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QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE É COINCIDÊNCIA.
A FRAGILIDADE DOS CORPOS
Com isto, vimos que todos os garotos atropelados...
viviam no Distrito 8.
Todos os sites estão falando sobre o acidente.
Isso é muito maior do que o acidente, Pato.
É muito grande. Tem gente importante no meio.
Essa é a notícia, não o acidente.
Vilna não vai gostar.
Esqueça Vilna, Pato. Não sei o que fazer.
Não dou a mínima para ele, o que quer que eu faça?
Quer que eu tire ele do seu pé?
Ligo para ele. Convido para comer em algum lugar,
chupo ele e pronto.
Não dê uma de arrogante. Vamos pensar direito.
Somos uma revista pequena, Vero. Você sabe disso.
-Eu sei. -Prestigiosa, mas é pequena.
Não podemos fazer uma investigação grande.
Me dê um pouco de tempo. Juro que não falta muito.
-Estou quase lá. -Aonde?
Sei que você quer escrever um grande artigo, Vero.
Te conheço. Você é boa e ambiciosa.
Mas tem jornalistas trabalhando o dobro
porque você não escreve.
Quer que eu escreva? Vou escrever.
Me dê algo para escrever. Outra coisa.
Não faça isso comigo, Pato. Você sabe como funciona.
Não me faça queimar o artigo.
Se sair incompleto, alguém vai passar na minha frente.
-Vinte e quatro horas. -O quê?
Tem vinte e quatro horas para me entregar alguma coisa.
-Algo sobre o quê? -Sobre isto.
Pato, só pode ser brincadeira.
Não, o Vilna está esperando o artigo sobre os trens
e isso é o que vamos dar a ele. Vinte e quatro horas.
E o Peque?
Está deitado. Diz que não quer ver ninguém.
O que aconteceu?
Não sei. Disse que está com dor de estômago.
Filho, qualquer coisa me chame na casa da Silvia.
-Tem o telefone? -Sim.
-Posso entrar? -Sim, como quiser.
Peque, sou eu.
Vá embora. Me sinto mal. Cai fora.
O que dói?
Que chata. Não dói nada. Vá embora.
Como nada? Sua mãe disse que estava com dor de estômago.
Você pode ir embora?
Vai!
-O sal. -Como?
Me passa o sal?
Aqui está.
Segui o seu conselho.
Procurei denúncias de jogos clandestinos em La Pampa.
Havia quatro nomes, mas este chamou a minha atenção.
Se chama Juan Garcia.
Pode ser o cara que estamos procurando.
É dono de dois cassinos em Santa Rosa, La Pampa.
Um em San Juan. Tem denúncias por jogos clandestinos.
Não deram em nada. Uma ação por lavagem de dinheiro
da qual foi absolvido por falta de mérito.
E o endereço dele em Buenos Aires é este.
Não chama a sua atenção?
-Julio Argentino Roca, 3874. -Sim.
-Parece familiar. -É claro .
É o Parque Roca, o autódromo.
Ninguém mora no Parque Roca.
Um endereço falso.
Em que Distrito o Parque Roca está?
Adivinhe.
Esta foi a única foto que conseguiu?
Sim, foi a única que consegui.
Está bem. Mande por e-mail.
-Obrigada, Fede. -De nada.
Você é o melhor.
Sabe algo sobre o garoto que foi atropelado?
Não. Ninguém reclamou o corpo. Continua sem identificação.
Onde ele está?
No I.M.L.
-O Morales ainda está lá? -Acho que sim.
-Vou para lá. -Está bem.
-Obrigada. -De nada.
Vero, espere um segundo.
Não vamos falar sobre o que aconteceu na sua casa?
Sobre o que você quer falar?
Você estava com o maquinista. Com o Valrossa.
E daí?
E daí? Está transando com ele?
Desculpe.
Foi ao Tiro Federal e pediu a informação?
Não precisei. Perguntei para ele.
-E então? -Admitiu que mentiu.
Foi várias vezes praticar tiro para aprender a usar a arma.
-Para quê? -Por via das dúvidas.
Por via das dúvidas de quê?
Não sei, Federico.
Falando nisso, você que contou ao meu pai sobre o artigo?
Sim, fui eu.
-Por quê? -Não sei. Escapou.
