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O que é a realidade e o que é a ficção?
Temos de pensar nisso. Acho que a vida nos engana.
A realidade pode ser uma mentira que alguém inventou, não acham?
Talvez estejamos todos a viver no sonho de outra pessoa.
CINZAS
Boa!
Quero agradecer a vossa presença.
Sabem que eu não sou de grandes discursos.
Há 40 anos, quando o meu pai fundou a Editora Urkan,
tínhamos muitos amigos, escritores de confiança ao nosso lado.
E havia milhares de leitores.
A nossa primeira publicação foi O Mar da Vida.
Tivemos tantas memórias e ideias desde então, não foi?
Sim.
Mas já ninguém lê livros.
E durante a maior parte desta aventura, a minha querida esposa esteve comigo.
Ela ainda é a primeira a ler os livros
e confio sempre nos instintos dela.
Hoje é o nosso 10.º aniversário de casamento.
Gökçe, é um prazer ter-te aqui. A nós.
Chega deste discurso chato. Ainda bem que vieram. Aos amigos!
Aos amigos!
Não sou o único que pensa assim. Outros também…
Estou a dizer-te, como amigo, para de escrever sobre a tua vida.
Tenta outra coisa.
Gökçe, olha.
O teu marido já não gosta do que eu escrevo.
Ele acha que eu devia experimentar coisas diferentes. Que tal isto?
Li nas notícias, no outro dia.
Um alfaiate de Maltepe, Istambul,
acredita que a Anna Karenina existe mesmo.
Ele não acredita apenas, deixa a família e vai para a Rússia.
- O quê? - Se fosse uma série ou filme…
- Não acreditaríamos. - Ele acreditou!
Entra na casa.
Pega numas coisas.
Vá lá, entra.
Mata esses tipos.
Toca nisso.
CINZAS
"As cinzas nunca ardem.
São os resíduos de um amor ardente.
Como saberás se encontraste alguém que não é deste mundo?
E se fores tu que não pertences a este mundo?
E se estiveres a dormir…"
Dentro da mente de quem ouve as minhas palavras,
o seu destino será reescrito.
Adeus, agora recomeço.
Bom dia, Ceylan.
- Não pedimos o rosa. - Certo.
- Pedimos o azul. - Sim.
As pessoas que conheci e as que passaram por mim
estão na minha memória.
Lembro-me de todas essas caras.
- Olá. - Bem-vinda, Sra. Gökçe.
Obrigada. Mãe?
- Gökçe? - Sim.
Vou deixá-las para trás e escrever para uma vida nova.
Para que alguém testemunhe a vida que eu tive.
Quem tiver este livro saberá que uma única pessoa é responsável
por todas as coincidências.
CINZAS
A pessoa cujo nome completo não ouso dizer é "M".
É como se todas as ruas de Balat fossem dar a ele.
A agressividade assustadora de M e o seu silêncio misterioso atraíam-me.
Um círculo de vida tatuado no braço direito.
A sombra de um pássaro no pescoço.
Foi aqui que tudo começou.
Uma pequena padaria em Balat.
Com o segredo de M, esta padaria tornar-se-ia uma memória
que nos arrastaria para a obscuridade.
PADARIA MÜŞFİKA
O que faz deste lugar um milagre são as cinzas a voar ao redor.
E só eu as consigo ver.
Era como se os sinais me guiassem
e me levassem sempre à Padaria Müşfika.
PADARIA MÜŞFİKA
- Olá, Lale. Bom dia. - Bom dia, querida.
- Como estás? - Estou bem. Porque me ligas tão cedo?
Tenho uma proposta a fazer-te.
É aqui.
Onde está a porta? Aqui, vamos.
PADARIA MÜŞFİKA
- Olá. - Olá, bem-vindas.
Obrigada.
Não fiquem de pé, sentem-se.
Gökçe, não sei como encontraste este sítio.
Foi num dos livros que enviaram. Falava desta padaria.
O quê?
O protagonista compra simit aqui.
- Um tipo chamado "M". - M?
M. É o que está escrito.
O nome não é revelado. Ele é um homem estranho.
Um tipo sobrenatural.
Tem tatuagens com significados na garganta, no braço.
Ele muda a vida daqueles que se cruzam com ele.
- Gökçe, estás bem? - Sim, estou bem.
O que estás a ler é um romance. É ficção.
- Ficção. Sabes disso, certo? - Mas a padaria é real.
