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4 DE JULHO DE 1911
- Filho, ainda sabe assobiar? - Sim, senhor.
Se estiver vindo alguém, assobie.
- Entendeu? - Sim, senhor.
Muito bem, filho.
- Por trás. - Certo.
Empurre quando eu disser três.
- Empurre. Pronto? - Sim. Vamos.
DEUS ABENÇOE OS ESTADOS UNIDOS
Apareça, garoto!
Queime no inferno, Boy Charles!
Apareça já!
Sabemos que está aí. Vamos, apareça já!
Onde ele se meteu?
Vigie as árvores lá atrás.
Queimem tudo!
PIANO DE FAMÍLIA
25 ANOS DEPOIS
Lymon, dê a partida!
Vamos, dê a partida.
Pronto, pegou.
- Falei que ia pegar. - Falou, sim. Mentiroso.
- Sabe que tipo de campo é este, filho? - Não sei.
É um campo de girassóis.
Certo.
Vamos ver.
É logo ali.
- Não estão dormindo? - Não se preocupe.
O Ministério da Agricultura
anunciou uma descoberta preocupante
que, segundo especialistas, poderia dizimar plantações
por anos a fio.
O professor Wilson está chamando de mal do Panamá.
Em uma declaração no início do mês,
ele afirmou que a doença atingiu bananeiras...
Ei, Doak!
Doaker!
- Ei, Berniece! - Quem é?
Abra a porta, negro. Sou eu.
Quem?
Sou eu!
- Boy Willie. - Abra essa porta.
Quase atirei em você, rapaz. O que faz por aqui?
Eu te disse, Lymon.
Este é o Lymon. Lymon Jackson, lá do Sul.
Este é o tio Doaker. Ele achou que estaria dormindo.
- Não estava no Mississippi? - Viemos vender melancia.
Viemos de caminhão. Está cheinho de melancia.
Onde está a Berniece? Ei, Berniece!
- Está dormindo. - Vá acordá-la.
Há três anos não vejo minha irmã. Ei, Berniece!
Onde arrumaram o caminhão?
É do Lymon. Falei pra comprarmos melancias e trazer pra cá.
Boy Willie diz que vai voltar, mas eu vou ficar.
- E ver como é aqui. - Mas vai me levar de volta.
Com tanta melancia, o caminhão tinha que quebrar.
Que barulheira é essa?
Oi, Berniece. O Doaker disse que estava dormindo.
Falei que podia acordar só pra dizer olá.
Cinco da manhã e você entra aqui com essa gritaria.
Não chega como gente normal. Tem que ser gritando.
Eu fiquei feliz de ver o Doaker.
Viajei 2.900km pra ver minha irmã. Achei que ela fosse querer dizer olá.
Mas já pode voltar lá pra cima.
Este é o Lymon. Você se lembra dele lá do Sul.
Como vai, Berniece?
Você está exatamente como pensei.
Por que têm que chegar fazendo barulho?
- Vão acordar os vizinhos desse jeito. - É um dia de festa.
Doaker, cadê a bebida? Eu e o Lymon vamos celebrar.
Os Fantasmas do Cão Amarelo pegaram o Sutter.
- Como é? - Pergunte ao Lymon.
Foi achado de manhã. Disseram que se afogou no poço dele.
- Quando foi isso, Boy Willie? - Faz três semanas.
Estávamos no Condado de Stoner quando soubemos.
Nós rimos. Achamos engraçado.
Um homão com mais de 150kg ia cair no próprio poço?
Dizem que foram os Fantasmas do Cão Amarelo.
Não diga essas besteiras.
Alguém de lá é que deve empurrar essa gente no poço.
Tem um caminhão carregado lá fora.
- Onde arrumaram isso? - É dele. Doaker, e a bebida?
Sei que tem uma garrafa escondida por aí.
Ele comprou o caminhão para ter onde dormir.
O xerife está atrás dele. O Stovall também.
E ele dorme no caminhão para escapar dos dois.
Eu disse: "Vamos ver minha irmã."
Boy Willie, quando você e Lymon pretendem ir embora?
O Lymon diz que vai ficar. Quando vendermos tudo, eu vou.
É o que precisa fazer. E precisa ser rápido.
Não quero esse agito todo por aqui.
Não sei como Maretha não acordou.
Aquele é o tal piano?
É.
Veja só, Lymon.
Está vendo os entalhes? Era disso que eu estava falando.
Vê como ele é bem entalhado, polido e tal?
- Não vai encontrar outro piano assim. - É muito bonito mesmo.
Eu falei. Pode pedir um bom dinheiro por ele.
O Boy Willie só falou nisso o caminho todo para cá.
Cansei de ouvir sobre esse piano.
Ei, Doaker. O irmão do Sutter vai vender o terreno.
Ele quer vender pra mim.
Foi por isso que eu vim.
Já tenho uma parte.
Vendendo as melancias, terei outra.
Aí, convenço a Berniece a vender o piano, e terei tudo.
- Ela não vai vender. - Vou falar com ela.
Quando souber que posso ter o terreno, vai aceitar.
Pode desistir dessa ideia. A Berniece não vai vender esse piano.
Eu vou falar com ela.
Quanto sobrou do terreno do Sutter?
Quarenta hectares. A terra é boa.
Ele foi vendendo aos poucos. Guardou a parte boa para ele.
Agora terá que se desfazer.
O irmão dele vai de Chicago para o funeral.
Ele mora lá. Tem negócios com máquinas de refrigerante.
Ele tem pressa pra vender, Doaker. Não quer se chatear com isso.
Ele me procurou e disse que é porque as famílias se conhecem faz tempo
e nós sempre fomos bons amigos e tal,
então ele quer vender pra mim.
Pedi pra me dar 15 dias.
Ele falou que esperaria. Por isso eu vim.
Eu vendo as melancias, convenço a Berniece a vender o piano,
junto as duas partes com a que já tenho,
volto lá, tiro meu chapéu,
boto o meu dinheiro na mesa,
pego a escritura e tomo meu rumo.
Dessa vez, o algodão todo será meu.
Vou contratar gente pra trabalhar lá. Que tal?
Descaroçar o algodão, tirar a fibra, e tchau até o ano seguinte.
Posso até plantar fumo. Ou aveia.
Vai ser difícil convencer a Berniece a vender o piano.
Vocês se lembram do Avery Brown?
Ele se mudou pra cá.
Quer se casar com a Berniece desde a morte do Crawley.
Já faz dois anos. Diz que virou pastor.
Conheço o Avery.
Trabalhava para o Willshaw. Lymon também conhece.
Ele quer se casar com ela.
Ela vive recusando, mas ele não desiste.
Continua no pé dela.
O Avery acha que todo branco é figurão.
Alguns brancos não têm o que ele tem.
Ele deve vir aqui essa manhã.
Vai com Berniece tentar um empréstimo pra abrir a igreja dele.
E é por isso que eu sei que ela não vai vender o piano.
Ele tentou fazê-la vender pra ajudar com a igreja.
Mandou até o homem vir aqui.
Que homem?
Um branco que vai nas casas dos negros
pra comprar instrumentos.
Ele compra de tudo.
Tambor, violão, gaita, piano.
O Avery mandou ele vir aqui. Ele viu o piano e se animou.
Ofereceu um bom preço.
Ela recusou e descascou o Avery por mandar o sujeito.
Doaker!
Doaker!
- Doaker! - Berniece?
Berniece?
Meu Senhor!
- O que houve? - Tudo bem. Eu estou aqui com você.
Vamos. Sente-se.
Calma. O que houve?
- Sutter... - O que foi?
O Sutter está lá no corredor.
- Boy Willie? - Não tem ninguém aqui.
Boy Willie!
Doaker, o que houve com ela?
- Berniece, o que foi? - Ela disse que viu o fantasma do Sutter.
- O quê? Ela não viu Sutter nenhum. - Ele estava bem ali.
É coisa da cabeça dela. Não tem ninguém lá.
- Vá lá ver. - Eu acredito em você.
Berniece está contando o que viu. Ela disse que o fantasma está lá.
- Não inventou isso. - Sonhou. Não viu fantasma nenhum.
Quer um copo d'água? Traga água, Boy Willie.
Não precisa. Ela não viu nada.
Vá olhar. Só tem a Maretha lá.
- Deixe ela falar. - Fique à vontade.
- Fale, Berniece. - Eu...
Eu saí do meu quarto pra descer
e o Sutter estava bem ali, no corredor.
Como ele era?
Era a cara do Sutter. Como ele sempre foi.
O Sutter não sabia o caminho de casa até o mercado.
Como chegaria em Pittsburgh? Ele nunca ouviu falar de Pittsburgh.
Deixe ela acabar. Eu quero ouvir.
Ele estava em pé lá, de terno azul.
Ele nunca saiu do Condado de Marlin em vida.
Por que viria até aqui depois de morto?
Continue, Berniece.
Se ela tivesse visto ele, como diz,
ainda estaria correndo.
Continue. Ignore Boy Willie.
Ele estava de chapéu?
