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A ARTE DA ALEGRIA
Sai.
Sai!
N�o podes entrar c�.
N�o no meu quarto...
Senti a morte da Leonora a pairar pela casa.
Pensei que a tinha trazido.
E que com a Leonora tamb�m tivessem vindo os meus mortos.
Aqueles em que j� n�o pensava.
Senti-os, seguiam-me para todo o lado.
Como a minha sombra.
Bom dia, menina. Dormiu bem?
- Posso? - Sim.
Aqui tem o pequeno-almo�o. Opl�, como dizem os franceses.
Fez a cama? N�o � preciso, eu trato destas coisas.
Estou habituada. � o que fazemos no convento.
- Tem frio? Quer que acenda a lareira? - N�o.
Ajudo-a a desfazer a mala? Trouxe a sua ch�vena?
N�o sabia para onde ia, por isso...
- Sou a Viva�a. - Modesta.
- Sirvo-lhe o pequeno-almo�o aqui. - Que nome bonito.
O meu nome verdadeiro � Luigia, mas a princesa chama-me Viva�a
porque falo muito e nunca estou parada.
- Princesa? - Sim, Princesa Brandiforti.
N�o a conhece? Esta casa pertence-lhe.
� a casa de campo dela. O seu pal�cio grande � em Cat�nia.
Infelizmente, mud�mo-nos para c� porque a guerra rebentou.
Isto � para si, para se saber comportar.
Mas a princesa disse para lhe dizer que pode fazer o que quiser.
Pode dar um passeio no parque.
Ou tomar um banho quente. �timo, vou prepar�-lo para si!
E, se souber tocar, h� um piano enorme na sala de m�sica.
N�o pode subir ao �ltimo andar.
- � proibido. - Na verdade, ontem � noite ouvi...
Ia-me esquecendo do mais importante!
A princesa quer conhec�-la. Recebe-a esta tarde para um ch�.
Trate-a com respeito, mas n�o seja demasiado formal.
A princesa vem de Piedmont, no norte da It�lia. A m�e dela era francesa.
A formalidade incomoda-a. Com licen�a.
Vou deix�-la tomar o pequeno-almo�o. Diga-me se gostou.
- Tenha um bom dia. - Bom dia.
Eu disse-te, maman, s� a vi � dist�ncia.
Anda.
Gra�as a Deus que n�o � como os monstros que temos nos conventos.
Apesar da tua roupa, pareces muito bonita.
Cavallina, podias ter-me dito que ela era normal.
Talvez n�o bonita, mas normal, pelo menos. Podias ter-me dito.
Ela � a Beatrice, tamb�m conhecida como Cavallina.
A Beatrice � a irm� mais nova da Leonora, a tua madre superiora.
- A Madre Leonora viveu aqui? - Sim, nasceu aqui.
Eu quis que ficasses connosco por uns tempos.
Queria conhecer a rapariga a quem a minha filha estava t�o ligada.
Podes recordar-me o teu nome?
- Modesta. - Meu Deus! Que nome horr�vel!
Que adjetivo deprimente.
N�o te ofendas, mas teremos de o mudar.
- Sim, teremos de o mudar. - N�o me ofende nada.
- Senta-te. - Sirvo o ch�, princesa?
Sim, s�o horas do ch�.
Como est� a Irm� Costanza?
Ou melhor, a Madre Costanza, desde que a Leonora partiu.
- Continua t�o feia? - Est� bem. Obrigada.
Eu tamb�m teria sido freira, se fosse assim t�o feia.
Conhecias a Leonora h� muito tempo?
Sim, desde que cheguei ao convento, quando tinha nove anos.
Passavas muito tempo com ela?
Sim.
Viste-a nessa noite?
N�o. S� ao jantar, no refeit�rio.
A Madre Leonora era muito importante para todas n�s.
Ela era sempre
muito atenciosa e carinhosa, quase uma santa.
Como pode ter acontecido? Conseguiram encontrar uma explica��o?
A balaustrada que ruiu estava danificada, princesa.
