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INDICADO ENTRE OS 20 MELHORES FILMES DA HISTÓRIA PELA SIGHT AND SOUND
INDICADO ENTRE OS 10 MELHORES FILMES DA DÉCADA 1970-1980
PELO LOS ANGELES FILM CRITICS (EUA)
INDICADO ENTRE OS MELHORES FILMES POLÍTICOS DO MUNDO (1967-1987)
PELA REVISTA CINEASTE (EUA)
PREMIAÇÕES EM FESTIVAIS
A BATALHA DO CHILE A LUTA DE UM POVO SEM ARMAS
TERCEIRA PARTE O PODER POPULAR
EM MEMÓRIA DE JORGE MÜLLER SILVA
Allende! Allende!
A esquerda unida jamais será vencida!
Santiago do Chile, 1972.
Em apenas 18 meses, o governo socialista de Salvador Allende
conseguiu cumprir parte importante de seu programa de mudança social.
Em um ano e meio, o governo nacionalizou as grandes minas de cobre,
ferro, nitrato, carvão e cimento.
O Estado conseguiu controlar a maioria dos monopólios do país,
Allende, seguro, com os reaças seja duro!
Allende, Allende, o povo te defende!
E expropriou 6 milhões de hectares de terra cultiváveis,
e estatizou quase todos os bancos nacionais e estrangeiros.
Por sua vez, o governo dos EUA e a oposição,
criaram muitos obstáculos para o governo de Allende.
Apesar disso, Allende continua recebendo
um apoio entusiasmado de amplos setores da população.
Allende, Allende, o povo te defende!
No fim de 1972, o setor mais duro da oposição
reafirma sua estratégia.
O Partido Nacional insiste em provocar a derrubada do governo
antes das eleições parlamentares.
Para isso, promove uma greve de transportadores,
para que sirva de ponta de lança para um colapso geral da economia.
A escassez de peças de reposição, fomentada pelos EUA,
cria as condições para que o Partido Nacional
passe a controlar esses empresários.
Para nos mobilizarmos, e ter a solução adequada,
chega de artimanhas!
Chega de rodeios!
Vamos direto à solução,
por melhores tarifas, por peças de reposição,
por renovações adequadas,
por justiça e menos burocracia!
Viemos aqui pedir a vocês,
a confiança para que esta diretoria aceite o desafio.
Temos de agir como um só homem,
como um único transportador e com o apoio de suas mulheres,
Ombro a ombro e cara a cara,
chegou a hora de levantar a bandeira da greve por tempo indeterminado,
até as últimas consequências.
Porque, se vamos morrer na miséria, na falência e na ruína,
que seja de pé, vibrantes e altivos.
Essa é a imagem do chileno sofrido,
que esta organização expressa. Muito obrigado!
Assim, senhores empresários, a diretoria da Confederação
deu as instruções adequadas
às nossas organizações patronais
para que, a partir de zero hora de ontem, terça-feira,
os serviços do país inteiro fossem paralisados.
Cumprimos, senhores empresários, o que a assembleia determinou
à diretoria desta Confederação.
Em 11 de outubro de 1972,
começa a primeira greve dos transportadores.
No dia seguinte, os caminhoneiros recebem o apoio
Sociedade Nacional de Agricultura
e dos pequenos e grandes comerciantes,
que também paralisam suas atividades.
Na noite de 14 de outubro,
o Partido Democrata-Cristão também decide apoiar a greve.
O transporte urbano e intermunicipal é estratégico para a cadeia produtiva.
A falta de veículos desarticula o suprimento de matérias-primas
e interrompe a distribuição em escala nacional.
Mais tarde, o New York Times revelaria
que o principal apoio econômico da greve vinha do governo dos EUA.
Os grandes industriais, agrupados na Sociedade de Fomento Industrial,
também param a produção
e fecham suas fábricas por tempo indeterminado.
Esses setores defendem a empresa privada,
e rejeitam qualquer tipo de socialização da economia.
A indústria chilena está agrupada em uma instituição,
a Sociedade de Fomento Industrial, da qual sou presidente.
Ela é a mais antiga do gênero na América Latina,
e foi fundada em 1883.
Até hoje, teve 19 presidentes, e sou o vigésimo.
A Sociedade de Fomento Industrial sempre foi porta-voz
do grande capital nacional e estrangeiro.
Durante a greve, este grupo representa os principais industriais.
Pedimos aos industriais que seguissem o movimento,
e individualmente aderiram a esse movimento.
Mas, em muitos lugares, houve paralisação industrial
porque setores não-patronais também aderiram ao movimento,
como profissionais liberais, engenheiros,
funcionários, bancários médicos e gente da saúde,
advogados, engenheiros.
E comerciantes, pequenos e médios industriais.
O comércio...
O movimento abrangeu setores muito amplos.
Em Santiago, 70% dos ônibus particulares paralisam.
A comunicação entre as cidades entra em crise.
Os trabalhadores vão para a rua com os caminhões das fábricas,
improvisando uma forma de transporte mínimo.
Diante da emergência, combatem a greve desde o início.
Respondendo ao chamado do governo,
a grande maioria dos operários chega aos locais de trabalho.
Assim que soubemos
que os transportadores estavam em greve,
pensamos em uma maneira de contribuir.
De imediato, nos reunimos e tomamos medidas
para proteger nossa empresa, que é nacionalizada.
- Continuaram trabalhando? - Sim, normalmente.
- Atrasados, mas chegávamos. - Como?
Como dava. Com caminhões da fábrica,
ônibus particulares. Vínhamos desse jeito.
Seguimos trabalhando... com todo apoio ao trabalho.
E durante a greve como vinha?
De ônibus particular, ou até pé. A coisa era chegar aqui.