Estava só de terno azul.
Ficou em pé lá, me olhando, chamando pelo Boy Willie.
Por que eu?
Creio que o empurrou pra cair no poço.
Que maluquice é essa?
Acha que eu me esconderia no mato
com aqueles cães e bichos que ele tinha?
Eu ia me esconder
e esperar até que ele estivesse olhando para o poço
e aí sairia correndo para empurrá-lo?
Um homão de mais de 150 quilos.
Por que disse seu nome?
Se ele estava olhando para o poço,
como sabe quem empurrou? Pode ter sido qualquer um.
Onde você estava quando ele caiu?
E o Doaker?
Lymon e eu estávamos no Condado de Stoner.
Os Fantasmas do Cão Amarelo o pegaram. Foi isso.
Pode falar dos Fantasmas à vontade.
Eu sei a verdade.
Os Fantasmas o empurraram. É o que as pessoas estão dizendo.
É ele. Dá para ver.
Ele foi achado no poço, e todos dizem
que foram os Fantasmas do Cão Amarelo, tal como os outros.
Isso aí de ele estar atrás de mim
é tudo coisa da cabeça da Berniece.
Imagine só o que mais ela vai inventar.
Quero vocês dois fora da minha casa.
Vão para outro lugar.
Você leva problema aonde quer que vá.
Por sua causa, o Crawley não está mais vivo.
Como é que é?
Não tive nada a ver com a morte dele.
Ele era adulto, mandava na vida dele.
Saia daqui. O Sutter irá atrás de você em outro lugar.
Estou indo.
Assim que vendermos as melancias. Não antes disso.
Diabos, eu acabei de chegar.
Imagine se o Sutter estava atrás de mim...
O Sutter queria era esse piano. Era disso que ele estava atrás.
Ele precisou morrer para descobrir onde estava o piano.
No seu lugar, eu daria cabo dele.
Só assim vai se livrar do fantasma do Sutter.
Quero você, o Lymon e essa confusão toda fora da minha casa.
Fale para ela, Doaker. Isso faz sentido?
Eu avisei, Lymon,
basta a Berniece me ver, pra arrumar encrenca. Não falei?
Agora, inventou essa história do Sutter
só pra me expulsar da casa.
Pois eu não vou embora sem vender as melancias.
Então por que não vai logo vender?
Venda e volte para o Sul.
Vamos esperar o povo acordar.
Boy Willie diz que se formos cedo e acordarmos as pessoas,
elas se zangam e não compram nada.
Não terão que esperar muito. O sol já vai nascer.
É a hora que o povo acorda.
Venha, Doaker. Vamos lá em cima comigo.
Vou acordar a Maretha e aprontá-la. Também preciso me trocar.
Boy Willie,
vá lá fora e venda essas melancias,
depois, quero os dois fora da minha casa.
Se cruzar com o Sutter, avise que estou esperando ele aqui.
E se ela o vir de novo?
É coisa da cabeça dela. Não tem fantasma lá.
É rápida demais pra mim.
Oi, querida.
Venha me dar um abraço.
Dê um abraço no tio Boy Willie. Sem timidez.
Olha só como ela cresceu, Doaker. Ela não está grandona?
Sim, ela está bem grandona.
- Como vai, querida? - Bem.
Você se lembra de mim, né?
Sou seu tio Boy Willie, lá do Sul.
Está gostando daqui? Gosta do Norte?
Esse é o meu amigo Lymon. Viemos vender melancias.
Como vai? Você é a cara da sua mãe.
Lembro de quando você ainda usava fraldas.
Quando vai me visitar lá no Sul? O tio Boy Willie vai comprar uma fazenda.
Uma fazenda bem grandona.
Vá me visitar que eu ensino a montar uma mula.
Ensino a matar galinha também.
Já vi a mamãe fazer isso.
Não é difícil. Você segura o pescoço...
E torce!
Segura bem direitinho
e aí é só torcer o pescoço,
jogar na panela e cozinhar.
Dá um jantar e tanto.
O tio Doaker disse que a sua mãe fez você aprender piano.
Venha, toque algo pra mim.
Pode ir.
Isso mesmo.
Tio Boy Willie vai te dar um trocado.
Mostre o que sabe fazer. Não se acanhe.
Só ganha moeda quem não se acanha.
Isso aí.
Não tenha pressa.
- Já acabou? - Sim, acabou.
Vou mostrar uma coisa.
Espere. Não é isso.
Viu só?
Vê o que estou fazendo?
O nome disso é boogie-woogie.
Um tipo de música que dá para dançar.
É um som muito bom. Dá energia.
Qualquer dança encaixa nesse ritmo.
Viu só? Viu como é?
É bem fácil.
- Agora é sua vez. - Preciso olhar no papel.
Não precisa de papel. É só fazer assim.
Maretha!
Suba e venha se arrumar para não se atrasar.
Preciso ir.
Sua mãe contou a história do piano? Sabe como as figuras foram parar aí?
Ela diz que já era desse jeito quando ela ganhou.
Ouviu isso, Doaker? Você mora aqui com a Berniece.
Não tenho nada a ver com isso.
Não me meto na criação da menina.
Peça à sua mãe pra contar sobre o piano.
Está sentindo?
É a sua família. Seu sangue.
Pergunte a ela como as figuras foram parar aí.
Se ela não contar, eu conto.
Maretha!
Preciso ir me arrumar.
Ei.
É a minha garota.
- Charlie. - Olá, reverendo.
- Bom dia, dona Rita. - Olá.
- Virei comprar maçãs depois. - Venha.
- Até domingo! - Até.
Muito bem. Certo.
Dona Mabel!
- Olá, Avery. Entre. - Olá, Doaker.
- Berniece está lá em cima. - Certo.
Olá, Boy Willie, o que faz por aqui?
Veja só ele.
Veja só. Ele nem sabe o que dizer. Não esperava me ver.
É o Lymon? Lymon Jackson.
Sim, você conhece o Lymon.
A Berniece já vai descer.
O Doaker disse que você é pastor agora. Como devemos chamá-lo? Reverendo?
Para mim é o velho Avery de sempre. Quando virou pastor?
O Avery diz que só virou pastor pra não ter que trabalhar.
Lembro de quando plantava algodão. Você nem sonhava em ser reverendo.
Aquele caminhão deve ser seu. Vi aquelas melancias
e eu não entendi por que estava ali.
Viemos vender melancias. O caminhão é dele.
Berniece disse que vão ao banco.
Sim, tirei metade do dia de folga.
Marquei um horário para falar do empréstimo para abrir a igreja.
Lymon diz que pastor não trabalha. Onde você trabalha?
Avery arrumou um bom emprego. Trabalha num arranha-céu no centro.
Sim, eu trabalho no Edifício Gulf, manejando um elevador.
Tenho plano de aposentadoria e tal.
Dão até o peru de Ação de Graças.
Quantas melancias quer comprar?
Achei que fosse me dar uma.
Eu dou uma.
Leve duas. Dou duas por um dólar.
Só consigo comer uma.
Quanto custa?
Ora, imagina! Eu vou te dar uma.
Pegue quantas quiser. Deixe só algumas pra gente vender.
Só vou querer uma.
Doaker disse que mandou um branco vir aqui
para ver o piano.
Aquele que vai às casas dos negros comprando instrumentos.
É, mas a Berniece diz que não quer vender.
Depois que ela me contou sobre ele, eu entendi por quê.
Como se chama o homem?
Esqueci. Isso já faz um tempo.
Acho que ele deu um cartão com o número dele à Berniece,
mas ela jogou fora.
Maretha, vá buscar a minha carteira.
E limpe essa testa. Vamos. Depressa.
Como vai, Avery?
Veio todo arrumado. Está muito bonito.
Doaker, vou parar na rua Logan. Quer alguma coisa?
Aproveite pra comprar um joelho de porco.
Veja se tem defumado. Se não tiver, pode ser fresco.
A gente vai de bonde?
Eu e o Avery vamos deixá-la no centro comunitário.
Tome cuidado com o pessoal de lá. Tenha modos.
- Venha cá. - Boy Willie.
Acho bom vocês irem vender as melancias.
Até logo, Boy Willie.
Ei, Berniece.
Qual o nome do homem que Avery mandou vir aqui,
o que quer comprar o piano?
Eu sabia.
Assim que vi você, eu soube que queria algo.
O irmão do Sutter quer me vender o terreno.
Pois é, ele está me esperando.
Disse que me daria duas semanas. Já tenho uma parte.
Quando eu vender as melancias, terei outra parte.
- Poderíamos vender o piano. - Não vou vender.
Se foi para isso que veio, pode esquecer.
Doaker, até mais tarde.
O Boy Willie fala mais que a boca.
Não dê atenção a ele.
E, se veio aqui achando que vai vender o piano,
então ele perdeu a viagem.
Vamos, Lymon. Pronto pra vender melancias?
Vamos, ande logo.
Oi, Al.
Lymon.
Droga.
Não quer pegar.
Até mais!
Ei!
Ei! Funcionou!
