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Original subtitles

NEVERS, 25 DE OUTUBRO DE 1866

Bernadette, anda!

Vem connosco!

Olha, parece que ela est� a rezar.

Isto n�o � s�tio para rezar.

- Ela n�o se mexe. - Se calhar morreu.

Se ela estivesse morta, estava deitada.

Eu estou deitada.

Bernadette, anda! Vem connosco!

Irm� Marie-Th�r�se, despache-se.

Venha, doutor.

Tenha calma, tenha calma.

Madre.

Seria uma perda enorme para a congrega��o se ela nos deixasse

antes de ter sido aceite na sua profiss�o religiosa.

Existem excep��es para os agonizantes.

Eu sei, Irm� Marie-Th�r�se, eu sei...

Ent�o, o que espera? V� chamar o Monsenhor.

Tem calma, minha filha.

Faltam-me as for�as.

N�o serei capaz de pronunciar os meus votos.

N�o se preocupe, Bernadette.

Eu pronunci�-los-ei por si.

S� ter� de dizer "Que assim seja".

Eu, Irm� Marie Bernard Soubirous,

entrego-me e prometo a Deus

cumprir os compromissos dos votos

de pobreza, castidade, obedi�ncia

e caridade

da forma como foram explicados no Livro da Regra.

Que assim seja.

J� est�, minha filha.

Agora, coragem.

Madre, Monsenhor...

Voc�s acreditam que eu vou morrer esta noite.

Mas n�o vou morrer esta noite.

Que vergonha!

Sabia que o seu momento ainda n�o tinha chegado.

Sabia e n�o disse nada

e n�s fomos incomodar o Monsenhor.

Aviso-a, Irm� Marie Bernard.

Se n�o estiver morta at� amanh� de manh�,

vou retirar-lhe o h�bito.

Voc� nunca ser� mais do que uma arruaceira.

MILAGRE DE LOURDES

OITO ANOS ANTES

UMA JOVEM QUE SE CR� SOFRER DE CATALEPSIA

DESPERTA A CURIOSIDADE DO POVO DE LOURDES

Um Filme de

Deixem-nos passar! Por favor, deixem-nos passar!

- V�o p�-la na pris�o? - Pobrezinha...

Peste!

Na Idade M�dia, n�o havia d�vida! Queimava-se gente como tu!

O que � que te deu? Porque � que fizeste isso?

Porque detesto mentirosas.

O que v�o fazer com ela?

- Deixem-na em paz! - N�o podemos deix�-los fazer isso!

- Libertem-na! - Deixem-na em paz!

N�o te levantes.

- Meu caro Lestrade. - Bom dia, Jacomet.

Senta-te.

N�o tens nada a temer.

Se te obriguei a vir at� aqui, foi para esclarecer as coisas

e para acabar com certos rumores que agitam a cidade.

Como sabes, as pessoas t�m a tend�ncia irritante

de inventar toda a esp�cie de contos de fadas.

A mim o que me interessa

� saber o que tu me podes dizer. Entendes?

Quero que me contes pormenorizadamente

tudo o que viste e ouviste. Est� bem?

� verdade que vais � Gruta de Massabielle todos os dias?

- Sim, senhor. - E tu chamas-te...

Bernadette.

Bernadette qu�?

- Soubirous. - Soubirous... E o teu pai?

- Fran�ois. - Fran�ois...

- A tua m�e? - Louise.

Sabes ler e escrever?

N�o, senhor.

- N�o vais � escola? - Vou raramente.

- Ent�o o que fazes? - Ajudo em casa,

costuro e cuido dos meus irm�os e da minha irm� mais nova.

Vais � catequese?

Sim, senhor.

E ent�o, Bernadette, viste a Virgem Maria?

Eu n�o disse que era a Virgem Maria.

Era melhor dizeres que n�o viste nada.

E pronto!

Mas eu vi.

Eu vi alguma coisa.

Quando � que a viste pela primeira vez?

Foi na semana passada, no dia do mercado.

Quinta-feira, dia 11 de Fevereiro?

- Pigouno? - Sim?

Onde podemos encontrar madeira?

L� em cima, mais � frente, em Massabielle.

P�ra, Toinette! Estamos a desperdi�ar tempo.

J� chega!

Os porcos!

Esperem por mim!

Est� fria!

Est� gelada!

Esperem por mim, vou j�.

- Bernadette, anda l�! - Vem connosco.

Cuidado com as pedras.

E como estava vestida essa senhora?

Com um vestido branco,

atado com uma fita azul.

Ela trazia um v�u branco sobre a cabe�a,

uma rosa amarela em cada p�

e um ter�o na m�o.

- Ela tem p�s? - Sim.

Estavam escondidos pelo vestido e pelas rosas. S� lhe vi os dedos.

E tu dizes que ela � linda?

Sim.

Muito linda?

Muito linda.

Mas linda como? Como a menina Dufo,

ou como a Sra. Pailhasson?

Elas nem lhe chegam aos calcanhares.

Entendo.

Ent�o ela � muito bonita.

Ent�o, recapitulemos:

"Bernadette Soubirous, filha de Fran�ois

"e Louise Soubirous.

"Na quinta-feira, dia 11 de Fevereiro, dia de mercado,

"Baloum, veio ter comigo e com a minha irm� Toinette

para irmos buscar lenha." Est� correcto?

"Eu olhei para o lado da gruta e eis que l�...

... surgiu diante de mim a Virgem Maria."

Eu n�o disse isso.

"Uma rapariga vestida de branco com cerca de 20 anos."

- Eu n�o disse que ela tinha 20 anos. - "Linda como a Sra. Pailhasson!"

- Eu tamb�m n�o disse isso. - "O cabelo ca�a como um v�u!"

O senhor n�o me entendeu. Eu mal a vi.

Ent�o e a rosa amarela que ela tinha � cintura? Fui eu que inventei?

Ela tinha uma rosa amarela, mas era uma em cada p�.

N�o foi isso que me disseste h� pouco.

Foi sim. O senhor � que mudou tudo.

Eu sei o que digo! J� chega, Bernadette!

Anda. A tua filha est� l� dentro. Eles vieram busc�-la. Despacha-te!

Deixem-no passar! � o Soubirous.

Deixem passar! Deixem passar!

Saiam da frente! Abram, por favor.

Deixem-no entrar!

Eles n�o t�m o direito! N�o sa�mos daqui!

Esta fantochada tem de acabar!

Bernadette, o Comiss�rio n�o te quer mal.

Toda a gente se engana. Basta que o admitas e pronto.

Precisamente. Trouxeste toda a gente atr�s de ti.

- N�o pedi nada a ningu�m. - A aten��o toda deve agradar-te.

Queres ser uma vadia?

A Gruta de Massabielle alberga os encontros dos amantes da cidade

e j� foram l� vistas v�rias cenas de devassid�o. N�o sabias?

Ela arma-se em inocente. Queres ir parar � pris�o?

Tenha calma, Sr. Comiss�rio.

Agora vais dizer-me quem est� por tr�s disto,

quem te mandou fazer estas coisas.

N�o podem fazer isto! Ela n�o fez nada!

Com licen�a. O que se passa?

� o Sr. Soubirous.

Ele veio buscar a filha que foi levada diante do Comiss�rio Jacomet.

- J� viu isto? - Com licen�a.

N�o sa�mos daqui enquanto isto n�o se resolver.

N�o vamos abandon�-la.

Quem �?

Desculpe. Jean Prevot, jornalista, vim de Paris.

O que t�m a ver com isto?

N�o gostamos muito de falar com pessoas que nos tomam por parvos.

� o pai da pequena Soubirous. Ela diz que viu a Virgem.

Trouxeram-na para falar com o Comiss�rio.

Obrigado. O que pode dizer-me sobre a fam�lia? Soubirous, n�o �?