Companheiros que trabalhavam aqui emprestavam caminhões.
Era assim que vínhamos e voltávamos.
- A fábrica parou? - Não, nunca paramos!
Decidimos continuar sempre a trabalhar para cooperar com o governo.
Fizemos tudo o que nos foi possível
para apoiar o governo.
Claro, nunca faltamos ao trabalho durante as greves.
Sempre viemos, não faltávamos.
Era uma greve sediciosa.
Como os operários reagiram?
Trabalhando normalmente, todos os dias.
Inclusive mães com crianças pequenas
que traziam as crianças. Outras inclusive grávidas.
No centro de Santiago, os grupos de choque da oposição
atacam os ônibus que ainda circulam.
Nos bairros residenciais,
a maioria dos engenheiros, executivos e técnicos industriais
ficam em casa apoiando a greve.
Atualmente, sou presidente da
Confederação Única dos Autônomos do Chile,
que agrupa uns 50 mil profissionais,
trabalhadores qualificados,
que prestam serviços a diversas indústrias do país.
Este tipo de organizações sindicais, supostamente apolíticas,
colabora estritamente com os partidos opositores.
Nossa base está muito bem-organizada.
Somos disciplinados, conscientes, responsáveis.
A greve de outubro mostrou!
Aos poucos, essas organizações vão se aproximando do fascismo.
Não creio no mito de que o operário, por ser operário, pode tudo.
Aqui, os engenheiros sumiram,
assim como os executivos da empresa.
Abandonaram a empresa, que foi para as mãos
de nossos companheiros dirigentes.
Então, nos organizamos imediatamente
e, com eles, assumimos essa responsabilidade.
Estamos bem. Os patrões nos abandonaram,
mas nós seguimos em frente.
Eles sumiram e nos deixaram a fábrica. Nós continuamos a trabalhar normalmente.
Até agora, não houve problema algum. Vamos indo bem.
Acho que eles agiram muito mal, porque nem nos avisaram.
Apesar de tudo, agora estamos mais satisfeitos.
Eu gostaria de apertar a mão do companheiro Allende.
Gostamos muito desta nova forma de trabalhar.
Estamos satisfeitos com essas mudanças na fábrica.
Estamos muito bem. Agora, trabalhamos com mais empenho.
Os operários com maior experiência
passam a dirigir as atividades principais.
Os poucos engenheiros que simpatizam com o governo
atendem várias fábricas vizinhas.
Assim, um só engenheiro pode atender os problemas várias empresas.
Num primeiro momento, a atividade industrial não se paralisa.
No Congresso, um grupo de dez senadores emite uma declaração
afirmando que o governo estaria transgredindo a lei.
O documento, sem força legal,
serve para afetar a a imagem constitucional de Allende
diante das Forças Armadas.
Entre os dez senadores,
há parlamentares do Partido Democrata-Cristão.
Neste caso, acho que os democrata-cristãos
estão equivocados, porque apoiam os reaças.
Eu já fui democrata-cristão.
E, para mim hoje, é uma traição à pátria apoiar essa gente.
Foi a burguesia que manteve os trabalhadores na ignorância.
Isso é bem claro.
Por que tantos trabalhadores não sabem o que é política?
E se dizem apolíticos?
Não sabem que tudo é política, que é preciso tomar partido.
E que os trabalhadores, para se organizar, precisaram se unir.
E com base em que se uniram? Justamente nas organizações
ligadas aos partidos políticos.
E os partidos que apoiam a Unidade Popular
sempre estiveram com os trabalhadores.
Não os partidos da oposição,
que usaram os trabalhadores, como a democracia-cristã.
Criaram o paternalismo para usar os trabalhadores.
Há trabalhadores democrata-cristãos?
Sim, tem de tudo.
- Eles criam problemas? - Não.
- Trabalham aqui? - Somos unidos, não há problema.
- Há trabalhadores democrata-cristãos? - Sim.
- Também trabalham aqui? - Também.
Apesar da democracia-cristã ter decidido apoiar a greve,
alguns de seus militantes operários continuam trabalhando.
De fato, entram em contradição com seus dirigentes.
Identificam-se mais com os companheiros de trabalho do que com os patrões.
Você não está com a UP, está com quem?
Com os trabalhadores.
E os trabalhadores aqui estão com quem?
Com a Unidade Popular.
- Trabalharam na greve? - Claro.
Por quê?
Porque temos consciência de classe.
- Também trabalhou na greve? - Sim.
- Então está com a UP? - Com os trabalhadores.
Porque os reaças nunca respeitaram o governo atual.
É o povo que respeita o governo.
O povo acata todas as ordens do governo.
Mas os tais senhores...
como se diz? Os cheios da grana,
os que estão perdendo juros,
são eles que estão chiando, porque sabem
que o povo hoje pode comprar, pode comer.
E eles agora querem esconder os produtos
que o povo precisa consumir.
Eles provocaram este caos para que as pessoas fiquem contra o governo.
A oposição aumenta a estocagem de produtos de primeira necessidade.
Pretendem criar uma situação de escassez generalizada.
Em resposta, o governo e as organizações populares
aumentam a vigilância para encontrar os locais de estocagem clandestina.
Apesar desse esforço, a população encontra
sérias dificuldades para comprar os produtos disponíveis.
Diante da situação crítica,
o governo declara estado de emergência na capital e em várias províncias.
Assim, as Forças Armadas precisam zelar pela ordem pública.
A oposição acusa Allende de usar politicamente os militares.
A imprensa de oposição faz campanha para os militares
desobedecerem ao governo.
Nosso país está vivendo momentos muito críticos.
Mas, com a unidade dos trabalhadores,
vamos sair desta custe o que custar.
