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Zulu
Quando era criança, minha mãe me disse
que os seres humanos são capazes do melhor e do pior.
Ela estava errada.
Alguns são capazes só do pior.
Os nativos têm uma lenda sobre essas pessoas,
tão antiga quanto as montanhas da região.
Dizem que, em tempos de escassez,
um espírito maligno sai da floresta
para possuir aqueles que canibalizaram a carne de seus iguais.
Ele começa aparecendo nos sonhos,
mas aí já é tarde demais.
Essas pessoas são amaldiçoadas, condenadas a virarem
almas errantes em busca de carne humana.
Sempre insaciáveis.
Nunca satisfeitas.
A principal notícia continua sendo o mau tempo,
que está assustador, além de fatal.
Temperaturas abaixo de -28ºC, chegando a -45ºC.
Se for travesso ou bonzinho,
o congelamento e a hipotermia vão estar na lista.
Sem previsão de folga até sexta,
talvez nem o Papai Noel venha pra cidade.
Mais informações às 22h41.
CAFETERIA
CAFETERIA SOPAS E SANDUÍCHES
- Mais café, Jean? - Pode crer.
- Está bem? - Parece que o olho foi maior que a boca.
- Estou de dieta, cuidando do peso. - Sério?
Está um gelo. Tem que acumular energia.
Se quiser dirigir o limpa-neve como eu um dia, é bom comer.
Mas eu não quero.
- É chato. - O que quer fazer?
Algo com videogame.
Videogame! Essas crianças…
Vou embalar pra viagem.
Qual o problema dos games?
- Não dão sustento. - Billy.
Billy!
- Embrulhe pra viagem. - Pra já!
Daí pode ir embora.
SEXTA, 19 DE DEZEMBRO 13 CHAMADAS PERDIDAS
VINCE ATENDE A BOSTA DO CELULAR
Tá legal.
Ótimo, como sempre.
- Até depois da tempestade. - Obrigado.
Tomem cuidado. Está liso aí fora.
O que vai querer?
- Eu mataria por um café quente. - Pode deixar.
Um bife malpassado com batata seria ótimo.
Desculpe, o cozinheiro já foi por causa da tempestade.
E uma fatia da nossa famosa torta de cereja?
Tão famosa assim?
Algumas pessoas conhecem bem menos coisas que outras, não é?
Se me trouxer um café quente e uma fatia dessa torta, já tomo meu rumo.
Aqui está.
- Obrigado. - Cuidado com o café quente.
- Tem açúcar ali, se quiser. - Obrigado.
Merda!
Ana!
Sua vadia!
- Não sabe ler? Fechamos. - Por que não atende?
Porque não tenho nada pra dizer nem ouvir.
Cai fora antes que eu chame a polícia.
Quero ver minha filha.
Nossa filha!
E ela não quer te ver.
- Ela te odeia. - Claro.
Por causa das mentiras que você fala de mim.
Não! Por causa disto!
É isto aqui que ela vê!
A merda de um bêbado.
Escuta, você e aquele juiz idiota não podem me impedir de vê-la, tá?
Está entendendo?
Faz uma idiotice pra ver se não vai direto pra cadeia.
- Dá o fora! - Não acabei.
Não acabei de falar!
Mas bem que podia.
Desculpa, o que disse?
Repete.
Vai lá, amigão.
Repete.
Come.
- Vince… - Cala a boca!
Come.
Entendi. Você está bravo.
Ouvi que o juiz não deixa mais você ver sua filha,
provavelmente pelo excesso de álcool, abuso de substâncias,
o que também explica a facilidade com que agarrou a Ana ali.
- Vocês se conhecem. Estão transando. - Sou só um cliente.
Ela usa crachá.
Mas me escuta.
Vincent, né?
A meu ver, você tem duas opções.
Primeira opção:
vai notar que não tem câmeras de segurança aqui,
mas tem a Ana e eu.
Se encostar em um de nós com qualquer sinal de agressão,
vamos ter que denunciar que foi você.
E nunca mais vai ver sua filha de novo.
Segunda opção, que é muito melhor, como vai ver:
vai sair daqui agora.
Vai perceber que tem a oportunidade
de acordar sóbrio pela manhã
e começar a ser o pai que sua filha merece.
Com o tempo e um pouco, ou muita, reabilitação,
vai poder voltar àquele juiz idiota e convencê-lo de que merece ver sua filha.
São suas únicas opções.
Então a questão é…
Quanto você ama sua filha, Vincent?
