Afrikaans
Akan
Albanian
Amharic
Arabic
Armenian
Azerbaijani
Basque
Belarusian
Bemba
Bengali
Bihari
Bosnian
Breton
Bulgarian
Cambodian
Catalan
Cebuano
Cherokee
Chichewa
Chinese (Simplified)
Chinese (Traditional)
Corsican
Czech
Danish
Dutch
English
Esperanto
Estonian
Ewe
Faroese
Filipino
Finnish
French
Frisian
Ga
Galician
Georgian
German
Greek
Guarani
Gujarati
Haitian Creole
Hausa
Hawaiian
Hebrew
Hindi
Hmong
Hungarian
Icelandic
Igbo
Indonesian
Interlingua
Irish
Italian
Japanese
Javanese
Kannada
Kazakh
Kinyarwanda
Kirundi
Kongo
Korean
Krio (Sierra Leone)
Kurdish
Kurdish (Soranî)
Kyrgyz
Laothian
Latin
Latvian
Lingala
Lithuanian
Lozi
Luganda
Luo
Luxembourgish
Macedonian
Malagasy
Malay
Malayalam
Maltese
Maori
Marathi
Mauritian Creole
Moldavian
Mongolian
Myanmar (Burmese)
Montenegrin
Nepali
Nigerian Pidgin
Northern Sotho
Norwegian
Norwegian (Nynorsk)
Occitan
Oriya
Oromo
Pashto
Persian
Polish
Portuguese (Brazil)
Portuguese (Portugal)
Punjabi
Quechua
Romanian
Romansh
Runyakitara
Russian
Samoan
Scots Gaelic
Serbian
Serbo-Croatian
Sesotho
Setswana
Seychellois Creole
Shona
Sindhi
Sinhalese
Slovak
Slovenian
Somali
Spanish
Spanish (Latin American)
Sundanese
Swahili
Swedish
Tajik
Tamil
Tatar
Telugu
Thai
Tigrinya
Tonga
Tshiluba
Tumbuka
Turkish
Turkmen
Twi
Uighur
Ukrainian
Urdu
Uzbek
Vietnamese
Welsh
Wolof
Xhosa
Yiddish
Yoruba
Zulu
O que é realidade ou ficção? Precisamos pensar sobre isso. Acho que estamos sendo
enganados pela vida. A realidade pode ser uma mentira que alguém inventou? E se
todos estivermos vivendo o sonho de outra pessoa?
- Isso. - Eu consegui abrir.
Eu agradeço a presença de todos aqui. Não sou muito bom em discursos, como sabem.
Tudo bem.
Há 40 anos, quando o meu pai fundou a Editora Urkan, nós contávamos com muitos
amigos, muitos autores, e claro, nós tínhamos milhares de leitores. O Mar da
Vida foi a primeira publicação. Taner, lembra de todas as memórias e ideias que
acumulamos de lá para cá? Pois é.
Mas como todos nós já percebemos, ninguém mais lê.
E durante boa parte dessa aventura, a minha querida esposa esteve ao meu lado.
Ela ainda é a primeira a ler todos os livros que chegam na editora, e eu sempre
confio nos instintos dela. E hoje é o nosso décimo aniversário de casamento.
Gokce, é bom ter você. Aqui ao meu lado.
Agora já desse discurso chato. Um brinde aos amigos.
- Aos amigos! - Aos amigos!
Eu não sou o único que pensa dessa maneira. Outras pessoas também têm a mesma
opinião. Mas olha, não me leva a mal. Eu espero que você entenda. Tudo é uma
questão de mercado também.
Eu falo isso como amigo, eu acho melhor você parar de escrever sobre a sua vida.
Tenta outra coisa, vai.
Gokce, escuta essa. Já soube? O seu marido não gosta mais do meu trabalho. Ele disse
pra eu tentar alguma coisa diferente. Tudo bem, o que acha disso? Há algum tempo, eu
li uma notícia de Maltepe, em Istambul, que um humilde alfaiate da região acredita
que Anna Karenina existe de verdade.
Ele não só acredita, como abandonou a família e se mudou pra Rússia.
- É sério? - Se visse isso num filme ou num programa...
- Não ia acreditar. - Mas ele acredita.
Isso é loucura.
Vai! Entra logo na casa.
Pega alguma coisa. Põe, vai. Agora aqui.
Vai mais rápido. Vai! Vai!
Você vai perder.
- Vai, aperta. Anda logo. Vai! Não! - Não, você não vai ganhar de
mim. Empresta aqui? Ah, não.
Depois eu quero jogar.
"As cinzas nunca queimam, são apenas os resíduos de um amor ardente."
"Como saber se você encontrou alguém que não é desse mundo?"
"Você pode ser a pessoa que não pertence a esse mundo."
"Em hibernação profunda."
"Aqueles em cujas mentes essas palavras ressoarem terão seus destinos moldados do
zero."
"E começo me despedindo de mim mesma." Bom dia, Ceylan.
Pedimos esse em rosa?
- Pois é. - Achei que tínhamos pedido em azul.
E pedimos.
"Todos os que conheço, ou que simplesmente passaram por mim, estão nas
minhas lembranças."
"Eu lembro de cada um dos rostos."
- Ah, que graça. - Bom dia, senhora.
Bom dia. Oi, mamãe.
Lindas flores.
Pra você!
"Escrevo para deixar tudo para trás, por uma nova vida. Para que alguém possa
testemunhar o que passei."
"Quem colocar as mãos neste livro saberá que só uma pessoa é responsável
pelas coincidências com as quais me deparei."
"Aquele que não ousei perguntar o nome eu chamo de "M". E é como se todas as ruas de
Balat me levassem até ele."
"A aterrorizante agressividade de M e toda sua serenidade enigmática me
atraíam."
"A tatuagem no braço esquerdo representa o ciclo da vida, e a do pescoço
é a silhueta de um pássaro."
