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INDICADO ENTRE OS 20 MELHORES FILMES DA HISTÓRIA PELA SIGHT AND SOUND
INDICADO ENTRE OS 10 MELHORES FILMES DA DÉCADA 1970-1980
PELO LOS ANGELES FILM CRITICS (EUA)
INDICADO ENTRE OS MELHORES FILMES POLÍTICOS DO MUNDO (1967-1987)
PELA REVISTA CINEASTE (EUA)
PREMIAÇÕES EM FESTIVAIS
A BATALHA DO CHILE A LUTA DE UM POVO SEM ARMAS
Santiago do Chile, 29 de junho de 1973.
Sem poder destituir via Parlamento o presidente Allende,
a estratégia do governo dos EUA e a oposição chilena
passa a ser a do golpe de Estado.
Após o fracasso nas eleições parlamentares de março de 1973,
a oposição passa a aplicar um plano de insurreição.
Em 29 de junho, às 9 da manhã,
um único regimento ataca La Moneda com seis tanques.
Pouco depois, um câmera argentino filma a própria morte.
Também filma, dois meses antes do golpe final,
a verdadeira cara de um setor do Exército chileno.
Durante uma hora, os tanques trocam tiros
com os guardas que estão no interior de La Moneda.
Nestes primeiros momentos, morrem 22 pessoas.
O Parlamento, o Poder Judiciário, e os partidos de oposição,
ficam em silêncio.
No entanto, as tropas golpistas não recebem o apoio
do restante das Forças Armadas.
Talvez sem ainda ver condições para o êxito do levante,
os demais oficiais não aderem à ação.
As tropas leais iniciam o contra-ataque ao cerco.
Cuidado! Saia daqui!
Não atire, imbecil!
Às 10:30, mais soldados leais são mobilizados
em direção ao centro de Santiago.
Pela rodovia Pan-americana Norte, em direção à capital,
dez veículos transportam tropas
do regimento de infantaria da cidade de São Félix.
A população civil deve manter a calma.
Após um breve confronto, os tanques rebeldes iniciam a retirada.
O comandante do Exército, general Carlos Prats,
dirige pessoalmente as operações.
Às 11 da manhã, quando ainda há combates,
o presidente da República entra no palácio de governo.
Na mesma hora, mais chegam mais soldados leais,
liderados pelo ministro da Defesa, José Tohá.
Juventudes comunistas do Chile!
Viva o presidente dos trabalhadores!
Lutar, criar, poder popular!
Apesar da situação melhorar,
ainda há forças golpistas que não se renderam.
Na retirada, os tanques seguem abrindo fogo.
José Tohá, ministro da Defesa, tenta acalmar os ânimos
diante do risco de um novo confronto.
Ao seu lado, está o general Pickering.
Ministro, se não controlarmos as pessoas, haverá um massacre!
Ajude-me, por favor!
Vão para casa!
Vão embora, por favor, senão pode morrer gente aqui.
Os generais Pickering, Sepúlveda e Prats
lideram os oficiais que sufocam o levante.
Enquanto isso, outros altos-oficiais apenas observam.
É o caso de Augusto Pinochet, futuro chefe do governo militar,
que, desta vez, está com as forças leais.
Às 11:30, o general Prats garante ao ministro da Defesa
a rendição dos rebeldes e aponta a localização de suas tropas.
Ao Sul de La Moneda está a Escola de Suboficiais
Ao Norte, está o regimento Buin.
Mas o general Prats considera essencial o estado de sítio
para controlar a situação.
É preciso decretar estado de sítio imediatamente.
Não se pode controlar a situação de outra maneira.
Allende, Allende, o povo te defende!
Ao meio-dia, já confirmada a derrota do levante,
o Partido Democrata-Cristão
declara seu apoio ao regime constitucional.
O outro setor da oposição, o Partido Nacional, não dá declarações.
A direção do grupo fascista "Pátria e Liberdade"
refugia-se na embaixada do Equador,
confessando assim ser um dos autores da quartelada.
Pulso firme!
Às 18 horas, a bandeira presidencial é baixada
pela guarda que defendeu o palácio.
Por duas horas, a companhia, sob o comando do tenente Pérez,
negou-se a entregar a sede do governo.
Junto com o general Prats, são os heróis do dia.
A facilidade com que a tentativa de golpe foi esmagada
suscita muitas questões.
A sublevação indica que parte da oficialidade
simpatiza com o golpe.
E que só o temor de ter de enfrentar outros soldados
impediu que aderissem ao levante.
Allende se apoia nos oficiais constitucionalistas
e descarta as políticas que podem debilitar
o caráter legal de seu governo.
Faremos as mudanças revolucionárias
em pluralismo, democracia e liberdade.
Mas isso não significa
tolerância com antidemocratas,
nem tolerância com os subversivos,
nem tolerância jamais com os fascistas, camaradas!
Fechar, fechar, o Congresso Nacional!
Mas vocês têm de entender
qual é a real posição deste governo.
Não vou, porque seria absurdo,
fechar o Congresso. Não o farei.
Essa é minha posição.
Mas, caso necessário,
enviarei um projeto de lei
para convocar um plebiscito para que o povo decida.
Reaça de merda, a rua é da esquerda!
No outro dia, Allende pede ao Congresso a aplicação do estado de sítio.
Desde a manhã de 29 de junho, os trabalhadores de esquerda
assumem o controle de fábricas, empresas,
minas e centros agrícolas em todo o Chile.
Criar, criar, poder popular.
Companheiros,
a conclusão dos 500 operários da fábrica de embalagem
é a seguinte:
Fortalecer os cordões industriais, os conselhos comunales,
as juntas de vizinhos, as JAPs,
fortalecer os organismos vivos da comunidade!
É preciso aproveitar a conjuntura
para passar à ofensiva a fim de ganhar novos setores
e nacionalizar mais indústrias.
Nós, trabalhadores, estamos em nosso posto de combate,
que é nossa fonte de trabalho,
construindo os elementos para nos defender
de um ataque do fascismo ou qualquer outra tentativa
das Forças Armadas de derrubar o governo.
Temos que assegurar bem o nosso posto de combate,
que é, sobretudo, na fábrica.
Fortalecem-se todas as formas de poder popular,
em especial, os cordões industriais.
Cada cordão é um grupo de fábricas e empresas
que coordena as tarefas dos trabalhadores de uma região.
