All language subtitles for A.Primeira.Tentacao.de.Cristo.2019.720p.WEB-DL.x264.NACIONAL-WWW.BLUDV.TV

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Original subtitles

[sinos de Natal]

[Melchior] Acho que é pra lá.

[estalo]

Ih, rapaz, complicou agora pra mim aqui.

Agora me pegou isso aqui porque... eu achava que era pra lá.

[estalo]

Me confundi. Tem certeza que esse é o caminho?

-[Gaspar] Tava te seguindo. -[Baltasar] Tem que seguir a estrela, né?

[Gaspar] Para com esse negócio de estrela!

Da outra vez a gente ficou dois meses atrás de um cometa qualquer.

-Foi parar na Grécia! -[Baltasar] E vai reclamar agora, então?

Vai dizer que não valeu a pena? Cada praia, meu! Quero é Míconos!

Gente bonita, animada...

[imitando batida]

[Belchior] Vamos por aqui. Eu tô com um feeling. Vem.

-[Gaspar] Um feeling bom... -[Baltasar] Esse é meu medo.

[música de suspense]

Eles ainda tão morando na casa da manjedoura?

-Lá mesmo. -Não queria botar pilha não.

Mas José já podia ter comprado coisa melhor.

-Com que dinheiro? -Ele não é marceneiro?

Sim, o pior marceneiro que existe na face da Terra.

Pedi pra ele fazer uma mesa pra mim uma vez,

veio tão desnivelada que eu tive que usar como calço

da outra mesa que eu já tinha velha.

Na boa, 30 anos indo lá e ninguém decorou o caminho, é isso?

É muito longe, Gaspar. Não tem como decorar não, cara.

É por isso que não vai ninguém nas festas deles, só bicho.

Telma!

-Telma! Não? É Telma? -Melchior, quem?

-Não é Telma não. -Telma? Que Telma? Quem é Telma?

Telma é uma romana que conheci na crucificação.

A gente combinou de ir junto pra casa de Jesus.

Calma aí, Melchior, vai levar a Telma pra casa do Cristo?

Qual o problema? Meu nome não tá na lista? Melchior é Melchior mais um, é etiqueta.

Não pode levar uma peguete pra uma festa de família, Melchior.

Gaspar, no vuco-vuco, na confusão, ninguém vai ver Telma.

Que vuco-vuco? Que muvuca? O negócio é superíntimo!

-É petit comité. -Isso aí também já tá chato.

-O quê? -Só chamam a gente pra batizado,

chá de bebê, chá de cozinha, só programa de tia velha solteira, gente.

Vamos seguir essa estrela que já tá falando loucura. Vamos, ali ó.

-Tá puxado pra mim, viu? -O quê?

Pô, caminhar tudo isso. Gastar com presente, não tá...

Gastar dinheiro com presente? A gente viu você catando isso ali atrás.

-Você catou isso ali atrás. -O que vale é a intenção, amigo.

-O cara é filho de Deus. -O filho de Deus não gosta de flor, não?

Pois saiba você que eu estou levando salgados, quitutes para a festa.

-Agora vamos. O quê? -Ô, Melchior!

-Tu é rei mago, não é um bufê. -Pois é.

mas fiz um enroladinho de presunto que está tão bom que vai passar no cabelo.

-Ô, mula! -[Melchior] O quê?

O povo lá tudo judeu e tu vai levar porco pra eles comerem?

Eu falei porco? Eu falei presunto!

Gente, quem quiser, come, quem não quiser, não come, entendeu?

Vai tá lá. Tem um pessoal adorador de Shiva.

-Esse pessoal come. Agora vamos. -Que adorador de Shiva?

-Ficar discutindo nada não. -Tá bom!

[cocoricado]

Gente, mas tá um fracasso esse lugar.

Tenho até vergonha de ter chamado Telma pra uma festa caída dessa.

-É, pelo silêncio tá caída mesmo. -Tá horrível.

Bom, a gente pode...

-Vamos embora. -Não, não, não.

-Que ninguém vê a gente. -Não, a gente entra...

fala que passou só pra dar um "oi" porque tem outro compromisso, entendeu?

-Ótimo! Outro compromisso. -Fechou?

-Pegou, Gaspar? -Peguei, peguei, tá tudo certo.

-Tá. -Vamos nessa, então. Vamos lá.

[rangido]

Ué, tá aberto!

-Tá errado... -Não, é aqui mesmo.

-Tá tudo escuro. -Alô?

[todos] Surpresa!

-Eita, porra! Machucou. -Vocês estão malucos?

-Que susto, porra! -Pegou a mandíbula aqui!

-♪ Derrama, Senhor ♪ -O que é isso?

Não é Jesus não, tia!

-Não é não! -Forte pra caralho vocês. Puta que pariu.

Meu Deus do céu, é demência isso, tia?

-♪ Com quem será? ♪ -Tia!

-♪ Com quem será? ♪ -Não é ele, tia!

[Convidado 1] Já anoiteceu. Olha só...

Para com... Recolhe o papiro picado, por favor?

-Chega. -Isso deu trabalho, hein?

Entra que festa surpresa não pode atrasar, vamos.

Eu me atrasei porque fui comprar essas lindas flores para o nosso menino.

-Todo mundo só trouxe flor? -O meu é o único que tem todas as cores.

-Tá tudo colorido aqui. -Não.

-E aí, meus Reis Magos? -Ô, José!

-Vocês querem beber alguma coisa? -Beber, eu quero!

Já que perguntou, o que tem aí?

-A gente tem água. -Água?

É uma água muito gostosa de uma cachoeirinha que tem aqui do lado.

Pequenininha, mas desce na pedra ali, vem filtradinha.

-Muito gostosa. -Mas é que água, né?

Não tem vinho ainda porque Jesus ainda não tá fazendo milagre.

Como é que será que Jesus vai lidar com esse negócio de ser filho de Deus,

-de milagre, essas coisas... -Pois é.

-Vai reagir bem! Porque ele é um amor. Né? -Que susto.

-Isso ele é. -Eu vou falar com jeitinho

porque eu tô com um discurso preparado que eu escrevi com o maior carinho.

-Você preparou? -Ficou bonito.

Fiz uns desenhos, então acho que ele vai entender.

-Trinta anos também, né, José? -Trinta!

-Passa rápido pra caramba! -Isso é mirra, é?