Ele perguntou, eu contei. Não achei que fosse segredo.
Ele é o meu pai, Fede. Sempre é assim.
Chega.
Não quero jogar mais.
Qual é? Não seja covarde.
Não vou jogar mais.
Não seja chata. O Peque não está saindo.
Estou entediado.
-Foi ver ele? -Fui.
É mentira que ele está doente, não é?
Não sei.
Sabe, sim. Aconteceu alguma coisa com o Peque.
Juro que não sei de nada.
Não jure, porque vai para o inferno.
Fui visitar e ele me tratou muito mal.
E o Peque não é assim.
Não sei muito.
Ele só me disse que não quer sair...
nem dormir, porque tem pesadelos.
Como? Pesadelos com o quê?
Sonhou que um garoto explodiu.
Explodiu como?
Sei lá. Ele está apavorado.
É isso. Não posso dizer mais nada.
O corpo está destruído. Não tenho rosto para publicar.
E as digitais?
Já enviamos à central, mas essas coisas demoram.
Se não tiver antecedentes, talvez não sirvam para nada.
-E tatuagens? -Não.
-Nada? -Nada.
Nem uma nota de supermercado.
Mande lembranças ao seu pai. Diga que ligo esta semana.
Está bem. Muito obrigada.
-Como você está? -Estou bem.
-E como está o seu colega? -Mal.
-O que ele te contou? -O que você já sabe.
-Posso falar com ele? -Não.
É o segundo garoto que ele atropela.
O primeiro estava escutando música.
Está arrasado.
Mas falei com o Romerito.
-Quem? -Carlos Romero.
O outro maquinista que atropelou o garoto que saiu ileso.
Sim, o Jonathan.
Jonathan?
Ele disse que pode se encontrar com você.
Obrigada.
Como se chamava o outro garoto?
Não sei. Continua sem identificação. Ninguém reclamou.
O que vai fazer hoje? Tem um tempo?
Duas horas.
Aonde vamos?
Olá.
Como vai?
Estamos procurando a família Ayala.
Eles se mudaram há muito tempo.
Quanto tempo, mais ou menos?
Não sei. Uns dois anos, mais ou menos.
Depois do acidente do menino.
Deixaram endereço? Sabe aonde foram?
Acho que voltaram para Salta, mas não faço ideia.
Salta?
Está bem. Muito obrigada, senhora.
Tchau.
É aqui. Número 515.
Me deixe ver.
É o endereço que está aí.
Não pode ser.
Olhe o endereço que está aí.
Os endereços estão errados ou as pessoas já se mudaram.
Não quero ser pessimista, mas estamos perdendo tempo.
Falta só um endereço. Vamos e terminamos, está bem?
Acho que é para lá.
A família não falava muito.
Só sei que quando o menino morreu, voltaram ao Paraguai.
Não deixaram telefone nem endereço?
-Nada. -Nada.
O Brian ia à escola?
-Acho que sim. -A qual?
-Não sei. -Não sabe.
Está bem. Obrigada.
Sabe se jogava futebol?
Acho que jogava em algum clube.
Não lembra em qual?
Não. Mas era futsal.
As chuteiras dele eram de futsal.
-Tem algum clube aqui perto? -Vários.
Tem o Yupanqui, Espanhol.
Também tem o Madero Central, O Fortín.
-Muito obrigada. -De nada.
Você tinha razão.
Tem a ver com o futebol.
O menino que o Carranza atropelou jogava em um clube.
Esse outro garoto parece que também.
O que morreu, não sei. Ainda não sei, mas...
Espere. Calma, calma!
Calma, nada.
Olhe bem.
Está vendo esse cara aqui? Ele adora machucar as pessoas.
Mas sabe do que ele mais gosta? De estuprar garotas judias
que se metem onde não são chamadas.
Não sei como ele está se segurando.
Pensa um pouco. E fica de boca fechada.
Se não quiser que ele estupre você. Entendeu?
Entendeu ou explico de novo?
Solte ele.
Sabe o que a sua família está fazendo neste momento?
Você está bem, Lucio? Lucio.
-Você está bem? -Espere, espere.
O que está fazendo?
O que está fazendo, Lucio?
Atenda, droga!
Oi, amor. Por que não estava atendendo?
Está com as crianças?