"E o epicentro de tudo, uma pequena confeitaria em Balat."
"Aquela confeitaria, juntamente com o segredo de M, acabou por ser a memória que
nos arrastou para o desconhecido."
"O que torna esse lugar milagroso são as cinzas voando ao nosso redor. E só eu
posso vê-las."
"Parecia que os sinais estavam guiando o meu caminho, me levando sempre de encontro
à tal Confeitaria Musfika."
CONFEITARIA MUSFIKA
Oi, Lale. Bom dia.
Bom dia, querida.
Tudo bem com você?
- Tudo. E você, caiu da cama hoje? - É. Eu tenho uma proposta pra te fazer.
A confeitaria.
Cadê a porta? Ali, vamos lá.
CONFEITARIA MUSFIKA
- Olá, bom dia. - Bom dia. Bom dia,
senhora. Sejam bem-vindas.
Obrigada.
Sentem-se, por favor. Fiquem à vontade.
Gokce, como você achou esse fim de mundo?
Eu comecei a ler um rascunho que entregaram na editora. E ele mencionava
esse lugar.
Tá brincando?
Todas as manhãs, o protagonista compra rosquinhas. É um homem chamado M.
"M"?
M. Tava assim no livro. Não revelaram o nome dele. De toda forma, ele é um cara
bem estranho, meio excêntrico, sabe? Com tatuagens com significados profundos no
pescoço, no braço, e ele também muda a vida das pessoas que cruzam o caminho
dele.
Você tá se sentindo bem?
- Tô, sim. Tudo bem. Eu tô bem. - Você tá lendo é um romance. Uma fantasia.
- Ficção. Você sabe disso, não sabe? - A confeitaria é real, não é? O homem
também pode ser. Qual é o problema?
Ah, você é inacreditável.
Não, não dá pra beber. Vamos embora? Por que não saímos daqui e procuramos um lugar
com um café decente?
Pode ir, eu vou ficar.
Tá bom. Você é que sabe.
"Era na marcenaria que o M mantinha todas as suas experiências. E seguindo os
sinais, eu desvendei o caminho que me levou até o local exato."
"Quando achei que estava perdida, as cinzas me levaram até a porta dele. Foi
quando descobri que não tinha escolha a não ser seguir o M, como as cinzas
seguiram."
Tudo bem. Eu mando por e-mail, então. É, eu já vou mandar agora mesmo.
- Bom dia, senhora. - Bom dia.
Ele está em uma ligação importante. Gostaria de esperar aqui?
O rascunho parece muito bom. Sei. É claro.
Tá bom, eu espero.
Não, obrigada. Eu trouxe café.
Isso, exato. Tudo bem, eu fico aguardando o seu breve retorno. Ótimo. Tenha um bom
dia.
- Bom dia. - Bom dia.
Nossa, você aqui tão cedo? O que é que houve?
Nada. Só vim tomar café com você.
E quem tá na loja?
- A Ceylan. O movimento tá muito fraco. - Mm.
Nossa, isso foi bem gentil. Embora o dia esteja uma loucura por aqui.
Ah, eu preciso mandar um e-mail.
Quer que eu saia?
Não, não, pode ficar. Não é tão importante, mas eu tenho que mandar agora.
Ugur Ortun chegou. Vai atender aqui ou na sala de reuniões?
Na sala de reuniões. Eu já tô indo.
Enviado.
Onde tá? Aqui. Te vejo em casa, tá?
- Boa sorte. - Obrigado.
"Esta torre foi tecida em segredos, e era um lugar entre os deuses que pertencia
somente a nós. A cada vez, seguíamos um caminho diferente que nos levava através
do calabouço escuro até o portão que se abria para os céus."
"E sempre que abríamos aquela porta, deixávamos nossas vidas comuns para trás e
entrávamos em um novo universo."
"Pensei sobre o passado quando eu passei pela porta. Apaguei minha vida antiga. E
ele foi o meu guia para conseguir entrar no céu."
- Olá, seja bem-vinda. - Oi, obrigada. Me disseram que tem
uma torre por aqui. Sabe onde fica?
"Torre"? Eu não sei de nenhuma torre.
Ah.
Tudo bem, eu vou perguntar pra outra pessoa.
Oi, bom dia.
Pro senhor também.
É. Eu vou querer três rosquinhas, senhor.
Alô?
- Três rosquinhas, certo? - Isso.
Ah, oi, tudo bem? Eu já ia ligar pro senhor.
É, foi isso mesmo. Faltaram algumas peças.
Não. Não foram só, não foram só as cores, faltaram alguns tamanhos também.
Tudo bem. Eu vou aguardar o envio das caixas.
Eu preciso pra essa semana, tá? É. Eu tenho que desligar agora, eu falo com o
senhor depois.
Tá procurando alguém?
Você é marceneiro?
Sou. Posso ajudar?
É... Eu tô precisando de um espelho. Eu tenho uma butique. Seria pra lá.
E onde fica?
Nisantasi.
Nisantasi. Trouxe as medidas? Que tipo de espelho?
Não trouxe. É um espelho com moldura de madeira.
A gente tá com muito serviço.
Mas é uma coisa bem simples.
A senhora tá com pressa pro serviço?
Não.
Então tudo bem.
Desculpa, mas qual é o meu nome?
Eu sou o Ali.
Bom, eu vou tirar as medidas e depois eu volto aqui.
Sem pressa, dona.
Metin Ali Soykan?
Encomenda pro senhor.
Documento, e assina aqui pra mim.
Prontinho.
Esqueceu alguma coisa?
De pegar seu telefone.
Metin Ali, certo?
É. Mas todos me conhecem como Ali.
Eu sou a Gokce. Muito prazer.
Eu te ligo com as medidas.
Acha que um espelho ficaria legal aqui? Ceylan?
