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Quando era novo, trabalhei num barco de ostras.
Costumava olhar para uma mansão numa colina
e imaginar como seria viver numa casa como aquela.
Costumava pensar: "Cambada de ricalhaços.
"Nunca tiveram de trabalhar na vida."
Hoje essa casa é minha.
Ainda não está acabada.
E nem eu.
Obrigado. Boa noite, Nova Iorque!
A coisa mais original que já fiz na vida foi fazer asneiras,
mas isso não é necessariamente mau.
Um dia, perguntei a um grande chef como se tornou tão bom.
Ele disse: "O segredo está na recuperação.
Na forma como corrigimos os nossos erros."
Há muita sabedoria nessas palavras.
Tudo o que fiz e tudo o que vivi
acabou por ir parar à minha música.
Está a gravar. Som três?
Nenhuma estrela rock vem de um sítio chamado Hicksville.
Uma coisa levou a outra e tornou-se "Billy Joel".
Fartei-me dos estereótipos, dos rótulos.
Estava na altura de mudar.
Não aturem merdas de ninguém.
Não quero viver!
Olá.
- És o que canta a Uptown Girl? - Sou eu.
Se nos esquecermos de onde vimos,
esquecemos quem somos.
O amor pode fazer-nos compor música, mas o desgosto também.
É um mundo tramado.
Não são os Escuteiros.
É o mundo da música.
Um dos artistas de maior sucesso de todos os tempos.
O único, o grande Billy Joel.
Sr. Billy Joel!
- Billy Joel. - Billy Joel.
Billy Joel!
Nunca senti conforto em frente às câmaras.
Quando estamos a ser filmados, como agora,
há um pouco de tensão.
Não dá para fugir.
Não dá para esconder atrás do piano.
Não me considero uma estrela de rock.
Sou um músico
e tendo a esconder-me na banda.
É confortável.
- Ganhei o peso todo que perdeste. - Com que então, foi para ti que foi!
Eles conhecem-me e eu a eles.
Está mais pesado do que me lembro.
Queres levar para casa?
E referimo-nos às pessoas de fora como civis.
Se não pertencem ao gangue, são civis.
Alguém arranje uma cassete ou um vídeo meu
a tocar as tretas que eu toco.
Gosto de trabalhar com os músicos e de tocar música para um público.
Criar música de qualidade constante
exige uma dedicação total
à custa de quase tudo o resto.
Dois, três, quatro.
- Alguém cante. - Sobrepõe-se.
Requer abdicar de uma certa parte da vida.
Deixa ver como soa.
Mas se estivermos a curtir, nem damos pela vida a passar.
Comecei a tocar em bandas em miúdo.
Só queria ganhar a vida.
Não necessariamente tornar-me milionário ou correr o mundo.
Só queria pagar as contas.
Para mim, sucesso era isso.
Mas o meu sucesso nem sempre me deixa confortável.
Por vezes, é estranho. Este Billy Joel.
Não sei quem é, nem o que é.
Lembro-me dele quando ando na rua.
"Billy Joel!" Pois é, sou eu.
Acabei por chegar lá. Compus estas canções.
Mas desde miúdo que a meta era a música.
As pessoas veem em mim um tipo urbano de Nova Iorque,
mas sou um tipo de uma terriola de Long Island.
E na altura, a meados de 1960,
parecia que todos no meu bairro pertenciam a uma banda.
A primeira banda a que pertenci foi The Lost Souls from Long Island.
As minhas primeiras canções foram más canções dos Beatles.
Era a moda na altura. Todos tentávamos ser os Beatles.
Era quando andava no liceu
e estava a ganhar uns trocos
a tocar piano e a divertir-me.
Disse: "Espera, é isto que vou fazer."
Então, tive um avanço.
Sabia o que queria fazer desde os 14 anos.
Qual foi o sucesso da primeira banda?
Bom, como é óbvio, agora são um nome conhecido, não é?
Na década de 1960,
o rock em Long Island estava ao rubro.
Estava numa banda, os Hassles,
e tínhamos perdido o nosso teclista.
E o Billy veio com a malta dele,
e vi-o atuar.
E foi tão piroso... ridículo.
A forma como estava vestido, ajoelhar-se para cantar uma canção.
Mas, para mim, foi um estrondo.
Disse: "Ouçam, este gajo é bom."
E disse-lhe: "Adorávamos ter-te nos Hassles."
E ele: "Não posso. São meus irmãos.
"Eu adoro-os. Não vou a lado nenhum."
E vi que estava a perder a batalha.
Então, disse-lhe: "Damos-te este Hammond B3
"se entrares na banda."
As grandes bandas de Long Island
acabavam sempre por ter um Hammond B3.
Eu nunca tinha tocado com um.
Era o meu órgão de sonho.
Mas custava uns milhares e não tinha dinheiro para o comprar.
E disse ao Billy: "Se te juntares à banda,
dou-te o Hammond B3."
E ele respondeu: "Caguei para eles. Alinho."
Nenhum dos gajos da banda era endinheirado,
mas o Billy estava liso.
Havia os pobres e depois havia o Billy Joel.
Já era uma sorte se tivesse dinheiro para comprar um maço.
Como não tinha carro, não podia ir a lado nenhum.
Portanto, dependia do Jon
para me ir buscar e levar a todo o lado
quando havia ensaios ou algum concerto.
Lembro-me do dia que conheci a mãe, a Roz.
Ele disse-lhe: "Quero ser assim." Eu com cabelo por aqui. E ela: "Bestial."
Mas eu achava-a a melhor mãe que se podia ter.
Limitava-se a torcer pelo filho.
Sempre soube que ele tinha talento.
Então, demo-nos bem. Parecíamos o Tico e o Teco.
Ele era o Tico e eu o Teco.
Fazíamos tudo juntos.
Eu e o Jon ficámos muito chegados,
e tornei-me muito amigo da mulher dele, a Elizabeth.
Eu era casado com a Elizabeth Weber.
Casei muito novo.
Ele estava numa banda e eu estudava.
Engravidei,
e disse ao Jon Small que íamos casar.
E conheci o Bill em 1967.
Ele tinha 17 anos.
Era tímido, um pouco mais calado.
Mas mesmo em adolescente,
era muito trabalhador e sabia que era preciso.
Vi provas disso quase desde o início.
Na altura, a vida dele era a banda.
Era um músico obstinado.
Tínhamos um vocalista,
mas o Billy punha-o a um canto.
E o Billy cantava a maioria das canções
que atraiam as pessoas até nós.
Os Hassles eram uma banda de covers, tocavam de tudo.
Tocávamos os êxitos da época,
mas queríamos algumas canções que pudessem ser consideradas nossas.
Percebemos que ser um grupo discográfico de sucesso
exige material original.
Não dá para fazer só covers. Por isso, comecei a compor muito.
Every Step I Take. Foi o single dos Hassles.
Essa foi a primeira canção dos Hassles,
que se tornou um êxito nas rádios locais de Long Island.
Foi a primeira vez que um single passou na rádio.
Todos na minha terra a conheciam.
Todos ligaram uns aos outros.
Passavam de carro na rua com os quatro vidros abertos
e gritavam: "Liguem o rádio!"
E costumávamos encher todo o lado.
Éramos umas estrelinhas de rock.
Era engraçado, percebem? Todos sabiam quem éramos.
OS HASSLES VÃO DAR QUE FALAR?
Vi os Hassles em 1967.
O que eu gostava no Billy
é que era ótimo no teclado,
um Hammond B3.
Já fazia muita rocalhada.
E a voz dele era simplesmente incrível.
Os Hassles assinaram contrato com uma editora, a United Artists.
Demos alguns concertos locais e chegámos à Nova Jérsia.
Fomos tocar a Nova Jérsia.
Atravessámos a ponte!
Melhoramos a tocar para o público
porque somos vaiados se não gostarem.
Sobretudo em Long Island e Nova Iorque, não se retraem.
Por isso, foi a nossa escola.
Aprendi muito naquela banda.
Sou o Billy Joel, dos Hassles.
Queremos tocar uma das nossas favoritas
e esperamos que seja uma das vossas.
Em todas as bandas,
há sempre guerras sobre o percurso criativo.
Entre os Hassles, só eu e o Billy levávamos aquilo mesmo a sério.
Eu e o Billy estávamos em sintonia e os outros não.
E percebemos que não precisávamos deles.
Então, deixámos os Hassles.
O Jon e o Billy levavam a música muito a sério.
Queriam avançar na carreira musical.
E tivemos uma ideia bestial.
Um sítio para ensaiar sai muito caro.
É difícil de encontrar.
Que tal arranjar um sítio juntos?
Assim, teríamos um sítio onde ensaiar.
E esse sítio tornou-se a Casa do Rock.
Era uma casa toda em pedra.
E éramos a Elizabeth, eu, o Billy e o meu filho, Sean.
Nessa altura, já éramos muito chegados
e começámos a falar sobre compor música.
E adorávamos os Led Zeppelin.
O primeiro álbum deles foi lançado.
Quando o ouvi, pulverizou-me.
Foi como ouvir pela primeira vez a Nona Sinfonia de Beethoven.
Curtíamos Led Zeppelin. Bandas de Heavy-Metal.
Começámos a compor canções
e a ensaiá-las na cave.
Queríamos tocar Heavy-Metal.
Mas eu não sou guitarrista, sou teclista.
Então, tive de tentar perceber como ligar um teclado aos amplificadores.
E ensaiávamos horas e horas,
só a tocar disparates.
Muita distorção, muito fuzz.
Mas, para nós, era ótimo.
Depois transformou-se nos Attila.
Tipo Átila, o Huno. Íamos destruir o mundo com amplificação.
Só queríamos fazer o máximo de barulho possível.
Fomos, provavelmente, uma das piores bandas de sempre.
Conseguimos o primeiro concerto.
Esgotou por ter sido anunciado
"Antigos Hassles".
As pessoas fugiam dos clubes de tão alto e mal que tocávamos.
O único bom era o Billy. O único outro gajo era eu.
Não havia uma pessoa que gostasse da música.
Era muito boa.
Sei que ele detesta, mas eu adorava.
Era mesmo... Rock puro e duro, estão a ver?
Fizemos um vídeo com os Attila
na montanha-russa de Coney Island.
Não faço ideia porque é que os Attila assinaram com a Epic Records.
Na altura, assinavam com toda a gente.
Se o cabelo passasse o colarinho, assinavam.
E nós assinámos.
Não sei que idiota foi responsável por isso.
E marcaram uma sessão fotográfica para a capa do álbum,
com carne pendurada à nossa volta.
Uma vaca inteira pendurada atrás de nós.
Estávamos vestidos de hunos.
E eram roupas do filme Ben-Hur.
Peles e pulseiras de metal.
Cheguei à sessão e disse: "Não."
Era mesmo nojento mas, na altura, rimos de nós como ninguém.
Teve imensa graça, sabem?
E foi uma altura muito divertida,
até deixar de o ser.
A Elizabeth era muito importante para mim, mas eu não era o homem que ela esperava.
Eu e o Jon não encaixávamos.
Éramos muito novos e não sabíamos nada de nada.
E eu fui ficando cada vez mais insatisfeita com a vida.
E depois as coisas complicaram-se.
Eu e o Bill passávamos muito tempo juntos.
Então, conversávamos.
Fazes-me sentir livre
Fazes-me sorrir
Toda uma criança É o que me fazes sentir
Andávamos pela rua, passeávamos de carro e jantávamos.
Quando há alguém com quem temos à-vontade,
que termina as nossas frases
e sabe o que pensamos sem o dizermos,
por vezes, outros sentimentos vão crescendo.
Fazes-me crescer
Fazes-me entender
Abre os meus olhos
Não sabes que os únicos momentos reais
São os que passo contigo?
Partilhámos muitas experiências.
Eu apaixonei-me, e...
Começámos uma relação.
Notei que o Billy andava diferente.
Passava-se alguma coisa.
E, um dia, veio falar comigo.
Foi um pouco honesto e disse-me:
"Estou apaixonado pela tua mulher."
Foi muito devastador para mim
porque, basicamente, eram os meus melhores amigos.
Senti-me muito culpado.
Eles tinham um filho, e senti-me um destruidor de lares.