O que acha da crise atual?
É bastante grave.
- O que fazer? - Pôr fim à crise e reorganizar o país.
Estamos mal, companheiro.
- E o que fazer? - Trabalhar e produzir mais.
- Não escutei. - Trabalhar e produzir mais.
Na verdade, a situação é grave.
A crise? Tem de enfrentar, resolver e seguir em frente.
- Como? - Trabalhando e produzindo mais,
e ajudando o companheiro presidente.
É preciso estar atento com os burgueses
que querem unicamente uma coisa:
sufocar-nos, asfixiar-nos, aproveitando que
os norte-americanos querem pisar nossa dignidade de chilenos.
Eles também fazem isso,
e não podemos aceitar, como chilenos, como trabalhadores.
Como homens que há muito estão nesta luta,
não podemos aceitar o desejo deles.
Nem agora, nem nunca, muito pelo contrário!
Sempre lutaremos por um novo Chile, livre econômica e politicamente.
Algumas fábricas começam a vender seus produtos diretamente à população.
Sindicatos de diferentes ramos industriais
se articulam para levar produtos aos bairros populares.
Estamos atuando como inspetores voluntários.
Continuamos recebendo salário da empresa.
O trabalho que estamos fazendo envolve coordenar
as áreas de mercado relacionadas à venda de eletrodomésticos.
De outras fábricas, saem grupos de trabalhadores
para abrir os comércios fechados.
Estes operários cumprem o papel de inspetores a serviço do governo.
As lideranças das organizações de ferroviários
fizeram uma declaração após o atentado cometido ontem
por elementos fascistas contra um trem de passageiros.
A declaração adverte que não tolerarão novas agressões.
Definem o atentado de ontem contra o trem de passageiros
como um ato criminoso contra os ferroviários
e aos passageiros, cujas vidas estão nas mãos dos ferroviários.
Organizamos comitês para vigiar a fábrica dia e noite.
Eram dois comitês.
O que faziam?
Vigiavam a fábrica para que ninguém viesse tomá-la.
Aqui, companheiro, temos um comitê de vigilância
para proteger a fábrica, aos sábados, domingos e feriados.
A fábrica nunca fica sem ninguém.
Queremos fazer quatro torres, uma de cada lado da fábrica,
Para que assim, tenham mais...
Para que aumente o raio de visão da vigilância que fazemos na fábrica.
Dia a dia, aumentam o número de comitês de vigilância
nas principais zonas fabris de Santiago.
Conte a história deste caminhão.
Os companheiros se reuniram em assembleia
e decidiram cooperar com o governo,
para enfrentar e quebrar o movimento dos transportadores.
Fabricamos tanques para para transportar combustível.
Aceleramos o processo de fabricação
e levamos só uma semana
para entregar ao governo dez tanques como este.
Em meados de outubro,
a capacidade de organização dos trabalhadores
supera todas as expectativas.
ESTA EMPRESA É UM CENTRO DE APOIO REVOLUCIONÁRIO
Os operários conseguem manter uma produção relativamente normal,
utilizando ao máximo os estoques de reserva.
As fábricas conseguem criar entre si um sistema real de troca de recursos.
Assim, começam a nascer os chamados cordões industriais.
Cada cordão industrial é uma agrupação de fábricas e empresas
que coordena os trabalhadores de uma mesma região.
É o primeiro germe do poder popular no Chile.
Enquanto os simpatizantes do governo vão superando a crise,
a oposição violenta cria uma imagem de caos e vazio de poder.
A eficiente atuação da polícia
e a massiva mobilização de milhares de trabalhadores
que saíram às ruas para dar apoio ao governo
barraram a tentativa de elementos fascistas
de provocar um tumulto sangrento em Santiago.
Os grupos fascistas enfrentaram estudantes e trabalhadores
que expressavam seu apoio ao governo.
Lojas foram vandalizadas,
a Corporação de Urbanismo foi saqueada pelo lúmpen
e houve disparos de tiros.
A presença dos operários nas ruas
levou a dispersão dos provocadores,
que tentavam criar um clima de desordem.
Os operários da construção e do setor nacionalizado
desfilavam pelas Alamedas, para barrar
os desmandos dos grupos fascistas.
Em 23 de outubro, a greve patronal dá sinais de cansaço.
Nas fábricas, a situação dos operários também é complicada
pois os estoques de reserva já estão quase esgotados.
Diante desta crise, Allende cria condições políticas
para um entendimento com a democracia-cristã.
E incorpora ao governo
os comandantes em chefe das Forças Armadas.
Para criar este gabinete cívico-militar,
Allende se apoia no general Carlos Prats,
principal líder dos militares que respeitam a democracia.
Com o aval deste setor,
Allende consegue um acordo com a democracia-cristã,
e negocia uma solução.
Muitos trabalhadores de esquerda
veem na presença dos militares
a possibilidade de ser duros com a oposição.
O que acha dos militares no gabinete?
Estou de acordo com a presença deles.
É a única maneira de dominar os reaças: com pulso firme.
O que acha dos militares no gabinete?
Demorou muito. Deveriam ter posto no começo.
Para quê?
Para solucionar os problemas que estão ocorrendo.
Concordo plenamente de incluir os militares.
Deveriam ser mais militares no ministério.
Eles estão com o povo?
Claro, hoje estão todos com o povo.
Como sabe?
Primeiro, porque as forças reacionárias
não conseguiram atrair todas as Forças Armadas.
É porque elas estão com o governo e com o povo.
A declaração de ontem do general Prats,
com certeza, é uma garantia para nós.
Nunca gostei de militares no governo.
Por quê?
Pela simples razão de que o sistema democrático
não combina com militar.
