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INDICADO ENTRE OS 20 MELHORES FILMES DA HISTÓRIA PELA SIGHT AND SOUND
INDICADO ENTRE OS 10 MELHORES FILMES DA DÉCADA 1970-1980
PELO LOS ANGELES FILM CRITICS (EUA)
INDICADO ENTRE OS MELHORES FILMES POLÍTICOS DO MUNDO (1967-1987)
PELA REVISTA CINEASTE (EUA)
PREMIAÇÕES EM FESTIVAIS
A BATALHA DO CHILE A LUTA DE UM POVO SEM ARMAS
PRODUTOR EXECUTIVO PATRICIO GUZMAN
COM A COLABORAÇÃO DE
EQUIPES TÉCNICAS DE FILMAGEM
ARQUIVO
TRUCAGENS E CRÉDITOS
NARRADOR
ENGENHEIRO DE SOM
OPERADORES DE SALA
COLABORADORES PRINCIPAIS
COLABORADORES DE ROTEIRO
CHEFE DE PRODUÇÃO
CAPTAÇÃO DE SOM
ASSISTENTE DE DIREÇÃO
MONTAGEM
FOTOGRAFIA E CÂMERA
ROTEIRO E DIREÇÃO
EM MEMÓRIA DE JORGE MÜLLER SILVA
PALÁCIO DE LA MONEDA SEDE DO GOVERNO
PRIMEIRA PARTE A INSURREIÇÃO DA BURGUESIA
Seis meses antes do bombardeio de La Moneda,
ocorrem eleições para renovar o Parlamento.
As forças políticas estão divididas em dois blocos.
De um lado, a oposição
formada pelos partidos Democrata-Cristão e Nacional.
Do outro, os partidos de esquerda agrupados na Unidade Popular,
que apoiam um Parlamento pró-Allende.
A esquerda unida jamais será vencida!
Som sincrônico!
A esquerda unida jamais será vencida!
Corta!
Claquete!
O que opina das eleições de domingo, quem ganha?
Sou apolítico, não tenho opinião.
Senhora, boa tarde. Quem ganha no domingo?
A oposição tem de ganhar.
- A oposição? - Claro!
- Com que margem? - Isso não sei, nem imagino.
Frei, Jarpa, Labbé...
o mesmo lixo os três!
Senhora, em quem vai votar?
Volodia Teitelboim e Eliana Aranibar.
E o que espera do futuro?
Vamos seguir avançando e temos de lutar ainda mais.
Na época do governo de Eduardo Frei,
eu morava em um barraco caindo aos pedaços.
Entrava água.
Meus quatro filhos estavam com broncopneumonia.
Eu pedia ajuda aqui, ali, mas nunca conseguia.
Agora, sempre me atendem.
Graças ao meu presidente, tenho uma linda casa.
Sem grandes comodidades, mas não me falta pão.
Aposentado.
Sou aposentado.
Nenhum governo já fez o que este está fazendo.
Quem vai vencer?
A Unidade Popular, porque são os trabalhadores
que têm de decidir o destino do Chile.
O que pensa da democracia-cristã?
A democracia-cristã é um partido
que sempre defendeu os interesses da classe deles.
Nunca os da classe trabalhadora.
Venha cá, Flaco! Entreviste o vendedor de refrescos!
Com licença...
Companheiro, quem vai ganhar domingo?
Não sei te dizer...
- Não sabe? - Não, senhor.
- Não faz ideia? - Nenhuma.
- Não lê jornal? - Muito pouco.
- Quem vence domingo? - A Unidade Popular.
- Vai ser maioria! - Com 45% dos votos!
A Unidade Popular vai ter uma vitória esmagadora.
Porque este governo é dos trabalhadores, é do povo.
E o povo já percebeu os benefícios do socialismo para todos os cidadãos.
Corta!
Senhor, boa tarde.
Qual porcentagem vai ter a UP?
O que posso dizer é que a Unidade Popular vai ganhar.
Porque tivemos 36% dos votos na eleição presidencial em 1970.
Atualmente, com tudo o que vemos,
e o povo que está com o companheiro Salvador Allende...
teremos com certeza mais de 43%.
- Senhora, boa tarde. - Boa tarde!
Em quem vai votar?
Em Volodia Teitelboim e Eliana Aranibar.
- Quantos votos terá a Unidade Popular? - Mais de 40%.
E o desabastecimento?
Não acho que isso exista, porque não perdi nem meio quilo!
Gravando!
O que pensa sobre as eleições?
A Unidade Popular terá menos de 20%.
E o futuro?
Com qualquer resultado, vamos continuar ferrados.
O que pensa sobre as eleições?
- Me deixe em paz. - Obrigado.
O que pensa das eleições de domingo?
Vai ganhar a oposição, sobretudo o Partido Nacional.
E sobre o futuro?
Que o Chile precisa de paz, liberdade e democracia.
Obrigado.
Senhor, boa tarde.
O que pensa das eleições de domingo?
É um plebiscito...
e domingo o Chile vai decidir se quer marxismo ou liberdade.
E em relação ao futuro?
Para depois das eleições...
A única solução é mudar o governo.
- Pela via eleitoral ou por outro caminho? - Pela via eleitoral.
Senhor, boa tarde. O que pensa das eleições de domingo?
Bem...
Vamos dar uma surra na Frente Popular, que vai virar cinza.
- Acredita na via eleitoral? - Na via eleitoral, sempre.
Quantos votos à Unidade Popular e ao Partido Nacional?
30% e 70%!
- Como vê o futuro? - O futuro do Chile sempre foi promissor.
- Muito obrigado. - De nada.
Senhora, boa tarde. Em quem vota nas eleições?
Jarpa e Alessandri.
Qual sua principal preferência?
O Partido Nacional, sempre.
Acredita na via eleitoral ou em outro caminho?
Deve ser uma posição firme,
que nunca mais brinque com o povo e com ninguém.
O que imagina para o futuro, para depois das eleições?
Trabalhar o máximo possível para reconstruir o Chile.
- Em quem vota domingo? - Em Jarpa, senhor.
Quem vai ganhar?
A oposição, com muita vantagem.
- Com que porcentagem? - Pelo menos 65%.
E depois das eleições, o que acontecerá no Chile?
O governo vai ter de respeitar a maioria.
É a favor da via eleitoral ou outro tipo de caminho?
- Com a via eleitoral. - Muito obrigado.
...acusar constitucionalmente o presidente...
Perdão?
O presidente tem de ser acusado no Parlamento
e destituído em 21 de maio!
