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Original subtitles

A SOLUÇÃO FINAL PARTE 1

Narração

Hoje não acredito que tal coisa tenha acontecido.

Acho que foi um sonho.

Mas ainda vejo tudo aquilo.

Todos os pormenores. Como se tivesse acontecido hoje.

Estou aqui sentado a falar

e ainda hoje não acredito no que me aconteceu.

Que consigo estar aqui sentado a falar sobre este assunto,

apesar dos pesadelos que me perseguem não por um ou dois dias,

não por um ou dois anos.

Há dias em que olho para trás

para ver se há algum guarda ou algum homem da SS.

Mas, apesar disto, finjo que sou uma pessoa normal.

Não sei se sou normal.

Acho que quem sobreviveu a um campo não pode ser normal.

As coisas que me aconteceram

ocorreram há 30 ou 31 anos.

Não é fácil regressar a esse período.

Estou a fazer isto por sentido de dever

e por causa de um voto de honrar aquele período.

E por aqueles que não podem falar dele

e que gostariam que o mundo soubesse o que aconteceu.

Neste filme,

testemunhas individuais falam da sua experiência com o racismo nazi.

Auschwitz é história.

O preconceito racial ainda existe.

Em 1918, os homens que tinham ido para a frente

entusiasmados com o orgulho nacional,

regressaram a uma Alemanha derrotada e amargurada.

Estes tinham sobrevivido. O seu regresso era motivo de festejo.

Mas o seu heroísmo fora desperdiçado,

as suas vitórias também.

Alguém tinha de ser o culpado.

O Kaiser e a velha ordem aristocrática?

Ou os comunistas e a ameaça de uma nova ordem,

recentemente chegada ao poder na Rússia?

Ou talvez os judeus?

O medo deles era tão velho como a cristandade em si.

O Kaiser fora derrotado.

Pela primeira vez, a Alemanha era uma democracia parlamentar.

Mas os primeiros anos da República de Weimar foram violentos.

Os comunistas queriam espalhar a revolução da Rússia à Alemanha,

os lealistas queriam impor a ordem através da força

e os separatistas queriam dividir o frágil Estado alemão unificado.

Para milhões de alemães que queriam ordem e estabilidade,

os anos após a Primeira Guerra foram de humilhação nacional,

miséria económica, ameaças de violência, medo do comunismo.

A inflação era enorme.

As pessoas perderam a confiança no seu dinheiro, nos seus governantes,

nelas próprias.

"Nada mais está ancorado, "

disse Adolf Hitler à sua primeira audiência em Munique.

Hitler compreendia as ansiedades germânicas.

Um austríaco que lutara com distinção no exército alemão,

prometeu substituir o caos por uma luta racial unificadora.

Hitler queria realizar um velho sonho nacionalista:

a união de todos os alemães num grande Estado alemão.

Um Reich que abrangeria todos os povos de língua alemã.

Não só os austríacos e os prussianos do Leste,

mas os alemães da região dos Sudetas na Checoslováquia,

os alemães da Polónia, da Jugoslávia.

Até os alemães da Rússia.

Alguns políticos alemães receavam, ou diziam que receavam,

que a nação fosse engolida pelos eslavos a Leste.

O partido nazi exigia novos territórios aí,

onde uma população alemã crescente se pudesse instalar.

E o programa nazi pedia a expulsão de estrangeiros da Alemanha,

de imigrantes.

Parágrafo 4: "Só os que são nossos compatriotas podem ser cidadãos.

"Só os que têm sangue alemão, independentemente do credo,

"podem ser nossos compatriotas.

Portanto, nenhum judeu pode ser nosso compatriota. "

"Precisamos de um inimigo visível, " disse Hitler.

Nas publicações nazis, o judeu era retratado como o vilão

responsável por todos os problemas da Alemanha.

"Se ele não tivesse existido, tínhamos de o inventar. "

Só um em cem alemães era judeu.

600 mil ao todo.

Mas os nazis podiam aproveitar séculos de preconceito cristão.

Shylock e Fagin eram figuras familiares.

Hitler usava o judeu como único opositor,

em quem todos podiam concentrar o seu medo e descontentamento.

"Os judeus não são aqui desejados. "

O ideólogo do partido, Alfred Rosenberg,

dizia haver uma conspiração internacional

de judeus, comunistas e capitalistas,

os Anciãos de Sião,

que queria destruir as raças brancas, em especial os alemães.

A maioria das pessoas rejeitava tais fantasias

como exemplos do mau gosto nazi.

Os judeus da Europa de Leste

há muito que sabiam o que era ser "diferente",

o que era a discriminação, a perseguição, a pogrom.

Tinham roupas próprias e a sua própria língua,

o iídiche.

No Ocidente, na Holanda ou na Checoslováquia,

onde estes filmes foram feitos,

para serem mais tarde integrados na propaganda nazi,

a assimilação era mais fácil,

apesar de nem sempre poderem entrar no clube de golfe local.

Durante séculos, os judeus tinham sido de uma religião diferente.

Agora, a pseudociência marcava-os como uma raça à parte.

A ideologia nazi perverteu a teoria de Darwin da selecção natural

para afirmar que o homem do Norte da Europa, o ariano, era superior,

mas que estava preso, na luta pela sobrevivência,

por raças inferiores: asiáticos, negros, ciganos e judeus.

A anti-raça.

Bactérias que decompunham os corpos das nações em que viviam.

A pessoa que devia ser admirada segundo a propaganda nazi

era o camponês alemão.

A arte do camponês, a arte popular, não era corrompida.

Era a última sobrevivência da cultura racial, tribal

antes da poluição da Revolução Industrial.

As tradições simples reconfortavam as pessoas

que se sentiam perdidas em cidades anónimas

ou confusas por costumes mais modernos.

Ao público, Hitler dizia:

"Um anti-semitismo razoável tem de levar à expulsão dos judeus. "

E o ódio pelos judeus unia as facções do partido nazi:

a SA, as tropas de assalto do partido,

rufias de rua fardados,

e a polícia interna do partido, as SS.

Em 1929, Hitler nomeou um trabalhador simples

na delegação do partido em Munique,

um ex-assistente de laboratório de uma empresa de fertilizantes,

como director das SS,

Heinrich Himmler.

Quando Himmler ocupou o cargo,

as SS eram uma subsecção das tropas de assalto com 300 homens,

cuja função era proteger Hitler em encontros públicos.

Himmler ia transformá-los na elite do partido,

responsável pela pureza, moral e disciplina de todo o movimento.

Destacar-se-iam da SA como a força mais poderosa do partido.

Durante os anos 20,

os nazis eram um partido menor na política alemã.

As suas ideias não eram levadas a sério.

Mas, em 1929, a economia mundial afundou-se.

Para a Alemanha, depois de anos de uma inflação terrível,

era um novo desastre. Havia seis milhões de desempregados,

mais de 20 milhões viviam do subsídio de desemprego.

As pessoas começaram a pensar que talvez Hitler tivesse razão.

A Alemanha devia ser vítima de uma conspiração internacional.

Os nazis diziam ter uma nova esperança de salvação.

Milhões estavam prontos a responder ao apelo emocional de Hitler:

um ressurgimento da grandeza alemã,

com base no orgulho étnico, na lealdade à sua raça.

Para os que viviam na miséria,

era inspirador ouvir dizer que eram a raça suprema

e que os judeus, ciganos, eslavos e negros eram subespécies.

Apelava a que pensassem melhor deles,

pensando pior de outrem.

Talvez a democracia tivesse falhado.

Talvez fosse uma questão de tempo até um governo autoritário,

nazi ou comunista, subir ao poder.