A Leonora n�o sabia?
O nosso jardineiro dizia-lhe sempre que devia ser substitu�da.
Ele disse-lhe tantas vezes, meu Deus...
Mas a balaustrada era t�o bonita! E a Madre Leonora adorava beleza.
Sim. Isso � de fam�lia.
Antes de ires, tens de assinar aquele documento.
Que documento?
Que documento?
O not�rio diz-te quando chegar. Agora v�o, estou cansada.
Ver juventude cansa-me.
Como n�o �s feia, tamb�m podes vir tomar ch� connosco nos pr�ximos dias.
As alus�es foram claras.
- Est�s feliz, Cavallina? - Claro, maman, muito feliz.
Suspeitavam de mim pela morte da Leonora.
O que pensar�s de n�s? �s uma pessoa devota.
Sentia os olhos de todos em mim.
...quando ver�s a nossa capela abandonada.
Devia ter sido mais cautelosa.
J� tinha cometido demasiados erros.
N�o podia fugir.
Para onde, afinal?
N�o queria voltar para o convento.
- Queres mesmo ser freira? - Prud�ncia.
A �nica hip�tese que tinha para afastar as suspeitas
era mostrar que era uma pessoa religiosa e praticante.
Uma devota.
Como � a voca��o? O que sentes?
� como...
...o canto de um p�ssaro.
Que bonito.
A maman diz que, para uma rapariga como tu, � melhor ter esta voca��o.
Ficar�s mais segura no convento do que no mundo.
Prud�ncia.
Este � o quarto da Leonora.
N�o podemos entrar, est�o a prepar�-lo.
A prepar�-lo para qu�?
A maman quer os quartos dos mortos limpos e arrumados.
Para quando voltarem.
Quais mortos?
Aqui, est�o todos mortos.
Eu e a maman somos as �nicas vivas.
Temos de fechar, a h�spede est� a ver.
E os criados, claro.
Vou mostrar-te os quartos, apesar de ser proibido.
Por favor, perdoe-me.
Ser� o nosso segredo.
N�o podes contar a ningu�m, nem � Viva�a, ela � uma espia.
Posso entrar ou...
Ou queres estar sozinha e meditar?
�s �rf�, certo?
Sim.
A Leonora foi como uma m�e para ti.
De certa forma, sim.
� verdade que a tua m�e morreu queimada?
Parece que sabe tudo sobre mim.
Sim, � verdade.
N�o prometo ver-te ao jantar, porque comemos a horas diferentes.
E a maman nunca sai do quarto � noite quando est� de luto.
Ent�o, at� amanh�.
Adeus.
�s um monte de merda.
- O qu�? - Para.
Espera.
Santa M�e...
- Vai! - Vai, pede-lhe desculpa.
Diz-lhe que estamos a brincar.
Menina...
Menina!
Pare.
Procurava alguma coisa? Precisa de ajuda?
N�o, s� ouvi barulhos estranhos vindos do andar de cima.
N�o se preocupe com isso.
Vou deix�-la descansar. Deve estar cansada.
Se a deixa mais confort�vel...
...tranque a porta.
Vais ver, estar�o todos na prociss�o de Nossa Senhora das Esmolas.
As fam�lias Biscari, Gravina e Serravalle.
- At� os Duques de Targagi. - Que aborrecido. S�o insuport�veis.
Arrependo-me de decidir ir l�.
Vai ser divertido. Al�m disso, eles t�m aqueles bolos deliciosos.
- Como se chamam mesmo, maman? - Os dedos de... qualquer coisa.
O que fazem no convento?
Bem, estudamos.
Plantamos legumes.
Bordamos, aprendemos m�sica e, acima de tudo, rezamos.
�s muito parecida com a Leonora.
A forma como falas, os teus gestos.
Parece que a est�s a imitar.
Nunca a conheci. J� estava no convento quando nasci.
O que se passa?
Perdoe-me, princesa.
Quer secar-se?
Obrigado.
