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Que bom ver vocês.
Vamos entrar.
OS GÊMEOS
Testamento da Sra. Nawal Marwan.
Abertura do testamento diante de seus dois filhos,
Simon Marwan e Jeanne Marwan.
"De acordo com a vontade e os direitos da Sra. Marwan,
o notário Jean Lebel
foi nomeado executor do testamento."
Devo dizer que isso foi decisão da sua mãe.
Pessoalmente, fui contra, mas ela insistiu.
Vocês sabem...
sua mãe era mais do que uma funcionária para mim.
Minha falecida esposa e eu considerávamos vocês como família.
Não pude recusar.
"Meus bens serão repartidos entre os gêmeos Jeanne e Simon.
O dinheiro será dividido
e os imóveis distribuídos conforme o desejo deles."
"Quanto ao enterro.
Ao notário Jean Lebel:
enterre-me sem caixão, nua, sem nenhuma oração,
meu rosto voltado para o solo, de costas para o mundo."
"Lápide e epitáfio:
nenhuma lápide sobre meu túmulo, nem meu nome gravado.
Nenhum epitáfio para quem não cumpre suas promessas."
"Para Jeanne e Simon:
a infância é uma faca enterrada na garganta.
Não pode ser removida facilmente."
"Jeanne, o Sr. Lebel lhe entregará um envelope.
O envelope é destinado ao seu pai.
Encontre-o
e entregue-lhe este envelope."
"Simon, o notário lhe entregará um envelope."
Já ouvi o bastante.
Ainda não terminou.
Continue.
"Simon, o notário lhe entregará um envelope.
O envelope é destinado ao seu irmão.
Encontre-o
e entregue-lhe este envelope."
CARTA AO FILHO
"Quando estes envelopes chegarem aos seus destinatários,
uma carta lhes será entregue,
o silêncio será quebrado,
uma promessa será cumprida
e uma lápide poderá ser colocada no meu túmulo,
meu nome gravado nela, exposto ao sol."
Admito que é inusitado.
-Temos que assinar algo? -Não. Hoje, não.
Está bem.
Obrigado, Jean.
-Vamos? -Espere.
Você conhece a história do nosso pai.
Você sabe que não temos irmãos.
Por que a deixou escrever isso?
Eu entendo a sua surpresa.
É muito surpreendente.
Não finja que acredita nisso. Sabe que é impossível.
Não se inventam coisas assim. Não em um testamento.
Tem mais uma coisa.
Sua mãe nos deixou uma coisa...
Vamos pensar a respeito.
Manteremos contato.
Espero lá fora.
Obrigado, Jean.
Sente-se, Simon.
Veja bem, Jean...
Sua secretária adorava trabalhar para você.
Pelo menos isso ela fez direito.
Bravo.
Mas sua secretária era também minha mãe.
E o trabalho de mãe é outra história.
-Simon... -Enterre sua secretária como quiser.
Quero enterrar minha mãe de maneira normal.
Uma vez na vida, ela terá feito uma coisa normal.
Sem discussão.
Não tenham pressa.
Voltem quando Simon estiver calmo.
Sei que é inusitado, mas...
Sua mãe não era louca, Jeanne.
Temos uma grande família, de repente?
Ela falou de um cão?
Famílias grandes sempre têm um cão.
Será que precisamos encontrar o cão?
Que loucura.
Eu vou falar com Jean.
Sobre o quê?
Vamos fazer um enterro normal.
Vamos cuidar dela, depois de você.
Onde você vai?
Pode enterrá-la como quiser.
Pare com isso!
Tem culpa porque não estava lá quando ela morreu?
Porque não estava lá quando ela teve o acidente?
Não se sinta culpada por tudo!
Eu não me sinto assim.
Percebe o que nos disseram?
Ela se foi! Já basta! Descanse em paz!
Finalmente estou em paz!
Estou em paz agora.
Estou vendo.