Acho que a gente não precisa de espelho, mas...
Você pode pegar a trena pra mim, por favor?
Prende aí embaixo.
Tem que encostar.
Mas vai até o chão.
Isso.
Oi, Metin, como vai? Isso, é a Gokce falando. É, eu posso te passar as medidas?
Tá, são 80 centímetros por um metro e meio. O espelho vai ser na vertical. Com
suporte.
Combinado. Eu fico esperando. Até mais, então.
"O amor e a guerra são iguais. Eles são bem parecidos com uma briga de lobos."
"Enquanto o homem e a mulher se contorcem sob o pelo um do outro, eles
cravam as garras no coração alheio."
"É selvagem. É feio. E é sujo."
"Se o M não tivesse me ensinado isso, eu nunca seria capaz de perceber todo o meu
poder."
O que é isso?
Espera.
"As verdades se tornam um impasse conforme são absorvidas. Um coração pode amar duas
pessoas ao mesmo tempo?"
"Fiquei arrasada quando descobri que M era casado. Totalmente devastada. Meu coração
estava partido e eu queria me entregar aos braços da morte. O problema era: quem me
ajudaria com isso?"
Nós temos esse modelo aqui. Ele é um pouco mais simples.
- Ótimo. - É mais curtinho.
- E essa cor ficaria ótima em você. - Ele é bem bonito. Eu gostei.
Hmm. Gostei bastante.
Ótimo, vou levar.
Oi. Seja bem-vindo.
Eu vou só pegar minhas ferramentas.
Ah, é bonito mesmo.
Esse aqui é bonito também. E agora?
É perfeito.
Ceylan, atende ela pra mim?
Vai ser naquela parede.
A gente só tem que tirar essas coisas.
Tomara que eu tenha medido certo.
Tomara.
"Percebendo como eu estava ligada ao M, tudo o que pude fazer foi esquecer que ele
era casado."
Prontinho. A dona gostou?
Acho que gostei.
Não gostou muito, né?
É que eu acho que tá ficando bem no caminho. Será que não é melhor a gente
pendurar?
Só que eu fiz o espelho com suporte. Além disso, é de madeira, é bem pesado. Acho
que a estrutura não vai aguentar, não. Posso tentar, mas...
Eu acho que prefiro pendurado. Né? E você, Ceylan?
Olha, como a senhora achar melhor.
Vai ficar melhor se pendurar, não acha?
Eu vou ter que desmontar a base. Vai demorar um pouquinho.
Tá bom.
Um pouquinho mais pra cima. Não, não, não, você subiu muito. Só um pouquinho.
Mais pro meio. Mais pra baixo. Ai, baixou demais.
Agora, um pouquinho pra esquerda.
Você tá bem?
Eu tô bem, eu tô bem. Tá tudo bem.
Olha só a bagunça que fez.
Ai, machucou a mão?
- Não, não, não. Não foi nada. - Ceylan. Corre e vai comprar
antisséptico e gaze lá na farmácia.
Não precisa disso. Foi só um arranhão. Eu me machuco toda hora, tá tudo bem.
Senta aqui, por favor. Senta. Pode sentar aqui.
Eu tô bem. Sério.
Tá bom, mas senta.
Ui.
Eu acho que só precisa de um pouco de pressão.
Hein? Você não acha?
Eu vou estancar isso até ela voltar.
Eu não imaginei que o espelho fosse se desprender da moldura. Na verdade, eu
achei que a estrutura é que não ia aguentar.
- Mas foi o espelho que caiu. - Eu vou pagar por isso.
Ele não estava preso direito. Desculpa aí, pela bagunça. Droga.
Imagina, eu que pedi isso, então a culpa é minha. Eu não devia ter insistido tanto.
- Sobre a moldura, eu vou... - O quê?
- Hã? - Hã?
Eu vou ter que apertar um pouco o espelho naquela moldura.
Que droga, caramba. Deu um trabalhão, e eu fiz a maior bagunça.
Esquece, não tem problema. É sério, esquece. Deixa pra lá.
Eu não tô vendo a sua aliança. Será que você perdeu?
Será que ela caiu?
Eu não entendi.
Você não usa?
Será que é porque eu sou solteiro?
Solteiro?
É, solteiro.
Nunca foi casado?
Amiga, lembra que o Kenan falou que talvez não publicaria o novo livro do
Taner? Então, eu...
Nossa! Que sorriso é esse?
Ai, desculpa, Lale. É que eu lembrei de uma coisa.
Lembrou do quê?
Lembra daquele livro que eu comentei com você? Sobre o tal marceneiro?
E?
Ele apareceu lá na loja.
E como ele te encontrou?
Eu que encontrei ele.
Você saiu por aí perseguindo um estranho?
Sinto que o conheço.
Por causa do livro.
"Nem todas as escadas da torre podem nos levar mesmo ao céu. Parece que a torre
gosta de brincar com qualquer pessoa sem um guia, desorientando-a na escuridão."
"Para encontrar meu caminho, deixei sinais em todas as paredes e em cada
canto."
"A única prova de tudo que eu e o M passamos está marcada nas paredes da
torre."
Mãe, por que você não me esperou no portão?
Mas eu tô aqui. A sua aula acabou mais cedo?
Não.
Entra no carro.
O que você tá fazendo?
Filho! O que você tá fazendo?
Ah, meu Deus, filho! Eu não acredito. Por que você mexeu na bolsa da mamãe? Hein?
Você não tem papel pra desenhar, Ege? Por que fez isso?
Só estava brincando.
Gokce? Ele só estava brincando.
Brincando com um dos livros enviados para a editora?
Mas são só rascunhos. Isso é motivo pra você ficar assim?
Mas eu ainda não terminei de ler.
Desculpa, filho. Mas não faz mais isso, tá bom?
Não vou fazer.
"As luzes que o M acendia pareciam iluminar a cidade inteira."