[indaga]

-Trouxe mirra de novo? -Espera aí...

Espera aí.

-Qual é o problema com a mirra? -O que foi? Tem que falar.

Fala da flor, fala da mirra...

Quer saber? Ano que vem eu não vou trazer nada.

-Não, Balta... -É melhor pra vocês?

-Não te falei? -Pode ser assim?

-Maria... -Falou o quê?

-Balta... -Balta não! Respeita a realeza, Maria.

-Você mudou. -Maria!

-Não mudei nada. -Maria! É o rei!

-Subiu à cabeça. -Não faz isso não, que isso...

-Eu falei. -Eu trouxe a comida que você me pediu.

-Tá vendo? Gosta de mim. -[Melchior] Que delícia.

Deixa eu ver isso. Não é porco não, né?

-Tá com cheiro bom. -Não é bom?

Puta que...

Isso é uma delícia. É pra comer pra sempre.

Delícia mesmo. É de quê?

-Ué, isso é... -Soja! É soja!

-Melchior que fez de soja. -De soja?

-Soja. -Soja.

Como é esse enroladinho aqui? Como faz?

[gagueja] É um enroladinho, o nome já fala, né?

Você enrola a soja na massa, a massa na soja, tá enrolado e tá pronto.

-Forno e... -Mas como é que prepara a soja?

Gente, ela virou a Palmirinha agora!

Ela vem! Ela disse que vem. Mas não pode falar a receita agora?

-É que soja vai de cada um, né? -Deixa de ser bobo!

Fala!

-Nunca provei isso, delicioso! -Eu...

gosto de fazer assim... Eu gosto de criar a soja solta.

Né? Criar a soja solta no pasto, pra soja poder se exercitar,

comer grama e, ao mesmo tempo, beber água no riacho.

Até ela pegar a idade certa,

o peso que ela tem que ter,

daí é abater, você dá uma machadada no pescoço da soja,

sacrifica a soja e é isso. Né?

É, é isso.

Machadada no pescoço? Não sei se tô entendendo.

É segredo de família do Melchior! Ô, Melchior?

Coisa de mamãe. Você conhece mamãe, né?

Tua mãe não criava porco?

-Criava soja. -Silêncio. Jesus chegou.

Shh. Peraí.

[Convidado 2] Apaga a luz.

Shh.

[rangido]

-Surpresa! -[todos] Surpresa!

-Caralho! -Ah!

Porra, Leonor.

Porra, vocês querem me matar?

Tô achando que eu não vingo até Jesus chegar.

-♪ Derrama, Senhor ♪ -Mas é idiota, tia?

-Gente, mas cadê Jesus? -Ele tá há uns 40 dias no deserto.

Mas tá voltando já.

Meu amor, mas 40 dias é muito tempo, né?

Por quê? Deixa o garoto.

Tá se descobrindo, deixa ele.

Mas eu não tô querendo impedir isso não. Eu fico preocupado que eu sou pai, Maria.

[Maria] Todo mundo já sabe. Para com isso.

-Eu sou pai, eu sinto, Maria. -Que autoafirmação. Todo mundo já sabe

-que você é o pai... Meu Deus. -Opa.

[ventania]

-Tá sujo aqui, ó. -[som de sino]

[todos gargalham]

Meu amor, você chamou Ele?

Ele é o Pai. Você que eu não convidasse o Pai?

Ele é o Pai? Tá de brincadeira, Maria!

-Ele falou que não ia vir, José. -Peraí.

Ele falou que não ia vir? Como assim? Você falou com ele em que momento?

-E... -"E" o que, Maria?

-Não sei, ontem. -Ontem? Como?

Maria, eu passei o dia inteiro com você ontem, meu amor.

-Fala a verdade, Maria. -José tá chato!

-Eu tô chato, meu amor? -Tá.

-Foi ontem à noite, sei lá. -À noite. À noite?

-É. -Enquanto eu estava dormindo?

-Boa noite. -Porra.

-Boa noite, tudo bem? -Porra, que susto.

[Deus] Tudo bom?

É... eu trouxe uma lembrancinha aqui pro casal.

-Obrigada, não precisava. -Precisava não.

-Pro casal. -Opa, muito bom, obrigado.

Muito bonito o embrulho, adorei o tecido.

Olha aí, José! Não falei pra você

que a gente precisava de uma pintura pra alegrar essa casa aqui?

É de família, olha!

-É... -É, eu lembro. Você falou.

-Você o quê? -Oi?

-Você lembra? -É modo de dizer, José.

Você tá ouvindo as nossas conversas?

-Vai fazer escândalo agora? -Escândalo não. É invasão de privacidade.

-Ele é abusado! -Adoramos!

Adorou...

-Muito obrigada. -Que bom que vocês gostaram.

-Eu fico feliz. -Ficou muito bonito.

Você viu isso aqui direito? Viu que eu tô pintado pela metade?

-Isso é arte! -Isso é arte?

É que o artista no caso não teve tempo de pintar todo mundo.

O artista não teve tempo, o artista é bom.

-Qual o nome desse artista aqui? -Sou eu.

Você não é o Deus Todo-Poderoso?

Ele não é o Deus da perfeição que faz tudo direitinho?

Mas não consegue pintar o final de uma pessoa no quadro?

É que eu tinha muita coisa pra fazer, José. Muita coisa.

-Ele tá de deboche comigo, Maria. -Chega.

Eu também trouxe um pavê.

Mas não é pra ver não, é pra comer!

[todos riem]

"Não é pra ver, é pra comer..."

-Maria, Maria... -Foi boa. Não tem humor mais?

Que sem graça! Noé fez essa piada! Isso é antigo.

Essa eu vou repassar pra Jesus passar por aí.

-Fica à vontade. -Pode deixar que eu já conheço tudo aqui.

-Esse cara tá de sacanagem. -Vai estragar a festa?

Tá bom. Olha só. Tu não já fez seu showzinho?

Já fez tua graça?

Aqui o aplauso. Agora mete o pé.

[José ri forçado]

-O que é isso, gente? -Meu filho!

[todos] Surpresa!

Eita.

Meu filho, dá um abraço aqui.

Uau! Lotadíssimo.

-Isso não é nada, sai, sai... Nada, gente. -Peraí.

-Ele falou que estava todo mundo dormindo. -Que falei...

Canto "Derrama" de novo?