Os matemáticos que vocês conheceram até agora
procuraram dar uma resposta estrita e definitiva
para problemas estritos e definitivos.
Agora, vão embarcar numa aventura diferente.
Encontrarão problemas insolúveis
que sempre levarão a outros problemas insolúveis.
Seus amigos ficarão ironizando, dizendo que sua busca é inútil.
Vocês não terão argumentos para se defender,
pois os problemas serão de uma complexidade atordoante.
Bem-vindos à matemática pura,
ao reino da solidão.
Apresento-lhes minha assistente,
a Srta. Jeanne Marwan.
Bom dia.
Vamos começar com a Conjectura de Syracuse.
O que diz sua intuição?
Sua intuição sempre está certa.
É por isso que você poderá ser uma matemática de verdade.
Mas, para isso, vai precisar de ajuda.
Você tem família por lá?
-Nenhum contato? -É ridículo, Niv.
Você descobriu que:
a) seu pai está vivo b) você tem outro irmão.
Ridículo é você questionar o inelutável.
Você precisa descobrir,
ou seu espírito jamais ficará em paz.
Sem paz de espírito, nada de matemática pura.
É preciso um ponto de partida.
Meu pai morreu durante a guerra, em Daresh.
Esta é a variável desconhecida da equação.
Não se começa jamais pela variável desconhecida.
Minha mãe nasceu no povoado de Der Om, em Fouad.
Ela estudou francês na Universidade de Daresh.
Se ela estudou, há esperança.
Saïd Haidar.
Você fará uma visita a Saïd Haidar.
É um velho amigo meu que leciona em Daresh.
Pode confiar nele.
Mamãe?
Tudo bem?
Senhora, esta toalha é minha.
Mamãe?
Mamãe!
Mamãe?
O que aconteceu?
Onde está Jeanne?
Mamãe?
-Ela sofre de enxaqueca? -Não.
-Perda de memória? -Não.
-Perda de equilíbrio? -Não.
Ela fica ausente?
Sempre foi um pouco ausente.
Não, nunca sofreu disso.
Wahab, venha.
Afaste-se de minha irmã.
Para onde vai, filho de refugiado?
Nicolas, pare!
Pare, Nicolas!
Volte para o seu país!
Wahab!
Vamos entrar no seu campo e acabar com vocês!
Vamos, me dê isto.
-Eu faço. -É meu dever.
Você manchou a honra da nossa família!
Já chega!
Voltem já para casa!
Para casa!
Fora daqui!
O que você fez?
Você nos humilhou, manchou o nome da família!
Por que, meu Deus? Você nos jogou na escuridão!
Por que, meu Deus? Por que fez isso?
O que vou fazer com você? Será que devo matá-la?
Estou grávida, avó!
Meu Deus, a escuridão nos cerca! Por quê?
Por que fez isso?
Será que devo matá-la?
O que vou fazer com você?
Vamos, coma.
Precisa comer se quiser que a criança nasça forte.
Ouça bem.
Não há nada para você aqui.
Posso ajudá-la depois do parto.
Quero que vá embora daqui.
Vai morar com o Tio Charbel, na cidade.
Pode ir à escola lá.
Vai aprender a ler e pensar.
Vai escapar desta miséria.
Prometa isso e vou ajudá-la.
Me prometa que irá estudar.
Prometo, avó.
Prometo.
Olhe bem para sua mãe, assim poderá reconhecê-la.
Vou reencontrá-lo um dia.
Eu prometo, meu amor.
-Tome cuidado. -Não se preocupe.
Vamos, é hora de partir.
Vejo coisas terríveis no futuro.
Um dia vou encontrá-lo, meu filho.
FACULDADE DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS
Recebi uma mensagem do meu amigo, Niv Cohen,
mas não posso ajudá-la.
Naquela época,
eu estava lecionando História da Matemática na Paris XI.
Mais precisamente,
o período em que Leonard Euler conseguiu,
apesar de cego,
apresentar a primeira resolução matemática formal
ao problema das Sete Pontes de Königsberg.