Nas principais cidades, foram criados 31 cordões industriais,
oito deles em Santiago.
- Quem você representa? - Cordão Macul.
- E você? - Cordão Macul.
- E você? - Cordão Cerrillos-Maipú.
- E você? - Cordão Cerrillos.
- Cordão Vicuña-Mackenna. - Cordão Vicuña-Mackenna.
Cordão O'Higgins.
- Esquerda-Cristã. - Sindical do Partido Radical.
ESTA EMPRESA É DIRIGIDA PELOS TRABALHADORES
Apoiado pelos cordões, o governo coloca sob controle do Estado
algumas fábricas estratégicas.
Utilizando para isso mecanismos legais.
Companheiros,
como todos sabemos,
grupos fascistas
tentaram derrubar o governo
e parece que eles ainda têm influências.
Assim, persiste o perigo latente
contra um processo iniciado e controlado pelos trabalhadores.
Hoje resolve-se o seguinte:
considerando que a fábrica de embalagens de alumínio Alusa
suspendeu a entrega de seus produtos,
o que constitui um entrave à distribuição,
e vistos o Decreto Supremo 338
e a Lei 16.464, resolve-se:
Primeiro,
requisitar o uso do estabelecimento industrial,
o maquinário e o que for necessário
para a produção e distribuição da fábrica de embalagens Alusa...
Em 2 de julho, a lei de estado de sítio,
proposta por Allende, é votada no Parlamento.
Essa lei confere poderes extraordinários ao presidente,
que poderia nomear, transferir e destituir chefes militares.
Abro a palavra!
Debate encerrado.
Nos três governos anteriores,
a decretação de estado de sítio foi autorizada duas vezes.
Os deputados que rejeitam a proposta levantem a mão.
O estado de sítio, principal instrumento
para enfrentar uma situação de emergência,
não foi autorizado.
Resultado da votação:
A favor, 52 votos.
Contra, 81.
A proposta do Executivo está rejeitada.
O executivo não convence o Parlamento.
A oposição avalia injustificado conceder poderes especiais a Allende.
Em 2 de julho, mesmo dia da rejeição do estado de sítio,
as Forças Armadas efetuam uma "busca" em Valparaíso.
Um ano antes, foi aprovada a Lei de Controle de Armas,
que autoriza os militares a fazerem ações
em busca de armamentos, sem mandado judicial
ou autorização do governo.
Apesar do aumento do terrorismo de grupos de extrema-direita,
essa lei, até então, nunca fora utilizada pelos militares.
Em toda busca, as fábricas são cercadas,
os trabalhadores são detidos e depois interrogados.
Assim, sem violar a legalidade,
oficiais começam a atuar contra funcionários e operários das fábricas.
Nessa primeira ação de busca, não foram encontradas armas.
O Chile está sofrendo a agressão do imperialismo norte-americano
LUIS CORVALÁN SECRETÁRIO-GERAL DO PC.
de um setor da oligarquia,
que, em outubro de 1970, se uniu à ITT e à CIA
para derrubar este governo.
Pretendem repetir...
uma tentativa dessa natureza.
A luta neste momento...
é de caráter patriótico e nacional.
O Chile tem pleno direito de governar-se
de acordo com a vontade de seu povo.
Ao mesmo tempo,
está em curso um processo de transformações revolucionárias
a fim de abrir caminho para uma sociedade socialista.
Diante da ameaça de golpe de Estado,
o Partido Comunista e parte da esquerda concordam com Allende.
Querem evitar um confronto armado,
em condições que eles avaliam como desfavoráveis.
Para isso,
defendem apoiar-se nos oficiais militares
que respeitam o regime democrático.
No plano político, Allende e esse setor
desejam conseguir um acordo mínimo com a democracia-cristã.
O objetivo é reforçar a estabilidade do governo
e criar uma ampla frente contra a guerra civil.
Estão fazendo uma campanha...
ALEJANDRO ROJAS DEP. COMUNISTA
...continuam com a campanha orientada
a dizer que se trata, no caso do governo popular,
de um governo ilegítimo.
Quero perguntar ao Sr. Víctor García Garzena
qual a opinião do Partido Nacional sobre a tentativa golpista de 29 de jun.?
Do "tancazo", que levou a morte de mais de 20 inocentes.
Quero saber a sua opinião,
porque o jornal "A Tribuna", no dia seguinte,
disse que havia sido um "show".
E a rádio Agricultura, enquanto ocorria a tentativa facciosa,
dizia no ar frases como:
"Por fim, chegou o dia tão esperado",
"Por fim, as Forças Armadas decidiram enfrentar
este governo totalitário, marxista..."
e outros chavões que o partido dele costuma dizer.
Este é um delito político.
É um atentado contra nosso povo.
O mais grave atentado contra a democracia e o regime constitucional
que eles dizem defender da boca para fora.
O Sr. Víctor García já foi preso uma vez,
pelo governo da democracia-cristã, em 1967,
por atos sediciosos em nome do Partido Nacional.
Boa noite, telespectadores.
Como puderam ver e ouvir,
VICTOR GARCÍA GARZENA DEP. PARTIDO NACIONAL
...o jovem estudante...
me colocou como sedicioso.
Olhem-no bem. Mas olhem para ele e olhem para mim.
Olhem a vida dele, e olhem minha vida.
Não sei como as câmeras não caíram de vergonha!
É pura verdade!
Ele dedicou a vida à revolução.
Não fez outra coisa que revolução.
Diante de um homem que exerceu sua profissão por 35 anos,
que foi 25 anos professor universitário,
que ganhou o sustento com seu esforço.
O jovem estudante me aponta e diz: "Olhem o sedicioso!"
É simplesmente ridículo!
Vou falar sobre outras coisas.
O regime não funciona sem virtudes republicanas.
É o que penso,
todo mundo sabe disso, e assim é minha prática.
Não condeno os desesperados, os que, hoje em dia,
como o caminhoneiro sofrido que leva uma pedrada.
Não condeno quem protesta e se rebela.
Não sou e nunca fui apoiador de nenhum levante.
Não sou partidário de golpes nem de aventuras.
Mas hoje compreendo e entendo
como um país inteiro não pode viver em paz quando
suas necessidades mais vitais, como diz a dona de casa,
não são atendidas.
Ele mostrou exatamente quem é.
Mostrou
o rosto sedicioso,
o rosto golpista do Partido Nacional.
