Afrikaans
Akan
Albanian
Amharic
Arabic
Armenian
Azerbaijani
Basque
Belarusian
Bemba
Bengali
Bihari
Bosnian
Breton
Bulgarian
Cambodian
Catalan
Cebuano
Cherokee
Chichewa
Chinese (Simplified)
Corsican
Croatian
Czech
Danish
Esperanto
Estonian
Ewe
Faroese
Filipino
Finnish
Frisian
Ga
Galician
Georgian
German
Greek
Guarani
Gujarati
Haitian Creole
Hausa
Hawaiian
Hebrew
Hindi
Hmong
Hungarian
Icelandic
Igbo
Indonesian
Interlingua
Irish
Italian
Japanese
Javanese
Kannada
Kazakh
Kinyarwanda
Kirundi
Kongo
Korean
Krio (Sierra Leone)
Kurdish
Kurdish (Soranî)
Kyrgyz
Laothian
Latin
Latvian
Lingala
Lithuanian
Lozi
Luganda
Luo
Luxembourgish
Macedonian
Malagasy
Malay
Malayalam
Maltese
Maori
Marathi
Mauritian Creole
Moldavian
Mongolian
Myanmar (Burmese)
Montenegrin
Nepali
Nigerian Pidgin
Northern Sotho
Norwegian
Norwegian (Nynorsk)
Occitan
Oriya
Oromo
Pashto
Persian
Polish
Portuguese (Brazil)
Portuguese (Portugal)
Punjabi
Quechua
Romanian
Romansh
Runyakitara
Russian
Samoan
Scots Gaelic
Serbian
Serbo-Croatian
Sesotho
Setswana
Seychellois Creole
Shona
Sindhi
Sinhalese
Slovak
Slovenian
Somali
Spanish (Latin American)
Sundanese
Swahili
Swedish
Tajik
Tamil
Tatar
Telugu
Thai
Tigrinya
Tonga
Tshiluba
Tumbuka
Turkmen
Twi
Uighur
Ukrainian
Urdu
Uzbek
Welsh
Wolof
Xhosa
Yiddish
Yoruba
Zulu
- Legendas - Luís Filipe Bernardes
Quando os líderes atuais da Alemanha tomaram o poder,
milhares de pessoas forçadas a buscar refúgio em países vizinhos...
...se viram diante do dilema mais fantástico do nosso tempo,
pois não possuíam passaportes, aquele importante documento...
que permite a uma pessoa entrar e residir num país que não o seu.
Sem passaporte, esses refugiados não tinham o direito de viver em lugar algum.
Eram forçados a deslocar-se numa marcha interminável interrompida somente...
pela detenção e prisão por entrada ilegal, seguida de deportação...
para outro país onde a mesma sorte os esperava.
Esta é a história dessas pessoas sem passaporte.
Inicia-se em Viena, em 1937, antes da ocupação alemã da Áustria.
- O que foi? - Não sei, ouvi alguma coisa abrir.
Como alguma coisa? O que foi que, idiota?
Lá embaixo. Algo lá embaixo!
- Houve alguma batida aqui recentemente? - Não.
É só a água da torneira. São seus nervos.
Não me admira. É só um garoto.
- O que foi? - O que foi?
Não é nada! Só estamos chegando da ópera.
Ei, escuta!
Tem alguém vindo.
- São três andares. - Temos que fugir pelo telhado.
- Sabe o caminho? - Sim. Pelo corredor, passando a pia.
Parem! Mãos ao alto!
Para lá, perto da janela.
- Ei, você aí, vamos. - Você? Como assim, "você"?
Ah, um cavalheiro! Sua Excelência, o andarilho.
Mãos ao alto! Você mesmo, seu porco!
- Onde está o seu passaporte? - Não tenho passaporte.
"Não tenho passaporte."
Cuidaremos de você, meu bem.
- Quem são esses, Kobel? - Um par de fugitivos.
Em Viena os policiais podem agredir ao dar voz de prisão?
É permitido muito mais do que você imagina.
Mande-os se vestirem e algeme-os, Kobel.
Sim, senhor.
Kobel... Kobel.
Vou guardar esse nome.
Próximo.
- Dados pessoais. Nome. - Ludwig Kern.
- Data de nascimento? - 30 de novembro de 1918, em Dresden.
- Alemão? - Não. Sem nacionalidade.
- Privado de cidadania. - Aos 19 anos? Que crime cometeu?
- Nenhum. - Prossiga.
Toda minha família foi privada de cidadania.
Mandaram-nos sair da Alemanha ou seríamos presos.
Se era para sermos presos, que fosse em outro lugar, não na Alemanha.
Dá para entender. Para onde você foi?
- Para a Tchecoslováquia. - Por que não ficou lá?
Fui detido e me mandaram embora.
Não tinha passaporte. Fui para a Hungria mas também me expulsaram.
- Há quanto tempo está na Áustria? - Três meses.
- Está sozinho aqui? - Sim.
- E vive de quê? - Eu tinha um dinheiro.