"Nenhuma regra se aplica aqui."
"Será que alguém vê as cinzas voando ao nosso redor quando estamos juntos?"
Ilyas, vai buscar o Latif.
Eu voltei.
É, eu tô vendo.
É... Eu vim aqui pra saber do espelho.
Ainda não cortei seu espelho, mas eu ia fazer isso, já. Eu entrego pra senhora
assim que eu cortar.
Tá bom. Sem problemas. E a sua mão, como tá?
Chefe, eu trouxe chá.
Vem. Eu acho melhor a gente conversar lá fora.
Tá bom.
Eu tenho que voltar pra loja.
Jura? Eu pensei em te mostrar o bairro.
Tá, mas eu posso ficar só um pouquinho, tá?
Já é um começo. Só um pouquinho, então. Vamos por ali, eu quero que você conheça
um lugar.
Tudo bem?
Ai, começou a chover.
Aqui é assim mesmo, sempre imprevisível. Daqui a pouco para.
Oi? Quem é?
É. Não, senhor. Eu já terminei esse serviço.
Mas saiu daqui inteiro, é melhor falar com a empresa de transporte. Não foi um erro
nosso. Tá, a porta está quebrada, mas...
Tem um lugar que vende almôndegas ali na frente. O cara faz umas almôndegas
albanesas incríveis. Vamos lá?
Vamos.
A conta, chefia.
Que gostoso.
São muito boas.
Você cresceu por aqui?
Nascido e criado.
Sempre enfiado na marcenaria, esse aqui é o meu mundo. O mercado, o mercado de
Balat.
Eu conheço.
Tem a confeitaria.
Eu dei uma volta.
Olha o pãozinho saindo.
Você acredita que eu nunca vim aqui na minha vida?
Mas está aqui agora.
Eu não saio muito daqui.
Na verdade, deixa pra lá.
Vê mais um pãozinho?
Deixar o que pra lá?
Vai, me conta aí.
É que eu não sou muito de sair. Quer dizer...
Eu não costumo sair dessa área. A última vez foi pra sua loja.
E o que achou do mundo lá fora?
Acho legal.
Que tal a gente ir para a torre?
Que torre?
Eu fiquei sabendo que tem uma torre por aqui com uma vista pra cidade, que não é
muito conhecida.
E por que é que você achou que eu conheceria essa torre?
Sei lá, foi só um palpite mesmo.
Você tem mais detalhes? Como ela é, como chegar, onde fica? Alguém sabe sobre ela?
Eu não sei muita coisa.
KENAN
Eu não tenho um minuto de paz.
Eu vou ter que ir.
E nem deu pra terminar.
- A conta, por favor. - Mas muito obrigada por isso.
E que bom que a sua mão melhorou.
A gente se vê.
Alô?
Gokce, cadê você?
Tô dirigindo.
Vem pra casa, por favor.
Por quê? O que aconteceu?
Estamos te esperando aqui.
Filho, isso é um jogo, não é real.
Sobe pro seu quarto agora.
- Então devolve o meu Game Boy. - Nada de Game Boy hoje. Vai já pro quarto.
Filho?
O que houve?
Foi só uma briguinha com um coleguinha da escola dele.
Não, não foi só uma "briguinha". Ele mordeu a orelha do garoto. E a mãe dele
apareceu furiosa lá na escola. E claro que fez um escândalo daqueles. O diretor
estava bem nervoso. Falou pra mim que os outros pais estão reclamando dele. E como
não conseguiram falar com você, eles me ligaram. Eu tive que largar o meu trabalho
e correr pra lá.
E como tá o Ege?
Até onde eu soube, não foi a primeira vez que ele arranjou confusão na escola. Eles
acham que o Ege tem problemas pra controlar a raiva. Eu não tinha ideia do
que fazer. A Lale me ajudou. Onde você se meteu, Gokce?
E o outro garoto? Será que a gente pode fazer alguma coisa pra ajudar?
Fica tranquila, a gente já conversou com a família e...
Nós já resolvemos tudo. Fizemos o que estava ao nosso alcance, não se preocupe.
Você não estava na loja. Você estava onde, Gokce?
Saí pra resolver umas coisas.
E não atendeu o celular por quê?
- Eu não ouvi. - Como assim, não ouviu tocar, Gokce?
Você tem que ouvir! Você tem que ouvir.
Me liga se precisar, tá?
Tá bom.
Kenan. Meu estômago.
Ele vai melhorar.
Kenan, eu não quero!
Oi, amor. Olha, você acha que consegue sair mais cedo da loja hoje?
Tá bom. Então, acho que eu vou direto pro jantar. Eu não vou conseguir ir te buscar.
Tudo bem. A gente se vê lá hoje à noite. E, por favor, não se atrase.
Até mais.
Tem que cobrir as outras janelas também?
Deixa eu terminar isso aqui primeiro?
Ficou bom, né?
Ficou, sim. No começo, eu não estava gostando muito da ideia, mas agora,
olhando tudo, até que ficou bem legal.
A gente pode fazer a mesma coisa com a janela grande lá dos fundos.
Claro.
A senhora quer que eu guarde esse livro lá atrás?
Me dá isso aqui.
Eu dei uma folheada nele, e me parece bem interessante.
Como "deu uma folheada"? Você leu o livro?
Olha, eu não li, eu só dei uma olhada bem por cima mesmo.
Por que mexeu nas minhas coisas sem pedir?
Eu só fiquei curiosa. Mas eu juro que eu não li tudo.
O quanto você leu?
Quase nada. Eu só li a parte do comecinho.
Senhoras.
Oi, tudo bem?
Eu trouxe o seu espelho.
Eu vou lá começar a trabalhar na janela dos fundos.
Você quer mesmo ver a torre?
Eu quero.
Só que tem uma condição.
Conhece ela?