Porque tem destruído o país!
E é um governo corrupto e degenerado!
Degenerado, corrupto, imundo!
Todos os comunistas asquerosos têm de sair do Chile!
Em 21 de maio, teremos, graças a Deus...
o governo mais limpo e lindo que já tivemos,
com a democracia vamos nos livrar desses marxistas podres!
Malditos sejam!
Qual sua preferência na oposição?
Quais candidatos? Jarpa e Alessandri!
Com que vantagem ganham?
Meu ideal é 100%, mas serão bem mais de 70%.
Trabalhadores no poder!
Companheiro, o que pensa sobre as eleições de domingo?
Quero que ganhe a Unidade Popular.
E a burguesia que seja enterrada!
Venceremos com a Unidade Popular. Aqui e no país todo.
E os reaças que morram!
Companheiro, o que pensa das eleições de domingo?
Lutar combativamente para conquistar uma grande maioria.
Para nós, que temos clareza,
e que percebemos que a única maneira de conquistar o poder
pois já temos o governo, é ter maioria de deputados e senadores.
Significa obter um pouco mais de poder para a classe trabalhadora.
Um pouco mais de poder.
Mas esta não é a solução definitiva,
Não será uma ou outra eleição
que vai solucionar o problema dos enfrentamentos.
Os enfrentamentos são inevitáveis e fundamentais.
Eles vão acontecer,
porque as classes estão ficando cada vez mais polarizadas.
De um lado, a burguesia.
Do outro lado, o proletariado.
E o enfrentamento vai ocorrer.
Avançar sem conciliar!
Como habitual, as Forças Armadas garantem a ordem nas eleições.
A oposição confia na vitória.
Obtendo dois terços do Parlamento,
poderiam destituir Allende com uma acusação constitucional.
Para isso, é necessário mais de 60% dos votos.
Para a esquerda, é a primeira eleição nacional contra a oposição
desde a vitória em 1970.
É também uma oportunidade para testar sua força,
após dois anos e meio de boicote econômico
realizado por Washington e pela oposição interna.
Em um domingo, 4 de março de 1973, às 8h, começa a votação.
- Senhora, boa tarde. - Boa tarde.
Somos do canal 13 e fazemos entrevistas no edifício.
Qual são seus candidatos e quem acha que vai ganhar?
- Desculpe o incômodo. - Não, não há incômodo.
Gosto de Baltra, votei nele.
- Votou em Baltra? - Sim.
Como vão ficar as porcentagens?
- Quer entrar? - Sim, tem mais luz.
Entre.
Boa tarde. Estamos fazendo uma entrevista para o canal 13.
Que porcentagem a coalizão de direita vai obter?
Não faço ideia, não voto.
- Não vota? - Não.
- Não tem preferência? - Nenhuma.
A senhora votou em Baltra. A que horas votou?
Votou em Jarpa? Em Jarpa.
- A que horas votou? - Às 11 da manhã.
- Em que bairro? - Nuñoa, no Estádio Nacional.
E o que achou do dia de hoje?
Ótimo, foi um grande evento
e acho que a democracia vai triunfar.
Como vai ser o futuro do Chile?
Tudo vai se ajeitar, e vamos reconstruir o Chile.
Acha que se deve destituir o presidente ou seguir pela via legal?
Isso não sei responder. Mas é preciso dar jeito nas coisas.
O que achou do comício de Jarpa de dois dias atrás?
Fantástico! Fiquei olhando daqui...
Foi tão especial assim?
Claro! Havia muita gente, muito entusiasmo, muita ordem.
Foi espetacular! E vamos ganhar!
O que acha da aliança da direita com a democracia-cristã?
Bem... acho importante, muito boa.
- Aceita bem a aliança, então? - Sim, aceito bem.
Assim, tudo vai se ajeitar.
Muito obrigado!
Às 17h saem os primeiros resultados.
O ministro do Interior, general Carlos Prats,
garante a lisura do processo para todos os setores.
Mas, antes de terminada a contagem dos votos,
parte da mídia anuncia o triunfo da oposição.
Omitem que mais de 40% dos votos foram para a esquerda.
A oposição, que sempre teve certeza da vitória,
saí às ruas para comemorar o suposto fim da Unidade Popular.
- O que pensa da eleição? - Ganhamos! Já passamos de 60%.
O que opina da votação de hoje?
Espetacular! Tínhamos de ganhar!
O que acha do...
Sou argentino, mas estou feliz com a vitória de Frei!
É uma felicidade imensa!
O Chile precisa de muitos como ele.
Corra aqui!
O que achou de hoje?
Foi um triunfo! Maravilhoso!
Que vitória! Estamos felizes, maravilhadas!
O como vai ser agora?
Um plebiscito e vamos ganhar.
O senhor Allende tem de sair do país imediatamente.
É a favor da destituição constitucional?
É claro!
Sem dúvida. Até logo.
O que opina da eleição de hoje?
Foi um triunfo democrático! O Chile será sempre livre!
- E agora o que vai ocorrer? - Queira Deus que fique tudo bem.
Só queremos que o Chile seja sempre livre!
- Apoia a acusação contra Allende? - Sim, senhor.
Sim!
Não pode gerar uma guerra civil?
Não importa! Temos a maioria!
Como foi a eleição de hoje?
Até que enfim vencemos estes safados!
- O que achou da eleição? - Ótima. Magnífica.
Só quero dizer foi ótimo, espetacular!
A Unidade Popular foi para o brejo, para não dizer outra coisa!
- Qual foi seu candidato? - Eduardo Frei.
Eu sou Alfonso Carrasco Cerda,
presidente da associação de aposentados do Banco do Chile.
Hoje, defendemos a democracia e a liberdade do Chile.
Quer acrescentar alguma coisa?
Saúdo a todos que ajudaram a libertar nosso país.
Após a meia-noite, os resultados desconcertam a oposição.
Não conseguiram os votos necessários, e a vitória vira fracasso.
E a Unidade Popular, não só não diminui seu apoio eleitoral,
como o aumenta.
Sem aceitar os resultados,
parte da oposição fala de fraude e põe a tropa de choque na rua.
Dias depois, o Tribunal Eleitoral, controlado pela oposição,
confirma os resultados oficiais.
A oposição ficou muito longe dos dois terços que necessitava
para destituir Salvador Allende.
A Unidade Popular obteve 43,4% dos votos
e aumentou o número de parlamentares.
A UP conquistou um apoio inédito após dois anos e meio no governo.
Para a oposição, a posse dos deputados eleitos
marca o fim da perspectiva eleitoral.