- Quanto? - Agora tenho uns 12 xelins.
Deve estar vendendo sem permissão, certo?
Muito bem, entrada ilegal na Áustria.
Conhece a sentença? Quatorze dias de detenção.
Assim que a cumprir será deportado.
Se voltar, estará sujeito a uma punição. Assine aqui tomando ciência.
Sim, entendi. Que se pode jantar, beber um copo de vinho,
e depois ir para casa dormir... para casa.
Mas a centelha de vida chamada Ludwig Kern precisa dormir na prisão...
ou correr no escuro para a floresta atrás de companhia mas com medo de todo mundo.
Por quê? Por quê?
Nosso sangue tem a mesma temperatura, nossos olhos são semelhantes,
nossos nervos reagem iguais, entretanto estamos separados.
Parece um abismo entre nós. Algo chamado passaporte.
Um pedaço de papel apenas com um nome e umas datas sem sentido.
Na direita, nome e sobrenome.
Para que fronteira deseja ser mandado ao cumprir a pena?
- Da Tchecoslováquia. - Cuidaremos disso. Podem levá-lo.
Próximo.
Kobel, Kobel.
- Dados pessoais? - Nome?
Steiner, Joseph Steiner. Nascido em 31 de agosto de 1897 em Munique.
- É foragido político da Alemanha? - Sim.
Escapou do campo de concentração de Dachau em 11 de maio de 1935?
Sim.
Este cavalheiro aí de Munique quer falar com você.
Agentes secretos alemães podem operar em Viena?
Ordens especiais.
Deve saber que tenho direito de ser deportado para a fronteira de minha escolha.
- Não pode me mandar para a Alemanha. - Seus direitos serão respeitados!
Vá pra lá!
Herr Brenner.
Muito obrigado.
Próximo!
Bem, capitão.
- Nos encontramos de novo. - Mal podia esperar.
Mas em outras circunstâncias.
Naturalmente. Para ajustar contas. Não o culpo.
Mas aqui, entre nós, permite que o cumprimente por sua fuga?
Foi mais audaz do que todas as suas proezas no front.
Conseguir vencer aquelas metralhadoras, atravessar a cerca elétrica.
Teria jurado que não conseguiria.
Sem a ajuda de amigos de fora.
O que você quer, Brenner?
- O nome dos seus amigos. - Não tenho nenhum.
Capitão, queremos saber o nome dos outros membros do grupo 4.
Naturalmente que pagaríamos por essa informação.
Um passaporte.
E poderá voltar para a Alemanha quando quiser.
- Espero que não duvide de nossa boa fé. - Ah, não, não!
Nesse caso poderá ir aonde quiser. Para a França, América, qualquer lugar.
Não seja tolo, capitão. Jamais saberão de onde veio a informação.
Ademais, a necessidade do Estado está acima de códigos individuais.
Não do meu.
Então sugiro que você mude. Compare nossas situações.
A sua é desesperadora.
Um homem sem país, sem direito legal de viver. Um fantasma ambulante.
Minha posição, por outro lado, é segura, confortável.
E tudo o que nos separa é isso.
Há muito mais que um passaporte entre nós, Brenner.
Deixemos de lado os sentimentos pessoais?
Seria loucura recusar essa oportunidade para se salvar e...
Não.
Então não dará os nomes?
Não.
Steiner... olha.
Não tem alguém na Alemanha que você gostaria de ver de novo?
Alguém importante para você. Alguém que você ama?
Não.
Muito bem então. Veremos.
No momento não podemos prendê-lo aqui na Áustria.
Mas não conte muito com isso.
A situação aqui pode mudar a qualquer hora. E quando mudar,
você terá o maior prazer em dar-nos essa informação.
E sob nossas condições, caro capitão.
Assumo o risco.
Como preferir.
Auf Wiedersehen!
Número 5!
É a primeira vez na cadeia, garoto?
Acabará se acostumando. Aqui pelo menos estará em paz.
Um homem sem passaporte na rua é um cadáver em liberdade condicional.
Só lhe resta mesmo suicidar-se.
Não tem nada pra se comer aqui?
- É só chamar o maître. - Eu tinha um frango assado na minha mala.
Meu primeiro frango em três anos. Juntei dinheiro para ele. Ia comer hoje.
Deixe pra chorar hoje à noite.
Daí você imagina que já o comeu... e fica mais fácil.
É... O quê? Que asneira! Quanta asneira!
Acha que é a mesma coisa? Acha?
- Não como frango. - Isso porque não tem na sua mala.
Mesmo que tivesse, não comeria. Detesto frango.
Vomitaria tudo depois. Não estou nem aí pra frango.
Já ouviram tanta besteira? O que deu em você?
- Nem dada eu comeria. - Meu Deus!
Que tal ovos, Polaco? Ovos de galinha?
Ovinhos? Sim, de uns ovinhos eu gosto. Gosto muito.
- Ele gosta de ovinhos. - Gosto muito, muito de ovinhos.
Quatro, seis, oito, uma dúzia de ovos.
