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A SOLUÇÃO FINAL PARTE 2
Narração
Himmler pediu para assistir a um fuzilamento.
Numa inspecção do centro de operações das SS em Minsk,
cem presos foram escolhidos para uma demonstração.
Wolff, na altura general e contacto de Himmler no quartel de Hitler,
era um dos inspectores.
Tanto quanto me lembro, foi no fim de Agosto.
Passavam dois meses do início da campanha russa
quando Hitler me mandou acompanhar Himmler
numa viagem aos territórios ocupados
em Minsk, na Rússia.
Fiz isso,
e durante a viagem, e ao contrário das minhas expectativas
ou das informações que tínhamos,
fui forçado por Himmler a assistir a um fuzilamento.
Ele disse: "Tem sorte por estar no círculo chegado,
"ou seja, está presente em todas as refeições.
"Está nas reuniões de planeamento militar,
Também tem de saber o que esperamos das nossas tropas."
Tinham escavado uma vala comum.
Eles tinham de saltar para lá e ficar de barriga para baixo.
Por vezes, quando uma ou duas filas já tinham sido fuziladas,
eles tinham de ficar em cima das pessoas que estavam mortas,
e eram fuzilados à beira da vala.
Himmler nunca vira uma pessoa morta.
Curioso como era, avançou até à beira da vala comum,
uma espécie de buraco triangular
e olhou lá para dentro.
Enquanto olhava,
Himmler teve o azar merecido
de levar com miolos no casaco
das pessoas que tinham sido atingidas na cabeça.
Acho que também foi parar à cara dele.
Ele ficou verde e pálido.
Não estava enjoado,
mas estava maldisposto e virou-se e balançou.
Depois, tive de avançar para o agarrar
e levei-o para longe da vala.
No fim do fuzilamento,
Himmler reuniu o esquadrão de fuzilamento à volta dele,
e estava de pé no carro dele,
para estar mais alto e ver a companhia toda.
Ele fez um discurso.
Tinha visto como era difícil a tarefa que tinham de desempenhar
pela Alemanha nos territórios ocupados.
Apesar de ser tudo horrível,
até para ele como mero espectador,
como devia ser ainda pior para eles que tinham de o desempenhar.
Ele não via outra solução.
Ele tinha de ser forte e decidido.
Não os podia libertar do serviço, não os podia dispensar.
Nos interesses do Reich, neste Reich de cem anos,
na primeira guerra decisiva após a tomada de poder,
eles tinham de cumprir a missão deles,
apesar de parecer difícil.
Ele apelou ao sentido de patriotismo deles,
e à prontidão em fazer sacrifícios.
Depois, foi-se embora.
Deixou esta unidade policial a pensar no seu próprio futuro,
a ver se e até que ponto conseguiam aguentar isto.
Porque para alguns era um choque que durou a vida toda.
O esforço psicológico de fuzilar pessoas indefesas todos os dias,
teve o seu efeito até em SS com muita experiência.
Mas sabiam que se falhassem, também seriam fuzilados.
Por isso, anestesiavam-se com álcool
ou ajustavam-se, descobrindo um prazer perverso na tarefa.
Tiravam fotografias como se fossem caçadores com as presas.
Descansavam, gozando de bons salários e de segurança
e tiravam licenças prolongadas.
Circulavam tantas fotos, que foram proibidas,
vistas como uma subversão da decência e da disciplina.
Himmler precisava de um modo mais limpo e impessoal de matar.
Lembrou-se da ordem de eutanásia de Hitler.
Desde 1939, 50 mil deficientes mentais e loucos foram mortos,
purificando a raça de genes fracos.
As vítimas foram levadas para sítios como o Instituto Hadamar.
Eram eliminadas em câmaras de gás feitas para a ocasião
disfarçadas de chuveiros para diminuir as suspeitas.
Este sistema podia ser desenvolvido para tratar dos judeus.
O resultado final foi a Câmara de Gás e Crematório de Auschwitz,
uma unidade feita para eliminar 2 mil corpos num turno de 12 horas.
Uma chaminé alta que escoava o fumo de cinco fornalhas,
feitas à medida pela empresa Topf and Company de Erfurt.
A descrição realçava o uso da gordura corporal como combustível.
O equipamento para cadáveres, as peças de metal,
as portas à prova de gás com isolamento de borracha
e uma escotilha de observação com vidros duplos, tipo 100/192,
foram feitas pela Empresa de Armamento Alemã.
O arquitecto foi o Dr. Heinz Kammler,
do gabinete das SS de Economia e Administração.
O agente mortífero era um pesticida comercial,
Zyklon-B, fornecido pela empresa alemã de Combate aos Vermes.
As latas continham bolinhas
que colocadas numa grelha na "Cave dos Cadáveres"
libertavam cianeto de hidrogénio, ou ácido prússico.
Desde o início da guerra, campos de concentração foram construídos
à imagem de Dachau por toda a Europa ocupada.
No seu auge, Himmler controlava 20 campos de concentração
e 900 campos de trabalhos.
Faziam parte do aparelho para dominar os povos conquistados.
Eram geridos pelas SS e rodeados de segredo e receio.
Tudo o que ele precisava para um programa de homicídio em massa.
No Leste, onde já viviam as maiores concentrações de judeus,
foram construídos novos campos e os antigos melhorados
para se tornarem em fábricas de extermínio.
Os judeus em condições podiam trabalhar antes de morrerem.
Os campos ficavam perto das vias-férreas.
O maior complexo de todos
foi construído na cidade industrial de Oswencim, Auschwitz,
na parte da Polónia que estava sob controlo alemão.
Foi escolhida por estar na rota entre Cracóvia e Viena.
"O trabalho liberta",
dizia o velho lema de Dachau que foi afixado à entrada.
O comandante do campo era um major das SS, treinado em Dachau,
Rudolf Hoss.
O pai queria que ele fosse padre,
mas ele entrara para o partido nazi e passou logo para as SS.
Quando Himmler mandou criar o "maior centro de extermínio"
ele não perguntou nada.
Levou a família e filhos para Auschwitz e fez o seu dever.
3 mil SS, mal preparados para a frente de combate,
foram empregados como guardas.
Himmler visitou duas vezes Auschwitz para acelerar tudo.
Hoss queixou-se da entrega tardia de materiais
e da má qualidade dos empregados.
Mais uma vez, o problema era a discórdia entre prioridades.
O que era mais importante? Matar os judeus ou ganhar a guerra?
A "Solução Final" era uma tarefa tão grande como uma operação.
O sistema do campo tinha de ser independente ao máximo.
A maioria do trabalho era feito por prisioneiros.
Quanto à falta de guardas,
Himmler disse rispidamente a Hoss: "Arranje mais cães. "
Himmler estava ansioso por ver a nova fábrica de mortes.
Seriam seis crematórios afastados dos três campos principais.
Seriam disfarçados em bosques
ou escondidos dos campos vizinhos por árvores.
Mas também estes estavam atrasados,
devido à entrega tardia dos materiais.
Contudo, Hoss tinha feito experiências com o Zyklon-B
nos edifícios existentes
e treinara homens para queimarem corpos em valas comuns.
Apesar de Himmler não poder ver o novo aparelho a funcionar,
viu uma demonstração do novo método de homicídio.
Hoss reparou que ele parecia indiferente.
Entretanto,
Heydrich, como chefe do serviço de segurança de Himmler,
teria como missão planear a ida dos judeus para as câmaras de gás.