- Talvez o homem também seja. E depois? - Não acredito.
Não posso beber isto. Vamos, querida.
Vamos embora.
Vamos tomar café num sítio decente.
Vai. Eu vou ficar por aqui.
Está bem. Como queiras.
M guardou todo o seu passado na carpintaria.
As placas levaram-me até uma loja,
que era o santuário dele.
Quando pensei que estava perdida, as cinzas levaram-me à porta dele.
Percebi que não tinha alternativa senão seguir o M, como as cinzas faziam.
Está bem. Vou enviar um e-mail.
Vou enviar agora.
- Olá, Sra. Gökçe. - Olá.
O Sr. Kenan está ocupado.
- Pode esperar aqui. - Claro.
- Quer beber algo? - Já tenho, obrigada.
Sim, correto.
Então, espero notícias suas.
Certo. Bom dia.
- Olá. - Olá.
- A esta hora, Gökçe? Passa-se algo? - Pensei que poderíamos tomar café.
- Quem está a vigiar a loja? - A Ceylan. Está calmo.
Bem pensado,
mas está a ser um dia agitado e…
Esqueci-me de enviar o e-mail.
- Queres que vá? - Não.
Só preciso de reenviar uma coisa.
O Uğur Örtün chegou.
- Aqui ou na sala de reuniões? - Na sala. Já vou.
Muito bem.
Certo.
- Até já. - Boa sorte.
Obrigado.
Escondida em segredos, esta torre pertencia a nós os dois.
Era um lugar entre os deuses.
De cada vez, tomávamos um caminho diferente no túnel escuro
para chegar à porta no fim, que se abria para o céu.
Ao abrir a porta, deixávamos a vida aborrecida para trás
e entrávamos noutro universo.
"Quando passava por aquela porta, esquecia o meu passado. Apagava tudo.
Ele era o meu guia e levava-me ao céu."
- Olá. Bem-vinda. - Obrigada.
Disseram-me que há uma torre aqui. Conhece?
Uma torre? Não conheço nenhuma torre.
Vou perguntar a outra pessoa.
- Que a paz esteja convosco. - Obrigado. Igualmente.
- Podes dar-me três simits? - Estou?
- Três simits. - Sim.
Sim, senhor. Ia agora ligar-lhe.
Sim, senhor.
Sim, faltam umas peças.
Não só…
Não só a cor, mas também o tamanho. Não combinam.
Certo. Leve as caixas, as que tiver.
Preciso disso esta semana. Tenho de ir. Até logo. Está bem, até logo.
Procura alguém?
É carpinteiro?
Sim. Em que posso ajudar?
Quero encomendar um espelho. Preciso de um na minha loja.
- Onde fica? - Em Nişantaşı.
Nişantaşı.
Tem as medidas? Como quer?
Sem medidas. Só um espelho com moldura de madeira.
- Estamos ocupados. Vai demorar. - É muito simples.
- É urgente ou não? - Não.
Então, tudo bem.
- Desculpe, como se chama? - Ali.
- Eu volto quando decidir o tamanho. - Quando quiser.
Metin Ali Soykan?
É para si.
Número de BI e assinatura.
Aqui tem.
- Esqueceu-se de algo? - O seu número de telefone.
Metin Ali, não é?
Chamam-me Ali, poucos me chamam Metin.
Sou a Gökçe. Muito prazer.
Eu ligo-lhe sobre as medidas.
Que tal este sítio para o espelho, Ceylan?
Acho que não precisamos, mas…
Vai buscar a fita métrica.
Vamos medir a altura.
Vejamos. Até ao chão.
Olá, Sr. Metin. Sim, é a Gökçe. Estou a ligar por causa das medidas.
É 80x150, vertical. Estilo Cheval.
Certo. Até já.
Adeus.
O amor e a guerra são a mesma coisa.
Ambos parecem uma luta entre lobos.
Enquanto homem e mulher se contorcem sob o pelo do outro,
enfiam as garras no coração do outro.
É selvagem, feio e nojento.
Se M não pensasse que eu era a melhor, nunca teria descoberto o meu poder.
Gökçe?
Espera.
As verdades tornam-se um beco sem saída.
Um coração pode amar duas pessoas ao mesmo tempo?
Fiquei de rastos quando soube que M era casado.
Arrasada.
De coração partido, queria entregar-me aos braços da morte.
O problema era: quem o faria?
Também temos um modelo mais simples.
- Sim. - De novo, mini.