Seis cozidos, seis estrelados.
Com umas batatinhas. Batatinhas fritas e bacon.
Cale a boca! Cale a boca!
Espera. Por sorte consegui passar com uma garrafa de conhaque.
Prova!
Vamos. Faz parte dessa vida. Precisa aprender.
Um trago é um trago para homens sem pátria.
- Tome um pouco também. - Não obrigado. Não sou da sua turma.
Como assim? Estaria na prisão por problemas de saúde?
Fui preso por causa de minha profissão. Não sou nenhum fugitivo sem documentos.
Sou batedor de carteira competente e jogador profissional...
...com pleno direito de cidadania.
Condescende em exercer seu direito a jogar às nossas custas?
- Tem dinheiro? - Um pouco.
Negócio é negócio.
Está escuro demais aqui pra nós iniciantes.
O que faremos pra iluminar mais?
Uma vela!
Um fósforo!
Ei, será que arranja um cigarrinho?
Um cigarro!
Não vem jogar também?
Não, agora não. Estou cansado.
Parte o baralho.
Tarará-bum! Rei!
Hm, ás de copas.
Ás de espadas.
Mais algum truque como esse?
- Não muitos. - Quem sabe lhe ensino alguns?
O que você comprou para sua mãe de aniversário?
Ela está rindo de nós.
Estava rindo esse tempo todo.
Saudades de casa, garoto? Vamos, onde eles estão?
- Onde está a sua mãe? - Está morta.
No exílio, não é?
E seu pai?
- Acho que em Praga. - Tem o endereço dele?
Hm-hmm, mas não sei se...
Assim que sairmos daqui te deixarei na fronteira de Praga.
Mas até lá tem que aprender a se virar.
Dominar os baralhos. Usar os punhos. Ficar forte.
Vamos, venha jogar!
Está bem.
POSTO ADUANEIRO ÁUSTRIA
- Adeus! - Adeus!
- Por que não nos deixam cruzar? - Não seja impaciente.
Precisam nos conduzir pela floresta.
Não esqueça que os tchecos estão esperando para nos mandar de volta.
- Vamos lá! - Está bem. Vamos.
- Quando vão voltar para a Áustria? - Nunca!
Isso significa hoje à noite. Vocês refugiados.
É diferente de lidar com verdadeiros criminosos.
Estão desmerecendo a dignidade da minha profissão.
Lá está a Checoslováquia. Atravessem no pé da colina.
Toma. Melhor beberem algo antes.
Obrigado.
Corram até o pé da colina. Depois podem ir com calma.
Conseguimos.
- Cigarro? - Obrigado.
Vou voltar daqui a uma hora.
Por que está fugindo? Você é cem por cento ariano.
- E você? - Cinquenta por cento.
Me perguntava por que você...
Não passo de um ex soldado que odeia a corja que governa a Alemanha.
Naturalmente eles tampouco gostam de mim.
Por que vai voltar para Viena?
Porque lá meus amigos podem mandar-me notícias da minha mulher.
- Sua mulher? - Ela ainda está na Alemanha.
Não sei o que está acontecendo com ela.
Olhe a lua. Estava assim no dia que escapei do campo de concentração.
Me escondi durante uma semana na casa de um amigo.
Fiquei trancado num sótão. Não me atrevia a acender a luz ou fumar.
Passei o dia escrevendo uma carta para minha mulher.
À noite meu amigo me trouxe um jarro d'água e comida.
Ele ia tentar enviar a carta...
...e dar um jeito de eu vê-la antes de deixar a Alemanha.
Esperei quatro dias enquanto meu amigo tentava entregar a carta.
Por fim disse que não se atrevera a entregá-la porque ela estava sendo vigiada.
Disse para ele desistir. Receei que lhe acontecesse algo.
Sabia também que ele corria perigo enquanto eu estivesse na sua casa.
Decidi não esperar mais.
Meu amigo me trouxera dinheiro e roupas, então parti na manhã seguinte,
vestindo uma jaqueta de operário e uma caixa de ferramentas.
Pretendia deixar a cidade imediatamente, mas não consegui.
Não via a minha esposa há dois anos. Precisava vê-la mais uma vez.
Fui ao mercado onde meu amigo disse que ela comprava comida.
Não se vire.
Continue andando.
Fizeram alguma coisa com você?
Estão te vigiando?
Agora?
Vou partir para a fronteira.
Não terei como te escrever.
Tem que se divorciar de mim.
Tem que se divorciar!
Vá amanhã e diga que quer o divórcio por causa das minhas ideias políticas.
Diga que não antes você não tinha noção.
É para a sua segurança. Enlouqueceria se fizessem alguma coisa com você.
Tem que se divorciar. E te deixarão em paz.
Eu te amo, Marie. Te amo mais que qualquer coisa no mundo!
Não vou embora enquanto não me prometer.
Me entregarei se não prometer.
Promete?
Vou voltar agora. Passarei pela banca do açougueiro.
Siga andando e volte na minha direção. Só quero te ver mais uma vez.