Não. Acabaram de roubar a minha carteira, desculpe.
Estou meio alterado.
Sim, é claro. Fique calma.
Vou trabalhar.
Sim, depois te conto.
Claro. Se cuide, amor. Beijos nas crianças.
E então? Gostou ou não?
Sim. Dá para pôr plantas também?
É claro. Não viu que tem uma janela enorme?
Dá para colocar na frente do vidro, assim recebe sol.
Diga à sua mãe que você gostou. Assim ela fica contente.
Não sei se ela vai ficar contente.
Sim. Ela fica contente se você ficar.
Sim, mas ela não quer nem te ver.
Sua mãe me amou muito, sabia?
Sim, é claro. Mas agora não.
Como você está? Você está bem?
Sabe se fizeram alguma coisa com o Peque no clube?
Não que eu saiba. Por quê? O que ele te disse?
Nada, mas faz uns três dias que não sai de casa.
A mãe dele acha que está doente, mas é mentira.
O Dientes disse que ele está com medo, que tem pesadelos.
Pesadelos?
Com o que ele sonha?
-Com um garoto que explode. -Que explode?
Explode como?
Foi assim que ele me disse.
"TRENS, MORTE E SUICÍDIO."
De onde tirou essa história de Luca Prodan?
Não foi muito difícil encontrá-lo.
Disse que cada vez que passava por uma barreira era incrível.
Que em um mundo onde mandavam foguetes ao espaço,
era primitivo que uma madeira nos proteja de um trem.
Ele era inglês, não é?
-Italiano. -Sim, europeu.
Está bem. Não é grande coisa, mas serve.
Se editarem a parte de Luca Prodan, está bem.
Certo.
Levou bastante tempo.
Estou liberada?
Você não escreveu nada sobre os garotos e as competições.
Não.
E acha que fazer uma matéria sobre os suicidas
e maquinistas traumatizados é o suficiente?
Vero, não sou o Vilna. Eu te conheço.
Precisa de uns dias?
Sim, Pato. Preciso terminar.
Está bem.
Não desapareça.
Tente jogar dentro do campo.
Olhe um cara que sabe o que está fazendo.
Aquele gordo que não se mexe nem com patins...
troquei ele de posição e veja como está agora.
-Sim. -Olhe como marca.
Se mexa, querido.
Como estamos? Algum garoto novo?
-Nada ainda. -Bom...
Se mexa. O leão vai nos comer.
E o Peque? Faz tempo que não vejo ele.
Faz uns três dias que não vem.
Sei lá, deve estar doente. Pergunte para a sua filha.
Não moram na mesma casa?
Sim, na pensão. Eu perguntei.
O que ela te disse?
Não sei, disse que faz três dias que ele não sai.
Por quê?
Não sei. Ela disse...
Ela disse que ele viu um garoto explodir.
Explodir? Não entendi.
Nem eu.
Deve ter visto algum garoto machucado, algo assim.
As crianças dizem qualquer coisa para chamar a atenção.
Pode ser.
Não entendo porque você fica dando voltas.
Como assim? Que voltas?
Veio me perguntar sobre o Peque, mas já sabia de tudo isso.
Acha que eu tenho alguma relação com isso?
Não, por que eu pensaria isso?
Que bom. Não quero que sua filha pense
que você trabalha com um cara que maltrata crianças.
Você ser um drogado já é o bastante.
Não sou um drogado.
Drogado. Não sei como é isso.
Não entendo.
Você já fez cagada.
O que perdeu, perdeu.
O importante é não perder o que tem agora, entendeu?
Vamos, garoto, use a perna. Para que tem uma?
Senão, desenrosque e deixe no ônibus.
Use o quadril.
É verdade.
Só não fomos por causa dos horários.
Todos nós queríamos ir.
Não queríamos ir?
-O Malvino está louco! -O Malvino está louco!
Está louco. Como iam vir todos?
-Sabe quem te mandou um abraço? -Quem?
O Turco Farías.
-O Turco Farías. -Como ele está?
O que aconteceu com o Turco?
Como assim? Eles se odeiam.
Se odeiam?
Os dois jogavam de meio-campista.
É por isso? Por ciúmes?
Ele era meio de reserva. Jogava com aquela túnica.
Não consegue ver com o turbante.