Eu não.
Ela me olhou esquisito.
"A cada passo, o meu coração batia ainda mais rápido. Parei no último degrau. Quase
perdi a toda a coragem."
"A porta pra um novo mundo estava diante de mim. Minha mão se juntou à mão dele e
se fundiu."
"O que se escondia além da porta deveria ser melhor."
"Agora estou pronta pra tudo."
Eu já andei por aqui. Eu conheço esse lugar.
Dá pra conhecer um lugar em que nunca esteve?
Minha mente já vagou por aqui antes.
E quem estava com você?
Eu estava sozinha.
Ninguém mais conhece esse lugar.
- E quem fez os desenhos lá embaixo? - Talvez tenha sido você.
De novo, de novo. De novo.
É bem alto aqui.
Onde ouviu sobre a torre?
Eu só ouvi.
Não. Alguém te contou sobre ela.
Essa foi a condição, nosso acordo. Sem segredo.
Eu ouvi alguém comentando na confeitaria.
"Na confeitaria"?
Isso é mentira. A gente sabe disso.
Não acreditaria se eu contasse.
Tenta.
Eu vi esse lugar.
Como se estivesse na mente de outra pessoa.
Como num sonho.
E por "sonho", você tá querendo quer dizer "destino"?
Talvez seja.
Você precisa ver um lugar pra conhecê-lo?
O sol tá se pondo.
Que bom. Eu tava contando com isso.
Aonde vai?
Quantos livros você imprimiu este ano?
Comparado com o ano passado, menos 50%.
Sério? Nós também tivemos uma bela queda. Não foi nada bom.
Pois é, o digital tem crescido muito em termos de participação de mercado.
Bem-vindo, senhor. Bem-vindos. Tudo bem por aqui?
Obrigado. Muito obrigado. Perfeito. Tudo bem.
- Fiquem à vontade. - Obrigado. Obrigado.
Muito obrigada.
Eu vim pra cá direto de uma reunião.
Eu acho melhor ligar para o Cemal.
Claro, vou ligar pra ele agora.
Não chegou muita gente ainda.
Acho que deve vir mais gente.
Eu vou te mostrar um segredinho.
Tá pronta?
GRANDE HOTEL ISTAMBUL
Eu ilumino a cidade toda.
Você ficou maluca?
O que você acha da ideia?
Eu gosto bastante.
- Bom pra fugir da rotina. - É. Eu ando bem cansada. Vai ser bom.
Vai ser bom durante esses dias agitados.
E sua esposa? Ela não vem?
Vem, sim. Ela deve estar presa no trânsito. Dá licença.
- E como é que estão as coisas? - Vão indo. Muito legal aqui.
E as crianças?
Você ilumina a cidade todas as noites?
Nem todas.
Eu gostaria muito de poder mudar tudo.
Eu mesma, a minha vida.
O mundo inteiro.
Você não gostaria disso?
Sei, não. Acho que eu gostaria.
É. Eu gostaria disso, sim.
Onde você estava?
Eu tô aqui.
Onde você se meteu, Gokce?
Eu tava aqui.
Eu não vou esquecer disso.
Eu também não vou esquecer.
Você tá brincando comigo, Gokce? Ficou maluca?
Eu não. Não tô brincando.
Você não apareceu no jantar que já estava marcado nem atendeu ao celular. Tem ideia
de como me envergonhou essa noite?
Você não ficou envergonhado, Kenan.
Você só não foi acompanhado da sua sombra.
O quê?
O que tá acontecendo? Vocês dois me acordaram.
Tudo bem, filho. Viu?
Gokce. Qual é o problema?
Tô aqui, amor.
Acho que o laranja ficaria ótimo em você.
Mas eu vou ficar com o azul.
- Como quiser. - E eu vou provar esses também.
Oi. Tudo bem, Kenan?
Tudo bem, Ceylan? A Gokce tá aqui?
Não, ela deu uma saída.
Posso te ajudar em alguma coisa?
Só dei uma passadinha. Aquilo tudo ali é novo?
É, sim. A Gokce fez umas mudanças. Mandamos fazer aquele espelho, mas ainda
não penduramos. O marceneiro é lá de Balat.
"Balat"? Mas por que de lá?
A Gokce tá lendo um livro, e eu acho que ela tirou a ideia dele.
E qual o livro?
Eu acho que o nome é "Cinzas".
Entendi. Tenha um bom dia. Sabe a que horas a Gokce volta?
Não sei. Eu acho que ela não volta mais hoje.
Tudo bem. Bom trabalho.
O que é que você tá fazendo com aquela mulher?
Você acha que pode me cobrar alguma coisa? Hein?
Ela sabe que você é casado?
O que a gente tem é um acordo. A gente não é casado.
Tecnicamente, nós somos. E se você não for cuidadoso até que o divórcio saia, eu
- vou ter que... - Vai embora daqui! Vai logo!
Cada um vai pagar pelos seus próprios pecados. E vê se se lembra das suas
fraquezas. Pra não se arrepender.
O que foi isso?
Isso o quê?
O que aconteceu agora. O que houve aqui?
Foi nada, não. Tá tudo bem.
Você me disse que não era casado.
Eu posso saber que interrogatório é esse? Por que é que você tá me
questionando assim? Você não é uma mulher casada?
- Você me deve uma explicação. - O que é que você quer que eu explique?
Mas você mentiu pra mim!
Eu menti pra você? Como assim? Do que é que você tá falando?
Você disse que não conhecia aquela mulher.
Qual?
Aquela mulher que passou por nós e você disse que não conhecia. Eu te perguntei, e
você disse que não conhecia!
Você que é a mentirosa aqui! Você que é a mulher casada. Você vai me contar como
soube da torre? Eu nem te conheço. Quem é você? Quem é você?
- Fala. - Não, me fala quem é você!
- Quem é você? Quem é você, hein? - Me fala quem é você!