Sr. Ansieta, esse é o principal risco
ao regime constitucional
e à democracia que o senhor diz defender.
O senhor García Garzena disse, e os senhores ouviram,
ele acaba de dizer que não condena
a tentativa golpista de 29 de junho,
realizado por uma unidade traidora, sem dúvida,
contrariando a tradição das nossas Forças Armadas.
Ele não condena o assassinato de mais de 22 pessoas.
Não condena, pelo contrário.
Mas não teve franqueza suficiente para dizer que aplaude o golpismo.
Já sua rádio aplaudiu.
A rádio Sociedade Nacional de Agricultura.
Ou como seu jornal, "A Tribuna",
que, no dia seguinte, disse que era autogolpe,
um show montado pelo governo da UP.
Repita-o aqui, senhor Victor García!
Eu não disse que apoiei o levante, não admito que faça distorções.
- Então seja claro. - Acabo de pronunciar-me claramente!
Quero explicar-lhes, caros telespectadores,
que nosso sistema
não é um sistema de ódio de classes nem de luta de nada.
É de "integração nacional". É isso que queremos.
Queremos que todos se sintam membros de uma mesma pátria.
Como o Uruguai?
- Que sejamos fraternais. - Com golpe como na Bolívia?
- Outros países, não tem a ver. - Como no Brasil?
Você é boliviano?
Não se desespere, Sr. García, não fique histérico!
Permita-me continuar.
Estes são os problemas.
De onde vêm os atentados contra a democracia e a liberdade?
Que obstaculizam e impedem o diálogo,
e nos levam direto para a guerra civil.
É o caminho que necessita o Sr. García Garzena,
a pacífica pomba da paz que vimos diante das câmeras,
que quer instaurar no Chile uma ditadura fascista
igual à de José Maria Bordaberry no Uruguai,
ou a do Brasil e da Bolívia, repito, mesmo se ele não diz.
Em 5 de julho,
Allende forma um novo ministério para tentar superar a crise
e criar condições para um diálogo com a democracia-cristã.
Com esse objetivo, busca incorporar uma personalidade desse partido.
Sei perfeitamente bem que os processos revolucionários
sacodem e convulsionam os povos.
Mas sei também que aqui quisemos
e procuramos fazer algo que outros povos não conseguiram.
Uma revolução por caminhos diferentes,
em acordo a nossa história, tradição e realidade.
Que sejamos capazes de escrever mais uma página
para mostrar que o Chile tem sua própria vontade criadora,
e a nobre decisão de sempre engrandecer a pátria.
Agora, vamos ao juramento.
Finalmente, esclareço que chamei o reitor
da Universidade Católica, Fernando Castillo,
e lhe pedi que fizesse parte do gabinete.
Infelizmente, ele tinha outros compromissos,
que eu respeitei.
Respeitei suas razões e, apesar de sua boa disposição,
não pude contar com sua colaboração.
Sei, com certeza, que o país contará
sempre com sua colaboração.
Eu quis informá-los disso
e reiterar que estou certo de que superaremos
as horas difíceis com o esforço de todos.
Muito obrigado!
Por que aconteceu essa ruptura que ninguém desejava?
FERNANDO CASTILLO REITOR UNIV. CATÓLICA
...Porque, quando a UP defende programas...
projetos para o Chile...
que poderiam de fato permitir a mobilização de interesses coletivos...
A UP primeiro se pergunta: quem ficará contra?
Ela procura com lupa em todo os lugares.
Busca todo os inimigos possíveis e os apresenta como uma minoria.
Acho que os grandes projetos
de transformação de nossa sociedade,
necessitam ser muito bem explicados,
buscando todos aqueles que possam convergir como uma força
realmente progressista em relação aos objetivos chilenos.
Esta é a obrigação mais fundamental de um governo.
Mas, sob a influência de sua ala mais conservadora,
o Partido Democrata-cristão não quer dialogar com o governo.
Mesmo assim, tanto Allende como parte da esquerda
e da própria democracia-cristã
continuarão os esforços para estabelecer um diálogo
que modifique a correlação de forças
diante de um possível golpe de Estado.
Companheiros, devemos lançar um apelo
à sensatez e ao patriotismo
dos setores da democracia-cristã
que pensam com a própria cabeça
e que não seguem as ordens do Pentágono,
da CIA, dos capitalistas chilenos,
para que se oponham com todas as forças
nas bases populares, nos sindicatos, em todo lugar,
à ofensiva fascista e reacionária.
Porque, se o fascismo conseguir vencer,
não vão perguntar ao operário do cobre
se é comunista, do MAPU,
socialista ou democrata-cristão para reprimi-lo.
Em 8 de julho, a infantaria da Marinha
realiza uma operação de busca em Valparaíso.
No mesmo dia,
a Força Aérea ocupa um cemitério de Santiago, com três helicópteros.
Duzentos soldados reviram os túmulos à procura de armas.
Nenhuma arma foi encontrada.
É coisa de outro mundo!
Eles vêm aqui todo dia desenterrar os mortos.
Onde já se viu? Morto não tem bala, como podem matar?
Não faz sentido revirar os coitados!
Os mortos só vão poder jogar um osso neles.
Qualquer dia vão mandar aviões aqui.
Vão nos matar, e como somo indefesos, vai ficar por isso mesmo.
- É preciso armar o povo então? - Sim, é claro!
É isso que tem de fazer o governo. E bem rápido.
Porque se isso não for feito... é impossível...
Nós somos a força do governo.
Allende é presidente porque nós o elegemos.
Os ricos nunca vão ficar do nosso lado.
Tudo o que temos devemos a este governo.
Não tínhamos nada.
Como não ser grata a este governo?
Tem pessoas que ainda não entenderam isso.
Estão com a mente confusa e...
e não compreendem o que está sendo feito.
Todos os dias conseguimos algo.
Veja o esforço que estão fazendo pelos pobres.
O que fazer para defender o governo?
- Nos unirmos! - E se eles vierem armados?
Precisamos também de meios para nos defender.
É a opinião de todos nós aqui.
Nesta ocupação ninguém tem arma.
Aos socos e pauladas, não se pode fazer nada.
Se vierem com arma de fogo, não dá para fazer nada.
Existem organizações de defesa criadas por trabalhadores.
