
Com a chegada da pequena Agnes, formaram uma família de verdade.
Te cansa ficar com a gente?
Nunca disse isso!
Você sempre vem com o mesmo papo furado!
Após o divórcio, Gustav voltou pra Suécia.
A casa ficou cada vez mais leve.
Falou com o Peter?
Peter é um velho.
Não trabalha há dez anos.
Igual a mim.
Ele se aposentou.
Vou falar com ele.
- Não quero outro fotógrafo. - Tá bom, mas...
Vai falar com ele, então.
É? Tá bom.
É bom que vá.
Ele não é mais velho que você.
Gostam da Noruega?
Adoro a Noruega. É linda.
E os noruegueses são adoráveis, tão calorosos.
É uma produção Netflix.
O filme sai no cinema?
Onde mais sairia?
Estamos negociando, mas é o plano.
Pergunta para Rachel Kemp.
Sobre a recepção crítica do seu último filme, A Escolha de Cathy.
Você não ficou um pouco decepcionada?
Tenho muito orgulho desse filme.
Mas não estamos aqui
para falar disso, estamos?
Está nervosa por encarar
um filme dramático de verdade?
Estou neste projeto... Escolhi esse filme porque...
Que pergunta de merda é essa?
Rachel Kemp é a melhor atriz da geração dela.
Tem sorte por ela estar aqui. Você deveria agradecer.
Fora!
Saiam!
Obrigado.
Que babaca!
Você não tinha aprovado as perguntas?
Isso não se faz.
Maldito blogueiro do TikTok.
Ele me ensinou.
Eu fiz com ele também.
Não vou fazer discurso,
mas fui inundada por uma onda de gratidão.
Adoro trabalhar com cada um de vocês.
Ainda temos trabalho mas...
Estávamos falando disso.
- Eu e você resolvemos umas coisas. - Nem tudo.
A gente se acerta no palco.
Jakob, sei que em casa está complicado.
De qualquer forma...
obrigada por não deixar afetar o trabalho,
e se precisar conversar, estou aqui.
Obrigado. Vou pensar.
Mas...
Vamos arrasar!
Com certeza.
Saúde!
Por que não disse que ia se divorciar?
Entre os ensaios e o resto...
Não tive muita chance.
Eu entendo.
Não é...
por nossa causa, né?
Não, de jeito nenhum.
Estou aqui,
se você quiser...
Se precisar conversar.
Não precisamos mais nos esconder.
Olha, não tenho certeza.
Oi!
- Papai está? - Ainda não.
Chegou! Feliz aniversário!
Você está lindo.
Fazendo pizza?
- Olá! É assim? - Isso.
Ainda tenho o recorde.
Não.
Começa aqui.
Bem-vindo.
- Que bom te ver. - Digo o mesmo.
Oi, vovô.
9 anos, já é um rapazinho!
Você já está um homem.
Você não vê a Therese desde o nosso casamento.
Mas Therese é inesquecível.
Que luxo! Qual é a uva?
Pega umas taças.
Oi, pai.
Conseguiu?
O filme vai bem?
Mais ou menos.
Ouvi falar, é demais!
Como estão as coisas com a Rachel Kemp?
Para.
Ainda tenho o direito de perguntar.
Ela tem muito o que aprender,
mas está evoluindo.
Ouvi a história do banquinho IKEA.
Ele vai ficar grudado nisso?
Ele ainda tem vinte minutos de tempo de tela.
Quem? O Even?
Você ainda tem tempo de tela?
Ainda não gastou tudo?
Tempo de tela?
Quanto você dá pra ele?
Dez minutos.
- Larga o telefone. - A pizza está pronta.
- Está pronta. - Já vou.
"A PROFESSORA DE PIANO" "IRREVERSÍVEL"
- O que se diz? - Obrigado, vovô.
Olha só.
Monica Bellucci, caramba!
Com esse filme, você vai entender as mulheres e a relação delas com a mãe.
Ótimos presentes.
Não temos leitor de DVD.
Ainda bem!
Daremos um jeito.