Sim, ele derrotou Diderot frente ao Tribunal,
declarando o seguinte:
"Senhor, eip + 1 = 0.
Portanto, Deus existe!"
Niv, Niv, Niv...
Olá.
Você fala francês?
Claro. Posso ajudá-la?
Procuro alguém que possa reconhecer esta mulher.
Ela estudou aqui há 35 anos.
Está brincando?
Eu sequer era nascida. Não posso...
Você deve conhecer alguém que possa me ajudar.
Eu vim de longe.
Por favor. Ela se chama Nawal Marwan.
É muito gentil.
Só quero me livrar de você.
Najat, sou eu.
Tem um tempo a perder?
Ela me parece familiar.
Ela pode ter trabalhado no jornal acadêmico.
Faz muito tempo.
As pessoas que partiam mudavam de identidade.
Mas é algo impressionante.
Sua mãe foi fotografada em Kfar Ryat.
Veja aqui.
É a placa de Kfar Ryat.
É uma prisão no Sul.
-Não conhece Kfar Ryat? -Não.
Então você não é mesmo daqui.
Você não conhece o Sul.
Então,
se a comunidade internacional...
não intervier imediatamente...
os refugiados...
aprisionados nos campos...
ao longo da fronteira...
-Ela chegou. -Está bem.
Os estudantes se opõe ao Partido Nacionalista,
que está expulsando os refugiados da fronteira.
O Partido Nacionalista apoia as milícias da direita cristã,
que ameaçam os refugiados.
No Sul, os refugiados estão armados agora.
Eles tem o apoio da maioria dos muçulmanos deste país.
Mas vocês...
vocês sãs cristãs.
Queremos a paz, não tem a ver com religião.
Nawal!
Deu no rádio! Fecharam a universidade!
Os Nacionalistas fecharam o campus!
Nawal, volte aqu! Fique aqui!
Tio Charbel, os Nacionalistas fecharam o campus!
Vai haver violência!
Quero que fique aqui comigo!
Ouviram os tiros?
-Venham comer! -Mamãe, atacaram a universidade!
Não é razão para não comer!
Aldeias cristãs foram atacadas no Sul.
Deus nos ajude!
Por isso fecharam a universidade.
Daqui a pouco, isso vai estourar aqui.
Vamos para as montanhas até as coisas se acalmarem.
Por quanto tempo?
Nós vamos amanhã.
O resto da família já está lá.
E a escola?
As escolas serão fechadas, com certeza.
Deus sabe por quanto tempo.
E o jornal?
Não se preocupe.
O jornal pode sobreviver sem nós por um tempo.
As ideias só sobrevivem se alguém as defende.
Exatamente, Rafqa.
Exatamente.
Só há dois orfanatos na região.
Depois eu procuro vocês.
Não pode ir pra lá agora!
-Prometeu à sua avó... -Ouviu o que seu pai disse.
Vai estourar no país inteiro se eles atacarem os campos.
Os estudos acabaram.
Penso nele todos os dias.
É meu filho.
Quero encontrá-lo vivo.
Vou buscar água na casa de Shadia.
-Volte depressa, Nawal. -Está bem, já volto.
-Seu nome? -Narwal.
-Narwal de quê? -Narwal Marwan.
-Para onde vai? -Para o Sul.
-Para quê? -Para encontrar meu marido.
Pode ir.
Wahab...
Aqui sempre foi um orfanato de meninas?
O meninos foram para Kfar Khout há três anos.
Venha conosco. Kfar Khout foi atacada ontem.
Estou procurando o orfanato. Onde fica?
Ficava aí.
E as crianças? As crianças, onde estão?
Pergunte a alguém que estava lá.
Os muçulmanos daqui fugiram para o campo de Deressa.
Estavam com medo das represálias que vão acontecer.
As crianças podem estar com eles.
Chamseddine e seus homens mataram todos os cristãos
para vingar os refugiados.