-Não precisa não, tia. -Que graça ela. Amei essa bata.

-Vem cá, é aniversário de quem? -De ninguém, é meu.

Seu monstro! Nem me falou nada! Não pude nem comprar presente nem nada.

-Veio todo descabelado. Ah, não! -Ele é uma figura, gente.

-Quem é? Não vai apresentar o seu amigo? -Quem? O quê?

-O que que é quem? -Sou eu!

-Sou o Orlando. -Tudo bem?

Como é que tá?

Não precisa nem apresentar. Você tá indo embora.

Ô, filho, mas é Orlando da onde?

Do deserto, pai, vocês não conhecem.

-Como assim? -Do deserto, a gente... Eu vou falar.

-Oi, tia Lupita! -Esse rapaz é bicha?

-Ih... -[Maria] Chega!

-Porque aquele lá é preto que eu vi. -Não!

-Ela tá... -Deixa ela.

É a idade.

Leva. Leva daqui!

Eu tenho uma tia que fala a mesma coisa de leproso e canhoto.

[Jesus] Deixa. Depois você volta, vai.

Mãe, essas coisas você tem que me avisar.

Eu ia saber que você ia ficar 40 dias no deserto? 40 dias!

Sem me falar nada! Como é que eu fico aqui?

Tem razão. Desculpa. Eu amei, viu? Amei a festa.

-Amei o que você fez. -Ah, tá bom.

Desculpa, mãe.

Agora, como é que você sabia que eu ia voltar logo hoje do deserto?

-Teu tio Vitório... -Opa.

-Tio Vitório! Que saudade! -Oi, meninão!

-E aí, meninão? Como é que você tá? -Eu tô bem.

-E essa barba? -Gostou?

-Gostei, adorei. -É o deserto, né.

-A gente fica mais solto. -E deixa crescer.

-Mas você raspou o peito também? -É, pra nadar melhor.

-Nadar melhor? -[José] Jesus!

Meu filho! Jesus, meu filhão!

Eita! Esse é o filho que eu amo e cuido já tem tempo. 30 anos!

Filho, tenho um presente pra você, meu filhão.

Olha que coisa bonita que papai fez.

-Olha! Pra mim, é? -É, pra você!

-Como é que funciona isso? -Observa o som, filhão.

Olha que bonito, pra você.

[toca instrumento de sopro]

A gente já entendeu o conceito já.

-Já percebeu que é uma flauta pitoresca. -Obrigado, viu?

Eu também fiz um presente pra você. Tá aqui ó.

[estalo]

-Olha aí. -O que é isso?

Dá até pra tocar com uma mão só. Olha só.

Uau!

Uau!

[Jesus] Caraca!

[José] Aí...

-Que som incrível. -Muito bem!

Quero ver tu fazer isso na flauta, José.

É diferente, isso aí é outra proposta.

É outra proposta, sim. Depois eu te ensino Beatles.

-Que isso? -Jee!

Eu tô amando a sua família.

Estava contando pra tia Lupita aqui como que a gente se conheceu.

Acho que ela não entendeu direito.

-Não precisa, gente! Que isso? -A história é ótima!

Mas não tem graça nenhuma essa história.

-Como é que não tem graça? -A gente não ia comer?

Ia começar dessa parte agora. E aí...

Não!

-Que parte? Pelo amor de Deus! Tá maluco? -O quê?

Ia contar a história agora.

-Quem quer saber disso? -Deixa ele contar, a gente quer saber.

-Ele não sabe contar. -Como é que não sei?

-Eu estava me banhando num oásis. -Sabe contar.

-E eu estava nu. -Opa!

Aí eu fui pedir uma informação. Foi isso que aconteceu.

-Pedi uma informação, e ele deu. -Eu dei mesmo.

Quando me pedem, eu dou.

Tia Lupita!

♪ Derrama, Senhor Derrama, Senhor ♪

-Não! -Não é isso!

Para com isso!

Dá aqui, tia. Ela é naive, ela não compreende.

-Jesus. Deixa eu te falar uma coisa. -O quê?

E aí?

Tá vindo um papo chato pela frente.

Segura a mão no coração, se prepara.

-Mas vai com a mente aberta, tá bom? -Vai com a mente aberta.

Tá bom, vai, vamos lá.

Que raiva, vai. O que foi?

-Então, filho... -Fala.

A gente quer conversar com você. Eu, seu pai e seu tio Vitório, lá dentro.

O que aconteceu? Aconteceu algo?

-É importante, meu filho. -O quê? Fala.

É uma coisa delicada. Eu achei...

Você achou meu diário?

Por que fica mexendo nas minhas coisas? Eu abro suas gavetas?

Tem nada no meu diário, pelo amor de Deus!

Ai, que saco isso, não tem privacidade nessa casa!

É por isso que vou embora.

É só eu que não posso... ter relações?

-Jesus. -É crime, gente, o garoto sonhar?

Não posso sonhar com o primo? Eu sou feito de carne!

-Que diário? -Não achou?

-Não tem diário nenhum. -Não tem diário nenhum, gente!

Eu lá vou ter diário? Uou!

Achei um bom momento pra gente conversar lá dentro.

Era isso só? Vamos conversar então, fala aqui mesmo.

Aqui não, filho. A gente vai conversar lá dentro do quarto, por favor.

-Por que, gente? -É melhor.

-Vamos lá? -Olha só, Orlando, fica à vontade, tá?

Eu me entroso superlegal, sabe muito bem disso.

Eu e Lupita já estamos bests.

Inclusive, estou amando essas bijuterias desse rei mago.

-Tá, mas... -É ouro.

Menti...

Não acredito. Que pedra é essa?

[vaca mugindo]

[cavalo relinchando]

[asno zurrando]

[música de forró tocando]

[passarinho cantando]

Filho, sabe que a gente te ama muito, né?

Amor... deixa que eu falo.

Deixa que eu falo, eu...

-Tá. -Eu me preparei...

pra isso por 30 anos, então deixa que eu falo.

Jesus...

[José suspira]

A gente tá aqui pra te falar que...

-Eu sou seu pai. -Ô, filho da puta!

-Que isso? -Isso é um filho da puta!

-O que que é? -Ele sabia que eu queria falar, Maria!

Ele ia saber de qualquer jeito.

Ia saber, mas era eu o combinado pra falar, caralho!

O que tá acontecendo? O tio Vitório é meu pai?