- O que � que voc� quer saber? - Tudo. Acabei de chegar.

- Vejam! - O que se passa?

Ele libertou-a finalmente. Est� tudo bem.

Sil�ncio!

Estamos entendidos? Se ela voltar � Gruta,

ser� voc� o respons�vel.

Voc� j� esteve preso. Quer voltar para l�?

V�o!

De certeza que ela n�o fez nada.

N�o lhe disse, Lestrade? A mo�a est� a ser manipulada.

A teimosia dela serviu de prova.

"Na quinta-feira, dia 11 de Fevereiro, no dia do mercado,

"olhei para o lado da Gruta e a Virgem apareceu-me,

"vestida de branco, com 20 anos de idade."

Confabula��es!

Manipula��o!

V� l�!

Est�s bem?

Estou.

Porque te ris?

O Comiss�rio...

Viste como ele ficou furioso?

Os Soubirous t�m tanto azar...

A rapariga tem car�cter.

N�o viste nada, entendeste?

Ela diz que viu, Louise. A Bernadette nunca mente.

Foi a imagina��o dela. Apenas isso. Ou ent�o, foi obra do diabo!

Toda a gente sabe que os esp�ritos andam � solta em Massabielle.

� para estas coisas que o diabo serve.

O diabo n�o � assim t�o bonito, nem anda com um ter�o.

O diabo assume muitas formas.

N�o conseguiste ver-lhe os p�s.

O diabo esconde sempre os p�s.

- Louise! - Seja como for, pro�bo-te de ir!

Tenho medo que prendam a nossa Bernadette.

Com licen�a.

- Boa noite. - Boa noite.

Os Soubirous n�o t�m sorte nenhuma.

Porque diz isso?

Matam-se a trabalhar e a recompensa � uma filha que v� fantasmas.

N�o h� forma de faz�-la ver a raz�o.

Ela est� doida, devia ser internada. Os Soubirous � que n�o v�em isso.

N�s, os pobres, n�o devemos dar nas vistas.

Vou para casa. J� me bastou.

Boa noite.

N�o prometo fazer-te feliz neste mundo, mas s�-lo-�s no pr�ximo.

O problema � simples, Lestrade,

ou a rapariga est� a agir sob a orienta��o de algu�m,

ou sofre alucina��es.

Se se tratar do primeiro caso, temos de acabar com este esc�ndalo.

Se se tratar do segundo,

� preciso esclarecer isto diante dos mais simples e cr�dulos.

Sim, mas, por vezes, � mais f�cil identificar o culpado de um conluio

do que desmistificar um problema mental. � assim.

� uma conspira��o, acredite.

Mas feita por quem? Pela fam�lia, ou pelo Clero?

Se calhar por ambos, Sr. Procurador.

Mas acha que a Igreja tem necessidade disto, agora?

Pois claro!

N�o sabe que o povo se vira cada vez mais para as teorias socialistas

e abandona a religi�o?

Lourdes tornar-se-� noutra Compostela.

A Igreja tem todo o interesse em preservar o seu rebanho

e em alimentar a sua imagina��o.

Mas para qu� usar uma rapariga que nem sabe ler nem escrever,

que ainda � uma crian�a?

Precisamente.

Por todos esses motivos, Sr. Presidente da C�mara.

- N�o concorda, Sr. Comiss�rio? - Plenamente.

Eu quero andar na carro�a!

- P�ra! - Eu quero subir. P�ra!

J� chega! Deixem-no em paz!

Parem, meninos!

Obrigado, Bernadette.

Tenham pena de mim!

Vem.

O que fizeste quando a viste?

O sinal da cruz, naturalmente.

Mas...

... n�o fui capaz de levar a m�o � testa.

A minha m�o tremia.

Depois a senhora fez o sinal da cruz

e eu senti-me melhor. Fui capaz de alcan�ar o meu ter�o.

Essa senhora falou contigo?

Da primeira vez, n�o.

Ela estava s� a rezar o seu ter�o

mas os seus l�bios n�o se mexiam.

Da segunda vez...

... ela sorriu e anuiu.

E, da terceira vez,

quando a Sra. Milhet veio comigo

e me pediu para lhe passar uma caneta e um papel

para ela escrever o seu nome,

a senhora come�ou a rir e disse que n�o era necess�rio.

Ela fala contigo como eu estou agora a falar contigo?

Sim, ela fala comigo como uma pessoa fala com outra.

Pediu-me para fazer o favor de vir todos os dias durante duas semanas.

- Senhor Padre-Cura! - O que foi, Pomian?

Preciso de falar consigo. � sobre a pequena dos Soubirous.

O que tem ela? O que se passa?

Conte-me.

Aconteceu algo muito importante.

� assim...

Ela falou num som, como uma rajada de vento?

Sim.

Como o f�lego de Deus sobre Elias na caverna,

ou o Esp�rito Santo no dia de Pentecostes.

A pequena tem vindo frequentemente, desde que aquilo aconteceu.

A multid�o que a acompanha n�o p�ra de crescer.

Dizem que � um milagre, que � uma apari��o da Virgem.

- O que fazemos? - Nada, ora essa.

O que quer que eu fa�a? Que eu apoie o que se est� a passar?

Est� a ver-me em Massabielle, com a multid�o, a entoar c�nticos?

Se eu ceder � press�o p�blica, a este entusiasmo irreflectido,

qual ser� a minha posi��o

no dia em que se descobrir que tudo n�o passou de ilus�es e mentiras?

N�o, eu prefiro ignorar o que est� a acontecer.

Mas se n�o fizermos nada, seremos criticados.

E se agirmos, seremos respons�veis. S�o os tempos que vivemos.

Temos de esperar.

Temos de esperar.

"Bernadette pertence a uma fam�lia pobre.

"Desde o nascimento que ela combate pela vida,

"contra a infelicidade. O seu pai, Fran�ois Soubirous,

"� um moleiro falido, que foi preso em 1857

"acusado de furto qualificado.

"Por�m, a verdade, � que foi a mis�ria que o tornou suspeito

"de ser o autor de um roubo de farinha.

"Quanto � sua m�e, Louise Casterot,

de acordo com as m�s-l�nguas, � dada � bebida." Volto j�.

Voltaire, acorda!

Como � poss�vel que nos deixemos enrolar por uma menina?

A ci�ncia demorou s�culos a libertar o Homem do obscurantismo religioso

e bastar� um simples capricho para nos voltar a mergulhar l�.

N�o acredita em milagres?

N�o h� milagres que a ci�ncia n�o explique.

Com licen�a.

Com licen�a, cavalheiro.

Ponha-se em guarda, Dr. Dozous, que isto � contagioso!

N�o me diga. Com licen�a.

Disse aos teus pais que, se concordares,

podes ficar comigo, sob a minha protec��o.

Isso dever� impedir que as pessoas te incomodem.

Fico-lhe muito agradecida, mas estou muito bem em casa.

Penit�ncia. Penit�ncia pelos pecadores.

- Eu n�o vejo nada. - Eu tamb�m n�o.

Ela n�o sabe o que faz.

Com licen�a.

O que � que ela est� a fazer?

Ela acha que � uma cabra!

N�o acredito.

Ela est� louca!

O que � que ela vai fazer agora?

� uma farsa!

Ela est� louca!

Isto � rid�culo. Ela faz pouco de n�s.

- Ela � minha irm�! - V�-se embora!

� a minha irm�! Deixem-na! Deixem-na!

Pobre Soubirous!

Vem c�, minha filha. J� acabou.

Deixem-na em paz, por favor. Vamos.

Saiam do caminho. Saiam!

Deixem-nos passar.

Parem! Deixem-nos em paz!

Com licen�a!

- � o Doutor Dozous? - � o jornalista de Paris?

