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Aprendi há muito que as histórias não são só verdadeiras ou falsas,
pois são alimentadas por meias-verdades,
por mentiras bem contadas ou por memórias turvas.
Memórias que se perdem entre o fumo dos fogões,
impregnam-se com o aroma das especiarias e, como as receitas,
misturam-se com a comida, como outro ingrediente.
1892
Esta é a história da minha tia-trisavó Tita.
Não sei bem se aconteceu assim.
Parte foi-me contada, a outra, li-a no seu diário
e no velho receituário azul.
Mas, como o tempo, tornou-se numa espécie de recordação,
numa memória de algo que não vivi,
mas que, de alguma forma, hoje, faz parte da minha vida.
Dizem que Tita tinha uma relação tão próxima com a comida
que, desde o ventre da Mamã Elena,
chorava muito quando picavam cebola.
Devia pôr meia cebola na cabeça.
A criatura está a chorar outra vez.
Não digas disparates, Nacha.
Um dia, o seu choro foi tão forte que provocou o parto.
Respire, respire. Não tenha medo, menina.
Suba, suba.
Suba, suba, isso. Suba, suba.
Respire, respire.
Respire, respire fundo, não tenha medo.
Dizem também que a Mamã Elena
deu à luz com muito mais dor do que o normal.
Como se algo no fundo de si não quisesse deixar nascer a filha.
Um pouco mais, mais, mais.
Olhe para mim, olhe para mim! Isso, respire.
E assim, Tita foi empurrada para este mundo, literalmente,
por uma impressionante torrente de lágrimas.
Contam que as lágrimas eram tantas que, quando evaporaram,
Nacha encheu uma saca com cinco quilos de sal
que usaram para cozinhar durante vários anos.
Tita nasceu a chorar,
talvez por conseguir perceber que a sua mãe não a queria,
talvez por ser mulher num mundo dominado pelos homens,
ou talvez por intuir que o seu destino já estava decidido
e que a sua vida se converteria numa árdua e grande batalha.
COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE
Um...
Dois...
Três...
Quatro...
Cinco...
Seis...
Sete...
Oito...
Nove...
Não, aí não. É o quarto da mamã.
- E depois? - Estamos proibidas de entrar.
Melhor, a Gertrudes não nos achará.
Dez! Cá vou eu!
Onde estão?
- Encontrei-te! - Não vale.
- Quem entrou no meu quarto? - A Tita, mamã.
Não sejas chiba, Rosaura.
Como te atreves, Tita de la Garza! Que seja a última vez.
Mamã...
Tita!
Tita, não fiques triste.
Não estou triste, estou zangada com a Rosaura.
Sabes que a Rosaura só quer ficar bem vista com a mamã.
Vamos brincar no milheiral com os miúdos.
Por favor, Tita.
Quem é aquele?
É o Pedro, filho dos vizinhos, os Muzquiz.
Acabou de voltar do colégio interno.
Olhem, desafio-vos a chegar ao outro lado do milheiral,
e quem ganhar poderá dar 10 bofetadas a cada um.
- Eu não bato em meninas. - Eu cá bato.
Tal como o chocolate se derrete com o chili seco para fazer o mole,
a alma de Tita fundiu-se com a de Pedro na eternidade daquele instante.
Sem necessidade de dizer uma única palavra,
Tita e Pedro prometeram amar-se para sempre.
1908
Sem o cuidado da sua mãe,
Tita cresceu na cozinha, ao lado de Nacha,
que lhe transmitiu todos os conhecimentos culinários.
Uma herança que vinha de muitas gerações.
Põe duas colheradas de natas.
Diz o receituário que, para fazer rabanadas com natas,
devem separar-se as gemas das claras
e batê-las com as natas, até a consistência ficar rala.
Com cuidado. Bate com cuidado para se misturarem.
Depois, descansam alguns minutos num recipiente untado com manteiga.
Lembra-te, só dois, hã?
As claras que sobram misturam-se com açúcar, casca de laranja,
anis e cravinho para fazer a calda.
Isso mesmo.
Bom?
Nacha ensinou a Tita todos os segredos da cozinha.
O que nenhuma das duas sabia
era que Tita tinha a capacidade
de transmitir os seus sentimentos aos pratos que preparava.
Para quem cozinhas estas rabanadas?
Fossem alegrias ou tristezas, tudo acabava impregnado com ela.