Talvez as crianças estejam em Deressa.
Está indo para Deressa?
Sou cristã!
Sou cristã!
Minha filha!
Minha filha!
O SUL
Alô, Simon, sou eu.
Estou no povoado da mamãe, queria que você estivesse aqui.
Ouça.
Desculpe, não entendo.
Já falei pra não aparecer por aqui!
Como vai?
Souha?
Ahmed ama você! Ahmed ama você!
Ahmed ama você! Ahmed ama você!
Não fique repetindo isso!
Olá, posso ajudá-la?
Olá.
Alguém aqui fala francês? Ou inglês?
Onde está Samia?
Obrigada.
Você fala francês?
Sim.
Olá.
Meu nome é Samia.
Me chamo Jeanne Marwan.
Obrigada pela ajuda.
Marwan?
Há muitos Marwan por aqui.
É mesmo?
Eu vim do Canadá.
Estou procurando por Souha.
Souha? É ela.
É minha bisavó.
O dono do mercado me mandou procurá-la.
Procuro pelo meu pai. Seu nome é Wahab.
Minha mãe se chama Nawal Marwan.
Ela nasceu aqui.
Não a conhecemos.
Claro que conhecemos!
A mãe dela é uma vergonha!
A família Marwan foi manchada pela vergonha.
A guerra chegou.
Estou procurando por Wahab.
Ela não conhece Wahab.
Sinto muito, não posso ajudá-la. Estou cansada.
Se você é filha de Nawal Marwan,
não é bem-vinda aqui.
Volte para o seu país.
Está procurando pelo pai e nem sabe quem é a mãe.
Eu cheguei depois do massacre no campo de Deressa.
Havia fumaça por toda parte.
Procurei pelo meu filho entre poças de sangue.
Não quero me esquecer do que vi e ouvi.
Você diz que se opõe ao nosso inimigo.
Mas isso não faz de você nossa amiga.
Por que Chamseddine confiaria em você?
O pai do meu filho era um refugiado de Deressa.
Meu filho foi engolido pela guerra.
Não tenho mais nada a perder.
Só me resta o ódio aos Nacionalistas.
Não foi isso que escreveu no jornal de Charbel.
Meu tio acreditava que suas palavras trariam a paz.
Eu acreditei nele.
A vida me provou o contrário.
O que você quer agora?
Ensinar ao inimigo o que a vida me ensinou.
Muito bem.
Muito bem. Só esqueceu isto.
Como vai o seu francês?
Estou muito mais melhor, papai.
Se diz apenas "muito melhor", meu querido.
Quero que meu filho fale várias línguas.
Assim ele poderá entender sem intermediário.
Narwal falando.
Como vai, Narwal? É Nouchine.
Boa noite, Nouchine. Como vai sua mãe?
Minha mãe vai bem.
Amanhã, às 10:00h.
Amanhã será feito.
-Bom dia, beldade. -Bom dia.
-Quer sair conosco quinta-feira? -Não.
-E sexta-feira? -Não.
-Então sábado? -Não.
Somos muito pacientes.
Também sou.
Não se esqueça: "sempre" começa com "s".
Puta suja!
Esta prisão sempre foi condenada pela Anistia Internacional.
Esta é a ala das mulheres.
As celas são maiores.
Algumas prisioneiras ficaram aqui por 15 anos.
Desde quando ela existe?
Desde os massacres. Logo depois do início da guerra.
A prisão abrigava 600 prisioneiros políticos.
Pode entrar. Eu tiro uma foto.
Conhece esta mulher?
Não.
A foto foi tirada aqui.
Não a conheço. Faz muito tempo e...
Conhece alguém que trabalhava aqui?
Olá.
Olá.
Olá.
-Posso ajudá-la? -Estou procurando por Fahim Harrsa.
Sou Fahim Harssa.
Sou o zelador desta escola.
E antes disso?
Antes?