Sorte sua eu estar de bom humor hoje.
Vamos nos ver de novo.
Vince…
Fique sóbrio que conversamos. Eu prometo.
- Desculpe por isso. - Não precisa.
Tá, obrigada.
Ele nem sempre foi assim.
Era uma boa pessoa quando nos casamos. Difícil de acreditar, eu sei.
Ele foi demitido e começou a beber.
Ou talvez tenha sido o contrário.
Enfim,
ficou cada vez pior desde então.
Dizem que só se conhece alguém de verdade quando viram inimigos.
Pois é.
- Você é casado? - Sou.
- A propósito, sou David. - Ana.
Acho que não vai terminar.
- A famosa torta de cereja, não é? - É, sim.
Como vai querer o bife?
Malpassado.
MERCEARIA
Olá.
Vou levar a bolacha,
uns US$ 20 de gasolina e 20…
Não, 40 do Holmes Mentol.
Deu 54 dólares.
Não tenho tudo isso.
- Vou deixar a bolacha. - Aceitamos cartão.
Lembrei que minha esposa tem acesso, o que nunca é bom.
Olha você aí.
Merda.
- Quer algo? - Não.
- Não sei como aguenta. - Vou dizer o quê?
Compenso desde que parei de fumar.
Policial.
Precisa arrumar. Não pode dirigir com isso colado.
É, eu sei. Tem razão.
Conserto assim que vir uma oficina.
Dirija com cuidado.
Merda!
Merda.
Vamos lá!
Droga!
Merda!
Vamos lá!
Droga!
Vamos lá!
PROCURANDO REDE...
Caramba.
Não saia daqui.
Socorro.
Droga.
Merda.
Um movimento em falso e corto sua garganta.
Eu deveria te matar.
É o meu gorro?
Você fala quando eu mandar!
Tenho algumas perguntas.
Você vai responder, e talvez…
Talvez eu te mantenha vivo até a polícia poder te levar.
Onde estamos?
Não faço ideia.
Me perdi na tempestade.
Em algum lugar nas Montanhas Negras.
Cadê meu celular?
Joguei fora.
- E o seu? - No meu bolso.
Se me soltar, eu pego pra você.
Eu pareço idiota?
Por mais gostoso que seja, é no bolso interno.
Se me ferrar…
Senha.
Não tem sinal.
É 4556.
Merda!
Uma merda, né?
Não dá pra confiar na cobertura que anunciam.
Estou surpreso que o frio não te matou lá atrás.
Você é durona.
Minha mãe deve ter notado que não voltei.
Ela já deve ter chamado a polícia.
Bom, ela acha que você foi resolver as coisas com o Vince.
- Como? - Enviei uma mensagem do seu celular.
Usei sua digital.
Seu filho da mãe!
Planejou isso o tempo todo?
Quase tudo.
Costuma sequestrar mulheres e colocá-las no porta-malas?
Me responde!
Não sei o que me deu.
Nunca fiz nada assim antes.
Alguém por aí com uma faca de caçador, fita e clorofórmio
me parece bem preparado.
Equívoco comum.
Sempre acham que é clorofórmio.
Veem filmes, leem livros e acham que clorofórmio é o ideal.
Está falando de assassinos feito você?
Sou só um sequestrador agora.
Eu não te matei… ainda.
Para de chorinho. Mal encostei.
É a minha perna.
- O que tem sua perna? - Está ferrada!
Quebrada. O osso saiu pra fora.
- Dói? - O que acha?
Ótimo.
Tomara que piore.
Aposto que não esperava que fosse usado contra você.
É bem eficaz, devo admitir.
O que é?
- Quer saber meu segredo? - Quero.
Tem muitas opções, desde desflurano até sevoflurano, isoflurano.
Basicamente, minha fórmula termina com "flurano", se ajudar.
Não espalha.
A polícia vai adorar, com certeza.
- Tentei clorofórmio no começo. - Não era sua 1ª vez?
Mas o clorofórmio…
Leva até cinco minutos pra desmaiar depois que inala.
Sabe quanto tempo é isso?
Cinco minutos.
E, nesse tempo, elas…
Elas chutam, socam, agarram,
puxam o cabelo.
Não se tem controle do quanto estão inalando,
porque depende da respiração.
E se elas…
entram em pânico,
respiram muito fundo ou rápido, sabe o que acontece?
Elas morrem.
Bem nos seus braços.
A diversão meio que acaba.