-Não tem tio Vitório, eu sou Deus. -Ele não sabe falar!

Eu inventei a fala, querido.

Você se acha demais, não tem tato pra falar!

-Meu filho, olha só... -Enteado.

O filho é meu, no máximo teu enteado.

-Mas é pai ausente! -Que pai ausente?

Eu sou onipresente, rapaz! Tô aqui em todo momento!

-Ele bate a punheta, eu tô do lado dele. -Ei.

Gente, isso não tá nem certo...

-São uns termos chulos. Ele não... -Parou!

Acabou aqui? Ninguém se respeita mais aqui? É isso?

Mãe, só pra eu entender, então. O tio Vitório é Deus?

Não tem nenhum tio Vitório! Desculpa.

Nós inventamos essa historinha toda pra não confundir a sua cabecinha.

Sou Deus e sou seu pai, é isso que você precisa saber.

Tá, mas e o José, então? Ele é o que meu?

O José... Como é que eu vou te dizer? É uma barriga de aluguel.

Ele fala umas porras que dá um ódio no meu coração!

-Uma baby-sitter. Uma... -Eu vou pegar um armário e tacar nele.

Faz uma escada giratória que quero ver, faz uma cozinha planejada.

Pego um jacarandá e quebro teu pescoço, rapaz!

-Acabei com o dinossauro com um peido. -Eu hein...

É... Você, então, e a minha mãe...

-Não. -Não?

Não aconteceu nada entre a gente não.

-Teve nada. -Nada.

-[Maria] Por favor, que isso. -[José] Não.

Quer dizer...

-O quê? -"Quer dizer" o quê?

-Ué... -[Maria e José] "Ué" o quê?

-Esqueceu já do... hein? -O que que ele fez ali, Maria?

-O quê? -Maria, o que é isso?

Eu entrei nela.

-O que é, desgraça? -Meu Deus!

-O que tu falou? -Para! Que isso, José!

-Tu não me conhece não! -José!

Tu é maluco, rapaz?

-Que isso? Para! -É o que, rapaz?

Tu me respeite, rapaz!

-Entrei nela, entro em você também, amigo. -Eu sou amigo de um romano!

Maria, acalma o Zezinho aí.

-Zezinho é porra nenhuma! -Zezinho...

-Eu faço cabo de machado! -Ei!

-Sou vagabundo. -[gritando] Ei! Ou! Parou!

-A criança desesperada aí. Tá satisfeito? -Não tô entendendo nada!

Meu filho, 30 anos atrás,

o anjo Gabriel disse que ia gerar o filho de Deus, eu aceitei.

E aí veio o seu pai...

-Quer dizer, o seu pai do coração. -[Deus] Ah, bom.

José, o melhor homem

que eu já conheci na minha vida, e aceitou também.

-Eu sou o filho de Deus? -Isso.

E agora eu preciso que você leve a palavra adiante.

-Qual palavra? -A minha.

Você leva pra um, esse um leva pra outros dois,

os dois pra outros três e assim por diante.

Tipo pirâmide?

É que assim, meu filho... A vida tem outros planos pra você.

Mas e os meus planos, hein?

E meus sonhos? E minha vocação?

-Qual é, meu filho? -Mãe, que bom que você perguntou.

Eu tava no deserto procurando isso, tentando me conhecer melhor.

O que eu percebi com a ajuda do Orlando foi que...

eu quero me especializar em malabares.

[Deus ri]

-O que foi? -[rindo] Malabares...

Vamos esquecer essa coisa do malabares? Agora você tem superpoderes.

Como assim?

-É... Deixa eu só vir aqui... -O quê?

O que foi?

Nada demais, só... Tá vendo aqui?

[som de sino]

-Ih. -Pronto.

[rindo] Tá malucão. O que é isso que ele fez?

-[Maria] Teu braço, José! -É não, é?

[Maria] O que você fez?

-Se acalma. -É nada, é?

-Que isso? -Ai!

O que você fez com o braço do meu pai, cara?

[José grita]

-José, fica comigo. Olha pra mim. -[Jesus] Cadê ele?

-Fica comigo, José. É o seu braço, calma. -É o meu braço?

-Olha isso aqui, gente! -♪ O povo de Deus ♪

-Coloca de volta. Faz o milagre. -[José] Coloca!

-Nunca fiz isso. Dá licença, pai. -Que mal-estar.

Calma, cara!

-[Maria] Calma... -[estalo]

-Ai! -[Jesus] Acho que foi, hein?

[José] Cuzão do caralho!

-[Jesus] Gente, que fácil! -Que dor da porra!

-Eu que fiz? -Você nunca mais faça isso!

Se tu fizer isso de novo... Tu não tá... Ele fez?

-Por que fazer isso? Fica comigo, José. -[José] Olha aí o braço.

Olha o braço aí.

[Maria] José? Não, não!

José!

-[José] Agora ajeita lá porque dói. -Calma!

Acho que tem que girar só. Não é força, é jeito. Quer ver?

-[estalo] -Ó. Aí.

Você tá bem?

-Gente, eu tô até gostando disso. -Falei pra você.

Você agora precisa entender que você também é Deus.

-Tá, mas... -Agora você pode... tudo.

Então posso fazer um mochilão com o Orlando?

Quase tudo.

Meu filho, agora você tem outros desafios, né?

É que não sei, eu gostava da minha vida de antes.

[música de ninar]

Eu não sei se eu quero novos desafios, mãe.

Mas ser filho de Deus é uma bênção.

Eu sei, mas acho que eu preferia ser filho do José.

Chupa!

O José não tem dinheiro.

Não tem poderes, não tem talento,

não tem também o respeito de ninguém da comunidade,

não tem vergonha de ser limitado, mas ele me deixa ser o que eu quero.

Filhão, obrigado, também te amo, hein, filho?

Será que em algum momento da minha vida eu tive escolha?

Ou tudo sempre foi traçado por pessoas que nem sequer me consultaram?

Eu sei que é muita coisa pra você assimilar agora, Jesus, mas...

a sua vida vai ter um propósito maior.

-Preciso pensar. -Deixa ele sozinho um pouco pensando.

-Tá. -Vamos deixar.

-Vamos. -Tá bom.

Vamos lá, que Jesus quer pensar um pouquinho. Vamos lá?

Então, acho bom vocês saírem. Podem ir lá.