Só chorava e dizia que se sentia péssimo.
Não sabia o que fazer.
Como é que parte o coração do melhor amigo?
Mas disse que o que sentia era tão forte
que valia a pena perder a nossa amizade.
Apaixonei-me por uma mulher.
E levei um soco no nariz, completamente merecido.
O Jon ficou muito magoado, eu também,
e assim terminou os Attila
e a minha relação com o Jon, durante uns tempos.
A Elizabeth foi-se embora.
Então, saí da Casa do Rock.
Bebi muito.
O Billy entrou numa espécie de coma.
Não comia, não fazia nada.
E estava sempre com ameaças. "Sim, vou matar-me."
Não tinha onde viver. Dormia em lavandarias.
E entrei numa depressão
quase a roçar a psicose.
Senti que já chegava.
Não queria viver mais.
Tenho vivido para o momento
Mas não consigo o que quero...
Sofria muito.
Não via razão em viver.
O amanhã ia ser como o hoje, e o hoje estava a ser uma merda.
Amanhã é hoje...
Então, pensei em acabar com tudo.
Era assistente médica e o Billy foi ao consultório.
Estava na sala de espera e estava muito deprimido.
Disse que não conseguia dormir.
Então, dei-lhe os comprimidos.
Disse-lhe para tomar um ou dois à noite, que conseguiria dormir.
Mas o Billy decidiu tomar todos.
Passou dias e dias em coma.
Fui vê-lo ao hospital,
ele estava deitado, branco como a cal.
Não preciso de ver o amanhã, porque eu...
Senti que o tinha matado.
Foi muito egoísta.
Não pensei nas pessoas, no impacto que teria nelas.
Depois lembro-me de acordar no hospital.
O primeiro pensamento: "Nem isto consigo fazer bem."
"Nem te consegues matar."
Então, pensei: "Vou tentar novamente."
De que vale estar sempre a sonhar...
O Billy continuava deprimido
e estava na casa da minha mãe.
E, desta vez, bebeu um frasco de limpa-móveis.
Da segunda vez, bebeu um líquido de limpeza,
e fui eu que o levei ao hospital.
Embora a nossa amizade tivesse acabado, o Jon salvou-me a vida.
Ele nunca me disse nada.
A única resposta prática para a reação extrema do Billy
foi ele gostar tanto de mim
e ter-lhe custado muito magoar-me.
E, com o tempo, perdoei-o.
Ultrapassei e ficou tudo bem.
Ele pensou que era o fim,
mas, para mim, ele ainda nem tinha começado a viver.
Fui à casa da minha mãe, o que foi uma rendição abjeta para mim.
Só um falhado volta para a casa dos pais.
Não sabia o que se passava.
Naquela altura da minha vida, eu era uma mera alma perdida.
Até que disse: "Chega.
"Preciso de ajuda psiquiátrica."
Então, fui internado para observação.
Lembro-me da porta a fechar-se
e do barulho do trinco quando se fechou.
E pensei: "Caraças. Estou mesmo no manicómio."
E deram-me torazina.
Eu ia ao posto de enfermagem e dizia: "Eu estou bem. Esta gente é toda doida."
"Sim, Sr. Joel. Tome os comprimidos."
Deram-me alta ao fim de duas semanas
e senti-me constrangido.
Aquelas pessoas tinham problemas a sério.
Eu só estava em modo de autocomiseração.
E disse: "Chega.
"Não volto àquele estado de autocomiseração.
Quando me deram alta, corri. Corri pela rua abaixo.
"Ala que se faz tarde."
Nunca olhei para trás.
Saí da unidade de observação e pensei com os meus botões:
"Podes pegar nessas emoções e canalizá-las para a música."
Aqui estou eu
No fim da estrada
O que faço agora?
E consegui arrendar um apartamento em Oyster Bay.
Por pouco nem cabia o piano.
Costumava dormir debaixo dele, por acaso.
Nesse período,
já tinha algumas canções.
Tenho de recomeçar
Mas nem sei por onde começar
Sim, tenho de recomeçar
E está a custar...
Estava a compor canções de um ponto de vista pessoal.
E um tipo que tinha sido manager dos Hassles
decidiu vender as minhas canções.
Acabou por conhecer o Michael Lang,
o promotor do Woodstock, meio hippie.
E tinha uma editora chamada Just Sunshine.
O Michael Lang tinha um ótimo olho para novos talentos.
E disse: "Isto é uma demo de um miúdo com quem penso assinar.
"Se gostares dele,
"ponho-te em estúdio e podes produzir o álbum."
Na altura, eu era baterista dos Wings,
com o Paul McCartney, e um produtor recente.
E quando ouvi as demos do Billy,
ia caindo da cadeira.
Disse: "Isto é muito especial."
Como lamento por te incomodar
Agora sei porque me devo esconder...
A paixão na voz dele matou-me.
Não vi o que estavas a passar
Só consegui ver o meu lado...
Sobretudo depois de ouvir as letras.
São de partir o coração.
Assinei com a Just Sunshine como artista a solo.
Nem podia acreditar na minha sorte.
Mas foi assim que começou o projeto do álbum Cold Spring Harbor.
A música do Billy era diferente de tudo o que estava a sair.
Ele tocava piano como um pianista clássico.
O Billy tocava piano de uma forma única e espantosa.
E podes fazer o que quiseres
Agora que és adorada...
Comecei a fazer o álbum em Nova Iorque.
Nessa altura, trocaram-me para outra discográfica.
O Michael conhecia um tipo, o Artie Ripp, na Costa Oeste.
O Artie tinha um artista, Velvert Turner, uma espécie de Jimi Hendrix.
E como o Michael o queria na discográfica,
houve como que uma troca.
Como no basebol. Fui trocado para a Costa Oeste.
O Michael mostrou-me uma cassete.
Disse: "Este tipo chama-se Billy Joel."
Respondi: "Bem, é incrível!"
Perguntei: "Onde está ele?" Respondeu: "Está na fossa.
"Não sabemos porque ninguém acredita
"ou valoriza a genialidade do Billy."
Eu: "Ainda bem que ninguém entende.
"Ainda bem que acabaste comigo no fundo do fosso.
"Vamos subir juntos."
Em 1971,
trabalhei com o Artie na Family Records.
O Billy veio a Los Angeles gravar o Cold Spring Harbor
nos estúdios da Record Plant.
O Artie Ripp ligou e disse:
"Tenho um puto de Long Island para lançar
"com um álbum."
E disse: "Quero que toques bateria no álbum."
Juntámo-nos no Estúdio A da Record Plant.
"Vamos pegar nos instrumentos e tocar."
Está a gravar.
Primeira canção: Turn Around.
O Billy já tinha bom material.
Não havia muito para ajustar.
Bastava dar o nosso contributo.
Vira-te
E eu canto-te uma canção
Quando gravaram
o Cold Spring Harbor, tudo o que ouvi partiu-me o coração.
Pensei que faria sempre parte.
Eu sentia que devia estar lá.
Foi mesmo muito difícil.
E o Cold Spring Harbor tinha muitas canções sobre isso.
Via-se a emoção do artista manifestar-se.
Há qualquer coisa nela
Não sei bem o quê
Só sei que sem ela não consigo viver
Mas eram mesmo canções poéticas.
E sentia-se pela letra que ele amava mesmo a Elizabeth.
... sem um som, ela toca-me
E eu sou virado
Ele estava tão triste por a Elizabeth o ter deixado
que passou tudo para a música.
Ela tem um sorriso que me cura
Não sei dizer porquê
Mas rio-me sempre que me depura
Aquele miúdo devastado compôs um álbum lindo.
Saiu-lhe da alma.
A vida faz coisas por nós que por vezes nós não conseguimos.
Mas sei que sem ela não consigo viver
- Preparado? - Sim.
Estava no estúdio a gravar as minhas canções,
com o Artie a produzir,
e ele dizia: "Canta outra vez. Outra. Canta mais uma vez."
Outra vez.
Outra vez.
Vá, outra vez. Vamos lá.
Acho que vi logo que ele não sabia o que fazia.
Ao fim de três ou quatro vezes, comecei a odiar aquilo.
Tu consegues melhor. Repete.
Foi ridículo o número de vezes que obrigou o Billy a repetir.
Estamos a gravar. E vão dez.
Pronto.
O Billy era um jovem pacato naquela época.
Não contrariou o Artie.
Foi o que saquei.
- A voz está péssima. - Eu sei.
Trabalhar com ele parecia arrancar dentes. Não era divertido.
Eu não sabia como devia ser.
Só ouvia histórias malucas,
como se todos na música fossem doidos, e era o que me parecia.
E a vida foi assim alguns meses.
AEROPORTO DE LOS ANGELES
Quando acabámos de gravar todas as faixas,
o Billy voltou para Nova Iorque,
e o Artie... ficou com rédea solta.
As canções em si eram fabulosas,
mas ele entrou no estúdio
com essas canções e elas ficaram corrompidas.
Na altura,
alguns dos singles eram formatados numa faixa de 2:30 minutos para a rádio.
Na máquina de cassetes, é possível oscilar e acelerar um pouco.
Parece que, na masterização,
não voltaram a pôr a faixa do álbum à velocidade normal.
Quando me sentei pela primeira vez e ouvi o produto final,
disse: "Algo não está bem."
Ficou estragada e a minha voz parecia a de um esquilo.
Foi tão humilhante que peguei no disco que me deram
e atirei-o como um disco para a rua.
Era o que achava que valia: lixo.
Sinto-me muito alienado do processo.
Sinto-me muito distante
porque foi uma experiência muito desagradável.
Mas foi por volta daquela altura que comecei a voltar para a Elizabeth.
Ele dava cassetes
à minha irmã para ela me dar.
Ouvir aquelas canções foi avassalador.
Ela tem qualquer coisa...
Era espantoso ele conseguir algo assim.
Mas eu sei Que sem ela não consigo viver...
Por isso, teve um impacto.
Foi... sim.
Não sei o que é...
Devo ter passado perto de um ano sem ela por perto.
E, de repente, voltou para a minha vida.
Ela tem um sorriso que me cura
Então, eu e a Elizabeth arrendámos uma casa
com parte do dinheiro que o Artie Ripp me dava todos os meses.
Rimos e divertimo-nos, como sempre.
Mas as nossas vidas giravam em torno da música dele
e do que ele queria fazer.
Na altura, devia estar em digressão, a promover o álbum.
Nem sabia o que isso significava.
Diziam: "Toca ali." E eu ia e tocava.
Tocava em clubes, espetáculos ou convenções.
Onde me agendassem.
Tocámos no Troubadour,
o epicentro musical de Los Angeles naquela época.
Boa noite. Olá, olá.
Muita gente pela primeira vez?
Chama-se Everybody Loves You Know.
O público foi brutal.
Depois disso, tivemos imensa atenção.
Era isto que querias? Não estás orgulhosa?
Porque agora és adorada
O álbum Cold Spring Harbor
estava a receber boas críticas,
mas os fãs diziam-nos
que não conseguiam comprar o álbum porque não estava nas lojas.
Os fãs, entusiasmados, não podiam comprar o álbum.
Isso fazia parte.
Portanto, faltava a distribuição.
Passei mais de um ano em digressão,
só a viver de sanduíches doces,
a tentar promover este disco para esta produtora,
e percebi que estava a ser comido.
O Artie Ripp devia a enviar-me um cheque todos os meses,
falhou, não paguei a renda
e acabámos corridos da casa.
Ao fim de meses e meses de digressão, a tocar e a atuar,
ninguém foi pago.
Eu não recebi, não consegui pagar à banda.
Não havia um tostão.
No meu primeiro contrato,
abdiquei da edição, dos direitos de autor,
dos direitos de gravação.
Tudo menos o meu primogénito. Abdiquei de tudo.
E isso era normal no mundo da música naqueles tempos.
Era muito duro.
Eu disse que era ridículo.
Para irmos para a Califórnia. Talvez arranjasse uma solução.
Lembro-me de corrermos o país
até à Califórnia, creio que em 1972.
E lembro-me que a minha mãe tinha uma carrinha Datsun
para o trajeto de 5000 Km.
A minha vida, até então, não tinha tido muita estabilidade,
mas, para mim, era uma aventura.