Então, nada de clorofórmio. Gosto de manter o controle.
Não está mais no controle, idiota.
- Facas só te dão controle se for usá-las. - Não me provoca.
- Pelo menos estou livre. - Livre?
- Sério? - Sério.
Pode escolher entre morrer devagar aqui ou rápido lá fora.
É sua única liberdade.
Me conta.
Por que continua aqui dentro?
Ah, entendi!
Você já tentou.
Estou imaginando você escapando do porta-malas,
saindo e percebendo que não tem pra onde ir
e precisando voltar pro carro.
Que brutal!
É engraçado.
Trocou uma gaiola por outra.
Só que agora está com o tubarão.
Um tubarão sem dentes.
Então, e agora?
O que planeja fazer comigo, Annie Wilkes?
Não dou a mínima pra você.
Assim que passar, vou me arriscar lá fora.
Boa sorte, então.
Até onde acha que a nevasca vai?
Meio quilômetro? Um e meio?
Está fazendo -20ºC lá fora.
- Vou conseguir. - Não.
Não vai.
Subi o morro e quase morri em dez minutos.
Não está equipada pra tempestade, mesmo usando meu gorro e luvas.
Muitos fatores podem te manter vivo na tempestade.
O corpo trabalha pra proteger o que é vital: a cabeça e os órgãos.
Não se importa com as extremidades.
Então, pretendo sair daqui com tudo o que tenho intacto.
Por outro lado, muitos fatores podem acelerar a hipotermia:
gordura corporal, idade, consumo de álcool,
lesões, sinto muito, e umidade.
Suas roupas estão encharcadas. Vão congelar bem rápido.
Não sei se vai aguentar.
Fala sério! Uma garçonete com diploma de Medicina.
Não preciso disso. Eu cresci no frio.
Sua melhor chance de sobreviver é ficar aqui comigo.
É o mais esperto, dadas as circunstâncias.
- Confie em mim. - Em você?
Sabe…
Começamos com o pé esquerdo.
Não começamos nada.
Bom, quer você goste ou não, estamos na mesma merda.
Não por muito tempo.
Sabe o que vou fazer antes de ir?
Me certificar de que está preso e amarrado nessa cadeira.
Depois vou deixar as portas bem abertas.
Com sorte, vão achar seu corpo congelado até o inverno acabar.
Mas, claro, os animais selvagens já podem ter cuidado de você.
- Apaguei por quanto tempo? - Não o bastante.
Olha, se quiser sobreviver, temos que poupar combustível e bateria.
Usar o aquecedor só por minutos, ou não vamos durar.
Não pretendo ficar muito.
Não sabe se ficaremos aqui por horas, dias ou semanas.
Sobreviveríamos sem comida, não sem calor. O frio nos mataria em horas.
Hipotermia, lembra?
Desliga.
Desliga!
Se mover um músculo…
Você não é daqui, é?
Eu gosto de viajar.
David Herman Petersen.
Que nome…
Pelo menos é o verdadeiro?
Não importa.
Pra mim você é só um Filho da Mãe Arrombado.
Não liga se eu te chamar assim, né, Filho da Mãe Arrombado?
Parece que ninguém sabe quem você é.
- Eu sou um cara tímido. - E não deve ter filho.
Que menina esperta!
Deve ser daí que Ella puxou o cérebro. Do Vince é que não foi.
- Como sabe o nome da minha filha? - Eu sei muito de você, Ana.
- E você não sabe nada de mim. - Sei mais que o bastante.
Nunca mais mencione o nome da minha filha.
Essas cadeirinhas são caras! Vai pagar por ela.
O que foi?
A amarra está apertada, cortou meu pulso.
Não se preocupa. Logo nem vai sentir mais as mãos.
Por que não me matou?
Criei uma teoria no porta-malas.
Quer ouvir?
Complexo de superioridade.
- Ficou desleixado. - Jamais!
Ficou confiante demais. Ainda está.
Devia ter me matado quando pôde.
Se eu só quisesse te matar, já estaria morta.
Tinha outros planos pra mim.
Desgraçado doentio…
Por que não me matou?
Teria sido fácil enquanto dormia.
Porque não sou como você. Não sou um monstro.
Nas circunstâncias certas, todos podem ser cruéis.
Até você.
Imagina só.
Imagina.
Alguém machucando a pequena Ella.
Nunca mais mencione o nome da minha filha.
Tá bom.
Tá.
Viu só?
É só uma questão de circunstância.
A 1ª vez nunca é fácil.