- Esta cor ficava-lhe bem. - É lindo.
- Também temos este. - É bonito.
Bem-vindo.
Vou buscar o material.
Este também é bonito.
Que tal este? É lindo.
Muito bonito.
Lindo.
Ceylan, podes ajudar aqui?
Vai ficar naquela parede.
Temos de tirar isto, mas…
Espero ter medido bem.
Também espero.
Afeiçoei-me tanto ao M
que esquecia-me de que ele era casado.
Está feito. Gosta?
Acho que sim, mas…
Não gosta?
Está a atrapalhar. Talvez o devêssemos pendurar na parede.
Foi construído com um suporte. E é feito de madeira, por isso é pesado.
A parede não aguenta. Podemos tentar, mas…
Acho que ficaria melhor. O que achas, Ceylan?
- Como quiser, Sra. Gökçe. - Ficava melhor na parede, não achas?
- Vou tirar o suporte. Vai demorar. - Está bem.
Um pouco mais alto.
Não, é demasiado alto. Um pouco…
Tipo, no meio.
Mais abaixo. Foi de mais.
Um pouco para a esquerda.
- Está bem? - Estou.
Sujei tudo.
- É a sua mão? - Não é nada.
Vai buscar água-oxigenada e gaze à farmácia.
- É só um arranhão. Estou habituado. - Sente-se aqui.
- A sério. - Sente-se.
- Isto… - Talvez devêssemos aplicar pressão.
Aqui, não é?
Até ela chegar, vamos…
Não esperava que o espelho caísse da moldura.
Pensei que a parede não ia aguentar.
- Mas caiu. - Fui eu…
A moldura estava frouxa. Desculpe.
Por favor. Eu insisti. A culpa foi minha. Eu insisti demasiado.
- A moldura… - A sua…
A moldura. Vou apertá-la de novo.
Caramba, tanto trabalho. E isto está uma confusão.
Não há problema nenhum. Não se preocupe. Não é nada.
Deixou cair a sua aliança?
Ali.
Como assim?
Está sem a aliança.
Talvez por ser solteiro.
Solteiro?
Sim, sou solteiro.
Nunca foi casado?
Querida, lembras-te do que o Kenan disse?
Que talvez não publiquem o novo livro do Taner? Acho que…
Porque te ris?
Desculpa. Lembrei-me de algo.
O quê?
Lembras-te do livro de que te falei?
É aquele carpinteiro.
E então?
Ele foi à loja.
Como encontrou a loja?
Eu encontrei-o.
Foste atrás de um desconhecido?
Sinto que o conheço.
É aquele livro.
Nem todas as escadas da torre levavam ao céu.
A torre gostava de brincar com os que iam sem guia,
enganando-os constantemente na escuridão.
Para encontrar o caminho, deixei uma marca em cada parede,
em cada canto por onde passei.
A única prova do que tivemos com M está esculpida nas paredes desta torre.
Não me foste buscar à porta.
Estava à tua espera. Saíste mais cedo?
Não.
Entra.
O que estás a fazer?
Filho, o que estás a fazer?
O que estás a fazer, querido?
Mexeste na minha mala? Mexeste?
Não encontraste outra coisa para desenhar, Ege? Porquê?
Estou a brincar.
Gökçe?
Ele está a brincar.
Com um livro que nos foi enviado!
São só rascunhos. Qual é o problema?
Ainda não acabei de ler.
Desculpa.
- Mas não voltes a fazê-lo, está bem? - Vou fazer, sim.
As luzes que o M colocou iluminavam toda a cidade.
Não há regras aqui.
Será que alguém vê as cinzas a voar à nossa volta quando estamos juntos?
İlyas, vai buscar o Latif.
- Olá. - Olá. Bem-vinda.
O espelho está pronto?
Ainda não consegui cortar. Vou cortar e entregar na loja.
Está bem. Não há problema.
Como está a sua mão?
Aqui está o chá…
Porque não falamos lá fora?
Claro.
Começou a chover.
Aqui é mesmo assim. É imprevisível. Vai parar em breve.
Sim?
Não, senhor. O meu trabalho está feito.
Entregámos intacto. Devia falar com a transportadora.
A culpa não é nossa.
Sei que a porta está partida…
Conheço um sítio que faz köfte albanês picante.
- Vamos comer köfte? - Está bem.
A conta, por favor.
- É bom. - Fazem um bom köfte.
Cresceu aqui?
Nasci e cresci em Balat.