Ia numa aventura com a minha mãe e o Billy.
Éramos novos, queríamos aventuras
e o Bill estava a oferecer-me algo que era completamente diferente.
E eu pensei: "Então, a opção é entre ficar aqui,
"continuar a estudar, a trabalhar e a cuidar do Sean,
"ou ir para a Califórnia com o meu namorado."
E agora ela vai para a Califórnia
E não sabe o que aí vem Mas está certa do que deixa para trás
Atravessámos o país.
Pude ver uma boa parte dos EUA que nunca tinha visto,
tão diferente da minha origem.
Era totalmente desconhecido.
A nossa viagem foi um bocado assustadora.
Só pensava: "Está a acontecer?
"Estarei a fazer a coisa certa?"
E ouvir a canção Stop in Nevada
foi assombroso.
Parecia uma consciência.
Embora lhe custe deixá-lo
Ela sabe que seria pior ficar
Chegámos à Califórnia
e tentámos perceber como podíamos ganhar a vida
e apalpar o terreno.
Havia algum dinheiro, mas pouco.
Estávamos apertados.
Era muito chapa ganha, chapa gasta.
Ficámos num hotel e não sabíamos onde íamos viver.
Não tínhamos perspetivas.
Isso preocupava-me.
Quando me olhas nos olhos
E vês o nómada louco na minha alma
Era Dia dos Namorados.
Como não tínhamos dinheiro, não lhe pude comprar uma prenda.
A prenda foi a canção.
Nunca tive um lugar Que pudesse chamar de meu
Mas não faz mal, meu amor Porque o meu lar és tu
Queria que ela soubesse. "És o meu lar."
"Onde estiveres, está a nossa casa, o nosso lar."
E dizes-me que tudo vai correr bem
Quando ouço estas músicas, não ouço o que todos os outros ouvem.
Sinto o que sentia na altura.
Vejo o feixe de luz
a entrar pela janela e a refletir-se no cabelo do Billy.
Ouço o Sean a tocar ao fundo.
É isso que ouço.
Sempre que estamos juntos É esse o meu lar...
O Bill não teve aliados até à Elizabeth.
A partir daí, tornou-se eles os dois contra o mundo.
O orvalho matinal de Indiana
Lá, no alto das colinas da Califórnia
"Lar" é apenas outra palavra para ti
Decidi arranjar um advogado, um contabilista
e sair do acordo com o Artie Ripp.
Ia cortar com o Artie Ripp.
Se não queria negociar, não ia receber nada de mim.
Nem música, nem promoção, nada.
Era a única forma de pressão que tinha.
Decidiram não tirar dinheiro ao Artie
e entraram em greve.
Tive de arranjar um apartamento, um emprego.
Comecei a sondar diferentes clubes
onde um pianista pudesse tocar.
Claro que o Bill não podia trabalhar como Billy Joel.
Então, arranjou emprego num sítio chamado Executive Room.
Precisei de um álibi para trabalhar.
O meu nome é William Martin Joel, pelo que era Bill Martin nos teclados.
Era um bar local pequeno
e tinha um piano com uma borda de couro sintético
para a malta se encostar enquanto bebiam.
E eu dei um espetáculo.
Boa noite É muito bom ver-vos
Todo pintas, de camisa aberta até aqui.
"Como vão?" E o mais giro...
Isto em Hollywood.
Vinham e diziam:
"Puto, és incrível. Posso arranjar-te umas gravações."
E eu: "Não, obrigado. Só quero estar aqui. É brutal."
Eu sabia que era uma experiência de vida.
E pensei: "Tenho de fazer uma canção disto."
A próxima é uma história verídica.
Chama-se Piano Man.
E foi como nasceu a Piano Man.
Eu gostei do som, mas disseram que era estranha.
Foi escrita num compasso 6 por 8, como uma valsa.
Era um andamento muito estranho,
mas a melodia sempre foi central para mim.
São 9 da noite de um sábado
O público habitual começa a entrar
Há um velhote sentado a meu lado
E de um gin tónico está a desfrutar
A Piano Man não é bem uma narrativa pessoal.
Ele é como um pintor de ambientes e, na canção,
descreve mais o cenário
do que propriamente ele.
Ele diz: "Filho, tocas-me uma memória?"
"Não sei bem a letra
"Triste e doce sei que é Sabia-a de cor, até
"Quando era jovem..."
Depois ouvíamos a harmónica.
Ninguém toca harmónica num piano bar.
Não é para um bar desses.
Parece uma cantiga do mar.
Canta-nos uma canção, homem do piano
Canta-nos uma canção esta noite
Todos queremos ouvir uma melodia
E fizeste-nos sentir bem
A Piano Man é como uma apresentação do Billy,
mas a sua profundidade é algo que passa despercebido.
Está tão enraizada na cultura que é difícil ouvir como se fosse nova,
mas se pararmos
para a ouvir a sério,
contém uma espécie de empatia.
O John do bar é meu amigo
Traz-me bebidas...
Todas aquelas personagens
falam de sonhos que tinham e não foram realizados.
Mas há um sítio onde ele preferia estar
É bastante comovente.
Ele diz: "Bill, acho que isto me está a matar"
Com o sorriso a fugir-lhe da cara
Piano Man é um espelho virado para outro espelho.
Podemos ver reflexos infinitos.
É um músico a falar de outro músico que nos fala da vida de outras pessoas.
Há muita emoção envolvida pelo interesse pelas histórias.
Pelo interesse pelas pessoas envolvidas.
E é assim que isto dura e dura.
Paul é hoje um romancista imobiliário
Nunca teve tempo para uma mulher
E com Davy vai falando Que pela Marinha vai ficando
E onde provavelmente sempre ficará
É baseado em pessoas reais.
E a Elizabeth arranjou trabalho a servir às mesas naquele bar.
A canção diz: "A empregada está a dar à língua."
A empregada era ela.
E a empregada está a dar à língua
Enquanto os homens de negócios Vão ficando pedrados
Partilham uma bebida chamada solidão
Mas é melhor...
O Bill consegue pegar numa parte ínfima de algo
e criar uma história universal.
E ele chegava à essência da experiência humana.
É por isso que aquela canção
é como o hino do comum mortal.
Canta-nos uma canção, homem do piano
No início da carreira, quando tocamos em bares,
a única coisa que queremos é que todos estejam em sintonia.
São canções para acompanhar, mas digo-vos,
não há um público
que não queira ouvir a Piano Man.
Quando a Piano Man começa, o mundo para.
E é isso que fazemos durante 5 minutos e 50 segundos.
Em todas as idades,
não importa quando ouviram ou o que curtiam, todos cantam.
Nunca me imaginei preso a algo, mas tornou-se a minha marca pessoal.
Dei alguns concertos em que não tocámos a canção.
E fui muito criticado. "Nem tocou a Piano Man!"
"Peço desculpa. Pronto, lá terá de ser."
Por isso, é obrigatória.
Por outro lado, podia ser pior.
Obrigado!
Mais uma!
Foi no Executive Room que nos conseguimos sustentar,
enquanto resolvíamos as questões contratuais.
Mas, a dada altura,
pudemos ir para Malibu, para o cimo de uma montanha.
Fomos para Nova Iorque trabalhar para a Atlantic Records.
A casa estava vazia. Era uma casa rústica e adorável.
Estávamos no cimo do desfiladeiro
e tínhamos um piano de cauda pequeno mesmo junto à janela.
Vivemos uma vida idílica nas montanhas de Malibu.
Acabámos numa situação fantástica.
Foram uns anos incríveis.
E, durante esse tempo,
a minha mãe, que sempre me apoiou em tudo o que fiz,
disse que estava na hora de eu voltar.
Mas eu sabia
que, se fôssemos casados,
não precisaria de voltar.
Em 1973, a Elizabeth disse:
"Vamos casar hoje."
Eu: "Vamos?" Ela: "Sim.
"Senão, vou-me embora."
Fomos à Conservatória de Malibu.
Foi uma cerimónia rápida.
"Declaro-vos marido e mulher." Tau.
Eu tinha algum receio de casar.
Percebi que estava no início de uma carreira de rock 'n' roll.
Ia andar muito na estrada, em digressão, a compor e a gravar.
Ia fazer muita coisa incompatível com uma vida doméstica.
Daí os meus receios.
Não era por não amar a mulher com quem estava.
Só tinha receio.
E com razão.
Foram muitas emoções ao mesmo tempo.
Mas entendi que seria bom para mim.
Porque, na altura, nós só fazíamos música.
Tudo era música.
Vivia num belo chalé
onde compunha sem parar.
Foi naquela casa em Malibu
que recebemos a primeira chamada do Clive Davis.
Clive Davis, que assinou com Janis Joplin, Santana, Chicago, Blood, Sweat & Tears
e Neil Diamond...
Nunca me vou esquecer. É daquelas coisas que não se esquece.
"Daqui fala da Columbia Records."
"Deve ser! Quem fala?" Sabem?
Mas era mesmo.
Mais ou menos um ano antes de irmos para a Califórnia,
andei em digressão.
Demos um concerto promocional em Filadélfia,
numa estação de rádio.
Olá, sou o Ed Sciaky e dou as boas-vindas a todos aqui
e a todos em casa ao concerto ao vivo da WMMR.
Seja bem-vindo, Billy Joel.
E toquei a Captain Jack, que era uma canção nova.
Sábado à noite E ainda por aí a cirandar
Já farto de viver Num sítio sem nada para dar...
A estação gravou-a
e repetiu-a por haver pedidos
dos ouvintes.
"Passem a canção sobre o Capitão Jack."
Foi a canção mais pedida na história daquela estação.
Eu não sabia que estava a passar na rádio.
E a malta da promoção local informou a Columbia Records.
"Há malta a pedir esta canção de um tal de Billy Joel.
"Ninguém sabe quem é, nem onde está."
O Capitão Jack vai fazer-te voar
E até à tua ilha te vai levar
Fiquei a conhecer o Billy Joel
numa gravação que ele fez da Captain Jack
que despertou o meu interesse.
E eu disse às pessoas
que adorava conhecê-lo, adorava vê-lo atuar
e adorava ouvir
o resto do material.
Reuni-me com o Clive
no bungalow dele no Hotel Beverly Hills,
todo um luxo.
"Olha para isto!"
E o Clive mostrou interesse em assinar comigo com a Columbia Records.
Eu tinha ouvido dizer que a Atlantic também estava interessada.
Era uma situação agradável.
Antes, ninguém me queria.
De repente, tinha as maiores do mundo a querer assinar comigo.
E optei pela Columbia por ser a editora do Bob Dylan.
O Bob Dylan não era conhecido por vender muitos discos,
mas era o Bob Dylan.
E eu pensei: "Bom!
"Se é uma editora que continua a lançar discos
"de um tipo que não vende êxitos,
"mas continua dedicada a ele, bom,
"quero uma carreira assim."
Então, optei pela Columbia.
Vamos à segunda.
No dia em que assinei,
lembro-me de me reunir com o diretor da Columbia Records
e tocar alguns originais.
Quando abordava os artistas que assinava,
não dizia que iam ser estrelas.
Perguntava se havia talento original suficiente.
Se havia capacidade inata suficiente.
Se havia um toque de génio, na melhor das hipóteses.
O último artista que assinei
foi um artista que penso que vai ter um sucesso enorme.
Refiro-me a Billy Joel. Tem um talento maravilhoso.
O nível do material era extremamente elevado
e o carisma dele,
o nível de energia, era extraordinário.
Quanto a Piano Man, não percebi a ideia do álbum.
Sei que tinha todo o tipo de material díspar.
Uma série de influências diferentes.
Um pouco de country, western, até mesmo de bluegrass, valsa.
Acho que a linha transversal do álbum era o Oeste.
Para mim, era tudo novo, o faroeste.
Não sabia se ia ser um êxito, ou não.
O Billy tinha várias influências interessantes.
Descobriu uma forma de não se prender a um género,
embora isso o tornasse mais aceitável
para os críticos.
O Billy tinha várias influências
totalmente fora do rock 'n' roll,
que assustaram alguns críticos e certas pessoas,
que não percebiam, vá,
o que ele fazia ao certo, percebem?