Porque ele quer ficar sozinho...

Mas é que no meu caso não faz muita diferença.

-Vou "sair", então. -[José] Vou falar com Jesus rapidinho.

Jesus...

-Hein? Oi! -Desculpa, meu filho, desculpa.

-Estava pensando aqui. -Perdão.

Tem como você só dar um estalo assim

pra essa direção de cá? Levantar a mão só um pouquinho pra cá?

-[estalo] -[Melchior] Gente, a água virou vinho!

-Obrigado, meu filho. -[Maria] José...

[piano tocando]

-Tá ouvindo isso? -[José] Eu tô ouvindo.

♪ Deus é muito bom ♪

♪ Criou o mundo em sete dias ♪

♪ E um tempo depois ♪

♪ Afogou as suas crias ♪

♪ Criou Adão e Eva ♪

♪ Que transaram entre si ♪

♪ Se só tinha uma família ♪

♪ Como é que estamos aqui? ♪

♪ Não pensamos nos detalhes ♪

♪ Tem é que ter fé ♪

♪ Deus é Todo-Poderoso ♪

♪ Não fala lé com cré ♪

♪ Jesus Cristo ♪

-O que achou? -♪ O seu filho É sensacional ♪

♪ No deserto, pude ver ♪

-♪ O tamanho do seu... ♪ -Ei!

Que bonito!

-[Maria] Que lindo! -Que ótimo!

Eu tô trabalhando numas rimas ainda. Calma, vai melhorar.

Mais tarde eu canto outra pra vocês.

Tem uma que eu criei super-religiosa, sobre chuva de homens.

-Vocês vão amar. -Tá.

-[Maria] Vamos comer. -Vamos comer!

Vamos comer!

-Já não estava servido? -Isso daqui você sabe tocar?

Isso aqui? Isso eu vou usar de calço, que tá bambo.

José, acertou uma!

[Melchior] Gente, essa é Telma.

Oi! Dificílimo achar isso aqui,

mas encontrei e aqui estou.

-Quem? Telma é quem? -Telma é uma amiga.

[Melchior] Amiga minha.

-Quer uma comida? -Eu cobro adiantado.

Não falei pra você vir comportada?

-Eu tô, eu vim comportada. -Você deve tá até com frio com essa roupa.

-Nada, tô até com calor! -Não, tá ótimo!

-Você tá ótima assim. -Lá não fica com frio, no quarto. É.

-Prazer, Maria. -Também é das meninas do Pôncio?

Não! Maria é mãe do aniversariante, né?

Mãe do aniversariante, a dona da casa.

Mãe? Olha, parabéns, hein?

Se tu quisesse, tirava uma grana boa.

Em que sentido?

-Em que a gente é muito religioso. -Aqui, isso.

-Maria inclusive é virgem, por favor. -Virgem?

-Resolve isso aí. -Tá.

Vamos ali. Eu tenho que trocar uma ideiazinha com você rapidinho.

Que aí eu pego 30%. Tem espumante?

Tem! Tem espumante, tem vinho.

Leonor, aqui. Ué! [ri sem graça]

Olha só, sou o pai de Jesus.

-Que legal! -Trabalho com móveis planejados.

Precisando, é só falar.

Shh! É claro que ela não é prostituta!

[vacilando] É..

-Ela só tem fome. -Ou ela é puta ou é um avestruz,

-Melchior, decide! -Ela é só uma pessoa

que não quer viver oprimida nesse sistema machista

que você vive na sociedade que você vive.

É? Então pede pra ela pelo menos hoje... Meu Deus.

Se manter sob domínio da sociedade patriarcal, Melchior.

[Gaspar] Uau.

Melchior, olha lá!

-Você implica! -Eu implico?

-Você é implicante! -Eu?

Implica com toda namorada minha, você implica!

Se eu quisesse na tua cabeça...

-Telminha, vem aqui. -A lá. Espumante!

-Tem aqui! -Aqui!

O meu tá docinho aqui.

-Quem colocou uva passa no arroz, gente? -Eu!

Eu que fiz esse banquete aqui, todo preparado por mim.

-Coloquei também cravinhos da índia... -Mas por que, José?

Maçã na maionese, que as maçãs são colhidas aqui. Tá uma delícia!

Esse ano não é bolo de chocolate não, pessoal!

Olha a surpresa, adivinhem! Bolo de nozes

com três camadinhas de ameixa suculenta. Espalhei...

José, faz o seguinte. Não mexe em mais nada, não.

Balta, tem que provar as frutas cristalizadas, são uma delícia.

-Eu adorei! -Gostou, Orlando?

Amei, agora senti falta de um coentro aqui no salgado.

-Esqueci. Até tem. -Bota, então.

Vou perguntar a Maria onde tá. Cadê Maria, gente?

-Será que ela tá com o Jee? Vou achar. -Pode ser.

-O que é isso aqui? -A produção deixou, e eu peguei.

-Vou colocar coentro aqui. -Não precisa!

-Confia. -Vamos começar o Amigo-Secreto!

Isso aí, do Carmo, vamos começar o Amigo-Secreto!

O meu é o Baltasar!

[rindo] Não pode falar não, tia.

É mímica?

Nossa, tia Lupita tá fazendo hora extra no mundo, viu?

Gente, eu não trouxe presente, mas posso dar um vale de uma hora.

-Tipo, digamos que eu tirei você. -[estalo]

Legal a festa, né?

-É incenso. -Sou eu, Maria.

Bacana o pessoal aí, né?

E o José? Você viu o José por aí?

Hein? Viu?

-Vai ficar fugindo de mim até quando? -Me respeita.

-Quando, Maria? -Para. Me respeita.

Você não é de ficar fumando escondida, que eu te conheço.

-Já entrei nessa cabecinha. -Eu tô na minha casa, Vitório.

Adoro quando me chama assim pra me provocar.

Vitório, para.

Adoro esse cheiro de palha de manjedoura com cocô de cabra, sabia?

-Para com isso. -Criei dois planetas.

-Tá sentindo? -Eu tô sentindo.

-[Telma cantando] -Ei!

Foi assim que Noé colocou os bichinhos na arca.

Que história legal, Deus.

A gente tá procurando...

A gente tá procurando... o pessoal.

Que pessoal? Você não veio com o Melchior?

É, Melchior. Será que...

-que ele não tá ali no meio daquele mato? -Ali.

