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QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE É COINCIDÊNCIA.
-Oi. -Tudo bem?
Você tinha razão.
Checaram todas as câmeras de segurança.
E finalmente acharam.
-O que foi? -Não foi nada.
A FRAGILIDADE DOS CORPOS
Desculpe, posso incomodar?
Estou procurando uma família que mora nesta casa.
Mas isso é terreno baldio.
Não sei, me deram este endereço.
Sempre foi terreno baldio.
Esse garoto, você o conhece?
Essa é sua forma de me agradecer pelos favores?
Está louca. Quanto custou?
O suficiente para te pedir outro favor.
Preciso que descubra o endereço deste telefone.
Acho que é da casa do garoto
que Carranza atropelou, Nahuel Suárez.
Nahuel Suárez...
O endereço não estava no processo?
Estava. Mas é falso.
É um terreno baldio.
Me dê algumas horas para ver o que posso fazer.
-Jonathan Cisneros. -Quem é Jonathan Cisneros?
É outro garoto.
O único dos sete atropelados que saiu ileso.
Não tem nada no processo.
Nem o nome do maquinista que pilotava o trem.
E você quer encontrá-lo.
-Quero tentar. -Me deixe ver.
Mas se não está no processo...
-O juiz foi Romanin. -Romanin?
Peça ao seu pai. Ele joga golfe com Romanin toda semana.
Eu sei.
Mas meu pai não anda de bicicleta.
E o capacete não pode ser devolvido.
Outra vez dois a zero?
Desde que torço pelo Chacarita, nunca ganharam nada.
O futebol é assim.
Às vezes ganham, às vezes perdem.
O que foi?
Tenho que me mudar.
Não posso continuar morando nessa porcaria de pensão.
Preciso de um lugar para levar minha filha.
Onde ela tenha seu quarto.
-Então se mude. -Não é tão fácil.
O preço de um apartamento de um quarto é impossível.
Dois meses adiantados. Um fiador que seja proprietário.
Enchem a paciência.
O fiador você já tem. Eu.
Eu agradeço, mas não tenho dinheiro.
Já decidi. Vou torcer pelo Chicago.
-Não pode torcer pelo Chicago. -Por quê?
Porque você torce pelo Chacarita.
Não pode querer mudar de time se eles vão mal.
É como a vida.
Você nasceu chinês, vai morrer chinês.
Nasceu do Chacarita, vai morrer do Chacarita.
Posso me nacionalizar em outro país.
Cale a boca, por favor.
Entre.
Vim dar um oi. Assim você não reclama depois.
Estamos organizando um jantar para o dia 23.
Para o dia 23? Isso é necessário, pai?
Não, mas combinei com suas irmãs e vamos fazer isso.
E por que não festejamos o aniversário,
em vez do dia da morte dela?
Não nos reunimos para festejar a morte dela.
Nos reunimos para nos lembrarmos da morte da sua mãe.
Se não quiser vir, não tem nenhuma obrigação.
Não venha.
Tudo bem. Se todos concordam, vamos nos reunir.
Pode ser lá em casa ou na casa da Leti.
Ou no meu apartamento.
Não é tão grande, mas nós não somos muitos.
Certo, no seu apartamento. Sim.
Eu levo a comida. Você faz a sobremesa?
Não precisa. Eu cuido de tudo.
Fazer knishes de batata não é nenhuma ciência.
Diga, onde conseguiu o dinheiro?
Não posso te dizer.
Eu não conto a ninguém.
Mentira! Você abre a boca.
Você roubou.
Não roubei. Se eu quiser, posso ganhar mais.
Conte, eu também quero ganhar dinheiro.
Quero comprar chuteiras novas.
As falsas custam mil pesos.
As originais custam uns 2500.
De onde vai tirar?
Você se acha muito esperto.
Aqui está.
Mais do que um coma, ele está em estado vegetativo.
-Qual é a diferença? -Isso importa?
Desculpe. Dois ônibus bateram,
todos os feridos vêm para cá.