Quase não vemos filmes.
Devia começar a escrever.
Se você diz.
Por que mofar esperando algum velho babaca
te oferecer o papel de Ofélia?
Eu faço Hamlet.
Sério?
Falei com a Rachel. Ela assumiu o controle.
Montou a própria produtora.
É difícil ser atriz.
Não decidem nada,
são reféns do desejo dos outros.
É desgastante.
- Eu atuo muito... - Elas acabam duvidando de si,
e a necessidade de reconhecimento se torna insuportável.
Eu nunca me casaria com uma atriz.
Preferiria levar pra cama.
Os artistas de hoje são tão pequenos-burgueses.
Não se escreve Ulisses
levando pirralho pro futebol ou pagando seguro de carro.
Um artista verdadeiro é livre.
E deve permanecer livre.
Então não se deve ter filhos?
Não diga isso, Nora.
Quantos anos você tem?
Na sua idade, Sissel tinha dois filhos.
Os tempos mudam, pai.
Vocês foram o que me aconteceu de melhor.
O que te aconteceu de melhor?
A gente mal te via.
Como sempre, a culpa é toda do papai.
Não errei em tudo, vocês são ótimas mulheres.
Tem certeza?
Você não nos conhece.
- Exagerada. - Exagerada?
Sim.
Você teve momentos difíceis.
Eu também passei por isso.
Mas você tem muita raiva.
É difícil amar alguém raivoso.
Não quer acabar sozinha, quer?
Artisticamente, também é ruim.
Precisa ter alguém pra amar, filhos, ou...
A gente nunca se arrepende, não é?
Peter?
Que bom te ver.
Bela casa!
Graças ao Lasse Hallström, não a você.
Sem Regras da Vida, ele nunca teria te contratado.
Seus netos devem adorar.
Ainda estou brigado com o Daniel.
Uma pena para as crianças.
Ele priva as crianças do avô.
Mas me diz...
esse roteiro...
Nada mal, hein?
- É genial. - Você topa?
É claro que topo!
Vem, vamos beber algo.
Nesse filme, nada de... câmera na mão.
Imagino um dolly,
câmera fixa.
Desculpe termos perdido contato.
Entre as filmagens, acabo esquecendo...
Sei como é, sou igual.
Escuta...
Eu te aviso.
A Netflix também dá pitaco.
Querem que eu veja outras pessoas.
É assim que funciona agora?
Sim.
É assim.
Então, um brinde!
Bom te ver.
Oi, Nora.
Estou ligando porque...
Porque precisamos conversar.
Não dá pra continuar assim.
Se não gosto de ir ao teatro,
não quer dizer que não gosto de teatro.
É que...
não suporto assistir.
Tchekhov, eu consigo...
Prefiro ler Tchekhov.
Talvez...
não as peças, mas...
Sou muito sensível. Você também.
Nós... nos parecemos.
Merda.
Obrigado.
Tenho uma dúvida...
Quem é o "você"?
Ela diz "você sabe".
Quem é o "você"?
O que você acha?
Não deve ser a mãe.
Ela não diria isso a ela.
Imagino que seja a voz interior dela.
Acho estranho falar sem me dirigir a ninguém.
Tudo bem.
A Ingrid vai te ouvir.
Sou toda ouvidos.
Vem cá.
Tenta ficar aqui. Vamos ver.
Retoma em...
"Tive uma espécie de crise" Fala pra Ingrid.
Pode tocar nela,
pra ela sentir que é a mãe dela.
Lembre-se, ela nunca contou isso a ninguém.
Tem vergonha de rezar.
Tenta disfarçar, rir disso, mas...
Tem vergonha.
Vergonha da fraqueza.
Tive uma espécie de crise.
Eu estava sozinha em casa,
deitada na cama, chorando.
Eu sei que todo mundo já chorou na cama...
Alguém disse que rezar não é falar com Deus.
É aceitar o desespero.
É se jogar no chão porque...
é tudo o que resta fazer.
Como quando se tem o coração partido, e a gente pensa...
"Eu imploro, me liga. Me perdoa.