Jean Prevot. Queria falar-lhe sobre a Bernadette.

O senhor tamb�m viu o fen�meno, n�o foi?

Imagino que v� dizer nas colunas do seu jornal

que ela � uma doida varrida.

Ainda n�o formei uma opini�o, estou apenas a observar.

N�o � a primeira vez que este tipo de fen�meno acontece.

Fala-se em apari��es da Virgem em Montauss�. Ser�o confabula��es?

N�o sei de nada. Ainda n�o me debrucei sobre essa quest�o.

E no caso particular desta rapariga, acredita?

- Absolutamente. - Dizem que ela sofre de catalepsia.

Mas quem � que diz? Os seus colegas do "Le Lavedan"?

Em vez de se precipitarem a escrever artigos, era bom investigar.

J� conhe�o a Bernadette h� muito tempo, sei de que falo.

Ela � uma menina fr�gil.

Em tempos sofreu de c�lera e sofre de uma asma cr�nica.

N�o � por isso que tem dist�rbios mentais.

Por�m, se descarta a hip�tese da fraude e do desequil�brio mental,

dir-se-ia que acredita em milagres. Isto vindo de um homem de ci�ncias.

E o senhor jornalista acredita em milagres?

Passe bem, cavalheiro.

Dizem que �s louca.

O que � que te possuiu?

S� fiz o que ela me pediu.

- Ela falou contigo? - Sim.

- E a erva que comeste? - Era amarga.

- Ela pediu-te que o fizesses? - Sim.

As pessoas n�o entenderam porque � que o fizeste.

Porqu�?

Pelos pecadores, como gesto de penit�ncia.

Vai abrir.

Bom dia.

Tenho ordens para lev�-la diante do Procurador Imperial.

Eu vou com ela.

As minhas cadeiras estendem-vos os bra�os. Sentem-se.

N�o!

Vamos suj�-las.

Sente-se, minha senhora.

O raio das apari��es...

Diz-me...

... nunca viste fadas, nem bruxas?

� que, em Lourdes, toda a gente v� fadas e bruxas.

Tu vais parar de mentir,

porque tu est�s a mentir.

Est� algu�m a dar-te dinheiro? A ti e � tua fam�lia?

- Sim ou n�o? - N�o, n�o h� dinheiro.

Bom, se n�o � dinheiro s�o favores.

N�o, cavalheiro.

Sra. Soubirous, a senhora limpa a casa de uma tal de Sra. Milhet?

Sim, senhor.

Fui informado de que essa senhora � dona de uma fortuna consider�vel.

N�o sei.

N�o sei o que me est� a perguntar, nem o que pretende saber.

Entendo. E tu...

Levaste a Sra. Milhet � gruta v�rias vezes.

Sim, senhor.

Em todas as vezes, aproveitaste-te da hospitalidade dela.

Vejamos, no dia 18...

... no dia 19 e no dia 20.

Ela � que veio ter comigo.

E agora � uma tal de Sra. Peyret, presidente das Crian�as de Maria,

que faz trabalhos de costura para a Sra. Milhet,

que tu acompanhas todos os dias.

E ent�o?

Ent�o, o qu�?

N�o pedi nada a ningu�m.

Diz-me, Bernadette, h� quem diga que tens poderes.

Que curas os enfermos.

Eu n�o curei ningu�m.

Tens a no��o do caos que provocas?

Mas acabou-se, tu n�o vais regressar � gruta.

Eu vou l� voltar.

- O qu�? - N�o posso deixar de o fazer.

Vou chamar o Comiss�rio para te vir buscar.

Vais dormir na pris�o.

Se estiveres presa, vai ser mais dif�cil l� ires.

N�o chores, m�e. N�o fizemos nada de mal.

V�, v�o-se embora.

Saiam!

- Ent�o e a pris�o? - Amanh� logo se v�.

E ent�o?

Quase que se acredita nela.

Sim, h� �gua aqui.

- � uma nascente! - � um milagre!

- �gua! Quem tinha raz�o? - Tu!

Vem ver, Jeanne!

Est� fria. Ele tinha raz�o. � uma nascente!

�gua...

Consigo ver.

Vejo tudo.

O que dizes? � um milagre!

Vejo os teus olhos, os teus lindos olhos.

Estou a ver-te, Jeanne. Estou a ver-te!

- Pode ir. - Obrigado.

Consigo ver, Doutor! Estou a ver do meu olho!

Que conversa � essa?

Consigo ver do meu olho mau! Fui curado!

� imposs�vel!

A Jeanne molhou-me a cara com a �gua de Massabielle.

- Uma hora depois, estava a ver! - Acalme-se.

Eu consigo ver, Doutor. � um milagre.

Siga-me.

Tape o olho direito com a m�o. Ora bem.

O que l� aqui?

"Bourriette sofre...

"... de uma amaurose incur�vel. Perdeu o olho esquerdo."

Consigo ver, Doutor!

- Eu escrevi isto h� dois anos. - Consigo ver do meu olho.

Bom dia. Aqui tens.

- Obrigada. O que viste na gruta? - N�o.

O meu neto quer ver-te. Ele n�o anda desde o Natal.

Ele mal come e os m�dicos dizem que n�o tem cura.

- Eu n�o tenho poderes. - Desde que ele soube de ti,

que n�o pensa noutra coisa.

Est� bem, vamos.

E ent�o, Jean-Marie?

N�o queres levantar-te?

Nem queres comer?

N�o gostas da comida que te d�o?

- Bem, tenho de ir. - N�o.

Quero comer e beber.

Obrigada.

Eu regressarei.

Detenham-na! Ela est� maluca!

- N�o, Nossa Senhora vai salv�-lo! - O que est� a fazer?

Quero oferecer o meu filho � Virgem.

Pare! Pare!

Ave Maria, cheia de gra�a.

M�e extremosa e carinhosa.

Virgem Imaculada, estrela da manh�, ref�gio dos pecadores.

Santa Maria, M�e de Deus, rezai por n�s, pecadores,

agora e na hora da nossa morte.

O que acha disto tudo? Viu alguma coisa?

Eu n�o vi nada.

Venham comigo. Provem este chocolate.

� a mais recente cria��o do meu marido.

Importa-se que eu prove um?

Que del�cia, Sra. Pailhasson.

Uma verdadeira iguaria.

Mas creio que as senhoras est�o a ser demasiado severas.

A jovem v� e que mal tem isso?

� muito ing�nua, Sra. Loyson.

- Coma outro chocolate. - Deixem-me fazer-vos uma pergunta.

- J� foram v�-la � gruta? - Com certeza, como toda a gente

e posso assegurar-lhe de que foi um espect�culo aflitivo.

Tanta gente, uns em cima dos outros...

Isto n�o vai ajudar em nada a nossa igreja.

- Fa�a favor. - Obrigada.

- O Presidente da C�mara. - Bom dia, Sr. Presidente.

- Bom dia, minhas senhoras. - Queremos a sua opini�o.

- O que diz disto da gruta? - Mais tarde, se n�o se importam.

O Sr. Pailhasson est�?

Sim, ele est� a preparar novas guloseimas para n�s. Aceita uma?

N�o, obrigado pela gentileza.

Espere, � o �ltimo.

Percorreu sete quil�metros a p� at� � gruta,

gr�vida como uma baleia e com dois pequenos agarrados �s saias.

Ela ajoelhou-se junto � nascente descoberta pela jovem Soubirous

e mergulhou a m�o inv�lida na �gua.

Depois lan�ou um grito de surpresa

quando os seus dedos mortos se abriram.

- Instantaneamente? - Instantaneamente.

Ela sofre, ou sofria de qu�?

Ela chama-se Catherine Latapie.