Por que chamam ele de "Turco"?
Sei lá, cara.
Acabou, pessoal.
Nunca mais vou pilotar um trem na vida.
-Qual é... -Não, eu já avisei.
Vou me demitir.
Vou me demitir.
Calma, espere um tempo.
Está se sentindo assim agora. Aguente.
Não se trata de tempo. Gostaria que se tratasse.
Sabe o que eu sinto? Ódio.
É isso o que sinto. Ódio.
Ódio por causa do maldito garoto que estava no trilho.
Ódio por todos os malditos garotos que ficam nos trilhos
e acabaram com a minha vida. É isso o que eu sinto.
Por que não se acalma um pouco?
Me acalmar?
Nunca mais vou ficar calmo. Nunca mais.
Sabe por quê? Por causa desses desgraçados.
Sabe o que vou fazer? Não vou me demitir.
Vou voltar a trabalhar. Vou pedir o turno da noite.
-E quando os vir no trilho... -Pare...
-Vou passar por cima. -Calma.
Vou apagar a luz, não vou tocar buzina.
Vou atropelar todos eles.
-Pronto. -Acabou.
Não. Ele tem razão.
Vamos fazer um brinde.
Pelo Alfredo, pelo Topo Gomez e pelo Miguel.
E especialmente, por nós.
E que esses malditos que nos ferram vão para o inferno.
Alguém veio te ver.
-Quem? -Seu técnico.
Peça para ele ir embora.
Ele trouxe doces.
-Não me interessa. -Peque, campeão.
Não apareceu mais no clube. Vim ver como está.
Sua mãe disse que você está doente.
Este é o nosso jogador estrela, sabia?
Quando vi que não estava indo,
pensei que tinha ido para outro clube.
Quase tive um ataque.
Quer tomar alguma coisa? Um café?
Não, obrigado. Só vim dar um oi.
Já tenho que ir.
Vou deixar vocês sozinhos.
Vou à casa da Silvia, já venho.
-Até logo. -Tchau.
Olhe o que eu trouxe.
Vamos, coma.
Estou com dor de barriga.
Qual é, garoto? Olhe isto. É uma delícia.
Vamos, coma.
Vai me deixar comendo sozinho?
Está bem. Vamos falar como homens. O que você tem?
-Não tenho nada. -Mentira.
É claro que tem. Acha que sou bobo?
Não vou mais.
Aonde? Ao clube?
Está bem. Te disse alguma coisa?
Se está com medo, não serve.
Vou precisar de alguém mais corajoso.
Não estou com medo.
O importante é ficar de boca fechada.
Pensei que tivesse sido claro. O que eu te disse?
Não sei.
O Vincent deu uma de bom e ficou mais tempo nos trilhos.
Mas a culpa é sua.
Por que demorou tanto para pular?
A melhor coisa é ficar de boca fechada.
-Não conte para ninguém. -Eu não contei.
-Contou para alguém. Quem? -Para ninguém.
-Contou sim, pense. -Para ninguém.
Não vim aqui discutir com você.
Somos amigos, não é?
O importante é que isso fica entre nós. Ficou claro?
Não é para contar para a mãe, para o tio, para o amiguinho.
Para ninguém, entendeu?
Entendeu?
Está bem.
Vá ao clube quando quiser. As portas estão abertas.
Vou indo. Levo uma.
Tchau, Peque. Mande lembranças à sua mãe.
Pode beber hoje?
Sim. Mudei de horário.
O que você quer tomar?
O que você for tomar.
O que foi?
Não pode continuar se metendo nisso. É perigoso.
Já acabou. Já entreguei um artigo.
Um artigo tão leve que me dá nojo.
Pelo menos vão nos deixar em paz.
O que disse à sua irmã?
Nada.
Que encontrei o carro assim, mas não tinham roubado nada.
Mas ela não ficou tranquila, estava preocupada.
Meu pai não para de me ligar, então ela contou.
Disse que estava comigo?
É isso o que te preocupa?
Não.
Vai falar com o Malvino e conseguir uma reunião.
Você não disse que tinha terminado com isso?
Entreguei um artigo para que nos deixem em paz.
Mas não vou parar com isso.
Pedi uns dias de férias.
A única coisa que vou fazer é me dedicar a isto.