Esta era a sua prioridade enquanto chefe nazi da Checoslováquia.
A sua tarefa na "Solução Final" dependia da colaboração de todos:
Polícia, Ministério dos Negócios Estrangeiros,
SS, autoridades locais, e controlar uma dúzia de países,
para os milhões de judeus serem levados ordeiramente
e transportados pela Europa
para chegarem a tempo aos centros de matança.
Em Janeiro de 1942, Heydrich convocou uma conferência
de representantes dos ministérios em Wannsee, perto de Berlim.
Fora encarregado de preparar a "Solução Final"
do problema dos judeus na Europa.
Todas as agências centrais deviam reunir-se
para terem uma única linha de acção.
Ele delineou o novo plano.
O número de judeus em cada país fora calculado.
A Europa seria varrida de Oeste para Leste.
O disfarce a usar
seria os judeus serem recolocados para trabalhar no Leste.
O total de judeus a eliminar ultrapassava os 11 milhões.
O administrador permanente do plano era Adolf Eichman.
Ele guardava as actas.
Eichman disse que as opiniões contrárias foram convencidas.
Serviu-se conhaque.
Um filme, "Der Ewige Jude" (O Eterno Judeu),
foi distribuído em todas as cidades da Europa ocupada
onde, até então, os judeus tinham sido deixados em paz.
Só havia uma preocupação:
e se os não-judeus tivessem pena dos vizinhos judeus
e tentassem impedir a deportação deles?
A propaganda podia resolver isso.
Como ratazanas, aparecem e trazem a destruição consigo.
Destroem deuses humanos e bens.
Desta maneira, espalham doenças, peste, lepra, tifo, cólera,
prostituição e muitas outras.
São manhosos, cobardes e bárbaros
e costumam usar longos cachecóis.
Representam os animais, o elemento responsável pela destruição.
Nada menos que o judeu entre as pessoas.
"Der Ewige Jude" dizia que o judeu ocidental era um verme,
um parasita perigoso.
Era só a roupa ocidental que o fazia parecer diferente.
Agora veste roupas ocidentais
e está pronto para se introduzir na civilização ocidental.
É claro que estes judeus do gueto
não se conseguem mexer bem na roupa limpa e ocidental.
Em 1942, os judeus em países ocidentais
foram ordenados a usar uma estrela amarela identificativa.
Os nazis precisavam de afastar os judeus dos seus vizinhos.
Assim, os não-judeus não iriam interferir tanto
quando os judeus fossem deportados.
Na Holanda, ameaçaram com seis meses de prisão
qualquer judeu que não usasse a estrela dentro de cinco dias.
Para acelerar tudo, o Conselho Judaico distribuiu estrelas.
Iria tornar-se um padrão familiar.
Ao tentar salvar a comunidade das ameaças alemãs, os Conselhos
aplicaram eles mesmos as medidas nazis anti-semíticas.
Aumentava a pressão para os judeus irem "trabalhar para Leste".
Os alemães fizeram reféns.
O Conselho tinha de garantir que toda a gente se apresentava.
Na Dinamarca, a Resistência e o povo
fizeram operações de salvamento.
Na Itália e na Bulgária, os oficiais prevaricavam.
Mas em quase todo o lado, a oposição era pouca
quando os judeus foram obrigados a apresentar-se para a deportação.
Ou as pessoas não se importavam
ou estavam intimidados com a Gestapo e as SS.
"Todos os caminhos levam a Westerbork",
dizia o representante de Eichman em Amesterdão aos judeus.
Cada país na Europa Ocidental, tinha um Westerbork,
um campo de trânsito, gerido como os campos de concentração.
Os comboios eram recebidos pela FK, Flying Columns,
grupos de residentes cuja missão era dividir as bagagens.
Em Westerbork, como no resto do sistema,
as SS guardavam, supervisionavam e davam ordens,
mas os residentes eram responsáveis pela rotina diária.
Westerbork tinha uma polícia judaica e um Conselho Judaico,
De novo, judeus patriotas acharam melhor acatar responsabilidades
do que deixar toda a gente à mercê das SS.
Em dois anos e meio, cem mil pessoas passaram por Westerbork,
supervisionadas por um número mínimo de alemães.
As entradas eram registadas no Registo Central
por funcionários judaicos. Depois o Gabinete de Trabalho,
também gerido por residentes, distribuía as tarefas.
Podiam passar-se dias ou meses
antes de serem enviados para os novos territórios a Leste.
O trabalho principal em Westerbork era dar novo uso ao metal
de baterias eléctricas antigas.
Apesar das condições nos campos de trânsito,
as pessoas receavam o dia em que seriam afastados da família.
Receavam o destino desconhecido de onde ninguém regressaria.
Ficámos juntos durante quatro semanas
e depois os meus pais e o meu irmão mais novo
tiveram de nos deixar no transporte.
Devia ter ido com eles, mas não me deixaram, porque tinha...
Como se diz? Escarlatina. Tinha escarlatina.
Era uma das coisas perversas dos alemães...
Quando se estava doente, não se podia ir para...
a câmara de gás. Não. Primeiro, tínhamos de melhorar.
Davam-nos a ilusão de que não acontecera nada,
porque não nos deixam viajar quando estamos doentes.
Tive de...
O meu irmão veio despedir-se de mim. Olhei para ele e pensei:
"Por amor de Deus, ele não pode ir com estas roupas."
Ele era baixinho.
Dei-lhe um dos meus casacos e pensei:
"Fecha-se ao contrário, mas não faz mal."
Dei-lhe um par de botas
e olhei para ele quando se afastava do...
barracão
e de costas, ele era parecido comigo.
Tive a certeza de que nunca mais o ia ver.
Tive a certeza.
O dia em que se partia de Westerbork era às terças-feiras.
Mandaram os líderes do campo fazer uma lista de nomes
para perfazer o total que os alemães precisavam,
normalmente, cerca de mil.
Às 7h, os que foram seleccionados para o transporte,
reuniam-se em silêncio sob a supervisão das SS e FK.
Se faltava alguém,
eram escolhidas 50 pessoas ao acaso e metidas nos comboios.
A viagem durava quatro semanas ou mais.
Em cada vagão, alguma palha e um balde para as necessidades.
Às 11h em ponto, o apito soava
e o comboio partia.
Não havia obstáculos, greves,
sabotagens ou bombardeamento dos Aliados.
Como disse Eichman:
"Os comboios andavam que era uma beleza. "
Por toda a Europa, as SS e a Polícia reuniam os judeus.
Eles sabiam que a violência era a alternativa a uma entrega calma
e que se fossem encontrados escondidos, eram castigados
e também a prisão e a morte certa a quem os ajudasse.
Muitos judeus achavam que era melhor,
mais honroso apresentarem-se quando a vez deles chegasse.
Na Conferência de Wannsee, o representante do governo polaco,
disse que só tinha um favor a pedir.
Que a questão judaica no território dele
fosse resolvida o mais depressa possível.
Havia 2,5 milhões de pessoas nos guetos polacos.
As rações eram tão pequenas que havia gente a morrer à fome.
O Conselho Judaico conseguiu organizar sopas dos pobres,
mas continuavam a morrer milhares.
Cadáveres nus,
pois os outros tiravam-lhes a roupa para se aquecerem
ficavam na rua à espera do carro dos mortos.
As rações foram ainda mais reduzidas.
Não haveria problema em encontrar voluntários para a recolocação,
quando fosse altura de esvaziar os guetos.
Já não tínhamos mais força para sofrer.