Depois eu vou.
Se não souber de mim, significa que cruzei em segurança.
E então... eu vi seu rosto!
Três dias depois eu cruzei a fronteira.
Queria que tivesse algo que pudesse fazer.
- Que idade tem? - Dezenove, quase vinte.
Ora, ora. Quase vinte, hein? Parece piada.
Pois tire o maior proveito. Mas não procure favores.
Indivíduos ou nações, é tudo igual.
Contanto que estejam sãos e salvos, os outros que se danem.
E essa é a desgraça desse mundo.
Por isso o progresso é tão lento e os retrocessos tão rápidos.
Acredita?
Não.
Certo! Certo. Poderia ser pior, né?
Eu tenho uma esposa e você tem um pai. Eles ainda se importam conosco.
Enquanto tivermos uma pessoa que se importa, apenas uma,
está tudo bem.
Mas lembre-se do que te falei para ser forte.
E não procure favores.
- Quanto dinheiro você tem? - 12 xelins.
- Isto dará pra chegar a Praga. - Não.
Vamos, pega! Ainda tenho o bastante para mim.
Obrigado.
O que vai fazer com a polícia de Viena?
Não estou preocupado. Aquele jogador me ensinou alguns truques na prisão.
Tentarei juntar dinheiro bastante no jogo para comprar um passaporte falso.
E tem um policial que vou visitar.
Sim. Chama-se Kobel.
Boa sorte!
- A propósito, como se chama? - Kern, Ludwig Kern, anotarei pra você.
- Não, eu lembrarei. Meu nome é Steiner. - Eu sei.
Te escreverei. Posta Restante, Praga.
- Cuide-se - Tá certo. E obrigado.
- Até mais. - Até mais, Steiner!
- Quantas? - Duas.
Três.
Uma.
50.
Dobro.
- Posso dar uma olhada? - Não.
Dobro para cem.
Vejo.
Quatro reis.
Quatro ases.
- Vamos jogar outra mão. - Desculpe.
- Vamos jogar outra mão. - Outro dia.
Obrigado, senhor.
Deram mole dessa vez.
- Nada de briga, senhores. - É a última coisa que quero.
- Só vou sair. - Vamos com você.
Parem-no! Parem-no!
- Como vai? - Boa noite.
- É alemão, não? - Era.
Neste caso recomendamos um alemão morto, claro.
Não, senhor. Quero trabalhar aqui em Viena. Não poderia com um passaporte alemão.
Nesse caso, só sobra o austríaco Com ele você pode trabalhar.
E se alguém perguntar no repartição onde foi emitido?
Quem faria isso, a menos que se meta em confusão?
- 300 xelins. - Temos um preço fixo, 500.
Se fosse o passaporte alemão, poderíamos fazer um desconto.
Mas passaportes austríacos são difíceis. 500 é um achado.
- 350 é minha última palavra. - Isso é o que paguei à pobre família.
Essas coisas saem caro, meu amigo.
Pilhar algo assim, direto do túmulo?
Só pagando em dinheiro vivo. E muito.
É seu por 450. Perderemos dinheiro, mas gostamos de você.
Ah, eu também gosto de você. 400.
- Tem uma fotografia? - Sim.
Negócio fechado!
É válido por um ano.
John Huber.
Operário.
Uma troca justa, John Huber. Se os vivos não nos ajudam, sobra para os mortos.
Boa noite.
Boa noite, Sr. Huber.
Isso não pode continuar pra sempre. Faça-me esquecê-la, Senhor.
Eu tento e tento, mas a todo momento sei que está viva.
Marie, Marie.
Tenho que te esquecer. Tirá-la da minha mente, dos olhos, do sangue.
Esquecer. Esquecer!
Esquecer.
Esquecer.
Sente-se.
Está quente, não?
- Sim. Estamos no verão. - Sim, verão.
Ajude-me.
- Marie. - Veja só como está bêbado, meu bem.
Meu nome é Elvira.
Kobel... Kobel...
Alô, é você, Kobel? Aqui a delegacia de polícia.
Alguém está criando confusão na Avenida Elizabeth perto da rua Hammer.
É melhor ir logo.
Praga, 7km.
Praga.
- O que deseja? - Quero falar com alguém que mora aqui.
- Quem é? - Preferia não gritar pela casa afora.
- Gostaria de falar com Herr Kern. - Kern?
- Sim, Herr Sigmund Kern, sou Ludwig Kern. - Um parente?
- Sim, eu... - Não mora aqui.
Veja, não te culpo por suspeitar, mas quando o vir,
diga que o esperarei no Hotel Bristol o tempo que for possível.
E não deverá ser muito.
Não, não!
O que foi?
Ora!
Desculpe.
Devo ter me enganado de quarto.
- Ah-ha! - Pensei que fosse a polícia.
Entrei no quarto errado.
Com licença. Se importa se eu fumar?
Em absoluto, eu também fumo.
- Ah, por favor. - São dos mesmos que eu fumo.
São os mais baratos que existem.