BAR DO CLYDE
Os Fantasmas do Cão Amarelo pegaram o Sutter.
A Berniece disse que viu o fantasma dele.
Dá um abraço.
Já digo logo, se eu vir o tal fantasma,
eu pulo na primeira coisa que tenha rodas.
Wining Boy.
De onde está vindo? Onde esteve? Já sei que quer outra bebida.
A Cleotha morreu.
Soube na última vez que estive lá. Uma pena mesmo.
A amiga dela me escreveu. Eu nem sabia que estava doente.
Já estavam fechando o caixão quando eu soube.
A Cleotha sempre me pareceu ótima pessoa.
Aquela mulher era incrível. Eu agradecia muito a Deus por ela.
Passei muitas noites repassando minha vida
e dizendo: "Ao menos, tive a Cleotha."
Quando parecia que era o meu fim, eu dava graças a Deus.
"Ao menos eu tive isso."
Seja lá o que me acontecer nessa vida,
ao menos, eu conheci uma boa mulher.
E isso me confortava até a manhã seguinte.
Você é um tolo.
Essa, não.
Olha só! Estávamos falando de você.
Soube que saiu daqui cheio de dinheiro.
Falei que só voltaria de bolsos vazios.
Como assim? Ainda tenho um bolso cheio.
Soube que saiu espumando quando Berniece pediu três pratas.
Ela é muito mandona. Por isso fui embora.
Não foi pelos três dólares.
Wining Boy, de onde está vindo? Onde esteve?
Estive em Kansas City.
Lembra-se do Lymon? Lymon Jackson.
Claro, eu conheci o pai dele.
Onde arruma esse dinheiro todo? Soube que estava com um saco cheinho.
Se quiser dividir...
Eu pretendia te pedir cinco dólares.
O Doaker contou do Sutter?
Os Fantasmas do Cão Amarelo o pegaram há três semanas.
A Berniece viu o fantasma dele. Ele está lá em cima.
Ei, Sutter! O Wining Boy está aqui. Venha beber com a gente.
Com ele, quantos os Fantasmas já pegaram?
Uns nove ou dez, talvez 11 ou 12. Não sei.
Berniece diz não acreditar na história dos Fantasmas.
Ela não tem que acreditar.
Pergunte aos brancos do Condado de Sunflower se acreditam.
Pergunte ao Sutter se ele acredita.
Não ligo se ela acredita.
A Berniece não acredita em nada. Ela só pensa que acredita.
Vamos deixá-la em paz.
Doaker, me dê uma bebida. Wining Boy já tem copo.
O que foi fazer em Kansas City? O que tem por lá?
Soube que as mulheres de Kansas City são lindíssimas.
Eu adoraria ir até lá para descobrir.
As mulheres de lá são de outro nível.
Se vai ficar aí bebendo meu uísque,
deixe um dólar na mesa.
Trata-se de hospitalidade.
Não vou pagar pela sua hospitalidade.
Doaker disse que você e o Lymon ficaram presos na Parchman Farm.
Passei muito tempo lá.
Lymon e eu estávamos carregando lenha para o Jim Miller
e guardando um pouco pra vender.
Foi quando mataram o Crawley.
Caímos numa emboscada.
Boy Willie e eu escapamos, mas o xerife pegou a gente.
E nos acusou de roubar lenha.
Levei um tiro na barriga.
Estão atrás do Lymon até agora.
Ele foi preso por vadiagem.
Levei uma multa de 100 dólares.
Quando o Sr. Stovall pagou,
o juiz mandou eu trabalhar pra ele pra devolver o valor.
Assim que o Stovall virou as costas, o Lymon deu no pé.
Disse ao Boy Willie que ficarei aqui. Não voltarei com ele.
Ninguém vai obrigá-lo a voltar. Faça o que quiser.
Vou voltar com você. Eu já estava indo pra lá.
Você vai de trem? Eu vou.
As pessoas nos tratam melhor aqui.
Não me preocupo em ser maltratado.
Somos tratados como nós permitimos.
Se me tratarem mal, eu trato igual.
Não tem diferença entre mim e um branco.
É por isso que você vai acabar voltando pra Parchman Farm.
Eu nem penso naquele lugar. É mais fácil você voltar do que eu.
Eles te matam de trabalhar lá.
Capinar, roçar, derrubar árvores o tempo todo.
Detesto isso tudo.
Não é pra gostar do seu trabalho na Parchman.
Não é? O único que gosta é o garoto da água.
E, se ele não gostar do trabalho, então que aposente o balde.
Foi o que disseram ao Lymon.
Quando ele carregava água,
todos se irritavam por ser preguiçoso.
A água era pesada.
O Lymon ficava cantando, algo assim...
Ó Senhor, Berta
Ó Senhor, garota
Ó Senhor, Berta
Ó Senhor, garota
Vá em frente, pode casar Não espere por mim
Vá em frente, pode casar Não espere por mim
Talvez eu não queira você quando Eu estiver livre
Talvez eu não queira você quando Eu estiver livre
Ei, Doaker. Cante. Você sabe essa.
Ó Senhor, garota
Ó Senhor, Berta
Ó Senhor, garota
Levantem-nos ao céu E deixem-nos cair ao chão
Não vejo diferença Quando o sol se põe
Berta foi pra Meridian Ela vive lá tranquila
Berta foi para Meridian Ela vive lá tranquila
Berta está em Meridian Ela vive lá tranquila
E eu sigo aqui na Parchman Ou trabalho, ou vou embora
Ó Alberta
Ó Senhor, garota
Ó Senhor, Berta
Ó Senhor, garota
Quando se casar, que seja Com um ferroviário
Quando se casar, que seja Com um ferroviário
Quando se casar, que seja Com um ferroviário
E cada trocado que tiver Será seu para guardar
Será seu para guardar
Será seu para guardar
E cada trocado que tiver Será seu para guardar
Ó Senhor, Berta
Ó Senhor, garota
Ó Senhor, Berta
Ó Senhor, garota
Pois enfim
O Doaker gosta dessa parte.
A parte do ferroviário.
O Doaker parece o Tangleye. Canta muito mal.
Doaker, ainda falam de você lá na Parchman.
Me perguntaram: "Você é sobrinho do Doaker Boy?"
Eu disse: "Sou.
Somos da mesma família."
Passaram a me tratar bem quando falei que você é meu tio.
Nunca mais quero ver a cara deles.
Eu também não.
Ei, Wining Boy.
Toque piano para nós. Vamos, você é pianista.
Toque para nós, vai. O Lymon quer ouvir.
Eu larguei o piano.
A melhor coisa que me aconteceu foi me livrar desse piano.
O piano ficou enorme, e eu carregando isso por aí.
Não desejo isso pra ninguém.
Vocês acham que ser músico é só diversão.
Mas de tanto levar esse piano por aí, eu fiquei lento.
Parecia melaço.
O mundo passando voando por mim, e eu arrastando o piano por aí.
Nos primeiros três ou quatro anos é divertido.
Uísque até dizer chega,
mulher que não acaba mais.
Olha, eu não me cansava nunca de tocar piano.
Mas isso não dura para sempre.
Um belo dia você percebe que passou a odiar uísque,
não aguenta mais as mulheres e detesta o piano.
Mas é só o que você tem.
Não sabe fazer outra coisa.
Você só sabe tocar piano.
Então, quem sou eu?
Eu sou eu, ou sou o pianista?
Às vezes, parece que a única opção é matar o pianista,
pois ele é a causa dos meus problemas.
O que fará quando seus problemas ficarem como os meus?
Se eu soubesse tocar,
eu tocaria.
Esse piano é bonito mesmo.
Se fosse meu, eu venderia.
A menos que eu tocasse como o Wining Boy.
Pagariam bem por ele.
Vou contar uma coisa.
O Lymon não sabe disso,
mas eu vou explicar
por que eu e o Wining Boy dizemos que Berniece não vai vender.
Ela não precisa vender. Eu vou vender.
O piano é tão dela quanto meu.
Eu estou falando com o homem.
Deixe-me falar com o homem.
Para entender por que dizemos isso e entender a história deste piano,
precisa voltar à época da escravização.
Nossa família pertencia a um homem chamado Robert Sutter.
Trata-se do avô do Sutter. Pois bem.
O piano era de um sujeito chamado Joel Nolander,
um dos irmãos Nolander lá da Geórgia.
Para celebrar a data de suas bodas, Sutter queria presentear
sua esposa, a sinhá Ophelia.
Ele queria comprar um presente para ela.
O único problema era que ele não tinha dinheiro.
Mas ele tinha alguns negros.
Então, ele procurou o Sr. Nolander
para ver se ele poderia trocar alguns negros pelo piano.
E disse que daria um negro e meio por ele.
Ele falou desse jeito.
Que ele poderia ficar com um já crescido e um em crescimento.
O Sr. Nolander aceitou, mas com a condição de que ele mesmo escolheria.
Então, o Sutter enfileirou os negros dele
e o Sr. Nolander os examinou.
E dentre todos eles, ele escolheu a minha avó.