Em dois minutos isso vai estar um caos.
Tudo bem.
Minha irmã me disse que foi um acidente de trem.
De onde veio essa informação?
Não me lembro. Acho que um parente me disse.
-Quem? -O pai, ou o tio.
Ultimamente, só a mãe vem.
Começou a festa.
-Muito obrigada. -De nada.
Consegui o endereço do telefone que me pediu.
É em uma favela.
Los Piletones, em Soldati.
Certo, me mande por aqui.
VOCÊ ESTÁ POR AÍ?
Bloco quatro, casa 39. Favela Los Piletones.
E do outro garoto, o Jonathan, soube algo?
-Como vai? -Bem.
Pode me mostrar um rascunho, assim vejo o que está fazendo?
Na verdade, não tenho nenhum rascunho.
Bom, então me conte.
Agora?
Ou podemos nos ver mais tarde.
Tomamos um café ou vamos jantar.
Me diga, o que acha?
Me deixe organizar algumas coisas e eu te digo.
-Certo. Me avise. -Tudo bem.
Está no trem? Preciso falar com você com urgência.
Me ligue quando puder.
Essa não, droga!
MANDEI POR ENGANO. ME DESCULPE.
Que idiota.
Sabia que o zoológico de Cutini ficava aqui?
Era uma mina de ouro.
Até um urso arrancar o braço de um menino
que quis dar comida a ele.
Passaram quase trinta anos.
Tem gente que diz que ainda vê
animais soltos por aí.
Veados, guanacos... Esses bichos malditos.
Você também comprou esse?
Quem é o maquinista do vídeo?
Lucio Valrossa.
E a garota? É gostosa, não é?
Veronica Rosenthal.
Rosenthal...
Judia, jornalista.
O sobrenome soa familiar.
O pai dela é advogado.
-O que faremos? -Nada.
-Nos mantemos alertas. -Nada?
Por enquanto, nada.
O que houve com o urso que comeu o braço do garoto?
-Virou um tapete. -Claro.
Não, claro não. A culpa é do idiota do Cutini.
É um urso. Se der comida, ele come sua mão.
Certo. Perfeito. Muito obrigado. Tchau.
E? Alugou alguma coisa?
Impossível! Pedem uma fortuna.
E os donos não querem alugar se eu não tiver contracheque.
Isso se resolve com dinheiro.
Não tenho dinheiro.
-Poderia ter. -Como?
Como? Tem um bom olho. Sabe do que eu preciso.
Veja como o Peque funcionou.
Mas com o que me pagou pelo Peque
eu não pago nem o primeiro mês adiantado.
Consiga outro como o Peque e eu te dou uma mão.
E o seu pai, como está?
Quer mesmo falar sobre o meu pai? Agora?
Gosto dele, quero saber como ele está.
-E então? -Bem, ele está bem.
Ele virá à minha casa esta semana, com minhas irmãs.
O que aconteceu?
O aniversário de morte da minha mãe.
-Já faz quanto tempo? -Cinco anos.
-Vai ter que tomar cuidado. -Com o quê?
Com aquele painel. Seu pai vai se preocupar.
Ele vai pensar que você está obcecada.
Bom, você está obcecada. E bastante.
Oi, Vero, como vai? Onde está?
É quinta-feira à noite. Deve estar no bar da Paula.
Tenho novas informações para te dar.
Diga como quer fazer.
Descobri algo sobre esse menino, Jonathan, o que sobreviveu.
Não muito, mas falei com Romanin.
Ele me deu o nome do maquinista daquele dia.
Se chama Carlos Romero. Consegui uma foto.
O que foi?
Tenho um amigo que trabalha no Tiro Federal.
-Liguei perguntando da arma. -Que arma?
-Veronica. -Sim, tudo bem.
Fiquei inquieto sobre isso. Liguei para perguntar.
Sabia que eles têm registros de todas as armas usadas lá?
Sim. E daí?
"E daí"?
O que é isso?