[Maria] Ninguém saiu de lá.

Vou dar uma olhada só pra ter certeza mesmo se ele tá por lá.

[Maria] Pra quê?

-Nossa, tá um cheiro de tabaco aqui. -Tá ali!

-Tá? -Tá ali?

-Segue reto aqui. -É, aqui.

Aquele lugar escuro ali. Eu vi ele ali. Pode ir.

-Ai, que loucura. -É, né?

-Vamos embora daqui, Maria. -Que isso?

-Vamos embora daqui, vai. -Para...

A humanidade tá comprometida já, esse planeta que se exploda.

-Não. -Hein?

Abro um guest house pra gente na beira da praia. Abro um comércio pra tu.

Eu não posso.

Você pode tudo. Tô há 30 anos esperando por esse momento, Maria.

E se Jesus não aceitar?

Arrumo outro idiota pra tocar isso aqui.

-Qualquer um toca esse planeta. -Deixa que eu falo, ele vai me ouvir.

-Quer ir pra outro planeta? -Para, para, Vitório.

-Vamos pra Marte? -Chega.

-Vamos pra Júpiter. -Que isso?

-Vamos pra Urano? -Vai falar assim?

-Urano é longe, Urano é quente. -Não fala com essa voz.

-Esquento com essa barba que você gosta. -Essa voz...

Sabe que isso aqui faz mais.

Não precisa falar com essa voz.

-Para. Para! -Hein? Que foi?

Para com isso, Vitório. Você tá ficando louco?

-Você tá bagunçando a minha vida. -Você tá louco!

-Você tá fodendo minha cabeça. -Que isso?

Tô maluco pra caralho, Maria.

-Vem pra cá. -Para.

-Já fiz dois tipos de cogumelo aqui. -Que isso?

-[José] Maria! -Que isso?

José tá vindo aqui.

Vai, vai... Ele vai ver.

Ué. Maria?

Cadê essa mulher, gente?

-Quer que eu deixe ele cego? -Para com isso.

-Cego ele rapidinho. -Para com isso.

Quer que eu deixe ele coxo? Tá na moda coxo agora.

-Tem dois coxos em cada esquina. -Eu acho que coxo...

-Então vamos lá. -Para! Tô ficando louca. Para com isso!

-Promete que pensa no que eu te falei? -Vou falar com Jesus primeiro.

-Merece um homem que te dê valor. -Tá.

-Tá. Deixa eu ir. -Vai.

Pelo amor de mim.

[som de suspense]

-Pois não? -Com licença.

-Tá indo onde? -Eu moro aqui.

-É que Jesus tá descansando. -É o quê?

Ele tá bem cansadinho, aí tá deitadinho. Mas eu falo que você veio, tá?

Um beijo. Até mais.

-Eu sou a mãe dele. -Eu sei.

-Quer que eu anote um recado? -Não me provoca não, tá?

Eu sei da onde tu veio. Conheço tua laia.

Eu ando com gente que já mandou pai matar filho.

-É Maria que fala, né? -Dona Maria pra você.

Vou te chamar de Maricota. Maricota, Jee tá exausto.

Esses 40 dias no deserto foram extasiantes.

Ele fez muita coisa que nem sabia que podia fazer.

Então vamos deixar ele dar uma descansada, cocotinha?

Em primeiro lugar, "cocotinha" é o teu cu.

Tá? É. Essa é a Maria de verdade.

Essa é a Maria porradeira, Maria navalha, Maria que pisa na cabeça da serpente.

Que não vai deixar o filho na mão de gente que mendiga no deserto.

-Não é mendicância, é voluntariado. -Vamos fazer o seguinte?

Eu vou entrar nesse quarto,

ou o próximo trabalho voluntário que você vai fazer vai ser pra uma ONG

onde você vai ter que resgatar tuas bolas no fundo do Mar Morto,

toda carcomida por cardumes ensandecidos.

-Gente! -Com licença, obrigada.

Agressiva.

Jesus! Você trancou?

-Deve ter trancado por dentro. -Ele nunca trancou essa porta.

Deixa essa cacatua voar, cocotinha.

Jesus!

Tá dormindo, deve ter sido o chá que bateu.

-Que chá? -Estava com a cabeça muito confusa.

Ele falou: "Meu Deus, preciso pensar um pouco, refrescar os ares."

Falei: "Vou fazer um chazinho." Chá sempre ajuda.

Que tipo de chá?

É um chazinho que achei na sua cozinha, escondido ali atrás do armarinho.

-Pegou o chá do glaucoma do José? -É forte?

Depende da quantidade. Quanto usou?

Ele estava com muita sedinha, tadinho, e sabe que com Jesus é até a última gota.

[batida na porta]

[Maria] Filho?

[Jesus] Esse chá não bateu não.

-[batida na porta] -[Maria] É a mamãe, filho!

-[Maria] Filho? -[ecoando] Orlando?

-[Maria] Filho? -[ecoando] Orlando?

[som de sino]

[passarinhos cantando]

[José] A vida tem outros planos pra você, meu filho.

[Maria] A sua vida vai ter um propósito maior.

[Baltasar] Vai com a mente aberta.

[Lupita] Esse rapaz é bicha?

[Melchior] Como será que Jesus vai lidar com esse negócio de ser filho de Deus?

[Deus] Você agora precisa entender que você também é Deus.

[Deus] Agora você pode tudo.

[Jesus] Onde é que eu tô?

[Buda] Você está dentro da sua cabeça.

[som místico]

Quem são vocês?

Nós todos já passamos por esse dilema.

Eu sou Buda, ele é Shiva.

-Quem é você? -O Tom Cruise te explica um dia.

Tem o Jah também, mas a gente não conseguiu muito contato.

Eu comeria um feijão. Se tiver, eu como um feijãozinho.

Sim, tem Alá também. Olha lá.

O Alá deu uma saidinha, não é isso, gente?

É, ele não gosta muito de aparecer, é tímido.

Não era pra você ter quatro braços?

Ih, porra. Agnaldo!

[Agnaldo] Espera aí, tô indo. Tô indo, chegando. Desculpa! Tô indo.

Espera aí, desculpa! Estava na minha hora de almoço.

-Olá. -[Buda] Olá.

Acopla logo, vem.

Jesus, ser Deus é muito legal.

-É que eu tinha outros planos. -[Shiva] Todo mundo tinha.