E por que Allende recorreu a eles?
Acho que pela situação tão grave, por isso foi necessário,
por um momento circunstancial apenas.
Pela autoridade e para colocar ordem.
Mas que não seja permanente, que seja por pouco tempo.
Neste momento, ninguém tem condições de dizer
se haverá enfrentamentos ou não.
Depende unicamente das Forças Armadas.
Se elas continuarem leais com o povo,
e respeitarem a ordem e as leis,
não haverá risco de confronto.
O governo terá dificuldades, mas continuará.
E se a greve se repetir?
Os caminhões têm de ser confiscados.
E que sejam administrados pelos próprios trabalhadores.
Pois, sem os trabalhadores, os caminhões são inúteis.
São os trabalhadores que fazem o país avançar.
As pessoas abriram os olhos e entenderam.
Não vão mais nos fazer de bobos, como antes.
No mundo todo, é preciso compreender o trabalhador.
Não só no Chile, mas no mundo todo.
Em 10 de novembro de 1972,
o gabinete cívico-militar consegue pôr fim à greve.
Um fracasso para o governo dos EUA e para a oposição interna.
Causaram um grande prejuízo econômico ao país,
mas não derrubam o governo, que era o objetivo principal.
Para muitos trabalhadores, a experiência de outubro de 1972
servirá de base para o crescimento do poder popular.
Dias depois, no ato de massas que marca o fim do conflito,
desfila pela primeira vez o cordão Cerrillos,
uma organização que não existia antes da greve
e que agrupa 250 empresas da região Sul de Santiago.
- Trabalhadores do cordão Cerrillos! - Presente!
- Trabalhadores de Fensa! - Presente!
- Sindelén! - Presente!
- Oficinas de Cerrillos! - Presente!
- Trabalhadores de Ralco! - Presente!
Após a greve de outubro,
quase todos os movimentos de base estarão ligados ao poder popular.
O governo canaliza esta iniciativa,
mas que não é gerada por ele.
Este poder inquieta alguns partidos da esquerda,
que se alarmam com atitudes espontâneas da população.
Criar, criar, poder popular!
Após outubro, o lema "criar, poder popular"
será escutado no país inteiro.
Trabalhadores no poder!
Criar, criar, poder popular!
Em meados de 1973, nas principais cidades,
foram criados 31 cordões industriais,
oito em Santiago.
Em conflitos com os patrões,
especialmente em empresas pequenas,
os trabalhadores recebem apoio imediato de seu cordão.
A solidariedade permite aos sindicatos menores
ter mais força para enfrentar os patrões.
Fizemos os patrões ganharem imensas fortunas.
Eles não querem fazer nada para o nosso bem-estar.
Agora querem até nos destruir.
E há uma grande perseguição das lideranças sindicais.
Mas os líderes sindicais não estão só.
Eles têm o apoio dos trabalhadores e dos cordões industriais,
que se estendem de ponta a ponta do Chile.
Somos poderosos!
Os patrões pisaram na bola outra vez.
Agora, estamos todos organizados e conscientes.
Estamos de olhos abertos e mais lúcidos.
Estamos mais instruídos e temos apoio.
Quanto mais unidos, mais poderosos seremos.
Porque o inimigo que enfrentamos, a direita,
é muito poderoso e organizado.
Por que não podemos nos organizar
e aproveitar a superioridade numérica dos trabalhadores?
Há mais trabalhadores do que patrões.
É fácil vencê-los estando organizados e unidos.
- O que acha dos cordões? - São muito importantes.
- Por quê? - Porque...
porque é o verdadeiro poder das comunidades organizadas.
E todos devemos ter claro
a importância dos cordões industriais
e como conquistar seu apoio e organização.
Acha que são um organismo paralelo ao governo?
Alguns parecem temer os cordões industriais.
Sim, nós mesmos percebemos esse temor.
Nos serviços de utilidade pública,
têm pavor da participação da comunidade.
Não vê riscos nos cordões industriais?
Claro que não.
Eu confio na inteligência do povo.
E o povo organizado é inteligente.
Então por que ter medo do povo organizado?
Os trabalhadores ocupam centenas de fábricas pelo país.
Algumas delas podem ser expropriadas legalmente.
Mas em muitas não é possível ter base legal.
O aparelho do Estado começa a ser extrapolado pela realidade.
Pouco depois, surgem os comandos comunales
como outra forma de poder popular.
Os comandos agrupam pessoas de uma mesma região,
estudantes, donas de casa, operários, favelados e camponeses.
Ouviu falar dos comandos comunales?
Sim, ouvi falar muito deles.
São pessoas bem-organizadas. Aqui também os temos.
Eles cuidam dos problemas dos trabalhadores,
especialmente agora, neste período revolucionário.
O que acha dos comandos comunales?
Foram criados pelo povo organizado para lutar.
É um local de organização onde devem estar todos os proletários.
Muitos trabalhadores ainda estão confusos.
Acreditam nas mentiras que falam de escassez,
isso é coisa dos reaças, dos burgueses.
O imperialismo dos EUA e a burguesia chilena.
que são anti-chilenos. Eles não lutam pelo Chile.
Nós lutamos pelo Chile e pela igualdade,
para construir um socialismo do proletariado.
O que acha dos comandos comunales?
Acho que, na atual conjuntura,
são a solução para o problema do abastecimento
e para unir toda a classe trabalhadora
nos distritos e províncias.
Tanto para os confrontos e a luta cotidiana do processo
como para resolver os problemas de abastecimento,
problemas de higiene e de saúde e para vigiar a burguesia.
O que falta aqui?
Falta um organismo capaz de ser a direção
dos setores proletários, dos moradores dos bairros pobres,
são os setores mais mobilizados do país.