Então, no início da carreira, ele foi mal interpretado,
o que é uma pena,
porque desvalorizaram alguns dos seus melhores trabalhos.
Foram precisos uns seis meses para o disco começar a ser tocado.
Teve de ser trabalhado. E, depois, foi uma loucura.
O álbum Piano Man foi um êxito.
Mas a parte do contrato com o Artie
estava a tornar-se um problema terrível.
Após a Columbia ler o contrato de fio a pavio
e ver que não havia forma de o violar,
perceberam que tinham de lidar comigo.
Tivesse eu palavras para te dizer
E tivesses tu tempo para compreender...
O Artie recebeu 25 cêntimos por cada álbum vendido
nos primeiros dez anos do Billy na Columbia Records.
Ficou com direitos de edição e até com os direitos de autor.
Na altura, não sabia do que tinha abdicado.
Mas, sendo justo,
a única pessoa que acreditou em mim, no início, foi o Artie Ripp.
Ele investiu em mim... ou melhor, nele.
Não foi um bom acordo, mas foi um acordo.
Foi um ótimo investimento do Artie,
mas o Bill só ganhou 7768 dólares com o Piano Man.
O resto do dinheiro foi para outro.
Então, o Bill trabalhou, fez mais umas digressões
e melhorou os concertos,
mas não mudou muito as nossas vidas
por não ganharmos.
Mas só tenho estes braços para te abraçar
E é tudo o que se pode pedir a um homem
No final da digressão, que durou um ano,
disseram-me que tinha de lançar outro álbum.
No álbum Streetlife,
segui a escola de composição do Jackson Browne,
uma abordagem confessional mais suave
com um toque de música Country.
E devia ser divertido
Mas a arma devia ter trazido
Para aquele velho confronto suburbano...
Quando ouço a Streetlife Serenade,
claro que a influência do som da Califórnia
é evidente.
Nos anos 60 e início dos anos 70,
a Califórnia era todo um mito.
Foi um sítio onde emergiu muita gente.
Havia artistas como Joni Mitchell, Cat Stevens,
James Taylor.
Era um sítio muito aberto e maravilhoso.
Mas o Billy destoava. Não fazia parte daquele grupo.
De certeza que o irritava lançar discos com bom som
a não ser vistos da mesma forma que os outros.
Talvez ele fosse demasiado Pop.
Insuficientemente temperamentais e autorreferenciais.
Talvez fosse muito Nova Iorque.
A malta de Los Angeles
Vem toda de algum lado
Para viver ao sol
Imagino-o a sentir-se terrivelmente deslocado.
A atitude dele
não me parece muito californiana.
Com aquela mentalidade branda,
estilo "vamos ser todos amiguinhos".
É uma energia muito pouco Billy Joel.
Ao sol em praias bacanas Com ganzas mexicanas
Ninguém precisa de se sentir um refugiado
Ir para garagens Para receber massagens
A compensar todo o tempo passado...
O álbum Streetlife foi escrito e gravado à pressa.
E havia toda uma pressão.
Era do género: "É bom que arranjes um êxito."
A canção The Entertainer era basicamente autobiográfica,
sobre o lançamento do Piano Man.
Naquela altura, o número mágico para um single
era três minutos.
A canção original era bem mais longa e eles disseram: "Temos de a editar."
E eu: "Como assim?"
Era muito sensível a isso.
"Não cortem a minha canção."
Estava a ficar desencantado com a indústria da música
e acho que The Entertainer foi a minha forma de reclamar.
Sou o artista E sei bem o meu lugar
Sou só mais um trovador Numa banda gadelhuda a tocar
Hoje posso ser um campeão
E ter-vos conquistado o coração
Já se está a ver O meu nome vão esquecer
E para o ano já cá não estarei
Se não vingar com uma canção...
The Entertainer caiu muito mal
a muitas pessoas do mundo da música
porque só pensaram:
"Eu aqui a dar o litro todos os dias, a tentar passar os teus discos na rádio,
"e tu dizes estas coisas sobre mim?"
E deixaram de trabalhar com ele
de tão zangados que ficaram
por estarem a dar o seu melhor
e receberem isso em troca.
Sou o artista
As minhas canções venho apresentar
Gostava de ficar um ou dois dias
Mas não vai dar
Não, tenho as minhas despesas
Tenho de me manter na linha
Tenho as taxas das agências
E adorava ficar Mas tenho contas...
A Piano Man era sobre um homem
a queixar-se de tocar num bar,
e a continuação é outro a queixar-se de ter sucesso no mundo da música.
É do género: "Estou bem.
"Deixa-me cá sabotar isto."
Foram anos a compor
Os melhores da minha vida
Era uma canção linda, mas longa
Fazer um sucesso É todo um processo
Então, reduziram-na a 3:05...
Streetlife foi um fracasso.
A Columbia Records ficou muito desapontada.
Queriam um êxito.
O que todos tentavam fazer, em Laurel Canyon ou Greenwich Village,
era tentar descobrir quem eram.
E isso implica abandonar o ninho e ir para outro sítio.
Mas descobrimos algo sobre o sítio de onde vimos.
E o Billy vem de Nova Iorque.
Ele era um artista dos subúrbios.
Tal como eu me considero.
Mantivemo-nos fiéis às nossas origens nas nossas canções.
Mas fizemo-las com ferramentas ligeiramente diferentes.
Eu identifico-me mais com Nova Jérsia,
pelo que o meu estilo talvez esteja mais entre o folk e o rock 'n' roll.
O Bill continua a identificar-se mais com NY.
Ele teve toda uma Broadway e Tin Pan Alley.
É por isso que as melodias dele superam as minhas.
O Billy é capaz de entrar com uma melodia
e fazer com que pareça que a inventou ao entrar,
mas eu sei que não a inventou.
As melodias dele são complexas. Não sei como é que ele consegue.
Sempre achei esse o ponto forte do Billy.
Quando ouvimos o Billy, ouvimos muito do cancioneiro americano.
As influências são profundas.
Diria que encontrou a voz dele,
mas não era uma voz californiana.
Foi uma fase interessante.
As coisas estavam a mudar.
Então, decidi regressar a Nova Iorque
e fazer um álbum mais rock 'n' roll.
Diz adeus a Hollywood
Diz adeus, meu amor
Fiz o regresso de autocarro para Highland Falls, Nova Iorque.
A Elizabeth arranjou uma casa para nós junto ao Hudson,
era outono.
Era lindo.
As cores incandescentes, as árvores douradas e vermelhas.
E pensei:
"Este é o estado de Nova Iorque que eu adorava em miúdo.
"Isto é magia. Não há disto na Califórnia."
E compus no autocarro um tributo a Nova Iorque.
Uns gostam de escapadinhas
De fugir do bairro habitual
De apanhar um voo até Miami Beach Ou Hollywood
Já eu sigo de autocarro Ao lado do Hudson
Estou num espírito à Nova Iorque...
"Uns gostam de escapadinhas, de fugir ao bairro habitual.
"Estou num espírito à Nova Iorque".
Mal voltei e vi a minha mulher, perguntei: "Temos algum piano?"
"Sim. Lá em cima."
"Vou lá num instante."
Fui a correr e compus a canção
provavelmente numa hora.
Saiu-me.
Sei do que preciso E não quero perder mais tempo
Estou num espírito à Nova Iorque
Foi uma expressão que ficou.
Era algo que o meu pai e os amigos diziam constantemente
e eu achava-a a expressão mais genial e sofisticada.
Distante do rhythm and blues...
Independentemente de quem sejamos, da raça, da etnia,
da religião,
Nova Iorque é a religião.
Eis uma música para ti.
É suave, elegante
e é o hino de Nova Iorque.
Tudo se resume à realidade
E por mim tudo bem, deixei de lutar
Tanto faz se é Chinatown
Ou Riverside, não, não
Já não sei por que razão...
O Billy era fã de Sinatra
e era fã de Tony Bennett
e acho que queria uma canção
que fosse uma homenagem a esse estilo.
Mas acabou por compor uma canção
que perdurou durante décadas.
Eu vou de autocarro
Ao lado do Hudson
Cresci em Nova Iorque. Sou nova-iorquino.
Falo à nova-iorquino.
A música que aprecio é toda baseada em Nova Iorque.
É a minha terra, as minhas raízes.
Dizem que não são os melhores tempos
Mas são os únicos que conheço
Em 1949, os meus pais viviam num apartamento arrendado no Bronx.
Foram para Long Island quando eu tinha um ano
e foi lá que cresci.
A minha mãe adorava Long Island.
Nascida em Brooklyn, via em Long Island uma diversão enorme,
uma praia com 200 km de extensão.
E levava-nos sempre à praia.
É daí que vem a minha paixão pelos barcos.
Era uma experiência mítica.
Todos no meu bairro eram católicos, protestantes, brancos.
Nós éramos judeus.
Por isso, foi estranho crescer lá.
E logo às portas de Nova Iorque, a cidade mais multicultural.
E eu em Hicksville.
Mais valia estar no Kansas ou coisa parecida.
A minha mãe cresceu numa família a cantar operetas de Gilbert e Sullivan.
Conheceu o meu pai numa produção de O Mikado.
Ele era pianista, ajudava o maestro,
e foi assim que se conheceram.
A minha mãe punha a tocar música clássica, espetáculos da Broadway,
Gilbert e Sullivan, jazz.
Por isso, a música já me encantava antes mesmo de saber tocar piano.
E foi a minha mãe que me incentivou
a ter aulas de piano clássico.
Quando comecei as aulas, eu não queria ler as pautas.
Parecia um TPC.
Pensei: "Quero ser eu a inventar."
Mas a minha mãe conhecia Beethoven.
Conhecia Mozart e Bach.
Tive de inventar coisas com sons de Bach, Mozard e Beethoven.
Caso contrário, ela dizia que não soava a Bach.
E assim sucessivamente.
E a minha mãe dizia: "Estás a aprender muito depressa."
Eu: "Sim, gosto desta. É bastante fácil."
No dia seguinte, quando voltava a praticar,
esquecia-me do que tinha e tinha de inventar outra coisa.
Ela: "Que é isso?" E eu: "É o segundo andamento."
Comecei a ganhar ouvido.
Comecei a compor música. Foi quando comecei a compor a sério.
A professora vivia ao fundo do meu quarteirão.
Também dava aulas de ballet.
E havia uns tipos no bairro
que me costumavam gozar.
"Billy, onde está o teu tutu?"
Tiravam-me os livros e batiam-me.
Comecei a praticar boxe para aprender a proteger-me
porque me batiam e estava farto.
Nunca me senti bem com o resto do mundo.
Sentia-me um estranho, digamos.
Ele não gostava muito da escola.
Ele vestia-se,
esperava que a minha mãe tirasse o carro e fosse trabalhar
e depois voltava para casa.
Depois ia para o meu armário
com livros, uma almofada e uma lanterna.
Tinha pilhas de livros por todo o lado.
Quase que partíamos o pescoço a entrar no quarto.
Ele lia tudo o que lhe aparecia à frente,
mas adorava História.
Era um leitor ávido
e estava sempre a tocar piano.
O meu pai era pianista.
Havia um piano em casa, um antigo que não era grande coisa,
mas o meu pai fazia-o soar bem devido à maneira como o tocava.
Era um pianista maravilhoso, mas nunca me ensinou nada.
O meu pai, Howard,
nunca mostrou ao Bill bondade, compaixão
e compreensão pelo seu talento.
Ele não o via.
E para o Howard, a música clássica tinha regras firmes.
Tal como Beethoven compunha, vá.
Lembro-me de, certa vez,
ter de tocar a Sonata ao Luar.
Eu devia ter uns oito anos,
e na altura já se ouvia rock 'n' roll.
Comecei a tocar e em vez de tocar...
Comecei a tocar...
Ele desceu as escadas.
Tau! Levei uma traulitada.
E a traulitada foi tal
que perdi os sentidos.
Apaguei-me talvez um minuto.
Lembro-me de acordar a pensar: "Bem, consegui a atenção dele."
É disso que me lembro das aulas de piano dele.
Portanto, não me ensinou grande coisa.
Não me lembro de ver os meus pais juntos a divertirem-se.
Vi coisas menos boas deles em pequeno.
Havia muita tensão entre eles.