Seu nome era Berniece, como a Berniece.
- Venha comigo. Traga seu filho. - Não!
- Venha comigo. - Não!
E escolheu meu pai, que era só um menino de nove anos.
Eles selaram a troca
e a sinhá Ophelia ficou tão feliz com o piano
que a partir daquele dia ela só queria saber de tocar piano.
Ela acordava de manhã, se arrumava
e se sentava ao piano para tocar.
Pois bem. O tempo foi passando.
E sinhá Ophelia sentiu falta da minha avó.
Da comida dela, de como limpava a casa, das conversas e tal.
E do meu pai também, para pegar as coisas para ela.
Então, ela quis saber se seria possível devolver o piano
e pegar os negros de volta.
O Sr. Nolander disse: "Não! Trato é trato."
Ele e o Sutter brigaram feio por conta do assunto.
E a sinhá Ophelia caiu doente. Não levantava mais da cama.
Foi então que o Sutter mandou chamar o nosso avô.
O nome dele era Boy Willie.
Como o Boy Willie, que recebeu o nome dele.
Mas eles o chamavam de Willie Boy.
E ele sabia trabalhar a madeira.
Ele sabia fazer o que você quisesse com madeira.
Os brancos pediam a ele que fizesse todo tipo de coisa
e pagavam muito bem ao Sr. Sutter.
Pois tudo que o meu avô fazia pertencia ao Sr. Sutter,
por ser o dono dele.
Então, quando o Sr. Nolander quis comprá-lo pra manter a família junta,
o Sutter não vendeu.
Disse a ele que seu dinheiro não seria suficiente.
Não foi assim, Wining Boy?
Isso mesmo.
Sutter mandou chamar o meu avô
e pediu que ele entalhasse uma imagem da minha avó e do meu pai
no piano para a sinhá Ophelia,
e ele fez isto aqui.
Está vendo aqui?
Esta é minha avó, Berniece.
Ela era exatamente assim.
E ele entalhou o meu pai quando era só um menino,
como meu avô se lembrava.
Ele entalhou conforme sua memória.
Só que ele não parou por aí.
Ele criou tudo isso aqui.
Ele entalhou a mãe dele, Mama Esther, e o pai, Boy Charles.
E neste lado estão ele e Mama Berniece quando se casaram.
Chamavam isso de "pular a vassoura".
Ele entalhou tudo o que aconteceu com a nossa família.
E quando o Sutter viu o piano com todos os entalhes,
ele ficou louco da vida.
Ele não tinha pedido aquilo,
mas não havia nada que ele pudesse fazer.
Mas quando a sinhá Ophelia viu, ela ficou animada.
Agora, ela tinha o piano e seus negros também.
Ela voltou a tocar.
Tocou até o dia em que morreu. Pois bem.
Nosso irmão, o Boy Charles,
que é o pai da Berniece e do Boy Willie,
e o mais velho de nós três...
Ele teria 57 anos se estivesse vivo.
Morreu em 1911 aos 31 anos.
Boy Charles falava do piano o tempo todo.
Não saía da cabeça dele.
A cada dois ou três meses, ele falava no piano de novo.
Ele queria retirá-lo da casa do Sutter.
Dizia que ele era a história da nossa família toda,
e que enquanto ele fosse do Sutter,
nós também seríamos.
Dizia que ainda estávamos escravizados.
Nós tentávamos fazê-lo esquecer disso, mas não adiantava.
Assim que ele sossegava, começava o assunto de novo.
Percebemos que ele não ia desistir,
então, em 4 de julho de 1911,
enquanto Sutter estava na comemoração anual do condado,
Wining Boy e eu fomos até lá com ele
e retiramos o piano da casa do Sutter.
O Boy Willie devia ter uns seis anos.
O pai dele havia decidido
que ele ficaria lá até o Sutter voltar
para parecer que estava tudo normal.
Não sei o que houve quando Sutter chegou e deu falta do piano,
mas alguém foi até a casa do Boy Charles e ateou fogo nela.
Ele não estava lá. Deve ter previsto a reação
porque ele saiu e pegou o Cão Amarelo das 3h57.
Mas ele não sabia que mandariam parar o trem.
Eles pararam o trem
e acharam o Boy Charles e três andarilhos em um dos vagões.
Devem ter ficado irados por não achar o piano,
porque tocaram fogo no vagão.
Mataram todos.
Ninguém sabe quem fez aquilo.
Alguns dizem que foi o Sutter, por causa do piano.
Outros citam o xerife Carter.
Há quem diga que foi Ed Saunders ou Robert Smith,
mas ninguém sabe ao certo.
Dois meses depois disso, Ed Saunders caiu no próprio poço.
Simplesmente despencou no próprio poço, sem motivo aparente.
Dizem que foram os fantasmas dos homens mortos no vagão
que o empurraram no poço.
E começaram a chamá-los de Fantasmas do Cão Amarelo.
Foi assim que a história começou.
E é por isso que eu e o Wining Boy dizemos
que a Berniece não vai vender aquele piano.
Porque o pai dela morreu por causa dele.
Isso é coisa do passado.
Se o meu pai
pudesse ter trocado o piano por uma terra que fosse dele,
ele não estaria aqui hoje.
Ele passou a vida cultivando a terra dos outros.
Eu não farei isso.
Ele não tinha opção, ele não tinha o que fazer.
O pai dele não teve o que dar a ele.
A única coisa que meu pai pôde me dar
foi esse piano, e ele morreu para me dar isso.
Não vou deixá-lo apodrecer sem tentar fazer algo com ele.
E, se a Berniece não entende isso, eu vou vender a minha metade.
Sabem que eu estou certo.
Não importa quem está certo ou errado.
Só contei a história do piano.
Expliquei por que eu e o Wining Boy dissemos que ela não vai vender.
Agora, eu entendi por quê.
Eu disse ao Boy Willie que ele deveria ficar aqui comigo.
Fique você.
Eu vou voltar.
É o que farei com a minha vida.
Pra que vir morar aqui e ter que aprender algo novo
quando já entendo de cultivar?
Fique você.
Faça do seu jeito, se é assim que você quer.
Eu vou voltar para viver do jeito que eu quero.
Sabe o que é isso?
Não sei.
O que acha que é?
Sujeira.
Não, filho.
Não é sujeira.
Isto aqui é terra.
- Sabe a diferença? - Não.
Sujeira...
Sujeira vai embora, é levada com o vento.
Mas a terra,
a terra é para sempre, filho.
Pegue. Sinta nas suas mãos.
Está sentindo?
É bom, não é?
Um desses seres veio na minha direção, lentamente, mas decidido.
Meus colegas fugiram apavorados.
Entre, vá lá pra cima.
- ...em uma árvore alta. - Mas é...
Ora! Se não é o Wining Boy, bem aqui na minha sala.
Oi, Berniece.
Vocês planejaram isso.
Você e o Boy Willie planejaram tudo.
Eu não sabia que ele estaria aqui.
Estava indo para casa e parei para ver você e o Doaker.
Depois que partiu com tanto dinheiro,
achamos que não o veríamos mais.
Venha abraçar seu tio.
Não vi o caminhão. Achei que estivessem vendendo melancias.
Já vendemos tudo. O caminhão também.
Não quero me meter. Volte para onde deveria estar.
Eu estava só brincando. Não se pode mais brincar?
Wining Boy, quando chegou?
Há um tempinho. Tomei o trem em Kansas City.
Vou me trocar e preparar algo para comer.
Gostei da ideia.
Maretha, vá se trocar antes que se suje.
A Maretha cresceu muito, não é, Doaker?
Está muito bonita também. Nunca imaginei, sendo filha do Crawley.
Lymon, vá ali do outro lado do piano. Quero ver uma coisa.
- O que está inventando? - Quero ver se é muito pesado.
Vá até ali, Lymon.
Deixe esse piano quieto. Não vai tirar daqui para vender.
Assim que eu vender as melancias.
- Não se eu puder evitar. - Este piano é do meu pai.
Ele não pegou sozinho. Doaker e eu ajudamos.
Ele morreu sozinho.
Onde estavam nessa hora?
Não venha me falar do piano.
Ele é meu e da Berniece. Estou certo, Doaker?
Sim, está certo.
Lymon, vamos tentar levantar.
Segure bem e levante do seu lado. Venha.
- Pronto? - Pronto.
Levanta.
O que você acha?
É pesado, mas a gente consegue. Só que não vai ser fácil.
Não achei tão pesado.
Certo. Vamos colocar de volta.
Boy Willie,
você está me tirando do sério.
Que Deus te abençoe e também me perdoe.
Ponha esse piano no lugar.
Eu quero comprar um terreno.
Wining Boy, quer comer costelinha?
Para mim, está ótimo.
Olha, eu vou dizer o que eu acho.
O pai Boy Charles trouxe o piano.
E cabe a mim fazer algo com o que ele me deixou.
Não há o que fazer com esse piano parado aí.
É como deixar as melancias apodrecerem. Seria burrice.
Olha, se você me dissesse: "Boy Willie, eu uso esse piano.