- Est�s quase? Estamos a derreter. - Estou quase a acabar.
Cavallina, para! Pareces um corvo inquieto!
Endireita-te.
Tr�s corvos.
� o que parecemos.
Vestidos pretos. Tr�s p�ssaros de mau agouro.
Tr�s corvos.
Princesa, podemos entrar no carro e seguir viagem.
N�o. Vamos voltar para casa.
J� n�o me apetece ir a Biancavilla.
N�o � justo, disseste que �amos.
- Mudei de ideias. - Mas, maman...
N�o tenho o direito de me contradizer?
N�o tenho o direito de ir embora?
N�o vemos ningu�m desde o in�cio da guerra.
Parecemos prisioneiras, freiras enclausuradas.
- E ent�o? - Ent�o, estamos quase l�.
Vamos levar a Modesta a rezar.
Ela pode rezar em casa.
Temos uma capela linda. Ningu�m a usa, mas est� aben�oada.
Pelo menos, algu�m pode us�-la. Vamos. Depressa, para o carro, vamos.
Vamos! Rocco.
- R�pido, j� disse! - A capela...
Queria lev�-la � igreja.
- N�o vai entrar, princesa? - Estou a acalmar-me!
Entretanto, liga o raio da m�quina!
Menina Modesta?
Em rela��o ao que viu ontem, n�o quero que...
N�o vou dizer nada, se � isso que o preocupa.
Obrigado.
N�o posso perder o emprego.
Al�m disso, n�o � nada s�rio, s� fazemos companhia um ao outro.
N�o tem de se justificar.
A rapariga chama-se Mena.
Ela trabalhou no circo com o marido antes da guerra.
Era uma grande atra��o, "a mulher tatuada".
Depois, o marido foi recrutado para a guerra.
E ela conseguiu ser contratada aqui.
Os homens alistaram-se todos no ex�rcito.
J� n�o restam muitos de n�s.
O senhor �... Rocco, certo?
Sim.
Porque n�o est� na guerra?
Tenho pulm�es fracos.
Tive tuberculose em crian�a e fui rejeitado, infelizmente.
Lamento.
Tens medo do escuro?
Opl�!
Havia muitos mais quando a Tia Adelaide era viva.
Parecem catedrais.
Ela dormia aqui com todos estes p�ssaros cantores?
Quando a Leonora foi para o convento,
a Tia Adelaide n�o quis ver mais ningu�m.
Nem a mim. Fazia-a lembrar muito a Leonora.
Ela odiava a maman.
Disse que a Leonora tinha ido embora por culpa dela.
Ela s� cuidava das suas criaturinhas.
Disseram-me...
...que quando uma das m�es morria
e abandonava os ovos...
...ela ficava a choc�-los.
Este � o sal�o de dan�a.
� bonito, n�o �?
Mostro-te quando o ch�o secar.
- Desculpe... - N�o � nada.
Estou bem. Nem sequer ca�.
O que se passa?
Que sorriso triste � esse?
Reparaste, certo?
� por isso que a maman me chama Cavallina.
Tens pena de mim?
Claro que n�o.
� linda.
Pronto.
Se eu coxear � frente da maman, ela come�a a gritar.
Ela tem raz�o, ningu�m quer ver uma menina a coxear.
Continuei a desempenhar o meu papel cuidadosamente.
Mas n�o conseguia perceber se a atua��o era eficaz.
Anda, vou mostrar-te a sala de estar dos antepassados.
Tudo...
...at� os seus passos vacilantes...
...me dizia que podia ser confiante e sorrir.
A beleza dela encantava-me.
Mas quando estava sozinha...
...era assoberbada pela d�vida.
Dizer que s�o inven��es de Deus � demasiado simples para justificar
a beleza e o mist�rio das borboletas.
Era o que o Tio Jacopo dizia.
Era o filho preferido da maman. O mais bonito dos Brandiforti.
Era fil�sofo.
Um herege.
O Tio Jacopo tamb�m era cientista. Desenhava avi�es.