Nos anos 50, tinha eu uns 8 anos, ele saiu de casa quando se divorciaram
e eu e a minha irmã ficámos aliviados com o divórcio,
porque ia deixar de haver discussões ou coisas assustadoras.
Acabei por ser criado pela minha mãe. Não sabia muito sobre ele.
A partida do Howard trouxe alívio por a minha mãe se sentir mais livre,
mas também mais stress
por ela ter de trabalhar muito para conseguir sustentar a família.
A Judy era a minha melhor amiga.
Eu passava lá a vida.
Podia entrar sempre que quisesse.
Mas instalou-se uma depressão após a partida do Howard.
A Roz era uma mãe jovem,
e, de repente, viu-se a braços com dois filhos.
E não foi fácil.
Ela não tinha mais do que o ensino secundário
e preocupava-se com o dinheiro.
A minha mãe era muito carinhosa.
Fui rodeado de amor, quase sufocado por ele.
Talvez para tentar compensar pela falta de amor do meu pai.
Mas ela também tinha coisas preocupantes.
Isolava-se muito.
Passava muito tempo sozinha e acho que bebia para atenuar a solidão.
Via a mãe a beber muitas vezes.
E dizíamos: "Não comeces. Já sabes como ficas."
E ela ficava a chorar e a gritar durante horas a fio.
Não foi fácil crescer naquela casa.
Nunca sabiam se a mãe que deixavam para ir à escola
seria a mesma quando regressassem.
Sabíamos que havia algo de errado, que devia ser bipolar.
Só não sabíamos o nome.
Naquela época,
não havia muita medicação, entendem?
Quando se sofre uma depressão,
isso afeta o nosso estado mental, físico, tudo.
E claro que isso afetou as crianças.
Acho que as afetou profundamente.
Profundamente.
Não havia paz.
Sabíamos que tínhamos de andar em pezinhos de lã.
Qualquer coisa era uma razão.
Umas vezes, passava-me com ela e era muito difícil viver com ela.
Outras, era muito carinhosa e chegou a salvar-me a vida.
Por isso... é uma dicotomia. Sim.
Sentíamos a dor e a preocupação um do outro
e íamos buscar forças um ao outro.
Éramos muito próximos. Tínhamos de ser.
Éramos uma espécie de párias.
Éramos a família divorciada do bairro.
Não tínhamos um carro novo, um pai.
Éramos os judeus. Não tínhamos papel. Por vezes, nem comida.
Passámos algumas dificuldades.
Philip Nyman era o meu avô materno, o pai da minha mãe.
Era inglês.
Vestia-se na perfeição.
Era sempre o cavalheiro inglês perfeito.
Foi a figura masculina dominante na minha vida.
Era genial e foi uma grande influência.
E fazia-me sempre perguntas sobre música clássica.
Levava-nos à Academia de Música de Brooklyn
e entrávamos à socapa porque dava tabaco ao porteiro.
Nunca tinha dinheiro.
O Billy chegava a casa, contava-nos tudo,
e depois sentava-se no seu piano frágil
e tocava para nós o que ouvira na íntegra.
Em criança, não sabia muito sobre música,
mas sabia que ele estava a tocar o que tinha ouvido,
o que para mim era extraordinário.
O piano era uma extensão do Billy
e acho que era assim que ele também lidava com a Roz,
com as variações de humor dela.
Mas ela sempre deu o seu melhor.
Sempre quis o melhor para os filhos.
E por muito pobres que fôssemos, ou por muito que tivesse de trabalhar,
a mãe sabia que o Billy tinha de ter aulas de piano,
que tinha de ser desenvolvido.
Ela sabia que ele ia ser importante, um dia.
A minha mãe apoiava-me.
Dizia: "Tudo o que te propuseres a fazer, consegues."
E sou-lhe muito grato pelo apoio que me deu.
Ela nunca desistiu.
Ela... acreditava em mim.
Decidi naquela fase que ia ser músico.
Foi no último ano do liceu.
Não o acabei. Mandei tudo ao ar.
E a minha mãe ficou preocupada.
Ela temia que eu não arranjasse um emprego se não acabasse o liceu.
Queria pelo menos o diploma, para poder ir para a universidade.
Mas eu já tinha descartado a hipótese.
Eu disse: "Não quero a universidade."
Lembro-me de lhe dizer: "Não quero a Universidade de Columbia.
"Quero a Columbia Records.
"E, lá, não é preciso nenhum diploma do liceu."
Depois do Streetlife Serenade, o Bill precisou de um manager.
Por isso, perguntámos à Columbia quais eram os managers favoritos.
E um dos nomes que nos deram
foi a Caribou Management.
E o Jim Guercio fazia parte da empresa.
Era um produtor famoso pelos Chicago, os Beach Boys
e ia produzir o próximo álbum.
A primeira coisa que me pediu, foi:
"Bom, és um pianista.
"Seria porreiro trabalhares com a banda do Elton."
Eu achei uma péssima ideia.
Porque haveria de querer trabalhar com a banda de outro pianista conhecido?
Era uma falta de imaginação atroz.
E já estava seriamente chateado por me compararem com o Elton.
Eu não toco da mesma forma.
O estilo do Elton é muito rítmico, percebe?
Tipo...
E o meu estilo é mais...
É mais à força dos cinco dedos.
Tem mais movimento.
As pessoas demoraram algum tempo a deixar de me comparar ao Elton John.
Acho que já pararam.
Espero que sim. Por favor!
Quem conhece o Billy Joel
sabe que a última coisa que queria era fazer um disco à Elton John
e o artista de que queria mais distância era o Elton John.
Mas depois ele vai ao estúdio com a banda do Elton John,
e é horrível.
Eram bons músicos, mas estavam noutra onda.
Soava ao Elton. Eu disse: "Quero que soe a mim."
Fui-me embora e disse: "Não vai dar. Quero um som só meu.
"E o Jimmy Guercio não vai ser o produtor."
Eu queria juntar um grupo de músicos nova-iorquinos,
com vivências nova-iorquinas, porque era aquilo que eu tinha.
O primeiro membro dessa banda foi o Doug Stegmeyer, o baixista,
que foi quem realmente juntou os outros.
E ele recomendou-me trabalhar com o baterista, o Liberty DeVitto.
Eu não queria uma bateria certinha. Queria uma bateria agressiva.
Depois veio o Richie Cannata.
E o Russell juntou-se. E também eram de Long Island.
Esse foi o núcleo durante algum tempo.
Fui para o estúdio com os meus músicos
e gravámos o Turnstiles.
E decidi ser eu a produzi-lo, sem perceber patavina de produção.
Mas eu queria rock 'n' roll.
Queria o volume a que tocávamos ao vivo.
Queria isso numa gravação.
Cortaram-nos a luz
E empurraram-nos para a sombra
Mas o espetáculo continuou
Vi as luzes apagarem-se na Broadway...
Estava-se tudo a cagar para nós, sabem?
Éramos só uns gajos de Long Island.
Depois o Billy decidiu tocar connosco em vez da banda do Elton.
Mas nós éramos a melhor opção.
Ele precisava de gordura, não precisava de carne cozida.
Precisava de pizza.
E nós éramos o molho.
No Turnstiles,
não havia ninguém a dar bitaites
e todos se mataram a tocar.
Cresceram com o material conforme eu o fui compondo
e tornaram-se parte do processo de gravação.
E havia ali algo de formativo.
Dava para ouvir que a banda ainda se estava a formar.
Aprendemos muito juntos, crescemos juntos.
Turnstiles não é o álbum mais bem produzido do mundo,
mas o material tem uma certa maturidade,
e sinto que atingi o meu auge como escritor.
O Bill estava no estúdio.
Estávamos a fazer um disco, estava tudo bem,
mas tínhamos de arranjar outro manager.
Eu achava que só queriam saber do que o Bill podia fazer por eles
e não o contrário.
Via isso constantemente e isso dava comigo em doida.
Ela percebia do negócio, estava a ver todos a fazer asneiras
e nós falávamos muito sobre isso.
Ela absorvia tudo. Era uma esponja.
E percebi que precisava de alguém que me conhecesse.
A Elizabeth era minha mulher. Quem me conhecia melhor?
E o Bill virou-se: "E se fosses tu a minha manager?
"Não podes ser pior que os outros."
E eu pensei: "Bom, sim."
E a história que ele gosta de contar é que acordou no dia seguinte
com uns 15 telefones topo de gama no andar principal do apartamento
e com armários instalados.
Isso não é bem verdade, mas quase.
Ela foi fundamental na altura.
Ela tinha de assumir a gestão porque sabia o que tinha de ser feito.
Não tinha razões para que acreditassem em mim.
Mas nós precisávamos de uma empresa de gestão.
E, aos poucos, formei uma equipa.
Tenho outra empresa de gestão. Talvez nunca tenham ouvido falar.
Antes tinha outra,
mas a atual é nova-iorquina.
Chama-se Home Run.
Não tem nada que ver com basebol. É uma agência familiar.
Abrimos um escritório da Home Run,
e formou-se um grupinho chamado Mean Bros.
E os rapazes eram como irmãos dele.
Em Nova Iorque, testamos muito os amigos.
Damos-lhes murros nos ombros quando os vemos, e dói.
Ou insultamo-los.
É como temos a certeza.
Conheci o Billy em novembro de 1974
e tem sido uma aventura.
Então, os Mean Brothers e todos nós
tornámo-nos uma pequena família.
É assim há que tempos.
Somos como irmãos. Unha com carne.
Protegemo-lo, olhamos por ele, garantimos que está bem.
Ele tinha uma banda
e um bando à volta a tentar zelar pela carreira dele.
Éramos como guerreiros. Estávamos todos no mesmo barco.
Havia uma proximidade e camaradagem que dura até hoje.
É estranho estar aqui, 50 anos depois,
a refletir sobre isto.
Lembro-me de sentir que alcançámos o sucesso.
Ficámos num Holiday Inn,
e puseram no letreiro: "Bem-vindos, Banda do Billy Joel!"
E pensámos: "Sucesso! Estamos no letreiro! Somos os maiores!"
Tirámos uma fotografia. "Vejam! 'Banda do Billy Joel!'"
Mas não tínhamos um álbum de grande sucesso.
O Turnstiles saiu em 1976.
Depois voltei à estrada.
Abríamos muitos concertos:
dos Doobie Brothers, da Olivia Newton-John, dos Beach Boys.
Abríamos os concertos de todos.
E se não fôssemos bons, tínhamos 20 mil pessoas a gritar:
"Saiam do palco!"
Gritavam pela outra banda. Por isso, tínhamos de ser bons.
Quando chegou a digressão do Turnstiles,
ele já tinha alcançado o sucesso como compositor
e como intérprete.
Sabia criar momentos dramáticos.
Ele tinha a magia.
Quantas não foram as noites em que o Billy partiu uma corda do piano!
Quem toca com força a ponto de partir uma corda de piano?
De repente, começámos a encontrar o nosso lugar.
A digressão estava a correr bem.
Estávamos a ofuscar os cabeças de cartaz.
Só não estávamos a vender discos.
O Turnstiles foi um fracasso completo.
Não tinha aquele grande êxito
que as discográficas querem que os artistas tenham.
Fiquei um pouco preocupado
e comecei a compor músicas novas.
Pensei: "É hora de continuar. Vá lá, Bill, vai para o estúdio.
"Faz outro álbum."
Mas eu não tinha um produtor naquela altura.
Eis a batida.
Sondei o George Martin, que produziu os Beatles.
Era o meu ídolo, o meu herói.
Considero-o até hoje um dos maiores produtores de sempre.
O Billy queria alguém para produzir o álbum
e o George Martin apareceu.
Ficámos loucos: "Meu Deus! O produtor dos Beatles!
"Isto é brutal!"
Ele assiste ao concerto.
O Billy reúne-se com ele a seguir, e nós perguntamos:
"Que disse ele?"
E o Billy olha para nós e diz: "Ele quer a produção."
"Brutal! Isso é brutal!"
"Mas não quer a banda. Quer os tipos do estúdio."
E nós: "Meu Deus!
"O que lhe respondeste?"
Reunimo-nos e ele não queria a minha banda.
Ele disse: "Gosto de trabalhar com outros músicos."