Eu imploro, volta pra mim."
Eu tinha estragado tudo.
Eu estava sozinha,
chorando.
Então, pela primeira vez
sentei no chão
e rezei.
Não sei com quem eu falava, mas disse em voz alta:
"Me ajuda.
Não aguento mais.
Não vou conseguir sozinha.
Quero encontrar meu lugar.
Quero encontrar meu lugar."
Quem dera...
se a mãe dele fosse como ela no filme.
Pois é.
Acha que funciona em inglês?
Sim, claro.
E se eu fizesse um sotaque norueguês, como a Ingrid?
Não tenho sotaque.
Ela é sueca.
Eu tenho sotaque?
Quase nada. Mas é que...
Não fica estranho se todos tiverem sotaque escandinavo,
menos eu?
Talvez. Vou pensar.
Podemos falar um pouco mais sobre minha personagem?
Claro.
O grande mistério pra mim é: por quê?
Por que ela decide se matar?
Sim.
O que você acha?
Ela é depressiva, como a mãe.
Mas tem um filho.
É a questão que o filme levanta.
Cabe a você encontrar a resposta.
Pode me falar da sua mãe?
Sem querer ser indiscreta.
Só acho que pode ser relevante, de certa forma.
Esse filme não é sobre a minha mãe.
Esta é a ficha dela feita pela milícia
e o dossiê do campo de Grini.
Aqui, o depoimento de Karin Irgens
e o restante do dossiê,
que contém fotografias
de cenas de tortura reconstituídas.
São imagens chocantes,
prefiro avisar.
O que diz respeito a ela está marcado com adesivos.
Obrigada.
IRGENS, KARIN
ACUSAÇÃO: PROPAGANDA ANTINAZISTA
PROCESSO POR ALTA TRAIÇÃO
LISTA DE PROVAS
ACUSAÇÕES: TORTURA
OBJETO: ATOS DE TORTURA COMETIDOS CONTRA KARIN IRGENS.
... GRITEI DE DOR QUANDO APERTARAM O TORNO...
ME AMARROU NUM AQUECEDOR QUENTE...
ME ESPANCARAM COM UM BASTÃO...
AS DORES PERSISTIRAM POR MESES...
Ao contar o dia para o Even,
ela percebeu que não aprendera nada,
que já sabia de tudo.
Não entendia o que a deixara tão abalada.
Seria o depoimento da avó,
descrevendo os fatos de forma tão seca e distante?
Ou o número de vítimas
que figuravam no mesmo dossiê?
O relatório policial do suicídio, quinze anos depois, era breve.
Não tinha fotos,
mas o nome do pai estava lá.
Não foi interrogado,
provavelmente porque só tinha 7 anos na época.
E você faz uma panorâmica super rápida.
Não, espera.
Olha bem.
Corta!
Mostra.
Engraçado, né?
Deixa eu ver?
Parabéns!
Vamos juntos à estreia da Nora?
Podíamos jantar aqui antes.
Pego um táxi do escritório.
Mas você vem?
Claro que sim.
Quero o Erik no meu filme.
Ele é perfeito.
É um papel pequeno, mas central, o filho da Rachel.
Agradeço o convite, mas...
não sei se ele tem jeito pra ator.
É por isso que quero ele.
Odeio ator mirim que gesticula pra câmera,
achando que está numa comédia musical.
O Erik tem alguma coisa.
Uma espécie de segredo.
Você também era tímida.
Lembra?
Mas brilhava na tela.
Devia ter continuado.
Vou querer três sucos.
Obrigada por lavar minha roupa.
Obrigada por lavar minha roupa.
Mal ouso fechar os olhos.
Tenho medo de abrir
e você não estar mais lá.
Pausa.
Você parece meio distraída.
Estou um pouco cansada.
Não tenha medo de errar.
O único erro seria não escutar.
E leva seu tempo.
Tá?
De novo, sem sotaque.
Retoma em...
Página anterior. Lá em cima.
Prazer em conhecê-la.
Igualmente.
Desculpe a espera.