É um registro. Com datas e horários.
Valrossa foi praticar tiro várias vezes
com a arma dele.
Ele me disse que nunca praticou.
E que nem se lembrava que tinha essa arma.
Deve ter uma memória ruim. Ele foi bastante.
Oi, Rafa!
-Tudo bem, cara? -Tudo bem e você?
-Se lembra do Pizza? -Oi, Pizza.
-Tudo bem? -Sim.
Esperamos você no bar no outro dia, o que houve?
Eu disse que seria difícil ir.
Não tem problema. Sério.
Hoje é aniversário da irmã dele.
-Por que não vem? -Sim, venha.
-Acho que não vou poder ir. -Venha!
A gente não vai roubar você. Estamos te convidando.
-Está bem, eu passo rápido. -Isso!
Leve cerveja, vinho. Algo para beber.
Mas venha, senão vamos te buscar.
Certo, a gente se vê.
Como vai?
Encontrei com a Sandra, a mulher do Carranza.
Ela me disse que nunca falou com você.
Mas você me disse outra coisa.
Não quis incomodá-la. Achei um momento ruim.
Perfeito, devia ter dito isso.
Disse que falou com ela, que ela não queria me ver.
Também soube que você foi
ao Tiro Federal várias vezes, para praticar.
Com uma arma que disse que nem se lembrava que tinha.
Você é casado? Tem filhos?
Isso é verdade?
Sou casado, tenho filhos
e fui ao Tiro Federal.
Para quê?
Para não pensar. Você se concentra, mira e atira.
É uma atividade que me acalma.
Pescaria e yoga também acalmam.
Não dar tiros.
Por que você mentiu para mim?
Porque você é jornalista.
Eu mal te conheço.
Você deu a arma a ele?
-Gosta de repetir perguntas. -Você deu?
Já disse que não.
Nos últimos cinco anos,
houve sete acidentes com crianças.
Só encontrei seis casos, o último se salvou.
O maquinista naquele dia era Carlos Romero.
Sabe quem é? Conhece ele?
Quero me encontrar com ele.
Quero que ele me conte o que aconteceu.
-Você já sabe o que aconteceu. -Sim, mas quero saber mais.
Parece que não entende algo. Há crianças no meio disso
e você tem filhos, Lúcio. Não acredito que não se importa.
-Do que você está rindo? -Acho você engraçada.
-Sim? -Que crianças?
Tudo que você se importa é com você mesma.
Você é um imbecil.
Vou indo. Meu expediente já vai começar.
Alô?
Como vai?
Mal.
Não gostei de como terminamos hoje.
Nem eu.
Mas tenho alguma razão, não é?
Alguma.
O que foi?
Nada.
Me incomoda que me conheça tanto.
Que me decifre rápido.
Me faz sentir uma pessoa péssima.
É porque acho que está fazendo isso por você.
E está tudo bem. Sua investigação é valiosa.
Você não disse isso hoje.
Estava um pouco irritado.
Irritado?
Irritado como?
Irritado.
Venha aqui e te mostro.
Onde?
Aqui na cabine.
Você ficou na vontade. Naquela noite.
Adivinhe o que estou vestindo.
Um shorts?
E embaixo?
Nada.
Você é um filho da mãe.
Adivinhe o que estou fazendo.
Está se masturbando.
Está com pressa?
Está chegando à estação. Viu que eu também te conheço?
Sim?
O que eu estou pensando?
Que eu estou te beijando.
E o que você está fazendo?
O que quer que eu faça?
Ponha sua mão embaixo do meu shorts.
Aperte forte.
Assim está bom?
Sim. Agora me morda.
Onde?
Morda meu pescoço.
Estou te mordendo assim, está bom?
Agora os seios.
Vou morder seu mamilo, gostou?
Continue descendo.
Desço. Gosta assim?
Penetre, Lúcio.
Penetre, Lúcio, transe comigo!
Gosta assim? Mais forte?
Sim.
Droga!
O que aconteceu?