O povo respeitável que fazia fila para recuperar os bens dos bancos

teria sempre medo dos comunistas revolucionários.

As classes médias, arruinadas por forças que não controlavam,

responderam às promessas nazis:

uma sociedade ordenada, unidade nacional, fim da luta de classes.

Não haveria mais caos. Apenas ordem.

Karl Wolff vinha de uma família militar distinta.

Perdeu o emprego como oficial

quando os Aliados forçaram a Alemanha a reduzir o exército.

Em 1929, tinha 29 anos.

No final dos anos 20,

um antigo camarada do meu regimento de guarda,

o capitão Julius von Bernuth, foi a Munique

e explicou-me as condições num regime comunista.

Explicou-me que tudo levaria a uma grande decisão.

Ou para a extrema direita, o nacional-socialismo,

ou para a extrema esquerda, o comunismo.

E perguntou-me:

"Ofereceste-te como voluntário para a guerra muito cedo, não foi?

"Agora que há uma decisão política a ser tomada que afectará o futuro,

"o teu, o da tua família e dos teus filhos,

"também tu tens de te inscrever no partido,

mesmo que não queiras meter-te na política ou que não te interesse."

E foi assim que aconteceu.

Em 1931 , inscrevi-me no partido.

Nessa altura, apenas conhecia a SA.

Não fazia ideia da existência das SS.

Na entrada, havia uma enorme secretária.

Estavam lá pessoas sentadas com fardas do partido,

que ainda não me eram familiares. Perguntaram-me o que eu queria.

Expliquei-lhes e disse que queria ir para a SA.

O encarregado perguntou-me: "Foi soldado?"

E eu respondi que sim.

"- Na Primeira Guerra Mundial? - Sim.

"- Foi condecorado por bravura? - Sim.

O que tem?"

Disse que tinha uma Cruz de Ferro de primeira e segunda classes

e que tinha servido no regimento da guarda hessiana.

Depois disse: "Se serviu num regimento tão glorioso

"e se foi soldado na frente,

"então o seu lugar não é na SA.

"Tal como havia uma guarda de elite no tempo do Kaiser,

"há também agora uma no novo movimento a que se quer juntar.

"São as SS.

"É mais apropriado para si.

Devia ir para as SS."

As SS em que Karl Wolff ingressou

eram a ordem negra de cavalaria do nazismo.

O lema era: "O meu juramento é a lealdade. "

A insígnia era a Cabeça da Morte.

A farda negra deles simbolizava os seus ideais:

severidade, terror, o culto do super-homem conquistador.

Em "Mein Kampf", Hitler escrevera:

"Como nacionais-socialistas, vemos o nosso programa na nossa bandeira.

"O vermelho representa a ideia social do movimento.

"O branco, a ideia nacionalista.

"A suástica representa a missão da luta pela vitória ariana

"e também a vitória da ideia do trabalho criativo

que sempre foi e sempre será anti-semita. "

Em Janeiro de 1933,

o Presidente Von Hindenburg convidou Hitler a formar governo.

Os nazis festejaram em Berlim.

Hitler disse aos amigos

que era o início da maior revolução racial germânica da história,

revertendo o progresso das raças de cor:

mongóis, eslavos, judeus, ciganos e bolcheviques.

Hitler liderava uma frágil coligação de direita.

Os ministros nazis não tinham experiência de governo

e as suas políticas raciais

podiam ser bloqueadas por funcionários públicos.

Na verdade, estes estavam ansiosos por cooperar.

O Ministro do Interior, Goering,

sublinhou as novas prioridades do governo.

Farei uma limpeza total com uma vassoura de ferro

e expulsarei dos seus cargos

aqueles que, através de apoios vermelhos e negros,

tentaram suprimir todo o ressurgimento nacional.

Uma força particularmente destrutiva

anda à solta entre as pessoas do Reich: o comunismo.

Declarei guerra a esse movimento.

A 27 de Fevereiro, o Reichstag, o parlamento,

ficou misteriosamente destruído num incêndio.

Era a desculpa de que Goering precisava.

Emitiu um decreto de emergência

para combater a ameaça da revolução.

As SS e a SA, agora com funções policiais,

levaram sob custódia protectora todos os elementos subversivos,

especificamente comunistas, anarquistas,

sociais-democratas e os seus apoiantes activos.

Os centros de internamento passaram a chamar-se campos de concentração.

Em semanas,

30 mil opositores políticos de Hitler foram para lá.

Hitler tinha-se concedido poderes de emergência indefinidamente.

Em Abril,

as SS e a SA fizeram um boicote nacional às lojas judaicas.

Um exercício de propaganda para unir o país,

centrando a atenção no inimigo universal.

Um bom alemão ariano devia mostrar o seu germanismo essencial

através de actos contra os judeus, a anti-raça.

Numa semana,

surgiram leis que não permitiam funcionários públicos não arianos.

As profissões de médico, advogado, cientista e professor

também não seriam exercidas por judeus.

50 mil judeus foram levados a deixar a Alemanha.

Mas estas manifestações não foram um êxito total.

Houve pessoas que ficaram com pena dos judeus.

Os líderes dos 500 mil judeus que ainda estavam na Alemanha

formaram uma organização para tentar convencer os nazis

de que também eles eram alemães leais.

Sigmund Weltlinger, um corretor da Bolsa de Berlim,

era um judeu com influência.

Infelizmente, eu não era um profeta nesta situação.

Confiava completamente nos meus compatriotas alemães

com base em longos anos de experiência,

já desde os anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

Não podia imaginar que um povo mudasse assim tanto.

Achava que não havia qualquer ameaça pessoal,

ao meu corpo ou à minha vida.

Pensei que ia ultrapassar tudo aquilo. Não fugi.

10 de Maio de 1933.

As SS, a SA, professores e alunos recolheram livros

que se julgava "não estarem dentro do espírito nacional".

As obras de Lenine, Freud, Heinrich Mann e Marx

foram queimadas num acto público de purificação cultural.

No novo Estado, o intelecto era suspeito,

soava a algo judaico.

O que era necessário era uma obediência cega.

O intelecto apodrece o carácter, dizia Himmler.

O Ministro da Propaganda, Goebbels.

A era

do intelectualismo judeu exagerado chegou ao fim.

Com a nossa revolução alemã,

abrimos caminho para os costumes alemães.

O alemão do futuro

não será apenas um homem dos livros,

mas também um homem de carácter.

Nos bastidores,

as SS tornava-se o órgão mais temido do Estado.

Para substituir a brutalidade ocasional da SA,

introduziram um terror frio e calculado.

Hitler tinha dito:

"Se a propaganda incutiu uma ideia a um povo,

a organização pode inferir consequências com alguns homens. "

As SS eram esse punhado de homens.

Depois da chegada ao poder, Himmler convidou-me pessoalmente:

"Preciso de si. Quero criar uma Ordem de Cavaleiros das SS.

"Para isso, preciso de uma guarda de elite

"e quero criar uma tropa activa nas SS.

"Infelizmente, nunca lutei na frente e não fui um oficial,

"preciso de alguém que tenha sido.

"O Exército não me dá ninguém qualificado,

muito por inveja."

Deixei-me convencer

e então, por destino,

tornei-me ajudante de Himmler nas SS.

Lá tinha um óptimo campo de actividade,

organizando e dirigindo sem ninguém a controlar-me.

E, assim, subi muito depressa.

No poder, os nazis podiam empregar todos os recursos dos media

para promover o renascimento racial em que acreditavam.

Hitler disse:

"Quem vir o nacional-socialismo apenas como movimento político

"não sabe nada sobre ele. É até mais do que uma religião.