Chamamos os companheiros dos bairros populares
a se organizarem,
para que logo, com a direção da classe operária,
do cordão industrial Cerrillos,
criemos um comando comunal,
que amanhã será um poder para a classe.
Comando comunal que nem a institucionalidade burguesa
nem os reacionários freiam.
Trabalhadores no poder!
Companheiros,
estamos aqui em Maipú porque entendemos
que a ferramenta essencial para o nosso objetivo
é a aliança de classe.
A aliança que nos permita derrubar o inimigo, mesmo que poderoso;
que permitirá deter a ação do imperialismo,
que agem no Chile por meio de seus fantoches.
A aliança que nos permita construir e desenvolver o poder popular,
a aliança que nos dará
a força necessária para conquistar o poder.
Os comandos comunales tomam forma em ações concretas.
Neste exemplo, os operários de Cerrillos e os camponeses de Maipú
resolvem ocupar à força 39 terrenos ociosos.
Terrenos que poderiam estar abastecendo a capital.
Cada fábrica vizinha envia um grupo de operários
para apoiar a ação.
É a primeira vez que trabalhadores da cidade
vão fazer parte de uma mobilização camponesa.
A ação unitária cria a base real do comando comunal.
De manhã cedo, camponeses e operários ocupam a propriedade.
Guardas permanentes são criadas.
- Companheiro, posso perguntar? - À vontade.
- Seu nome? - Luis Gilberto Jerez.
- Que propriedade é esta? - Santa Carolina.
Por que foi ocupada?
Porque o patrão não respeita os trabalhadores.
Eles reclamaram, e decidiram ocupar a terra.
E nos unimos para ajudar nossos quatro companheiros.
Estou no comitê que cuida da propriedade.
Sou um dos fundadores do comitê.
Foi um esforço.
Quero que eles também se esforcem,
pois estamos unidos para expulsar os patrões.
E você, onde trabalha?
Na fábrica Siam Di Tella.
- É operário? - Dirigente do cordão Vicuña-Mackenna.
O que faz aqui?
Entendemos que operários e camponeses precisam se unir
para derrotar os patrões. Temos o mesmo tipo de problemas.
E temos de buscar solução como classe.
E como resultou essa união operário-camponesa aqui em Maipú?
É a primeira demonstração clara da força e da eficácia desta união.
Há 39 propriedades ocupadas
com apoio de operários da região de Cerrillos
e de Vicuña-Mackenna.
PROPRIEDADE PRIVADA ENTRADA PROIBIDA
A segunda etapa é começar a trabalhar a terra.
Comitês de vigilâncias são criados
que patrulham os terrenos dia e noite para impedir represálias dos patrões.
Depois, os ocupantes exigem a aplicação da lei de reforma agrária
e chamam funcionários do governo para estudar a situação.
Em suma,
os companheiros continuam à mercê
do Poder Judiciário.
Correm o risco de ser expulsos ou presos,
ou até julgados por crimes que não cometeram.
Pode-se impedir isto com uma intervenção
e com créditos do Estado
ao interventor e aos camponeses...
A lei de reforma agrária permite expropriar terras mal aproveitadas.
Não é o caso desta propriedade, que não tem os requisitos da lei.
Assim, os camponeses têm de defender com firmeza sua iniciativa.
Nós não mentimos.
E, se um companheiro mentir, nós o mandamos embora.
Se estamos pedindo as 26 terrenos, é por alguma razão!
Se faz sentido pedir 28, pediremos. É o que queremos!
Se quiserem arrumar algum empecilho
para criar desconfiança e atrasar o processo.
Não vamos aceitar.
Nós não mentimos. De uma vez por todas, acreditem em nós!
Se pedimos 26 terrenos,
é porque precisamos delas para que os companheiros trabalhem.
E que depois não venha um desses funcionários para tentar nos enrolar.
Não vamos aceitar isso.
Se pedimos 26, é com motivo.
Não estamos inventando para poder expropriar.
Esse pedido tem razão de ser.
Se está mal explorada...
Os patrões descobriram um recurso legal contra as expropriações.
São as medidas cautelares,
e protegem a propriedade privada durante um prazo
que os tribunais definem.
Com tribunais controlados pela direita,
há propriedades que levariam anos para serem expropriadas.
Este recurso joga por terra a iniciativa destes camponeses.
Companheiros, pergunto a vocês.
Qual seria a solução se as propriedades a expropriar
tiverem medidas cautelares?
Como vamos tomar posse delas?
É algo que vocês já sabem.
Não é segredo. O problema é que
a associação de proprietários contratou advogados
para se defender nos tribunais.
Mas temos a questão da luta que o país vive.
Ou seja,
existe uma lei que permite a expropriação.
Mas os patrões têm seus advogados e inventam defesas.
Vocês sabem como é a justiça.
Contra a medida cautelar não podemos fazer nada.
Estamos de mãos amarradas.
Respondendo concretamente à pergunta:
pode haver sim medida cautelar contra as expropriações aqui.
Nesse caso, teremos mesmo de lutar nos tribunais.
Nós temos é que ocupar todas as propriedades
e começaremos por aqui.
Os ocupantes enfrentam a burocracia estatal com plena energia,
respaldados pelo comando comunal
os camponeses realizam um verdadeiro julgamento popular
do funcionário do governo.
Não tenho tempo a perder, quero trabalhar e produzir mais.
É o nosso lema.
Não isso de ficar sentado no escritório fumando,
enrolando as pessoas.
Se uma pessoa não for competente o bastante,
deve ser retirada do cargo.
Eu, por exemplo, como dirigente,
se algum companheiro me disser que sou mau dirigente,
eu renuncio e dou o cargo a alguém mais competente.