Os m�dicos diagnosticaram-lhe uma paralisia do nervo cubital

provocada por uma distens�o do plexo braquial.

Sem hip�tese de recupera��o.

E foi a �gua que lhe permitiu voltar a gozar do pleno uso da m�o?

- Posso contar com a sua discri��o? - Com certeza.

� a mim que procuras?

Sim, Sr. Padre-Cura.

Ent�o v�, entra.

Ent�o, o que � que tu queres?

Continuas a dizer a toda a gente que v�s a Virgem Santa?

Eu nunca disse que era a Santa Virgem.

Ent�o quem �? Uma bruxa, uma fada?

Porque � que as pessoas que te seguem, dizem que � a Virgem?

Sei l�!

Tu sabes l�...

Toda a gente vai fazer pouco de ti, pequena.

Olha, tenho trabalho para fazer. Deixa-me em paz.

Vai para o p�tio.

Trago uma mensagem da parte da senhora.

Qual mensagem?

A senhora quer que se fa�a uma prociss�o at� � gruta.

Ela tamb�m quer uma capela.

Mais alguma coisa?

Ela deu-te dinheiro para erguer a tal capela?

- N�o. - E tu tens?

- N�o. - Eu tamb�m n�o.

Diz � senhora que, primeiro, queremos saber o nome dela.

Se ela n�o tem nome, n�o existe.

Mas, quando lhe pergunto, ela s� sorri, n�o me responde.

N�o vou construir uma capela se n�o souber o nome dela.

E mais.

Pede-lhe que fa�a florir a sar�a da gruta.

Sim, parece que h� sar�a junto �s rochas.

Pronto, se ela nos disser como se chama e se fizer florir a sar�a,

n�s constru�mos-lhe uma capela.

E ser� uma grande capela.

- Vou dizer-lhe. - Vai l�.

N�o te esque�as da sar�a!

Ela v� a Virgem Maria?

Muito bem, temos aqui a ponte velha,

o caminho da floresta e o caminho para a gruta.

Quem n�o conseguir alcan�ar a gruta, vai pendurar-se nas pedras.

Se cair uma pedra, pode haver feridos.

Em baixo, diante da gruta

temos dois ou tr�s metros, por causa do riacho.

Com tanta gente junta, se o p�nico se instalar,

ou se houver uma escaramu�a, tudo pode descambar rapidamente.

Que Deus nos livre. At� hoje n�o houve nada a relatar.

N�o sei quem est� por tr�s desta perigosa farsa,

mas vou impedir que eles se aproveitem dos ing�nuos.

Continue, Callet.

A Igreja n�o apoia as apari��es de Massabielle, como bem sabe,

nem as alegadas curas milagrosas.

Muito bem. Ent�o porque n�o tenta impedi-la de ir � gruta?

As suas idas s� acentuam o problema.

Isso � um assunto da fam�lia dela. E o senhor?

O senhor � que � respons�vel pela ordem p�blica, n�o sou eu.

N�o posso pronunciar-me sobre o que leva a crian�a a agir desta forma.

N�o tenciona usar a sua influ�ncia para levar a jovem a ver a raz�o?

Dei ordem aos vig�rios para n�o irem � gruta nem se envolverem.

Ai, sim? Mas as suas ordens n�o foram ouvidas,

a menos que se trate de um jogo duplo.

Basta, Sr. Procurador!

Ouvi um dos seus vig�rios, o Pomian, a dizer-lhe:

"Ningu�m pode impedir-te de ir � gruta, vai sem medos."

Isso � uma acusa��o sem fundamento.

Ele � o capel�o do hosp�cio onde a Bernadette tem as suas aulas.

Ele ouve-a em confiss�o, mas ouvi-la n�o significa que a encoraje.

N�o conte comigo para apoiar esses rumores,

nem para envolver a Igreja.

A Igreja j� est� envolvida, quer queira, quer n�o...

... por sua culpa.

Veja onde pisa, Sr. Procurador.

N�o sou cego.

Apresse-se a entrar.

- Boa noite. - � aqui?

N�o, fica mais � frente.

- Que fedor! - Pois �.

� insuport�vel! Como � que algu�m vive nesta imundice?

Pergunto-lhe o mesmo, Sr. Procurador.

C� est�, cheg�mos.

Desapare�am!

Fa�a favor.

- Muito bem... - Sente-se, Sr. Procurador.

Est� com medo de sujar a cadeira?

N�o, obrigado. N�o ficamos.

- N�o nos demoramos. - Pois n�o.

Creio que encontraremos uma solu��o.

N�o podemos impedir que a multid�o se desloque a Massabielle,

mas se a Bernadette n�o for

podemos dizer �s pessoas que ela ganhou ju�zo.

Pensem nisso.

O que acham?

S� temos a ganhar.

� uma quest�o de ordem p�blica.

- N�o � verdade, Comiss�rio? - Com certeza.

Muito bem...

Fala com ela por uma vez.

Que mais posso eu dizer-lhe?

Cinco moedas de cinco c�ntimos e uma de dois c�ntimos.

Um ter�o antigo.

- Um ramo de... - Louro.

... louro, com dois bot�es de rosa.

Uma bandeirola com a imagem de Cristo.

Um nicho decorado com musgo com uma estatueta da Virgem.

- Que coisa t�o feia. - Uma medalha.

Uma coroa de flores.

- � tudo. - Vasculhem tudo!

- Viram ali em cima? - N�o.

Ent�o, v�o l�!

Decerto que acabamos por encontrar petardos ou fogo-de-artif�cio.

De certeza que v�o tentar enganar-nos. E ent�o?

Nada!

N�o h� mesmo nada?

- N�o, n�o h� mais nada. - Est� feito ent�o.

Se ao menos o tempo piorasse...

Vamos l�! Livrem-se desta tralha toda! N�o quero ver mais nada aqui!

Porqu� negar o �bvio?

Os milagres n�o se explicam.

Eles vivem-se.

Este fervor � comovente.

- Acha que sim? - Sim.

Seja como for, os nossos esfor�os n�o foram em v�o.

A Bernadette n�o vir� mais.

Vou falar com eles.

Ou�am-me!

O que se passa?

O que � isto?

Toque na minha filha.

Eugenie.

Leve-a � nascente e lave-lhe os olhos com �gua.

Obrigado.

P�ra! P�ra com isso!

Por favor, diga-me o seu nome.

- Nada se passou? - N�o.

Bom, nada de novo, nem de extraordin�rio.

- A sar�a n�o floriu. - Claro.

- Ela ficou desapontada? - N�o, mas a multid�o ficou.

� melhor assim.

Como pode dizer isso?

As nossas igrejas nunca estiveram t�o cheias,

desde que Bernadette visitou a gruta.

O confession�rio n�o tem folgas.

A verdadeira f� n�o precisa de folclore.

N�o se mede pelo n�mero de seguidores.

Mas as multid�es n�o se re�nem � toa

e o seu fervor � sincero.

Teria testemunhado isso mesmo se tivesse vindo connosco.

Se recusei foi tanto por desconfian�a,

como para proteger a crian�a. - Ent�o ela tamb�m o tocou.

O meu cora��o est� com ela,

mas a minha mente mant�m-se prudente.

� precisamente por querer que ela diga a verdade,

que prefiro cham�-la mentirosa.

Dezoito horas!

Dezoito horas para ir de Bord�us a Bagn�res-de-Bigorre

e outras tr�s para chegar aqui. Estou exausto.

- Anda. - Que pesadelo!

O comboio h� de chegar a Lourdes um dia.

A Lourdes? Pois claro...

- Importas-te? - Faz favor.

Bom, tratemos de assuntos s�rios.

Em que p� estamos com a Soubirous?

Uma pomba esvoa�a sobre a sua cabe�a?

Ela curou os cegos todos?

Sabes que o Savignol est� furioso contigo.