É a vontade de criar um novo homem. "

As SS indicariam o caminho.

Himmler queria realizar um sonho

e ele próprio foi muito influenciado por ele.

Seria o criador de um novo despertar da raça germânica

no seio do povo alemão,

que, devido às muitas guerras perdidas na Idade Média,

tinha sido invadido por estirpes do Leste, Ocidente e Sul,

que se tinham misturado e manchado o ideal louro germânico.

O sonho, como é mostrado em filmes como "Sangue e Solo",

era simples, mas sedutor.

Idealizava os valores inalterados do país,

de uma vida natural baseada no ar fresco,

na boa comida e na lealdade para com a família.

Dava ênfase à nobreza essencial do camponês alemão louro.

O seu sangue era rico e fértil como o solo alemão que ele lavrava.

Nas cidades, a taxa de nascimento era inferior à do campo.

A cidade era rígida, impessoal,

mecanizada, cosmopolita, suja e conspurcada.

Os nazis não podiam restringir o movimento da terra,

mas denunciavam as cidades como "centros de caos racial,

"adequados às características especiais dos judeus

que lhes davam a possibilidade de avançarem na vida. "

Os comícios falavam sempre do verdadeiro povo, do camponês.

Hitler escrevera: "Um Estado que, nesta era de envenenamento racial,

"se dedica a cuidar dos seus melhores elementos raciais,

será um dia senhor do mundo. "

O nazismo era biologia política.

Faziam-se filmes para provar as leis de selecção natural de Darwin,

a sobrevivência do mais apto.

Será que um dos lucanos será morto na luta?

É o mais provável. Mas precisamos disto para o filme.

Estamos a obrigar estes lindos animais a lutar pela vida.

Podiam ter continuado a viver pacificamente.

Mas, minha cara Fräulein Volkman,

ninguém tem uma vida pacífica em sítio nenhum da natureza.

Mas, professor, nem todos lutam com os outros.

Talvez não assim,

mas todos vivem numa luta constante,

na qual o mais fraco é destruído.

O pássaro doente é apanhado pelo gato.

Ocorrem lutas dentro da mesma espécie

e o mais fraco é derrotado.

Têm uma política racial adequada!

De certo modo, sim.

Apesar de esta selecção ocorrer de um modo mais instintivo.

Se um animal tiver perdido contacto directo com a natureza,

então esta selecção natural já não ocorre.

Esse é o problema dos nossos animais domésticos.

O criador tem de se certificar de que a espécie se mantém pura.

Os cavalos, continua o filme a explicar,

são criados para diferentes funções:

para correr ou para trabalhar no campo.

Estas ideias devem também ser extensivas aos humanos.

A luta pela sobrevivência exigia uma juventude saudável,

de sangue puro.

O amor entre as raças não era natural.

Hitler disse que queria "o renascimento da nação

através da criação deliberada de um homem novo. "

As SS iriam dar início a este projecto.

Havia grandes cuidados no medir da altura,

no formato do crânio e no registo exacto da cor do cabelo,

da cor dos olhos e, em certas circunstâncias,

as orelhas e o queixo.

Todo este tipo de coisas.

Seleccionando em conjunto,

podíamos depois esperar pelo desenvolvimento.

Mas havia apenas um pensamento racial positivo:

como melhorar algo, como criá-lo.

Nunca em pensamento. Nunca ninguém falava disso

e nunca nos ocorreu que falávamos arrogantemente

em exterminar alguém que não nascera com a pele branca,

que era culturalmente inferior a nós

ou que era indesejável.

Foi um desenvolvimento assustadoramente degenerado

que apenas surgiu devido às pressões da guerra,

com toda a outra degeneração que a guerra provoca.

Em Nuremberga, em Setembro de 1935,

os nazis anunciaram leis raciais.

O Acto de Cidadania do Reich

e o Acto de Protecção do Sangue Alemão e da Honra Alemã.

Goering declarou o fim dos direitos políticos dos judeus.

O casamento ou sexo entre judeus e pessoas de sangue alemão ou aliado

era proibido no interesse da "sobrevivência da raça alemã".

A raça era ensinada na escola.

Os desenhos nazis nos livros escolares

comparavam o ariano forte e trabalhador

com o judeu preguiçoso e desonesto.

Para os jovens, o partido organizava campos

que encorajavam um espírito activo e com gosto pelo ar livre.

Jovens das ruas más das cidades

aprendiam a ter orgulho dos corpos arianos saudáveis.

Por trás das brincadeiras, estava o sonho de Hitler de uma juventude

"que provasse a magnificência do predador,

purgado de toda a brandura cristã pouco natural. "

Dizia-se que Himmler era como um director de uma escola do campo.

Ficava comovido só de ver crianças louras saudáveis.

Criou casas de acolhimento para os filhos ilegítimos dos seus homens.

Mais tarde, quando a guerra começou,

pediu-lhes que, com o mais profundo fervor,

gerassem mais filhos fora dos seus casamentos

para aumentar a quantidade de bom sangue alemão.

No novo estado alemão, todos admiravam as SS.

As SS eram a guarda do movimento, o braço militante do movimento.

E, como era uma elite,

não só física e racialmente,

mas também em termos de carácter,

só podia ser uma minoria.

Quanto aos requisitos básicos, para terem uma ideia,

deviam ser o mais louros possível e ter olhos azuis.

Tinha de haver uma selecção rígida,

que tinha de ser encorajada e controlada.

Os homens das SS, os eleitos, não podiam casar-se com quem quisessem.

As mulheres deviam ser suas iguais,

para que pudessem depois procriar

os velhos teutões racialmente puros.

Por exemplo, um homem das SS não podia casar de qualquer modo.

Tinha de entregar o impresso de casamento,

a sua futura noiva, a sua namorada,

tinha de ser vista por um médico do Departamento de Raça e Recolocação

para ver se ela era adequada.

Só depois disso e de ter permissão é que ele podia casar-se.

Himmler era o executor privilegiado da vontade

e das decisões do seu Führer, Adolf Hitler,

que ele idolatrava.

A começar pela concepção de Hitler

que encarava a cristandade

como uma doença na natureza germânica,

ele considerava que era seu dever,

não só renovar e melhorar a raça germânica o mais possível,

mas também renovar e melhorar a religião.

E levá-los de volta, passo a passo,

a uma nova espécie de reconhecimento de Deus

e a novas formas de culto.

De vez em quando, o nosso capitão falava de armas ou algo assim.

De repente lembrou-se e perguntou:

"Quem já deixou a Igreja?"

E muitos levantaram-se.

Eu fiquei um pouco chocado e ele perguntou:

"Quem ainda não deixou a Igreja?"

Levantei-me e olhei à minha volta

e vi que também havia outros e fiquei aliviado.

Era melhor do que estar ali de pé sozinho.

E disse: "Meu capitão, não posso deixar a Igreja.

"Os meus irmãos, irmãs e pais são católicos.

Excluíam-me da família se eu fizesse uma coisa dessas."

Para substituir a religião, Himmler inspirou-se no passado teutónico.

Os alemães esmiuçaram a pré-história nórdica

para reviver a herança espiritual e cultural

da melhor raça do mundo.

As SS aprenderam os mistérios e mitos do passado dos teutões.

Em Bad Tolz, criou-se uma escola para oficiais das SS.

Uma escola de cavalheiros, para treinar mente e corpo.

Testes de coragem física e de obediência:

balançavam granadas nos capacetes até elas rebentarem,

disparavam contra eles em campos de batalha

e, ao pequeno-almoço, comiam papas de aveia prescritas por Himmler,

pois admirava o modo como tinham transformado os alunos ingleses

em criadores de um império.