Existem brigadas que poderão se mobilizar,
mas não há grupamentos populares para defender as fábricas,
nem grupamentos populares para mobilizar trabalhadores
com sua disposição de combate e de enfrentamentos de rua
contra alguns setores militares
ou de setores fascistas do meio militar.
Criar, criar, milícia popular!
Em 12 de julho, o Partido Socialista fala sobre a ameaça de golpe.
Os soldados, marinheiros, aviadores e policiais
não podem prestar-se jamais,
sob nenhuma circunstância,
a assassinar trabalhadores.
Caso algum oficial tentar um golpe,
os oficiais, suboficiais e soldados
não têm obrigação
de prestar-lhes obediência.
Mais claro ainda:
não devem acatar ordens que signifiquem atirar contra o povo,
ou participar de aventuras golpistas contra o governo dos trabalhadores,
e devem opor-se ativamente a essas ordens.
A burguesia deve entender com clareza
que não pode agir impunemente.
A cada ação subversiva,
a cada atentado contra o Chile e seu governo,
os trabalhadores responderão invariavelmente,
utilizando todos os métodos
e recursos necessários.
Nosso partido acha
que as ocupações de empresas,
fábricas, terras é uma resposta legítima
da classe operária e dos trabalhadores
à atitude sediciosa e golpista da direita.
Já dissemos,
a reação deve pensar em cada passo que dá.
Quero saber a posição do partido
sobre as buscas que os militares fazem nas fábricas,
procurando armas.
Considero essa atitude ofensiva à classe trabalhadora.
Os trabalhadores só se armariam
para defender o seu governo, o governo dos trabalhadores.
O senhor, como advogado e jurista,
poderia nos explicar quando é legal...
e quando é ilegal?
Este é o problema: cairíamos na ilegalidade,
tentando defender o governo dos trabalhadores,
se tivéssemos a precaução de comprar armas.
O povo, para defender seu governo,
deve recorrer a todos os meios de que dispuser.
A questão das armas está ligada a da ocupação de empresas.
Para um setor da UP, liderado pelos comunistas,
a expropriação indiscriminada de fábricas é um erro,
pois debilitaria a imagem legalista do governo.
Já o setor liderado pelo Partido Socialista,
a ocupação de fábricas é uma forma útil de mobilização
que ajudar a preparar a luta que se aproxima.
Os socialistas afirmam que o choque armado com a direita
é completamente inevitável.
e que a única forma de encarar um golpe
é com a organização das massas e com o poder popular,
especialmente os cordões industriais.
Companheiros, é hora de criar uma muralha contra os reacionários,
avançando na criação de cordões industriais
no país inteiro.
Isso significa, companheiros,
que nossas lideranças sindicais
tomem esta tarefa como uma tarefa prioritária.
Que se conectem a companheiros de outras fábricas,
que coloquem para as outras lideranças sindicais
a necessidade de se unir aos companheiros do bairro próximo,
e das regiões mais distantes.
Assim, companheiros, vamos construindo essa força popular
que é a base para avançar,
que é a muralha para deter as intenções da reação.
Em 19 de julho, na cidade de Osorno,
o regimento Arauco ocupa a Central de Trabalhadores.
No outro dia, a Marinha faz uma busca em Concepción.
Nenhuma arma foi encontrada em nenhum dos casos.
Em 12 de julho, o Movimento de Esquerda Revolucionária, MIR,
que não integra a UP, declara sua posição.
Em todas as partes do país, ouve-se um só grito
que ecoa nas fábricas, no campo, bairros pobres e escolas...
nos quarteis do povo.
O chamado para "criar, criar, fortalecer e multiplicar o poder popular",
o poder dos comandos comunales,
o poder dos operários e camponeses.
Os revolucionários e trabalhadores
devem de imediato ampliar as ocupações de fábricas e fazendas,
multiplicar as ações de defesa,
promover o governo popular, como forma de governo local,
autônomo do poder do Estado.
Os suboficiais e policiais devem desobedecer
às ordens de oficiais golpistas.
E neste caso...
E neste caso,
todas as formas de luta se tornarão legítimas!
Então não haverá dúvida de que os trabalhadores,
com soldados, marinheiros, policiais,
suboficiais e oficiais anti-golpistas,
terão o direito de construir seu próprio exército,
o exército do povo!
Em 19 de julho, os trabalhadores do cordão industrial Vicuña-Mackenna
bloqueiam a principal via da região.
Qual o motivo deste bloqueio?
Em apoio aos companheiros expulsos da fábrica ICMETAL.
- Alguma autoridade do governo virá? - Esperamos que uma autoridade
solucione o problema dos companheiros.
Um dia antes, os operários do cordão Cerrillos fizeram o mesmo.
Protestam contra a tentativa do governo
de devolver fábricas ocupadas para facilitar
um possível acordo com a democracia-cristã.
As contradições da esquerda sobre a estratégia a seguir
para deter o golpe se tornam públicas.
Às 11:30, o chefe de polícia manda liberar o caminho.
A polícia só consegue avançar até a primeira barricada.
Adiante, há quatro mil operários ao longo de sete quilômetros.
Às 11:45, chega o intendente de Santiago,
Julio Stuardo, funcionário da UP, e autoridade máxima da província.
Sua missão: acabar com o confronto.
Não faça nada aqui, e recuem duas quadras.
Recuem as forças policiais, se possível até a avenida Matta.
E comunique ao chefe que eu dei as ordens.
A polícia se retira.
Mas o problema das fábricas ocupadas continuará a ser discutido
com a Central Única de Trabalhadores.
A CUT criou uma comissão
para ver os casos
das fábricas que estão nas mãos dos trabalhadores.
E essa comissão está estudando essa questão,
com organismos como o CORFO e o Ministério da Economia.
Temos de entender bem, companheiros,
que há muitas fábricas,
não todas as que estão ocupadas,
porque há uma quantidade enorme de fábricas ocupadas em Santiago
e nem todas poderão ser nacionalizadas,
por diferentes razões.
Quando a CUT lançou o chamado
para ocupar as fábricas em caso de tentativa golpista,
era para ser feito em épocas críticas,
e parar a ação do fascismo.
Mas isso não significa que indiscriminadamente
todo tipo de indústria vai ser nacionalizado.
Porque aqui também há alguns problemas
com fábricas que estão completamente sem dinheiro.
E, se o Estado assumi-las,
na prática, será um verdadeiro fardo,
e isso não pode acontecer.