Dou aulas nele. Ele me ajuda a pagar o aluguel."
Ou algo assim, aí seria outra coisa.
Eu pensaria: "A Berniece usa o piano.
É útil para ela. Deixe ela usar.
Darei outro jeito de pagar o terreno."
Mas o Doaker disse que você nem encostou nele esse tempo todo.
Então por que você quer me atrapalhar?
Só está pensando no valor afetivo.
E tudo bem.
Tudo bem. Tiro meu chapéu sempre que citam o nome do papai.
Mas não vou ser bobo de me prender ao valor afetivo.
Pode olhar para ele por 100 anos
que ele continuará sendo um piano. Não pode ser mais.
Quero comprar a terra do Sutter com ele.
Comprando a terra, eu lucro com a colheita e fico com as sementes.
Com o terreno e as sementes, eu vou ficar bem.
Vou sempre poder fazer algo mais.
Do jeito que meu pai era, ele entenderia.
Lamento que você não concorde,
mas é por isso que vou tirar o piano daí e vender.
Olhe esse piano.
Olhe para ele.
Mama Ola poliu este piano com as lágrimas dela
durante 17 anos.
Por 17 anos, ela o poliu até suas mãos sangrarem.
Então, ela esfregou o sangue e juntou com o sangue que já estava lá.
Todos os dias da vida que Deus deu a ela,
ela esfregou, limpou, poliu e orou nele.
"Toque para mim, Berniece."
"Toque para mim, Berniece."
"Toque algo, Berniece." Todos os dias.
"Eu limpei para você. Toque algo, Berniece."
Você sempre fala do seu pai.
Mas não pensa no quanto a tolice dele custou à sua mãe.
Dezessete anos de noites frias em uma cama vazia. E para quê?
Por um piano?
Um pedaço de madeira?
Para se vingar de alguém?
Eu olho para vocês e não vejo nenhuma diferença.
Você, Papa Boy Charles, Wining Boy, Doaker, Crawley.
São todos iguais.
Essa história de roubo e matança. A que isso leva?
Mais matança e mais roubo. Nunca vi levar a nada.
Gente morrendo queimada. Levando tiro.
Gente caindo em poços. Nunca vai parar.
Chega, Berniece. Não precisa se alterar.
Eu roubei umas coisinhas aqui e ali,
mas nunca matei ninguém.
Não posso falar pelos outros. Cada um que fale por si.
Mas eu nunca matei ninguém.
Você matou o Crawley tanto quanto quem puxou o gatilho.
Isso é ignorância.
É uma grande tolice você dizer isso.
Isso só mostra sua ignorância.
Se estivesse aqui, eu daria uma surra nele por nos fazer levar tiros.
- Crawley nem sabia da lenha. - Nós contamos para ele.
Pergunte ao Lymon. Ele sabia de tudo.
Ele viu a gente separando. Por que voltaríamos lá à noite?
Não me diga que ele não sabia.
Os caras queriam nos deixar de fora e o Crawley quis peitar.
Nós vimos o xerife com eles.
Desistimos. Não íamos morrer por 50 dólares.
- Ele não sabia. Vocês roubaram. - Não roubamos.
A gente carregava para o Jim Miller e desviava um pouco.
Deixávamos perto do riacho até juntar o suficiente para vender.
Os caras viram. Achamos melhor pegar tudo antes deles.
Pedimos ao Crawley para ajudar. Íamos rachar com ele.
Ele precisava de dinheiro. Estávamos ajudando.
Boy Willie e eu contamos tudo a ele.
Falamos que tentariam pegar antes de nós.
Ele disse: "Eu vou buscar meu 38."
Foi o que causou o problema.
Se não estivesse armado, ainda estaria vivo.
Tínhamos pegado a metade quando eles apareceram.
O xerife veio junto. Nós tentamos fugir.
Nós nos escondemos perto da curva do riacho,
mas eles nos acharam.
Boy Willie falou: "Vamos desistir."
Mas o Crawley puxou a arma e começou a atirar.
Eles revidaram.
Berniece.
Só sei que o Crawley ainda estaria vivo se não tivesse vindo buscá-lo.
Não tive nada a ver com a morte dele.
A culpa foi dele.
O Crawley está morto, enterrado
e você continua vivo, andando por aí.
Só sei disso.
Ele saiu para carregar lenha com você e nunca mais voltou.
Já falei que não tive nada a ver com isso.
Ele não está aqui, está?
Ele não está aqui.
- Não sou responsável... - Ele não está aqui.
- Não... Doaker, tire-a daqui. - Ele está?
- Não está! - Eu já falei...
Calma. Está tudo bem.
Maretha está com medo de dormir lá em cima.
A Berniece não sabe, mas eu vi o Sutter antes dela.
Como é?
Faz umas três semanas.
Eu tinha acabado de voltar do Sul.
Não fazia nem três dias da morte dele.
Ele estava sentado ao piano.
Eu ia sair para trabalhar e ele estava bem ali.
Ele falou algo? Disse se estava atrás do Boy Willie?
Não ouvi nada. Estava só sentado ali.
Mas não acho que o Boy Willie o empurrou.
O Sutter está aqui pelo piano.
A Berniece deveria mesmo vendê-lo. Ele só traz problema.
Concordo com a Berniece. O Boy Charles não o pegou para nós devolvermos.
Foi por achar que era mais dele do que do Sutter.
Se o Sutter não entende isso, então, paciência.
Está morto e enterrado. Não ligo para o fantasma dele.
Pode rondar por aí tocando piano à vontade.
Quero ver ele tirá-lo da casa. Isso que eu quero ver.
Duas por um dólar. Vamos. Quem quer melancia?
Eu quero cinco.
- Duas bem grandonas para você. - Parabéns, é um menino.
- Está escolhendo bem, não é? - Mais duas saindo. Um segundo.
Cuidado, é pesada. Cuidado.
- Aqui está. Obrigado. - Tudo bem.
Isto aqui é sal. É só botar um pouco em cima.
Experimente. Que tal?
Uma, duas, três moças bonitas.
Ei, uma moça me perguntou: "Estão doces?"
Eu respondi: "Onde são cultivadas,
nós colocamos açúcar no chão."
E ela acreditou. Respondeu: "Eu nunca soube disso."
Veja só, Lymon.
Está vendo? Seus olhos até arregalaram.
Ele nunca viu um terno como este.
Ele é 100% de seda.
Vamos, experimente. Veja se fica bom.
Olhe só. Passe a mão.
É tão bonito.
Muito gostoso e macio.
Ele custou 55 dólares.
É do tipo que os figurões usam.
Precisa ter uma pistola e o bolso cheio para usá-lo.
É seu por três dólares.
As mulheres vão cair da janela quando virem você nele.
Por três dólares, pode sair por aí
e arrumar uma mulher.
Vista a calça. Quero ver como fica.
Olha só. Viu como cabe?
Por três dólares, ele é seu.
- Ei, Doaker, não ficou bom? - Sim. É um belo terno.
Tem a camisa que combina. Só um dólar.
Por quatro dólares, leva tudo.
Como ficou, Boy Willie?
Bonito. Para quem gosta do estilo.
É o tipo de terno que usam aqui no Norte.
Tudo por quatro dólares? O terno e a camisa?
É barato.
- Eu deveria cobrar 20. - Tudo bem.
Lá vão quatro dólares.
- Você tem sapatos? Quanto você calça? - Quarenta.
É o meu tamanho, 40. Fique com eles por três dólares.
- Onde estão? Quero ver. - São sapatos bem bonitos.
É um belo modelo. Bem pontudo, como deve ser.
Boy Willie, vamos sair à noite. Quero ver o que há para fazer aqui.
Podemos até ir ao cinema.
Ei, Doaker. Há cinemas por aqui?
Sim, o Rhumba Theater. Fica na rua Fullerton.
Há um alto-falante na calçada. Não tem erro, o Boy Willie sabe.
Vamos ao cinema. Vamos arrumar umas mulheres.
Tamanho 40. Custa três dólares.
São sapatos Florsheim. Do tipo que Stagger Lee usava.
Tem certeza de que é 40?
Olhe para os meus pés, nós calçamos o mesmo número.
Quando puser o terno e os sapatos,
vai sair desfilando por aí.
Vou dar um desconto.
Pode levá-los por dois dólares.
Vamos, Boy Willie. Vamos arrumar umas mulheres.
Vou subir e me trocar. Estarei pronto daqui a pouco.
O Lymon só quer saber de mulher.
O pai dele era igualzinho. Eu andava muito com ele.
Conheço a mãe dele também.
Por pouco, eu não fui o pai dele.
Meu nome é Lucille.
Guarde isso, homem.
E minha viagem será muito, muito curta.
Isso aí, meu amor.
Tem coisa aí fervendo
Carne escura de peru é só o que tem
Passe manteiga nesse pão
Está me ouvindo ou não?
Mande seu irmão acordar
Mamãe não criou nenhum idiota
Ei!
Isso aí, meu amor.
É o que quer? Vá em frente.