Antes eu também era zelador desta escola.
Faz muito tempo que sou zelador desta escola.
Conhece esta mulher?
Ela esteve em Kfar Ryat.
Sou zelador da escola, isso é tudo.
Procuro por alguém que a tenha conhecido.
Alguém que possa me falar dela.
É minha mãe.
É a Mulher Que Canta.
Número 72.
Ela matou o chefe das milícias cristãs direitistas.
Nós a fizemos pagar caro.
Muito, muito caro.
15 anos.
Nós a chamávamos de Mulher Que Canta.
Ela cantava o tempo todo.
Tem certeza que é ela?
Passei 13 anos a vigiando.
Já passou 13 anos vigiando alguém?
Fizeram de tudo para dobrá-la.
Mas ela continuava de pé, olhando nos olhos deles.
Nunca vi uma coisa assim.
Ela nunca se dobrou.
Eles ficaram furiosos.
Então chamaram Abou Tarek.
Quem é ele?
Abou Tarek...
Sabe, às vezes é melhor não saber tudo.
Já convivo com isso.
Continue.
Abou Tarek...
Abou Tarek era um especialista em tortura.
Ele a estuprou várias vezes.
Para arruiná-la antes que saísse, para que ela parasse de cantar.
Por fim, ela engravidou.
Foi assim. Nunca vou me esquecer.
72, grávida de Abou Tarek.
Esperaram até que ela desse à luz na prisão.
Depois, a libertaram.
E o bebê?
Você viu o bebê?
Havia um médico que visitava às vezes.
Acho que ele ficou louco.
Uns dizem que ele tem um restaurante em Tel Aviv.
Mas isso é bobagem.
Ele enlouqueceu ou então morreu.
A enfermeira, sim, eu conheço.
Ela mora em Daresh.
Em Daresh.
Ouça, Simon, não interessa! Cale a boca, está bem?
Mamãe esteve na prisão.
Mamãe...
mamãe foi estuprada.
Ela teve nosso irmão na prisão.
Preciso de você aqui.
A MULHER QUE CANTA
Estes são os documentos do escrivão Amyott.
De 1868 até 1892.
Seu filho, Edouard, começou em 1925.
Tudo era escrito à mão.
Meu avô, Charles.
Meu pai, Henry.
E eu.
Termina aqui porque sou o último dos Lebel.
Vou lhe mostrar o testamento de um homem...
que tinha vidas paralelas.
Descobriu-se que ele tinha três mulheres ao mesmo tempo.
Uma aqui, uma em Miami,
outra em Honduras, onde ele fazia negócios.
Então...
não eram três filhos envolvidos.
Eram oito!
Foi divertido, acredite.
Veja.
A morte nunca é o fim de uma história.
Sempre ficam traços.
Para achar seu irmão, vasculhe o passado de sua mãe.
Jean,
quero encontrar minha irmã, só isso.
Estou cuidando disso.
Só preciso arrematar algumas coisas antes.
Prepare suas coisas e vamos juntos.
Meu passaporte.
Juntos?
Já não fez o bastante?
Justamente. Não posso parar agora.
Cresça um pouco, Simon.
Sei que precisa de mim.
Vamos encontrá-la e voltar.
Prometo.
E uma promessa, para um notário,
é uma coisa sagrada.
Vamos, cante agora.
Isso mesmo. Isso mesmo.
O bebê está vindo.
Já vejo a cabeça.
Empurre, empurre!
Vamos, querida! Empurre! Empurre!
O primeiro já saiu.
Descanse.
Descanse um pouco.
Estou orgulhosa de você.
Prepare-se para o segundo.
Espere.
Me dê os bebês.
O que está fazendo?
Você os jogou no rio, como sempre.
-Isso é perigoso. -Não.
Você cumpriu suas ordens. Você os jogou no rio.
Eu vou cuidar deles.
São os bebês da Mulher Que Canta.
Este país é um campo de batalha para os outros.