Tenho que desligar. É o porteiro.
Me ligue amanhã, certo?
Tchau.
Falei com a Marisa, ela me disse que foi vê-la.
Sim, ela é um amor. Me ajudou muito.
Sobre os trens?
-Sim. -O Federico me contou.
Sim, é por isso.
Quanto tempo você tem para entregar uma matéria?
Eles te dão um prazo?
Às vezes. Depende um pouco.
Algumas matérias levam mais tempo do que outras.
Deve haver matérias mais difíceis do que outras.
Sim, e jornalistas mais dedicados do que outros.
Por isso tudo depende.
-Sobre o que é essa matéria? -Ela acabou de dizer.
Algo dos trens. Mas o que, especificamente?
Prefiro não falar muito.
Crianças atropeladas por trens.
-Pai, atenção, o garoto! -Bom, desculpe.
Não é só isso. Tem muito mais.
O que mais?
Não sei. Mas tem mais coisas, pai.
Se não sabe, até agora é sobre
crianças atropeladas por trens.
Já terminei. Posso levantar?
Não quer mais?
Tem certeza? Pode ir, vá.
Trouxe algo para depois.
O que te incomoda?
Eu? Nada. Por quê?
Não parece.
Desculpe, falei algo errado?
Não é o que você fala, é o tom que usa.
-Que tom, filha? -Esse seu maldito tom.
Veronica, está de brincadeira?
Tia, quem é esse?
É um amigo, meu amor.
Olhe, pai. É do Rayo Vallecano?
Deixa eu ver.
Sim, exatamente. Rayo Vallecano.
O time espanhol. Mas olhe bem.
O escudo diz Rayito Vallecano.
Posso ver?
Rayito Vallecano...
Se lembra de como ele jogava?
Sim, ele devia estar na primeira divisão.
Assim estaríamos ricos.
Se lembra daquele jogo?
-Você se lembra? -Acho que estava lá, sim.
Parou a bola no meio de campo.
E chutou para o gol. Pena que gosta tanto de briga.
Senão, estaríamos na Europa,
não tomando a que você comprou! Qual comprou?
A de sempre.
Eu disse para não ir mais lá.
Aí está.
Garotas, deixem para mim.
Há quanto tempo está limpo?
Uns sete meses.
Deve estar sendo difícil, não?
O que está fazendo, imbecil?
Fique quieto, idiota. Vou te bater.
Seu imbecil!
Você está olhando o quê?
Vai se danar!
Sim, Nahuel. Lembro perfeitamente.
Um bom menino. Um pouco perna de pau.
Com um bom coração. Está por aqui.
Sabe o que aconteceu com ele?
Não, não o vejo há muito tempo.
Há mais de um ano, desde que parou de vir.
O que aconteceu com ele?
Um trem o atropelou. Ele faleceu.
Aqui está ele.
Por que ele parou de vir?
Ele dava muitos carrinhos.
Era expulso de todos os jogos.
E a categoria dele tinha muitos meninos.
Ele quase nunca jogava.
Soube que ele morava na favela, em Los Piletones.
Isso eu desconheço.
Nós preenchíamos uma ficha quando estavam jogando.
Mas quando param de jogar, nós rasgamos.
Ele pode ter ido a outro time?
Sim, pode ser, esta região é cheia de times de futebol.
Pode ser.
O caso dele foi um acidente?
Peque, venha.
Empurre ele para que fiquem iguais.
O novato.
Parem, parem!
Vamos jogar, senhoritas.
Tome, 5 mil pesos.
Muito obrigado.
Fez bem seu trabalho. Eu disse que ia ajudar.
Tenho o bastante para pagar a entrada.
Depois dê um refrigerante ao novato, por conta da casa.
-Obrigado, Rivero. -O que foi?
Quero saber quando vão competir outra vez.
-Já gastou o dinheiro? -É problema meu.
Eu não marco as datas das competições.
Mas fique tranquilo, será em breve.
Vou competir contra o Cholito outra vez?