Obrigada por me receber.
Imagina.
Por que recusou o papel?
Não posso trabalhar com ele.
Por quê?
Não conseguimos conversar.
Mas ele queria você.
Sim.
Sei lá.
Fico pensando que ele...
Que ele cometeu um erro.
Não consigo...
Não consigo decifrá-la.
Quanto mais trabalho a personagem,
mais me perco tentando encarná-la.
Como se a melancolia dela...
tomasse todo o espaço.
A ideia é bonita.
Mas não sei se é a causa
de todos os problemas dela ou...
o sintoma de um sofrimento mais profundo.
Não quero decepcioná-lo, entende?
Ele é uma pessoa...
difícil de lidar.
Mas é um excelente diretor e acredita em você.
Seria idiotice desistir.
Eu costumava controlar tudo.
E quando perdia o controle, eu gostava também.
Sabe?
Estou velho demais.
O campo está cheio de espinhos.
Sou o último dos Moicanos.
E esse novato me mandando "moodboards".
Sinto falta do Peter.
Viu como ele envelheceu?
Estou muito cansado, Michael.
O que aconteceu? Há 15 anos, eu tinha 55.
Talvez tenha razão.
Talvez já tenha passado da hora
e este seja nosso último filme.
Mas me prometa não ceder aos modismos.
Promete pra mim.
Esse assunto...
Você já o tocou antes.
Mas nunca abordou de frente,
como está fazendo agora.
Tão direto, tão pessoal.
Tudo bem, você levou anos
pra chegar a esse ponto.
Mas você vai fazer essa porra desse filme.
E vai fazer do seu jeito.
Entendeu?
- Eu vou... - Tá.
Pode soltar um pouco?
- Parabéns. - Obrigada, gentileza sua.
- Você foi incrível. - Obrigada.
- Todo mundo adorou. - Obrigada.
Conseguimos, afinal. Foi bom.
Foi bom.
Tudo bem?
Sim, tudo.
Você nunca me liga.
Não.
Papai veio com vocês?
Que eu saiba, não.
Chamamos uma babá.
Vamos beber no Tekehtopa,
se estiver livre.
Com licença?
Meus sinceros parabéns,
que apresentação magnífica!
Sim, marquei hora,
E...
Mas hoje à noite é impossível.
Já atuei doente muitas vezes,
é a primeira vez que cancelo uma apresentação.
Sinto muito mesmo.
Sim, obrigada.
Tchau.
Cadê o Erik?
Já vai voltar.
Por que não veio à estreia da Nora?
Ela não me queria lá.
Vejam só. Aqui está o original.
E a tradução em inglês,
Para o Erik decorar o texto.
Se tiver sotaque, não tem problema.
Falou com o Michael?
Ele vai ter que faltar à escola.
Estou na dúvida...
Vai ser ótimo. Eu garanto.
Não sei se ele quer.
Ele quer sim.
Como você sabe?
Falei com ele.
Falou com ele?
Por alto.
Ele ficou radiante.
Falou com ele sem mim?
Quando você fez meu filme...
Guardo uma lembrança maravilhosa.
Vai ser ótimo.
Leiam o roteiro juntos.
A Rachel vai adorar ensaiar as cenas com ele.
São cenas muito alegres.
Ela vai ver outros lados do filme...
Para de falar. Cala a boca.
Erik não vai fazer seu filme.
Agnes, por favor...
Eu amei filmar com você, pai.
Foi a melhor coisa que vivi.
Finalmente passava tempo com você.
Eu tinha virado o centro do seu mundo.
Aí você sumiu, nunca mais te vi...
Foi maravilhoso!
Foi.
Mas também incompreensível.
Você é instável demais.
Uma hora estamos perto e depois você some,
e outra pessoa vira o centro do seu mundo.
- Leia. - Não é possível!
Não me importa se é bom ou não.
Estou pensando no Erik.
O vovô ia embora.
Tudo bem?
- Tudo. - Bom te ver.
Senti sua falta hoje.
- Eu também. - Sério?
O que vamos fazer até o papai chegar?