É como se contássemos a história de nossas vidas.
Este lugar já deve contar.
- Está fora há muito tempo? - Há mais de dois meses.
Não é muito.
Para mim é.
Aprender esquecer é o mais difícil.
- Esquecer o quê? - O passado, tudo.
- Acha que é preciso? - Sim.
Acha possível?
Assim?
Obrigada pelo cigarro.
Aprender esquecer é o mais difícil.
Esquecer o quê?
O passado.
- Herbert. - Vamos terminar aqui.
- Herbert! - Para sempre, entendeu?
Há muito que queria te dizer isso Só não o fiz pra te poupar.
Herbert, sinto muito que tenha tido problemas por ter-me conhecido.
Olha os jornais, Herbert Bending tachado como profanador de sua raça!
De casamento marcado com uma judia!
- Eu também estou no jornal. - E daí?
O que importa? Que diferença faz para você?
Toda diferença, significa que terei que deixar o colégio.
Três anos de trabalho árduo jogados fora.
Tinha honra ao mérito em química, ia ganhar bolsa de estudos.
Bolsa de estudos! Quer comparar isso com minha carreira?
Você me arruinou!
Esse é o garoto com quem cresci, joguei, dancei, recitei poesias nas noites de verão?
Esse é o homem com quem me sentei ao luar e dizia me amar mais que a vida?
Não, nem de longe é um homem. Não passa de algo estranho e amedrontado.
Muito bem. Adeus, Herbert.
- Agora eu entendo. - Você não entendeu tudo!
Disse que esperaria por mim. Não precisa.
Não quero mais saber de você.
É uma pena que não está morta como seu pai e sua mãe.
Escrevi para esse jornal o que penso de você.
Agora você já sabe!
Sim, agora eu sei.
Acho que disse alguma coisa que te aborreceu.
- Não foi sua culpa. - Me desculpe.
- Por favor. - Escuta...
Queria saber se gostaria de ir ao cinema comigo hoje.
- Ao cinema? - Tive sorte hoje, ganhei quase 10 coroas.
- Não, eu tenho muito... - Não pode passar a noite trancada aí.
- É assim que passo todas as noites. - Mas não pode.
Que morbidez ficar ai com essas harpias.
O filme começa daqui a 10 minutos.
Vamos, não tem graça ir ao cinema sozinho.
Pega seu casaco.
Está melhor? Continuaremos o tratamento.
Foi uma semana maravilhosa. Mas não posso ficar. Tenho que ir para Viena.
Não pode adiar até seu visto expirar?
Me ofereceram um emprego num laboratório químico com um professor meu.
É minha chance para continuar os estudos.
- Eu entendo. - Não posso arriscar de perdê-la.
É, acho que não. Tenho um amigo em Viena.
Acabei de receber isso pela Posta Restante. Leia.
Garoto, tornei-me um grande trapaceiro no carteado.
Sou o orgulhoso detentor de um passaporte austríaco em nome de J. Hubert...
...e trabalho no parque de diversões de Prater, como adivinho, mecânico, anunciador e lava pratos.
Se vier a Viena, passe por aqui e me deixe ler seus pensamentos.
Abraços e à sua disposição com pratos limpos e quebrados. J. Steiner.
Um adivinho!
Quando encontrar meu pai talvez eu possa retornar a Viena.
Poderíamos nos encontrar lá.
- Quando você vai? - Depois de amanhã.
Então jantaremos amanhã à noite, hein?
Acho que temos o suficiente. Ah, sim! Para hoje também.
Queria que fosse uma noite feliz e aquele cara está estragando tudo.
- Por que ele fica olhando pra cá? - Acho que é um agente da Gestapo.
Não me importa quem seja, vamos pedir a sobremesa.
- O que você gostaria? - Apfelstrudel.
- Tá certo. - Se o dinheiro der.
Pode me dar duas fatias de apfelstrudel em troca disso?
- Apfelstrudel? - Hm-hmm.
- E dois cafés. - Você é cliente ou vendedor ambulante?
Acha que pode comer aqui sem pagar, acha?
Posso pagar.
Bem, amigo, só há uma solução para você, a polícia!
Um momento! Posso fazer uma pergunta?
- São exilados alemães, não? - Que lhe importa?
- Me venderá o perfume? - Não.
- Por que não? - Não tenho nada para vender.
Então faremos uma troca. Eu fico com o perfume
- ...e te darei a torta e o café. - Não entendo o que quer.
Sei que está desconfiado. Deixe-me explicar.
Moro em Berlim e preciso voltar.
Mas odeio o que acontece na Alemanha e me envergonha...
...o que estão fazendo com pessoas indefesas.
- Queria ajudá-lo se me permitisse. - Desculpe.
Pensei algo completamente diferente.
Posso imaginar.
Agora volte para a jovem, ela deve estar assustada.
- Desejo tudo de bom a vocês dois. - Obrigado. Muito obrigado.
- O que aconteceu? - Uau!
- O que é isso? - Ah... apfelstrudel.