Mas se acostuma com o tempo.
Vai saber?
Talvez até gostasse.
- Eu poderia te ensinar. - Cala a boca!
Tem algo pra comer?
Qual é a graça?
Quase comprei uma bolacha no posto.
Não quis usar o cartão.
Fica tão fácil de rastrear.
Só tinha dinheiro pra gasolina e cigarros.
Meu médico sempre disse que o cigarro ia me matar.
Vou tirar uma soneca.
Deveria tentar também.
- Não pretendo dormir. - Mas vai.
O frio vai te obrigar.
É inevitável.
Nesse caso…
Vadia! Que droga…
Pesadelo?
Queria saber como são seus pesadelos.
Os meus, como de qualquer normal, estão cheios de idiotas feito você.
Mas os seus…
Como será que são?
O que te assusta?
Ser pego pela polícia?
Ser executado? Não?
Talvez sejam sobre pessoas normais,
felicidade, família.
Tudo o que você nunca vai ter.
Tem uma garrafa em algum lugar.
Pode ir. Não ligo de dividir.
Não vou olhar, prometo.
Não saia daqui.
Vadia…
Vamos lá!
Abre essa porta!
Adoraria ajudar, mas estou de mãos atadas.
Vadia de merda.
Vamos lá!
Que merda é essa?
Eu vou te matar!
Já bisbilhotou?
Desde quando me persegue?
Tempo suficiente.
Como eu disse, sei muito de você.
Por que eu?
Sempre a mesma pergunta.
O que quer ouvir?
Que é especial? A escolhida?
Eu vi
uma oportunidade.
É solteira e mora sozinha com a filha.
Não tem amigos. Só tem a mãe de família.
Só mais uma imigrante qualquer,
pra quem ninguém liga.
Foi fácil.
Tirando o Vince.
Não planejei aquele idiota.
Ele quase estragou tudo.
É assim que você faz?
Ajuda donzelas em perigo pra ganhar confiança e as sequestra?
Foi isso que fez com Ashley Mitchell?
- Quem? - Ashley Mitchell. Ela!
Quantas mulheres já matou?
Eu nunca contei.
Tenho certeza de que já.
É o que malditos feito você fazem.
E é por isso que guarda as identidades.
Quantas?
Bom, é difícil responder.
Só descobri que uma estava grávida depois.
Isso conta como duas?
E teve
uma morena muito fofa que eu adorava.
Ela se parecia com você,
mas falava bem menos.
Qual era o nome dela? Maria… Mia.
Ela engasgou no próprio vômito com minha mordaça.
Isso é assassinato ou acidente?
- Meu Deus… - Você perguntou.
Todas essas vidas acabaram
porque estavam no lugar errado na hora errada,
cruzaram o caminho de um psicopata.
Você vai ouvir o nome de todas essas mulheres.
Amanda Walker.
Maddie Parker.
Elizabeth Guzman.
Olha pra elas. Abre os olhos!
Cassie Beckerman.
Filho da mãe, olha pra ela!
Cassie…
É, eu me lembro dela.
Foi minha primeira.
Nunca se esquece da primeira.
Uma bagunça enorme. Fiz tudo errado.
Nem sabia que ia caçar naquele dia.
Só tinha saído pegar garotas e ver se conseguia largá-las.
Estava me testando.
Aprendi muito sobre a psicologia feminina.
Algumas mulheres sempre desconfiavam.
Viam um cara sozinho no carro.
Eu queria mudar isso pra que quisessem entrar.
Era um jogo.
Eu me testava toda vez, via até onde conseguia ir.
Eu não queria ser pego.
Mas lá estava eu,
dirigindo por horas sem fim, quando, de repente,
eu dei sorte.
- Oi. - Olá.
Eu vou pra Lakeside.
Sinto muito. Estou indo pra Columbia Falls. Foi mal.
Não falei que ia pra Lakeside, nem ofereci carona de cara.
Teria sido muita coincidência. Avidez demais.
Mas, sabe…
Posso dar a volta, te deixar perto de Lakeside.
Olhei pro relógio,
como se pensasse: "Será que dá tempo?"
Ficaria surpresa com a eficácia disso.
A mãe deve ter avisado pra não entrar no carro de um estranho.
Ela olhou pra mim.
Dava pra ver que ela estava pensando:
"É um tonto. Não machucaria uma mosca."
- Então… - Tá bom. Pode ser.
- Muito obrigada. - Imagina.
Ela entrou.