Vamos lá.
O Boxcar George está aqui.
Ei!
Vinnie, força no piano.
Ei!
Vamos deitar e rolar. Ei!
Olá, moça bonita. Venha, vamos dançar.
Vamos lá.
Isso aí!
Venha. Vamos orar.
E agora, na hora de me deitar
Peço ao Senhor para minha alma guardar
Se eu me for antes de acordar
Peço ao Senhor para minha alma levar
- Abençoe o Doaker. - Abençoe o Doaker.
- Abençoe o Avery. - Abençoe o Avery.
- Abençoe o Wining Boy. - Abençoe o Wining Boy.
- Abençoe o Boy Willie. - Abençoe o Boy Willie.
Venha.
- Quem é? - Sou eu, o Avery.
- Avery. - Oi.
Entre.
Eu estava saindo do banho.
Cadê o Boy Willie?
Vi que o caminhão está quase vazio. Eles já venderam quase tudo.
Não sei aonde foram. Já tinham saído quando cheguei.
O que o Sr. Cohen falou sobre você ficar com o lugar?
Ele disse que posso ficar por 30 dólares ao mês.
Ele baixou, era 35.
É um bom lugar, perto da loja do Benny.
Sim.
Berniece...
Eu...
Sabe, eu...
Às vezes, em casa, fico pensando.
Você mora aqui, e eu, lá.
Penso no que vão achar de um pastor que não é casado.
Seria melhor para a congregação
se o pastor fosse casado, bem estabelecido.
Avery.
Agora não.
Ora, Berniece. Você sabe o que sinto por você.
Eu consegui o lugar com o Sr. Cohen.
Recebendo o dinheiro do banco, vou arrumar tudinho.
Aumentaram dez centavos por hora no trabalho.
E você me conhece. Eu não preciso de muito.
Quando o assunto é dinheiro, meu bolso é furado.
Mas eu nunca
conheci uma mulher de quem gostasse como gosto de você, Berniece.
Eu preciso disso.
Avery,
não estou pronta para me casar.
É jovem demais para se fechar.
Nem pensei nisso. Ainda há uma mulher dentro de mim.
É mesmo? Qual foi a última vez que você a viu?
Mas que grosseria.
E ainda se diz pastor.
Sempre que me aproximo, você me afasta.
Já tenho muito trabalho com Maretha.
Já tenho muita gente para amar e cuidar.
E quem você tem para amá-la?
Ninguém consegue se aproximar de você.
Mal fala com o Doaker. Vive brigando com Boy Willie.
Quem você tem para amá-la?
Está dizendo que uma mulher não é nada sem marido?
- Corta essa. - Mas para você tudo bem?
Você pode sair daqui sem mim, sem mulher, e continuar sendo homem.
E tudo certo.
Ninguém vai perguntar: "Quem você tem para amá-lo, Avery?"
Para você, está tudo bem.
Mas todos vão se preocupar com a Berniece.
"Como ela vai se manter? Como vai educar a filha sem marido?
Como ela vai viver assim?"
Todos querem saber da Berniece.
Dizem que só posso ser mulher se tiver marido.
Pois, me diga, Avery. Você sabe. Eu não sou mulher suficiente?
Não fui eu, Berniece. Não pode me culpar pelos outros.
Não estou culpando ninguém por nada.
Só estou citando fatos.
Até quando vai levar o Crawley com você?
Já faz o quê? Uns três anos?
Em algum momento, você terá que esquecer e seguir em frente.
Acontece de tudo na vida. Não se pode parar de viver.
O Crawley morreu há três anos.
Eu sei há quanto tempo ele morreu.
Mas ainda não estou pronta para casar.
E você está pronta para quê?
Vai ficar aí, só existindo, dia após dia?
A vida é mais do que contar os dias.
Quando se der conta, sua vida vai ter passado.
Eu estou aqui agora.
Mas não sei até quando vou esperar por você.
Avery, eu já falei,
quando tiver sua igreja, podemos falar nisso.
Tenho que lidar com muita coisa agora.
Boy Willie e o piano,
o fantasma do Sutter.
Achei que eu estivesse só vendo coisas,
mas a Maretha também viu.
Quando foi isso?
Logo depois que eu cheguei ontem.
Ela está com medo de dormir lá.
Se você benzer a casa, talvez ele vá embora.
Não sei, Berniece.
Não sei se eu deveria me meter nessas coisas.
Não dá para ela ter medo de dormir lá.
Mas se benzesse a casa, ele iria embora.
Precisa ser outro tipo de pastor
para fazer essas coisas.
Eu quero acreditar
que quando Boy Willie for embora, ele irá junto.
Acho que o Boy Willie o empurrou no poço.
Não, essas coisas acontecem lá há muito tempo.
Os Fantasmas já jogavam gente nos poços
bem antes do Boy Willie crescer.
Alguém por lá jogou essas pessoas nos poços.
Elas não caíram sozinhas.
O que Doaker acha sobre vender o piano?
O Doaker não quer saber do piano. Nunca quis.
Desistiu de se envolver nisso há muito tempo.
Nem queria que eu trouxesse para cá,
mas eu não podia deixar lá.
Quando mamãe morreu, eu fechei o piano
e nunca mais o abri.
Eu só tocava para ela.
Quando meu pai morreu, parecia que a vida toda dela tinha entrado no piano.
Ela sempre me pedia para tocar.
Dizia que quando eu tocava, ela ouvia meu pai falando com ela.
Berniece, eu o limpei para você. Toque alguma coisa.
Eu achava que as imagens ganhavam vida e saíam andando pela casa.
Está na hora.
Às vezes, tarde da noite, eu ouvia minha mãe falar com eles.
Falei que isso não aconteceria comigo.
Não toco esse piano porque não quero acordar os espíritos.
Não, eles nunca vão andar por esta casa.
Você tem que superar isso, Berniece.
É a mesma coisa com o Crawley.
Todo mundo encontra obstáculos no caminho.
Você poderia ir até lá agora e tocar piano.
Você poderia ir até lá agora
que Deus estaria ao seu lado, Berniece.
Você poderia largar esse fardo à beira do caminho
e se afastar disso.
Vamos, Berniece.
Vamos lá. Largue o fardo e afaste-se disso, Berniece.
Vamos. Venha até aqui e resgate o piano como um instrumento do Senhor.
Você pode vir até aqui agora e tornar isso uma celebração.
Já cansei de dizer que não toco esse piano.
Em nenhuma ocasião.
A Bíblia diz: "O Senhor é meu refúgio e minha fortaleza."
Com a força de Deus, você vai superar isso.
Com a força de Deus, você pode fazer tudo.
Ele não pergunta o que você fez, mas o que você vai fazer.
E tudo o que precisa fazer é vir até aqui e resgatá-lo.
Vamos, Berniece.
Venha.
Pode vir.
Avery,
apenas...
vá embora,
quero terminar meu banho.
Até amanhã.
Tudo bem, Berniece.
Tudo bem, eu vou embora.
Vou para minha casa e vou ler a minha Bíblia.
E amanhã,
se o bom Deus assim permitir,
virei até aqui para benzer esta casa.
E vou lhe mostrar o poder do Senhor.
Não toque na minha perna
Não toque na minha perna
Pois se você tocar
Vai querer tocar na minha coxa
E se tocar na minha coxa
Você vai querer mais
Então não toque na minha perna
Não precisamos de cama.
Meu avô pegava mulher até montando a cavalo.
Você é tão caipira. Não imaginava isso.
- Lymon? - Ei, Grace!
- Você é um bom amigo. - Venha aqui.
- Vem cá. - Preciso conhecer mais gente assim.
Sabe que eu adoro vermelho.
Já acabou.
Obrigada.
Não precisa ir nesses bailes.
Não dá para saber o que pode acontecer.
Alguém pode lhe dar uma facada ou um tiro.
Quando se leva a vida nesse ritmo,
é difícil acompanhar.
Você envelhece rápido.
Não sei o que aquelas mulheres pensam.
Elas se sentem sozinhas.
Querem alguém com quem passar a noite.
Às vezes, importa quem é. Às vezes, não.
Eu costumava ser assim.
Agora... tem que importar.
Por isso estou aqui agora.
Gosto que minhas mulheres fiquem comigo de um jeito agradável e tranquilo.
Assim, nós dois podemos aproveitar.
Para ver como nos sentimos juntos.
Se não for importante para ela, eu nem dou atenção.
Mas já dei.
Eu dava atenção a todas.
O Avery é legal.
Vocês deveriam ficar juntos e se casar.
Sendo esposa de um pastor, não precisará trabalhar.
Eu detesto ficar sozinho.
Não queria ser um peso para minha mãe,
então saí de casa com uns 16 anos.
Mas tudo que eu tentava parecia não dar certo.
Continue tentando.
Vai dar tudo certo.
Já está ficando tarde.
Não sei onde o Boy Willie se meteu.
Preciso tirar esses sapatos.
Meus pés estão doendo.
Já tinha ido dormir?
- Não quero incomodar. - Não está incomodando.