Ei, será que posso pegar essa bomba de chocolate em vez do apfelstrudel?
Claro, tudo isso foi pedido para o senhor.
- Tudo? - Está tudo pago.
Tudo? Mas...
- Champanhe! Geladinho, senhor! - Hein?
- É da loja de vinhos ao lado. - Champanhe?
Ruth! Champanhe!
Os lilases floresceram.
Não fique triste.
Sei que às vezes não faço sentido.
Faz de conta que foi o champanhe.
Há pouco você estava tão feliz.
Gostaria de estar feliz.
Gostaria mesmo.
Não chore.
Queria que você não fosse embora.
Eu também.
De qualquer modo, ainda temos amanhã à noite juntos.
Sim, temos amanhã.
Kern!
- Sabe onde encontrar um médico? - Não.
- Já imaginava! - O que foi?
Suba ao quarto 18 e fique com aquela mulher até eu encontrar um médico.
Pronto. Conseguiram. Mais um tcheco no mundo.
Temos que brindar.
Ao maior mistério do mundo! O nascimento.
Sabe por que é um mistério? Porque depois a pessoa morre.
- Prost! - Prost!
Calem-se aí em baixo!
- Ninguém consegue dormir. - Fique acordada, vovó!
- Não sou avó! - Sorte dos seus netos!
Toma. Te fará bem.
- Você foi esplêndida. - Como estão as coisas, doutor?
O bebê vai ficar bem. Cuidaremos dele.
- Consegui dizer isso à mãe. - Ela não vai melhorar?
- Doutor! - Já vou.
Brindemos à beleza do mundo. Isso é indestrutível.
Mas nós não temos direito a isso, temos?
Nós refugiados não temos direito a nada.
Não podemos nos apaixonar, nem casar, nem ter filhos, nada.
Temos?
O que você acha?
Ruth.
Entre.
- A Srta. Holland? - Ela se foi.
Se foi?
- Hm-hmm. Para Viena. - Viena?
- Mas ela só ia amanhã. - Mas foi hoje. Faz uma hora.
Não deixou nenhum recado, um bilhete, nada?
- Nada. - Obrigado.
Ruth. Ah, Ruth... Achei que não chegaria a tempo.
Tem algo errado? Disse que iria manhã.
- Recebi mensagem para ir imediatamente. - Ah, entendi.
Do professor Meyer.
Isso é para você.
Vou te escrever, posso?
Para onde eu endereço?
Não tenho certeza. Posta Restante?
Todos a bordo!
Adeus.
Adeus.
COMITÊ DE REFUGIADOS
Soube que poderiam me dar informações quanto ao paradeiro de meu pai.
- Nome, por favor? - Kern, Sigmund Kern.
Causa da morte: Suicídio.
E agora, senhoras e senhores, convido-os a passar por essas portas...
...e compartilhar conosco os segredos da mente humana!
A maior proeza de clarividência jamais apresentada.
É estupendo, é colossal!
Ele lerá seus pensamentos mais íntimos como um livro aberto.
Não se privem dessa oportunidade de presenciarem ao vivo um milagre,
um mistério que desafia as leis da natureza. Um poder que nega os sentidos.
Uma força que une um átomo com a estrela mais distante.
O jovem não acredita em mim. É um cético. Se escarnece.
Suba aqui. Vamos.
Sua mente não é um mistério para mim, eu garanto.
Ah, sim. Sensível, tímido, pouco comunicativo,
mas detecto uma centelha de assertividade, um sinal de autoconfiança,
um tino especial para escolher amigos.
E uma cabeça aturdida que só pode ser curada com um bom prato.
Entrem, meus amigos, entrem!
Comprem seu ingresso ao entrar a um preço tão baixo que me envergonha dizer.
- Como está, garoto? - Steiner!
Não! O nome é Huber! Nada de perguntas nem respostas...
até encher esse vazio debaixo do cinto. É logo ali.
Me encontro contigo assim que terminar o espetáculo.
Escrevi para a Posta Restante pedindo seu endereço.
Mas ela ainda não respondeu.
Não se preocupe, você a encontrará. Potzloch!
O que foi?
- Precisamos de outro assistente. - Um dos seus amigos, imagino.
Bem, quanto ele quer?
- 30 xelins e alojamento. - 30 xelins?
Quem ele pensa que é? Uma estrela de cinema?
Quer me arruinar, Hubert?
Quer receber para morar aqui sem perguntas?
- Aceito trabalhar sem salário. - Bem, aí é diferente.
É assim que se torna milionário.
Só os humildes vencem na vida. Mas você não conhece Leopold Potzloch.
O último dos filantropos. Você receberá 15 xelins por mês.
- Aceito. - Muito bem, muito bem.
Vou te mostrar teu trabalho.
Esse é nosso carrossel. Seu trabalho é varrê-lo.
Mas a maior parte do seu trabalho será no estande de tiros.
Terá que ajudar a Lilo a carregar os rifles.
- Lilo, este é Ludwig Kern. - Fräulein.