Portanto...
isso está sendo discutido com os companheiros
dessas respectivas indústrias.
O que queremos
é uma decisão imediata da CUT,
boa ou ruim, mas que decidam,
para que isto não divida por dentro os trabalhadores.
O problema é que há outras questões de fundo.
As empresas de capital suíço, por exemplo.
O que fazer?
Aqui há um problema...
um problema de relações internacionais.
E o que isso tem a ver com os problemas dos trabalhadores?
Muita coisa.
Porque o governo suíço
é um dos principais sócios do Clube de Paris,
que discute e renegocia a dívida externa do Chile.
Vocês sabem que, após este governo assumir
e estatizar o cobre, por exemplo,
houve um boicote dos ianques,
e o país não tem as divisas e créditos que tinha antes.
E isso é renegociado no Clube de Paris,
e é onde o Chile tem de atuar
com muita cautela.
Aqui a questão não é internacional!
E sim de nacionalizar todas as indústrias que nos interessem.
Não venha com conciliações, companheiro!
O que você está explicando sobre o contexto internacional,
é claro que os trabalhadores em geral não vão entender.
Se não apresentar uma razão mais...
próxima deles, e com palavras que todos entendam,
eles podem passar por cima das lideranças da CUT.
A questão das desocupações também tem...
problemas que são mais próximos, mais chilenos.
Porque vocês bem sabem, companheiros, que hoje
nós, a classe operária, por meio deste governo
ganhamos uma parte do poder, mas não todo o poder.
A reação busca que as forças da ordem, sejam os policiais ou os militares,
enfrentem os trabalhadores por causa das ocupações de fábricas,
por não obedecer a direção da CUT
e querem fazer justiça por conta própria.
E acabam enfrentando a polícia ou os milicos.
E com isso acusam o governo
de que no Chile não há ordem ou autoridade.
E estamos a um passo
de acusarem constitucionalmente o presidente. É isso que eles querem.
Companheiro, nos também sabemos disso claramente.
Pediram para que nós, operários, nos organizássemos,
que formássemos cordões industriais e nos organizássemos em todo lugar.
Nós nos organizamos nas periferias,
nas frentes operárias, nos sindicatos.
Também nos organizamos nos cordões industriais.
E vocês continuam com a mesma ladainha:
de que não é momento, pois há um Poder Legislativo
e um Poder Judiciário.
Pediram que nos organizássemos em todos os níveis.
Estamos nos organizando e seguiremos fazendo.
O companheiro presidente segue nos pedindo calma,
que sigamos nos organizando, mas para quê?
Por qual temor se evita que os trabalhadores façam uma greve geral?
E que o povo pobre faça suas lutas.
Para pedir ao presidente, e a todo poder executivo,
que nos diga, de uma vez por todas, qual é o plano de luta?
Qual é o plano para enfrentar a direita?
Que façamos isso para exigir...
E, se for necessário, como até a direita diz,
que façamos um plebiscito.
Vamos começar o plebiscito na periferia e ir ao centro,
e ganharemos daqui até Rancagua, e por muito!
Pois temos organização nas ocupações,
nos cordões industriais, nos sindicatos.
E a CUT continua nos pedindo
para ter calma, não fazer isto ou aquilo,
porque isso pertence à rainha Elisabeth ou à Suíça.
E assim a CUT segue inventando coisa.
A verdade é que o povo e os operários estão cansados
porque isso é enrolação.
Lutamos contra a burocracia.
Mas dentro de nossas próprias organizações e sindicatos
dentro de nosso próprio poder, como é a CUT,
segue ainda com burocracia.
Até quando? Quero perguntar ao companheiro,
você não tem confiança no poder popular?
Será que a CUT não confia nos operários que foram
à manifestação de apoio ao companheiro Allende?
Fomos lá gritar e dar total apoio.
O presidente não confia nas organizações que formamos?
Não confiam os deputados que estão aí e não querem fazer nada?
Não confiam os senadores?
Que, em vez de lutar por aquilo que nós os elegemos,
para que lutassem por nós,
o único que fazem é se levantar e ir embora quando a direita grita.
Já chega! Nossa organização foi por algum motivo,
e por algo estamos reunidos aqui esta noite.
Para pedir que o governo exproprie o máximo de fábricas.
As indústrias sem dinheiro, deixemos para a direita!
Deixem com os reaças! Se forem peso morto para o governo,
eles que fiquem com elas. E nós seguiremos lutando.
Vá lá ver como o mercado clandestino está abarrotado de coisas,
e o companheiro nos pede calma, até quando?
A situação já está desandando.
Não sabem qual a composição de classes das Forças Armadas?
Não sabem que a maioria dos oficiais está a favor do golpe?
Porque aqui, companheiros,
o poder não é conquistado apenas com uma boa organização.
Já temos uma boa organização.
Mas também precisamos ter algum peso
que contrabalance o real poder da reação neste momento.
É por isso que na CUT estamos falando
dos comitês de proteção.
E o que são esses comitês?
Comitês de proteção das fábricas, da produção.
E também comitês de proteção para a guerra.
Não podemos falar muito disso,
nem dar detalhes, pois seria um erro.
Mas temos de preparar os trabalhadores
para combater em todos os terrenos.
E a CUT está lutando por isso.
Sabemos que ainda não é suficiente, companheiros.
Mas o problema surge
quando pretendem existir...
organizações que querem uma direção paralela
ao organismo dos trabalhadores.
É aí que a coisa anda mal.
Por isso, eu reconheço que aqui há muitos companheiros
que colocam questões com boas intenções,
mas são coisas que exigem um debate mais aprofundado.
Não se pode acusar gratuitamente,
nem rotular esta ou aquela organização
este ou aquele dirigente com este ou aquele defeito.
Porque somos nós que fazemos as organizações.
E todos temos algum grau de responsabilidade.
E é nas suas próprias organizações
que vocês devem tratar desses problemas.
Estamos de acordo que aqui
temos de buscar as respostas adequadas
aos problemas que enfrentamos hoje em dia.
Mas não nos esqueçamos,
que temos um governo, presidido pelo companheiro Allende,
e temos de obedecer a essa direção.
Há um organismo que é a classe trabalhadora,
e há organismos que são os partidos da classe,
que também produzem suas próprias orientações.
Em 19 de julho, a Escola de Infantaria
faz buscas numa fábrica em San Bernardo.