- Sua... - Imundo!
- Sai... - Seu...
- Seu imundo! - Fora!
Quem é você, hein? Me fala! Seu imundo!
Foi meu pai que pediu pra eu casar com a Busra.
A gente tava à beira da falência e ele tava doente. Tinha uma parceria nos
negócios, e o casamento foi parte de um acordo. Eu nunca dormi com a Busra. Eu
nunca nem amei ela.
Depois que o meu pai morreu, eu pedi o divórcio, mas ela não aceitou e eu saí de
casa. Foi quando tudo virou um inferno. A família se envolveu, foi horrível. Aí eu
rompi com todos eles.
Você não comeu?
Tô sem fome.
Posso pegar o livro de volta?
Ainda não terminei.
Por que você está demorando tanto pra ler?
Eu tenho que dar uma resposta para o autor. Então quanto antes você devolver,
melhor.
"Aquele nosso último jantar juntos deixou um gostinho de traição."
"M e R. Eu fiz vocês se confrontarem."
"O gosto amargo da morte tomou conta do meu corpo na mesa que arrumamos juntos. E
M enfim me matou."
"Ele não conseguiu me manter viva. E tudo o que restou do amor foi um punhado
de cinzas."
"Tomou conta do meu corpo na mesa que arrumamos juntos. E M enfim me matou. Ele
não conseguiu me manter viva."
Ele a matou. Ele a matou. Tudo no livro acabou sendo real.
Mas o que exatamente é real?
Tudo isso. A torre é, a confeitaria, Balat. O M, o Metin, ser um cara casado.
Tudo, tudo mesmo.
Tá bom. Mas isso é só um livro. Ficção. Então tudo isso foi inventado, não foi?
Não acha que essas pessoas e lugares são coincidências?
Eu tô falando, eu vivi tudo isso. Foi tudo real, porque eu senti tudo. Eu vi
tudo mesmo.
Tá, mas se tudo isso é verdade, se ele a matou mesmo, então como ela escreveu o
livro?
O que foi que deu em você, amiga? Olha, você estava com um cara estranho, no meio
de Nisantasi, dentro de um carro bizarro.
Eu sei o que eu vi, Gokce.
Você ainda não se casou com o homem do livro? De onde você tirou que não quer
casar? Casa com ele e sossega. Me escuta, querida.
Acredita em mim, você vai ser muito feliz.
Já acabei. Não vale a pena publicar.
Você não gostou.
As emoções são extremamente exageradas. E o final não é nada impactante. A ideia até
que é legal, mas a execução é fraca. Se tiver o contato do autor, eu queria
conversar com ele.
Claro, eu vejo isso.
"Como saber se você encontrou alguém..."
"Em hibernação profunda." "Em troca de tudo isso apenas a tristeza."
Eu lembro de cada um dos rostos."
"Como saber se você encontrou alguém que não é desse mundo? Você pode ser a pessoa
que não pertence a esse mundo. Em hibernação..."
"Fiquei arrasada quando descobri que o M era casado. Totalmente devastada. Meu
coração estava partido e eu queria me entregar aos braços da morte."
"Apenas um coração partido."
"E o epicentro de tudo, uma pequena confeitaria em Balat."
"Tomou conta do meu corpo na mesa que arrumamos juntos."
CINZAS
Não podemos nos ver por três dias. Estou ocupado. Eu te ligo.
Senhor, não temos o contato do autor.
Como assim "não temos"? Quem enviou o livro?
Não sei. Mas estamos investigando.
Teve alguém que mandou esse livro. Ele não caiu do céu.
Deve ter sido entregue junto com os outros rascunhos. Todos foram registrados. Temos
todas as informações de contato. Só não temos as do autor de Cinzas.
Ele foi entregue por um mensageiro?
Foi.
Ótimo. Então cheque com todas as empresas de entrega. Vamos rastrear o remetente.
Tudo bem, a gente vai checar.
Os melhores produtos aqui.
Os melhores preços.
O Metin tá aí?
O Metin tá aí?
Quem?
O Ali.
Ah, o chefe foi até o mercado dos agricultores. Quer que eu te explique onde
fica?
Não, não precisa.
Olha o amendoim! Fresquinho!
O melhor amendoim da região!
Por que você não fez o que eu pedi? Você não tinha falado nada, como que eu ia
saber, pô?
Assim fica difícil, hein?
Só avisa que, a partir de agora, eu não vou mais fazer isso. Tá legal?
Aqui, patrão! O preço é barato aqui, hein? Pode chegar, pode chegar.
Vai querer mais alguma coisa?
Pois não? Senhora?
Pimentas, por favor.
Claro, senhor. Prontinho.
Vamos, Gokce?
Gokce, fala logo o que você quer falar.
Gokce?
Quem eram aquelas pessoas?
Ninguém importante.
Metin, o que você tá escondendo de mim?
"Escondendo", Gokce? Isso não tem nada a ver com você. Não se preocupa. Isso é
trabalho!
Quantas mulheres você tem?
Gokce, me fala, qual o seu problema?
Escuta. Eu só tenho que saber tudo sobre você. Tá bom? Eu não tô acostumada com
essa situação. Eu me sinto presa a você.
Não se sinta presa. Não se acostume comigo.
Entendeu?
Só não me afasta.
Você tá me afastando de você.
Eu tô me perdendo. Eu tô perdendo o rumo.
Eu não tô afastando ninguém, muito menos fugindo pra me esconder.
Olha. Eu não tô em posição de mostrar um rumo pra ninguém.
Gokce, o que houve?
Espera aí, calma.
Gokce, o que é que tá acontecendo?
Caramba, Gokce. O que houve com você? Gokce, para com isso!
Quando eu fechos os meus olhos, eu estou na torre.
É como um penhasco.
Pode olhar, senhor!
Quero muito dar um grito.