Era como se a própria Tita fosse mais um ingrediente.
RABANADAS COM NATAS
Olha o que te trouxe.
Como soubeste que é o meu prato favorito?
Contaste-me um dia, e eu lembrei-me.
Quando fores para a cidade, escreves-me?
Claro! Como não escreveria?
- Todos os dias? - Todos, Tita.
Todos.
Estas rabanadas estão a enlouquecer-me.
As rabanadas imbuíram-se com tudo
o que Tita era incapaz de expressar por palavras.
A sua ansiedade por se separar de Pedro.
O medo de perder o laço que tinham criado.
Mas também a esperança de que a distância aumentasse o seu amor.
Quando eu voltar, nada irá separar-nos.
CIDADE DE PUEBLA
Ontem, o ditador Porfirio Díaz
atreveu-se a prender o D. Francisco Madero, em Monterrey.
O Díaz pensa que, ao detê-lo, demonstra força. Engana-se.
Mostra é medo do nosso movimento, e terá de prender-nos a todos
para calar o grito de "sufrágio efetivo, sem reeleição".
Sufrágio efetivo, sem reeleição!
Amigos, está nas nossas mãos o sucessor de Díaz seja a lei.
A lei das eleições livres, a lei do voto para governar.
A lei do voto para todo o povo. Sufrágio efetivo, sem reeleição!
Sufrágio efetivo, sem reeleição!
Está preso por sublevação.
Que fazem aqui? Ninguém vos chamou.
César!
César! César! Socorro!
César! César, responde! César!
Vamos, Pedro! Vamos embora!
Perdão.
Agora a Gertrudes.
Gertrudes...
Acho que já ensaiaste o suficiente por hoje.
- Sim, mamã. - Aliás, Pierre,
a minha filha pode continuar a ensaiar sozinha.
Se precisarmos de aulas, aviso.
- Mas, mamã... - Não...
Foi um prazer ensiná-la, Gertrudes.
Madame, Mademoiselle.
- Acompanho-o. - Não, não é preciso.
Eu insisto. Por aqui.
- Quer que os acompanhe, mamã? - Tita, vai tu com eles.
E não os percas de vista.
Olhem.
Cinco minutos.
O problema é que exige muito dele.
O Moro é um cavalo muito nobre
e é capaz de rebentar por si, se lho pedir.
Mas, se não lhe der descanso e o montar de seguida...
Tenho um cavalo assim para não o montar?
Veja. Este osso já começou a crescer-lhe dum lado.
Não estará mal ferrado, ou limpaste-lhe mal os cascos?
Não discutiria cavalos com o Juan.
- Filho! - Pedro.
Bom dia.
Como está, tio? Gosto em vê-lo.
E eu, em ver-te de volta.
Sabes a que horas acordam os advogados?
Hoje passa, por causa da viagem, mas amanhã,
ou acordas ao amanhecer ou levas com um balde de água.
Pronto, pronto.
Então... ficas?
Aonde querias que fosse? Ele tem leis a mais na cabeça.
São horas de ficar com o pai
a construir a herdade, não é?
É, pois.
Juan! Quando damos uma boa cavalgada até à serra?
- Amanhã. - Está bem.
O teu pai que não feche, para pintarmos lacraus.
Ele ficará feliz quando eu lhe disser, Pedro.
Gostei de o ver, tio. Cumprimentos à sua esposa.
Serão entregues, Pedrito. Serão entregues.
Está bem, Juan. Deixemos o Moro descansar.
Sela-me o Caramelo, e a égua para o meu irmão.
Juan, o meu filho já não é um miúdo, nem tu,
por isso, chama-lhe D. Pedro, como a mim.
Ou pelo menos patrão, entendido?
Entendido, patrão.
Imagino que a veremos e às suas belas filhas
no Baile do Centenário da Independência.
Detesto esses bailes, mas, sim, lá teremos que ir.
Como poderiam não ir?
Está cheio de jovens distintos em hora de casar.
Claro, é para isso que servem.
Aí vem ele.
Tita, podemos falar?
Como está, Pedro?
D.ª Elena. Como está?
- Bem. E o seu pai? - Bem, obrigado.
- Mande-lhe os meus cumprimentos. - Serão entregues.
Faz o que eu te pedi.
A cidade toda está alvoroçada com o maldito Baile do Centenário.