E renunciei a oportunidade de trabalhar com o George Martin.
E o Billy diz: "Adorar-me é adorar a minha banda.
"Eu recusei."
Adorar-me é adorar a minha banda.
Os tipos das sessões leem as pautas, têm essa capacidade,
mas não há necessariamente uma química nesse conjunto,
o que é crucial.
É preciso haver química.
Nós arrasávamos ao vivo.
Deixem-me usar a minha banda.
Era incrível alguém tão focado em singrar
perceber que a banda contribuía tanto para isso
que não podia abrir mão dela
só para ter o homem que produziu os Beatles
a produzir os seus álbuns.
A editora deve ter pensado:
"Espera lá, ele despediu a Caribou Management,
"a maior empresa de gestão,
"despediu o Jimmy Guercio como produtor,
"agora não quer o George Martin e pôs a mulher a gerir-lhe a carreira?"
Só podemos imaginar um lápis vermelho a riscar-me.
"Este gajo está acabado."
Eu sabia que se não tivéssemos um disco de sucesso,
provavelmente perderia a editora.
Íamos para a cama, à noite, e mesmo antes de adormecer pensávamos:
"Oxalá não nos deixem!"
Foi uma fase stressante.
Depois do Streetlife e do Turnstiles,
parecia que ele estava numa fase muito crítica da carreira
porque podia ter ido ao ar.
Mas, em 1976,
já tínhamos uma base só de fãs dele,
fossem 1500 ou 2000 lugares,
e isso devia-se à qualidade dele como artista ao vivo.
Foi na estrada que ele se fez.
E foi na estrada que se desfez.
Nunca vi alguém que trabalhasse tanto como ele.
O Dennis Arfa disse:
"Vocês não deviam estar a abrir concertos.
"Deviam estar a lotar salas."
Quando o Bill decidiu que queria atuar no Carnegie Hall
e os bilhetes esgotaram na hora,
viram que se ele enchia o Carnegie Hall, é porque tinha qualquer coisa de especial.
Então, a Elizabeth
sabia que o Billy precisava de outro produtor para o próximo disco.
E entrou o Phil Ramone.
O Phil Ramone era um produtor da Columbia Records.
Meus senhores, vamos repetir.
Era um engenheiro no início da música Pop.
Trabalhou com o Sinatra.
Com o Ray Charles.
Com o Bob Dylan, o Paul Simon.
Trabalhou com todos.
A Elizabeth liga-lhe e diz:
"Quero que vá ver o Bill no Carnegie Hall."
E as filas davam a volta ao quarteirão.
E o Billy viu e disse:
"Isto é do caraças."
- Esgotaram em três noites? - Sim, três noites.
Sentiu alguma coisa de especial ao pisar aquele palco?
Claro, é o Carnegie Hall.
Andamos pelos bastidores e há imagens de Tchaikovsky
e Rachmaninoff.
Vamos à casa de banho e Liszt esteve lá, percebe?
Fiquei embasbacado com aquilo tudo.
Então, atuámos no Carnegie Hall.
E o Phil Ramone estava na plateia para nos ver.
E lembro-me de o Billy olhar para mim e dizer:
"Vamos a isto. 110 %. Vamos dar tudo."
Chegou a hora de mudar as energias
Mas adorei estes dias
O Phil viu o público delirar.
E disse: "Temos de gravar isto."
Vão ter de me arrastar para fora do palco.
Havia algo de mágico na banda e nele
e eu senti que devia ser captado.
E foi como começou, só com isso.
Um músico acaba por encontrar a sua família,
a pessoa que o pode defender e dar aquilo de que ele precisa.
E, para o Billy, foi o Phil Ramone.
Ele: "Quero levar-vos para o estúdio
"e quero que sejam as bestas do rock que são."
"Brutal. Ele adora-nos."
Primeira canção: Movin' Out.
Vamos a isto.
Um, dois, três.
Quando voltámos para ouvir o playback,
o Phil tinha umas colunas gigantescas.
Tinha a música a altos berros,
e só se ouvia: "Tão bom, meu Deus!"
Dei-me logo bem com o Phil Ramone.
Ele era tão maluco quanto nós.
Era como ter outro músico atrás da mesa de mistura.
Se os músicos se divertem, isso ouve-se.
Não era um som suave, nem refinado, mas era único.
O Phil gostou disso.
Ele disse: "É meio bruto, mas é o vosso som."
Pareceu-me excelente. Queres vir aqui, Billy?
E ele apontava coisas de que nem nos apercebíamos,
como em The Stranger.
Começa com o tema de The Stranger.
E... eu assobiei assim.
E fui ao estúdio e perguntei ao Phil: "Que instrumento usamos?"
E ele: "Acabas de o usar."
"Assobiaste."
Nunca me tinha ocorrido.
Um assobio. Está certo.
E foi assim que foi lá parar. Essas coisas eram frequentes.
Coisas espontâneas em que não se pensava muito.
Aconteciam naturalmente.
Gravar deixou de ser como arrancar dentes.
Era química.
Contagiamo-nos mutuamente com facilidade,
divertimo-nos imenso
e falamos de música de uma forma muito direta.
Ele confiou.
É uma canção nova.
Chama-se Scenes from an Italian Restaurant.
O Phil percebeu o conceito por trás da canção.
Sempre quis compor
uma canção cinematográfica
sobre as vidas de colegas que atingiram o auge no liceu.
Uma garrafa de vinho branco
Uma garrafa de vinho tinto...
Eram três, quatro, talvez cinco ideias que eu ainda não tinha desenvolvido.
Eram apenas fragmentos.
Arranjamos uma mesa perto da rua...
O Phil juntava as canções do Billy.
O Billy tinha três ideias e o Phil dizia:
"Vamos pôr esta aqui e esta aqui."
E criava o arranjo da canção e a sua estrutura.
A Brenda e o Eddie Eram os namoradinhos
Os reis do baile
Passeavam no carro de capota aberta E rádio a tocar
Ninguém tinha mais pinta
Nem mais fama no Parkway Diner...
As canções do Billy são como o rochedo de Gibraltar.
São incrivelmente bem montadas.
E um dos dons do Billy era ser um grande contador de histórias.
Arranjaram um apartamento Com alcatifas
E uns quadros baratos da Sears
Compraram uma cama de água Com o dinheiro que tinham poupado
A guerra começou Quando o dinheiro apertou
E não contaram com as lágrimas
A malta quer ouvir essas histórias vezes sem conta.
Por isso, o dom da lírica era apenas uma parte de quem ele era
e de onde vinha.
E acho que a malta se identifica.
Foram tempos de brilho Sempre em grande estilo
Mas o fim é sempre o mesmo
Acabaram divorciados, claro...
Descobrimos uma forma de gravar esta coisa
de forma a fluir.
Até a fórmula de compasso muda a meio.
Algo que é muito difícil, voltar ao tempo normal.
Diria que a minha música tem muito material autobiográfico.
Um, dois, três.
Dizem para se compor o que se sabe e foi o que fiz.
Muitas foram sobre a Elizabeth.
Nada de mudar
Para me tentar agradar
Nunca me desapontaste...
Faltava-nos uma canção e surgiu esta.
E ele disse: "Não gosto. Parece de casório. Não toco isto."
E digo-vos, foi uma guerra.
E não te vejo mais...
Aquela parte.
Se não souber bem, não soa bem.
Billy, se for desconfortável, deixa.
Canta. Experimenta. Mal não há de fazer.
Foi o Phil Ramone que insistiu.
Mas não me sabia bem. Era demasiado melosa.
Achou aquela canção especial quando a fez?
Era aceitável, vá.
- Como era? - Começou por ter um ritmo diferente.
Depois o Phil disse ao Liberty DeVitto, o baterista:
"Porque não tocas um samba ao contrário?"
E o Liberty: "O que é um samba?"
Ele era de rock 'n' roll, sabia lá.
Lib, podes meter um timbalão.
- Podes dar no timbalão. - Também é muito criativo.
E o Phil sugeriu um...
Todos com ele.
E foi o que o Liberty fez.
"Está fixe." Foi ideia do Phil Ramone.
Vamos a isto. Um, dois, três, quatro.
Disse que te amava
É para sempre
E isso prometo de coração
Não te podia amar
Mais do que amo
Amo-te tal e qual como és...
Ouvi o playback e disse: "Vá, é uma boa gravação,
"foi bem escrita, mas não devia entrar."
Então, o Phil chama duas pessoas.
Ouvem e olham uma para a outra...
Volto à sala de controlo e digo: "O que acham?"
"É uma das melhores canções!" Eu: "Mas não a quero no álbum."
"És doido! Tem de entrar! É um êxito!"
Eu: "É?"
Eram a Linda Ronstadt e a Phoebe Snow.
E tinham razão.
Eu adorei a música antes de ouvir a letra.
Mas artistas são artistas, pegam num pouco disto,
num pouco daquilo,
juntam tudo e fazem magia.
E fizeram magia com aquela canção.
Só quero alguém
Com quem conversar
Quero-te tal e qual como és
Quando The Stranger foi concluído e masterizado,
achámos uma obra-prima, ficámos radiantes.
Tem rock pesado.
Tem rock calmo.
Tem amor...
... e sadomasoquismo.
Até tem comida.
The Stranger.
A primeira vez que alguém ouviu o álbum
foi na sessão de audição, na CBS.
E fez-se silêncio na sala.
A primeira pessoa que falou, disse:
"É agradável, mas não ouço nenhum single."
E eu disse-lhe: "É bom que encontre, porque nós não mudamos uma nota."
Mata com um sorriso E magoa com o olhar
Tudo o que Billy compunha, defendia.
E se a editora não gostasse, ele insistia.
E ela lutava por isso. Lutava mesmo.
Ela esconde-se como uma criança Mas é sempre uma mulher para mim...
Disseram que não ouviam um single e ela respondeu:
"Estão enganados."
Ela disse à malta da Columbia Records que estavam enganados.
Mas ela tinha muita força. Sempre teve.
O Billy não era de graxas. Não queria jogar esse jogo.
A Elizabeth tinha a esperteza
e a sensibilidade para lidar com o meio empresarial.
E nunca deixou que o Billy caísse no esquecimento.
Ela pode esperar, se quiser
Está à frente do seu tempo
A Elizabeth negociava pelo Billy.
Era como uma ama para nós.
Liberty!
- Fala para o microfone. - Olá? Está ligado? Está?
Estás a falar para a América.
- Olá, América. - Encosta mesmo os lábios.
Era difícil conviver connosco.
Não era fácil.
Fazer piões num carro,
entrar com ele no átrio de um hotel e acabar na prisão.
Não gosto deste hotel. Não gosto.
Eram, basicamente, uns hooligans de Long Island.
Éramos uma cambada de miúdos de 20 e poucos anos,
não sabíamos o que fazíamos e ela moldou-nos.
- Quinze minutos. - Está bem.
Com o Billy e a Elizabeth como dupla,
o verdadeiro talento dela era perceber a importância
de ser capaz de preparar o terreno
para este talento.
Nunca nos destacáramos com uma gravação.
Precisávamos do apoio da editora para conseguirmos esse destaque.
E chegara o momento. Era agora ou nunca.
A Elizabeth diz ao presidente da CBS:
"Só um louco não ouve um single."
A Elizabeth diz: "Pode escolher o primeiro, o que preferir.
"Desde que eu possa escolher o segundo."
Ele: "Movin' Out."
A Columbia lançou a Movin' Out, que teve bons resultados, mas não ótimos.
Ela: "Just The Way You Are."
Não teríamos chegado até aqui
Aceitei os bons momentos
Aceitarei os maus
Aceito-te tal e qual como és
A primeira vez que o ouvi, pensei:
"Espera lá, ele é bom. Quem é?"
As orelhas espevitam-se.
Uma moda nova
Não mudes a cor do...
A canção
que me fez ter a certeza de que ia vingar foi Just The Way You Are.
... paixão contida...
E perguntam-me:
"Há alguma canção que gostaria de ter feito?"
É essa que digo sempre.
Just The Way You Are
foi uma daquelas canções que mudou o panorama musical.
Lembro-me que tínhamos um diretor de programação em Atlanta
que me ligou e disse:
"Acabámos de passar uma canção, a Just The Way You Are, e pegou."