Senhores deputados,
juram e prometam guardar a Constituição do Estado
e preservar, no exercício de suas funções,
seus verdadeiros interesses?
Juramos.
Considerem-se empossados.
Terminada a ordem do dia, encerro a sessão.
Após este momento, a Casa Branca e a oposição
compreendem que os mecanismos democráticos
já não lhes servem.
Os resultados obtidos pela UP
demonstram que o desejo de mudança social não diminuiu,
apesar dos milhões de dólares investidos pelo governo dos EUA.
Após a eleição, a estratégia da oposição democrática passou a ser,
paradoxalmente, a estratégia do golpe de Estado.
1. ESTOCAGEM E MERCADO CLANDESTINO.
Graças à denúncia de um vizinho,
da JAP 8, aqui na sétima região, rua Copiapó, 319,
descobriram que estavam estocadas 20 toneladas de açúcar,
400 caixas de papel higiênico,
500 caixas de detergente, 100 caixas de Nescafé,
100 caixas de leite condensado,
50 caixas de salmão, arroz em grande quantidade.
Agora isso será vendido aqui, aos moradores desta região,
que já formam enormes filas.
Essa venda irá durar uns três dias.
O governo fortalece as JAPs, Juntas de Abastecimento e Preços.
As JAPs são organismos de vizinhos
para fiscalizar a distribuição de alimentos
e denunciar a estocagem dos especuladores.
Quando as JAPs descobrem uma estocagem,
o governo intervém no comércio, e coloca os produtos à venda.
No armazém da Sra. Rufina Moreno Diaz,
foram encontrados os seguintes produtos:
310 pacotes de chá em caixas de 350g,
53 caixas de comida para crianças.
Tudo estava comido por ratos.
Eu comprei açúcar, sabão em pó e dois pacotes de chá.
Por que eu só trouxe 100 pesos.
Eu não tinha dinheiro para levar mais.
Eu tenho 10 filhos e...
e gasto manhãs inteiras nas filas.
É preciso acabar com o mercado clandestino,
fechar os armazéns e prender os donos.
Só assim esses comerciantes terão medo e vão parar de especular.
Mercadorias há de sobra!
Quantas vezes a imprensa noticiou
as toneladas de açúcar, tantas coisas que estão estocadas.
Em março, já são 3 mil JAPs no Chile.
Em alguns casos, as JAPs adotam o cartão de racionamento
para tornar a distribuição mais eficiente.
Posso ver o cartão?
Tenho direito a 14 rações.
Com esse cartão, posso comprar quatro caldos se estiverem disponíveis.
Mas dependendo do estoque, posso pegar mais.
Nescafé, leite... tudo é racionado.
É suficiente?
Sim. Se não for, compensamos com outros produtos.
Vamos dar uma olhada nas verduras?
Os principais objetivos da oposição são:
Desorganizar o abastecimento,
esgotar os estoques de reserva,
e sabotar o plantio, para aumentar a escassez.
Vamos por aqui...
Tem óleo?
Temos de olhar, hoje não sei se tem,
mas há três dias consegui óleo.
Quer mandar um recado a companheiras de outros lugares?
Estamos fazendo um filme.
Eu aguentei passar por tudo para que...
para que o futuro dos meus filhos seja melhor.
E quem sabe para mim.
Tenho acordo com este governo.
- Mais alguma coisa? - Nada, obrigada pela entrevista.
2. BOICOTE PARLAMENTAR
Para a oposição, o exemplo das JAPs é perigoso.
O Congresso inicia uma acusação contra o ministro Orlando Millas,
gestor das JAPs.
A oposição passa a usar sua maioria no Congresso
para desautorizar o governo.
Aqui estão os inúmeros documentos com as acusações.
No caso das JAPs,
um deputado da oposição é designado para interrogar um integrante da JAP,
DEPUTADO DO PARTIDO NACIONAL FUTURO FUNCIONÁRIO DA DITADURA
Como é o funcionamento prático da JAP?
O organismo JAP, eu já te disse,
é uma organização de moradores de favelas,
de trabalhadores, de donas de casa,
que se juntam,
e que em uma reunião,
eles são designados para poder...
controlar e fiscalizar, de certo modo,
e verificar se existe ou não formas de abastecimento em uma região.
É isso que eu quero que me explique.
- É claro. - Entende?
Digo para orientá-lo,
mas sem induzi-lo a dizer nada.
Tem de estar claro. Gosto de ser muito honesto.
Nesse sentido, penso que...
a função desta organização, a JAP...
é exatamente esta:
fazer com que as pessoas recebam
abastecimento suficiente para toda a família.
Embora a oposição não prove nada, o processo de acusação prossegue.
Esta forma de acusação se repetirá contra outros ministros.
Querem que os ministros renunciem ou sejam destituídos.
Dessa forma, a oposição abre um conflito entre os poderes,
entre o Parlamento e o presidente.
Em cada caso, a esquerda demonstrou a fragilidade legal das acusações.
Dessa forma,
LUIS MAIRA, DEPUTADO DA UNIDADE POPULAR
...um ministro só deve responder por seus atos perante o presidente,
que é quem os indica ou remove.
E não podem estar submetidos, a avaliação...
conveniente ou oportunista da maioria do Congresso.
Essa avaliação política dos ministros cabe apenas ao presidente fazer.
No caso de Orlando Millas, ministro da Economia,
cuja acusação constitucional estamos analisando,
não se pode usar esse procedimento,
para decidir se é boa ou não a política de abastecimento
impulsionada pelo ministro.
Se é boa ou não a política de controle de preços,
Ou a forma como ele julga que deve ser organizada a produção,
o abastecimento, e a distribuição de produtos na economia.
Portanto...
essa acusação não só é inválida, ineficaz, e ilegítima,
como é uma acusação que vicia, atropela e viola
os textos constitucionais que conferem ao presidente
suas prerrogativas e atribuições essenciais.
Dias depois, a Câmara vota a destituição do ministro Orlando Millas.
Por 83 votos a favor, e 63 contra, a oposição destitui o ministro acusado.
Em três meses, a oposição destituiu dois intendentes e sete ministros.
Ou seja, um alto funcionário da UP a cada dez dias.
É claro que eles não aceitam que nós usemos...
as leis que estavam nas mãos deles, e que empregaram contra o povo.
Quando nós...
recorremos a essas leis...
para defender o governo legítimo...
e o avanço dos trabalhadores...
vem a resistência desses setores.
E eles têm todas as garantias...
da realidade que vive nosso país.