Somos sinceros com o companheiro,
acho que ele sabe se defender.
Mas, se alguém aqui entravar nossa ação,
vamos encontrar um meio de tirar o companheiro do cargo.
Em Maipú, não será mais "companheiro",
pois não resolveu um só problema.
Como diz a petição,
sabemos com clareza que faltam batata, açúcar,
todas essas coisas que a terra produz!
Há escassez, e a terra está aqui para produzir.
É claro que nós...
em parte, temos responsabilidade no desabastecimento.
Por isso queremos mais expropriações para produzir mais alimentos.
Os reaças muitas vezes disseram...
que somos preguiçosos. E estamos demonstrando o contrário.
Estamos produzindo alimentos,
porque sabemos que temos de defender nossa causa.
Só isso, companheiros.
Companheiro, tem algo a dizer?
Sim. Primeiro gostaria de dizer o seguinte,
FUNCIONÁRIO ACUSADO
Eu ocupo um cargo que, em termos de remuneração,
não significa um ganho extra para mim.
Não é uma boquinha.
Mas, para ser concreto, companheiros,
vou fazer minha autocrítica.
Foi um erro confiar demais
nas leis da reforma.
É uma responsabilidade que tenho de assumir.
Tenho de assumir, e vai me servir de lição.
Admito diante de vocês.
Por outro lado...
vejam bem...
Eu dou muita importância ao que estão colocando, porque...
eu me sinto revolucionário.
Quando um revolucionário se sente...
criticado por causa de algo que pensava estar fazendo certo,
isso tem de servir para ele trabalhar melhor no futuro.
Podemos debater o problema outro dia,
mas acho que mereciam uma explicação.
- Acho que... - Companheiro, posso?
Como revolucionário e funcionário,
você não tem horário, deve apoiar os camponeses
e trabalhar mais.
Criar, criar, poder popular!
Lutando, criando, poder popular!
O poder popular também enfrenta
o problema do abastecimento de alimentos.
Durante 1973, o boicote norte-americano e a oposição
criaram o clima ideal para que grande parte dos comerciantes
fique contra o governo.
Os comerciantes lucram mais com o mercado clandestino.
Até o pequeno comerciante prefere desviar seus produtos
para o mercado clandestino.
Para enfrentar o problema,
nos bairros populares, foi criado o abastecimento direto.
Com o representante,
temos de criar uma cooperativa de distribuição
dos próprios moradores da periferia...
Vamos isolar os comerciantes.
É dali que sai a mercadoria
para o mercado clandestino.
É nossa responsabilidade,
criar e nos unir, com um representante,
e formemos a cooperativa de distribuição completa
para os moradores daqui.
Para atender às necessidades de cada família.
Para isso temos de lutar,
para não enriquecer mais o comerciante sem-vergonha,
que já está cheio de grana à nossa custa.
Temos de nos unir,
todos daqui, viela por viela!
Formemos uma cooperativa, e nada de comerciantes!
Trabalhadores no poder!
Quando os moradores da comunidade constataram
que o abastecimento vinha da distribuidora,
neste caso, da estatal DINAC,
eles viram que isso eliminava os atravessadores.
Então propomos que todas as partes da comunidade,
que cada parte...
se reúna com os vizinhos para debater as necessidades.
Queremos um armazém popular que chegue todo tipo de mercadoria,
e que daí seja distribuída.
Queremos uma espécie de supermercado.
É o que queremos propor
e esperamos a autorização para concretizar.
Queremos fazer o mais rápido...
O fundamental aqui é a organização dos moradores.
Em muitos lugares já existem armazém populares,
que são abastecidos por diferentes empresas,
por empresas fundamentalmente que foram nacionalizadas.
Temos de pedir aos próprios moradores que se esforcem,
para sintam que também fizeram parte.
Para que tenham uma responsabilidade.
Que não venha de graça, mas custe esforço.
No armazém popular, não existe a figura do comerciante.
O bairro que decide criar um armazém,
designa moradores para reunir as mercadorias.
Só fiquem aqui quem estiver trabalhando!
Com licença! Depressa! Onde coloco isto?
Neste caminhão?
O que falta carregar?
O arroz,
a cebola,
as algas, o macarrão,
fósforo, farinha...
Os alimentos são enviados pela Empresa Distribuidora Nacional, DINAC.
A única controlada pelo governo.
Embora 70% da distribuição esteja nas mãos de adversários de Allende,
a DINAC consegue atender às necessidades mais urgentes
dos bairros populares.
Os próprios vizinhos alugam um caminhão
para transportar os produtos ao local de venda.
Esse trabalho é realizado uma vez por semana.
Entrem um de cada vez!
Um de cada vez!
São oito da noite, vocês têm de entender
que outras pessoas têm de ajudar a cuidar do armazém.
Alguém quer dizer algo?
As mulheres poderiam vir até às duas ou uma...
depois viriam os homens...
Companheiras, me digam uma coisa,
estão contentes com o abastecimento direto?
Sim!
Em 1973, os armazéns populares
abastecem cerca de 300 mil famílias em Santiago.
Mais da metade da população.
Nos diversos bairros,
estes pequenos armazéns distribuem com ordem os produtos disponíveis.
Maisena...
Cinco caixas de fósforos.
Cada família recebe 250g de chá.
e 500g de macarrão e 1kg de arroz.
e 5kg de açúcar.
Próximo pacote!
- Já vou deixar pago. - Cuidado, está pesado...
O açúcar está pronto.
Cada família recebe um cartão para retirar os produtos.
Isso permite planificar a distribuição, e respeitar os preços oficiais.
O funcionamento do armazém é feito por moradores voluntários.
Como você faz para atender no armazém popular e ir trabalhar?