Não ia conseguir dormir mesmo.
Essa sua camisola...
Gosto quando as mulheres usam essas camisolas chiques.
Faz a pele delas ficar muito bonita.
Eu comprei esta na loja de descontos.
Não é tão chique.
Bem...
Vou dormir aqui no sofá.
Eu ia dormir no chão,
mas acho que o Boy Willie não volta hoje.
O Wining Boy me vendeu este terno.
Ele me disse
que era um terno mágico.
Quase esqueci que eu tinha isto.
Um homem me vendeu por um dólar.
É o mesmo tipo de perfume que a rainha da França usa.
Foi o que ele disse.
Não sei se é verdade, mas eu senti o cheiro
e achei bom.
Aqui. Cheire.
Veja se gosta.
É bom.
Pegue.
- Fique com ele. - Não posso aceitar.
Pegue. É seu.
Vai encontrar alguém para dar.
Eu quero dar para você.
Para ficar cheirosa.
Dizem que o certo...
é passar...
bem aqui.
Atrás da orelha.
Se passar aqui,
vai ficar cheirosa o dia todo.
Pronto. Você está muito cheirosa agora.
Está muito cheirosa para o Lymon.
Foco. Ei, contato visual.
Olhe para o seu alvo. Muito bem. Gire.
Muito bem.
É isso aí.
Mais um. Vamos lá.
Depois disso, todos os brancos da região
começaram a cair nos poços.
Você já viu um poço?
Não.
Poços têm uma parede em volta. De novo.
É difícil cair num poço.
- Pulso. - Está errado.
O certo é assim.
Isso.
Ninguém entendia
por que aquela gente toda estava caindo nos poços.
Então todos disseram que os Fantasmas do Cão Amarelo empurraram.
Alguém já viu os fantasmas?
Já falei que eles são como o vento.
- Você vê o vento? - Não.
Eles são como o vento.
Não se pode vê-los,
mas, quando se está em apuros,
eles podem vir para ajudar.
Dizem que se você for aonde o Expresso do Sul cruza o Cão Amarelo...
se você for lá no cruzamento dessas duas ferrovias
e chamar os nomes deles...
Dizem que eles respondem!
Mas eu não sei, eu nunca fiz isso.
Maretha, vá se aprontar para eu arrumar seu cabelo. Vá.
Mamãe, a pomada de cabelo acabou.
Pegue aqui. Atravesse a rua e compre outra lata.
Volte direto para casa. Não fique à toa na rua.
Cuidado com os carros quando for atravessar.
Eu já pedi para você ir embora.
Não estou na sua casa. Estou na casa do Doaker.
Doaker! Diga a ele para sair daqui. Diga para ir embora.
Ele não fez nada para eu expulsá-lo.
Já falei, se não conseguem se entender,
pelo menos não briguem.
Pronto. Não estou mais no seu lado da casa.
Considere-me fora do seu lado.
Quando o Lymon voltar, vou levar o piano e vender.
- Tenho algo pra impedir isso. - Só com uma arma das boas.
Querem parar já com isso? Boy Willie, deixe-a em paz.
Por que essa implicância?
Não é implicância. Eu só falei a verdade.
Foi ela que me ameaçou. Eu quero só ver se ela vai adiante.
Não dá para falar com ele.
Eu tento, mas ele só fala desse jeito.
Então, o Avery foi buscar a Bíblia dele?
O que o Avery vai fazer comigo? Quero só ver.
Queria que ele falasse sobre o piano.
Ele deveria se preocupar com a tal igreja.
Venha. Acenda o fogão e ponha o pente para esquentar.
- E tem mais uma coisa. - Pegue algo para os ombros.
Ele achou o caminho dele.
Não estou de acordo, mas ele optou pela lei do menor esforço.
É capaz de juntar um milhão de dólares só vendendo pão e vinho.
Quieta, Maretha. Se fosse menino, não precisaria disso.
- Não diga isso à menina. - Não se meta nisso.
Disse que preferia um menino. Como quer que ela se sinta?
Boy Willie, me deixe em paz.
Por que não a deixa em paz? Por que implica tanto com ela?
Por que não vai ver se eu estou na esquina?
- Para ter do que falar. - Estou esperando o Lymon.
Que tal você ir lá ver?
Não tem trabalho amanhã. E fala de mim.
Tenho que ficar para vocês não se matarem.
Fale com Berniece, que disse à Maretha que queria que ela fosse menino.
Isso é coisa que se diga a uma criança?
Se for falar algo a ela, fale do piano.
Você não falou nada. Parece que tem vergonha.
Da minha filha, cuido eu.
Quando tiver uma, eduque como quiser.
Por que eu teria filhos?
Por que eu traria outra pessoa a este mundo?
Uma coisa eu digo...
se eu fosse o Rockefeller, teria uns 40 ou 50 filhos.
Faria um por dia,
porque já nasceriam cheios de vantagens.
Não tenho vantagens a oferecer.
Muitas vezes, peguei meu pai olhando para as próprias mãos.
Eu cresci e entendi aquilo.
Ele pensava:
"Tenho mãos tão grandes, mas o que vou fazer com elas?
Essas mãos podem fazer qualquer coisa.
Eu poderia construir algo com elas,
mas onde estão as ferramentas?
Eu só tenho essas mãos."
Se ele tivesse uma terra, não teria se sentido assim.
Se tivesse um lugar onde pisar que pertencesse a ele,
teria autoconfiança.
A questão é essa.
A vida não tem mistério. É só encarar.
Se disser que ela está na sarjeta da vida,
ela vai odiá-la.
Eu só digo a verdade. É apenas onde ela está.
Ela não tem que ficar lá. Vire a cabeça para lá.
Pode ser para você, mas não para mim.
Eu vivo no topo da vida.
Não vou jogar minha vida na sarjeta.
Vivo no mundo como os outros.
Para mim, os outros têm que subir para chegar onde estou.
Está na sarjeta como todos nós.
Se acha isso, vai agir de acordo. Agindo assim, é lá que vai ficar.
Berniece acha que os negros vivem na sarjeta da vida.
Se pensa assim, é onde ela vai ficar.
Você está na sarjeta da vida? É como você se vê?
Eu só vivo da melhor maneira possível. Não penso nessas coisas.
É o que estou tentando dizer.
Não sei de onde ela tirou isso. Parece algo que o Avery diria.
Avery acha que ganhar dos brancos um peru
faz com que ele seja melhor.
Como se fosse tirá-lo da sarjeta.
Não preciso ganhar peru nenhum. Eu posso comprar um.
Basta você sair do meu caminho. Vou comprar dois ou três perus.
Você não compra nem frango, que dirá perus.
Pode parar. Não tem ninguém no seu caminho.
Levante a cabeça, Maretha.
Não olhe para baixo. Fique de cabeça erguida.
A única coisa que você sabe fazer é falar.
A vida toda, você sempre foi assim.
Vou lhe contar uma coisa sobre mim.
Eu nasci numa época impossível.
O mundo não queria saber de mim e eu via isso,
desde que eu tinha uns 7 anos.
O mundo diz que está melhor sem mim.
A Berniece aceita isso.
Ela quer provar algo para o mundo.
Ele é um lugar melhor por minha causa. Não concordo com ela.
Meu coração bate tão forte quanto o do cara ao lado.
Não importa se ele é negro ou branco.
Às vezes, ele bate mais forte.
E, quando isso acontece, todos conseguem ouvir.
Alguns se assustam, como a Berniece.
Alguns se assustam ao ouvir o coração de um negro.
Mas eu não vim ao mundo à toa.
E o que eu devo fazer?
Preciso deixar minha marca na estrada, como quando se escreve numa árvore.
"Boy Willie esteve aqui."
É o que eu quero fazer com o piano.
Quero deixar minha marca na estrada, como o meu pai fez.
Fora isso, eu nem penso no que a Berniece tem a dizer.
Por onde você andou?
Achei que fosse o Lymon.
- Berniece, veja quem chegou. - Entre, Avery. Sente-se.
Não ligue para eles. Passaram o dia se bicando.
Leve o pente de novo para o fogão.
A Berniece disse que você vinha benzer a casa.
Sim, dei uma olhada na Bíblia.
Ela pediu para dar um jeito no fantasma do Sutter.
Não tem fantasma nenhum aqui. É coisa da cabeça dela.
Deixe ela descobrir.
Se ela vai se sentir melhor com a bênção, que mal tem?
Ela disse que Maretha também viu.
Encontrei uma passagem na Bíblia para benzer a casa.
Deve funcionar para afastá-lo.
Acredita mais nisso do que ela.
Se acredita mesmo, vá lá em cima procurar.
Eu fui lá em cima e não vi.
Se diz que ler a Bíblia vai tirá-lo da cabeça dela, pode até ser.
- Mas se... - Poderia ficar quieto?
Isso não tem a ver com você. Deixe-o fazer o que ele veio fazer.
Não vou impedir. Ele não tem poder para fazer nada.
Eu não tenho poder nenhum. Deus tem poder.