Devia ter escutado o instinto.
Ela tinha olhos castanhos incríveis, cabelo longo e loiro
e seios que saltavam pra fora, me enlouquecendo.
Você gosta de música?
Sim. Eu gosto, sim.
- Coloca a que quiser. - Claro.
Vou ver se tem alguma coisa.
- Eu amo essa. - É?
É, sim.
Ela riu de coisas que eu disse que nem eram engraçadas.
Deixei achar que tinha controle.
Vai ver seu namorado ou…
Não, eu não tenho namorado.
- Não? - Não. Vou visitar uns amigos.
Ela começou a jogar.
Não me provocava. Era aquele jogo entre homem e mulher.
Eu senti um desejo,
uma sensação horrível e feroz.
Consumia minhas entranhas.
Acho que errou a curva.
É o caminho errado.
- Essa estrada é mais rápida. Conheço bem. - Tudo bem, então.
Ela sabia que tinha algo errado.
Sabe… Sério, pode me deixar aqui mesmo.
Eu posso sair e pegar outra carona.
Não tem problema.
Não precisa se preocupar. Tudo bem.
Pode encostar e me deixar sair?
Só me deixa aqui.
Eu estava tentando ganhar tempo,
mas ela ficou histérica.
Se não me deixar sair agora, vou chamar a polícia.
- Não precisa… - Qual o seu problema? Me deixa sair!
Tentei acalmá-la, mas ela não calava a boca.
Abre a merda da porta!
Perdi o controle.
Abre a porta!
Eu estraguei tudo.
Chega!
Já chega!
Já chega!
De repente eu estava parado lá e…
Não pude acreditar. Eu…
Eu tinha conseguido.
Eu tinha conseguido.
Ela não morreu na hora como o esperado.
Como nos filmes.
Não acontece assim.
Quando se esfaqueia, sangram devagar.
Perdem pressão.
Precisa esfaquear de novo e de novo.
Essas coisas demoram.
Podia ter acertado o coração,
mas não queria danificar aqueles seios.
Acabei cortando a garganta.
Joguei o resto do corpo numas madeiras,
e foi achada lá dois dias depois.
A polícia se empenhou. Foi pro jornal local.
A Cassie era filha de um juiz.
Fui idiota.
Tive que me esconder por semanas até tudo passar.
Ela me fez mudar o meu jogo.
A partir de então,
fui muito cuidadoso.
A próxima foi uma imigrante.
Cassie ainda era notícia,
mas pra aquela vadia pobre,
não teve nada.
Nunca tinha imaginado
a falta de esforço pra achar o assassino de uma imigrante pobre qualquer.
É até conveniente pra alguns.
Isso me abriu um mundo novo.
Más notícias pra você, David.
Sua série de vitórias acaba aqui.
A próxima vez que falarem de suas façanhas
será no corredor da morte.
Sinto pena de você.
Que se dane você e sua pena!
Deve ter uma vida miserável.
Sem amigos, sem esposa,
sem ninguém com quem conversar, em quem confiar.
É, você e eu temos muito em comum.
Não temos nada em comum. Nada.
Me pergunto como ficou assim.
Por que teme tanto as mulheres?
Porque é disso que se trata, né?
As mulheres te assustam.
Não consegue ficar de pau duro?
- Qual é… - Elas riram de você?
Eu quero saber. O que foi?
Foi sua mãe?
Não se atreva a falar da minha mãe!
O assassino filhinho da mamãe tem um ponto frágil.
O que quis dizer
quando falou "resto do corpo"?
Consegue parar de perguntar?
O que você fez com elas?
Estavam mortas de qualquer jeito.
O mundo será um lugar melhor quando você se for.
Ontem, no café,
rolou algo entre você e eu.
Uma faísca. Eu vi.
Vai lá. Admite.
Vai sonhando. É tudo que te resta.
Quando te salvei do marido abusivo, te deu um tesão.
Isso te excita.
Tudo bem, pode admitir.
Você está delirando.
- Sério? - Caras legais me excitam.
Não psicopatas.
E por que se casou com o Vince?
Ele é bem violento, nada legal.
Ele começou a beber, ficou deprimido.
- Ele perdeu o emprego. - Quanta desculpinha!
E o cara antes do Vince? Deve ter tido um.
Também era violento?
Ele te batia e dava flores, que você não cheirava de nariz quebrado?
Inventou desculpa pra ele?
Bebida, depressão, emprego.
Bang! Desculpa, flores.