Se existissem notários na época de Noé,
bastaria conferir os papéis de propriedade.
Esta terra é sua, esta é minha,
um direito de passagem aqui...
Pronto, todos ficariam felizes.
Os notários só existem há mil anos.
Aí está o problema.
Devíamos existir desde o início.
Agradeço pela sua ajuda, Maddad.
É um prazer, caro colega.
Tenho o resultado da pesquisa que me pediu por e-mail.
Simon, minha pasta está aí atrás.
Pode entregá-la ao Sr. Lebel?
Agradeço muito, mas estou cansado da viagem.
Vou examinar depois.
Vou resumir. Quanto o pai, é mais difícil.
Não há atestado de óbito.
-Quanto ao irmão... -Perdão, do que estamos falando?
Eu pedi ajuda, Simon.
O Sr. Maddad concordou, para apressar as coisas.
Eu já disse, Jean, só vamos encontrar Jeanne.
Sua irmã é a pessoa da família mais fácil de encontrar.
Estou feliz por você estar aqui.
Eu também.
Essa é o nome da enfermeira que ajudou mamãe na prisão.
Podemos visitá-la hoje.
Jeanne, já basta.
Cale a boca e venha comigo.
É seu dever encontrar nosso irmão!
Se não quer fazer isso por ela, então faça por mim!
Ela está no Hospital Americano.
-Estou feliz de vê-lo, Jean. -Eu também, eu também.
Se ela estiver dormindo, terão de voltar depois.
Sra. Maïka?
Bom dia, senhora. Obrigada por nos receber.
Procuramos por alguém que você conheceu.
Conheceu Nawal Marwan?
Trabalhou na prisão de Kfar Ryat como enfermeira?
Ela disse que conheceu sua mãe.
Ajudou minha mãe a dar à luz?
Senhora, procuramos pela criança que nasceu na prisão.
Pode nos ajudar?
Ela trabalhou na prisão de Kfar Ryat.
Ela acompanhou o parto.
Ela salvou os bebês.
Os entregou à Mulher Que Canta quando ela saiu da prisão.
-Sarwan! Jannan! -Narwal Marwan teve gêmeos.
Conheceu mesmo a Mulher Que Canta?
Não imagina o que isso significa para mim.
Narwal trabalhou para mim durante 18 anos,
como secretária.
Minha falecida esposa se apegou a ela e às crianças.
Agora percebo que não a conhecia.
-Pronto? -Pronto.
O Sr. Maddad fez uma pesquisa.
Para encontrar seu irmão e seu pai.
Quanto ao pai, Abou Tarek, não encontrei o atestado de óbito.
Muitos desapareceram deste país.
Ele pode ter ido para o exterior. Muitos como ele fizeram isso.
Estão mortos ou então partiram.
-Veremos. -Talvez seja melhor assim.
Quanto ao irmão...
Sua cliente, a Sra. Nawal Marwan,
nasceu no povoado de Der Om.
Ela entregou o filho a uma parteira chamada Elham,
que o levou ao orfanato de Kfar Khout em maio de 1970.
Foi difícil encontrar os registros.
Muitos documentos se perderam durante a guerra.
Porém, encontrei os registros,
que foram recuperados pelas Irmãs de Caridade
e doados ao Arquivo Nacional.
Em maio de 1970, a parteira de Der Om, Elham,
entregou para adoção um menino.
Foi o único menino admitido ao orfanato naquele mês.
Vejam, ele foi registrado com o nome de Nihad.
As datas conferem.
É ele.
É seu irmão, Nihad.
Orfanato de Kfar Khout, Nihad de Maio.
Foi registrado com esse nome: Ninhad do Mês de Maio.
Eles usavam como sobrenome o mês da chegada.
Não houve adoções naquele época, era o início da guerra.
O orfanato foi destruído quatro anos mais tarde.
É preciso saber quem destruiu o orfanato
para saber o que aconteceu com as crianças.