Este é um governo...
que não é socialista.
É um governo popular, democrático, nacional, revolucionário...
que deve cumprir um programa...
para abrir, o mais rapidamente possível,
o caminho para o socialismo e a transformação da sociedade.
O GOVERNO EMPAREDADO LEGALIDADE OU ILEGALIDADE
O GOVERNO FOI OBRIGADO A ACATAR O TRIBUNAL
Pouco depois, o Congresso tentou destituir todos os ministros.
O que significaria a destituição de quinze ministros de uma vez.
Apoiar o governo popular!
Contudo, a pressão popular fez parte da oposição recuar
e a manobra fracassou.
A direita está sempre contra nós.
Sempre está nos incitando a derrubar o governo.
Mas não vai acontecer,
porque nós trabalhadores elegemos este governo, que vai seguir.
Se for preciso, defenderemos este governo até com nossa vida.
Se querem enfrentamentos de rua, nós iremos pra rua.
Se for preciso lutar, lutaremos
como trabalhadores conscientes que somos.
em defesa da nossa democracia dos trabalhadores.
Em 17 de abril,
o governo expropriou legalmente mais 49 indústrias
que boicotavam a produção.
O Congresso reage com uma reforma constitucional
que invalida quase todas as expropriações anteriores.
A Democracia-Cristã e o Partido Nacional afirmam que
neste caso, o chefe de Estado não tem direito de veto,
Ou seja, o presidente teria de promulgar a reforma
e devolver as fábricas, sem discutir.
Por maioria simples, o Congresso desejava
retirar de Salvador Allende atribuições que outros mandatários tiveram.
Esses senhores da direita ganham uma fábula sem fazer nada.
Só sabem convulsionar o país.
Só querem gerar o caos, e para isso estão gastando fortunas.
Foi uma surpresa enorme para nós
ver que nossa fábrica, nossa fonte de trabalho,
estava desmantelada, transformada em depósito,
porque eles roubaram as máquinas!
Não queremos nada com os patrões, absolutamente nada!
Porque faz tempo que eles estão nos embromando
até as empresas acabarem sendo expropriadas.
Está comprovado que os patrões da indústria deste setor
começaram a boicotar abertamente a produção.
Nós, trabalhadores, somos contra isso.
Tomara que deem um jeito, e que o governo exproprie a indústria,
porque não dá mais para trabalhar com os patrões.
- Como chamavam esta fábrica? - De prisão.
Por causa da mentalidade feudal que tinham nossos patrões.
E os companheiros de outras fábricas
diziam que era a "Prisão Santa Helena".
Em 23 de maio, Eduardo Frei,
democrata-cristão e ex-presidente do Chile,
foi eleito presidente do Senado.
Uma de suas tarefas seria a de agravar o conflito de poderes.
Se Allende se negasse a promulgar a reforma
e não devolvesse as fábricas,
a oposição diria que ele violou a Constituição.
E, caso promulgasse, o Parlamento passaria a controlar de fato o Estado.
Allende considerou a reforma ilegítima,
e recorreu ao Tribunal Constitucional.
Se compreendemos...
que, nesta hora,
o primordial, o básico...
é fortalecer a política do governo
e conquistar os instrumentos...
para ter permeabilidade institucional,
e a oposição entender que não pode negar ao governo o essencial.
Para ser possível defender o Chile em uma realidade econômica,
que não é fruto dos erros cometidos por nós,
e não negamos os que cometemos,
mas é fruto de fatores internacionais e nacionais...
que pesam, sobretudo, quando um governo como o nosso
enfrenta o imperialismo...
e a oligarquia latifundiária, bancária e feudal.
Os deputados que rejeitam a proposta levantem a mão.
A partir deste momento,
o Parlamento buscou a paralisia definitiva do governo.
Em abril, maio e junho,
o Congresso boicotou todas as iniciativas da UP.
Resultado da votação:
Favoráveis, 52 votos. Contrários, 81.
Está rejeitada a proposta do Executivo!
A lei contra crimes econômicos foi rejeitada.
A lei que criaria o ministério da família foi rejeitada.
A lei de reajustes e salários dos trabalhadores foi adiada,
depois foi aprovada, mas sem verbas.
A lei sobre a participação dos operários nas fábricas
foi rejeitada.
A lei que criaria o ministério do mar foi rejeitada.
A lei que criaria empresas de autogestão foi rejeitada.
Em poucos meses,
outros 20 projetos foram aprovados, mas sem destinação de verbas.
Nacionalismo, presente!
Nacionalismo, adiante!
- Frente nacionalista! - Pátria e Liberdade!
Esta é a tropa de choque do grupo Pátria e Liberdade.
- Chile! - Uno!
- Chile... - Grande!
- Chile... - Livre!
Avante, Chile!
O conflito institucional por si só
não é suficiente para justificar um golpe de Estado.
Também é necessário provocar violência e caos social.
Esse é o objetivo principal desta organização.
Pátria e Liberdade é uma ínfima parte do movimento de massas de direita,
mas sua ideologia fascista influencia parte da oposição
e as Forças Armadas.
Entre seus dirigentes e ideólogos, estão ex-agentes da CIA no Chile.
Suas principais fontes de renda vêm de setores patronais do campo,
e de organizações da burguesia industrial.
Mas o maior apoio vinha do Departamento de Estado dos EUA.
Em 1974, alguns ex-funcionários desse Departamento
revelaram que, neste período, a CIA manteve 40 agentes no Chile.
Muitos deles foram instrutores de Pátria e Liberdade.
3. REBELIÃO ESTUDANTIL
Em abril, a oposição acha um pretexto para continuar a agitação,
O governo apresentou um projeto de reforma educacional
para democratizar o sistema de ensino.
Sentindo-se ameaçada, a oposição mobiliza suas tropas de choque.
Pela primeira vez no Chile,
uma grande quantidade de estudantes,
deixam-se levar pelos setores mais privilegiados.
Os partidos de oposição,
os autônomos,
e as associações de comerciantes apoiam a desordem nas ruas.
Chega de estar na defensiva!
Chega de sermos fantoches da reação!
De agora em diante, companheiros, temos de ser mais pragmáticos.
E temos de enfrentar as polêmicas com firmeza.
E quem se colocar na nossa frente, vamos atacar.
Não vamos para as ruas brigar com os moleques de direita.
A polícia e os milicos que se encarreguem deles.
Depois vemos como enfrentar o Estado.
É um Estado burguês, em algum momento teremos de derrotá-lo.