Não, ele perdeu. Perdeu, saiu. É como um gol de ouro.
Se perder, está fora.
-Não vou perder. -É melhor.
Quero mais dinheiro. Não a mixaria do outro dia.
Espere aí!
Pela quantidade de gente, pelo menos 2 mil.
Sabe o que está dizendo?
Sim, senão não vou competir.
Vou ver o que posso fazer. Vai treinar.
-Pegue ela! -Não! Parem!
-Me dê a bolsa! -Não! Me soltem!
Droga!
Você é um idiota! Não se esqueça dos pneus.
Que pneus?
Como que pneus? Está brincando?
Passei pela oficina ontem e estavam jogados lá.
Se o cara comprar outro cachorro, já era.
Tanto faz. Tenho outra competição.
-Quando? -Não sei.
Mas tenho outra. Porque ganhei.
E se ganhar essa, fico com 2 mil.
-De futebol? -De valentia.
Mas não posso contar mais nada.
Você compete contra outro?
Claro. Contra o Cholito.
O garoto que conheceu no time.
Ele perdeu.
Então ele não pode mais jogar.
Está fora.
E por que não compete contra mim?
Quem quer que ganhe, a gente divide o dinheiro.
-É negócio, não é? -Pode ser.
Claro.
Me deixe competir primeiro, depois vemos.
Certo.
Me dê.
Vou e volto. Não é tão longe.
Não é tão longe? É no fim do mundo.
Pode me passar seu celular? Roubaram o outro.
O que aconteceu?
Nada. Uma longa história.
Vou te passar por Whatsapp.
-Não fume no carro. -Certo, obrigada.
Estique mais.
Claro, para não ficar amassado.
Assim não preciso passar tanto. Prendeu direito?
-Sim, prendi. -E agora este.
-Aqui? -Sim, mas bem esticada.
-Perfeito. -Oi.
-Trouxe isso para você. -Obrigada, pai.
-Como vai? -Bem, e você?
Pode sair um pouco, assim falo com sua mãe?
O que está fazendo aqui? O que você quer?
Vou me mudar.
Para um apartamento aqui perto.
É pequeno, quitinete.
Mas dá para dividir e pôr uma cama para a Martina.
Rafael, por que faz isso comigo?
Não fiz nada. Tudo que quero é estar com a Martina.
Que ela possa me visitar, que tenha um quarto.
Eu não quero brigar.
Eu te conheço, sei como você é, e você não vai parar.
Tudo bem, se mude. Vá.
Faça um quarto para Martina. Faça o que quiser.
Mas escute. Eu vou estar te vigiando.
E na primeira pisada de bola, na primeira,
juro pela minha vida e pela dela que nunca mais a verá.
-Obrigado. -Vai se danar.
Seu pai só trouxe um?
Oi, Peque, tudo bem?
O que está fazendo aqui? O Rivero te mandou?
-Ele é o meu pai. -Sou o pai da Martina.
De onde se conhecem?
Peque é um dos zagueiros astros do time.
Onde eu trabalho.
Sim, seu pai me levou.
Eu o vi jogando no parque.
E o chamei para um teste.
Tenho que ir, filha.
Vá para dentro. Sua mãe está te procurando.
-Vou te ver de novo? -Sim.
-Tchau, pai, eu te amo. -Eu também.
Vejo você amanhã. Tchau.
-Pergunte a ele. -O quê?
Se posso competir contra você.
Não sei se ele sabe.
Como não? Claro que sabe.
Corso?
Quem procura?
Meu nome é Veronica Rosenthal.
Me disseram na delegacia que podia encontrá-lo aqui.
Jornalista.
Sim, como sabe?
Trabalho na Nosso Tempo.
-Um jornal? -Não, uma revista.
Não conheço.
Minha mãe era fã de palavras cruzadas. Fazíamos juntas.
-Podemos conversar? -Sobre o quê?
Sobre Alberto Lete.
Quem é ele?
Você sabe quem ele é.