Lembre-se, as pessoas gostam de ganhar. Nosso lema é: ganhou, levou.
Mas nunca ganhar mais do que levar.
Tem razão. Vê aquele prêmio? É nossa atração.
É um objeto particular. Tirado da minha própria casa.
Ganha-se com uma pontuação de 60. É um bem de família.
Imagine só!
Uma bem de família numa época sem tradições.
Sabe o que é... Claro que não.
Mas lembre-se disso: nem morto pode deixar alguém fazer 60 pontos.
Só de pensar me dá arrepios. Minha esposa me mata se eu perder aquilo.
Sim, mas como evitar se o cara for um bom atirador?
Isso a Lilo te ensinará.
Se alguém parecer bom demais, você carrega uma bala mágica de Potzloch na arma.
A ponta é enviesada, percebe?
- Mas não deixe que ele veja! - Lilo te ajudará se a situação apertar.
- Vou mostrar onde dormimos. - Se incomoda se eu for antes ao Correio?
Claro, claro. Não perderia um minuto se fosse você.
Amor.
Alguma coisa da Srta. Ruth Holland?
Escrevi pra ela e queria saber se recebeu minhas cartas.
Deve ter recebido. Foram enviadas.
Obrigado.
Srta. Holland.
- Srta. Holland. - Ah, Professor Meyer.
Tem algum amigo fora da Áustria a quem possa recorrer em caso de necessidade?
Tenho uma amiga em Zurique. Poderia procurá-la.
Sinto muito. Sinto muito mesmo, mas não tenho como evitar.
Tenho que ir porque não tenho passaporte?
É uma vergonha. Está fazendo um excelente trabalho, estou muito satisfeito.
- Devo ir já? Hoje, amanhã? - Não, talvez em alguns dias.
Uma semana. Caso contrário, não seria seguro para nenhum de nós.
Senhoras e senhores!
Entrem e vejam a maior coleção de animais adestrados conhecida pela humanidade!
Vejam Alexander, a pulga escarlate em seu número...
Pode me dizer onde posso encontrar o Ludwig Kern?
- Como? - Sabe onde posso encontrar Ludwig Kern?
É selvagem, é temperamental, e se balança num trapézio!
Não sei quem é. Procure o Sr. Potzloch.
- Dispara uma arma e nada se move! - Onde posso encontrá-lo?
Vi-o há pouco perto do carrossel. Alexander!
Estava aqui há pouco, tente no estande de tiro.
Obrigada.
- Ruth! Como fico feliz em te ver! - Eu também.
- Eu escrevi e escrevi... - Sim... eu também te escrevi.
- Mas nunca recebi nada. - Eu sei. Mas é que... eu não...
Ei, ei! O que é isso? Por que não está trabalhando?
Sr. Potzloch, quero te apresentar uma grande amiga minha, a Srta. Holland.
Olá.
Ei, não adianta. Não precisamos de mais assistentes.
Não, não é isso. É que não nos vemos há muito tempo.
Ah, é só isso? Bem, acho que estou entendendo.
Bem, está liberado.
Dê uma volta por aí. Mostre tudo, todas as atrações.
Com o uniforme te deixam entrar de graça.
Anda, vá, divirtam-se. Vá, vá.
- Ora! - Muito bem!
Mais 4 tiros e consigo os 60 pontos pra ganhar o grande prêmio.
24!
Dois em seguida!
Muito bom!
- 43! - Pode ir dando adeus ao prêmio.
- 56. - Oh!
O que aconteceu?
A mão deve ter tremido. Tente de novo. Dê outra chance a ele.
- Ganhou uma cesta de piquenique. - Espera aí!
Tem algo errado aqui. Dei um tiro perfeito daquela vez.
Bem, talvez tenha tremido. É a mesma arma.
Um sargento da polícia não treme. Sei como atiro.
Tem algo esquisito nisso, fez alguma coisa com aquela bala.
- Deixe-o tentar de novo. - Que tal entrarmos num acordo?
- Huh? - Sim.
- Que tal começar de novo com cinco tiros? - Por que faria isso?
- Não, não faça! - Assim não vale.
Um homem simpático como você pode atirar tão bem na segunda vez.
É o melhor atirador que tivemos aqui há anos.
Sua esposa não precisa ficar temerosa.
- Não tenho esposa. - Isso porque não quer.
Eu te conheço de algum lugar.
- Há quanto tempo está aqui? - Isso não é da sua conta.
- Tem seus papéis? - Claro.
- Mostre. - Estão no vagão, eu...
- Vamos dar uma olhada no vagão. - Que direito você tem de me interrogar?
Ludwig! Ele tem razão. É um policial, tem esse direito.
Deixe-me pegar seu passaporte.
- Se me acompanhar, senhor. - Ah, entendi. Se acha muito espertinha, né?
Pois não se meta, sua judiazinha de merda.
Ultrajante!
Apelo a você! Isso é justo? Duas semanas na prisão...
quando tenho um frango assado na minha mala.
Estará estragado quando sair daqui.