A carpintaria é o meu mundo.
- O Bazar Balat. - Já lá estive.
- A padaria. - Já lá estive.
É para já.
Nunca estive aqui.
Está aqui agora.
Raramente saio daqui.
Na verdade, eu… Esqueça.
Podem trazer pão?
Esqueço o quê?
Diga-me.
Nunca saio daqui. Quer dizer…
Não saio daqui há muito tempo. Da última vez, fui à sua loja.
Gosta de estar lá fora?
Não sei.
Vamos ver a torre.
Que torre?
Ouvi dizer que há uma torre com vista para a cidade
que muitos não conhecem.
E como vou eu saber?
Pensei que pudesse saber.
Alguém lhe falou dela? Como é? Como vamos? Onde fica?
- Mais alguém sabe? - Não sei.
Não me deixam em paz.
Tenho de ir.
Não consegui acabar.
Obrigada na mesma.
Ainda bem que a sua mão está bem.
Adeus.
- Estou? - Gökçe, onde estás?
- Estou a caminho. - Por favor, vem já.
- Aconteceu alguma coisa? - Estamos à tua espera.
São apenas jogos, não são reais.
Vai para o teu quarto.
- Dá-me o meu Game Boy. - Nada de Game Boy. Vai para o quarto.
Querido?
- O que foi? - O Ege andou à luta na escola.
Não foi uma luta qualquer. Ele mordeu a orelha do miúdo.
Ele levou pontos. A mãe dele foi à escola.
Obviamente, fez queixa do Ege.
O diretor zangou-se. Também houve outras queixas.
Não te conseguiram contactar e ligaram-me. Tive de largar tudo e ir.
Como está o Ege?
Na escola, descobri que não foi a primeira vez.
Acham que o Ege tem problemas de raiva.
Não sabia o que fazer. A Lale ajudou, abençoada seja.
- Onde estiveste? - Como está o miúdo? Podemos fazer algo?
Não, querida. Falámos com a família.
Fizemos tudo o que tinha de ser feito.
Não te preocupes. Não estavas na loja.
Onde estiveste, Gökçe?
- A fazer recados. - Porque não atendeste?
Não ouvi.
Como assim? Tens de ouvir!
Tens de ouvir!
- Liga-me se algo acontecer. - Está bem.
Kenan. É a minha barriga.
Isto pode ajudar.
Kenan, por favor!
Olá, querida. Sais mais cedo da loja hoje?
Talvez vá diretamente para o jantar. Posso não conseguir ir buscar-te.
Vemo-nos logo. Por favor, não te atrases.
Adeus.
- Vamos cobrir as outras janelas? - Vou acabar esta primeiro.
Ficou bem, não ficou?
Sim. No início, estava cética em relação às cores,
mas até ficou bem.
O que achas de cobrirmos a janela grande lá atrás?
Claro.
- Ponho este livro lá atrás? - Dá-me isso.
Dei uma olhada, parece interessante.
Como assim? Leste-o?
Não, não li. Só folheei.
Porque mexeste nas minhas coisas?
Estava curiosa. Mas acredite, não o li.
- Quanto leste? - Só dei uma olhada no início.
- Bom dia. - Obrigada.
- Trouxe o espelho. - Vou passar às janelas lá atrás.
Quer ver a torre?
Quero.
Com uma condição.
- Conhece-a? - Não.
Ela olhou para nós.
A cada passo, o meu coração batia mais depressa.
Parei no último degrau. Estava prestes a perder a coragem.
A porta para um novo mundo estava à minha frente.
A minha mão encolheu na mão dele, derretendo.
O que estava atrás da porta provavelmente era ainda melhor.
Já estou pronta.
Já passei por aqui antes. Conheço este sítio.
- Como? Nunca cá esteve. - A minha mente já vagueou por aqui.
Quem estava consigo?
- Ninguém. - Só eu conheço este sítio.
- Quem fez os desenhos lá em baixo? - Talvez você.
Mais uma vez!
É muito alto.
- Como sabia deste sítio? - Apenas sabia.
Deve ter ouvido falar dele.
Era essa a condição. Prometemos contar tudo.
Falaram sobre este sítio na padaria.
A padaria.
Sabemos que isso não é verdade.
Não vai acreditar.
No quê?
Eu vi este sítio.
Foi como se o visse pela mente de outra pessoa.
Como um sonho.
Como o destino?
Talvez.
Temos de ver um sítio para o conhecer?
O sol está a pôr-se.