Eu era Sargento naquela época.
Iam me promover a oficial dele.
Um dia, recebemos uma ligação
de que havia um garoto nos trilhos da estação.
Quando fui, estava lá. Parecia morto.
Mas não estava. Ele respirava.
Chamei a ambulância.
Foi levado ao Hospital das Clínicas.
Mas o relatório diz que foi atropelado por um carro.
-Que ele estava bêbado. -Não no meu relatório.
Alguém o mudou? Quem?
Não sei.
Quando quis saber, atiraram na minha casa.
Imagine, eu que sou policial.
Era algo muito grande.
Eu já estava velho para brigar por isso.
Pedi dispensa e me mudei para cá.
Mas nunca esqueceu.
Infelizmente, não.
Olhe, não sei o que você quer saber.
Mas tome cuidado.
Também não sei o que esse garoto, Lete, sabe.
Mas tente não acabar como ele.
-Por onde posso continuar? -Pergunta para mim?
Eu não sei. Investigue o distrito.
Nada é aprovado sem a aprovação deles.
Quem comanda? Um delegado?
Às vezes. Em outras, não.
Deve ser a mesma pessoa que estava na sua época.
-Ou não. -E se for?
Dizem que o cara é rico.
Que vem de Santa Rosa, La Pampa.
Gerencia alguns cassinos e jogos clandestinos.
Você nunca vê o rosto desses caras.
Não. Até alguém revelar.
Peque? Venha.
É hoje. Pode ir?
Claro.
-No mesmo lugar da outra vez? -No mesmo lugar.
Contra quem?
Não gosto de dar os nomes. Mas vou te dizer.
Vincent.
Talvez o conheça, é de outra categoria.
Mais novo ou mais velho?
Um ou dois anos mais novo.
Mas nem se nota, ele é alto.
-É campeão? -Claro, como você.
E o dinheiro?
Calma. Posso não conseguir 2 mil, mas consigo mil.
-Se você ganhar, claro. -Eu vou ganhar.
Agora vai.
-Peque vai muito bem. -Que bom, fico feliz.
Fala pouco, mas se impõe.
Como ele se comporta aqui no clube? Bem?
Bem, ele tem garra.
Minha filha disse que ele está feliz.
Como sua filha?
Eles moram na mesma pensão.
Por quê? Algum problema?
Nada.
Alô?
Oi, onde está?
Longe. Vai trabalhar esta noite?
Não, tenho folga. Gostaria de te ver.
Posso chegar à capital em uma hora.
Onde nos encontramos?
Na minha casa. Passo o endereço por mensagem.
-Certo, a gente se vê. -Tchau.
Há quanto tempo não coleciono essas bobagens.
-São do quê? -Da Copa de 78.
-Posso ver? -Não, eram do meu pai.
-É a sua mãe? -Sim.
Morreu há cinco anos. Câncer de pulmão.
Sabia que nossos sobrenomes significam a mesma coisa?
Valrossa e Rosenthal.
Os dois significam "vale de rosas".
É um amigo. Fique aqui, está bem?
O que eu faço? Entro no armário?
Não, bobo. Fique quieto.
Se olhar, dentro tem uns números que não gostei.
Como vamos continuar?
Faça a ligação.
Mas ajam com cuidado.
-Um problema. -Aconteceu alguma coisa?
Pensei em marcar os endereços dos sete garotos.
Todos os acidentes foram na região metropolitana.
Mas eles moravam aqui na cidade.
Exato. Eram quase vizinhos.
Soldati. O que é isso?
-Villa Riachuelo. -Lugano, Piedrabuena.
Lugano de novo.
-São de qual distrito? -Acho que é o Distrito Oito.
Distrito Oito. E Los Piletones?
Distrito... Oito.
Está com alguém aqui? Eu vou embora.
Não, não vá embora.
Acabaram de avisar que um colega atropelou outro garoto.
Abra a porta, por favor.
Droga! Abra, garota!
Temos um trabalho.
Não se preocupe.
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