A que devo a honra?
Tudo bem?
Acho que sim.
Vem, vou fazer um chá.
- Aqui. - Obrigada.
Não quer mais fazer o filme?
É que...
Não quero te deixar na mão.
Eu fico, se você insistir.
Sinto que não parece certo.
E acho que não faz sentido pra você também.
Eu, neste filme?
Claro que faz.
Eu não acho que faz.
Você me pediu pra pintar o cabelo da mesma cor que o da sua filha.
E você não quer fazer esse filme em inglês, quer?
Também acha que soa falso, não é?
Não quero te decepcionar.
Sinto muito.
A culpa é minha, Rachel. Desculpe.
A maioria dos atores faria o filme mesmo assim.
Ou mandaria o agente avisar que estava fora.
Você veio pessoalmente.
Você é uma boa pessoa.
Ei..
Por favor, não veja isso como um fracasso.
Você é uma atriz formidável, saiba disso.
Obrigada.
Desculpa aparecer assim, mas você nunca atende.
Foi mal.
- Tudo bem? - Sim.
Quando você não atende,
eu surto, você sabe.
E aí? Está doente?
Não.
Briguei com o papai ontem.
Fiquei furiosa.
Ele quer o Erik no filme e eu disse não.
Mas eu li o roteiro.
E é tão bonito. Nada do que imaginei.
Sei que não quer mais saber dele.
Mas você tem que ler.
Tenho a impressão de que fala de você.
Quero dizer...
que ele escreveu pra você, não é a história da mãe dele.
Enfim...
Pode ler esse trecho em voz alta pra mim?
Não liga,
a escrita é meio afetada.
Mas lê.
Sabe, eu não acredito nem um pouco em Deus.
Lá em casa, não havia espaço para religião.
Não fomos batizadas.
Minha irmã e eu fizemos a confirmação civil pelos presentes.
Tive uma espécie de crise.
Eu estava sozinha em casa,
deitada na cama, chorando.
Eu sei que todo mundo já chorou na cama...
Alguém disse que rezar não é falar com Deus.
É aceitar o desespero.
É se jogar no chão porque é tudo o que resta fazer.
Como quando se tem o coração partido, e a gente pensa...
"Eu imploro. Me perdoa.
Volta pra mim."
E eu tinha estragado tudo.
Estava sozinha, chorando.
Então, pela primeira vez,
sentei no chão e rezei.
É difícil de explicar.
Não sei com quem eu falava,
mas disse em voz alta:
"Me ajuda.
Não aguento mais.
Não vou conseguir sozinha.
Quero encontrar meu lugar.
Quero encontrar meu lugar."
Você falou pro papai...
da minha tentativa de suicídio?
Não, claro que não.
Pensei a mesma coisa. Como ele sabe?
Está misturado
com as histórias da mãe dele também.
Às vezes, parece que ele estava lá quando você estava mal.
Ele não estava.
Era você quem estava.
Como é possível?
Você se sai tão bem e eu, tão mal.
Não diz isso.
Como conseguiu, com a infância que tivemos?
Não foi fácil pra mim também.
Mas você formou uma família.
Um lar.
Sim.
Mas não tivemos a mesma infância.
Eu tinha você.
Você se acha incapaz de cuidar dos outros.
Mas cuidou de mim
quando a mamãe estava mal.
Você lavava meu cabelo.
Me penteava.
Me levava pra escola.
Eu me sentia segura.
Eu te amo.
Eu também.
Também te amo.
Assim está melhor?
Que alegria abrir os olhos e ver tanta beleza!
Você tem um sorriso lindo.
Espero que seu namorado diga isso.
Às vezes.
Já ouvi isso antes.
Não tem nada melhor pra me oferecer?
Champanhe?
Põe biscoito?
- Sabe... - O Omar come biscoito todo dia.
- Tá bom... - Até chocolate.
Come seu sanduíche primeiro.
Pronto.
Beijo.
O que foi?
Esqueci meu telefone.
Beijo.
Corta!
Perfeito.
Está valendo. Próxima cena.
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