Tamb�m era piloto.
Ficou ferido numa batalha e voltou meio paralisado.
Eu vinha c� todas as tardes.
Ele falava-me da guerra.
Disse-me que, gra�as aos avi�es, a guerra terminaria em breve.
Em vez disso, nunca mais termina.
Est� a dormir?
Av� Maria, �s sempre tu. O que est�s a fazer?
V� l�, Salvo, ainda est�s a dormir esta manh�?
Eu? E tu?
- Bom dia, menina. - Bom dia.
- O luto acaba hoje. - J�?
Ordens da princesa.
- V� l�, deixa-me ajudar-te. - Obrigado.
- Agarra daqui. - Bom dia.
Mas...
- Como � poss�vel? - Nunca viste um gramofone?
- Que geringon�a � esta? - Ele come-te!
Ela nunca tinha visto um gramofone.
Que disparate, Cavallina! Achas que t�m gramofones no convento?
Seja como for, ver-te entrar na sala com essas roupas
deixa-me triste como uma noite de inverno.
Enquanto fores nossa h�spede, ter�s de te submeter � beleza.
Chega deste h�bito religioso. Cores.
Quero cores! Quero alegria, Maudit!
Ela n�o te disse? Vou chamar-te Maudit.
Verlaine, Baudelaire, Rimbaud. Conhece-los?
- Les po�tes maudits. - Lamento.
- "Maudit" quer dizer maldito. - Maldito.
Uso-o no melhor sentido do termo e tamb�m pela sonoridade.
Maudit, Modesta.
Devia conhecer esses poetas?
Certo. Vamos � biblioteca, empresto-te uns livros.
Ela n�o sabe cantar, mas eu sei tocar.
J� est�.
- Que bem. - � lindo.
Tantos bot�es.
Suba para a cadeira.
� t�o lindo.
Agora isto...
Est� apertado, tem de ser arranjado.
- Est� a chorar? - N�o, � s� por uns dias.
S� para agradar � Lady Gaia. A sua t�nica fica ali, n�o foge.
Veja-se ao espelho, est� encantadora.
Este vestido � demasiado fr�volo para si?
� lindo. Gosta?
V�?
- Cuidado, vai cair. - O que est� a fazer?
Olha, ela vai cair.
"Um cabelo da sua carne. Um nervo da sua cara."
No �ltimo verso,
Verlaine diz que experiencia o �xtase dos primeiros crist�os.
Est� a viajar pela Europa com o seu amante, Rimbaud.
- Numa esp�cie de lua de mel... - Princesa, o jornal chegou.
Hoje, vamos comprar
velas e �leo, mas j� n�o h� muito no cofre.
Antonio, agora n�o. Estou a falar com a Maudit.
- V� l�, vai. - Claro, princesa.
Na verdade, n�o. Antonio, anda. Faz o "pupi".
- Mas... - V� l�.
O paladino Orlando! Aqui estou eu!
Quero que experimentes a minha espada terr�vel e a sua for�a!
A n�s! �s armas!
- Obrigado, princesa. - Agora vai.
Vai!
Pobre Antonio.
Rouba-me dinheiro h� s�culos.
Espero que o tenha usado bem.
Est�o quase todos a roubar-me dinheiro.
Por mim, tudo bem,
se � o pre�o a pagar para n�o ter de lidar com coisas chatas.
"Com o choro longo, os violinos de outono
ferem o meu cora��o..."
Eu podia geri-lo.
Aprendi a fazer contas no convento.
Se me permitir, posso ver as despesas que o Antonio mencionou.
Que engenhosa.
Gire. Graciosamente. Gire.
Gire. Mais alta. Direita. Gire graciosamente.
Direita.
Gire graciosamente. Et voil�. Graciosamente. Volte. Volte.
Muito bem. Mais uma vez.
Por amor de Deus!
Perdoa-me, Modesta.
Perdoa-me.
- Desculpe, n�o a queria incomodar. - N�o, de todo. N�o estava a rezar.