Bebida, depressão, emprego.
Bang! Desculpa, toma aqui algumas flores.
Bebida, depressão, emprego. Bang! Desculpa…
Já cansei de te ouvir.
Acho que já foi.
O quê?
O quê?
Pra ligar?
O que era aquilo?
Não sei.
Seja o que for, deve ter vindo por causa do seu mijo.
Pode ter sido seu sangue.
Vamos ligar o aquecedor.
- Temos que poupar, lembra? - Só por uns minutos. Qual é!
- Não. - Estou congelando aqui!
Devia ter pensado nisso antes de me fazer quebrar a janela.
Quinze minutos. Só isso.
Preciso usar o banheiro.
Sério, preciso mijar.
Que otimista!
Me dá uma mão, então.
Não faça eu me mijar.
Por favor.
Eu não vou te soltar.
Viu?
Avisei que era capaz de ser cruel.
Pense que vai te aquecer por um tempo.
O que foi agora?
Minha perna.
A pele ficou preta.
Merda.
Se a tempestade continuar,
eu vou perdê-la.
Se a tempestade continuar,
essa será a menor das suas preocupações.
Parece que estamos no meio de uma reserva.
Aqui,
os nativos têm uma lenda.
Fala de um espírito que vive na floresta
e vem caçar gente feito você.
Pessoas que cometeram as piores atrocidades.
Que deixaram de agir como homens civilizados.
Dizem que aparece pela 1ª vez no sonho.
Quando chega a hora delas,
ele vem pegá-las,
e elas se transformam
numa alma condenada a vagar pela floresta.
Acredita nessa baboseira?
Os nativos acreditam.
Merda.
O que foi?
A bateria acabou.
Não. Merda!
Merda!
Agora estamos ferrados.
Lembra que tenho a faca.
Se dormirmos desta vez,
não vamos acordar.
Não vamos.
A tempestade vai passar.
Estou tentando lembrar a última vez que uma mulher me tocou.
Sabe…
Que quis me tocar pra valer.
Eu não estou te tocando.
Estou absorvendo seu calor pra não morrer.
Eu queria ser melhor.
Meio tarde pra sentir culpa.
Não espero que sinta pena de mim.
Minha vida não foi fácil.
Meu pai…
aquele merda…
fugiu quando eu tinha nove anos.
Nunca mais o vi.
Minha mãe já bebia.
Uma das duas coisas que tinham em comum.
A outra coisa era eu.
Quando ele partiu,
só sobrou a bebida.
Ela era bem mais violenta que meu pai.
Depois que ele foi embora,
fiquei com medo e mijei na cama.
Quando ela descobriu…
ela me bateu.
E toda noite eu mijava na cama.
E toda noite ela me batia.
Eu cresci num orfanato.
Quanto tinha nove anos, dei sorte
e fui adotada por um casal legal.
A mãe era carinhosa.
O pai era atencioso.
Mas pouco tempo depois…
foi mais atenção do que eu queria.
Do que qualquer criança quer.
As coisas aconteceram em silêncio
até eu fazer 15 anos.
Então comecei a me meter em confusão.
Soa familiar?
Então,
eu finalmente falei
e meu pai foi preso.
Depois vieram
as bebidas, as drogas,
a violência, a prisão.
Depois me tornei mãe.
E só dei pra Ella
amor e bondade,
apesar de ter tido uma vida difícil.
E a verdade
é que está procurando desculpas, mas não tem.
Não trarão de volta as vidas que tirou.
Não tem nada a ver com sua mãe.
Enfim, não importa mais.
Em algumas horas, o frio vai nos levar.
Vai ficar tudo resolvido.
Esta é uma vantagem do frio
que eu não esperava.
Não sinto mais a dor na perna.
E tem outra coisa
que me surpreendeu.
O quê?
O frio deixa tudo tão frágil.
É mesmo.
Incluindo a fita.
Devia ter me matado
em vez de ficar falando feito a vadia da minha mãe.
Eu a matei dez anos atrás.
Arranquei a garganta pra ela ficar quieta.
Ana, vou fazer algo muito especial com você.
Porque somos amigos agora.
Eu vou aproveitar muito esse momento com uma amiga.
Quando eu sair daqui,
a primeira coisa que vou fazer
é brincar com a pequena Ella.
Sai!
Dormir…
Eu não vou dormir.
Eu prometo.
Eu não vou dormir.
Eu prometo.
Eu não vou dormir.
Merda!
Can't find what you're looking for?
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