Sem exceção, todos os setores da esquerda
reconhecem que é preciso preparar a defesa armada do governo.
Mas a falta de uma direção única,
impede a criação de um plano conjunto.
Em 20 de julho, diante do clima de violência,
a Igreja Católica lança um apelo ao entendimento pacífico.
Essa campanha, liderada pelo cardeal Raul Silva Enríquez,
culmina com a celebração, em todo país, de "missas pela paz".
Pelos representantes do povo
que exercem os poderes do Estado.
Que sua competência,
acentuada pela sabedoria e a prudência que vêm de Deus,
faça-os estar sempre a serviço da pátria,
para o autêntico bem das comunidades.
Rezemos ao Senhor.
Senhor, escutai nossa prece.
Pelos cidadãos de nossa pátria,
para que, na diversidade de opiniões e preferências,
Deus ilumine as consciências,
apazígue as paixões,
domine o rancor sectário,
para que prevaleça o bem comum dos chilenos.
Rezemos ao Senhor.
Senhor, escutai a nossa prece.
O apelo da Igreja à pacificação
coloca alguns chefes da democracia-cristã em posição difícil.
Por 20 dias, se recusaram a dialogar com Allende.
Se não mudarem de atitude,
entrarão em conflito com a posição pública da Igreja.
Dias depois, Patrício Alwin e Osvaldo Olguín,
os principais líderes da democracia-cristã,
vão ao palácio conversar com o presidente.
Consciente das divergências mas seguro de sua estratégia,
Allende está disposto a um acordo mínimo
que evite a ruptura constitucional.
A possibilidade de acordo entre allende e a cúpula democrata-cristã
causa uma grande inquietação na extrema-direita.
Em 27 de julho, à 1:30 da madrugada,
o comandante Arturo Araya Peters, auxiliar militar de Allende,
é assassinado por um grupo terrorista.
A violência atinge um oficial diretamente ligado a Allende
justamente quando a democracia-cristã aceita dialogar com Allende.
O comandante Arturo Araya tornara-se o principal elo
entre o governo e os oficiais constitucionalistas da Marinha.
No mesmo, o corpo do oficial é levado para o palácio de La Moneda.
E depois transladado a Valparaíso, para ser sepultado com honras militares.
COMANDANTES
Meses depois, exilado em Buenos Aires,
onde será assassinado, o general Carlos Prats
diz que uma das razões do assassinato de Araya
era impedir que Allende tivesse informações do que ocorria
nos círculos militares de Valparaíso.
É aqui que um setor da oficialidade começa a planejar o golpe de Estado
assessorados pelo governo dos EUA.
Despedida dos restos mortais do comandante Arturo Araya Peters
Faz a saudação o comandante da Marinha,
almirante Raúl Montero Cornejo,
e por seu colega de turma,
capitão de mar e guerra Guillermo Aldonei Hansen.
Prestam-lhe honras a Escola de Submarinistas
e a banda da Escola de Armas.
Foi uma trajetória brilhante nas fileiras da Marinha
do comandante e capitão de navio Arturo Araya Peters.
O presidente da República, Salvador Allende.
Os ministros de Estado, os chefes das Forças Armadas...
Intensificam-se as buscas de armas.
Em 3 de agosto, os militares cercam
uma das principais fábricas do cordão Cerrillos.
Essas operações permitem aos oficiais reconhecer o terreno
e estudar a reação dos trabalhadores.
E também habituam a tropa a enfrentar a população civil,
e vigia-se o comportamento dos soldados.
No outro dia, a 5ª Divisão do Exército
ocupa a zona industrial de Punta Arenas.
Até então, os militares fizeram 27 buscas pelo país,
sem encontrar armas.
Pela primeira vez, nesse tipo de ação, são utilizados tanques.
Nesta semana,
os caminhoneiros decretam greve por tempo indeterminado.
Com essa greve, a direita deseja precipitar o caos econômico
e sabotar o diálogo de Allende com a democracia-cristã.
Os empresários reúnem seus veículos em pontos estratégicos,
para dar a impressão de força e manter a coesão.
O New York Times, mais tarde revelaria,
que os grevistas receberam 5 milhões de dólares da CIA.
Cada um dos empresários recebe 4 dólares por dia, ao câmbio paralelo.
Nos jardins do Congresso, como ocorrera na greve do cobre,
mulheres de caminhoneiros coletam dinheiro e alimentos.
Em 31 de julho, o governo ordena o fim da greve
e manda tratores rebocarem os veículos paralisados até Santiago.
Mas os empresários resistem com o uso de força,
e acusam o governo de atentar contra a propriedade privada.
Estas imagens foram filmadas pelo Canal 13, simpatizante da greve.
Dias depois, uma parte do Parlamento transforma o incidente num escândalo.
O Senado pede ao Canal 13 que exiba as imagens da greve,
para servir de avaliação para os parlamentares.
Com o aval de alguns senadores,
o Canal 13 exibe as imagens várias vezes,
apresentando-as como documento de caráter oficial.
Isso evidencia o poder da oposição na mídia.
E o tipo de liberdade de expressão tolerada pelo governo.
A oposição controla o Canal 13, líder em Santiago,
assim como 75% das rádios e 70% da imprensa.
Neste caso, a apreensão dos caminhões
alimenta outra campanha contra o governo.
Enquanto isso ocorre no Parlamento,
os contatos entre Allende e a democracia-cristã
entram em ponto morto.
Os democratas-cristãos impõem três condições:
Allende deve se submeter à autoridade do Congresso,
renunciando a poderes presidenciais que outros mandatários tiveram.
Deve abandonar a política de nacionalizações.
E, por último, nomear em cargos-chave do governo
militares de confiança da democracia-cristã.
Em resposta, Allende opõe-se a essa capitulação.
E a democracia-cristã suspende o diálogo.
Interrompido o diálogo,
quase toda a oposição adere à escalada contra o governo.
Em julho e agosto, os grupos terroristas
treinados pelos serviços de inteligência dos EUA,
realizam 250 atentados com dinamite e bombas incendiárias.
Diante do crescente vazio de autoridade,
Allende obtém o apoio do comando das Forças Armadas
e consegue que os militares assumam responsabilidades.
Um país não pode viver
submetido à ameaça de desalmados.
As ruas de Santiago foram cobertas ontem
de publicações como esta.
Quem as financia?