Que coisa aborrecida, mamã,
mas, se insiste, teremos de ir.
Vamos pela tua irmã Rosaura,
não te entusiasmes tanto.
Porque queria falar contigo o jovem Muzquiz?
Não sei, mamã. Nem quero saber, sinceramente.
- Com este vestido, pareço a avó. - Pois, eram da Avó Lola.
A mamã já mandou remendá-los umas 20 vezes.
Porque não podemos ter vestidos novos?
Pela razão por que não podemos consertar os telhados,
senão atrasa-se a pagar aos peões.
Olhe, velho e tudo, eu ia ao baile só para o vestir.
Talvez encontre alguém que mo queira tirar, por ser velho.
- Fina! - E porque não agora?
- Não... - Ajuda-me.
Não, esperem, esperem.
- Isto é assim. - Está do avesso.
O Pedro vai ao baile.
- Quero lá saber. - Que se passou com o Pedro?
Prometeu que me escrevia e não cumpriu.
A cidade deve estar cheia de jovens bonitas, Tita.
E então? Eu também sou bonita.
E mesmo que fosse horrível, não recebi uma carta em dois anos.
- O Pedro ama-te, Tita. - Como sabes tu?
Porque reparei como ele a come com os olhos, às vezes.
Ainda não estão prontas?
Fina, que vestido é esse?
- Tira-o já. - Sim, senhora.
Esta é a grande noite da vossa irmã.
Por isso, se vos convidarem para dançar,
recusem e digam que lhe peçam a ela.
Estás muito bonita, filha. Compreenderam?
- Sim, mamã. - Sim, mamã.
Dr. Brown! Boa noite.
Gertrudes.
Rosaura.
Tita, quem acabei de ver?
- Quem? - Lembras-te do Dr. Brown?
Sim.
- Está muito diferente. - A sério?
- Já nós estamos preocupados. - Porquê?
Chegou-nos uma notícia de que o povo começa a erguer-se.
Acredite em mim.
Vão esquecer-se, o Madero já está preso.
Está preso, mas os Maderistas revoltosos
continuam a envenenar o povo.
Não era suposto serem democratas?
Queriam eleições, agora aceitem a sua derrota.
Qual é a opinião do jovem Muzquiz?
O Díaz não se ajudou com o resultado.
Não acham escandaloso ganhar por 18 000 votos
e o Madero nem chegar aos 200?
Ele tem razão. Foi uma mostra de poder escandalosa.
- Boa noite. - Boa noite.
Felipe.
- Gosto em vê-lo, cunhado. - Igualmente, cunhada.
Pedro, soube que deixaste os estudos.
- Tens a certeza? - É só por agora.
No momento, faço mais falta aqui.
Que bom. Felipe, o baile já terá começado?
Receio que sim. Cavalheiros.
- Com licença. - Faça favor.
Então, ele vai ficar na herdade.
Algum dia teria de acontecer.
Algum dia verás que ficará com tudo o que te pertence. Vamos dançar.
Pedro?
- Amigo. - Há quanto tempo.
Temos de falar.
Mais tarde.
Muito gosto, Santiago.
E esses foragidos eram peões até há bem pouco tempo.
Que achas do de bigode, ali?
Ficaria melhor de barba completa, tapava-lhe mais a cara.
Meninas, veem defeitos em todos.
Vem aí o Dr. Brown.
Rosaura.
- Gertrudes. - Doutor.
Tita.
Quem haveria de dizer?
Ainda há pouco tempo eras só uma menina e agora...
Bom, agora, tornaste-te numa mulher muito bonita.
Que amável, Dr. Brown.
Concedes-me esta dança?
- Sim, Dr. Brown. - Perdão?
Quero dançar consigo, venha.
- Gertrudes... - Sabe esta.
- Desobedeces-me? - Não fiz nada de mal.
Não?
Sabias que não podias dançar
e que devias ceder todas as propostas à tua irmã.
- O Pedro pediu-me, não à Rosaura. - E tu aceitaste.
Proíbo-te de voltares ao baile, Tita.
- A Gertrudes também dançou. - Deixa a tua irmã.
Ficas aqui em cima, e ai de ti, Tita de la Garza,
se voltares e me humilhares de novo.
Sim, mamã.
Pedro, anda.
- Que bom ver-te. - Como vão os nossos assuntos?