Ele que se ponha.
Esperei por isto.
Aonde vai?
- Quantos publicaste esta temporada? - Metade do ano passado, acho eu.
Também não publicámos muitos nesta temporada.
O tamanho do mercado da edição digital está em constante crescimento, é por isso.
- Sr. Kenan, é bom vê-lo. Como está? - Igualmente. Obrigado.
- Bom apetite. - Obrigada.
Vim para cá depois de uma reunião.
Vamos ligar ao Sr. Cemal.
Claro, vou ligar-lhe agora.
Acho que estão todos aqui.
Vou partilhar um segredo consigo.
Está pronta?
GRANDE HOTEL ISTAMBUL
RESTAURANTE
Eu ilumino esta cidade.
O que está a fazer?
Vai ser bom nestes dias agitados.
A sua esposa vem, certo?
Sim, deve estar presa no trânsito. Com licença.
Como estás? Como vai o trabalho?
- Divertimo-nos. - E o teu filho?
Ligas as luzes todas as noites?
Nem todas as noites.
Adoraria mudar tudo agora.
Eu, a minha vida.
O mundo inteiro.
Não queres isso?
Talvez.
Talvez queira.
Onde estiveste?
Estou aqui.
Onde estiveste, Gökçe?
Estive aqui.
Não me esquecerei disto.
Eu também não me esquecerei.
Estás a gozar comigo. Controla-te.
- Não estou a gozar contigo. - Sabias do jantar e não foste.
Não tinhas o telemóvel contigo. Envergonhaste-me!
Não te envergonhei, Kenan.
- A tua sombra não estava contigo. - O quê?
Que barulho é este? Não consigo dormir.
Não é nada, filho. Não é nada.
Gökçe, o que se passa?
Já vou, querido.
Eu diria laranja. Ficava-lhe muito bem.
Vou de azul.
- Como queira. - O que há ali?
Olá, Sr. Kenan.
- Olá, Ceylan. A Gökçe não está? - Saiu mais cedo.
- Posso ajudar? - Só passei por cá.
São novos?
Sim. A Sra. Gökçe queria mudar. O espelho ainda não está pronto.
O carpinteiro é de Balat.
Balat? Mas porquê?
Acho que ela se inspirou no livro que estava a ler.
Qual livro?
Acho que se chama Cinzas.
Certo. Tem um bom dia.
- A que horas volta a Gökçe? - Acho que já não volta.
Certo. Tem um bom dia.
Porque trazes aquela mulher aqui?
Como te atreves a questionar-me?
Ela sabe que és casado?
O que temos é um disparate. Somos casados?
No papel, sim.
Se não tiveres cuidado até nos divorciarmos, sei como…
Sai daqui! Rua!
Todos pagam pelos seus pecados.
Não te esqueças das tuas fraquezas e não exageres.
O que foi aquilo?
- O quê? - O que aconteceu?
Nada. Não é importante.
Disseste-me que não eras casado.
Estás a interrogar-me? Porquê?
Não és tu que és casada?
- Quero uma explicação. - Para quê?
- Mentiste! - Sobre o quê? De que estás a falar?
- Disseste que não a conhecias! - Quem?
Ela passou por nós, perguntei quem era e disseste que não sabias!
Tu é que tens mentido. Tu é que és casada!
Como conheces a torre? Diz-me! Não te conheço. Quem és tu?
Quem és tu?
- Diz-me tu! - Quem és tu? Quero…
Quem és tu?
- Quem és tu? - Vou…
- Quem és tu? - Sua…
- Para! - Quem és tu?
O meu pai exigiu que eu me casasse com a Büşra.
O negócio estava a falir e ele estava doente.
Eles estavam num negócio juntos e acabámos por ser arrastados.
Nunca dormi com a Büşra. Ela sabia que eu não a amava.
O meu pai morreu, eu queria o divórcio.
Ela não quis e foi-se embora. Depois, foi o caos.
Um dia, o irmão mais velho dela apareceu.
Mal escapou com vida.
Não quero mais nada com eles.
- Não comeste nada. - Não tenho fome.
Já posso ler o Cinzas?
Ainda não acabei.
Desde quando demoras tanto?
Tenho de falar com quem o mandou. Quanto mais depressa mo deres, melhor.
A última refeição que nós os três tivemos deixou a traição presa na garganta.
M e R, finalmente fiz com que se confrontassem.
O sabor amargo da morte
apoderou-se do meu corpo na mesa que pusemos juntos.