Não podíamos continuar assim. Onde quer que fosse,
imaginávamos que não podia ser pior.
Não podia ser pior.
Todos os voluntários, que queriam sair de livre vontade do gueto,
para onde quer que fosse, recebiam pão.
Também recebiam alguma margarina e bebida
e também doce.
Decidimos entregar-nos de livre vontade.
Levados pela promessa de comida,
as pessoas lutavam por uma oportunidade para sair.
Até pagavam o bilhete de comboio.
Só do gueto de Varsóvia em dez semanas, de Julho a Outubro de 42,
partiram 310 mil pessoas.
Subiram para comboios vigiados e selados.
Seis mil pessoas enchiam um comboio.
Um camião levava cem.
Assim que entrámos,
assim que trancaram a porta,
ouviram-se gritos horríveis lá dentro.
Em polaco, ídiche, alemão, pessoas a implorar.
Não havia ar. Estávamos a sufocar, a sufocar, a sufocar.
Era uma viagem atribulada com paragens longas.
Infelizmente, o comboio parava
e sempre muito longe de uma fonte de água,
de tal modo que passado um dia não havia uma gota de água.
As crianças começavam a ter sede,
as pessoas tinham de...
Como dizer? Fazer as necessidades fisiológicas,
como evacuar e tudo o mais.
E o vagão ficava uma porcaria.
Havia sempre briga pelo único balde,
que não podia estar vazio.
Os pais eram obrigados...
Tinham de acalmar as crianças apenas durante a viagem.
Mas sobrevivemos à viagem, as crianças não deviam sofrer tanto
e os mais velhos também não.
De repente, as pessoas deixaram de estar preocupadas
com o passado ou com o futuro,
mas sim em sobreviver à viagem.
Aquilo era o inferno sobre carris.
Os primeiros a desmaiar eram as crianças,
mulheres e pessoas idosas.
Todos caíam como moscas. Pareciam mesmo moscas.
O meu pai estava ao meu lado.
De repente, vejo que ele está a cair.
Ele caiu.
Gritei: "Pai, pai!"
E ele não me ouviu. Desmaiara.
Ele tinha desmaiado
e com toda a minha força, com toda a força que tinha,
tentei levantá-lo e acordá-lo.
Mas não consegui.
Depois, encontrei um pedaço de madeira no chão.
Levantei-me e comecei a bater nas pessoas com o pau.
Comecei a bater nas pessoas ao meu lado no vagão,
para arranjarem espaço para o meu pai,
para ele se poder levantar.
Lembro-me que o sofrimento dos outros não me importava,
os choros e ameaças deles,
apenas que o meu pai se levantasse
para eu não ficar sozinho no mundo.
Os comboios eram fretados aos caminhos-de-ferro do Estado
pelas SS e conduzidos por maquinistas neutros.
Auschwitz era uma paragem muito concorrida:
escoava bens normais, comboios militares e de passageiros,
bem como os comboios com judeus.
Willi Hilse trabalhava para os caminhos-de-ferro estatais,
uma profissão protegida, que o livrava do serviço militar.
Em 1942, mandaram-no tomar conta do depósito de bens
em Auschwitz.
Como resultado do tráfego intenso,
o encarregado da altura não conseguia fazer tudo.
Primeiro, ele fez-me uma pergunta:
se eu sabia que havia um campo de concentração na zona.
Claro que tive de dar uma resposta negativa, porque não sabia.
Durante a conversa, ele disse-me:
"Olha para a frente, para trás, para a direita e para a esquerda.
Estás no meio do campo de concentração de Auschwitz."
Depois, fiz-lhe uma pergunta,
porque reparei num cheiro adocicado no ar.
Perguntei o que era.
Ele respondeu-me:
"É o cheiro dos mortos que foram queimados aqui em Auschwitz."
Quer fossem comboios normais ou de transporte,
tinham todos de passar em Auschwitz.
Os comboios eram separados na estação de Auschwitz.
Ou seja, recebiam outra máquina,
porque tinham de fazer uma manobra na estação
até chegarem ao destino final.
Depois, iam até aos pontos que ligavam a linha
ao campo de extermínio.
Durante uns tempos, uma das tarefas era receber a guia de peso.
Como disse, a guia de frete ia para os caminhos-de-ferro alemães
para tratarem das contas com as SS.
Estas eram as duas coisas que nos deixavam ver imediatamente
que aquele era um caso de comboio do horror.
Os empregados na estação viam e ouviam os passageiros.
O comboio estava mesmo ao lado do depósito de bens
e vi uma jovem que tinha uma criança nos braços
e que pedia água.
Enchi um jarro de água,
e como tinha o uniforme, podiam ver que era dos caminhos-de-ferro,
fui até lá e ia dar o jarro de água à mulher por uma janela.
Nem sequer tinha chegado ao vagão, estava na linha ao lado,
quando um homem das SS veio ter comigo a perguntar o que fazia.
Disse que queria dar água à mulher e à criança.
Ele respondeu: "Se não sai já daqui, mato-o."
Atirei o jarro de água aos pés do homem da SS
e disse: "Que Deus o castigue!"
Se nós, enquanto trabalhadores dos caminhos-de-ferro,
fizéssemos algo contra as SS ou contra o campo,
então digo-vos com toda a certeza
que, muito em breve, também iríamos para o campo.
Olhei pela abertura para a rua.
De repente, vi pessoas estranhas com roupas estranhas.
As roupas deles pareciam pijamas com riscas.
Falavam em muitas línguas diferentes.
E gritavam. Não falavam, gritavam.
Entre outras línguas, também gritavam em polaco.
Quando os ouvi falar polaco, fiquei contente.
Gritei pela abertura do vagão, que ainda estava fechado:
"Sim? Sim?" em polaco.
"Sim? Olhe, desculpe... O que é isto? O que é?"
Lembro-me que ninguém me ligou nenhuma,
porque estavam centenas de milhar de pessoas lá.
Mas reparei que eles estavam sempre a rir.
Não sabia o que eles eram, o que era aquele uniforme,
qual era o trabalho deles. Não sabia nada.
As pessoas estranhas com uniformes às riscas
eram prisioneiros da companhia de bagagens.
Eliminavam provas do transporte anterior antes de o próximo chegar.
Em Auschwitz e nos outros campos, os prisioneiros judaicos
eram obrigados a trabalhar em todas as fases do processo.
Rufolf Vrba foi colocado numa companhia de bagagens.
Estava na companhia dos prisioneiros que limpavam...
a porcaria,
que ficava depois de as pessoas terem sido eliminadas.
E tinha de estar muito limpo, porque, por vezes,
os transportes chegavam com intervalos de uma, duas horas.
O novo transporte
chegava sempre a uma plataforma a brilhar,
sem qualquer prova do transporte anterior.
Os transportes decorreram durante dois anos,
para Auschwitz,
por vezes, cinco por dia, dois por dia,
por vezes, um por dia,
por vezes, um dia sem transporte e por vezes, 16 por dia.
Em média, cada transporte trazia 3 mil pessoas.
Abriram o vagão. Destrancaram a porta.
Quando se abriu, houve uma corrente de ar fresco.
Soube bem.
Começámos a retirar os cadáveres.
Mas, de repente, ouvimos vozes:
"Judeus, rua, rua!"
"Depressa, depressa!"
"Depressa, depressa! Rua, rua!"
Mas eu...
pela primeira vez, tive medo. Sabe porquê?
Porque vi chamas que chegavam ao céu
e um cheiro estranho...