Deus tem poder sobre tudo o que Ele criou.
Ele pode tudo. Deus diz: "Como eu comando, assim será."
Disse Deus: "Faça-se a luz", e a luz foi feita.
Criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo.
Seu poder é maravilhoso, comanda a vida e a morte.
Sei que vai conseguir afastar um fantasma.
Por onde andou? Estava te esperando.
Eu encontrei a Grace.
Não quero saber de Grace.
Oi, Berniece.
Lymon, vá pegar o outro lado do piano.
Boy Willie, não comece de novo. Deixe esse piano quieto.
Pegue daquele lado. Fique fora disso, Doaker.
Não pode levar o piano assim. Vai sair levando na maior?
A Berniece não disse que quer vender.
Nem precisa. Vamos, Lymon, levantar um lado de cada vez.
- Para que a corda? - Não se preocupe, só levante aí.
Boy Willie... Berniece.
Boy Willie, tem certeza disso?
Berniece, Boy Willie, conversem com calma.
Não há o que conversar.
Já cansei de falar com ela.
Vamos, Lymon.
Maretha, saia já daí.
Tire-a daí, Doaker.
Venha, vamos. Obedeça à sua mãe.
Vou te contar, esse pessoal daqui...
Eu fui lá no Seefus.
E tinha um pessoal fazendo uma confusão danada na calçada.
falando da chegada de um tal Patchneck Red.
No fim das contas,
sabe de quem estavam falando?
Do velho John D., lá de Tyler.
As pessoas morrem de medo dele. Estão chamando de Patchneck Red.
Não sabem que já quebrei a cara dele.
Segure firme para não escorregar.
E aí, Boy Willie?
Sei que tem uma dose aí na sua manga.
Sai da frente, Wining Boy.
E você, Doaker? O que tem aí? Eu quero.
Pelo que vejo, você já bebeu o suficiente.
"O que tem aí?" Vá procurar onde se deitar.
Não me preocupo com lugar onde deitar.
Sempre terei um lugar onde dormir na casa da Berniece.
Não é verdade, Berniece?
Wining Boy, vá se sentar em algum lugar.
Passa o dia bebendo, volta fedendo que nem gambá.
Sabe que ela detesta bebedeira.
Não estou desrespeitando a Berniece.
Berniece, eu desrespeitei você? Só estou tentando ser gentil.
Passei o dia com estranhos e todos me trataram como família.
Volto para casa, e vocês me tratam como um estranho.
Não preciso do seu uísque. Posso comprar o meu.
Eu queria sua companhia, não seu uísque.
Vá se deitar. Não precisa beber mais hoje.
Não quero saber de deitar!
Eu e o Boy Willie vamos pra farra. Não é, Boy Willie?
Diz aí.
Eu vou é tocar piano. Olha só isso.
Espere aí. Nós vamos levar o piano.
- Não! Não vai levar o piano. - Saia daí, Wining Boy.
Não vai tirar o piano desta casa. Vai ter que me levar junto.
Saia já! Doaker, tire-o daqui.
Espere aí. Espere.
Essa é a canção que fiz para Cleotha.
É uma homenagem à memória dela.
Ei, moça querida O que foi que houve agora?
A tempestade de ontem à noite Arrasou tudo lá fora
Diga-me quanto tempo Eu terei que esperar
Pode ser agora?
Ou devo hesitar?
São meias-calças hesitantes
Em seus sapatos hesitantes
É preciso uma mulher hesitante
Para cantar o blues
Doaker, você sentiu?
Berniece, você ficou arrepiada?
- Ei, Doaker... - O que foi?
Acho que é o Sutter.
Avery. Comece a benzer a casa.
Comece pelo piano, se for benzer algo.
Ele só faz causar problemas.
Se for benzer algo, que seja ele.
Já que ele vai benzer, que seja a casa toda.
A cozinha, o andar de cima...
Berniece, ponha água nessa garrafa.
Segure esta vela.
Tome muito cuidado
para esta vela não apagar.
Maretha, fique aí.
Santo Pai,
estamos reunidos aqui esta noite
em nome do Senhor
para expulsar o espírito de James Sutter.
Sim.
Que esta água seja abençoada com o poder de Vosso espírito.
Que ela seja uma arma e uma proteção contra a presença de todos os males.
Que ela seja uma limpeza e uma bênção sobre esta humilde morada.
Onde houver o bem,
o mal será afastado para os quatro ventos.
Vá de retro, Satanás.
Recue diante da face da justiça e da glória do Santo Nome.
- Sim. - Ah, sim.
Sim, Pai, nós sentimos Vossa presença. Nós a honramos, Senhor.
Somos gratos, Senhor.
Nós sentimos a Vossa presença neste lugar, Senhor Deus.
- Sim, somos gratos. - Sim.
Abençoe esta casa.
Bata o martelo da verdade
ao derrubar a muralha da falsidade, meu Deus.
- Somos gratos... - Quanta pregação.
Mande o espírito sair.
Eu derramarei água pura sobre ti,
e estarás purificado das tuas imundícies.
De todos os teus ídolos, eu te libertarei.
Um novo coração, eu te darei.
- Darei um coração de carne. - Vai, Sutter.
- Colocarei meu espírito... - Anda, Sutter.
- ...e farei... - Venha, Sutter!
- ...minhas leis. - Sutter!
Seguirás meus preceitos...
Venha pegar um pouco desta água. Já caiu naquele poço mesmo.
- Venha pegar a água. - Colocarei em ti o meu espírito.
Eu te farei obedecer às minhas leis.
Venha, Sutter!
Vamos, Sutter. Venha.
...e estarás purificado das tuas imundícies.
E dos teus ídolos, eu te libertarei.
- Um novo coração... - Venha pegar a água.
- Venha, Sutter. - Derramarei água pura sobre ti.
- Venha buscar a água. - Estarás purificado.
Das tuas imundícies
e dos teus ídolos, eu te libertarei.
- Venha, Sutter! - Eu... Senhor Deus...
Ó Deus do céu.
Derramarei água pura sobre ti e estarás purificado.
De toda a tua imundície e dos teus ídolos, eu te libertarei.
Boy Willie.
Boy Willie.
Sutter!
Eu derramarei água pura sobre ti
e dos teus ídolos, eu te libertarei.
Eu te libertarei. Colocarei um novo coração...
Sutter!
Sutter!
...e tu seguirás meus preceitos
e deverás observá-los.
Eu derramarei água pura sobre ti, e estarás purificado.
Das tuas imundícies e dos teus ídolos, eu te libertarei.
Um novo coração, eu te darei e...
Ó, Pai.
Nós chamamos por Vós, Pai.
- Sim. - Chamamos por Vós.
Sutter!
Eu... Eu te...
- Eu te farei obedecer... - Mamãe!
...obedecer às minhas leis, e tu seguirás meus preceitos
e deverás observá-los.
Eu derramarei água pura sobre ti, e tu estarás purificado.
Sutter!
- De todos os teus ídolos, eu... - Sim.
Eu tirarei o coração de pedra do teu peito
e te darei um coração de carne.
Colocarei em ti o meu espírito e te farei obedecer
às minhas leis,
e tu seguirás meus preceitos
e deverás observá-los.
Eu te farei...
Berniece, eu...
Eu não consigo.
Berniece, eu não consigo.
Eu não... Eu...
Não...
Vá, Berniece.
Vá, Berniece.
Ó, Deus. Nós o louvamos. Senhor Deus, nós louvamos o Teu nome.
Para trás de mim, Satanás.
Chame-os, Berniece. Chame-os.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajude, Mama Berniece. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Mama Esther. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Papa Boy Charles. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Mama Ola. Quero sua ajuda.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajude, Mama Berniece. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Mama Esther. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Papa Boy Charles. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Mama Ola. Quero sua ajuda.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajudem.
Sim.
Sim!
Quero que me ajude, Mama Berniece. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Mama Esther. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Papa Boy Charles. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Mama Ola. Quero sua ajuda.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajude, Mama Berniece. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Mama Esther. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Papa Boy Charles. Quero sua ajuda.
Quero que me ajude, Mama Ola. Quero sua ajuda.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajudem.
Quero que me ajudem.
Obrigada.
Obrigada.
Obrigada.
Obrigada.
Berniece,
se você e Maretha não continuarem tocando esse piano,
nunca se sabe...
tanto eu como o Sutter podemos voltar.
Obrigada.
Obrigada.
Obrigada.
Obrigada.
Menina, pare de bater nesse piano.
Estou praticando.
- Então, toque. - Assim?
Muito bem, filha.
Com quem aprendeu a tocar isso?
TERRENO À VENDA
PROPRIETÁRIO R. SUTTER SUNFLOWER, MISSISSIPPI
PARA MAMA
BASEADO NA PEÇA ESCRITA POR AUGUST WILSON
EM MEMÓRIA DE KWAME FIREMPONG, DANIEL JONES, TARJA RAMSESS E KEVIN TUREN
Tradução e Adaptação: Companhia das Palavras
PIANO DE FAMÍLIA
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