Porqu�?

Todos os jornais, "Le Si�cle", "Le Charivari", "Le Journal des D�bats",

todos fazem pouco desta pequena desvairada

e tu, t�o ing�nuo como os seus seguidores,

s� sabes escrever que da jovem exala o charme de uma alma pura

e que � imposs�vel n�o nos sentirmos abalados por este fen�meno.

- N�o renego a nada do que escrevi. - Falas a s�rio?

Acreditas que estas curas inexplic�veis se explicar�o um dia?

- Escuta, juro-te que... - N�o, Jean, n�o jures nada.

O que � que te deu?

J� n�o te reconhe�o!

Tu, o jornalista incorrupt�vel, o laico empedernido.

Foste tocado pela gra�a?

Se calhar...

O charme de uma alma pura!

Bernadette, o que est�s a fazer?

- Vou � gruta. - Bernadette, vais ficar doente.

- Espera at� ao nascer do sol. - Tenho de ir agora.

A minha prima espera por mim.

Prima.

Vieste.

Segue-me.

V�s? Bem te disse que ela vinha.

Anda.

Mant�m-te perto de mim.

Minha senhora, imploro-lhe.

Diga-me quem �.

Diga-me o seu nome.

Fa�a-me a gra�a de me dizer o seu nome.

Imploro-vos.

"Que soy era Immaculada Councepciou."

"Que soy era Immaculada Councepciou."

"Que soy era Immaculada Councepciou."

Vejam, � a pequena Soubirous.

Sr. Padre-Cura!

Tu outra vez! O que � que tu queres?

"Que soy era Immaculada Councepciou."

O qu�?

"Que soy era Immaculada Councepciou."

O que est�s a dizer?

Perguntei � senhora como se chamava

e ela respondeu: "Que soy era Immaculada Councepciou."

V�, entra, entra.

Est�s enganada, ou ent�o algu�m te enganou.

N�o, repeti a frase durante todo o caminho.

Repeti��es, repeti��es e repeti��es.

Essa frase n�o quer dizer nada.

A senhora n�o pode ter-te dito isso.

Ela n�o pode chamar-se assim. V�, entra.

- Conheces a Imaculada Concei��o? - N�o, senhor.

Nunca te contaram?

Pensa bem. Talvez o teu confessor, o Padre Pomian?

N�o, senhor.

A Sra. Milhet, ou a Sra. Peyret?

N�o.

- Leste em qualquer lado? - Isso seria dif�cil.

Senta-te.

De certeza que ela n�o disse: "Sou a Virgem", ou "Sou a M�e de Jesus"?

N�o, ela disse:

"Que soy era Immaculada Councepciou."

- Em pato�? - Sim.

Mas como � isto poss�vel?

Bom, Bernadette, dentro de semanas vais fazer a Primeira Comunh�o.

Vais, pela primeira vez, aproximar-te do Santo Altar.

Sabes o que isso significa? Se mentiste...

Olha, admite que algu�m to disse. N�o vou ficar zangado.

Mas n�o tenho nada a admitir, Sr. Padre-Cura.

- Ela ainda quer uma capela? - Sim.

� o que vai ter, prometo-te.

Mas o que � a Imaculada Concei��o?

Quando queres obter �gua l�mpida de uma nascente lamacenta, o que fazes?

Vais filtr�-la, para te livrares da sujidade

at� ficar perfeitamente transl�cida.

Foi isso que Deus fez atrav�s de Maria.

Ele permitiu que ela reconquistasse a sua pureza original

para que pudesse dar � luz Jesus, livre de pecado.

Entendes?

N�o.

Vais entender mais tarde.

"Jesus chamou os seus doze dis...

"disc�pulos e deu-lhes...

"... o poder de afastar o mal."

D�-me um instante.

O que se passa, Bernadette?

V�, estou a ouvir.

Porque � que a Virgem Santa teve de ser purificada

antes de dar � luz Jesus?

Porque...

Porque era preciso ser pura.

E pronto. As coisas s�o assim e n�o podiam ser de outra de forma.

De outra forma?

De outra forma...

De outra forma, nada.

Nem � preciso dizer

que s� uma pessoa limpa de todo o pecado

podia dar � luz o filho de Deus.

Sentem-se.

Irm�, pe�o desculpa por interromper a sua aula,

mas venho buscar Bernadette Soubirous.

Podes ir, Bernadette.

Obrigada, Irm�. Vem comigo.

Vou levar-te � enfermaria.

Mas n�o estou doente.

Eu sei.

N�o te preocupes.

Cavalheiros, c� est� Bernadette Soubirous.

- Bom dia. - Bom dia, menina.

Bernadette, asseguro-te que os Drs. Balencie, Peyrus e Lacrampe

n�o te querem fazer mal. N�o �, cavalheiros?

- Com certeza. - Evidentemente.

Vou deixar-vos.

- Tu sabes o que � uma alucina��o? - N�o, senhor.

- E uma ilus�o? - Tamb�m n�o.

Isto n�o te faz lembrar nada?

Tens tido dores de cabe�a?

- N�o. - Nunca?

- Ocasionalmente. - Quanto � cinco vezes cinco?

- Vinte e cinco. - E 17 vezes 38?

N�o sei.

O senhor sabe?

Importa-se, menina?

Com licen�a.

Ora aqui est�. Muito bem...

Muito bem...

V�? A cabe�a dela tem a forma normal.

Normal mas estreita.

- Esperem, esperem. - O que foi?

Aqui, sim. Vejam, por favor.

- O que se passa? - Sentem esta sali�ncia?

- � uma sali�ncia muito pequena. - Muito pequena.

- Cavalheiros, por favor. - Eu ca� no p�tio.

- Ai sim? - Enquanto brincavas, naturalmente.

Com licen�a. Abre os olhos.

Sim, assim.

- Tem um olhar estranho. - Sim, peculiar.

Os olhos t�m uma express�o vivaz.

- Realmente. - Com licen�a.

Anda, rapariga, deita-te, por favor.

Acalma-te, minha pequena.

Respira, por favor.

Tem uma pieira ligeira caracter�stica da asma cr�nica.

- Est�s a ser tratada? - O Dr. Dozous � que me trata.

O bom velho Dr. Dozous!

Ele est� convencido de que n�o est�s a mentir quanto a isto da Virgem.

- E n�o estou a mentir. - Ent�o, sempre a v�s?

Sim, vejo-a! Vejo-a como vos vejo a voc�s,

ela fala comigo, estende-me os bra�os e gesticula!

- Porque � que �s a �nica que a v�? - Sei l�!

- Mentiras. - N�o sei! N�o sei!

Alucina��es.

Deixem-me em paz!

�s tu a Santa.

N�o tenho poderes! Deixem-me em paz!

Espera.

Deixem-me!

- Deixa-me tocar-te. - Olha para n�s!

Est�s bem?

Deixem-nos!

- Viste isto? - Pobre mo�a.

Eles est�o todos loucos.

Deviam ser internados.

Deixem-na!

Deixem-na em paz! N�o lhe toquem!

Deixem-na em paz!

Parem!

Espera por n�s, Bernadette!

Deixem-nos estar!

N�o! Deixem-na! Deixem-na!

Bernadette, vais para o Sajous.

N�o, j� chega! N�o v�o entrar!

Ol�, Doutor.

Viram? O Dr. Dozous est� a ignorar-nos.

Naturalmente, n�o o consult�mos.

Ele j� n�o � o homem da ci�ncia que em tempos conhecemos.

Infelizmente, tamb�m j� caiu no esquema.

E o relat�rio?

"A doen�a que podemos atribuir a Bernadette

"n�o apresenta qualquer risco � sa�de da crian�a,

dentro do que nos foi poss�vel determinar."

Entenderam alguma coisa?