Um homem das SS tinha de ser um atleta destemido.

Himmler era frágil, tinha uma ponta de hipocondria

e tinha muitas dores de cabeça.

No entanto, longe das câmaras,

ele forçou-se a ele mesmo a fazer os testes desportivos das SS.

Por trás do ênfase no desporto para desenvolver coragem e disciplina

estava o assistente de Himmler, o esgrimista Reinhardt Heydrich.

Expulso da Marinha por ser mulherengo,

tornou-se chefe do Departamento de Segurança das SS,

o instrumento de terror e de assassinato dos nazis.

Os SS juravam obediência total ao Führer até à morte.

Era o próprio Himmler que os ajuramentava.

Eles foram levados a pensar que eram os Filhos da Luz.

Que estavam numa luta contra os poderes das trevas.

As SS baseavam-se no exemplo da Ordem Jesuíta,

que fora criada como guarda de elite da Igreja Católica

por Inácio de Loyola,

com leis muito rígidas e severas.

E Himmler foi lá buscar muito disso:

a hierarquia, a selecção rígida e a liderança e os castigos.

"Arbeit Macht Frei. " "O Trabalho Liberta-vos"

podia ler-se nos portões do campo de concentração de Dachau.

Como guardiões morais do sistema nazi,

era lógico para as SS terem centros de castigo.

Em Dachau, ensinavam aos guardas que ter pena dos inimigos do Estado

não era digno de um homem das SS.

Não havia lugar para homens com coração mole.

Não era por acaso que o emblema deles era a Cabeça da Morte

e que andavam com uma arma carregada.

Os prisioneiros eram reduzidos à subserviência total

através da brutalidade impessoal, da crueldade metódica.

Os prisioneiros não eram pessoas, eram números.

E os campos eram essenciais ao sistema nazi.

Eles eram necessários, na opinião de Himmler e de Hitler,

um como chefe de Estado e outro como chefe da Polícia alemã,

para eliminar temporariamente

elementos criminosos e associais.

Dividi-los naqueles que eram incuráveis

e nos que podiam ser convertidos

e, portanto, salvos para uma tarefa activa e positiva

na comunidade popular alemã.

Não eram apenas criminosos comuns,

mas também presos políticos.

Hitler escrevera: "O terrorismo é uma ferramenta política eficaz.

"Não vou privar-me dele,

"só porque os burgueses preguiçosos e simplórios ficam ofendidos.

"As pessoas pensarão duas vezes antes de se opor a nós

se souberem o que as espera nos campos. "

Dachau era o modelo para todos os campos,

a escola de treino para as unidades da Cabeça da Morte

que, um dia, forneceriam os gestores da "Solução Final".

Entre 1934 e 1938, os campos nunca tiveram menos de 20 mil pessoas.

Muitas morreram lá.

Em 1938, os nazis estavam no poder há cinco anos.

Houve um comício para a juventude do país no castelo de Landsberg,

um templo nazi por Hitler ter lá estado detido por pouco tempo.

"Alemanha, palavra sagrada,

viverás para sempre, triunfarás sobre o tempo. "

Hitler sempre falara de uma Alemanha superior,

um estado étnico que uniria todos os povos de língua alemã.

Estava na hora de passar o facho da comunidade racial nazi

para lá das fronteiras da Alemanha.

As tropas de Hitler entraram depressa na Áustria

e na região dos Sudetas na Checoslováquia,

unindo duas comunidades de língua alemã à grande família alemã.

Hitler disse na sua cidade natal, Linz,

que tinha alcançado uma missão histórica.

E os homens de Himmler, ajudados por nazis locais,

reuniram os opositores.

Encorajadas pelas SS,

fantasias anti-semitas mal contidas foram violentamente libertadas.

Foi pior do que tudo o que já se vira na Alemanha.

Heydrich, como outros fanáticos nazis, estava a ficar impaciente

por tão pouco ter sido feito para expulsar os judeus.

Reuniu 10 mil e abandonou-os junto à fronteira com a Polónia.

Devido ao tempo gélido, muitos morreram.

O filho de um deles, Herschel Grynspan,

tentou matar o embaixador alemão em Paris.

Confuso, matou um membro mais novo do pessoal da embaixada,

Ernst von Rath.

Von Rath foi considerado um mártir dos judeus

e teve direito a funeral de Estado, a que Hitler foi,

por entre o brilho da publicidade nazi,

enquanto, secretamente, eram feitos planos

para a intensificação da emigração dos judeus.

A questão judaica tinha de ser resolvida de uma vez por todas.

Hitler avisara que o partido não podia ser visto

a instigar manifestações contra os judeus,

mas, se houvesse manifestações espontâneas,

não era obrigação deles evitá-las.

Na noite de 9 de Novembro de 1938,

milhares de lojas judaicas foram destruídas, janelas foram partidas.

Queimaram-se sinagogas por toda a Alemanha.

91 judeus foram mortos.

"Die Kristallnacht. " A Noite de Cristal.

Esta manifestação espontânea foi conduzida pelos homens de Heydrich.

Na manhã seguinte, as SS levaram 30 mil judeus mais ricos

para campos de concentração.

Fomos todos empurrados com bastões e golpes

e tivemos de ficar em filas compactas e de ser contados.

Como já tinha sido soldado, não achei aquilo difícil.

Mas os que não se punham na fila eram logo espancados.

O comandante do campo fez um discurso:

"Vocês não estão num sanatório

"e, se tentarem fugir, disparamos logo

e os nossos soldados são bons atiradores."

Foi a primeira noite.

De manhã, vimos longas filas de seres humanos

com caras cinzentas em fatos de trabalho às riscas

e passavam como sombras,

mas nunca sonhámos que, em oito dias,

estaríamos exactamente como aquelas colunas.

Ao fim dos primeiros dez dias,

25% das pessoas que foram levadas para lá já tinham morrido.

Saí por ser veterano de guerra.

Os veteranos de guerra saíam mais cedo.

A comunidade judaica tinha criado comités

para os representar junto dos nazis.

Agora, os homens de Himmler apoderavam-se deles.

Receberam ordens para ajudar a apressar a emigração judaica

e a recolher os impostos pesados impostos aos milhares

que agora faziam fila para sair da Alemanha.

Após a sua libertação do campo, Sigmund Weltlinger foi trabalhar

para a comunidade judaica em Berlim.

Era um trabalho muito, muito difícil.

Tinha 12 advogados a trabalhar comigo

e vários contabilistas da comunidade judaica.

Era um trabalho muito difícil em termos humanos,

porque tinha de dizer às pessoas que queriam emigrar

ou que iam ser expulsas:

"Faça uma lista dos seus bens, declare os seus bens.

Damos-lhe um recibo e depois será transportado."

Disseram: "Mas porque temos de os declarar? Assim perdemo-los."

Depois expliquei-lhes que, se Hitler ficar, os perdiam na mesma.

Hitler dissera:

"Um anti-semitismo razoável tem de levar à expulsão dos judeus. "

Através do terror, eram obrigados a sair,

eram despojados de tudo o que tinham antes de partir.

A operação foi feita seguindo um sistema criado em Viena

por um dos agentes de Heydrich,

o tenente Karl Adolf Eichmann das SS.

Wilhelm Hottl era um jovem licenciado em História

que integrara as SS quando os nazis entraram na Áustria.

Perguntei a Eichmann: "De qualquer modo, as pessoas querem sair.

"Se, como parte do programa, querem livrar-se deles,

porque tornam a saída deles tão difícil?"

O esquema implicava que um judeu que quisesse emigrar da Áustria

tivesse de arranjar primeiro um visto

e uma confirmação do Ministério das Finanças de que não tinha dívidas.