A Just The Way You Are estava em todas as estações.
Sempre a passar, no Top 40.
Enjoava ao fim de algum tempo, mas vendemos um milhão de álbuns.
Eu não reconhecia um êxito nem que o pisasse.
O mérito aqui é dela
porque não a escolhi.
Foi essa que catapultou o Billy para o estrelato.
Levou o Billy de três noites em Carnegie Hall
a três noites em Madison Square Garden.
E pelo mundo fora.
ESGOTADO
Foram 105 atuações naquele ano em diferentes partes do país,
diferentes partes do mundo... foi duro.
Após The Stranger sair, começámos uma digressão
e, no final, estávamos a tocar em coliseus enormes,
com as pessoas aos gritos.
E nós a olhar, estilo: "Que é isto?"
Não sabíamos mesmo.
E, no final, sabíamos que era um grande álbum.
Depois ele ganha
dois Grammys.
E a Canção do Ano é...
O Álbum do Ano é...
Just The Way You Are, composta por Billy Joel.
Just The Way You Are, Billy Joel. Produção de Phil Ramone.
BILLY JOEL MELHOR ÁLBUM DO ANO
Foi então que tudo arrancou a sério.
... de Long Island vai reunir-se,
mas um irá faltar porque é o meu convidado especial.
Senhoras e senhores, Billy Joel.
Sai, Virginia, não me faças esperar
Vocês, católicas, pecam por tardar
Mais cedo ou mais tarde É o destino a determinar
Mais vale ser eu...
Only The Good Die Young saiu como single,
mas acabou proibida pela Igreja Católica.
Billy Joel é um artista rock e, embora possa ser popular,
uma escola católica proibiu uma canção familiar sua
por referências a meninas católicas.
BILLY JOEL CANTA UMA CONTROVÉRSIA
Não estava a vender grande coisa
e, mal proibiram a venda, os miúdos foram a correr comprá-lo.
"O que não podemos ter? Ouvir?"
E escrevi à Arquidiocese de Saint Louis, que a proibiu.
"Proíbam o meu próximo álbum. Vou lançar um single novo em breve."
Mas nunca fez mal a ninguém
Vá lá, Virginia, dá-me um sinal
Dá e eu lanço uma corda especial
Esse vitral onde te escondes
Nunca deixa entrar o sol
Querida, só os bons morrem novos
Foi isso que eu disse
Só os bons morrem novos
Tens um belo vestido branco E uma festa pelo teu crisma...
The Stranger tornou-se o álbum mais vendido da Columbia Records,
algo inimaginável para nós.
Começámos com carros de aluguer e autocarros.
Passámos a jatos e afins.
Sentia-se a enormidade da coisa a começar a crescer.
Após começarem os espetáculos em arenas,
eu vi a quantidade de pessoas
e o disco estava a ter um sucesso estrondoso.
E foi estimulante e emocionante.
Mas, ao mesmo tempo, estava a custar-me um pouco.
Porque foi nesse momento que percebi que o íamos perder.
Senti que algo ia mudar... e mudou.
Quando me tornei manager,
não sabia no que me estava a meter.
E por muito que o Bill quisesse isto e fosse o sonho dele,
acho que nunca imaginou que fosse assim.
Não estava habituado ao estrelato.
Não me sentia nada confortável.
E, ao fim de algum tempo, pensei: "Mas és.
"Por isso, para de te mandar abaixo.
"Habitua-te."
Quanto à popularidade do Billy Joel, o disco que a trouxe foi The Stranger.
The Stranger, em 1977, vendeu mais de cinco milhões de cópias.
O último álbum teve cinco êxitos, algo inédito desde os Beatles.
The Stranger foi o álbum que ajudou Billy Joel
a tornar-se um dos maiores artistas
da história da música rock.
Lembro-me de dizer ao Bill que tinha sido um êxito monstruoso,
e que, agora, precisávamos de outro.
A pressão era enorme.
Mas foi emocionante vê-lo progredir como artista
e aprender a tomar as rédeas
da fama.
Foi o sucesso de The Stranger
que me encheu de confiança.
"Não vou ligar nenhuma aos executivos e aos negócios.
"Vou compor para mim."
52nd Street foi um álbum muito confiante.
Não queria outro The Stranger. Não se pode ficar no mesmo sítio.
Há que crescer.
E tentei pensar no tema enquanto o estava a compor.
"Que álbum é este? Onde estamos?"
O estúdio onde gravámos ficava mesmo na 52nd Street.
52nd Street foi uma rua muito famosa, em tempos.
Nos anos '40 e '50, chamavam-lhe Swing Street.
O Charlie Parker tinha um clube. Todos os músicos tinham um nessa rua.
"E que nome vamos dar a este álbum?
"Tem um toque nova-iorquino. 52nd Street."
52nd Street é muito importante na história da música,
mas, quando eles estavam a gravar, o bairro estava bastante degradado.
No final dos anos 70, havia muito crime, toxicodependência.
A cidade estava um nojo, não fazia a recolha do lixo.
Não era um ambiente agradável,
mas havia qualquer coisa nele
que era cru, que era genuíno.
Achámos que esse seria o tema e foi o que escolhemos.
Uma cena nova-iorquina.
Pronto, vamos lá.
Foi feito com uma banda completa e eu a cantar ao vivo, numa só gravação.
Queria essa energia ao vivo traduzida para uma gravação.
Foste para a alta na bela da tua limusina
De roupa chique e toda feliz
Ias com Dom Pérignon na mão
E colher no nariz
E acordaste de manhã Com a cabeça em brasa...
A Big Shot era a da ressaca.
Acordava muitas vezes de manhã ciente das idiotices da noite anterior.
Péssimo, de ressaca.
A pessoa vê-se ao espelho e diz: "Armaste-te aos cucos, não foi?
"Abriste a boca e armaste-te aos cucos."
Armaste-te aos cucos, não foi?
As tuas amigas ficaram tão KO...
Gritava: "Idiota! Porque me sinto tão mal? Porquê? Porque bebeste demasiado."
Olhei muito para dentro para esta.
Em parte é sobre mim, e outra parte é sobre...
... outra pessoa.
Já se disse que a canção é sobre mim.
Só por ter usado um vestido da Halston
e pelas pessoas que conhecia no Elaine's, etc.
Conseguiste impressionar Por um vestido da Halston usar
E pela malta do Elaine's conheceres
E por contares o teu último sucesso Só para os entreteres
Mas, na minha opinião,
a canção é sobre ele.
Começávamos a saborear a vida com o sucesso que eu estava a ter.
Era novo para nós.
E o 52nd Street revelou-se algo enorme e sempre a crescer.
Acho que o 52nd Street veio calar todos os que ainda tinham dúvidas.
Ninguém contesta o álbum mais vendido.
E o Álbum do Ano é... envelope!
- 52nd Street, Billy Joel. - Produção de Phil Ramone.
Após aquele Grammy, não houve uma pausa.
Houve uma digressão mundial.
E a minha função, como manager dele,
era garantir que todos apareciam no mesmo sítio, na mesma noite,
completamente aptos para trabalhar.
O comboio não anda
sem uma pessoa forte e eficiente à frente.
Alguns amigos até me chamavam General.
Na sua maneira de trabalhar,
era muito dura como executiva, patroa, manager.
Éramos amigos e divertíamo-nos muito juntos,
mas ela era bruta na hora de decidir o que íamos fazer.
Com todo o respeito,
não vou dizer que tinha medo dela,
mas tinha medo dela.
Tinha pena das pessoas porque ela tinha de sacar do chicote, vá,
fazer as coisas andar e pôr as pessoas a mexer.
Nem sempre me senti confortável com a postura dela,
mas a verdade é que muito do que fazia era para meu bem.
A Elizabeth nunca agiu sem a aprovação dele,
mas, como mulher, tinha de ser dura.
As pessoas interpretavam-na mal.
Se um homem for forte e assertivo,
isso é tudo bem.
Já se for uma mulher a tomar uma decisão que não agrada,
lá vem a questão do género.
Algumas pessoas irritavam-se.
Muitos machistas, sobretudo, não gostavam da ideia de ter uma mulher
a dizer-lhes como tinha de ser.
E ela foi alvo de algumas críticas feias.
Só por ser mulher.
O mais difícil era ser casada com o artista.
Se tivesse uma ideia que ele desaprovasse, mas ela achasse boa ideia, era complicado.
E, naquela altura, os limites estavam tão difusos e confusos
que se tornou evidente para mim como era uma situação complicada.
Então,
gostava de falar de uma das minhas favoritas: Stiletto.
O que sugere esse ritmo?
A mim, sugeria facadas.
Não sei porquê.
Talvez pela natureza da minha relação na altura.
Escrevi a letra
sobre ser castrado por uma relação.
Dá-te uma facada e mais outra... Esta é mazinha.
Quando a acabei, ouvi-a do início.
"É um bocado pesada."
Mas foi escrita.
Dá-te uma facada e mais outra
Mas continuas a acreditar
Apesar das canções ternas sobre o tema da feminilidade,
foi considerado machista por canções como Stiletto.
Machista?
A canção diz que a mulher é sádica, mas diz que o homem é masoquista.
Não acho isso machista.
Depois diz que quer perdão
Que jogo inteligente
Caramba Como usa bem o seu salto...
Se alguém disser que é misógino, eu sou a prova viva de que não o é.
Ele contratou-me, muito antes de ser uma estrela,
para lhe gerir a carreira e o que era importante para ele.
Ela dá com força, vai a fundo
Tem muito jeito
Para mim, é mais uma canção sobre a temática do casamento.
E não era só
sobre a nossa relação, embora o fosse em parte.
A sangrar, ficas
Queres escapar Mas sabes que não vai dar
Porque ela te dá o que precisas...
E por vezes, entre os casais, há coisas que acontecem.
Há deslealdades.
E pensa-se: "Já sei...
"Vou dizer isto para se passar."
Não me lembro de pensar: "É para ela aprender. É sobre ela."
É tudo o que tenho a dizer sobre isso.
Quando acabámos a digressão do 52nd Street,
uma das coisas que percebi em relação às arenas e coliseus
é que era preciso música que funcionasse nesses locais.
Eu queria um álbum de Power Pop
só para ter o... para tocar em arenas.
Passaram quase 15 anos desde que Billy não concluiu os estudos
no Liceu de Hicksville.
Foi para Long Island, para uma casa moderna de vidro,
a dois passos do sítio onde vivia.
... uma pedra na janela.
A sua janela aparece na capa do seu último álbum, Glass Houses.
Estava a atirar uma pedra à minha imagem,
de cantor de baladas, cantor-compositor e pensei:
"Vamos variar."
És tão prisioneiro Dos prémios que recebes...
Demasiado poético? Floreado?
Nem por isso, se resultar...
Ao trabalhar com o Billy, pude ver o processo no estúdio.
Começava por escrever algumas ideias em bruto,
um verso, um refrão,
depois juntava-as rapidamente.
Todos estão à espera que as termine.
É como espremer um limão.
Lembro-me de estarmos a cortar o álbum e estar no fim.
E veio a Still Rock and Roll to Me.
Escrevi a letra no carro, a caminho do estúdio.
Tive uma ideia
para um padrão rítmico.
Entraram e cortaram. Foi simples.
Eles tocaram, ele dobrou a voz, acabou e só digo: "Este é o êxito!"
Qual é o problema Da roupa que tenho vestida?
"Não vês que tens a gravata larga?"
Achas que volte Aos colarinhos antigos?
"Voltámos à era do jive
"Onde tens andado, coisa giraça?
"Não dá para um estilo rasca Sem gastar uma pipa de massa"
Todos falam do som novo
Tem graça Continua a parecer-me rock 'n' roll
Glass Houses superou
todas as expectativas.
Billy Joel, Glass Houses.
Foi o terceiro êxito seguido do Bill.
E isso é realmente inédito.
Muitos consideram-no
o melhor compositor e intérprete dos Estados Unidos.
Nos últimos oito anos,
Billy Joel vendeu mais de 12 milhões de álbuns,
ganhou quatro Grammys,
arrecadou mais de 80 milhões
e esgotou todos os concertos.