Um cheiro que me lembro da casa da minha mãe
quando chamuscava galinhas à sexta-feira.
As SS sabiam quantos transportes chegavam por dia.
Quando só havia um transporte,
sabiam que tinham imenso tempo.
Era mais interessante estar ali do que estar no barracão.
Quando estavam de serviço e ninguém estava livre.
Por isso, podiam agraciar-nos com uma bela técnica de humor.
"Senhoras e senhores, pedimos desculpa pelo incómodo,
"que foi causada por um idiota que organizou esta viagem.
"Não é o primeiro caso. Pedimos imensa desculpa.
"Olhem para esta porcaria. Como eles tratam as pessoas...
"Por favor, saiam e não se envolvam com os criminosos.
"Eles só estão aqui para levar as vossas malas.
"Se não identificaram a vossa mala e têm medo de a perder,
"levem-na convosco.
"Mas as que tiverem nomes ou etiquetas,
"não se preocupem. Vamos prestar atenção
"para que nenhum dos criminosos as leve.
"A nossa honestidade alemã,
"da qual esperamos que não duvidem,
"é uma garantia em como os vossos bens vos serão entregues.
"Faz tudo parte do processo. Não nos dêem problemas,
"para que assim possamos dar-vos água,
"e as condições sanitárias básicas
após esta viagem horrenda."
Se olhássemos, víamos os excrementos, urina,
e sangue no vagão.
Eles fingiam que não percebiam porquê,
que era compreensível.
Havia muito humor.
"Por favor,
saiam."
A técnica amável ou a técnica brutal tinha apenas um objectivo.
Não importava se era amável ou brutal,
importava que as pessoas que chegavam
tinham de chegar à câmara de gás assim que possível
e sem qualquer obstáculo.
O próximo passo era organizar as chegadas.
Eles faziam duas linhas separadas.
Homens e jovens de um lado
e mulheres e crianças do outro.
O objectivo era saber quem seria eliminado imediatamente
e quem seria mantido vivo para trabalhar.
A selecção era feita por médicos das SS e por enfermeiros.
O número de sobreviventes
dependia da quantidade necessária para o trabalho no campo.
Os médicos faziam um exame rápido.
Todos os que fossem saudáveis o suficiente para trabalhar
eram enviados para um lado. O resto, ia para outro.
Os viajantes, ainda confusos com a viagem horrível,
não percebiam o que se passava.
De qualquer maneira, não estavam em condições de discordar.
Qualquer potencial arruaceiro era afastado do grupo e fuzilado.
Enquanto a maioria desconhecia o que se passava,
alguns pressentiam que algo estava muito errado.
Estava qual cão assustado numa casa a arder.
Era um medo muito primitivo.
Lembro-me que um homem da Holanda
disse entre dentes:
"Não, nada de doentes. Nada de doentes."
Os doentes, os idosos, os preguiçosos,
mulheres grávidas, mães e crianças pequenas
eram enviados para a esquerda.
Tinham sido escolhidos para a câmara de gás.
Vi duas pessoas a virem na minha direcção a falarem polaco.
Fiquei muito contente.
Tanto quanto me lembro,
saí da minha fila,
fui ter com um deles e disse-lhe em polaco:
"Olá. Diga-me, o que é isto?
Aonde vim parar?"
Ele respondeu com uma gargalhada.
Deu-me uma palmadinha no ombro e disse-me em polaco:
"Meu filho, meu filho,
estás no comando do Céu."
Foi isso que ele disse, em polaco.
Não percebi o que era.
Ele disse-me: "Vira-te. Vou mostrar-te uma coisa."
Eu virei-me.
Ele apontou para longe, para onde se levantava o fumo.
Fumo negro, lá muito ao longe.
Disse-me: "Vês aquele fumo?
Está ali uma chaminé e tu vais sair por aquela chaminé."
Foi só isso. Não fiquei impressionado com o que me disse,
porque tinha a certeza de que estava a gozar.
Que era uma piada.
Um camião levou as pessoas para esperarem à porta da câmara.
Disseram-lhe que antes de entrarem no campo,
tinham de ser desparasitados e tomar um duche.
Se calhar, sentiram-se seguros ao verem uma ambulância perto.
Não sabiam que continha latas de Zyklon-B.
O cabo das SS, Richard Böck,
estava na secção de transporte em Auschwitz.
O seu amigo Hoblinger era um dos condutores
da ambulância que levava Zyklon-B.
Uma noite, ele levou Böck para assistir à acção.
Ele estacionou e eu fiquei lá dentro, a fingir ser o co-piloto.
Depois, levaram-nos de camião para o Bunker 1.
Havia quatro grandes corredores.
Não tinham telhado a sério, era só uma coisa inclinada.
Saímos da ambulância.
Ao início, o Hoblinger não tinha nada para fazer.
Depois fomos para os corredores
e os prisioneiros, os que tinham acabado de chegar,
tinham de se despir.
Depois ouviu-se uma ordem: "Preparar para desinfecção."
Havia pilhas enormes de roupa
e havia pessoas à volta para que as pilhas não caíssem.
Os que tinham acabado de chegar, os holandeses,
tinham de subir para o monte de roupa e despir-se.
Muitos esconderam os filhos debaixo da roupa.
Alguns ficavam com as roupas pelas pernas, pois estava muito frio.
Era o início do Inverno.
Depois gritaram: "Preparem-se" e saíram todos.
Depois tinham de correr nus 20 m do corredor para o Bunker 1.
No Bunker 1 , havia duas portas abertas.
Quando já tinha entrado um certo número, fechavam as portas.
Isso aconteceu umas três vezes.
E de cada vez, o Hoblinger tinha de ir para a ambulância.
Um dos líderes SS foi buscar uma lata e subiu a escada.
No cimo, havia um buraco e ele abriu uma portinhola de ferro
e abanou a lata para lá. Depois, fechou a portinhola.
A seguir, ouvimos uns gritos horríveis.
Acho que passados uns dez minutos veio o silêncio.
Perguntei ao Hoblinger: "Podemos aproximar-nos quando os tirarem?"
Então aproximámo-nos.
A companhia dos prisioneiros abriu a porta
e saiu um fumo azul.
Olhei para dentro e vi uma pirâmide.
Eles tinham todos subido para cima uns dos outros
e o último estava mesmo no topo. Uns em cima dos outros.
Era um monte em triângulo.
Depois, os prisioneiros tinham de entrar e desfazer o monte.
Todos emaranhados. Um tinha o braço no pé do outro
e os dedos dele estavam nos olhos de alguém.
Muito lá dentro.
Estavam todos tão emaranhados.
Tinham de puxar com muita força para os separar.
Depois, voltámos para o corredor. Era a vez do último grupo se despir.
Eram os que se conseguiam afastar sempre.
Uma mulher disse que estava frio, ou algo assim.
Quando percebi o que dissera,
vi que ela não estava habituada a isto.
E disse para mim mesmo que acreditava que não estivesse.
Uma rapariga, com um cabelo preto lindo e muito bonita,
estava agachada e não se queria despir.
Um SS veio ter com ela e disse:
"Não deves querer despir-te."
Ela atirou o cabelo para trás e riu-se.
Ele afastou-se e regressou com dois prisioneiros
que lhe rasgaram literalmente a roupa.
Cada um pegou num braço e arrastaram-na
para o Bunker 1 e atiraram-na para lá.
Depois, os prisioneiros tinham de procurar as crianças escondidas.