Bem. Acabei de contactar vários grupos.
São camponeses, peões,
que abandonaram as herdades dos seus patrões.
Têm muita raiva, não têm nada a perder.
A nossa causa não vale nada sem esses peões.
Não lhes servirá de nada tanto ressentimento sem armas.
Em breve, viajo para o Texas.
Vou reunir dinheiro e armas.
A dada altura precisarei da tua ajuda, Pedro.
Claro, foi para isso que regressámos. Olha para eles.
Acham que podem continuar a governar assim mais 30 anos.
Mas o Madero tem razão: é preciso guiar o povo e dar-lhe armas.
- Por César. - Por César.
Cuida-te.
És extraordinária.
- Obrigada, mas não percamos tempo. - Sim.
Nunca te esquecerei. Ficarás sempre na minha memória.
- Mais alguma coisa? - Amo-te.
E eu a ti, Pierre.
Podes fazer amor comigo, antes que a minha mãe nos ache?
Claro.
Tita, no outro dia na igreja, trataste-me como um estranho.
Mas, há bocado,
quando dançávamos, éramos os dois,
os de sempre.
Eu não mudei, Pedro.
Nem eu.
Tens a certeza?
O Pedro que eu conheci cumpria as suas promessas.
- Disse que ia escrever-me. - Eu escrevi.
- Nem uma única carta. - Tita, eu escrevi-te dezenas.
Dezenas?
Escrevi-te todos os dias.
Semanas inteiras, até me cansar de não responderes.
Então,
não conheceste ninguém na cidade.
Um dia, ao passear num mercado do Zócalo,
senti um cheiro familiar.
Numa banca, vendiam rabanadas com natas.
Provei uma.
Tive de lhes dizer que não sabiam como elas se fazem realmente.
Tita, sem ti, nada tem o mesmo sabor.
Nada tem sentido.
Eu amo-te.
Esta rapariga, sempre com pressa.
Nacha! O Pedro ama-me.
- O Pedro Muzquiz ama-me. - Que aconteceu?
Escreveu-me um monte de cartas, mas nunca as recebi.
E então?
Ele quer casar comigo.
Vamos ser tão felizes. E tu vais viver connosco.
Se Deus quiser, menina.
Entre as muitas obrigações que a Mamã Elena impunha a Tita,
constava o privilégio duvidoso de a ajudar com o seu banho.
Tita era a única que podia vê-la nua.
Na época, o pudor era uma virtude, por estranho que pareça.
- Mamã... - Sim?
O Muzquiz e o pai querem vê-la.
Para quê?
Não sei. Só me mandaram recado a pedir para vir vê-la.
Diz-lhes que poupem a viagem.
- Porquê? - Nenhum Muzquiz põe um pé
nesta casa, ouviste-me?
Os Muzquiz são gente má.
Aproveitaram-se de mim, são ladrões. Roubaram-nos.
- Roubaram-nos o quê? - Esta água esfriou.
Rosario, como estás?
Bom dia, Amancio.
- Bom dia, menina. - Bom dia.
- Remedios. - Menina Tita.
O xarope que mandei era bom?
- A minha filha dormiu logo. - Que bom.
Com licença.
Delfino, como está?
Muito bem, Menina Tita. Que deseja?
Nada, só quero conversar um bocadinho consigo.
Claro.
O que é?
Sabe o que aconteceu entre a minha mãe e os Muzquiz?
Lembra-se das cabeças de gado?
Pois, esses animais eram o maior orgulho da herdade.
A sua mãe precisava de dinheiro.
D. Pedro soube disso e fez-lhe uma proposta pelo gado.
Uma proposta ofensiva, das que se fazem no início dum negócio.
- E? - A sua mãe precisava do dinheiro
e aceitou.
Ela vendeu-as mal,
mas a verdade é que ela é que aceitou o negócio.
D. Pedro podia ter sido mais piedoso com uma viúva, mas ele é assim.
É um homem ganancioso e muito orgulhoso.
Obrigada, Delfino. Um bom dia.
Às suas ordens, menina.
Sempre que Tita precisava de arrumar as ideias,
recorria à cozinha.
Os aromas e sabores que os guisados lançavam quando tocados pelo fogo
impulsionavam Tita a tomar as suas próprias decisões.
- Olá. - Trouxe-te umas quesadillas.
Anda cá.
Tita, estão fantásticas.