E o M matou-me.
Desta vez, ele não me conseguiu salvar. Do amor só sobrou um punhado de cinzas.
"… apoderou-se do meu corpo na mesa que pusemos juntos.
E o M matou-me. Desta vez, ele não me conseguiu salvar."
Ele matou-a.
Afinal, é tudo real.
O quê?
Tudo. A torre, a padaria, Balat.
M, Metin, ele ser casado, tudo isso.
Mas é um livro. É ficção.
É tudo inventado, não é?
As pessoas e os lugares podem ser coincidência.
Acredita, vivi isto tudo. Foi tudo real. Senti isso tudo.
Eu vivi isto tudo.
Sim, mas se isso tudo é verdade e ela estiver morta,
como é que ela escreveu o livro?
Nem me estás a ouvir.
Estavas com um homem no meio de Nişantaşı,
num carro ridículo.
Eu sei o que vi.
Já não estás casada com o tipo dos livros?
Como assim, não te vais casar?
Deves casar, assentar.
Faz o que te digo.
Confia em mim, terás uma vida muito feliz.
Já terminei. Não vale a pena publicar.
Não gostaste?
As emoções são muito exageradas.
E o final é aborrecido.
A ideia é boa, mas a execução é fraca.
Se souberes quem é o autor, gostaria de falar com ele.
Vou tentar saber.
… em troca, apenas tristeza…
Com o coração partido…
… apoderou-se do meu corpo na mesa que pusemos juntos.
CINZAS
VOU ESTAR OCUPADO DURANTE 3 DIAS. DEPOIS LIGO-TE.
Não encontrámos o autor.
- Como assim? Quem o enviou? - Não sei.
- Também estamos perplexos. - Alguém deve ter enviado.
- Caiu do céu? - Deve ter vindo com os outros.
Estão todos registados com os contactos de cada um.
Mas nada sobre o livro Cinzas.
Foi entregue por uma transportadora?
Fala com todas as transportadoras.
- É assim que o encontraremos. - Com certeza.
Onde está o Metin?
- Onde está o Metin? - Quem?
- Ali. - O patrão foi à feira.
- Quer a morada? - Não é preciso.
Sucata!
Sucata!
Sucata!
Sucata!
Pide quentinho!
Pide!
Pode dizer-lhes que eu não…
Sim, senhora?
- Os pimentos. - Com certeza.
Tome.
Vamos?
Diz o que tens a dizer.
- Gökçe. - Quem eram aquelas pessoas?
Ninguém.
O que me estás a esconder?
A esconder? Isto não tem que ver contigo. Não te preocupes. É trabalho.
- Quantas mulheres são? - O quê? De que estás a falar?
Tenho de saber tudo sobre ti.
Isto não é só um caso para mim.
- Estou a afeiçoar-me a ti. - Não. Não te afeiçoes.
Não faças isso.
Não me afastes.
Estás a afastar-me.
Estou a perder o juízo.
Não estou a afastar ninguém, nem a fugir, nem a esconder-me.
Ouve…
Não estou em posição de aconselhar ninguém.
Gökçe, o que é isto?
Acalma-te.
Gökçe, o que estás a fazer?
Gökçe, por amor de Deus.
Qual é o teu problema?
Sempre que fecho os olhos…
… volto à torre.
É como um penhasco.
Apetece-me gritar.
Mas não tenho voz.
Nem sei o meu nome.
Não sei o meu nome.
A realidade daquilo por que passei…
… está turva.
Eu misturo tudo.
Gökçe, o que estás a fazer?
Faz pressão.
Descobrimos de onde foi enviado.
Foi enviado há um ano, entregue por uma transportadora desconhecida.
- Reyhan Akkaya vive nessa morada. - Manda-me a morada.
Claro.
Sim?
Olá. Deve ser a Sra. Reyhan.
Sou o dono da Editora Urkan, Kenan Urkan.
Desculpe aparecer sem avisar, mas…
… quero falar consigo sobre o livro que enviou.
Desculpe, qual livro?
- Cinzas. - Não sei de nenhum livro.
- Deve estar enganado. - O livro foi enviado desta morada.
Há cerca de um ano.
Vive sozinha?
Sim.
Mas vivia sozinha há um ano?
Não. A minha irmã mais velha vivia comigo, mas…
Posso falar com a sua irmã?
Não, ela faleceu.
Os meus pêsames. Peço desculpa.