Mas não tenho voz.
Eu não sei o seu nome.
Eu não sei o meu nome. Toda a minha realidade parece meio...
Ela está...
Está confusa.
Tudo muito embaçado.
Gokce, o que é que você fez?
Pressiona isso.
Senhor, encontramos o endereço do autor. O livro foi entregue por um mensageiro. Ele
foi enviado há um ano. Por uma pessoa chamada Reyhan Akkaya.
Manda o endereço dela.
Eu vou mandar.
Pois não?
Como vai? Deve ser a senhora Reyhan. Kenan Urkan, eu sou proprietário da
Editora Urkan. Desculpe por aparecer assim, sem avisar, mas eu gostaria de
conversar sobre um livro que a senhora nos enviou.
Não entendi. Que livro?
Cinzas.
Perdão, mas eu não sei nada sobre esse livro. Me desculpe.
Acontece que o livro foi enviado pra nossa editora desse mesmo endereço há
aproximadamente um ano. A senhora mora sozinha?
Eu moro.
E a senhora mora sozinha há um ano?
Não, na verdade, é, minha irmã morava comigo.
Ah, entendi. E eu posso falar com ela, por favor?
Não, o senhor não pode. Ela faleceu.
Meus sentimentos, senhora. Eu sinto muito mesmo. Qual era o nome dela?
Duygu Akkaya. Você veio ao lugar errado.
Espera. Eu sei como a sua irmã morreu.
É provável que ela tenha escrito esse livro.
Eu acho que não.
O livro narra um romance entre um marceneiro chamado M e uma mulher. E no
final do livro, a mulher afirma que vai ser morta por esse marceneiro. Se restar
alguma dúvida sobre a morte da sua irmã, o livro pode ser uma prova.
Não tem dúvidas. Eu contei tudo o que sabia pra polícia na época.
Ilyas, vai pra dentro.
Mas eu posso ajudar, chefe.
Vai pra dentro.
Tá fazendo o que aqui?
- Dá pra você ficar calmo? - Não dá. Como você ousa aparecer aqui?
Eu também não tô feliz em te ver. Um cara apareceu lá em casa. Espera, espera,
espera.
Quem?
- Eu não sei. Ele disse que a Duygu... - Para de falar o nome dela. Você sabe
muito bem que eu quero esquecer disso.
Ela escreveu sobre você, sobre Balat, sobre o amor de vocês.
Tá querendo me enlouquecer agora?
- E escreveu sobre a própria morte. Sabia? - Que merda é essa que você tá falando?
Que besteira. Por que é que você quer desenterrar o passado?
Por acaso você escutou que ela escreveu sobre a própria morte?
Reyhan, não volta mais aqui!
Eu tô avisando. Pro seu bem.
Por que você tá me olhando assim?
Achei quem escreveu o livro.
Uma mulher.
O nome dela é Duygu Akkaya.
É triste, na verdade. Ela tá morta.
Ou talvez, alguém tomou a decisão de matá-la.
É estranho, né? Ela escreveu sobre a própria morte. Praticamente uma
premonição.
O pessoal da editora conseguiu o contato da irmã dela.
Ege?
Duygu.
Como ela morreu? Ela foi baleada ou estrangulada? Como foi?
Não sei.
Espero que ela não tenha sofrido.
Você pode tentar descobrir. Esse é o endereço da irmã dela.
- Com licença? Você mora nesse prédio? - Moro, sim.
Eu fui até o apartamento 10. Bati na porta, mas ninguém atendeu.
É o da Reyhan. Eu soube que ela acabou de se mudar. Empacotou tudo e saiu correndo.
- Por acaso sabe pra onde ela foi? - Eu não sei.
E parece que ela tinha uma irmã, não é?
Tinha, a Duygu. Ela faleceu no ano passado.
Eu ouvir falar. Você sabe como ela morreu?
Alguns dizem que ela se suicidou. Dizem que ouviram um homem no apartamento no dia
que ela morreu. Vai saber.
Olá.
Oi, como vai? Posso ajudar?
Estou precisando de um marceneiro e me indicaram você.
Do que precisa?
De uma estante para os meus livros.
Eu posso fazer. Um minutinho só.
Tá. Que tipo de estante o senhor quer? O que tem em mente?
Eu tô pensando numa estante com visual moderno. Feita em madeira natural.
Entendi. Anota as medidas aqui.
Dinheiro não é problema. Mas eu preciso disso rápido.
Que tal semana que vem?
Semana que vem pode ser tarde.
A questão é tempo, não dinheiro. Mas se o senhor quiser, eu posso fazer com o
material que eu já tenho aqui.
Ótimo.
Tá bom, então. O que mais?
Eu vou anotar meu endereço.
Por que tá me seguindo?
Você conhece a Duygu Akkaya?
O Metin pode ter cometido um crime.
É sério? E cometeu. Trair a esposa é um crime muito grave. E não é a primeira vez.
Sabia que, em algum lugar lá em cima, tudo está sendo escrito? E você também é
cúmplice desse crime.
Nesse momento, eu não tô nem aí pra o que você pensa.
Tem certeza?
As pessoas estão destinadas a viver o que está escrito. Deus é grande.
Esse é meu primeiro e último aviso. Se você for esperta, vai ficar bem longe
daqui.
Aí, agradeço o convite.
Não precisa agradecer. Saco vazio não para em pé.
Você já esteve nessa região?
Não, nunca estive.
É a sua primeira vez aqui?
É, sim.
Você é casado?
Sou não.
Mas já foi casado um dia?
Já fui.
Não deu certo, então?
Sabe como é. Essa história ficou no passado. Já era.
Bem-vinda, amor. O jantar está pronto. E temos um convidado.
O que é que você achou?
Eu vi o espelho na butique e contratei os serviços dele.
É a minha esposa, Gokce.
Ele fez um belo trabalho, não acha?