Ontem nós vimos
vários setores da população reivindicarem
e nossos colegas de turma sendo usados pelos reacionários
em relação a questão da distribuição.
Ou seja, o que os companheiros defendem
sobre a distribuição, a lei de reforma agrária,
a estatização dos monopólios de distribuição.
Essas são questões essenciais,
que os trabalhadores devem exigir um plebiscito para resolvê-las.
E não da forma como a reação está colocando.
E com mobilização efetiva dos trabalhadores.
Não podemos aceitar essa escalada, dia após dia.
É uma situação que já vimos antes.
Como dissemos em outubro de 1972, que eles tentariam repetir a dose.
E eles estão repetindo tudo sem mudar o que fizeram em outubro.
Agora nós trabalhadores devemos agir para neutralizá-los de vez.
E exigir um plebiscito ao governo sobre essas questões essenciais.
Como vamos resolver o problema dos transportes?
Porque sempre que eles querem atacar o governo,
paralisam os transportes!
Porque estão manipulando os motoristas.
A maioria não tem consciência de classe, não é sindicalizada.
Só querem saber dos valores imediatos com o frete.
Não fazem reunião de sindicato. Não querem saber disso.
Poucos sindicatos atuam no transporte, e os que atuam têm pouca força.
Diante da ameaça do comércio de realizar uma greve nacional,
na próxima semana...
que se estatizem imediatamente os monopólios de distribuição.
Diante da ameaça de boicotar a produção e a economia,
que se aprove logo o pacote
de expropriação das empresas que fazem parte das 90
e ainda não estão nas mãos dos trabalhadores.
E que a classe operária seja imediatamente integrada
à planificação da economia.
Não há a menor dúvida de que neste momento
de que as resoluções devem versar essencialmente
sobre a questão do transporte.
Nós, do Sindicato de Obras Públicas, de Anate,
estamos dispostos a fazer uma manifestação
diante do Congresso.
Alguém é contra?
Ao Parlamento!
Companheiros de Obras Públicas,
vocês têm caminhões ou vans
para levar os trabalhadores que vão sair das fábricas?
Sim, caminhões e ônibus!
Eles têm caminhões e ônibus. Adiante, companheiros, vamos lá.
UP unida jamais será vencida!
Em 27 de abril, a Central Única de Trabalhadores
convoca uma ampla manifestação em apoio ao governo.
A mobilização dos trabalhadores
tem o objetivo de tirar a oposição das ruas de Santiago.
UP! Trabalhadores no poder!
Criar, criar, poder popular!
A esquerda unida jamais será vencida!
MIR, MIR, MIR! Povo, consciência, fuzil!
Criar, criar, poder popular!
Quando os manifestantes
passam diante da sede do Partido Democrata-Cristão,
são atacados.
Das janelas, saem tiros que matam um operário
e ferem outros seis gravemente.
Os responsáveis por isso são os manifestantes provocadores.
E o morto e os seis feridos, senador?
- Onde? Quem? - Há um morto e seis feridos à bala.
Somos testemunhas que os tiros vieram lá de cima.
E você acha que tínhamos de deixar essa provocação aqui?
- É cristão matar as pessoas? - E quem nos protegeu?
Está justificando essa morte?
Estamos falando da sede do Partido Democrata-Cristão!
E aqui na sede do Partido Democrata-Cristão...
Não me bata!
Senador, por que bateu no jornalista?
Fascistas!
De onde dispararam? Em que momento?
Não está claro, estão investigando.
Em todo caso, já está nas mãos do juiz.
Neste caso, a polícia e as forças da ordem
são da alçada do juiz, do tribunal.
É o que dispõe o código penal.
A influência dos grupos violentos fica evidente no Partido Democrata-Cristão.
Juan Hamilton, senador da ala conservadora dos democratas-cristãos,
se nega a dar declarações.
Não avancem, companheiros!
Um momento de silêncio!
Acalmem-se!
Contra o fascismo, trabalhadores!
Um pouquinho para trás.
Está bem assim!
Companheiro José Ricardo Ahumada!
Presente!
- Companheiro José Ricardo Ahumada! - Presente!
- Com seu exemplo! - Venceremos!
Não empurrem, companheiros!
Calma, companheiros!
Unidade Popular contra o golpe militar!
Companheiro José Ricardo Ahumada!
Presente!
Quem o matou?
Os reaças!
300 mil pessoas se despedem em 30 de abril, do companheiro tombado.
Como percebem que ainda não é o momento,
a oposição encerra os protestos de rua.
TRIBUNAL DE PEQUENAS CAUSAS
O processo para punir os responsáveis pela morte
do operário Ahumada não avançam.
A justiça atua com lentidão.
O Supremo garante a impunidade dos culpados.
4. OFENSIVA DAS ORGANIZAÇÕES PATRONAIS
O Chile é, e será, um país de liberdade!
Estamos outra vez reunidos,
convocados pela direção nacional,
para estudar a alta de preços e fixar novas tarifas.
Primeiro fará uso da palavra
o presidente da Confederação Nacional de Táxis, Ônibus e Microônibus,
Ernesto Cisterna Solís.
- Olho por olho! - Dente por dente!
Esta assembleia, de pé,
deve dizer ao ministro que também estamos cansados
de ver tanta incapacidade para resolver nossos problemas!
Durante os 3 anos da UP,
o Instituto Americano para o Desenvolvimento do Sindicalismo Livre
financiado indiretamente pela CIA,
focou seus esforços nas organizações patronais chilenas.
Em abril, 108 dirigentes, principalmente de transportes,
foram treinados nos EUA.
Não confundamos consciência com paciência.
Não queremos política
nem nas tarifas nem na organização.
Mas precisamos sobreviver.
Temos de defender nossos interesses,
e, para isso, lutar como um só homem,
com nossa direção nacional,
e sair às ruas
para que nos vejam
e sintam a força de nossa organização.
Com coragem e fervor,
mas, sobretudo, como chilenos, e com dignidade, colegas!
Chega de soluções temporárias e remendos inúteis!
Os ônibus envelheceram,
e o peso dos problemas curvou as costas de tantos empresários!
Que há muitas gerações...
Aqui se trata de encher as panelas!
De poder sobreviver, resistir e salvar nossa atividade.
Porque assim salvaremos o emprego de milhões de pessoas,
que tem fé e confiança neste homem de trabalho,
neste transportador maltratado.
este sim que está construindo o Chile.
Este sim é um revolucionário!
Chegou a hora, de todos os transportadores chilenos,
sem distinção entre setores,
unificados em uma só plataforma de luta,
lançar a greve nacional!