Tiravam-nas, abriam depressa as portas,
atiravam as crianças para lá e fechavam a porta.
Comecei a ficar enjoado.
Credo... Disse: "Karl, nunca vi nada assim."
Era simplesmente horrível. Quando atiravam as crianças
e as pessoas lá dentro gritavam, porque percebiam o que se passava.
Pedi ao Karl para irmos embora, já não aguentava aquilo.
Ele disse que também se sentia assim, mas que tinha de ficar
e recolher as latas vazias e colocá-las na ambulância.
O Hoblinger disse que não gostava mesmo nada desta tarefa.
Preferia estar na secção de transporte a estar na vigilância.
Mas ele disse que com o tempo, nos habituamos a tudo.
Quando mandaram Richard Böck participar numa acção,
recusou imediatamente, apesar de ser ameaçado com castigos.
Depois da guerra, foi ilibado de qualquer crime pelos investigadores.
Aliás, a Associação de ex-prisioneiros de Auschwitz
nomeou-o membro honorário daquela organização.
Quem ia trabalhar antes de ser eliminado,
era suspenso numa média de três meses,
o tempo normal de sobrevivência em Auschwitz.
Também eles tinham de se despir e entregar todos os bens.
Depois, eram levados para os chuveiros, os verdadeiros.
Eram desparasitados, rapavam-lhes a cabeça
e tatuavam-lhes números nos braços.
Tatuaram um número no meu braço.
Já não era o Schmuel ou o Sammy Gogol,
era apenas um número: 81491 .
No fim, não passava de um número.
A partir dessa altura, passei a ser um número.
Já não tinha nome ou apelido.
Passei a ser o B-8095.
Era esse o meu nome.
Disseram-me que se chamassem o meu número,
era porque me chamavam a mim.
Marcaram-nos. Puseram-nos uma marca no braço.
Lembro-me que estava a pensar...
Estava a tentar limpar o sangue e esborratei um pouco a tinta
e por isso, não se consegue ver bem.
Homens e mulheres eram separados
e cada um tinha um uniforme.
Auschwitz tinha três campos principais
e 30 campos de trabalho.
Quase 100 mil escravos de trabalho, polacos e judeus,
trabalharam lá até morrerem.
300 encafuados num quarteirão
só comiam uns gramas de pão duro e uma papa aguada.
Primeiro, tinham de aprender a lutar pela própria sobrevivência.
Pela primeira vez, vi o que era a fome.
Porque quando distribuíam o pão,
os outros prisioneiros, que já lá estavam há mais tempo,
pareciam leões.
Era uma lei não instituída.
Se se fosse apanhado a roubar o pão de outro prisioneiro
ele tinha o direito de o matar logo na altura.
Na maioria das vezes não podia matar logo na altura,
mas era considerado homicídio.
Era mesmo um homicídio.
Porque o pão que era distribuído,
era um bem mínimo necessário para a sobrevivência.
Quem não tinha pão, diminuía bastante
as hipóteses de sobrevivência até ao dia seguinte.
Por isso, havia...
não havia tribunal, ou acusações, coisas assim.
O caso era normalmente evidente.
Normalmente, o caso era que um tipo tinha na mão...
o casaco e o outro tipo puxava-o.
Um dos tipos gritava:
"Ele está a roubar-me o pão!" E era isso.
À meia-noite,
as pessoas saltavam da cama
e, de repente, havia um cadáver.
Os piores momentos era quando um dos privilegiados se vangloriava
e dizia que podia partir a cabeça a um homem com um golpe.
Era um momento horrível.
Um segundo de silêncio e depois ouvia-se a ordem.
"Ponham a cabeça de fora das camaratas."
E depois pensávamos: "Será que vai bater na minha cabeça?"
Uns instantes depois, na madeira,
víamos sangue e bocados de miolos.
E depois, nós caíamos num sono profundo.
Porque afinal, nós,
nós podíamos dormir.
Os prisioneiros dormiam quatro e mais por beliche,
em barracões que foram construídos para cavalos.
Eles importavam menos que os animais,
os corpos eram para ser usados como entretenimento dos guardas
ou como material para benefício do Estado.
Alguns eram usados mesmo como ratos de laboratório.
Para testar os efeitos de voos a altas altitudes,
eles iam para um simulador.
Não tinham oxigénio e passavam por extremos de descompressão.
Himmler vangloriava-se que os seus médicos
já não se deixavam inibir pelos preconceitos cristãos.
Para descobrir como seria a sobrevivência de pilotos no mar,
emergiam os prisioneiros em água gelada
até não puderem ser reavivados.
Os ciganos eram usados para ver o efeito da ingestão de água do mar.
Os judeus eram usados para testar as técnicas de esterilização,
necessárias para os nazis livrarem a população destas raças.
Ao mesmo tempo, fizeram experiências com gémeos.
Himmler esperava que ao aumentar o nascimento de gémeos alemães
era uma maneira de compensar baixas da raça ariana
causadas pela guerra.
Os médicos também analisavam o crânio e cérebro
de judeus, ciganos e eslavos
para tentar encontrar algo físico que apoiasse a teoria da raça.
O que restava depois de as pessoas terem sido eliminadas,
não era desperdiçado.
Os ossos podiam ser triturados e servir de fertilizante.
Membros artificiais e óculos eram reciclados.
Dentes de ouro eram derretidos e o cabelo usado era guardado
e usado em roupas protectoras.
De manhã e à noite, os prisioneiros ficavam de pé durante horas
para as SS verem se eles estavam todos lá.
Durante o dia, trabalhavam nas fábricas ou na construção.
Auschwitz era continuamente aumentado.
Construíam fábricas de armamento e uma de borracha sintética.
O trabalho deles não estava virado para a produtividade,
mas sim para aumentar o sofrimento dos prisioneiros.
Obrigavam-nos a trabalhar o dobro com a ajuda de chicotes.
Nos grupos de trabalhos pesados,
os prisioneiros morriam passados uns dias
de cansaço e de pancada.
O campo devia ser independente.
A dada altura, 8 mil prisioneiros tratavam da manutenção.
Para sobreviver durante um bom tempo,
o prisioneiro tinha de arranjar um bom trabalho sem ser na rua,
nas oficinas, escritórios, ou melhor, na cozinha.
Para isto, precisava-se mais do que sorte.
Precisava-se de um ofício útil
ou influência perto dos prisioneiros que distribuíam as tarefas.
O estilo de vida subterrâneo do preso crescia com base nas trocas.
Vi uma harmónica nas mãos de outro prisioneiro. Pedi-lha.
Ele não ma queria dar. Ele não sabia tocar,
por isso, resolveu fazer um acordo comigo.
A moeda de troca era o pão. Ele queria a ração de três semanas.
e eu propus duas semanas de ração e ele deu-me a harmónica.
Tirando o trabalho normal,
organizaram uma orquestra e eu fui para lá.
Tinham de tocar na chamada e em enforcamentos públicos.
Por vezes, aos domingos, davam concertos dos clássicos alemães.
Por milagre, conseguiam tocar a música deles às escondidas
em cerimónias e até cantar.
No campo, cantávamos imensas músicas.
Era interessante. Músicas holandesas, gregas,
húngaras, checas, ídiche...
Claro que a canção triste de que todos gostavam, não só os judeus,
pois sofríamos todos em conjunto,
era "My Yiddischer Mama".
Os que já não aguentavam, cometiam suicídio
ao correr de encontro à vedação electrificada.
Outros iam ter com os funcionários
e pediam para fazer parte da lista da câmara de gás.