Onde são impressas?
Quais são as empresas que se prestam a isso
parar atentar...
contra a vida nacional,
contra o governo, contra o país.
"Oito medidas para derrubar o governo."
Agem com essa desfaçatez!
Este gabinete...
tem de colocar fim...
com a greve fascista dos transportadores.
Graças à decisão
de quem aplicará implacavelmente a lei.
E contando com a solidariedade da imensa maioria dos chilenos,
que querem evitar a todo custo a guerra civil na nossa pátria.
Orlando Letelier, assina neste momento, sua promessa...
Em 9 de agosto, altos-oficiais são incorporados ao governo.
O general Prats, líder dos militares leais,
ocupa o Ministério da Defesa.
O comando do Exército vai interinamente para o general Pinochet,
que também era considerado constitucionalista.
A maioria dos políticos desaprova o novo gabinete.
A direita o rechaça. A democracia-cristã fica dividida.
A esquerda hesita.
Só dois dias depois, comunistas e socialistas
apoiam a decisão de Allende.
Muito obrigado.
Está encerrado o ato.
Em 11 de agosto, o novo gabinete decide requisitar caminhões.
No entanto, essas ordens entram em choque
com a maioria dos oficiais, que são simpáticos à greve.
Isso evidencia que uma parte do aparato militar
também está implicado na ofensiva contra o governo.
De acordo com revelações da imprensa dos EUA,
William Colby, ex-diretor da CIA,
ao ser interrogado pelo Congresso, em Washington,
em outubro de 1973,
não desmentiu o apoio de sua agência à preparação
e suporte econômico da greve.
Em 12 de agosto, a democracia-cristã declara apoio oficial à greve.
Nas fábricas, a matéria-prima começa a diminuir.
No campo, as sementes escasseiam.
Isso demonstra que o gabinete cívico-militar fracassou.
Mas a resposta popular à greve continua.
O governo e seus aliados mobilizam brigadas
para levar os produtos aos centros de distribuição.
Com o comércio fechado, parte da população
apoia as Juntas de Abastecimento e fortalece os "armazéns populares".
Cada armazém popular é formado por vizinhos de uma região,
que compram os alimentos diretamente do Estado
e os vendem a preço de custo.
Em pouco tempo, metade de Santiago já conta com esse abastecimento direto.
- Abastecimento! - Direto!
Trabalhadores no poder!
Em alguns bairros, os cordões industriais enviam operários
para vigiar a distribuição e abrir as lojas fechadas.
Neste momento, o poder popular se adianta à polícia
para manter a ordem pública e controlar o comércio.
Não é uma greve de trabalhadores, e sim de empresários de caminhões.
Não há um trabalhador dono de caminhão que esteja paralisado.
Os grevistas são os donos de frotas de caminhões.
Eles é que mantêm esta greve inútil.
Esta greve é claramente política.
É uma greve política
que prejudica os moradores da periferia.
Estamos pagando com todas essas filas enormes.
Se os caminhões trabalhassem,
terminariam as filas.
Nós, trabalhadores conscientes, fomos para a rua lutar.
Cumprimos nossa missão como trabalhadores,
defendendo as fontes de trabalho e mantendo a produção.
E carregando mercadoria de lá para cá, no braço,
para que não falte alimento nos bairros populares.
Todos nós demostramos isso ao presidente e às autoridades.
Um setor de transportadores que apoia o governo,
organiza comboios para manter a distribuição de alimentos
entre as províncias.
A população também desenvolve
um sistema de abastecimento por família, a "cesta popular".
Defendemos sem cansar a cesta popular!
O que acha da ação do governo diante da crise?
O governo tem de ter jogo de cintura,
por que se você fosse governo, teria que fazer o mesmo.
Porque muitas vezes o governo fica na corda bamba.
Acredito que não seja culpa do governo.
Para mim, que sou socialista e marxista desde 1932.
E fiz parte da luta da República Socialista de 1932
liderada pelo companheiro Marmaduke Grove.
Grove acabou cometendo erros,
quando o povo lhe pediu armas e ele não entregou.
Claro que teria sido uma matança desenfreada,
Mas sabe-se lá como teria sido.
Ainda estamos longe de ter uma boa frente.
Em todas as periferias,
temos organizações antifascistas e comitês de defesa.
Mas nos falta um pouco de coordenação regional e nacional.
Para atuarmos em frente única.
O que vai acontecer conosco se vier
um enfrentamento como o da Espanha em 1936?
Que, por causa da divisão dos partidos,
os anarco-sindicalistas de um lado e os socialistas, de outro,
o fascismo de Franco tomou o poder.
Enquanto isso, em Valparaíso,
um grupo de marinheiros detecta o plano de golpe na Marinha.
E denunciam a vários líderes da esquerda.
O alto-comando descobre essa denúncia.
Os marinheiros são presos e submetidos a tortura.
Em 22 de agosto, na Câmara de Deputados,
a oposição rompe com o regime constitucional.
Estes deputados dizem que o governo estaria violando a Constituição.
E com isso, dão o aval para uma intervenção militar.
Apoiados numa maioria simples e sem força legal,
esta declaração justifica a rebelião e legitima o golpe de Estado.
A partir deste momento, os acontecimentos se aceleram.
Um grupo de mulheres se reúne diante da casa
do comandante do Exército, general Carlos Prats,
líder dos oficiais que respeitam a democracia.
A manifestação, com a participação de seis esposas de generais,
é para mostrar a Prats que ele já não tem o apoio da cúpula militar.
No outro dia, os generais no comando lhe negam apoio,
e Carlos Prats renuncia.
Os generais Pickering e Sepúlveda também renunciam.
Os principais comandantes leais.
Augusto Pinochet, tido como militar profissional
e respeitoso da Constituição,
torna-se o novo comandante das Forças Armadas.
Enquanto a conspiração avança,
a oposição civil lança sua ofensiva final.
Em 14 de agosto, na Universidade Católica,
as mulheres do grupo Poder Feminino
se reúnem para apoiar a greve do transporte.
É por isso
que a luta dos transportadores, que foi valente em outubro de 1972,
desta vez tem de ser uma batalha até as últimas consequências.
Assim, entendemos nós que estamos apoiando
a justa luta dos transportadores.
AS ASSOCIAÇÕES CHILENAS EXIGEM QUE RENUNCIE
Dias depois, os adversários do governo
pedem a renúncia do presidente.