Ali�s, quando voltar ao convento, o que mais farei � rezar.
- Com licen�a. - N�o.
J� n�o tenho ningu�m para visitar.
O convento � a �nica casa que posso ter.
N�o podemos escolher o nosso destino como elas.
Outros escolheram o meu.
Mandaram-me para a guerra.
Quando est�vamos nas trincheiras e choveu,
pass�mos semanas encharcados.
Quando tir�mos os sapatos, at� a pele saiu.
Se n�o tivesse fugido, estaria morto.
Desertou?
Os outros soldados eram pobres como eu.
Eram de Friuli, Sardenha... Eu n�o percebia nada.
E tinha de morrer por It�lia?
Escondi-me nas solfataras durante meses.
E se o encontrassem?
Ter-me-iam matado.
Desertores s�o mortos pelos companheiros.
Sacanas. Perdoe-me a linguagem.
Fico furioso s� de pensar nisso.
N�o � verdade que tinha pulm�es fracos.
N�o.
Ningu�m sabe que eu desertei.
Nem sei porque lhe estou a dizer tudo isto.
Sinto que posso confiar em ti. Desculpa ser t�o informal.
Claro que podes confiar em mim.
N�o. J� chega.
Tamb�m quero partilhar um segredo.
Nunca tive uma voca��o.
N�o recorro a ningu�m quando rezo.
Podes chamar-me Modesta.
Est� bem?
Menina Modesta, n�o a encontrava.
A princesa est� � sua procura, est� no escrit�rio.
Lady Gaia...
Est� na hora de voltar a montar um cavalo.
- Mas estou mole e fl�cida. - Disparate.
Foi a �nica que me venceu. Tem de voltar a montar.
Carmine, ela �...
...a rapariga de quem te falei. Chama-se Modesta,
mas prefiro chamar-lhe Maudit.
Bom dia.
Ele est� com a nossa fam�lia desde crian�a.
� quem gere as coisas aqui.
Colheitas, trabalhadores, animais.
Ainda aluga muitas das nossas terras. Era demasiado para mim.
- Mas as terras ainda s�o vossas. - Sim, como queiras.
S�o vossas.
Seja como for, o not�rio Musumeci est� prestes a chegar,
por isso, poder�s assinar aqueles documentos que mencionei.
- Antes de ires. - Sim?
- Daqui a dois dias. - Ningu�m me informou disto.
Estou a dizer-te agora. Ou devia ter enviado um telegrama?
Carmine, vai ver se o Gaetano chegou.
Pode estar � nossa espera l� em baixo.
Senta-te.
N�o paro de pensar na morte da Leonora.
Diz-me a verdade.
Ela estava a sofrer?
Voc�s eram pr�ximas. O que achas?
Ela era infeliz?
Foi um ato de desespero?
Princesa, acha... que ela...
N�o.
N�o, n�o deve... N�o deve pensar isso. Juro.
A Leonora encontrou a paz no convento.
Estava cheia de vida.
Foi um acidente terr�vel.
A balaustrada estava velha. Devia ter sido substitu�da.
Dissemos-lhe muitas vezes.
As tuas palavras consolam-me.
Aliviam o meu cora��o.
Pronto.
Ent�o, vamos assinar estes pap�is.
- Bom dia, princesa. - Bom dia, atrasas-te sempre.
- Cheguei h� uma hora. - Senta-te. Senta-te ali.
- Obrigado. - Anda, Carmine.
Ent�o...
Modesta...
- Spataro. - Spataro.
Nascida a 1 de janeiro de 1900.
O primeiro dia de um novo s�culo. Sortuda.
V� l�. Avan�a.
A �rea est� registada aqui, Chiana del Bove.
Mas a cidade e a sua morada permanente est�o em falta.
Usa a morada do convento. � l� que ela vai viver.
"Na presen�a da Princesa Gaia Brandiforti,
a supramencionada Modesta..."
Entretanto, pode assinar aqui, por favor.