Em maio, um terço do transporte coletivo
está parada por falta de peças de reposição de origem estadunidense.
Em 1973, as importações dos EUA caem a 15% do total.
Para protestar contra isso, e também para piorar a situação,
os donos de ônibus particulares decretam greve indeterminada.
Com apenas 600 veículos, a empresa estatal
assume o trabalho dos 5 mil ônibus privados de Santiago.
Para amenizar em parte os efeitos da greve,
os operários transportam passageiros nos caminhões das fábricas.
O que acha desta greve?
Devemos todos lutar para...
conseguir que...
que o governo...
fique confiante graças aos trabalhadores.
- Temos de combater a greve. - Como?
Ficando unidos!
- Quanto caminhou? - Umas 70 quadras, com 2 filhas.
Qual sua opinião?
É nessas horas que o povo tem de demostrar
a capacidade de luta
que vem forjando durante todo este processo.
Aqui podem ver nosso sacrifício, e não importamos em fazê-lo,
para continuarmos a trabalhar e a produzir.
Alguém mais quer falar?
A campanha que os reaças fazem contra nós é capitalismo
e para arrochar nossos salários.
Nós, trabalhadores, devemos ter confiança e consciência.
O que opina?
Eu sou estudante e penso que estão tentando
paralisar o país a qualquer custo.
Para enfrentar uma greve total do transporte,
é criado o MOPARE, Movimento Patriótico de Recuperação,
que agrupa os transportadores de esquerda.
Por causa do apoio a Allende,
sofrem atentados e sabotagens das organizações patronais.
À lealdade do povo,
responderei com a lealdade de militante socialista.
Como presidente do Chile,
cumprirei firmemente o programa da Unidade Popular!
Necessitamos...
de um controle melhor e mais amplo
da distribuição dos produtos.
Ouçam bem...
aqueles que acreditam...
que às vezes eu vacilo.
Temos de fortalecer o poder popular.
Os Centros de Mães, as Juntas de Vizinhos,
as Juntas de Abastecimento e Preços,
os Comandos Comunais.
Temos de fortalecê-los.
Também temos de fortalecer os Cordões Industriais.
Mas não como poder paralelo ao governo,
e sim como forças populares
unidas às forças do governo de vocês, o governo popular.
Em 28 de maio, altos oficiais da reserva,
enviam uma carta pública a Allende.
Afirmam que as Forças Armadas se considerarão autônomas
caso o governo viole a Constituição.
Pouco antes, altos oficiais da reserva haviam se colocado
contra a reforma educacional.
Nessa ocasião, o contra-almirante Ismael Huerta declarou:
"Não podemos aceitar que os futuros soldados
cheguem aos quartéis convertidos em marxistas."
Desde 1950, mais de quatro mil oficiais
foram treinados nos EUA e na região do Canal do Panamá.
Durante os dois anos e meio do governo de Allende,
receberam do Pentágono 45 milhões de dólares
Ou seja, mais de um terço do que receberam nos 20 anos anteriores.
5. GREVE DO COBRE
Pela primeira vez, a oposição arrasta um setor de trabalhadores.
Na mina de cobre El Teniente, uma parte dos trabalhadores
se declara em greve por motivos econômicos.
Tradicionalmente bem pagos,
os mineiros do cobre são a aristocracia operária do Chile.
Para a oposição, o objetivo é paralisar a mina.
Cerca de 20% das divisas do Chile são produzidas aqui.
Companheiros trabalhadores, além do Canal 13 de TV,
está conosco a TV francesa.
Companheiros, ergam a carteira de trabalho!
Mostremos que todos os trabalhadores estão aqui!
El Teniente unido jamais será vencido!
Primeiro, solucionemos os problemas dos trabalhadores de El Teniente,
e se sobrar dinheiro,
podemos resolver todos os problemas do país.
Primeiro nossos representados! Depois o resto do país!
Isso é tudo, muito obrigado!
Queremos solução!
Pedimos autorização à liderança sindical
para fazer uso da palavra.
Como trabalhadores da Unidade Popular,
discordamos...
dos métodos que estão sendo usados.
Nós dissemos de todas as formas...
que o mais importante...
é a unidade dos trabalhadores.
Nós a defendemos aqui, e nos partidos da Unidade Popular.
E o que defendemos aqui?
Defendemos a volta ao trabalho,
mas pelo conjunto dos trabalhadores.
Companheiros...
Defendemos o fim da greve!
Não aceitamos...
essa política divisionista.
Política não! Política não!
Greve! Greve!
No mesmo dia e hora,
mais de metade dos 8 mil mineiros continuam trabalhando.
A maioria faz hora extra
para manter o funcionamento básico da mina.
Caletones é um complexo industrial,
há quase 2 mil trabalhadores, entre operários e funcionários.
Hoje, 750 estão trabalhando.
A produção opera quase normalmente.
Portanto, amanhã ou no máximo segunda,
tudo estará normalizado.
Também cabe dizer
que alguns estão dando murro em ponta de faca,
respeito o que defendem, mas não tem qualquer base legal.
A história mostra que os operários daqui
lutaram incansavelmente contra os ianques,
até conseguir desapropriar as minas e nacionalizá-las.
Agora a indústria do cobre não é mais privada, é dos chilenos.
Mas nossa maior responsabilidade é fazê-la funcionar.
Os trabalhadores estão cada vez mais conscientes disso.
Só os da oposição,
teimam em acreditar que aqui há outros patrões.
Não é verdade.
Pois se fossemos outros patrões, a própria democracia-cristã,
tem sindicalistas aqui,
e representantes no Conselho Administrativo.
Pedimos à mídia de esquerda, principalmente o Canal 7,
que tem falado pouco dos que continuam a trabalhar,
que venham ver o grande número e parem de mentir.
Fizeram bem em vir aqui, por uma razão simples:
vocês vieram até o principal centro de trabalho.
Mas esta imprensa, o Canal 13, o jornal El Mercurio...
só estão indo em Rancagua,
e acham que lá representa toda El Teniente. Isso é um erro!
Nós, trabalhadores que não paramos de trabalhar,
queremos que as coisas se ajeitem.
Não em benefício individual, mas no de todos os chilenos.
Pode perguntar a qualquer trabalhador que estiver aqui.
São vocês que estão dividindo os trabalhadores de El Teniente?
Ninguém aqui quer isso.
É o inimigo que está nos dividindo.
O inimigo? Como assim?
Eles querem um confronto entre os trabalhadores.