Cá entre nós, dado o que ocorreu na região,
não há muita esperança.
Ele também pode estar morto.
Eu não disse que ele morreu. Disse que perdemos sua pista.
Os dois estão mortos.
Vamos abrir os envelopes, fim da história.
Não vou permitir isso, Simon.
Essas coisas são sagradas.
Seria como um estupro.
Bem, haveria antecedentes.
Me desculpem.
Nos resta uma pista a explorar.
Mas é um pouco radical.
O chefe que arrasou o orfanato ainda está vivo.
Ele pode saber o que aconteceu com as crianças.
Faz uma eternidade.
Precisa entender que aquela época foi uma sucessão de represálias
que se seguiram com uma lógica implacável.
Como uma série de adições.
Um chefe é o tipo de homem com uma memória longa.
Ele se lembra, acredite.
Wallat Chamseddine.
É o nome dele.
Onde podemos encontrá-lo?
É ele quem encontra você.
Podemos tentar uma coisa.
Gosta de chá, Sr. Marwan?
É a sua vez.
Vai viajar até o campo de refugiados de Deressa.
Vai beber um chá.
Não importa com quem, basta alguém convidá-lo.
Diga que é filho da Mulher Que Canta
e que procura Nihad de Maio.
Não pode ir sozinho.
Vou conseguir alguém para acompanhá-lo.
Bem-vindos a Deressa.
-Sabe onde estamos indo? -Sei lá.
Como você vai?
Como você está crescido!
Ganhei meu diploma de engenharia.
Mas não consigo emprego, então trabalho como taxista.
O que está fazendo aqui?
Vim com uns estrangeiros que me pediram para acompanhá-los.
Sejam bem-vindo. Venham comigo.
Não, obrigado. Estamos com pressa.
Por favor, venham.
Está nos convidando para um chá.
Ele está perguntando por que vieram a Deressa.
Procuro uma pessoa chamada Nihad de Maio.
Ele não conhece Nihad de Maio.
Ele perguntou qual o seu nome.
Minha mãe veio do povoado de Der Om, no Sul.
Minha mãe é a Mulher Que Canta.
Sim, está feito.
Esperar o quê?
-Sarwan Marwan? -Sim.
Viemos oferecer-lhe ajuda.
Estará de volta em uma hora.
Posso avisar minha irmã?
Não. Voltará em uma hora.
Prometemos.
Vou vestir uma camisa. Só um segundo.
-Ele vai ligar. -Tudo bem.
Já? Não se preocupe, vá com eles.
No Sul, uma fagulha faz tudo explodir.
Está bem.
Você nos ajudou, agora nós a ajudaremos.
Vai deixar o país, tudo será mais simples.
Terá um lar e um trabalho.
Quero que você tenha uma vida melhor.
Temos muitos contatos na América.
Deve levar seus filhos.
Eles estão vivos. Leve-os com você.
Seus filhos vão ajudá-la, você verá.
Não pode me pedir isso.
Seus filhos são seus filhos.
Sua família é sua família.
Confie em mim.
Eu vou ajudá-la.
Estarei sempre presente para você e seus filhos.
Olá, Sarwan.
Desculpe as precauções. É para sua própria proteção.
Me chamo Wallat Chamseddine.
Me diga como posso ajudá-lo, Sarwan Marwan?
Conheceu minha mãe?
Digamos que ela trabalhava para mim.
Como posso ajudá-lo?
Procuro um homem chamado Nihad de Maio.
Por que procura Nihad de Maio?
É meu irmão.
Minha mãe me pediu para encontrá-lo.
Como pode afirmar que Nihad de Maio é filho de Nawal Marwan?
Meu irmão foi entregue para adoção no orfanato de Kfar Khout.
Encontramos seus registros.
As datas, tudo está de acordo.
Nihad de Maio é meu irmão.
Meu amigos e eu atacamos os cristãos de Kfar Khout...
para vingar as agressões de que os refugiados foram vítimas.