Falei com a minha mãe e...
ela vai complicar-nos a vida.
Parece que tem contas pendentes com o teu pai.
Eu sei.
O que achas de, quando forem pedir a minha mão, como prenda de noivado,
oferecerem à minha mãe o gado que ela vos vendeu?
O gado? Não, Tita, isso é muitíssimo.
Bem sei, mas assim a mamã não podia recusar.
E o meu pai vai recusar.
Mas, se nos casarmos, o gado fica na família.
Não achas que é a solução perfeita?
- Sabes que mais? - Sim?
Acho que poderia funcionar.
- A sério? - Sim.
Tinha de ser uma de la Garza.
Não posso com aquela mulher, não a suporto.
Ela passar a fazer parte da família? Que disparate.
A filha do D. Genaro, o governador, é lindíssima.
Ou a sobrinha do D. Mauro. Dezenas de moças de boas famílias.
Eu já decidi, pai.
É fácil decidir com bens alheios.
Ouve, eu ofereci à D.ª Elena uma quantia pelo gado
- e ela aceitou. - Não é essa a questão.
É, sim.
Devia vir ela com a filha, e trazer um bom dote.
Feliz por a filha se tornar uma Muzquiz.
Em vez disso, o que tenho de fazer eu?
Oferecer o meu gado? O meu gado!
Como raio queres que entenda isso?
- Pai. - Que foi?
Vou casar com a Tita, quer queira, quer não.
Não quer desfazer-se dessas vacas?
Certo, arranjarei uma maneira.
- Isto está ótimo. - Foi a Tita que as fez.
Pai, a Tita é a única mulher que amo.
Ou é ela, ou nenhuma.
Podíamos fazer um acordo com essa maldita senhora
que a ganadaria seria dos dois, e dos vossos filhos.
Acho que sim, sim.
Então, assim,
ficará sempre na família.
Achas mesmo que umas reses quaisquer me importam mais
do que a tua felicidade, Pedro?
Para quem trabalhei todos estes anos, se não para ti?
Tudo o que eu tenho é teu.
Tens a certeza?
Então, assim seja.
- Saúde. - Saúde.
Segundo se contava na família,
nunca ficou claro se foram as palavras de Pedro
que convenceram o seu pai por fim,
ou se foi o desejo profundo de Tita que infundiu as quesadillas.
Tita não sonhava só que Pedro pedisse a sua mão,
mas também que, com o regresso do gado,
pela primeira vez, a sua mãe se orgulhasse dela.
Senhora, estão aqui D. Pedro Muzquiz e o filho.
- Querem vê-la. - Que é que te disse, Tita?
Não sei o que querem, mamã.
Está bem, Fina, leva-os para a sala de visitas.
Rabanadas com natas.
Diga-me, D. Pedro, a que devo a honra de uma visita tão inesperada?
Bom, D.ª Elena,
conhece-me, sabe que não sou de rodeios.
Aqui o meu filho Pedro está apaixonado pela sua Tita
e vimos pedir a sua mão.
Lamento que a sua viagem tenha sido debalde.
Não tenciono dar a mão da Tita.
Sendo ela a mais nova, tenho os meus planos para ela.
D.ª Elena, eu amo a Tita e quero casar com ela.
Garanto-lhe, nunca lhe faltará nada.
Insisto, esse casamento é impossível,
e, se me dão licença, tenho assuntos para tratar.
D.ª Elena, compreendo,
mas, para seu próprio interesse, devia ouvir a proposta do meu pai.
Sim, bom, o meu filho...
quer dizer, nós oferecemos-lhe,
como prenda de noivado à sua filha Tita, a nossa ganadaria.
Quer dizer, a parte que lhe comprei em tempos.
É uma proposta muito generosa.
Mas, neste momento, só penso casar a minha primogénita, a Rosaura.
É o mais correto.
D.ª Elena, penso que é...
Insisto, a Tita não sairá desta casa.
Mas poderíamos achar uma solução.
Porque demoram tanto?
Os Muzquiz vão-se embora.
Vieram pedir a mão da Tita.
E, sim, haverá casamento.
Mas, como lhes expliquei,
decidi há muito que a Tita cuidará de mim
nesta casa até eu morrer.
O que está a dizer, mamã?
Que o Pedro Muzquiz casará com a Rosaura.
Tradução: Candida Matos Iyuno
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