"Para lhe garantir um futuro mais seguro,
a m�e da falecida Leonora Brandiforti forneceu-lhe
uma pens�o de 1800 liras."
Bem...
- Para toda a vida? - Sim.
Mas se abdicar da vida religiosa por uma vida mundana,
perder� a sua pens�o.
- Mas isso n�o vai acontecer. V� l�. - Outra assinatura aqui, por favor.
Bem, ainda precisas de mim?
Sim, princesa, mas posso ir ter consigo mais tarde.
Ent�o, vou-me embora. Estou a ficar aborrecida.
Princesa.
Como se chamava aquela coisa? O dirig�vel alem�o?
Estava em todos os jornais. Aqueles terr�veis bombardeamentos.
Come�ou um alvoro�o. Estavam todos assustados.
Um alvoro�o in�til.
Nem sequer acertaram nos alvos.
Ent�o, viajei para Cat�nia
e comecei a ensinar bailado �s filhas do Bar�o de Villagioiosa.
- Por amor de Deus. - Pobres criaturas, princesa...
Que caso perdido. S�o gordas, baixas.
- Pernas curtas. - Princesa, parecem dois patos.
At� a m�e delas parece um boi. Ela sempre foi assim.
A Beatrice, por sua vez, move-se com graciosidade.
- Ela tem uma certa... Como se diz? - Atitude.
Atitude! Voil�!
Matilde, porque n�o nos entret�ns um pouco?
Maestro, devia ouvir como canta bem. Ao contr�rio de mim.
A s�rio? Cante, cante, menina.
- M�e, posso? - Claro, querida.
Muito bem.
Quando ela come�ar, n�o vai parar mais.
Parece um rouxinol.
Cavallina, espere!
O que se passa?
Vais-te embora?
Vossa Alteza...
Os meus cumprimentos.
- Quem �? - � o Pietro.
� o �nico que tem acesso ao �ltimo andar.
Posso saber o que h� no �ltimo andar?
A coisa vive l�.
O Pietro lida com ela. Ele � o �nico que pode porque � grande e forte.
- O que � a coisa? - N�o sei.
Nunca vi.
Gostava de ir para o meu quarto.
Boa noite.
Modesta.
Bom dia.
Bom dia.
- Est� um lindo dia, n�o est�? - Sim.
Este � o meu alojamento. Vivo aqui.
Estava a pensar no que n�s... No outro dia...
Pensei na nossa conversa.
Ambos sofremos.
A vida tem sido dif�cil.
Mas a tua bondade e a forma como confiaste em mim...
...deixaram-me feliz.
N�o devo estar enganado ao pensar que n�o te sou indiferente.
Devo confessar que sinto algo forte por ti desde que te vi.
- Rocco, eu n�o... - Espera.
Disseste que n�o queres voltar para o convento, certo?
Que n�o tens voca��o. Ent�o, fica.
Eu caso contigo.
Se aceitares, direi � princesa que nos apaixon�mos.
Podias trabalhar no contabilista, j� que sabes ler e escrever.
- Nem todos sabem isso. - Sim, mas tem calma.
Rocco, n�o sei o que dizer.
H� umas semanas, vivia num convento.
E tenho de voltar.
Estou disposto a casar contigo.
Mas eu entendo e n�o tens de responder j�.
N�o tenhas medo, apaixonarmo-nos s� significa gostarmos um do outro.
Casar com ele? Seria a forma de ficar na casa?
Mas, se n�o voltasse para o convento, perderia a heran�a.
A pens�o da Leonora n�o era um presente.
Era uma armadilha.
- Bom dia, princesa. - Bom dia, Maudit.
Obrigada, tamb�m li este.
- �s uma leitora voraz, Maudit. - Sim.
Se n�o se importa, tamb�m gostaria de ler o outro poeta.
Ba... Bade... "Badelar"?
Baudelaire.
Claro. Eu empresto-to. Anda.
Anda.
Est� aqui, no meu esconderijo secreto. Anda.
Eu dava-to, mas...
N�o quero que as freiras crentes em Deus o encontrem.