- Como se chamava ela? - Duygu Akkaya. Enganou-se.
Ouça, eu sei como a sua irmã morreu.
- Ela deve ter escrito o livro. - Não me parece.
É uma história de amor entre um carpinteiro chamado M
e uma mulher. No final do livro, ela diz que o carpinteiro a matará.
Se tiver dúvidas sobre a morte dela, pode usá-lo para denunciar um crime.
Não tenho dúvidas. Na altura, contei tudo à polícia.
- İlyas, entra. - Eu levo o resto.
Entra.
- O que fazes aqui? - Acalma-te.
Não posso. Como ousas vir aqui?
Também não te queria ver. Espera. Apareceu um homem.
- Quem? - Não sei. A Duygu…
Não menciones o nome dela nem me lembres dela. Quero esquecer.
- Ela escreveu sobre o vosso amor. - Vou enlouquecer!
- Escreveu sobre a morte dela. - Que disparate é este?
- Não desenterres o passado. - A morte dela! E sabe-se lá que mais.
Não voltes aqui.
Ou as coisas vão ficar feias.
Que cara é essa?
Encontrei o autor.
É uma mulher.
Chama-se Duygu Akkaya.
É um bocado triste.
Ela morreu.
Ou alguém causou a morte dela.
É estranho, não é?
Ela escreveu sobre a morte dela.
Quase previu a própria morte.
O pessoal da editora encontrou o número da irmã dela.
Ege?
Duygu.
Como é que ela morreu?
Foi estrangulada? Foi baleada? Como?
Não sei.
Espero que não tenha sofrido.
Podes perguntar-lhe. Aqui está a morada da irmã dela.
- Com licença. Vive aqui? - Sim.
Vim para o número dez. Toquei, mas não tive sorte.
Está a falar da Reyhan. Ela fez as malas e mudou-se.
- Sabe para onde ela foi? - Não.
Ela tinha uma irmã?
Sim, a Duygu. Ela faleceu no ano passado.
Já soube. Sabe como é que ela morreu?
Alguns disseram que foi suicídio.
Outros afirmaram que um homem entrou na casa naquele dia. Só isso.
- Olá. - Olá.
- Posso ajudar? - Precisava de um bom carpinteiro.
- Ouvi falar de si. - Do que precisa?
- Quero uma estante. - Com certeza. Volto já.
Não há problema. O que tem em mente?
Nada muito grande.
Uma estante moderna em cor de madeira bruta.
Está bem. Anote as medidas.
O preço não é problema. Só preciso que seja rápido.
Daqui a uma semana.
- Será tarde de mais. - É o tempo, não o dinheiro.
Mas posso construir algo com o que já tenho.
Tudo bem.
- Certo. Mais alguma coisa? - Vou anotar a morada.
Porque me segues?
Conheces a Duygu Akkaya?
- O Metin pode ter cometido um crime. - Sim, cometeu.
É um crime grave ele estar contigo.
Não é a primeira vez.
Está tudo a ser escrito algures.
Agora és cúmplice.
- Não quero saber o que pensas. - A sério?
Um dia, todos viverão o que está escrito.
Alá é grande.
Este é o meu primeiro e último aviso.
Se fores inteligente, manténs-te longe deste bairro.
Não era preciso.
Ora essa. Não pode ir-se embora com fome.
Já esteve aqui?
É a primeira vez.
É a sua primeira vez aqui?
Sim.
É casado?
Não.
Já foi casado?
Sim.
- Não correu bem? - Bem… São águas passadas.
Já superei isso. Esqueci.
Bem-vinda, querida.
O jantar está pronto. E temos um convidado.
O que achas?
Mandaste fazer um espelho. Foi assim que o encontrei.
A minha mulher, Gökçe.
Ele fez um trabalho fantástico, não fez?
A carne está pronta.
Podem sentar-se. Já venho. Ele vai comer connosco.
Acabei. Vou pegar nas minhas coisas e ir-me embora.
Nem pensar. Não pode ir-se embora com fome.
Gökçe?
Mestre?
Vou deixar isto aqui.
Não era preciso. Obrigado.
Lê?
Não tenho tempo.
É o nosso trabalho. A Gökçe é quem mais lê.
Não é, Gökçe?
Devíamos ler.
Até um livro escrito há séculos ainda pode emocionar as pessoas.
Pense nisso. Antigamente,
as mulheres não podiam ler romances.
Porquê?
Para não se empolgarem.
Como Dom Quixote.