Depois, precisava de um lugar num navio

e autorização para transportar a sua mobília, etc.

Expliquei tudo isto a Eichmann,

que era um homem bastante difícil.

"Se a situação é essa,

"porque não facilita a vida às pessoas que querem sair?

Quer os judeus lá fora e eles querem sair de moto próprio."

E esta é que é a parte grotesca.

Eu quase fundei o Departamento Central para a Emigração Judaica,

que foi criado em Viena.

Era o primeiro de sempre.

Mal funcionavam na Alemanha, mas em Viena aquele funcionava.

Eichmann organizou-o.

Requisitaram o edifício do ballet que pertencia ao barão Rothschild

e fizeram tudo como eu tinha imaginado.

Havia um representante do Departamento de Passaportes,

um representante das autoridades financeiras,

um representante do departamento de embarque

e representantes dos transportes.

Um pobre judeu que quisesse emigrar

podia agora tratar de tudo em duas horas, ficava com tudo tratado

e podia sair.

Ao todo, cerca de um milhão de judeus queria "sair".

Mas para onde?

Os países apertavam as suas quotas de entrada.

O primeiro-ministro britânico, Chamberlain,

não se atrevia a admitir que deixava entrar 500 por semana

com medo de instigar o anti-semitismo britânico.

Até o arcebispo de Cantuária tinha de escolher as palavras.

Peço-vos que pensem, por um momento,

nos homens, mulheres e crianças

que estão a ser obrigados a sair de suas casas na Alemanha e na Áustria

por uma perseguição cruel.

O seu único crime é a raça a que pertencem.

Devido a isto, as vidas deles

foram deliberadamente tornadas insuportáveis.

O nosso próprio governo e outros governos

têm de fazer tudo para encontrar os espaços abertos da Terra,

encontrar um sítio onde, em enormes colonizações,

estas pessoas infelizes possam viver em liberdade e em paz.

Foi por isto que Lord Baldwin fez um apelo nacional.

Este fundo ajudará imparcialmente

todas as vítimas de perseguição

e, lembrem-se,

entre eles há imensos cristãos e imensos judeus.

Dêem o que puderem a este fundo.

Peço-vos que façam a vossa parte

neste trabalho de misericórdia.

A Palestina era a casa bíblica dos judeus.

Desde que Hitler subiu ao poder, muitos judeus tinham ido para lá.

Os países desenvolvidos não os aceitavam.

A sua solução era encontrar um espaço

onde os judeus pudessem ficar sem problemas.

Talvez a Palestina sob controlo britânico fosse a resposta.

Mas os árabes que já lá viviam opuseram-se.

Os árabes estão contra a política do governo britânico

na Palestina.

Uma política que, se continuar, terá certamente como resultado

a substituição dos árabes pelos judeus.

Os árabes apoiaram as suas reivindicações no terrorismo.

Em 1939,

os britânicos limitaram a imigração de judeus para a Palestina

a 10 mil por ano.

Colocar um milhão de judeus a esse ritmo demoraria cem anos.

O Reichstag, 30 de Janeiro de 1939.

Hitler revelou que a sua política em relação aos judeus

poderia ir para além da expulsão.

Se os financeiros internacionais judeus dentro e fora da Europa

envolvessem as nações noutra guerra mundial,

o resultado não seria a vitória do judaísmo,

mas a aniquilação da raça judaica na Europa.

Durante anos, peritos em saúde nazis

pediram a Hitler que ordenasse a morte misericordiosa

dos loucos e dos doentes incuráveis.

Mas Hitler receava que isso ofendesse a opinião pública.

Então, o Ministério da Saúde fez uma série de filmes de propaganda.

Na natureza, as criaturas fracas morrem todas sem excepção.

Nas últimas décadas, os homens pecaram terrivelmente

contra esta lei da selecção natural.

Não só preservámos vida sem valor,

como permitimos que procriasse e se multiplicasse.

Ao filme pouco faltou para defender a eutanásia,

mas dava ênfase ao desperdício de recursos escassos

e de enfermeiras treinadas que cuidavam de "parasitas".

A questão tinha acalmado até à guerra,

quando, como Hitler disse:

"A Igreja não seria capaz de resistir. "

Nos bastidores, a SS recrutara a sua equipa de médicos

dispostos a praticar princípios nazis de biologia social.

Num papel escrito à mão e com a data de 1 de Setembro de 1939,

Hitler autorizou o início da "morte misericordiosa".

1 de Setembro de 1939. Guerra contra a Polónia.

Cineastas receberam ordens para retratar um povo unido,

ansioso pela luta.

Também a guerra era apresentada como biologia política.

"A lei inalterável da vida,

"o pré-requisito da selecção natural dos fortes

"e o precedente para a eliminação dos fracos.

"Um povo que não se afirma tem de desaparecer

e outro tem de tomar o seu lugar. "

Os polacos eram eslavos, uma raça inferior.

Desde sempre que a Polónia estava marcada por Hitler

como um "espaço para viver no Leste".

Mas a agressão nazi provocou uma segunda guerra mundial.

A Grã-Bretanha e a França ficaram do lado da Polónia.

A 5 de Outubro,

Hitler foi saudado no desfile de vitória em Varsóvia.

Na Polónia eslava, a política nazi podia ser posta em prática

sem preocupações com a opinião pública.

Lembro-me de haver uma banda alemã a tocar lá à frente.

Eu achava aquilo muito bom, estava feliz.

Até me lembro de ter batido palmas.

Na Polónia, rufias nazis podiam finalmente fazer o que gostavam.

E alguns polacos juntaram-se a eles.

O reino de terror durou até à Libertação.

Ordens secretas diziam que os espíritos animais dos homens

não deviam ser desencorajados.

Na Polónia, os judeus usavam barbas e roupas tradicionais.

Entusiastas nazis trataram de os "limpar".

Os ódios há muito nutridos encontraram um escape.

As autoridades incitavam-nos.

Aterrorizar uma parte da população ajudava a intimidar a restante.

Ficámos sem comida em casa.

Um dia, a minha mãe, paz à sua alma,

pediu-me para ir à padaria e passar a noite à porta

para conseguir um pão no dia seguinte

para haver algo que comer lá em casa.

Levantei-me a meio da noite e fui para a fila.

Quando cheguei, já lá estava imensa gente à espera.

Ao nascer do dia, um polaco de origem alemã

chegou com uma espingarda pendurada no ombro direito

e com uma braçadeira com uma suástica no braço esquerdo.

Ele ia manter a ordem para que todos recebessem pão.

Entre nós havia crianças.

Não eram judias, eram polacas e corriam à nossa volta.

Puxavam esse polaco com a espingarda e apontavam para todos:

"Este é judeu. Este é judeu. Este é judeu.

Das Jude. Das Jude. Das Jude."

Essas pessoas eram tiradas da fila e não recebiam pão.

Chegou a minha vez.

Virei-me e vi que o rapaz era um amigo com quem brincava.

Disse-lhe em polaco: "O que estás a fazer?"

A resposta dele foi: "Não sou teu amigo. És judeu, não te conheço."

O alemão da suástica estava à minha frente.

Vi que era nosso vizinho.

Falei-lhe em polaco e ele respondeu em alemão.

Disse: "Não sei polaco e não te conheço."

Tirou-me à força da fila onde eu esperava pelo pão

e deu-me um estalo.

Desatei a chorar, porque não sabia o que tinha acontecido.

O meu mundo tinha-se desmoronado.

A minha mãe tinha-me pedido para ficar na fila para levar pão

e uma coisa estranha acontecera.