As SS retiravam pessoas fracas ou doentes de mais para trabalhar.
Wandra Marossanyi trabalhava no escritório do campo de trabalho.
Partilhava a camarata com outros funcionários que faziam a chamada.
Tinham como missão copiar os nomes dos prisioneiros
escolhidos pelas SS para a câmara de gás.
A selecção era feita pela equipa do campo
e pela funcionária que fazia a chamada, uma mulher eslovaca.
Ela tratava dos números
e à noite, ela vivia no nosso barracão,
havia filas de gente para a ver.
"Salve a minha mãe, irmã, prima, amigo..."
E ela tentava de um modo humano,
segundo a idade e a capacidade de sobreviver no campo,
para mudar os nomes.
Mas era uma decisão difícil,
escolher uma pessoa para a câmara de gás e salvar outra.
Nessa altura, e seguindo apenas o instinto,
podia parecer cruel,
salvávamos os que poderiam sobreviver
e não emocionalmente, por ser a filha de uma mãe.
Lembro-me de um caso de uma prisioneira idosa no barracão 25
ter ajudado a mãe a subir para o camião para a câmara de gás,
pois não tinha hipótese de a salvar.
Moshe Sonnenshein era o filho do rabi que fora educado...
na crença religiosa.
Era uma crença que dizia que aconteciam coisas no mundo
para além da compreensão dele e da vontade de Deus.
Lembro-me de vermos passar 10 mil mulheres nuas numa manhã gelada
que já tinham sido escolhidas e que iam para os camiões.
Elas sabiam que eram prisioneiras
e que iam a caminho da câmara de gás.
Estavam em silêncio e as pessoas estavam habituadas
a viver com o conhecimento de que a morte virá,
mas quando ligaram o camião,
o barulho criou o pânico entre as mulheres
e ouvimos um barulho horrível dos camiões,
o grito de morte de milhares de jovens já reduzidas a pele e osso.
Eram tentativas inúteis,
pois sabiam que não iam conseguir saltar dos camiões
que as levavam para as câmaras de gás
que ficavam a menos de 1,5 km e que já estavam a funcionar e...
o fumo que saía das chaminés.
Estava tudo preparado.
Era nesta altura em que ele falava com o Deus dele.
"Deus mostrou-vos o vosso poder.
Isto é contra Ele."
E não acontecia nada.
E depois, ele disse: "Deus não existe."
A grande maioria das pessoas enviadas para o crematório
eram recém-chegados.
Cansados depois daquela viagem,
não podiam interromper o processo se soubessem o que lá vinha?
Pensámos se lhes devíamos dizer para onde iam.
A eslovaca pensava nisso.
Se se deviam revoltar...
Depois de muito conversar, concluímos que não iria ajudar,
pois elas não estavam em condição de lutar contra o destino.
Tinham de ir para onde iam e era melhor que não soubessem.
Se alguém lhes dissesse: "Vocês vão para a câmara de gás."...
A ideia de uma mãe ser informada por um criminoso,
depois de uma viagem horrível, que os filhos vão morrer,
era uma ideia escandalosa na opinião dela.
Porque depois de tudo o que sofreu, aparece um criminoso
que quer aumentar o sofrimento dela.
Ela sentia-se tentada a ir falar com o funcionário mais próximo,
e dizer que aquele homem dissera
que os filhos dela iam para a câmara de gás.
Ele responderia: "Minha senhora, toma-nos por bárbaros?"
Perguntávamos sempre: "Onde está o resto do mundo?
"Onde estão os Estados Unidos? Onde está a Rússia?
"Onde estão os outros países que nos podiam ajudar?
Eles sabem o que se passa nos campos de extermínio?"
As pessoas sabiam o que se passava.
Um complexo industrial com mais de cem mil pessoas
construído nos arredores de uma cidade não podia ser segredo.
Com o tempo húmido, o cheiro da carne humana queimada
era uma nuvem que se estendia pela zona toda.
Os passageiros em comboios que passavam pela cidade,
amontoavam-se para ver as luzes fortes e chaminés altas.
Ouviam-se boatos em toda a Alemanha.
Mas o que podia um cidadão normal fazer, mesmo se se preocupasse?
Alguns mais corajosos davam abrigo a judeus.
Mas nem eles conseguiam derrotar o sistema.
De qualquer maneira, estavam em guerra.
As pessoas tinham mais problemas para além dos judeus.
E os Aliados que combatiam a tirania nazi?
Lord Avon, na altura, Anthony Eden,
era ministro dos Negócios Estrangeiros de Churchill.
Claro que tinham existido...
bastantes provas de perseguição aos judeus
antes do início da guerra na Alemanha de Hitler.
Com o avançar da guerra,
recebemos relatórios horrendos.
Ao início, é claro que era muito difícil avaliar...
a veracidade dos relatórios
e eram tão horríveis que era difícil acreditar que fossem verdade.
Contudo, em 1942,
na segunda metade de 1942, as provas eram tantas
que tínhamos de acreditar.
Como consequência, contactámos outros governos,
principalmente o dos Estados Unidos
e o Russo
para partilhar as informações que tínhamos
e para falarmos do que íamos fazer.
Decidimos que uma das coisas a fazer
era fazer uma declaração conjunta
em cada uma das nossas capitais
ao mesmo tempo, a divulgar as nossas informações
e o horror que estava a ser cometido.
E claro, para deixar evidente a nossa repulsa
e a nossa determinação de que os responsáveis
deviam ser castigados no fim da guerra.
Concordámos fazer isso após algumas negociações.
No fim de 1942,
eu fiz essa declaração na Câmara dos Comuns
com um efeito dramático
que excedeu todas as minhas expectativas.
HOMICÍDIO DE JUDEUS: DEPUTADO AGITA ASSEMBLEIA
Mas as pessoas nos campos de extermínio precisavam de acção
agora, antes que fosse tarde de mais.
A Resistência em Auschwitz não podia esperar pelo fim da guerra.
Enviaram uma carta a pedir uma máquina com filme para o campo.
Se os Aliados vissem o horror em toda a sua plenitude,
tinham de agir.
Nos campos de extermínio de Sobibor e Treblinka
os grupos da Resistência organizaram revoltas,
mas a maioria dos prisioneiros foi morta antes de fugir.
O grupo de Auschwitz decidiu esperar
mantendo o maior número de pessoas com vida no campo
até os Aliados os poderem ajudar a fugir.
De uma porta, um prisioneiro na manutenção dos edifícios,
conseguiu tirar fotos de uma companhia a queimar cadáveres
numa vala comum no bosque perto de uma câmara de gás.
Tentou tirar fotos pelos botões com a máquina por baixo do casaco
de mulheres a entrar na câmara de gás.
As fotos eram só céu e árvores,
mas o processamento de um canto,
mostrava mulheres nuas a andar em direcção,
ao que ainda julgavam ser um chuveiro.
Os grupos da Resistência fizeram vários apelos
para raides a caminhos-de-ferro, campos e câmaras de gás.
Uma das dificuldades em Auschwitz,
era a longa distância para nós,
e até às fases finais da guerra.
Diria que estavam fora de alcance,
principalmente para um bombardeamento preciso.
Acho que há organizações judaicas que ainda pensam
que seria bom se tivéssemos bombardeado Auschwitz.
Não vejo como isso podia ter ajudado alguém
e sequer se seríamos capazes.
Não se conseguia bombardear com precisão
e isso teria causado muitas mortes em Auschwitz.