Naquela altura, os homens iam para a rua achando-se cavaleiros.
Vai arrefecer.
Já ouviu falar de fictofilia?
O Taner falou-nos disso, lembras-te?
- É uma doença interessante. - Onde está o Ege?
No quarto dele, querida. Eu levei-lhe comida, não te preocupes.
Fictofilia.
O estado de se apaixonar por uma personagem fictícia.
A OMS não a considera uma doença,
mas eu acho que é um distúrbio grave.
Obrigado pelo jantar.
- Boa noite. - A Gökçe descobriu uma nova autora.
Duygu Akkaya.
Como a conheces? Como conheces a Duygu?
A Duygu é a autora deste livro.
E ela também fala de ti neste livro.
- De que raio estás a falar? - É só um livro.
Só um livro?
Continua.
Talvez a Gökçe queira continuar.
Está bem, eu continuo.
A personagem principal deste livro é M.
Duygu a autora do livro, apaixona-se por este M.
E persegue-o, mesmo sabendo que vai morrer.
Esta é a parte que te diz respeito, carpinteiro.
Este M é um carpinteiro de Balat.
E ele é casado.
Ele conhece a Duygu
e faz com que ela se apaixone obsessivamente por ele.
Depois dorme com a irmã dela.
De quem é esta história?
É a tua história, carpinteiro. Não és o M do livro?
Espera lá. Qual é o teu problema?
- Qual é o teu problema? - Esta é uma das minhas partes preferidas.
"A única pessoa a quem contei o meu segredo, M.
Um pedaço de mim, do meu sangue, R.
A soma das suas mentiras resulta numa traição…"
Isso não é real!
Plantaste sementes de traição entre irmãs que se amavam.
Uma reviravolta perfeita do destino, não?
Nem eu nem a Reyhan traímos a Duygu. A Duygu estava viciada em mim, só isso.
Isto também é mentira? Dá-me o livro, Gökçe.
Por favor.
Por favor.
Sim, aqui está.
"A última refeição que nós os três tivemos deixou a traição presa na garganta.
M e R, finalmente fiz com que se confrontassem."
Porque é que ela fez isso? Por terem dormido juntos?
- Tento na língua ou dou cabo de ti! - Não estou a dizer nada, está no livro.
Conheces outra coisa além de livros?
Sabes como é a vida lá fora? Diz-lhe.
Sabes que mais? A Gökçe não sabe o que é verdade e o que é mentira.
Porque a Gökçe encontrou-te graças a este livro.
Ela leu este livro e queria viver o que está escrito nele.
Foi assim que me encontraste?
Foi tudo real.
A sério? Foda-se! Somos só um jogo para ti?
Mataste-a?
O quê?
Vamos mudar esta história agora.
A tua história com a Duygu, com a Reyhan, tudo o que a Gökçe procurou
e qualquer vestígio da Gökçe, vamos destruir tudo.
Há uma coisa que não podemos mudar.
O facto de teres matado a Duygu.
Sabes quantas vezes ela se tentou matar?
Quanta medicação tomava?
O que aconteceu quando deixou de a tomar?
- Fazes ideia? O que sabes tu? - Larga-me!
Quantas vezes ela se tentou matar?
- Larga-me! - Não conheces a Duygu!
Não conheces a Duygu!
Não conheces a Duygu!
Gökçe, chama a polícia!
O que é a realidade e o que é a ficção?
Temos de pensar nisso. Acho que a vida nos engana.
A realidade pode ser uma mentira que alguém inventou, não acham?
Talvez estejamos todos a viver no sonho de outra pessoa.
CINZAS
Sim. Força.
Ela mata-se saltando para a frente de um comboio.
Queria combinar outra personagem nova com a sua?
Sim. Essa semelhança foi intencional.
Não consigo pensar num final mais impressionante
do que matar-se como a Anna Karenina.
E, claro, este final é uma saudação ao grande mestre Tolstoi.
O senhor.
Este livro não é como os anteriores. Como foi o processo?
Em que fontes se baseou?
Percebi que estava a escrever demasiado sobre mim.
Um dia, disse a mim mesmo:
"Taner, por favor, está na hora de tentares algo diferente
e parares de escrever sobre a tua vida."
Imaginem infiltrarem-se na mente de outra pessoa.
E ver a vida através dos olhos dela.
Foi assim que Cinzas nasceu.
Obrigado por terem vindo.
Legendas: Miguel Oliveira
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