Em quase três anos de guerra econômica,
permitiram a Casa Branca e a oposição interna
ganhar um amplo setor da classe média.
É nesse setor que os oficiais sediciosos têm sua base social
para seguir com seus planos.
Em 4 de setembro, completa-se o terceiro aniversário
do triunfo eleitoral de Allende.
Apesar da crise, os simpatizantes do governo
realizam uma das maiores manifestações da história do Chile.
Às 5 da tarde, mais de 800 mil pessoas
desfilam diante do presidente.
Três dias depois, Allende informará a seus partidários,
que deseja convocar um plebiscito,
para decidir, por via democrática, a continuação do governo.
A data para anunciar o plebiscito: 11 de setembro.
O reaça que especular, sua piroca vamos cortar!
E se isso não bastar, suas bolas vamos cortar!
Operários em ação para deter a sedição!
Juventudes Comunistas do Chile!
Allende, Allende, o povo te defende!
Força, presidente, muita força!
Vamos pra cima!
Avante, Unidade Popular!
Lutando, criando, poder popular!
Partido Socialista do Chile!
Juventude Socialista!
A fábrica expropriada jamais será devolvida!
Basta já de conciliar, é hora de lutar!
Povo, consciência, fuzil, MIR, MIR!
Mais alto!
- MAPU! - Com toda a alma!
MAPU!
Allende, tranquilo, o povo está contigo!
Diante deste povo mobilizado, mas sem armas,
vai entrar em ação o último recurso da oposição e do governo dos EUA.
MANHÃ DE 11 SETEMBRO DE 1973 PRIMEIRO COMUNICADO DE ALLENDE
Aqui fala o presidente da República,
desde o palácio de La Moneda.
Informações confirmadas dizem...
que parte da Marinha teria isolado Valparaíso
e a cidade estaria ocupada.
Seja como for, eu estou aqui
no palácio do governo,
e ficarei aqui defendendo...
o governo que represento pela vontade do povo.
Em 11 de setembro, a Marinha inicia o golpe em Valparaíso.
Quatro navios de guerra dos EUA se aproximam do litoral chileno
para participar da Operação Unitas.
Eles mantêm contato permanente com os golpistas.
Às 7:30 Allende chega ao palácio de La Moneda
para dar instruções.
A situação é crítica.
Não existe um plano unitário para a defesa armada do governo.
Durante a madrugada, a maioria dos oficiais leais,
foram neutralizados.
Às 8 da manhã,
dois aviões da Força Aérea começam a sobrevoar a capital.
Às 8:20, os chefes da sublevação exigem a renúncia de Allende.
E lhe oferecem um avião para que abandone o país.
Às 9:15, o presidente se prepara para resistir
e fala novamente pelo rádio.
A Força Aérea bombardeou
as torres da Rádio Portales e da Rádio Corporación.
Diante disso,
só me cabe dizer aos trabalhadores:
não vou renunciar!
Colocado pela história nesta situação,
pagarei com a vida a lealdade do povo.
A história é nossa. É feita pelos povos.
Viva o Chile! Viva o povo!
Viva os trabalhadores!
Após algumas horas de resistência,
os militares enviam a Allende um ultimato.
Se não se render, a aviação bombardeará.
Diante disso, o presidente dá liberdade de ação
à guarda do palácio, que abandona o edifício.
Com Allende, que recusa se render,
permanecem 40 combatentes civis dispostos a enfrentar o ataque.
Apesar de tudo, os defensores do palácio resistem por três horas.
Enquanto ocorrem pequenos combates em Santiago e nas províncias.
Às 14:15, presidente Allende morre, em La Moneda.
Às 21 horas, os líderes do golpe se apresentam.
As Forças Armadas e da ordem
atuaram no dia de hoje
orientados pela inspiração patriótica
de tirar o país do caos,
que, de forma aguda,
o estava mergulhando
o governo marxista de Salvador Allende.
A junta manterá o Poder Judiciário
e a assessoria da Controladoria-Geral.
O Parlamento
ficará em recesso
até segunda ordem.
Isso é tudo.
Talvez seja triste ter quebrado
uma tradição democrática...
que neste continente...
era longa!
Mas, quando o Estado se degenera,
outros precisam,
por procuração,
manter seu funcionamento e assumir essa causa.
Hoje o fizemos.
Temos certeza de que todo o país
compreenderá o sacrifício que isso significa
Não se trata de esmagar tendências
ou correntes ideológicas,
nem de exercer vinganças pessoais.
E sim de restabelecer a ordem pública
e devolver o país,
por via do respeito à Constituição
e das leis da República.
Depois de três anos,
suportando o câncer marxista
que nos levou ao descalabro econômico,
moral e social.
Que era intolerável.
Pelos sagrados interesses da pátria,
nos vimos obrigados
a assumir a triste e dolorosa missão
que levamos a cabo.
Não temos medo.
Sabemos da enorme responsabilidade que cairá sobre nossos ombros.
Mas temos a certeza,
a convicção,
de que a imensa maioria do povo chileno
está conosco.
Está disposta a lutar contra o marxismo
e a extirpá-lo até as últimas consequências!
A partir de 11 de setembro, o Exército usa todos seus recursos
são usados para reprimir o movimento popular,
com a benção do governo dos EUA.
A resistência armada inicial de alguns cordões industriais,
da periferia e no campo é logo esmagada numa luta desigual.
Milhares de pessoas são mortas,
os principais ginásios e estádios,
se tornam campos de concentração.
A democracia mais longa da América Latina deixou de existir.
Contudo, após o 11 de setembro,
as forças democráticas se reorganizam
e adotam várias formas de resistência.
A batalha do Chile não terminou.
ELES TÊM A FORÇA PODERÃO NOS SUBJUGAR
PORÉM OS PROCESSOS SOCIAIS NÃO SÃO DETIDOS
NEM COM O CRIME NEM COM A FORÇA
A HISTÓRIA É NOSSA
E A FAZEM OS POVOS
SIGAM VOCÊS SABENDO
QUE MUITO MAIS CEDO DO QUE TARDE
SERÃO ABERTAS AS GRANDES ALAMEDAS
POR ONDE PASSARÁ O HOMEM LIVRE
PARA CONSTRUIR UMA SOCIEDADE MELHOR
SALVADOR ALLENDE 11/09/1973
Legendas: Troskim.
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