Por exemplo, a questão da mercadoria:
Se nos entregam...
por exemplo...
no sábado ou sexta, então abrimos o armazém no sábado.
e como eu não trabalho sábado...
E quando eu não posso ir,
minha mulher vai, com outras vizinhas.
O abastecimento direto seria poder popular?
Neste momento, acho que sim,
porque já estamos vendo que...
que com o abastecimento direto já estamos
conseguindo unir melhor as massas.
O que acha da situação atual?
- Bastante difícil. - Por quê?
É o que todos nós vemos.
Pelo que o governo disse ontem,
as companheiras que estiveram com ele
pediram que fosse mais firme, mas disseram que não é possível.
porque não tem maioria no Congresso.
E esse é o problema mais grave de Allende agora.
Vou defender nosso governo porque é o governo do povo,
e temos de defendê-lo.
Por isso digo, não tenho medo, já estou decidido!
Eu disse a minha senhora:
você tem dois filhos, que já estão grandes,
você termina de criá-los.
E se eu for morrer por algo,
quero morrer defendendo nossa causa!
Somos operários e sempre fomos explorados.
Criar, criar, poder popular!
Durante 1973, o poder popular germina em todo o país.
Nos centros de produção já nacionalizados,
surgem outros tipos de poder popular.
Nas minas de salitre, por exemplo,
o controle operário torna-se uma forma de poder popular.
Além das reivindicações, querem mais transparência e eficácia.
Atualmente, com o bloqueio do imperialismo,
não nos chega nem matéria-prima nem peças de reposição.
O que temos de fazer?
Temos de planificar a produção...
e organizá-la.
E administrar bem as oficinas de usinagem e a fundição.
Sem oficinas de usinagem, nossa indústria não se desenvolve.
As oficinas de usinagem são fundamentais neste momento.
e que manterão vivo o funcionamento do maquinário industrial.
Porque aqui os companheiros fabricam peças.
Quando faltam peças, eles as criam!
Fazem as peças que forem necessárias.
O trabalhador é concreto e não se interessa por abstração.
Cansou de palavras.
As reclamações do companheiro são sérias.
Quais são? Metas na produção de peças.
Quer racionalidade na administração da produção,
com planos de usinagem bem definidos.
Não dá para ter pequenas oficinas em cada seção,
isso implica má administração
e dispersão de recursos.
Logo os operários qualificados vão cansar, vão embora,
vão se desiludir.
Aqui nenhum companheiro está com o fascismo.
São todos trabalhadores, com consciência de classe.
Esta é uma das coisas que fizemos aqui
porque a importação está bloqueada.
Aqui podem ver interruptores elétricos
fabricados na oficina de usinagem.
Isso também era importado, mas, como todo mundo sabe,
estamos bloqueados e temos de começar a fazer as peças.
E, nesta situação,
de que estamos bloqueados pelo imperialismo,
estamos decididos a cumprir
o plano do governo de produzir mais,
de achar aqui as soluções
para fazer todas as peças que a fábrica precisar.
As "machinas" são a resposta dos operários
aos problemas que surgem aqui.
Chamam isso de "machinas"!
Aqui está uma "machina".
Com duas bielas, fizemos uma.
- Onde é usada? - Em compressores de locomotiva.
- De que ano são as locomotivas? - São de 1928.
Mas não tinham peças de reposição.
Nas minas e nas fábricas estatizadas,
as pessoas querem menos burocracia e mais participação.
Isso abre uma discussão sobre os limites
da via pacífica ao socialismo.
A luta pela participação
transforma-se em uma análise da realidade.
Companheiros...
já transcorreram dois anos de governo da Unidade Popular.
E especificamente nesta empresa
não houve participação real e efetiva.
Por que não houve real participação?
E o que isso acarreta?
Participação dos trabalhadores é um problema político.
Com a participação,
eles vão poder romper...
a estrutura capitalista das empresas.
Porque esta empresa
ainda é organizada sob uma estrutura capitalista.
Não temos o poder, temos só o governo.
E as empresas do Estado, neste governo,
sofrem as consequências das contradições do processo político.
Com participação, podemos romper as estruturas capitalistas
para que os trabalhadores criem novas organizações
neste processo de transição ao socialismo.
Os trabalhadores precisam planificar,
estudar e organizar a empresa.
Participar é planificar, é conhecer,
é estudar a empresa.
Atualmente é possível
moer mil vagões de calcário por dia.
Infelizmente só estamos moendo 700 ou 800 vagões,
o que não cumpre os planos de produção
definidos para esta seção.
É um problema grave desta mina.
Problema de elaboração.
Não temos matéria-prima nem vagões.
Com isso há 200 vagões largados no depósito.
Segundo trabalhadores e comitês de produção,
dá para aproveitar 200 deles.
Com três vagões ruins, fazemos dois.
Os trabalhadores propuseram esta solução.
Foi levada ao Comitê Departamental,
e as respostas são negativas, ou nenhuma.
Então como falar de participação do trabalhador
se suas soluções para melhorar a produção são rejeitadas?
Acho que a única solução
para acabar com este problema de aquisição,
de peças de reposição que não chegam, de salários,
é o controle direto da produção pelos trabalhadores.
Nós produzimos e temos de controlar toda a empresa.
É difícil, mas possível.
Em várias empresas, já conseguiram.
Precisamos de um comitê de administração por fábrica,
nas fábricas grandes.
É o problema da participação que está em discussão.
Companheiros, eu estimo
que a liderança sindical deve participar,
pois saberá da situação econômica da indústria.
É essencial para que fale sobre a situação
aos trabalhadores, para que eles saibam,
e não lutem sem saber o que está por trás.