Não vou parar até saber quem são esses filhos da mãe.
Preciso falar com seus amigos o quanto antes.
Com o Romerito?
Sim. Com o outro também.
Não, o Malvino está muito mal.
Quantos mortos você tem?
Seis.
Alguma criança?
Não, graças a Deus.
Como convive com isso?
De dia é mais fácil. O problema é de noite.
Por que de noite? Sonha com eles?
Sonho sempre com o mesmo.
Pablo Muñoz.
Um rapaz de 22 anos.
Estudava Economia na Universidade de Morón.
Um dia, quando ia com meu trem à província, vi ele parado lá.
Na frente do cruzamento.
Algo nele chamou a minha atenção.
Geralmente, os suicidas fingem estar distraídos.
Deixam suas coisas ali do lado.
No último momento, pulam. Ou dão um passo à frente.
Quando voltei com o trem à capital, ele ainda estava lá.
Reconheci pela roupa.
Ou não tinha tido coragem...
ou estava me esperando.
Quando o trem estava a 50 metros, deu um passo.
E olhou para mim.
Bem nos olhos.
Não parecia assustado, nem estar com medo.
Parecia tranquilo.
Agora, cada vez que sonho com ele...
esse momento é diferente.
Confuso.
Me pergunto se o último olhar dele...
não quis me dizer outra coisa.
Assim.
Mais forte.
TRENS, MORTE E SUICÍDIO
-Ele chegou? -Não.
Ainda não sabemos a identidade do garoto morto?
Não dá para acreditar que não reclamaram o corpo.
-Meu pai sabe de alguma coisa? -Não.
Está bem.
Vero, não vamos falar do que aconteceu com o carro?
Quem te contou? Meu pai ou minha irmã?
Não importa. Por que não diz a verdade?
Foram dois caras. Bateram no Lucio e o ameaçaram.
Eu estou bem, mas eles deixaram bem claro.
Queriam que parasse de investigar.
-Fez a denúncia? -Não.
Fiz algo muito melhor. Dei o que eles queriam.
Entreguei o artigo. Assim, vão pensar que terminou.
Vero, pare de palhaçada. Deixe isto aqui.
Sei que você e meu pai pensam que estão me protegendo.
Mas não.
A única forma de me proteger é fazer o que você está fazendo.
Me ajudando.
O Lucio te disse algo, não é?
Me disse que está fazendo um artigo sobre os acidente.
Estava. Já terminei. Saiu hoje.
E então?
Às vezes temos que cumprir com o trabalho
e outras, com a gente.
Houve uma série de acidentes com crianças
que, pelo que investiguei, têm uma certa metodologia.
O único que se salvou desses acidentes
foi o garoto que você atropelou.
Um tal de Jonathan. Não aparece em lugar nenhum.
Não sei se quer contar algo sobre o que aconteceu.
O que puder.
Sei lá, eu estava no turno da noite.
Tem gente que não gosta do turno da noite.
Gosto porque escuto música, penso. Gosto de...
De repente, vi dois garotos nos trilhos. Eram dois.
Vi os dois, toquei a buzina.
Eles não se moveram, então acionei os freios.
Mas o trem não para rápido. É impossível.
Imaginei que ia atropelar, que eram dois suicidas.
E então, em um momento, um deles pulou.
Depois, o outro pulou.
E senti a pancada.
Depois de muitos anos dirigindo essas coisas,
você sabe de tudo.
Percebi que tinha acertado ele.
Quando terminou de parar, desci e fui atrás dele.
Estava no meio da noite.
Vi ele levantar mancando e entrar em um carro.
Desculpe, dentro de um carro?
Se levantou mancando e foi para um carro?
Sim, também achei estranho,
porque é como se estivessem esperando por ele.
Contou isso a alguém?
Sim, contei tudo para a polícia.
Não me deram bola.
Estava escuro, que talvez estivesse em choque.
Lembra de como era o carro?
Cinza.
Cinza. Mas era grande, pequeno? Duas portas, quatro portas?
Não, era cinza. Lembro que tinha calotas.
Calotas?
Sim, umas calotas tunadas. Vidro com película...
Muito tunado para um carro antigo. Não sei se entende.
Sim, perfeitamente.
CARRO CINZA + ACIDENTES TRÂNSITO
Me desculpe. Preciso ir à quadra 4, rua 39.