Você acha que eu queria tá aqui todo pintado de azul,

-com o Agnaldo me encochando o dia todo? -Bom, pra mim não tá legal também.

-Mas por que eu? -Guardar raiva

é como segurar um carvão em brasas, pra jogar em alguém.

-É você que se queima. -Buda, não fode!

O que foi, gente?

Toda vez que você não sabe a resposta pra alguma coisa,

inventa uma frase cabeçuda pra fingir que sabe tudo.

É, e você não sabe nada.

-Que não sei nada o quê? Sei mais que tu! -Qual o sentido da vida, então?

Ué, o sentido da vida...

é uma folha flutuando num rio,

nem água, nem margem, apenas...

Uma frasezinha feita, ridículo! Isso aí funciona com as suas crentes,

-mas aqui não se cria não, tá, querido? -Custa dizer que não sabe?

Se tivesse um sorvete, eu comia.

-Gente, vamos voltar ao foco aqui. -Jesus, o que tá pegando? Qual o seu medo?

Meu medo é não dar conta, ser mal interpretado.

É só deixar tudo escrito direitinho, ninguém vai se confundir.

Mas será que eu sou a pessoa certa pra isso?

Relaxa, cara!

As pessoas são super despreparadas, acreditam em qualquer coisa.

Olha pra mim!

Olha pra Shiva! Olha pra esse aqui!

Quer dar um dois?

Vocês acham que eu tenho que aceitar?

Acho que essa oportunidade não vai bater na sua porta de novo, cara.

Bom, obrigado, viu. Vocês clarearam a minha mente.

É isso aí, Jesus.

Aprenda mesmo e nunca...

-Pinguço! Não aguento mais! -Que isso?

Ei, gente.

-O que é isso, Agnaldo? -Não aguento mais.

[Shiva] Você é chato pra caralho.

Que isso, gente? Não precisa disso.

Tá? Eu tô indo.

-High five! -Prazer.

-Pronto. Cadê? -[Jah] Ô, meu brother...

Tu já se ligou que tu vai ser pai e filho ao mesmo tempo?

-Irmão, esse bagulho é muito doido. -[Buda] Não liga pra ele, já tá surtado.

Tô muito doido.

[Jesus gemendo]

Onde é que eu tô?

Ai, caralho.

Puta que pariu. Eita.

Vou chamar esse quadro de Batismo do novo filho de Deus.

-Inferno! -[José] Não?

-[Melchior] De novo? -[José] De novo, gente?

Espera aí, gente. Agora vai.

-[Melchior] Vai? -[Maria] Vai.

-Já foi um monte. -[Maria] Espera.

[Maria] Será que ele bordou?

Tá resolvido, o quadro tá pronto.

Tá pronto esse negócio aí. Foi.

E você tá batizado, não precisa disso aqui. Pronto.

Obrigado, Ó Pai.

Ei! O que tá acontecendo aqui?

-[todos] Jesus! -[Maria] Obrigada, Senhor!

Ele voltou, está de volta!

Ele voltou!

Eu sabia que você ia voltar, meu filho!

-Que bom! -Mas voltar de onde?

Ficou uma semana fora, Jesus.

Gente, pareceu cinco minutos.

O chá do José é violento, eu falei.

A gente estava pensando que você tinha desistido da missão.

-Não, eu estava pensando nela. -Jee, relaxa.

Já expliquei quem você é de verdade.

Eu já falei pra eles que você é bicho solto, Capricórnio,

come quieto, quieto até demais.

Olha, Orlando...

Mas os reis magos dindinhos já explicaram, me ajudaram nessa missão.

E você tem toda razão, ninguém pode escolher o caminho por você.

O Orlando foi uma bênção pra essa casa!

-Para! -[Maria] Sempre foi!

Faz aquele stand-up da minha história com Abraão, quando mandei matar o filho...

-Eu vou! -[Maria] Faz!

Eu estava vindo pra cá e aí dei de cara com Abraão com um machado.

-Falei: "Abraão!" -Já conheço.

Não é nem dele! Ele tá roubando piada que é de outro! Pelo amor de Deus!

-Gente... -Eu vim aqui dizer justamente...

Jee, calma.

-Calma o quê? -Não adianta. Agora sou o filho de Deus.

Você pode voltar pra José.

Orlando.

Acho que agora é hora de você me chamar de Lúcifer.

-[todos] Meu Deus! -Me chama de Lúcifer.

Foi tão fácil te tentar no deserto, Jesus...

Tentar como?

Na verdade, não tentei, eu consegui.

Não acredito que esse tempo todo você era outra pessoa.

Você estava me usando, bicho?

Eu acreditei em você, cara.

Eu achei que fosse de verdade,

eu achei que eu fosse especial.

Mas não, você estava só me usando.

Você é tóxico, sabia?

[gritando] Seu boy lixo!

Lúcifer, eu ordeno que você... Sai!

[Baltasar] Meu Deus!

-[Baltasar] Senhor! -[Lúcifer] Eu gostei desse poder!

Acabou pra você, vovô!

Agora acabou a era de Deus.

-Seu filho é que vai ter que assumir. -Já falei que eu só assumo...

Assumir o poder, e o filho sou eu.

Quem será que vai ser minha primeira dama?

Não...

Não achei essa violeta, não. Eu rodei...

Você larga minha mulher agora!

[estalo]

Eita!

[Lúcifer] A mamata acabou!

Agora chegou a hora da minha vingança.

[som de sino]

[Lúcifer] Já vai poder brincar de Cinderela!

Meus dindos!

Filho, eu não sei o que tá acontecendo comigo.

Só você pode salvar a gente.

[som místico]

Orlando.

Vai ser por bem ou por mal.

Toda menininha ela! [risadas]

[som estático]

[chicotadas]

É sério isso? Peixe?

Desculpa, eu tô aprendendo ainda.

Maria, vai pegar um pão.

Eu vou te mostrar o que é habilidade.

Meu Deus...

[som estático]

[Lúcifer geme]

[Lúcifer] Não adianta, Jesus.

Você não tem nem tamanho pra lutar comigo.

[Lúcifer] Vem junto.

Vamos dominar esse mundo a gente.

Ninguém vai conseguir segurar as nossas habilidades.

Vou te mostrar o que é habilidade.

Não adianta tentar. Eu consigo fazer o que eu quiser com você.