Havia um orfanato em Kfar Khout.
Eu poupei as crianças e as carreguei conosco.
Nihad estava entre elas.
Nós os preparamos e treinamos para lutar ao nosso lado.
Nihad tinha um dom, era especial.
Ele logo se tornou um atirador admirável.
Porém, ele queria encontrar sua mãe.
Ele a procurou durante meses.
Não sei o que ele viu ou ouviu.
Ele se tornou...
um louco de guerra.
Ele voltou para me ver.
Queria se tornar um mártir,
para que a mãe visse sua foto em todos os muros do país.
Mas eu recusei.
Ele foi para Daresh.
Ele se tornou um franco-atirador, o mais perigoso da região.
Uma verdadeira máquina.
Ele atirava em qualquer um.
Então aconteceu a invasão inimiga.
Uma manhã,
eles capturaram Nihad.
Ele tinha matado sete soldados.
Eles não o mataram.
Eles o treinaram e enviaram à prisão de Kfar Ryat.
-Ele esteve na prisão? -Sim.
Como torturador.
-Ele trabalhou com meu pai? -Não.
Ele não trabalhou com Abou Tarek, seu pai.
Está tudo bem?
Um mais um...
é igual a dois.
O quê?
Um mais um é igual a dois.
Não pode ser igual a um.
Você está com febre.
Jeanne?
Um mais um pode ser igual a um?
-Tem um lugar ali. -Pode se sentar.
Podemos ajudá-la, senhora?
Com licença.
Quando se tornou torturador,
seu irmão mudou de nome.
Ele se tornou Abou Tarek.
Nihad de Maio é Abou Tarek.
Sabemos que ele vive no Canadá sob uma nova identidade:
Nihad Harmanni.
Sr. Harmanni?
Sim.
Isto é para você.
CARTA AO PAI
"Tremo ao escrever isto.
Eu o reconheci.
Você não me reconheceu.
É um milagre magnífico.
Sou seu número 72.
Esta carta lhe será entregue pelos nossos filhos.
Você não os reconhecerá,
porque eles são bonitos.
Mas eles sabem quem você é.
Através deles, quero lhe dizer que você ainda vive.
Breve você se calará, sei disso.
Para todo mundo, o silêncio vem antes da verdade.
Assinado, a puta 72."
"Falo com o filho,
não com o torturador.
Aconteça o que acontecer, sempre o amarei.
É a promessa que eu lhe fiz no seu nascimento, meu filho:
aconteça o que acontecer, sempre o amarei.
Procurei por você toda minha vida.
E o encontrei.
Você não poderia me reconhecer.
Você tem uma tatuagem no calcanhar direito.
Eu a vi.
Eu o reconheci.
E achei você bonito.
Abraço você com toda a doçura do mundo, meu amor.
Console-se.
Nada é mais belo do que estar juntos.
Você nasceu do amor.
Assim, seu irmão e irmã também nasceram do amor.
Nada é mais belo do que estar juntos.
Sua mãe, Narwal Marwan,
a prisioneira número 72."
"Quando estes envelopes chegarem aos seus destinatários,
uma carta lhes será entregue, o silêncio será quebrado,
uma promessa será cumprida
e uma lápide poderá ser colocada no meu túmulo,
meu nome gravado nela, exposto ao sol."
"Meus amores,
Onde começa a sua história?
Com o seu nascimento?
Se for assim, ela começa com horror.
Com o nascimento do seu pai?
Se for assim, ela começa como uma grande história de amor.
Mas eu digo que sua história começa com uma grande promessa:
a de romper a corrente do ódio.
Graças a vocês, fui capaz de cumprir essa promessa.
A corrente foi partida.
Posso finalmente tomá-los em meus braços
e cantar uma canção doce para consolá-los.
Nada é mais belo do que estar juntos.
Eu amo vocês.
Sua mãe, Narwal."
INCÊNDIOS
Tradução: VLADIMIR FREIRE
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