O amigo com quem brincava e também o alemão,

duas pessoas que conhecia há tantos anos,

tinham-se virado contra mim. Não queriam conhecer-me.

Negaram conhecer-me e bateram-me.

Não me deixaram comer.

Pensei: "O que vou levar para casa?"

Era a primeira vez que me faziam sentir diferente dos outros.

Não era como os rapazes cristãos, os rapazes com quem brincava.

Hans Frank, um velho camarada de Hitler do partido,

ficou com a Polónia a seu cargo.

Disse ao seu pessoal: "O polaco deve sentir

"que não estamos a construir-lhe um Estado legal.

"Ele tem apenas um dever: trabalhar e comportar-se.

Assim que vencermos a guerra, transformamo-los em carne picada. "

Em muitos sítios, Frank pôs membros da comunidade alemã local,

Volksdeutsch, encarregues da supressão.

Bastava que um polaco fosse denunciado como antigo oficial,

advogado, político ou padre para ter uma execução sumária.

Não haveria potenciais líderes.

Os eslavos só serviam para ser escravos.

O mais pequeno indício de oposição ou de não-cooperação

implicava represálias contra toda a comunidade.

Apesar deste terror sangrento, alguns polacos resistiram,

arriscando a vida para proteger outros, incluindo judeus.

Os Esquadrões de Acção alemães, chefiados por homens das SS,

percorreram o país, fazendo execuções públicas aos milhares.

Himmler disse aos seus homens que era o tipo de tarefa

para a qual ele criara originariamente as SS.

"É muito mais fácil lutar como um soldado

"do que suprimir uma população obstrutiva de baixo nível cultural.

Mas devemos ser firmes. É a nossa responsabilidade perante Deus. "

A Polónia foi dividida em três partes.

Por não terem intervindo quando Hitler atacou,

os russos puderam ficar com o Leste.

A parte ocidental, com fronteira com a Alemanha,

foi incorporada no Reich. Seria colonizada por alemães.

Para haver espaço para eles,

os polacos tinham de ir para o que sobrara,

a área chefiada por Hans Frank.

Era o primeiro passo prático

em direcção a um novo desenho da Europa com traços raciais.

A migração forçada arrastou-se durante anos.

Pessoas de sangue alemão eram ajudadas a ir para a parte alemã.

Para terem espaço,

mais de um milhão de polacos foram empurrados para a parte de Frank.

Milhares morreram.

O programa de regermanização

foi chefiado pelo Departamento de Raça e Recolocação de Himmler.

Esta regermanização era uma tarefa extremamente difícil.

E foi levada a cabo por comissões especiais

que tentaram avaliar as pessoas racialmente,

visto que não podiam avaliar as convicções políticas delas,

saber se alguém ainda era pró-polaco no fundo do coração.

Dissemos que aquilo era inútil,

tínhamos era de os examinar.

Um dos líderes do Departamento de Raça e Recolocação foi lá colocado

para examinar as pessoas.

De acordo com o resultado dos testes,

eram divididas em duas categorias.

Para os nazis, os polacos eram inferiores.

Os judeus polacos, que eram três milhões,

eram sub-humanos e tinham de ser tratados como tal.

Tinham de usar uma estrela identificativa.

Usando a estrela, os judeus eram imediatamente reconhecidos.

Proibidos de viajar sem autorização,

os judeus polacos estavam sujeitos a recolher obrigatório, a assédio.

Podiam ser capturados em qualquer altura e sem aviso

e ser obrigados a fazer trabalhos forçados.

A teoria oficial era que os judeus eram os culpados pela guerra.

Eram filmados para as Actualidades alemãs,

obrigados a resolver o que haviam provocado.

Os alemães proibiram os judeus de entrar em lojas de alemães,

Volksdeutsch, alemães étnicos.

Eram obrigados a tirar o chapéu a todos os alemães.

Na verdade, a vida dos judeus foi interrompida, parada.

"Um anti-semitismo razoável tem de levar à expulsão dos judeus. "

Desde o início que Hitler prometera purificar o Reich.

Decidiu-se que agora isso podia ser feito.

Os judeus iriam para reservas na Polónia.

Colocaram-se avisos.

Todos os judeus da Polónia e mais um milhão de todo o Reich

deviam ser levados para áreas designadas.

Levámos um carro pequeno.

Eu e o meu pai fizemos um carro pequeno e avançámos.

Milhares e milhares, dezenas de milhares andavam,

levando os seus pertences com eles:

alguns à cabeça, outros às costas e alguns aos ombros.

Havia crianças, idosos, bebés.

Parecia o exílio dos povos, o exílio do Egipto.

Mas também era interessante ver o lado ariano,

os cristãos polacos, e como eles viam aquilo.

Muitos deles aplaudiram, porque estavam contentes.

"Agora vamos comprar as casas deles. Vamos tomar conta de tudo.

Vai correr bem. Com as mobílias que eles deixam, teremos tudo."

A zona da Polónia de Frank ficou tão cheia de judeus

que ele se queixou a Hitler.

As deportações tinham de parar. Ele não podia receber mais judeus.

Hitler concordou. Tinha de haver uma alternativa.

Acontecimentos na guerra levaram à reexaminação de uma velha solução.

No Verão de 1940, Hitler atacara a Europa Ocidental.

Se aquela campanha acabasse com a guerra,

talvez se resolvesse a questão judaica

com a emigração para fora da Europa.

Quem examinou o problema era a favor de os enviar para Madagáscar,

uma ilha ao largo da costa africana, uma posse francesa.

Nesse Verão, enquanto Exército e SS varriam a Europa Ocidental,

burocratas do Departamento de Emigração Judaica

completavam o seu plano detalhado.

Milhões de judeus seriam levados para uma ilha dominada pela doença

e de onde a única saída era a morte.

Mas isso não se cumpriria.

Apesar de os nazis controlarem a Europa até ao Canal da Mancha

até ao fim de Julho, a guerra não terminou.

Os judeus não podiam ser enviados para fora.

Em vez disso, as SS tinham mais seis países para subjugar.

Mas, no Ocidente, a abordagem teria de ser diferente.

A maioria também era de cepa nórdica ou germânica.

Começaram a registar toda a gente e a emitir bilhetes de identidade.

Por exemplo, os holandeses, de acordo com a teoria nazi,

eram da melhor cepa racial.

Tinham de se preparar para uma união com os alemães.

Mas entre a população havia centenas de milhares de judeus,

mas não se sabia quem e quantos eram.

Lá os judeus estavam bem integrados na comunidade,

falavam a mesma língua, vestiam as mesmas roupas.

Apesar das suas teorias, os nazis não tinham um teste científico

que lhes dissesse quem tinha ou não sangue judaico.

Arranjaram uma maneira inocente de o descobrir.

Tínhamos de preencher um impresso

em que perguntavam se tínhamos avós judeus.

Não tinha nenhum, portanto disse que não.

Íamos para casa sem perceber que ajudáramos a encurralar os judeus,

a torná-los vulneráveis e a colocá-los numa situação

em que podiam, mais tarde, ser transportados e gaseados.

Não nos apercebemos.

Após um ano de melhor politização,

hesitávamos quanto ao que aquilo realmente significava.

Mas a primeira impressão era: a nossa idade, a nossa morada,

avós de origem judaica. Não? Está bem.

Foi um processo feito passo a passo.

O processo da infiltração

do nazismo na sociedade existia.

Quando os bilhetes de identidade foram emitidos,

os judeus viram que os deles tinham um J - Jude -judeu.

Foi terrível. Era a primeira vez que nos marcavam.