O presidente do Partido Nacional disse publicamente
que se precisasse correr sangue, que assim fosse.
Querem confronto entre nós!
Nós nunca quisemos dividir os operários.
Eu já tenho 43 anos,
já estou aqui há muito tempo, foram 27 anos na mina.
Conheci os governos anteriores,
que foram muito duros com a classe trabalhadora.
Como o companheiro dizia, esse governo não reprimiu a greve,
porque é um governo dos trabalhadores.
Se fosse um governo de outra tendência,
vários companheiros aqui já estariam mortos.
E aqui na empresa já teriam demitido quase todos os de esquerda,
ficariam só os de direita.
Fomos ameaçados, bloquearam a estrada,
não nos deixaram descer,
mas seguimos trabalhando.
Descemos a pé, pelo meio do mato, mas viemos.
Alguns companheiros fizeram até três turnos
e ficaram aqui porque a mina tem de funcionar.
Já tínhamos ligado os equipamentos,
não dá para desativar os conversores
e os espessadores.
É um trabalho de muita responsabilidade.
Há muitos companheiros
que não sabem porque estão em greve.
Não sabem, esta é a realidade.
Enfrentam as forças da ordem,
porque alguém banca o chefe,
grita e os enrola.
E eles o seguem como se fosse Jesus.
Temos de conscientizar os companheiros.
Nossas lideranças têm de fazer isso.
Essa é a real explicação.
E como mudar isso rapidamente?
Dialogando como estamos fazendo agora.
Agora estamos começando a atuar nesta greve.
Eu penso que estou agindo bem.
Sou responsável por meus atos, sou independente...
Não sou ligado a partidos.
Meu único interesse é trabalhar pelo progresso do Chile,
não por interesses individuais.
Eu sei que eu tenho um bom salário,
também desejo que os recursos do cobre ajudem a todos ter um bom salário.
Agora já somos mais de 400, no turno anterior eram uns 300.
As coisas estão se normalizando.
O comparecimento ao trabalho sobe para 61%, em 7 de maio.
Os trens da mina funcionam dia e noite.
Greve! Greve!
Os grevistas, encorajados pela oposição,
rejeitam as propostas de acordo, e seguem exigindo o dobro de reajuste.
Queremos os 41% de reajuste que a empresa nos deve.
Quanto tempo de greve já?
Hoje completamos 21 dias.
O que vai acontecer?
Não sei, mas amanhã ou depois terá uma solução.
É uma greve sindical ou política?
Não tem nada a ver com política.
Aqui não há política.
Não há nenhum ministro, deputado ou senador metido na greve.
Nós trabalhadores que estamos defendendo nossos direitos.
Temos de vencer,
porque elegemos o presidente para defender os trabalhadores.
Não para nos criticar quando pedimos algo que é justo.
- Está com Allende? - Estou com o presidente.
- Mas esta greve prejudica o governo. - Sei que prejudica.
Mas nesse tempo todo de greve, depois de 21 dias,
já deveriam ter encontrado uma solução!
Para a praça! Para a praça!
Para as lideranças grevistas,
é importante que ocorram vítimas para acusar o governo de repressão.
Por isso, as forças policiais recebem ordens de atuar com cautela.
Como, apesar das pedradas, a polícia não reprime,
ocorre confusão e indecisão.
Enquanto alguns querem continuar o enfrentamento,
outros acham melhor ocupar os escritórios da mina.
Eu falei com o responsável, vamos à empresa!
Não queremos trabalhadores mortos.
Eu fui à chefia para dialogar, porque não queremos mortes.
- Quem representa os mineiros? - Nós!
Os dirigentes estão lá!
... e também solicitei, companheiros...
FUTURO CHEFE SINDICAL DA DITADURA
solicitei também, companheiros...
que fossem tão responsáveis quanto os trabalhadores de El Teniente.
Pedi aos senhores policiais
quem mantivessem a mesma compostura.
Pedi que mantivessem...
a mesma compostura.
De tal forma, que eu quero...
quero nesta manhã dizer aqui, companheiros,
que na reunião que tivemos com o presidente da República,
no dia 19...
Falei com eles como um irmão mais velho,
um companheiro.
Fiz com que percebessem como era grave se parassem
a produção do cobre,
quando precisamos de divisas,
quando não temos verbas suficientes,
quando talvez não possamos cumprir compromissos essenciais.
Sobretudo agora, quando o preço do cobre
atingiu níveis satisfatórios.
Neste momento paralisam a mina El Teniente
cuja produção estava batendo recordes.
Falei com eles como companheiro,
com carinho, com respeito, com afeto.
No entanto, os critérios econômicos foram mais fortes.
El Teniente está parada,
e o país está perdendo milhões de dólares.
Poderíamos ter chegado a uma solução,
que teria custado menos do que um dia de produção.
Mas teria aberto um precedente fatal.
Viria um reajuste após outro, e outras vantagens.
Hoje, peço a eles que entendam
que neste país ser mineiro de cobre é um privilégio
do ponto de vista patriótico e revolucionário.
Cabe a esses trabalhadores preservar a essência da pátria.
Do cobre depende a compra de peças de reposição,
matérias-primas, insumos, alimentos e medicamentos.
Peço a eles, como companheiro revolucionário,
que revejam sua atitude.
Proporemos soluções
que signifiquem renda mais alta
vinda da maior produção e produtividade.
É com consciência revolucionária
que lhes digo que tenho confiança no trabalhador chileno,
que não pode esquecer a agressão imperialista
e a conspiração interna.
O trabalhador do cobre e o camponês
têm de se unir para defender o futuro do Chile,
ameaçado externamente e sitiado internamente.
Na mina de Chuquicamata, em 16 de maio,
os mineiros rejeitam uma greve de solidariedade com El Teniente.
Na mina El Salvador, acontece o mesmo.
A oposição fracassa na tentativa de ampliar a greve
às outras minas de cobre.
NOSSA PADROEIRA DOS MINEIROS
Em 6 de junho, uma comissão de grevistas é enviada a Santiago.
O Congresso, que justificou a repressão a operários em outros governos,
abre seus jardins para os mineiros receberem alimentos e dinheiro.
O Parlamento publica uma declaração,
sem força legal, dando razão aos grevistas.
As doações continuam a chegar.
Para os setores mais abastados,
ajudar os mineiros grevistas vira obrigação.
Estou firmemente convencido...
de que este conflito terá repercussão internacional.
Porque aqui...
está em jogo...
a firmeza dos trabalhadores na defesa de suas conquistas.