Quando dizemos que no Chile
ainda há um Estado capitalista burguês,
lembremos do Supremo processando ministros,
o Legislativo, que dita leis contra os trabalhadores!
Não só dita esse tipo de leis
como está em pé de guerra sediciosa contra o governo popular.
Qual deve ser a participação dos trabalhadores?
Planificar a economia através da participação direta,
em que elejam seus representantes
em votação ampla e democrática.
E o que devem fazer os sindicatos?
O que sempre fizeram por meio da classe operária mundial.
Devem defender a classe trabalhadora
e ajudar a destruir o Estado burguês,
ser uma ferramenta revolucionária de nossa classe!
A preocupação dos operários é compartilhada
por alguns dirigentes das empresas,
as contradições dos processos de transformações
ficam evidente no trabalho cotidiano desses funcionários.
É um processo revolucionário, mas não é uma revolução.
Ainda não é um Estado proletário.
É um Estado burguês capitalista.
E esta é uma empresa nacionalizada dentro este Estado,
que não mudou de natureza.
O problema do trabalhador aqui não é trabalhar 16 horas por dia.
O problema é trabalhar 16 horas,
sem que as questões em relação ao poder
de capacidade de decisão, tenham mudado.
Você pode...
Você pode...
pedir aos trabalhadores...
mais consciência.
Se apela para a consciência, deve entregar respostas aos trabalhadores.
Mas agora surgiu, em relação ao trabalhador,
dentro da empresa nacionalizada,
um aspecto novo.
Isso porque, com a falta de matéria-prima e de peças,
o operário fica ameaçado com a ociosidade,
porque está diretamente conectado à produção.
Por exemplo, o soldador. Ele chega a sua seção,
tem tarefas programadas, tem disposição de trabalhar,
mas nada pode fazer, não há solda.
A única solução possível nos casos desse tipo
é justamente planificar o abastecimento.
Temos de planificar o transporte.
Se amanhã houver outra greve de transportadores,
se bloquearem os caminhões de peixe em Antofagasta,
perderemos os peixes por falta de transporte.
É necessário planificar os meios de transporte, a distribuição.
E o que fazemos para isso?
Controlamos padarias, armazéns, cantinas, hospitais.
É por meio deles que se organiza a distribuição de alimentos.
O problema é gravíssimo.
Somos empresas nacionalizadas, é verdade.
Podemos tentar organizar
e criar uma planificação limitada.
Mas damos de cara com a grande contradição:
A natureza do Estado não mudou.
Somos empresas nacionalizadas
dentro da estrutura de um Estado burguês capitalista,
no qual os mecanismos de opressão e dominação
continuam na mão da burguesia.
O governo deve responder
às necessidades de abastecimento para viabilizar a planificação.
Com os meios que o governo dispõe.
Nesta situação como planificar?
Não digo que vamos solucionar tudo 100%.
Mas é possível...
colocar uma alternativa.
Não vamos ficar de braços cruzados
até o imperialismo cair de maduro.
Temos de avançar, passar à ofensiva
e tomar o poder aos poucos com o apoio das massas.
Não podemos continuar delegando o problema de classe
aos executivos, ministros, parlamentares!
Porque a direita tem uma vantagem enorme,
prende membros do executivo, processa os intendentes
e questiona os ministros.
E acabo de saber que, na semana passada,
tornaram réu o secretário de Estado, Aníbal Palma.
Vamos continuar assim? Já temos 44% dos votos!
Não existe a mínima possibilidade de chegarmos aos 60%.
É impossível!
É preciso aproveitar o momento de ascenso das massas
para mobilizá-las por objetivos de classe.
Em meados de 1973, a impaciência de setores populares aumenta.
Nos centros de trabalho mais combativos,
trabalhadores discutem problemas básicos
da transição ao socialismo.
Neste momento, eu vejo que são questionados
a Constituição e a legalidade.
Estão sendo questionados pela classe trabalhadora, certo?
Questionam o Poder Judiciário, a Constituição, e inclusive o governo.
Ou seja, estamos entrando na etapa de tomada do poder.
Pois essas instituições já não tem validade.
Temos os cordões industriais.
O poder popular nascente está superando o Estado,
pois as instituições atuais são incapazes de cumprir sua função.
Os trabalhadores estão criando outras,
porque o aparelho do governo agora deve ser usado
por nossa classe para esmagar a outra classe.
A classe que sempre nos esmagou.
Nós podemos mudar as coisas!
Uma das características do poder popular
é abrir um novo horizonte político para os trabalhadores.
Isso inicia um processo de crítica dentro da esquerda.
Diante da impossibilidade do governo Allende seguir avançando,
muitos intuem um final trágico.
Companheiros, o que fazer?
O momento que estamos vivendo é difícil.
São momentos bastante difíceis.
É preciso fazer uma faxina, começando de cima!
Se o governo não se libertar de certos compromissos,
vai ser liquidado.
Não tem outro jeito,
tem de tomar as rédeas.
Tomar as rédeas nas mãos e limpar o país,
no interesse da pátria.
A pátria fica, nós passamos.
Logo vai chegar o momento decisivo.
Diga, companheiro, acha que se deve
ter pulso firme agora?
É agora ou nunca.
O inimigo está extremamente preparado.
Ele não vai nos dar trégua.
Esta é a oportunidade de fazê-lo. Se não for agora, não será nunca!
O inimigo sabe o que o espera.
Sabe que nunca vai recuperar o que perdeu.
E o inimigo é como o diabo.
Vamos indo, companheiro, nos vemos.
Até logo.
- Nos vemos. - Até.
Que avancemos! É agora ou nunca!
Vamos seguindo, companheiro.
Nos vemos, companheiro!
FIM.
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