Tínhamos o bilhete de identidade e tínhamos de andar com ele

e era muito especial por ter um J.

Pela primeira vez, sentíamos a diferença.

Éramos marcados, porque podiam pedir-nos o bilhete

e o J estava lá.

Foi o primeiro sinal de alarme que tivemos na nossa casa.

Na Polónia, em Setembro de 1940,

os judeus foram de novo tirados das suas casas.

A deportação para fora da Europa era agora impossível.

Frank recebeu ordens para se preparar para mais um afluxo.

Ordenou que todos os judeus fossem reunidos

e enfiados em guetos fechados.

Em cada cidade polaca,

uma área delapidada era transformada num recinto judaico.

Frank disse a Hitler que isto só podia ser uma medida de transição.

Ele não tinha mais espaço.

Tinha de haver uma solução final para o problema judaico,

com base na expectativa de que tinham de desaparecer.

Construir um muro com 1,5 km2 não era fácil em Varsóvia.

As rotas dos eléctricos não podiam ser desviadas.

Continuavam a passar pelo meio do gueto,

com uma ponte construída por cima para os judeus atravessarem.

Em Varsóvia, numa área que alojara 25 mil pessoas

havia agora 500 mil.

Só havia dois poços de água.

O gueto era pequeno. Quando nos levaram para lá,

puseram três famílias com crianças num só quarto.

Três famílias com crianças num só quarto.

Nunca dormíamos.

Quando Frank passou a tomar conta da Polónia,

ordenou que os judeus elegessem os seus próprios conselhos.

Os líderes da comunidade judaica esperavam que, com os conselhos,

pudessem mitigar os piores efeitos do domínio alemão.

Transmitiam as ordens dos alemães e organizavam o trabalho.

Em troca, podiam arranjar trabalho de caridade,

distribuir rações e reabrir hospitais.

Mas os alemães tornavam-nos responsáveis

pelo cumprimento das ordens nazis.

Homens bem intencionados viam-se encurralados.

Tinham-se transformado na autoridade que dirigia o gueto

em nome dos nazis.

Os conselhos recrutaram uma força policial judaica.

Tinham de supervisionar a parte sanitária

e de aplicar o controlo dos preços. Mas também acabaram por perceber

que tinham de trabalhar directamente para os alemães.

Como o meu pai tinha um curso superior,

tentou e conseguiu um lugar na força policial.

Teve de fazer um curso

e tornou-se oficial da Força Policial Judaica.

Só tinham passado quatro ou cinco semanas,

quando o meu pai percebeu qual era realmente o seu trabalho

como oficial da Força Policial Judaica.

Não podia aceitar isso.

Inocentemente, pensara que era só uma questão de aplicar a ordem,

de manter a ordem no bom sentido.

Mas ele viu que a vida no gueto era uma vida de animais,

uma vida animal.

E o seu trabalho era oprimir as pessoas.

Foi por isso que se demitiu.

A pena de morte era aplicada às infracções mais triviais.

Quem era encontrado fora dos muros do gueto era enforcado,

enquanto os outros assistiam.

As rações do gueto eram piores que as da prisão

e a comida era rejeitada por ser "imprópria para consumo humano".

Crianças esfomeadas imploravam,

arriscavam as suas vidas para conseguir algo para comer.

Diz muito da mentalidade nazi

o facto de filmarem a vida nos guetos com um pormenor tal,

em parte para ficar como registo, mas especialmente para propaganda,

para acabar com a compaixão pelos judeus.

Com o comentário certo e montagens bem feitas,

os judeus eram retratados como preguiçosos, mercenários, maus,

naturalmente sujos e cheios de doenças.

Tinham de ser isolados para o bem dos outros.

"Judeus, piolhos, tifo" era o slogan.

Os filmes nunca foram acabados. Talvez alguém se tenha apercebido

de que podiam ter um efeito contrário ao desejado.

Lembro-me de que a minha irmã mais nova, que se chamava Adela,

pedia sempre algo para comer à minha mãe.

Dizia: "Pão, pão, pão."

E a minha mãe não tinha nada para lhe dar.

Eu percebia a situação e aceitava-a,

mas a Adela tinha menos três anos do que eu, tinha oito anos.

Não queria aceitar aquilo, porque não compreendia.

Só gritava: "Pão, pão, pão! Comida!" Mas não havia nada.

Ao fim de um ano,

uma pessoa em cada dez nos guetos morria de doença e fome.

Mas Hans Frank insistia que eram apenas uma "medida de transição".

Continuava a exigir uma "solução final".

Os judeus tinham de desaparecer.

22 de Junho de 1941. Hitler atacou a Rússia.

Foi um acontecimento político e biológico

que a filosofia nazi declarara ser inevitável.

A luta para determinar o futuro rumo da história mundial.

"A luta será muito diferente da luta no Ocidente, "

disse Hitler aos seus generais.

O avanço rápido nas primeiras semanas

e os milhões de prisioneiros russos pareciam confirmar a afirmação nazi

de que o sistema comunista era corrupto e se ia desmoronar.

Que o soldado alemão era superior ao eslavo sub-humano.

Himmler disse aos seus oficiais: "Esta é uma guerra de aniquilação,

"levada a cabo pela Alemanha como semente da raça teutónica

"contra os inimigos sub-humanos do mundo inteiro.

"Somos mais valiosos do que aqueles que nos ultrapassam em número.

"Somos mais valiosos, porque o nosso sangue

"nos permite inventar mais, governar melhor do que outros.

"É aqui no Leste que está a decisão.

"É aqui que o inimigo russo,

"estes 200 milhões têm de ser destruídos.

E, um por um, têm de os fazer sangrar até à morte. "

Rosenberg, um proeminente teórico racial nazi,

foi nomeado por Hitler Ministro dos Territórios Ocupados a Leste.

O plano era dividir a União Soviética

em reservas raciais separadas e controladas por alemães.

Os territórios ocupados a leste seriam tratados como colónias,

habitadas não só por alemães, mas por holandeses, escandinavos

e, depois da guerra, por britânicos.

Os colonizadores explorariam os nativos como mão-de-obra barata.

As famílias eslavas não tinham direitos.

Podiam ser separadas, levadas para longe

ou postas a trabalhar. Como os alemães decidissem.

Os seus filhos não teriam instrução.

Só precisavam de saber o significado dos sinais de trânsito,

o nome da capital do Reich e algumas palavras em alemão.

Continuariam submissos

através de uma política de recolocação implacável,

as suas rações seriam reduzidas abaixo do nível de subsistência.

Hitler disse que "desfaria séculos de humanitarismo errado".

Em projectos de construção,

em fábricas e em quintas,

os eslavos seriam os servos de um novo sistema feudal.

As SS seriam a nova ordem dos Cavaleiros Teutónicos.

Após a guerra, podiam governar o novo império em fortes armados.

Na visão de Himmler,

beber o leite da égua selvagem da estepe,

gerar crianças de sangue puro.

Os nazis não viam necessidade de tratar

os milhões de prisioneiros russos como seres humanos.

Fechados em recintos temporários como animais,

era-lhes indiferente se morriam.

Para Hitler, a guerra contra a União Soviética

era uma luta racial e ideológica até à morte.

Na Rússia, havia milhões de judeus.

Durante o planeamento da campanha russa,

ele chegara a uma decisão fatal.

A pressão para arranjar uma "solução final" continuava.

Tinham de se ver livres dos judeus.

Usar a guerra para encobrir o assassínio deles.

Havia três milhões de judeus na Polónia.

Logo depois, veio a campanha russa

e encontrámos mais cinco milhões de judeus na Rússia.