Obrigada.
Tenho pena que te v�s embora.
S�o todos t�o aborrecidos aqui.
�s uma rapariga de poucas palavras, mas �s interessante.
Sabes ouvir.
A solid�o � horr�vel quando envelhecemos.
Perdi quase todos os meus entes queridos.
Mas cuidado, cada perda implica um tipo de sofrimento diferente.
Sem o Jacopo, fiquei mesmo sozinha. Para sempre.
Eu e o Jacopo
entend�amo-nos.
Era o meu filho preferido.
N�o sou hip�crita, n�o posso negar. Toda a gente sabia.
N�o...
A minha filha... Com a minha filha, � diferente.
Ela era uma tola. Arruinou-se com as pr�prias m�os.
Com a beleza e o t�tulo dela, podia ter tido tudo na vida.
Em vez disso...
...engravidou de um homem com quem nunca poderia casar.
Eu e o meu marido escondemos a gravidez dela.
At� ela dar � luz a Beatrice.
N�o entendo.
Estou a falar da Leonora. A minha �nica filha mulher.
Quando a beb� nasceu, mantivemo-la aqui connosco,
mas o convento era a �nica possibilidade para a Leonora.
Claro que ela nunca nos perdoou, n�o nos queria voltar a ver,
rasgou as minhas cartas todas.
Se fosse por mim, t�-la-ia mantido aqui connosco.
Mas os pais e os maridos tomam as decis�es, neste pa�s.
Talvez n�o tenha lutado o suficiente.
N�o fa�as uma cara t�o feia.
Como podia a maman ser minha m�e?
N�o v�s que � demasiado velha?
Todos sabem que � uma farsa pela dec�ncia. Ningu�m acredita.
S� tu.
E isto?
E ent�o, pela primeira vez na minha vida...
...fui amada enquanto amava.
Este � o olho lindo,
este � o irm�o.
Esta � a pequena igreja
e estes s�o os pequenos irm�os.
O nariz � o sino que faz dlim-dl�o, dlim-dl�o.
A maman fazia-me sempre isso.
Onde aprendeste?
Sentiremos todos a tua falta.
O carro estar� pronto amanh�, �s 6h00.
Obrigada, Rocco.
Sim, vamos todos sentir a sua falta. Para de choramingar, Rocco! Esquece.
Ela vai-se embora, n�o vai morrer. D�-lhe um sorriso, por amor de Deus!
- Boa noite. - Boa noite.
Vai.
Detesto despedidas.
Porque levas isto contigo? J� n�o vais poder us�-lo.
Porque o levas?
As tuas ligaduras adoradas! Vou queim�-las!
O broche da Leonora.
- O livro de poesia. �s uma ladra! - � uma recorda��o.
Modesta, �s uma ladra, vou dizer � maman...
Porque ficaste t�o cruel de repente? � s� um livro e um broche!
Porque estou triste. Estou triste por te ires embora.
Vou contigo para o convento, vou fazer os meus votos.
�s minha.
Tu tamb�m �s minha.
N�o aguento.
- Fica comigo. Fica comigo. - Espera...
Casas comigo?
Rocco. Rocco!
Rocco, depressa! N�o consigo segur�-lo!
Depressa! Est� violento!
- Que te fez ele? - Tudo o que era poss�vel.
Que te fez ele?
Mordeu-me, arranhou-me, com as unhas e os dentes!
Tive de o amarrar, j� n�o conseguia segur�-lo.
Ouve. Est�s a ouvi-lo? Est� furioso.
Menina, n�o entre. � perigoso.
V�-se embora, menina!
Calma. Pare.
N�o lhe toque!
Deixem-no. Deixem-no.
� um milagre.
� um milagre.
Isto nunca aconteceu.
Ele acalmou-se.
Menina, � uma santa.
� uma santa.
� um milagre.
� um milagre. Ele acalmou-se sem comprimidos, sem inje��es.
Uma santa!
Tradu��o: Cl�udia Pereira
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