Do outro lado,
está a posição do governo supremo
que, até este instante,
fez-se de surdo em relação a este problema.
Os únicos culpados...
dessa prolongação de 37 dias de greve...
têm nome e sobrenome.
É consequência da incompetência
dos ministros de Minas, do Trabalho e dos funcionários do governo.
Pela primeira vez, um líder operário é recebido na Universidade Católica.
Quando na mina já trabalham 75% dos operários
e 10% dos funcionários,
o líder sindical Guillermo Medina recebe o apoio dos filhos da burguesia.
Operários e estudantes, unidos, avante!
Abaixo, abaixo, o governo incapaz!
O povo onde está? Na rua, pedindo liberdade!
Os estudantes da Universidade Católica
tornam-se os principais agitadores da greve.
Enquanto a greve recua em El Teniente, a oposição politiza o conflito.
Em Santiago, a organização "Poder Feminino"
faz coletas para as esposas dos mineiros.
Um amplo setor da classe média começa a aderir,
conscientemente ou não,
às fileiras do fascismo.
Nacionalismo!
Presente!
Nacionalistas!
Adiante!
Frente nacionalista!
Pátria e Liberdade!
- Chile! - Uno!
- Chile! - Grande!
- Chile! - Livre!
Ao mesmo tempo, em Rancagua,
se declaram em greve comerciantes, autônomos e transportadores,
em solidariedade aos mineiros em greve.
Em 10 de junho, a oposição toma à força a rádio local.
Mas Rancagua é pequena para inflar politicamente o conflito,
já em retrocesso,
a oposição leva o conflito para a capital.
Na manhã de 15 de junho,
três mil grevistas chegam à sede do Partido Democrata-Cristão.
Representam cerca de 25% do pessoal da mina.
Juventude democrata-cristã!
A oposição leva sua tropa de choque às ruas.
O governo reage com a polícia e a mobilização de seus apoiadores.
Brigadas de operários ajudam a força pública a manter a ordem.
Agitadores provocam a polícia.
Enquanto operários de esquerda desarmam as barricadas.
Limpem aqui! Vamos limpar a rua, companheiros!
Ao meio-dia, os simpatizantes da UP se reúnem diante de La Moneda.
As batalhas de rua vão se prolongar até de noite.
Allende, Allende, o povo te defende!
Estou aqui porque tenho consciência de classe.
Estou aqui, com meus companheiros de classe,
defendendo o governo dos trabalhadores. Até a morte, se necessário.
Criar, criar, poder popular!
A esquerda, unida, jamais será vencida!
Companheiro, estou aqui desde as seis da manhã.
Primeiro por convicção, e porque tenho 12 filhos.
Sei claramente que a luta deste governo não é para mim mesmo.
Só me restam poucos dias de luta e de sacrifício.
É para meus filhos!
Estamos defendendo o poder constitucional.
Somos contra o fascismo.
Somos a favor do governo popular.
Achamos esta luta justa,
então viemos defender todos os trabalhadores.
Não queremos que um grupo de privilegiados,
como são os mineiros de El Teniente,
crie problemas para este governo.
Vamos defender nosso governo até as últimas consequências.
Companheira, por que veio?
Porque sou chilena. Tenho de defender o governo Allende,
porque é meu governo, do povo.
Não dá mais para aguentar o fascismo.
Temos de detê-lo de uma vez por todas.
É o que o povo pede, por toda parte pedem o mesmo.
Chega desses safados do Congresso que ganham e não fazem nada!
Essa é a opinião de todos os trabalhadores,
do povo pobre, companheiro!
Pulso firme contra os especuladores!
Que aprovem a lei dos delitos econômicos
para botar esses sem-vergonhas na cadeia!
Gostaria de dizer algo mais?
Já disse o suficiente!
Unidade Popular!
Venceremos!
No dia seguinte, os últimos grevistas
ficam parados diante da sede do Partido Democrata-Cristão.
Muitos voltam, na mesma noite, para Rancagua.
No entanto, um grupo simbólico vai para a Universidade Católica.
Em El Teniente, 93% do pessoal voltou ao trabalho.
Em 21 de junho, a Central Única de Trabalhadores
Convoca uma grande demonstração de força contra o fascismo.
Criar, criar, poder popular!
Unidade Popular, sem conciliar!
Unidade Popular contra o burguês criminoso!
Criar, criar, milícia popular!
Trabalhadores no poder!
Quem não pula é burguês!
Através das emissoras da rede Voz da Pátria,
o primeiro-trabalhador da nação:
o presidente da República, companheiro Salvador Allende Gossens.
Enquanto no centro de Santiago se reúnem 500 mil manifestantes.
Perto de lá, vigiados pela polícia,
os últimos grevistas observam a manifestação
do teto da Universidade Católica.
Afirmo...
que nunca...
em nossa história...
houve uma manifestação...
desta magnitude...
e com este conteúdo.
Foi preciso inovar em todos os métodos...
para conseguir...
ter apenas aproximadamente...
a dimensão...
da extraordinária, combativa e enorme multidão...
que enche as ruas
Moneda, Agustinas,
Amunategui, Ahumada, Morandé,
Huérfanos, Teatinos,
grande parte da Alameda,
e a coluna que saiu de Tajamar ainda não conseguiu chegar,
nem a de Vicuña-Mackenna.
Jamais na história do Chile
o povo foi tão combativo e presente!
Aqui se sente a história.
Aqui estamos fortalecendo o nosso direito de construir
um futuro de justiça e liberdade,
e de abrir caminho para o socialismo.
Uma semana depois, a greve do cobre terminou.
Em 28 de junho,
os 500 mineiros que ocupavam a Universidade Católica
se retiram em pequenos grupos.
O conflito durou 76 dias
e custou milhões de dólares ao Estado.
Com essa greve, os adversários de Allende
já tentaram quase tudo para derrubar o governo.
Só sobrou um recurso.
No dia seguinte, 29 de junho,
Às 9h da manhã, o regimento blindado número dois
ataca o palácio de La Moneda com 6 tanques.
O Parlamento, o Poder Judiciário, e os partidos de oposição,
ficam em silêncio.
O restante das Forças Armadas não dá apoio à ação.
Um pouco mais tarde,
Leonardo Henricksen, câmera argentino, filma sua última cena.
Não apenas grava sua própria morte.
Também filma, dois meses antes do golpe final,
a verdadeira cara de um setor do exército chileno.
Cuidado, cuidado!
Cuidado, saia daí!
FIM DA PRIMEIRA PARTE
Legendas: Troskim.
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