E claro, ficava em território inimigo, em território alemão,
e se com o bombardeamento cortássemos as comunicações,
e algumas pessoas saíssem, apesar de outras morrerem,
estariam num país hostil. Para onde iriam
e será que conseguiam fugir?
Não me parece.
De qualquer maneira,
decidimos não fazer isso, e tanto quanto me lembro,
nem perguntámos ao "Bomber" Harris para pensar no projecto.
Quando se descobriram fábricas de armamento perto de Auschwitz,
foi montado um raide.
Não teve muito êxito.
Os caminhos-de-ferro não foram atingidos.
Só se consegue pensar numa coisa que podíamos fazer:
ganhar a guerra
e não dispersar o esforço de guerra mais do que o necessário,
porque só ao ganhar a guerra
conseguiríamos salvar alguns judeus infelizes
do tratamento horrível e imperdoável a que foram submetidos.
E os líderes dos judeus?
Os Conselhos Judaicos que escolhiam quem ia nos comboios?
Alguns resistiam.
Alguns suicidavam-se.
Alguns continuaram a colaborar.
Sigmund Weltlinger trabalhava no Conselho Judaico de Berlim
até à última grande aglomeração em 1943.
Depois, fugiu.
Se não o fizessem, a Gestapo ia buscar as pessoas à rua
e às casas delas como ratoeiras e mandava-as embora.
As coisas não seriam tão organizadas.
Desta maneira, eram informados com uns dias de antecedência.
Podiam tratar dos negócios, levar o mínimo necessário,
e até onde lhe era possível
podiam fugir ou serem clandestinos.
Nunca deixámos de negociar.
Mas não eram negociações. Aceitávamos ordens.
Diziam-nos: "500 para o próximo transporte."
Aí, podíamos escolher 500 pessoas das nossas listas.
Ao início, recebemos muitos postais, que eram censurados, claro.
Tinham de escrever: "Está tudo bem.
Temos trabalho e o local é agradável."
Alguns de nós acreditavam nisso.
Os nazis usavam todo o tipo de truques
para reforçar a história da "Recolocação a Leste".
Em 1944, fizeram o filme "Hitler Deu uma Cidade aos Judeus".
Tinha como objectivo calar os boatos sobre campos de extermínio
e satisfazer a curiosidade de instituições
como a Cruz Vermelha Internacional.
Quando o filme foi divulgado,
a maioria dos participantes morrera nas câmaras de gás de Auschwitz.
Mas isto simulava a vida em Theresienstadt,
o campo para judeus privilegiados,
os que combateram pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial,
pessoas de influência, idosos e membros do Conselho Judaico.
Desde que as pessoas no Conselho Judaico
achassem que a vida nos campos era assim,
iriam incentivar as pessoas a entrar nos transportes
sem causar confusão.
Dissemos: "Aqui também não se está bem.
"Aqui acontecem-vos imensas coisas.
"É certo que a vida não será fácil, mas podem trabalhar e comer.
São territórios lindos, principalmente Theresienstadt."
Aos idosos que eram enviados para Theresienstadt,
dizia: "Foi um Spa de primeira classe, tem paisagens lindas."
Uma senhora disse-me:
"Pelo dinheiro todo que estou a dar,
arranja-me um quarto com aquecimento central?"
Eu respondi que havia aquecimento central em todo o lado.
Quem justifica a própria inacção,
diz que os judeus que iam docilmente para as câmaras de gás
se matavam a eles próprios.
Mas o que podiam fazer?
Sem amigos na Europa nazi ocupada,
entravam no comboio com esperança.
Em Auschwitz, era tarde de mais.
Para resistir, tinham de estar armados e organizados.
Se iam lutar, teria de ser antes da viagem, em território favorável.
O acto de resistência judaica mais espantoso
deu-se no gueto de Varsóvia.
Em 1943, quando tentaram deportar as 60 mil pessoas
que ainda lá estavam, o gueto resistiu.
Tinham ouvido as histórias do extermínio
e acreditavam nelas.
O Major Stropp das SS, mandou que tirassem fotografias
enquanto escorraçavam os judeus, edifício por edifício.
Armados apenas com algumas pistolas e granadas caseiras,
fizeram frente aos alemães durante cinco semanas.
Enquanto saíam, Stropp terminou o relatório para Himmler.
"Conseguimos capturar 56065 judeus
cuja eliminação pode ser provada. "
O Comité Nacional da Resistência Judaica na Polónia disse:
"No momento final antes de serem destruídos,
"os últimos sobreviventes dos judeus na Polónia,
"imploraram ajuda ao mundo inteiro.
"Não foram ouvidos.
"Que esta última voz do Além
chegue aos ouvidos de toda a Humanidade. "
Em 1944, o maior e único grupo de judeus não atacados
eram os 7 mil na Hungria.
Hitler queixara-se mais do que uma vez
de que não se fizera nada para os liquidar.
Quando as tropas alemãs invadiram o país em Março,
apesar de a máquina de guerra nazi estar no seu limite
e a Alemanha em perigo de perder a guerra,
os planos para retirar os judeus da Hungria eram prioritários.
Nesta altura, toda a gente sabia o que era a "recolocação".
Multidões de judeus imploram à legação suíça em Budapeste,
na última esperança de conseguirem sair do país.
Os líderes judaicos negociavam com as SS empatando,
na esperança de que os exércitos russos os salvassem.
Ao mesmo tempo, e para agradar aos alemães,
instruíam as pessoas a apresentar-se nos comboios.
Mais uma vez, foram ignorados os pedidos aos Aliados
para bombardearem os caminhos-de-ferro.
Comboio atrás de comboio chegava calmamente a Auschwitz.
A perderem a guerra, os nazis sabiam que tinham de se apressar.
Auschwitz estava preparada para receber os judeus húngaros.
A via-férrea fora ampliada para o campo
e chegava quase ao crematório.
Foram cavadas valas
para queimar os corpos que não coubessem nas fornalhas.
Dov Paisokowic, filho de um talhante judeu,
estava num dos transportes húngaros em 1944.
Chegámos ao campo de Auschwitz de manhã.
Não me lembro do dia.
Escolheram 250 dos mais fortes entre os mil que lá estavam,
os que tinham força para trabalhar.
Foram escolhidos 250 homens.
Entre os 250, estava eu e o meu pai.
Deram-nos várias ferramentas e tiraram-nos do campo.
O campo tinha uma vedação electrificada.
Fora do campo, estavam SS com cães e metralhadoras.
Levaram-nos ao Crematório 3 e 4.
150 ficaram lá.
Na altura, não sabia que era um crematório.
Era no meio da floresta, não se via nada.
Nem sequer sabíamos que aquelas coisas existiam.
Uns minutos depois, chegou o Hauptschuführer Hamol.
Ele era o chefe dos crematórios.
Recebeu-nos muito bem.
Disse que ali havia comida suficiente, mas que tínhamos de trabalhar.
De repente, abriu-se a porta da câmara de gás.
Começaram a cair pessoas nuas.
Ficámos todos assustados.
Ninguém se atreveu a perguntar o que era aquilo.
Fomos logo levados para o outro lado do edifício.
Foi aí que vimos o inferno na Terra.
Grandes montes de pessoas mortas
e pessoas a arrastar estes mortos para uma longa vala
com cerca de 30 metros de comprimento e 10 de largura.
Havia uma grande fogueira de lenha.
No outro lado, tiravam a gordura da vala com um balde.
Tivemos de começar logo a trabalhar.