Como poríamos aqueles oito milhões a emigrar,

usando métodos demorados e oficiais,

se não pudéssemos, como planeado,

depois da guerra,

organizar uma emigração geral, organizada e protegida

para Madagáscar?

Tínhamos conquistado a França e tê-la-íamos compensado bem.

Dávamos-lhes uma das nossas colónias em troca de Madagáscar.

A ilha era suficientemente grande para acomodar os oito milhões.

Mas cortaram-nos as saídas na guerra. Não tínhamos alternativa.

Himmler concordou que a solução lógica era matar os judeus.

Hitler deu-lhe ordens usando palavras cuidadosas.

Ele tinha de cumprir certas tarefas especiais,

devido à necessidade de resolver o conflito

entre dois sistemas políticos opostos.

Himmler mandou criar Esquadrões de Acção, Einsatzgruppen, nas SS,

treinados em técnicas de matar em massa.

Conseguiam matar até cem mil pessoas por mês.

O assistente de Himmler, Heydrich,

treinou-os pessoalmente.

"O judaísmo no Leste foi a origem do bolchevismo

e deve, por isso, ser eliminado. "

A justificação é que estavam a destruir comunistas fanáticos.

O disfarce era que estavam envolvidos

em operações antipartidárias.

As mortes tinham de ser mantidas em segredo.

Os nazis sabiam que, apesar dos anos de educação racial,

o seu povo não veria a necessidade biológica

de matar homens, mulheres e crianças desarmados.

Rivka Yosilevska esteve no gueto de Pinsk, na Ucrânia.

Uma brigada assassina chegou lá em Outubro de 1942.

Fomos para o pátio.

Ouvimos barulho, as pessoas a falar muito alto.

Havia muitos alemães no gueto, muitos alemães.

"O que se passa? O que poderá ser?"

Todos pensaram que nos iam levar a todos só para trabalhar.

Peguei numas coisas e vesti a minha filha.

Ela tinha cinco anos e vesti-a com um bom vestido.

Ela disse: "Mamã, porque me estás a pôr esse vestido?

"É um vestido do Sabbath, não mo vistas.

Não quero vestir um vestido do Sabbath."

Chegaram duas camionetas e eles abriram os portões.

Disseram-nos para subirmos para as camionetas.

Os que estavam suficientemente fortes conseguiram subir.

Os que não tinham forças foram atirados para lá como gansos.

A camioneta ficou cheia e veio a segunda camioneta.

Encheram a segunda e arrancaram.

Vivíamos no fundo do gueto, portanto ficámos para o fim.

Fomos dos últimos.

Chegámos ao local e o que se via era horrível.

O que os meus olhos viram...

As pessoas que já tinham chegado nas duas camionetas

estavam despidas.

Tinham dado ordem para se despirem, saírem das camionetas,

deixarem lá as roupas e chegarem-se para o lado.

Foram alinhados em filas de quatro

e era assim que os matavam.

Faziam aquilo numa encosta.

Matavam-nas numa encosta e as pessoas caíam.

Quando cheguei ao local, quis ver o que se passava.

Fiquei na encosta e percebi que tinha chegado a hora.

Era o nosso fim.

Estavam a disparar, as pessoas estavam mortas.

A minha filha esteve o tempo todo nos meus braços.

Encontrei forças para a carregar.

Estava tão agarrada a mim que nem me consegui despir.

Ela não me deixava. Disse:

"Vamos fugir, eles vão matar-nos. Porque havemos de ficar aqui?"

Ela empurrou-me para trás.

"Porque é que as pessoas ficam paradas e não fogem?

Porque ficam paradas?" Eu não conseguia falar.

Acho que lhe disse: "Para onde havemos de fugir?"

Algumas pessoas tentavam fugir, mas eles não deixavam.

Havia muitos alemães a guardar-nos. Havia muitos alemães.

Mas também tinham conseguido juntar os não-judeus de várias cidades

para se certificarem de que não fugíamos.

Eram uma espécie de força policial.

Acabámos por nos despir. Não tínhamos alternativa.

O meu pai não queria despir-se.

Deram-lhe uma sova até ele cair ainda vestido.

Começaram a despi-lo à força.

A minha mãe começou a gritar.

Implorámos que tirasse as roupas para não lhe baterem.

Acabaram por lhe rasgar as roupas.

Por causa dele, bateram em todos nós,

porque ele tinha sido teimoso e tinha-se recusado a despir-se.

E foi o que aconteceu até chegar a nossa vez.

Éramos cerca de 500. A nossa vez chegou.

Avancei e vi o meu pai desaparecer,

a minha mãe a ser morta, as minhas irmãs a serem mortas.

A minha irmã era muito bonita, era linda.

O alemão olhou-a nos olhos e ela implorou-lhe que a deixasse ir.

"Não me mate. Deixe-me viver."

De nada adiantou. Ela foi morta.

Depois, subi com a minha filha nos braços.

Ele disse-me para a pôr no chão.

Eu queria, mas ela não me largava.

Escondeu a cabeça para não ver o que lhe iam fazer.

Lembro-me de ele a ter puxado à força e de a pôr de pé.

Deu-lhe um tiro ou não.

Não vi nem ouvi.

Depois, deu-me um tiro.

Fiquei ali parada e ouvi um tiro.

Não me tocou.

Outro tiro. Eu caí.

Ele matava toda a gente aqui, na nuca.

Não matava as pessoas todas juntas.

Cada alemão matava uma pessoa à vez

na nuca, aqui atrás.

Caí. Acabara.

Estava deitada na vala e senti que sentia alguma coisa.

Não acreditava que pudesse estar viva.

Pensei que estava morta e que uma pessoa morta sentia alguma coisa.

Mas não era isso.

Minutos depois, senti que estava a ser asfixiada,

sentia um peso muito grande. Estava a sufocar.

Será que ia conseguir sair dali?

Talvez consiga levantar algo. Um braço ou uma perna.

Mas como?

Havia pilhas de corpos em cima de mim

e caíam cada vez mais.

Mas quando uma pessoa se sente a sufocar e quer salvar-se

começa a virar-se.

Havia ali muitas pessoas que deviam estar feridas

e também elas me ajudaram a levantar.

Assim foi mais fácil levantar-me.

Senti que conseguia levantar um braço,

que podia levantar-me um pouco.

Comecei a virar-me nesta direcção e naquela

e tentei não sufocar, porque estava deitada numa poça de sangue.

Uma poça cheia de sangue.

Foi assim que fiquei toda a noite, debaixo de cadáveres.

Não conseguia sair.

De manhã, os cadáveres tinham assentado.

Era mais fácil para mim levantar-me um pouco.

Encontrei alguma força dentro de mim.

Não sei onde arranjei força para sair.

Não sabia de nada. Comecei a gatinhar.

Rivka Yosilevska conseguiu rastejar para fora da vala.

Um camponês encontrou-a e tratou-a.

Ela passou o resto da guerra escondida.

Estas mortes deixavam os alemães com falta de mão-de-obra.

Muitos dos judeus presos eram trabalhadores especializados

que podiam ser usados em fábricas de armamento.

Havia um conflito de objectivos. Funcionários do governo,

preocupados com a produção de guerra,

diziam que o esforço de guerra devia estar em primeiro lugar.

Mesmo os Esquadrões de Acção diziam que, por vezes,

"não é possível na presente situação de falta de mão-de-obra

evitar poupar temporariamente as vidas de trabalhadores judeus. "

Himmler anuiu ao uso de judeus como mão-de-obra,

mas só se isso não interferisse com o progresso da Solução Final.

A grande prioridade

era usar a oportunidade que a guerra proporcionava

para se livrarem dos judeus de uma vez por todas.

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