Todos falam do som novo
Tem graça Continua a parecer-me rock 'n' roll
Acho que só me associavam a baladas até àquele álbum.
E quando o lançámos, veio uma onda de críticas.
"Está a tentar ser Punk e New wave."
Achei curioso como que o contraste
com a música dele.
Ele nasceu no Bronx e cresceu em Hicksville.
Era um miúdo meio marrento, conflituoso.
Se isto fosse um livro,
o caminho natural seria enveredar pelo Punk,
mas a música dele era polida,
com uma base acessível.
E muito do que era complexo e bem articulado
nele e na sua música foi ignorado
porque estava no topo das tabelas.
Quando tudo corre bem, tendo a ficar preocupado.
"Quando é que descamba?
"Quando é que esta grande fase vai terminar?
"Porque vai terminar."
Quando analisamos a carreira dele,
ele alcança a notoriedade em 1977 com The Stranger.
E acho importante
lembrar que mais estava a acontecer no mundo da música,
sobretudo entre os críticos.
Houve uma grande vaga de Punk naquela altura.
Em 1977, havia os Talking Heads.
E os Suicide.
Era uma música muito conflituosa e de cariz antiautoritário.
E era muito fácil
apontar alguém como o Billy Joel
como a autoridade.
Está na Columbia Records, é o artista que mais vende naquela altura.
Acho que o Billy Joel foi um alvo muito conveniente
por tudo a que se opunham.
"Não tens lugar aqui. Sai daqui."
... a crítica de Paul Nelson a Glass Houses, na Rolling Stone:
"O material dele contagia, mas uma gripe faz o mesmo."
It's Still Rock and Roll to Me,
o seu primeiro single de êxito,
foi o pior single de rock do ano segundo a Rolling Stone.
Muitas críticas foram fomentadas por mim.
Eu travava batalhas com a imprensa, o que era burro.
Não vale a pena trocar galhardetes com quem faz a narrativa.
Um dia, um crítico de LA escreveu que Billy Joel
era o maior pirralho do rock.
Abram alas para o pirralho.
Onde fica o quarto do pirralho?
O Billy levava as coisas a peito.
Costumava criticar o crítico.
Lia a crítica que o crítico deixava
e, se fosse má, rasgava o papel em palco.
Rasgava-as e dizia: "É o valor que eu dou."
Eu não devia ter feito isso, porque podia haver cinco críticas boas...
Em qual é que me focava? Na má.
Mas eu ficava ressabiado.
Acho que isto de ficar ressabiado é muito típico da malta de Long Island.
Metia-me em bulhas e tive de aprender a defender-me.
Acho que nunca tive uma fase sem lutas.
Há sempre uma luta, até ao fim.
Então, aprendi que a vida é uma luta.
E é uma boa lição.
Após o Glass Houses sair, andei sempre em digressões.
Foi só trabalho, trabalho. Olho para trás e nem me reconheço.
Tinha de ser muito ambicioso para trabalhar daquela maneira.
Logo, não deve ter sido fácil ser casado comigo na altura.
O peso que a fama e a popularidade estava a ter em todos
era palpável nesta altura.
Todos pensam que a fama é especial
e a nossa vida tinha muitas coisas boas.
mas, bom,
os deuses têm muita piada porque tudo tem um preço.
E viver com alguém tão exposto ao olhar público
era o oposto do que eu queria.
Não pedia que mudasse. Só não queria viver assim.
E a minha solução foi arranjar uma casa em Nova Iorque
onde pudesse ficar no anonimato.
Por isso, não foi bem que nos separámos,
mas começámos a afastar-nos um do outro.
E eu também sabia que ele não estava bem.
Estávamos todos muito stressados.
Cada um lidava com o stress à sua maneira.
E, portanto,
havia muito consumo de álcool.
E, com o tempo, também muitas drogas.
A Elizabeth ralava-se por todos beberem,
mas ralava-se sobretudo por o Billy beber.
Percebeu que havia alcoolismo no grupo.
Nós éramos muito autodestrutivos. Era quase uma segunda profissão.
Costumávamos ir a jantares e se alguém deixasse algo no copo,
ao passar, à saída, eu bebia as bebidas de todos.
Adorávamos álcool.
- Esta é para a Circus. - Toma.
Acho que ele tinha noção do mal que fazia a ele mesmo
mas, com o estrelato, a pressão não diminui.
E requer continuar e fazer melhor do que o álbum anterior.
E é difícil lidar com essa pressão.
Lembro-me de dizer aos membros da banda:
"Não consigo ver o meu amigo matar-se.
"Ele é o meu mundo e está a ruir."
Lembro-me da Elizabeth nas digressões.
Ela estava desconfortável, eu estava desconfortável com ela.
A banda estava desconfortável.
E havia mais guerras e negatividade do que diversão.
A diversão acabava.
O descontrolo era assustador.
A minha vida era muito diferente da vida da banda e da equipa
porque eu tinha um filho
e não ia fazer nada que o pudesse magoar
ou privar da mãe.
Comecei muito cedo a consumir droga e álcool.
Estava a ir atrás de todos eles
porque os admirava.
Acho que ela pensou: "Tenho de sair por este miúdo."
Foi a minha força e a minha luz.
E tornou-se uma realidade insuportável.
Depois decidi:
"Vou afastar-me
"deste negócio da música."
Ela não queria que a tentassem convencer a ficar.
Só se queria ir embora.
Começo a entrevistar candidatos para o meu lugar.
E o Billy tem a bela ideia de contratar o Frank Weber,
que é o meu irmão.
Nos eventos de família, falavam sempre um com o outro.
E eu disse: "Sei que gostas dele,
"o Frank é porreiro, mas não estou a ver a coisa."
O Frank entrou para a Home Run
lá para 1977, 1978.
Com o tempo,
comecei a dar-me mais com ele e começámos a falar sobre o negócio.
E ele mostrou-se uma pessoa bastante direta
e compreendia os meus pontos de vista.
Não me agradou por várias razões,
mas o Bill quis o Frank,
e foi quem contratámos.
A Elizabeth e o Billy continuavam muito envolvidos,
tinham as suas vidas completamente entrelaçadas,
mas o álcool era um problema muito grande.
Todos os dias, a Elizabeth dizia:
"É amanhã que ele para."
Acho que ele se sentia tão reprimido com a própria vida
que acabava por testar limites onde podia.
Sempre romantizei motas. Há qualquer coisa nelas...
Sinto que permitem desligar completamente do mundo.
É uma sensação de liberdade.
Mas só me lembro de ouvir:
"A seguradora não quer que andes de mota
"e a editora também não te quer em cima de motas."
Só pensei: "Caguei!"
Vais comprar? Tens de comprar, meu!
Quando o Bill arranjou a mota, diziam-me que tinha ido a um certo sítio,
que tinha estado a beber ali e ia acolá.
Por isso, eu andava sempre com medo.
Disse-lhe em muitas ocasiões:
"Não podes fazer isto. É perigoso."
Um, dois, três, quatro!
You May Be Right. Compus essa uma noite, às quatro da manhã.
Estava a voltar de um bar, chovia.
Eu estava na mota. Não tinha luz, não havia luzes na rua.
Estava de fato e estava a chover.
E entrei em casa e cheguei inteiro.
Devia estar todo cagado.
A minha mulher viu-me e disse:
"És doido. Nem sei como estás vivo."
Ao que respondi: "Cheguei, não cheguei? Estou inteiro."
Ela: "Isso só prova que és doido, porque só um doido chegaria a casa."
E foi aí que fui buscar o título.
Até andei de mota à chuva
E tu disseste-me para não andar
Mas a casa consegui chegar
Então disseste Que só prova que sou doido
Talvez tenhas razão...
E a dada altura ele diz:
"Apaga a luz. Não me tentes salvar."
Sinceramente, naquela fase, aquilo disse tudo.
Apaga a luz
Não me tentes salvar
Podes estar enganada Mas também podes ter razão
A Elizabeth avisou-me. "Cuidado, ainda tens um acidente."
Ia com outros motociclistas,
chegámos a um cruzamento
e, quando o sinal abriu para mim,
eu passei o cruzamento.
Só que uma mulher passou o vermelho e atravessou-se à minha frente.
Não houve tempo para travar a mota.
Estava de capacete, botas, luvas e casaco de cabedal.
Espetei-me contra o carro, a mota mandou uma guinada.
Desloquei este pulso, saiu do sítio
e esmaguei este polegar contra o depósito.
Este polegar ficou esmagado.
Dei uma cambalhota por cima do carro e aterrei de costas.
O capacete bateu no alcatrão. Pum!
Fiquei pasmado por estar vivo. Devia ter morrido naquele acidente.
Fiquei ali estendido, em choque, uns minutos,
depois fui direto ao hospital.
Ele deu entrada no hospital.
Levaram-no logo para o bloco.
Ninguém sabia a gravidade dos ferimentos.
Foi uma ralação enorme.
Só sabiam que era muito grave
e que envolvia as mãos e a cabeça.
Todos estavam em choque. "Meu Deus, o que vai acontecer?"
Ninguém sabia se voltaria a conseguir tocar.
Tinha um braço partido, uma perna partida, o pulso também.
E, grande parte do tempo que eu estive no hospital,
nem tinha noção do que se passava, estava noutra.
Estive lá todos os dias enquanto ele esteve internado.
Lidei com a imprensa. Fiz tudo o que era preciso.
Um dia, a Elizabeth chega e ele ouve-a quando me diz
que devia contratar enfermeiras para estarem em casa com ele.
E ele diz-lhe:
"Mas não vais lá estar?"
Ela respondeu: "Eu não vou contigo. Moro em Nova Iorque."
Eu teria ficado.
Teria sido capaz, como tantas mulheres antes de mim,
de fazer esse sacrifício por uma pessoa que amava,
mas nunca conseguiria vê-lo, de braços cruzados, a destruir-se.
Não era capaz.
E sentia profundamente que era para aí que caminhava.
Ela tirou a chave de casa
do porta-chaves e pôs em cima da bandeja,
daquelas de hospital que passam por cima da cama.
Lembro-me dele a olhar para a chave.
Ela era a musa dele.
E ele disse qualquer coisa do género:
"Ela já não vai estar cá para ouvir a minha música."
Não ia resultar, por muito que eu quisesse.
Não queria falhar.
Às vezes digo que o Billy, mesmo tendo um talento incrível,
sem o apoio dela, poderia não ser "o" Billy Joel.
E a Elizabeth, com toda a sua inteligência,
se ele não tivesse talento, de que lhe valeria a inteligência?
E eles amavam-se porque cresceram juntos.
Foram de adolescentes a jovens adultos.
E eu disse: "Um dia, podem escrever sobre nós.
"E espero que digam que fizemos algo muito especial."
E a resposta dele foi:
"Espero que digam que fomos até ao fim."
E acabou ali.
Foi mesmo o último...
Acabou ali.
Sim.
Esse foi o fim.
Foi triste.
Quando se separaram, quando tudo acabou, acho que não houve um:
"Vou sentir muito a tua falta. Boa sorte."
Não houve um desfecho para o Billy.
Mas se ele conseguisse falar sobre sentimentos,
não sei se seria capaz de criar as canções e os sentimentos que elas transmitem.
E é aí... que tenho de me virar e dizer:
"Apesar do que não fez ou do que fez menos bem,
"ele fez aquilo."
E esse é um poder, toca as pessoas.
Ainda o tenho no coração. Eu amo o Bill. Amarei sempre.
Amo as memórias da vida familiar que eu, ele e o Sean partilhámos.
E essas memórias são pessoais.
Pertencem a mim, ao Sean e ao Bill.
O que não nos pertence
é aquilo que conquistámos juntos.
Juntos, fomos maiores do que a soma das partes.
E tenho muito orgulho nisso.
A vida já me deu muitas lições difíceis.
Os discos são para partir
As cassetes para queimar
Estaria a mentir se te dissesse
Que não tenho nada a pesar
E o tanto que se errou
Como a vida mudou
Mas não te deve surpreender minimamente
Tu sabes...
Percebi que a vida nem sempre tem um final feliz.
Estava novamente sozinho
e a partir rumo ao desconhecido.
FIM DA PRIMEIRA PARTE
Tradução: Ana Filipa Vieira Para TransPerfect Media
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