Aqui diz quadra 4.
Vá até onde diz La Paz e vire à esquerda.
Quem é essa?
Que linda.
É uma beleza.
Perdeu alguma coisa, gata?
-Que gostosa. -Venha aqui.
Aonde vai?
Não se assuste.
Deve ser da área.
Olhe isso.
Oi.
Posso ajudar?
Conheço ele porque vinha muito ao refeitório.
Estive na casa dele procurando a família,
mas não tinha ninguém.
Eles não moram mais lá. Se mudaram recentemente.
A casa ficou vazia e já tem gente nova.
-Oi, meninos. -Oi.
Estão brincando de figurinhas?
-Cartões. -Cartões?
Também brincam disso?
Esta é do Vincent, não é?
-Como? -É do Vincent.
Vincent?
Como ele te deu? Não empresta para ninguém.
Não sei. Pode ser. Onde a encontraram?
Quando foi a última vez que viu o seu filho?
Ele é assim.
Desaparece dois, três dias, uma semana. Depois aparece.
Carmen, talvez ele esteja metido em problemas agora.
Sim, como sempre. Não aguento mais, estou cansada.
Estou aqui com as crianças. Não posso ficar atrás dele.
Está bem, mas o Vincent pode ter sofrido um acidente.
Que acidente?
Desculpe, não posso continuar aqui, tenho coisas para fazer.
Se eu souber algo do Vincent, aviso vocês.
Com licença.
Talvez não seja o garoto.
Vamos, cara.
Está tudo bem. Vamos.
Vamos.
Só vai pegar a bola se ela for de mozzarella.
Qual é? Pare com isso.
Você é fominha.
Valrossa. E a jornalista?
Transou com ela?
Como poderia transar?
Se fizer, a mulher pendura ele no Obelisco.
Essas garotas são fáceis.
Se insistir um pouco, elas comem na sua mão.
No pinto, não na mão.
Mas é muito linda.
Eu não me importo se você transou ou não.
Calma, cara.
Era brincadeira, gordo.
Não quero ela andando por aqui, entendeu?
Levo quem eu quiser no meu trem.
Ou tenho que pedir permissão?
-Você se garante? -Quer ver?
-Não briguem. -Qual é?
-Pare, pare. -Calma.
Não dê bola. Calma.
Ele vai se meter em problemas. Lembrem disso.
-Chega, parem com isso. -Qual é?
Para que brigar?
Calma, cara.
O que você sabe?
Te disse que a garota ia dar para trás.
Me disseram que havia outro herói se metendo
onde não é chamado.
Valrossa? Fizemos uma visita.
Acho que ele não vai incomodar mais.
O Valrossa, não. Outro. Um advogado.
Sim, é claro. Estamos seguindo ele. Mas é um zero à esquerda.
Fiquem atentos. Não quero surpresas.
E a família do garoto? A última?
Não sabem nada. Ele ainda não foi identificado.
Já chequei. Está tudo sob controle.
Está bem, mas tome cuidado.
Quanto menos alvoroço, melhor.
Vou tentar falar com a Carmen e ver se ela diz alguma coisa.
Não posso prometer nada.
Tudo bem. Acho que cometi um erro.
Mas obrigada pela sua ajuda.
-Estamos em contato. -Está bem.
Se precisar de alguma coisa...
Posso ver a figurinha?
Sim.
Mataram ele, não é? Mataram o meu irmão?
É dele? Você reconhece?
-Sim. -Como você se chama?
Milagros. Mataram ou não?
Por que diz isso?
Porque o Vincent sempre se mete em problemas.
Problemas? Que tipo de problemas?
-De tudo. -Por exemplo?
Não sei. Um dia encontrei 500 pesos com ele.
Achei que ele tinha roubado e dei uns tapas nele.
Ele disse que não, que tinha ganhado honestamente...
competindo contra outros.
Competindo como?
Não sei. Foi isso que ele disse.
Além dos meninos da escola, com quem o seu irmão anda?
Não sei, ele anda o dia todo por aí.
-Joga futebol? -Sim.
De salão. Quer ser jogador profissional.
Em que clube? Sabe o nome?
CLUBE SOCIAL E ESPORTIVO ROCA JUNIORS
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