[som estático]

Isso, gira, gira.

[Lúcifer] Gira, gira, parou!

E "Macarena" pra eu ver.

[Lúcifer] Mãozinha, cabeça, isso! Agora...

E a boquinha da garrafa? Como é que faz se é pra descer na boquinha?

Isso é pra descer!

Isso! Cadê?

Isso!

Passa negão, passa loirinha. Cadê?

Isso aí! Quero ver você passar.

Isso, vai, vem, vem. Agora uma perna só!

[Lúcifer] Parapa... É!

E foge do dragão! Cadê? Pra lá!

Correu pra lá! Isso, sai. Pega.

Agora é o Hobbit. Hobbit, pega o diamante!

Pega na caverna e foge do dragão!

Cuspiu fogo em você! Abaixa, abaixa!

Levanta! Pega o diamante! Entra na caverna!

E parou. Cansei.

[som estático]

[guitarra tocando]

Vem, Maria. Dança.

Dança!

Rato! Rato, cheio de rato! Cheio de rato! Cheio de rato!

[Deus] Meu filho, Ele está no meio de nós.

[sinos da igreja]

Orlando, você... você tem razão.

Eu sei.

A era de Deus acabou.

Isso.

E só pode haver um filho de Deus na Terra.

Eu gosto de gente inteligente.

E esse filho...

ele pode tá em qualquer lugar.

Como assim?

Ele está no meio de nós.

Eu não sei se eu tô entendendo.

Deus tá em qualquer lugar.

Eu tô vendo ele caidinho ali de bacia trincada. [risada[

Mas ele também está dentro de cada um de nós.

Inclusive de você.

[música de ninar]

Como assim? Eu não sei se eu tô...

Não?

O que é isso?

[Jesus gemendo]

[estalo]

Ué. Cadê Jesus?

Ué...

Deixa, deixa, ele foi embora. Ele é covarde.

Ele sabe que ele não... [geme]

Ele... [geme]

Deu um negócio... Ele...

[gemidos]

Acho que eu comi um negócio que não... bateu atravessado.

Isso é azia que fala.

[gemidos]

Vai tomar no cu!

-José! -Maria!

-[Maria] Você tá bem? -[José] Tô.

-E você? -Deixa eu ver.

O que é isso?

Meu Deus, Baltasar.

Colocaram geleia aqui?

[Lupita] Eu vi o rato passando por aqui.

[Lupita] Cadê esse rato? Cadê?

Entendeu agora por que eu preciso de você, meu filho?

Entendi, pai.

O mal sempre dá um jeito de voltar.

É impressionante.

-Você tá bem, Jesus? -Agora eu tô, mãe.

[Lupita] Sai daqui, sai.

Que bom que você aceitou sua missão, meu filho.

Não aceitei ainda a minha missão, pai.

Como assim você não topou?

-Acabou de dizer que me entendeu. -Eu entendi, mas eu não aceitei.

Não sei se estou pronto para abrir mão de tudo.

Fora que isso não é o meu perfil, sabe? Eu...

Não sei se eu concordo com o seu estilo de fazer as coisas.

De mandar o pai matar o filho só de sacanagem

e depois matar uma cidade toda, transforma em pedra e o caralho,

e pôr a porra do Jonas dentro de uma baleia durante um mês e pouco.

Eu acho isso uma sacanagem.

Eu sou um cara mais do malabares, da miçanga,

do maracatu, do sarau de poesia, porra...

A gente tem estilos diferentes, eu sei.

Eu eventualmente exagero numa pegadinha aqui...

Vamos fazer o seguinte, então?

Você fez 30 anos agora, não fez?

Então, você fez 30 anos, a gente faz três aninhos de experiência.

-Você acha que rola? -Rola.

Se com 33 anos, você não quiser essa função,

eu arranjo outra pessoa, e você volta pro seu sarau de poesia,

pro seu maracatu...

Olha, é sério isso?

Assim, se daqui a três anos eu mudar de ideia,

tudo volta a ser como era antes?

Totalmente, 33 anos você segue tua vida.

Jura?

Sou Deus, eu não minto.

Tá, mas eu tenho uma condição.

Tá. Qual é a sua condição?

Eu queria escolher os 12 homens que vão me seguir.

Sei...

Você sabe que não precisa ser 12 caras, né?

Podem ser 12 mulheres.

Eu sei, mas... já tenho 12 caras em mente.

-É claro que já tem. -[Convidado 3] Gente, o que aconteceu?

-[Convidado 3] Filho da puta! -[Maria] Matou!

Morreu!

Um susto do cacete, também, nem avisa que tá chegando!

Não precisa disso. É disso que eu tô falando, entendeu?

-É... -Que eu não concordo.

Ressuscita ele aí, vai, enquanto isso.

-José, tá pegando fogo ali. -Onde? Onde?

[sussurra] Maria, vem comigo.

-Não posso. -[Deus sussurra] Vamos embora.

-[José] Onde que é o fogo? -[estalo]

[sussurra] Eu quero fazer uma menina, vamos embora!

-[José] Onde que é o fogo? -Não. Para com isso.

-Oi? -Oi?

[Convidado 3] Desnecessário isso, sabia?

[Jesus] Eu te ajudo aqui.

[Convidado 3] Sai.

-Se despede aí da sua mãe. -Tchau, filho.

-Tchau, viu? Obrigado por tudo, viu? -Tchau, meu filho.

Te amo.

-Tchau, tia Lupita. -Vai com Ele.

Desculpa a sujeira aí, viu? Uau.

O que é isso? A gente tá indo pro Céu?

Isso aqui? Não, não. A gente tá indo pra Galileia mesmo.

É que eu gosto de fazer uma luz, um efeito, na hora de sair dá um drama.

Pobre adora essas coisas. Você vai aprender um dia.

-[José] Deus! -[Maria] O que é isso, José?

Vou falar com ele.

Deus, deixa eu falar uma coisa pra você.

Eu fui muito infantil nessa briga, nessa disputa

sem necessidade por causa de Maria, de Jesus, não sei o quê...

E eu quero pedir desculpa.

Quero saber se a gente pode ser...

se a gente pode ser amigo.

Claro.

-Amigos? Amigos! -Amigos.

-Vamos? -Por que você fez isso?

-Não, só dei um cumprimento. -[José] Meu braço!

[José] Porra! Isso dói demais!

[música dos créditos finais]

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