Estávamos habituados a respeitar os mortos.
Foi difícil para nós.
Quatro pessoas pegavam num cadáver,
mas o SS disse: "Não, cada um com um cadáver."
Ele mostrou-nos como com uma simples bengala.
Um pegava no queixo para colocar a bengala no pescoço
e arrastá-lo para a vala como se fosse um trapo ou um pau.
Na vala, estavam outras pessoas
que empurravam os mortos para a vala.
Isto tinha de ser rápido.
Havia outros que se atiravam, que saltavam para a vala, vivos.
Parece que achavam melhor serem queimados
do que fazerem aquela tarefa.
Depois de uma semana, uma noite levaram-me para o Crematório 1.
Não sabia que havia o Crematório 1.
As condições no Crematório 1 eram melhores.
Tínhamos onde dormir, perto dos fornos.
Também era maior.
O trabalho era mais mecânico.
A câmara de gás era muito grande.
Por todo o lado, havia canos de água, como para chuveiros.
Todos se juntavam à volta destes chuveiros.
Eles ainda não sabiam.
Alguns sabiam,
mas recusavam-se a acreditar que era uma câmara de gás.
Colocavam 2 mil, 2500 pessoas na câmara.
Se não houvesse espaço suficiente,
as crianças eram atiradas para cima da cabeça das pessoas.
Ficavam tão juntos, uns em cima dos outros,
que nem uma agulha conseguia cair,
iria ficar em cima das pessoas.
A porta era hermeticamente fechada.
Por cima,
deitavam duas a três latas de Zyklon-B.
Isto era sempre feito por um SS.
Estava sempre presente um médico na altura do envenenamento.
O médico decidia quando se podia abrir a porta
e os gases tóxicos eram retirados da sala.
Ele espreitava por um buraco na porta
e via se havia algum movimento ou gritos.
E ele decidia segundo isto.
Alguns começavam a rezar.
A maioria dos judeus era ortodoxa.
Não acreditavam que tal coisa acontecesse.
Estavam dispostos a morrer por Deus,
mas a revolta não tinha lugar ali.
Até lhes dissemos:
"Façam alguma coisa! Vão morrer!"
Mas não acreditaram em nós.
Havia todo o tipo de reacções de todo o tipo de pessoas.
Havia deficientes.
Mostravam o cartão de guerra
para provar que tinham lutado na Primeira Guerra Mundial
com todo o tipo de distinções e medalhas da altura.
Gritavam: "O que é isto?
"Lutámos pela Alemanha e agora vão matar-nos queimados? Não.
Somos contra isto."
Mas toda a gente se riu,
porque os SS não os levavam a sério. Eles riam-se de tudo.
Havia inválidos que ajudei a despir, pois não conseguiam sozinhos.
Havia outros que também ajudavam.
Eu falava com estas pessoas.
Em certos casos, vi pessoas conhecidas.
O meu coração não me deixava ir ter com eles
para falar com eles.
Quem não tenha passado por isto
não pode imaginar o que é a vontade de viver,
o que é um momento de vida.
Todas as pessoas, sem excepção, são capazes de fazer o pior
só para viver mais um minuto.
Muitas mulheres abortavam durante o envenenamento.
As pessoas batiam umas nas outras.
Cravavam as unhas umas nas outras. Havia marcas de unhas.
Toda a gente queria sobreviver.
Mas era impossível.
Quando as portas se abriam,
deixavam o gás tóxico sair com ventoinhas.
Passados 15 minutos não havia veneno
e entrávamos para retirar os cadáveres.
Eram levados pelos elevadores até aos fornos.
Perto dos fornos, lá em cima,
havia um homem que retirava os dentes de ouro e placas.
Rapavam o cabelo às mulheres
e procuravam bens valiosos nos sítios mais íntimos,
principalmente nas mulheres.
No forno, os cadáveres demoravam 15 minutos para arder.
Só ficavam algumas cinzas.
A 24 de Julho de 1944,
os russos libertaram Lublin na Polónia do Leste.
Nos arredores da cidade,
encontraram o campo de concentração de Majdanek.
As SS tinham tentado matar todos os prisioneiros
e destruir todas as provas do centro de extermínio,
mas um grupo da Resistência polaca invadiu o campo
antes que terminassem o serviço.
As câmaras de gás disfarçadas de duches e salas de desparasitação,
estavam intactas.
Os crematórios ainda com restos de cinzas humanas
estavam ligeiramente danificados.
Lá perto, encontraram hortas de couves
com fertilizante de ossos humanos.
Auschwitz estava agora a menos de 270 km.
Mas os russos não bombardearam o campo.
Os fornos não paravam um minuto.
Estavam dois turnos a trabalhar,
das 6h da manhã às 6h da tarde.
Uma noite, estava presente quando trouxeram os ciganos
para serem queimados.
Foi uma visão horrenda.
Gritavam que nem desalmados.
Os gritos no Bunker,
no crematório, na câmara de gás,
eram horríveis.
Ainda hoje me interrogo
como é que Deus não ouviu estes gritos.
Acho incrível que Ele não tenha ouvido aquilo.
Eram... horríveis.
Os gritos para o céu.
Mas agora, estava a acabar.
Os alemães retiravam em todas as frentes
a tentar destruir as provas pelo caminho.
Os russos chegaram a Auschwitz a 26 de Janeiro de 1945.
Só encontraram 2819 pessoas,
demasiado velhos ou doentes para saírem de lá,
pessoas que os SS achavam que iam morrer à mesma.
Todos os outros foram levados à pressa para a Alemanha.
Entre os sobreviventes, estava um grupo de crianças,
na sua maioria gémeos,
sobreviventes patéticos das experiências de Himmler.
Também encontraram armazéns cheios até cima
com coisas que os SS não tiveram tempo de enviar para a Alemanha.
Em Abril de 1945, os britânicos e os americanos
mandavam nos campos da Alemanha de Leste.
Dos milhões que estavam em campos por toda a Europa,
os Aliados só chegaram a tempo para salvar os últimos 500 mil.
Centenas de milhar deles também iriam morrer,
vítimas da fome e das doenças.
Nunca saberemos ao certo quantas pessoas as SS mataram.
500 mil ciganos,
3 milhões de polacos,
mais de 5 milhões de judeus
e outros tantos milhões de eslavos.
No mínimo, 14 milhões de seres humanos morreram
como resultado directo de uma teoria racial.
Auschwitz está como os russos o encontraram.
Um memorial decadente às suas vítimas.
Ninguém sabe ao certo quantas pessoas morreram aqui.
Um milhão?
Talvez o dobro.
O campo, meio destruído,
o crematório em ruínas, desfeito à pressa pelas SS,
e um buraco, no lugar da câmara de gás
onde 2500 pessoas eram mortas de cada vez.
Tudo está como era em 1945.
Os bosques atrás do campo,
onde tantos esperaram para entrar na câmara de gás,
continuam iguais, indiferentes às memórias.
Este território foi em tempos um pântano.
Mas depois as SS usaram-no para se desfazer das cinzas.
Se tocar o chão algures no campo,
tanto quanto vemos,
a mão vem coberta de um barro de osso humano.
O barro prolonga-se por três metros abaixo da terra.
As ruínas de Auschwitz são mais do que uma recordação.
Enquanto existir intolerância política, preconceitos religiosos,
preconceitos raciais, elas são um aviso.
Um aviso de que todos temos a responsabilidade
de fazer com que ninguém construa outro Auschwitz.
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