O que eu entendo � que ningu�m quer assumir responsabilidades.

Tamb�m n�o podemos internar a crian�a, porque n�o est� louca.

Sr. Padre!

Foram os senhores que enviaram m�dicos para examinar a Bernadette?

Sim, Sr. Padre-Cura, sob as ordens do Governador.

A Bernadette n�o est� louca!

Mas com este tratamento, ainda a enlouquecem!

Se se tivesse interessado pela pequena,

provavelmente, n�o estar�amos aqui.

O senhor virou costas ao Procurador Dutour, quando ele lhe pediu ajuda.

Houve desenvolvimentos importantes desde ent�o.

- Claro, quando lhe conv�m... - Digam ao ilustre Governador Massy

que a Bernadette n�o vai para o hospital psiqui�trico.

A partir de agora, ela est� sob a minha protec��o.

Se enviar os guardas para a levarem, v�o passar primeiro por mim.

V�o ter de me mandar ao ch�o e passar por cima de mim

antes de lhe tocarem num cabelo que seja.

- Monsenhor. - Bom dia, Sr. Cura. Esperava-o.

Sente-se.

Estou a ouvi-lo.

Todos os dias recebo dezenas de cartas

de toda a Fran�a e do estrangeiro que querem saber a verdade.

Eles querem saber a verdade, mas qual verdade?

Est� na hora de a Igreja se impor.

O senhor � um homem paciente?

N�o, Monsenhor.

A crian�a est� a ser sujeita a prova��es intoler�veis.

N�o posso aceitar uma mensagem divina

vinda de uma camponesa analfabeta.

Preciso de provas, provas irrefut�veis.

- Mas foi o que lhe trouxe. - Isto s�o provas em segunda m�o.

Esta gente doente que, de repente, se levantou

que recuperou a vis�o, estes casos desesperados...

Porque n�o?

O problema � que h� demasiados casos desses.

Como � que se separa o trigo do joio?

Com uma ordem oficial de investiga��o.

Que farsa!

Que desilus�o!

- Tu viste alguma coisa? - N�o.

A culpa � tua, dev�amos ter vindo mais cedo.

Ouviste o que disse o Dr. Dozous? Quando a mo�a a viu,

ela protegeu a chama da vela com as duas m�os

e n�o sentiu nada.

Quando ele a examinou, n�o encontrou sinais de queimaduras.

Desculpa, mas continuo a achar que isto n�o passa de histeria colectiva.

- Sem tirar, nem p�r. - Mas, Pierre!

- N�o v�s o que se passa? - Vejo.

E o que vejo n�o � o que dizes.

Esta jovem iletrada foi de tal forma manipulada

pelo Peyramale e pelos seus ac�litos,

que se tornou numa manipuladora perfeita

e numa actriz not�vel.

Uma actriz daria um espect�culo,

demonstraria emo��o...

Mas n�o me arrependo de ter vindo.

As pessoas s�o simp�ticas!

Porque � que isto me aconteceu?

N�o sou nenhuma santa, sou normal!

Sou uma pessoa como qualquer outra.

N�o, Bernadette.

�s a mensageira de Maria.

N�o fizeste nada para receber esta gra�a e est� muito bem assim.

Quando ela te aparece,

tu ficas branca.

Se ela est� triste, tu tamb�m est�s.

Se ela est� feliz, tu tamb�m est�s.

Achas que um dia vestirei o h�bito?

Vais deixar os teus?

- Tenho medo de o fazer. - E os teus pais?

O meu pai n�o ia ficar feliz, ele quer guardar-me para sempre.

- D�s-te bem com o teu pai? - Sim.

Mas tamb�m adoro a minha m�e.

No entanto, sinto-me mais pr�xima do meu pai.

Se calhar, porque ele me visitou todos os dias

quando estava com a minha ama, em Bartr�s.

N�o sei porqu�, mas a minha m�e visitou-me menos.

Tamb�m gostava de me tornar freira,

mas os meus pais n�o est�o preparados.

A minha m�e diz que sou muito nova para viver como um cad�ver.

Ela espera que eu me apaixone

e que viva uma vida normal.

Est�s a rir de qu�?

Olha s� para ti!

A tua vida corre-te de fei��o.

�s professora.

Sabes ler, sabes escrever

e �s t�o bonita.

J� eu, antes de ser visitada pela Senhora, n�o tinha nada.

Bernadette...

Sr. Governador, fa�a favor.

Basta!

Os Ministros da Justi�a e dos Assuntos Religiosos

mandaram-me acabar com este esc�ndalo!

� uma viola��o da lei e uma afronta � dignidade da religi�o!

Foi constru�do um altar,

embelezaram o espa�o

e facilitaram os acessos!

S� falta celebrar l� missa!

Vamos dividir a estrada que segue para a gruta.

Quem chega segue pela esquerda e quem sai, segue pela direita.

Sobretudo, cavalheiros, pe�o-vos que mantenham a calma

e que n�o d�em ouvidos �s provoca��es.

Dispersem a multid�o! Vamos l�! Vamos l�!

Saiam todos da gruta!

Sr. Padre?

- E ent�o? Ainda n�o acabou? - N�o.

Recebi os resultados das an�lises feitas � �gua de Massabielle.

Ao contr�rio do que afirma o farmac�utico local,

a �gua � perfeitamente pura, l�mpida,

incolor, inodora e sem sabor,

e, sobretudo, n�o tem nenhuma propriedade terap�utica.

Bem, vamos l�?

Obrigado, irm�.

Bom dia.

Bom dia.

Bernadette, fala-se de ti em todo o pa�s,

at� em Paris, sabias?

- D�em-lhe um minuto. - Sim, eu sabia.

Muitos jornais falam de ti. Esperavas isto?

- N�o l�s os jornais? - N�o sei ler.

- Isto n�o te interessa? - N�o, longe disso.

Escuta, Bernadette, tenho uma proposta para te fazer.

Vens comigo para Paris e, dentro de tr�s meses, ser�s rica.

Deixa-me fazer a tua fortuna.

Agrade�o, cavalheiro, mas prefiro permanecer pobre.

Pierre, Pierre, Pierre!

O que � que te deu para falares com ela assim?

- A mo�a merece respeito. - E ent�o?

Eu estava a ser perfeitamente sincero.

Um exclusivo vale uma fortuna.

N�o percebo o que fiz de mal.

Eu teria partilhado o dinheiro com ela

e at� contigo.

� PROIBIDO ENTRAR, BEBER A �GUA E TOMAR BANHO.

N�o podemos fazer nada!

Assine aqui.

Obrigado.

- Cavalheiro, � para a gruta. - N�o, n�o...

� importante!

Pela reabertura da gruta.

� importante. Isto envolve-nos a todos.

O que � isto da peti��o? Mas j� cheg�mos a isto?

- Sr. Padre-Cura. - Espere.

Ouvi dizer que houve quem se armasse com barras de ferro e martelos

para for�ar a entrada na gruta. - Isto � importante!

Importunar a ordem p�blica

� fazer a vontade �queles que querem prender a Bernadette!

N�o entende isso? Francamente!

Bernadette � uma menina da nossa terra.

Os ricos perseguem-na com a cumplicidade da sua pol�cia

e dos seus m�dicos.

Escutem, n�o o fazem por ela ter visto a Virgem,

fazem-no, porque ela � pobre!

O que eles querem

� impedir que os pobres tenham acesso � �gua da gruta

para poderem vend�-la a um pre�o alto.

Mas n�s n�o vamos permitir isso!

Vamos! Avante!

A� est�. J� destru�ram as barreiras por tr�s vezes

e por tr�s vezes sa�ram impunes.

Eles dificultam o trabalho dos vigias

e n�s n�o somos avisados a tempo.