Opa, a carne tá pronta.
E vocês, podem sentar, eu já volto. Vamos jantar todos juntos.
Eu já terminei. Vou arrumar minhas coisas e vou embora.
Como assim? Não vai, não. Não vai me fazer essa desfeita.
Gokce?
Metin?
Vou deixar aqui.
Que exagero.
Muito obrigado.
Você tem o hábito de ler?
Não tenho tempo.
É o nosso trabalho. Mas a Gokce lê mais. Não é, amor?
Leitura é essencial.
Até mesmo um livro escrito séculos atrás é capaz de mexer com as pessoas.
Você sabia que, antigamente, as mulheres não tinham permissão para ler?
E por quê? Pra não se deixarem levar pelo romance.
Por exemplo, Dom Quixote. Naquele tempo, as pessoas achavam que eram cavaleiros
perambulando pelas ruas.
Comam enquanto está quente.
Você já ouviu falar no termo "fictofilia"?
O Taner falou sobre isso, lembra, amor?
Fictofilia é um distúrbio.
Cadê o Ege?
No quarto dele, amor. Eu levei o jantar pra ele. Fica tranquila.
Fictofilia. Uma condição em que você se apaixona por um personagem. A Organização
Mundial da Saúde classifica como uma doença. Se querem mesmo saber, é uma
doença terrível.
O jantar tava muito bom. Mas eu vou nessa.
A Gokce descobriu uma nova autora.
Duygu Akkaya.
De onde conhece ela? Como é que você conhece a Duygu?
A Duygu é a autora desse livro. E justamente nesse livro ela fala muito de
você.
Do que você tá falando?
Esquece, é só um livro.
"Só um livro"? Será?
Continua.
Talvez a Gokce queira continuar.
Tudo bem, então eu posso continuar. O protagonista desse livro é o M. Duygu, a
autora da obra, se apaixona por esse M. E ela decide perseguir ele. Sabendo que vai
morrer. Mas essa é a parte que realmente te interessa. O tal do M é um marceneiro
em Balat.
E ele é casado.
Ele conhece a Duygu. Faz com que ela se apaixone perdidamente por ele. E então
decide dormir com a irmã dela.
De quem é essa história?
Ué, é a sua história. Você não é o tal do "M" do livro?
Calma, espera aí, rapidinho. Qual o seu problema?
Qual é a droga do seu problema?
Uma das minhas partes favoritas.
"A única pessoa com que compartilho o meu segredo é o M. Uma parte de mim, o meu
sangue, a R. E a soma de todas as mentiras deles é uma grande traição."
Você conseguiu semear a traição entre duas irmãs que se amavam muito.
Isso é mentira!
Uma bela reviravolta. E você gosta disso.
Nem eu, nem a irmã dela, Reyhan, traímos a Duygu. A Duygu era obcecada por mim. Nada
mais que isso.
Tudo bem. E isso é mentira? Me dá o livro, Gokce.
Me dá aqui. Por favor.
Achei. "Aquele nosso último jantar juntos deixou um certo gostinho de traição. M e
R. Eu fiz vocês se confrontarem."
Então ela causou o confronto entre vocês porque estavam traindo ela?
É melhor calar a boca, ou eu vou acabar com você!
Não são minhas palavras. Elas estão no livro.
Você tem uma vida além dos seus livros? Tem alguma ideia de como é que é o mundo
lá fora? Vai, Gokce. Fala pra ele como que é.
Você sabia que a Gokce é incapaz de distinguir ficção da realidade? Ela só te
achou porque decidiu começar a ler esse livro. Ela leu o livro e quis viver as
histórias escritas nele.
É verdade? Foi assim que você me achou?
Foi tão real.
Mas que merda! Você acha que somos peças de um joguinho? Hein?
Você a matou, Metin?
O quê?
Agora nós vamos alterar o roteiro. O que houve entre você a Duygu, entre você e a
Reyhan, todas as ações da Gokce, todas as pistas seguidas, tudo será destruído.
Mas tem uma coisa que não podemos alterar. O fato de você ter matado a
Duygu.
Tem ideia de quantas vezes ela tentou se matar? Dos medicamentos que ela tomava? O
que acontecia quando ficava sem eles? Você tem alguma ideia? Hein?
Você consegue imaginar?
- Tira a mão de mim! - O que você acha que sabe? Você não
imagina quantas vezes ela tentou o suicídio. Você conheceu a Duygu? Você tem
ideia de quem ela era? Você não sabe nada da Duygu!
Me solta! Você não conheceu a Duygu!
Gokce, chama a polícia!
O que é realidade ou ficção? Precisamos pensar sobre isso. Acho que estamos sendo
enganados pela vida. A realidade pode ser uma mentira que alguém inventou? E se
todos estivermos vivendo o sonho de outra pessoa?
Tudo bem. Você.
A sua personagem se suicida pulando dos trilhos do trem. Essa foi uma maneira de
combinar uma personagem de outro livro com o seu?
Foi, sim. Essa semelhança foi intencional. Eu não consigo pensar num
final mais impactante do que ela se matando como Anna Karenina. Obviamente, o
final foi desenhado como uma homenagem ao grande mestre Tolstói.
Sim. Você, rapaz.
Esse livro não se parece com os anteriores. Qual foi o processo de
observação? Em quais fontes se inspirou?
Eu percebi que estava escrevendo muito sobre a minha própria vida. Um dia eu
pensei: "Taner, acho melhor você parar de escrever sobre a sua vida. Por que você
não tenta escrever outra coisa?"
Imagina se infiltrar na mente de outra pessoa.
Enxergar a vida com a clareza dos olhos dela.
E foi assim que nasceu Cinzas. Muito obrigado. Agradeço a presença de todos
aqui.
Can't find what you're looking for?
Get subtitles in any language from opensubtitles.com, and translate them here.