Ao trabalho! Ao trabalho!

Vamos organizar uma vigil�ncia permanente.

Acreditem, a �ltima palavra ser� nossa.

- Sim, Sr. Comiss�rio. - Execu��o!

Tu, segue-me, anda.

Retirem tudo isso! Depressa!

- O que disse? - Mandei retirar tudo.

Isto � alguma piada? Continuem!

Parem! � uma ordem vinda de cima.

- Do Imperador? - Exactamente.

Ele mandou reabrir a gruta.

- Ent�o, o que fazemos? - V�o para casa.

- E quem nos paga? - Resolvam com o Inspector Jacomet.

Nada disto faz sentido.

O Ministro dos Assuntos Religiosos,

representado pelo Governador Massy,

ordenou que acab�ssemos com este esc�ndalo

por todos os meios necess�rios.

"Foi constru�do um altar, embelezaram o espa�o.

"S� falta celebrar l� missa."

Foram estas as palavras dele, as palavras exactas.

E que grandes palavras... Agora temos de voltar atr�s.

Ningu�m lhe pediu a opini�o. Pedimos-lhe que execute uma ordem.

- Mas, Sr. Procurador... - Execu��o.

Parem tudo!

Parem tudo! V�!

Inacredit�vel!

Desapare�am. N�o t�m nada a fazer aqui.

V�o l�!

V�o.

Tenho duas boas not�cias para vos dar.

Primeiro, o nosso bispo, Monsenhor Laurence,

decidiu reunir a Comiss�o Episcopal para discutir o caso da Bernadette.

Isso s�o boas not�cias? O que querem saber?

Eles v�o perguntar-te o que aconteceu na gruta.

Outra vez? J� respondi a isso centenas de vezes.

Tem de ser.

A segunda boa not�cia,

� que vamos albergar a Bernadette no hosp�cio.

L�, ela ficar� a salvo e poder� continuar com a sua instru��o.

- As freiras n�o v�o concordar. - J� concordaram.

Ela ficar� como interna e a Madre Alexandrine j� concordou.

A C�mara vai pagar a sua estadia como indigente.

Mas n�o tenho jeito para fazer nada e ando sempre doente.

N�o quero ir. A minha fam�lia precisa de mim.

Eu aluguei para eles o moinho de Gras.

Em Lapaca?

O teu pai pode retomar o seu antigo emprego

e a tua m�e n�o precisar� de trabalhar.

Eu ficarei finalmente em paz.

Como � que ela estava vestida?

Trazia um vestido branco,

um v�u branco e uma rosa em cada p�.

As rosas tamb�m eram brancas?

N�o, amarelas.

Amarelas? De certeza?

Sim, uma rosa amarela em cada p�.

- Quer descansar? - N�o.

Obrigada, estou bem.

Continuemos.

O que sentiu quando a viu?

Senti alegria,

muita alegria.

Alegria?

Sim, uma alegria imensa.

Conte-nos o momento em que descobriu a fonte.

Em que dia foi?

- N�o sei, n�o me lembro. - Esforce-se.

A verdade precisa de exactid�o.

N�o sou mentirosa. Eu sei o que ela disse, mas j� n�o me lembro quando.

Continue. Estava prestes a beber do Gave?

Sim.

Mas a Senhora disse-me para n�o o fazer.

Ela mostrou-me outro s�tio,

mas n�o tinha �gua.

S� tinha pedras e poeira.

O que fez?

Obedeci.

Como explica o facto de a vis�o lhe ter mandado dizer aos padres

para organizar uma prociss�o solene at� � gruta no dia seguinte?

� a primeira vez que sabemos disto.

Estou cansada.

Estou cansada.

"Fotografias e retratos da gruta de Lourdes

"e retratos de Bernadette, a pre�os acess�veis para oferecer."

A Igreja confirma as apari��es e os sete milagres,

as prociss�es est�o a ser organizadas.

Bernadette s� tem de se esconder atr�s da sua imagem.

N�o me digas que compraste a �gua de Massabielle!

Sim.

Deste-lhes dinheiro!

- Pois foi. - Que milagre esperas?

Est�s de perfeita sa�de. Est� tudo bem, n�o �?

J� entendi!

Esperas que esta �gua te ajude finalmente a encontrar o amor.

Tu �s muito perspicaz.

Ningu�m te consegue esconder nada.

Os catal�pticos.

Que actores!

Basta que um tenha um ataque

para que os outros o imitem.

- Procura algu�m? - Elise Pr�vot.

- � uma das suas pacientes? - � a minha irm�.

Enfermeira! Chame Elise Pr�vot.

Como vais?

Olha!

Pega nisto.

Bebe.

Bebe e ficar�s curada.

Prometo que ficar�s curada.

A Madre Alexandrine est� ali.

Obrigada, Irm�.

- Madre Alexandrine? - Sim? Com licen�a.

- Bom dia, Sra. Soubirous. - Obrigada.

Muito obrigada!

Tiveram a gentileza de aceitar a Bernadette e...

N�o se preocupe, minha senhora.

Decerto que ela ser� irrepreens�vel.

V�s, Bernadette, confiam em ti.

Podes juntar-te �s outras meninas. J� vou ter contigo.

Agora tudo ficar� bem.

- Obrigada, Madre. - Adeus, minha senhora.

Vamos, est� na hora. Podem ir.

Em sil�ncio.

- Adeus, irm�. - At� amanh�.

Bernadette?

O que se passa, Bernadette?

- O que foi? - N�o entendo nada.

V�o ter de me obrigar a engolir este livro,

porque n�o entendo nada.

Est�s cansada de ler?

Pelo menos, tenta aprender a escrever.

V�.

V�.

Tens aqui os modelos,

basta copi�-los. Tenta.

Tenta de novo, n�o est� mau.

A Bernadette est� pronta?

Pronto, j� chega. Toca a andar!

Vem comigo.

Ajoelha-te aqui.

Isso mesmo.

M�os juntas.

- Mexeste-te? - N�o.

- Mexeste-te, sim. - Doem-me os joelhos.

- Oito minutos n�o � uma eternidade. - Queria v�-lo a tentar.

- E agora? - � mais f�cil sem isto.

Que surpresa!

Vou p�r isto aqui.

Pronto!

N�o te mexas! Imagina que tens a Senhora diante de ti.

Faz um ar radiante.

Como quando a v�s. Est�s pronta?

N�o, n�o � assim!

- O que foi? - Assim n�o serve!

N�o tens a express�o que tinhas quando viste a Virgem.

Mas ela n�o est� aqui.

� assim todos os dias.

A Bernadette est� a ser muito paciente.

N�o se iluda, Monsenhor, isto depende da disposi��o dela.

Ela faz o que a sua sa�de lhe permite.

Com certeza.

Isso tamb�m.

- Bom dia. - Bom dia.

N�o preciso de nada.

N�o � para si, � para os pobres.

Ter� o prazer de dar a esmola.

Ent�o d�-a em meu nome, cavalheiro.

N�o vale mais por ser eu a dar.

Obrigado.

Muito bem, Bernadette, muito bem.

Adeus, minha senhora.

Muito obrigada por me receber.

A Bernadette f�-lo de bom grado.

- N�o �, Bernadette? - Sim, Madre.

Muito obrigada.

- Adeus. - Adeus.

Foste muito corajosa, Bernadette.

Prefiro sofrer os meus ataques, do que ter estas visitas.

Bernadette?

Vamos.

Segue-me.

Vamos guardar as oferendas.

Isto � mesmo bonito.

V�, meninas, despachem-se.

Vamos para a aula.

O que est�s a fazer?

- D�-me isso. - N�o.

Como assim, n�o?

Hoje � domingo, posso vestir isto para visitar os meus pais.

Isso � que n�s vamos ver!

Aqui, minha menina, vamos ensinar-te a ser obediente!

Vai ter com as outras.

Obrigado.

Sabe, a Bernadette j� � uma mulher.

As jovens da idade dela come�am a sonhar

com um lar, um marido e filhos.

� f�cil combater a vaidade e a festividade,

mas como a impedimos de amar?

Se ela se apaixonar...

... ou se ela desejar aceitar uma proposta de casamento...

Veja, � uma carta que o Bispo Laurence recebeu.

Foi assinada por um tal de Raoul de Choisne de Tricqueville.

Ele est� a acabar o seu curso de medicina, em Nantes,

e quer casar com ela! - N�o pode ser a s�rio.

- Ele nem sequer a viu. - Isto surpreende-o?

Ele escreve:

"Se eu n�o casar com ela, prefiro deixar este mundo.

"Vou pedir a Deus a gra�a de morrer na solid�o."

Na solid�o!

O que se passa?

Olha para mim.

N�o est�s feliz aqui?

As pessoas falam de ti e admiram-te.

Tenho medo, Jeanne.

- Tenho medo. - Mas medo de qu�?

De tudo.

De mim.

Ando t�o confusa. J� n�o sei distinguir o certo do errado.

J� n�o quero ver ningu�m.

Se eu pudesse...

Juntar-te �s Carmelitas?

Sim.

A clausura...

O h�bito negro...

O sil�ncio...

Poderia retirar-me e ficar tranquila.

Ningu�m me viria incomodar.

Mas n�o posso, por causa da minha sa�de.

N�o posso fazer as coisas, como as outras.

As vig�lias, os jejuns... � uma pena.

Mas podes ser dispensada dessas coisas.

Mas n�o quero dispensas.

Quero seguir a Regra, como as outras.

Cuidado, com cuidado.

� muito fr�gil.

Bernadette! Aproxime-se.

� magn�fica!

E ent�o, � ela? Era assim?

- Cavalheiro... - Sim, o que queres dizer?

� magn�fica, n�o?

- N�o. - Como?

N�o?

N�o era assim.

N�o era nada assim.

Ela n�o olhou de frente.

Mas a Virgem Maria olha sempre para o c�u.

Bom, talvez,

mas quando eu estava presente, ela olhava para mim.

Olhava para baixo.

Mas, Bernadette, tu acha-la linda, n�o �?

Ela � esplendorosa.

Sim, mas esta n�o � a Senhora de Massabielle.

Vamos esquecer a cabe�a. Ela � assim, ou n�o?

E ent�o?

N�o.

Esta n�o � ela.

Bernadette...

N�o � ela, caro senhor.

N�o.

J� sei o que me vai dizer.

Fui m� e orgulhosa e n�o presto para nada.

N�o, Bernadette, n�o acredito nisso.

Ela escolheu-te por um motivo. Ela mostrou-te o caminho.

Monsenhor Forcade quer falar contigo por um assunto.

- Monsenhor. - Sente-se, minha filha.

Ent�o, o que pretende fazer agora?

- Nada. - Como assim, nada.

Todos n�s temos de fazer alguma coisa neste mundo terreno.

- Eu estou com as freiras. - Com certeza, mas...

... n�o podes ficar aqui para sempre. - Eu gostaria de ficar para sempre.

N�s acolhemos-te temporariamente, por caridade,

mas n�o podemos manter-te para sempre.

Porque n�o te tornas freira?

Uma irm� de Nevers?

J� pensaste nisso?

Sim, algumas vezes.

Mas sou pobre.

Nunca conseguirei reunir o dote necess�rio.

Quando reconhecemos a verdadeira voca��o numa rapariga pobre,

n�o hesitamos em receb�-la, mesmo sem dote.

Quando tomares a tua decis�o,

pede � Madre para falar com a Madre Superior.

Eu cuidarei do resto.

Obrigada, Sr. Padre-Cura.

- Agradeces por qu�? - Por tudo.

M�e!

Ent�o, chegou o momento?

Partes amanh�.

Vou juntar-me �s Irm�s de Nevers.

- Onde est� o pai? - Est� l� dentro.

Pai?

Pai! Pai!

Eu devia ter-te impedido de ir � gruta.

Porque � que dizes isso?

NEVERS, FINAIS DE 1866

Foi manhosa, Irm� Marie-Bernard,

com os truques que fez.

- A irm� roubou a sua profiss�o! - N�o � digna.

N�o enganei ningu�m.

N�o estava t�o doente como dizia.

Tem de devolver o h�bito!

J� o tenho e n�o vou larg�-lo.

Nem acredito que esses olhos viram a Virgem Santa.

- Irm� Mathilde Brusson. - Irm� Mathilde Brusson.

Foi destacada para o nosso Instituto para os Cegos.

� uma bela miss�o.

Vai partir amanh�.

- Irm� Victorine Bounaix. - Irm� Victorine Bounaix.

Vai juntar-se � nossa comunidade de Mirande, em Gers.

A suas capacidades de organiza��o ser�o muito apreciadas

pelas irm�s que fazem a gest�o.

Vai partir no domingo.

- Irm� Christine Dalias. - Irm� Christine Dalias.

Vai hoje mesmo juntar-se � nossa casa em Yonne.

Precisamos de pessoas fortes para fazer uma horta.

N�o h� carta de destacamento para a Irm� Marie-Bernard?

A Irm� Marie-Bernard � uma menina tola que n�o serve para nada.

Irm� Marie-Bernard, aproxime-se.

Irm� Marie-Bernard...

Irm� Marie-Bernard, n�o foi destacada para lado nenhum.

Mas vai rezar pelas outras.

� verdade, Irm�, que n�o serve para nada?

Sim, � verdade, Monsenhor.

Conhece a hist�ria da �rvore que se dizia n�o prestar para nada?

N�o, Monsenhor.

Bom, era a �nica �rvore da floresta que os lenhadores n�o queriam abater.

Eles diziam: "Para qu�? N�o vale a pena.

"Os seus ramos t�m demasiados n�s

"e est�o todos tortos.

"Tamb�m n�o podemos us�-la para combust�vel,

"porque o seu fumo magoa os olhos.

"� uma �rvore completamente in�til e � por isso que n�o a cortamos."

Seja como essa �rvore, Bernadette.

Seja in�til.

N�o se preocupe.

A sua inutilidade n�o significa que seja uma pessoa sem valor.

Seja a �ltima, se quiser,

mas n�o tente provar que tem um valor que acha que n�o tem.

Seja quem �.

E pronto.

Mantenha-se in�til e rejubile.

As maiores experi�ncias da vida

n�o prov�m do que fazemos, mas sim do que damos com amor.

Do que damos por amor.

C�us!

Calma.

Algu�m me pode ajudar?

Algu�m me pode ajudar?

Irm� Marie-Bernard, venha. Vamos levant�-la.

Segura-a debaixo do bra�o. Isso mesmo.

Firmemente. Isso mesmo.

Vamos caminhar lentamente.

Vai ficar bem.

Vai ficar bem, irm�.

Cuidado com o degrau.

O que est� a fazer, Irm� Marie-Bernard?

Essa tarefa n�o lhe pertence!

Irm�, eu pedi � Irm� Marie-Bernard para me ajudar.

Vamos.

Bernadette...

Prometeu-me que eu ia ser feliz na outra vida.

Mas j� sou.

Sabe bem ser uma in�til que pode dar aos outros.

Eu disse muitas coisas,

mas o que deve ser recordado foi o que eu disse primeiro.

Eu posso ter-me esquecido e os outros podem ter-se esquecido.

A hist�ria mais simples ser� a melhor.

Um Filme de

Fotografia

Argumento

Tradu��o e legendagem: Cinemundo Lda. por Marta de Gouveia Pereira

Ripadas por: guardiao

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