Eu nunca como frango.
- Mas eu gosto... - De uns ovinhos.
Será possível? Ovinhos! E o "frango".
- Lembra de mim? - Se lembro de você?
É o "garoto"! Ora, ora!
Ei, onde está o louco do Steiner?
Ele está bem.
Você não me parece muito bem.
- Quem bateu em você, hein? - A polícia.
Ah, garoto, garoto, já era hora de aprender a se defender.
- Antes pudesse. - Olha!
Olha.
- Você é lutador? - Às vezes não sou ruim.
- Ei, você me ensina? - Mais tarde quando se sentir melhor.
- Não, agora mesmo! - Ambicioso, hein?
Esquece as mãos. Comece com os pés. Relaxa com os pés, assim.
Viu?
Assim, não. Não pode acertar com o corpo.
Tente me acertar e veja se acerta.
Sobrou pra mim, hein?
Silêncio aí! Isso não é clube noturno. Qual de vocês é Kern?
Uma mulher pra te ver.
- Pensou que era a Ruth. - Sim.
- Deportaram a Ruth. - Deportada?
- Sabe para onde? - Deixou isso para você.
Obrigado.
- Está na Suíça. Em Zurique. - O que foi?
O jeito como ela escreve. Parece uma estranha. Como se dissesse...
- "Se interessar, este é meu endereço." - Isso não basta?
Não. Soa como se não quisesse me ver de novo.
Talvez tenha achado que estaria melhor cuidando de sua própria vida.
Mulheres são assim, sabia?
Quando sair daqui, acho melhor ir para Zurique.
Eu concordo. Steiner e o Sr. Potzloch também.
Steiner quer que você lhe escreva.
Diga-lhe adeus por mim, hm?
Diga que... estou ficando forte.
Eu direi.
Adeus, Lilo.
Adeus.
Ludwig!
Entra.
Ludwig, entra!
Parece um zumbi.
Não tem ninguém. A família viajou para o fim de semana.
- Família? - Silvia e seus pais.
Silvia era minha colega de escola.
Entendi.
- Deixa eu te ver. - Estou bem. É você que me preocupa.
- Eu? Por quê? - Por quê?
Por que não escreveu?
- Tinha medo. - Por que teria medo de mim?
Como posso explicar?
É que... pessoas como nós, exilados...
Sei que parece tolice. Mas sempre que me decido que é tolice...
...algo acontece. Acontece sim, Ludwig.
Então decidi que devia ficar sozinha! Sozinha com meus livros e estudos.
Como se estivesse num laboratório, remota e impessoal como a ciência.
Sem me preocupar com qualquer outro ser humano.
Foi isso o que pensei, Ludwig.
Entendo que quisesse fazer isso.
Mas não pode, sabia?
Acho que por pior que estejamos, quanto menos tivermos,
mais importante se torna encontrar companheirismo.
Se houver alguém que você gosta, uma que seja,
e ela também gosta de você, não é tão ruim assim.
Ruth, Ruth, não devia continuar lutando tanto contra ser feliz.
Não olhe para mim. Por favor, não olhe...
Tudo bem, querida.
Nossa! Aquilo não pode ser eu! Pareço um maltrapilho, um espantalho.
- Vou preparar um banho pra você. - Hm? Um banho?
- Com sabonete, ducha e tudo? - E depois, jantar, café e conhaque.
Que maravilha! Só fica faltando uma roupa decente, hein?
Pode usar o paletó do Sr. Newman. Vai parecer um sobretudo.
Posso usar um vestido da Silvia, que tal?
Claro! Puxa, há anos que não vejo nada igual.
Entra bichinho, sai bichinho...
Bichinhos escorrendo pelo nariz e queixo...
- Você está linda. - Não sou eu, é o vestido da Silvia.
Não, você também está linda!
Parece... parece uma avelã.
O quê?
Sei lá... mas tem a ver com avelã.
Algo a ver com você, Ruth.
Como esse vestido combina com os olhos e seu cabelo!
- Tudo em você brilha. - Um torrão ou dois?
Um, por favor.
Para qualquer outra pessoa isso poderia ser uma noite banal,
mas para mim é como...
Ruth, você acha que algum dia teremos algo parecido?
Uma casa com dois ou três quartos, o direito de trabalhar e morar pra sempre?
Não sei. Não posso imaginar.
Então, aguarde. Em cinco ou dez anos terá vestidos como esse toda noite.
E eu serei um famoso cirurgião vestido de fraque.
Com diplomas de cidadão honorário em cada bolso.
À sua saúde, Ruth.
À sua saúde, Ludwig.
- Pode colocar música? - Claro.
Que estação é essa?
De Paris.
- Vou tentar ir a Paris. - Por quê?
Não posso ficar aqui, tenho que continuar me deslocando.
Se lembra de Leo Marrill em Praga?
- Sim. - Está em Paris.
Disse que é fácil conseguir visto de trabalho de permanência em Paris.
- Ludwig. - Sim?
Quero ir com você.
- Não. - Podemos sair amanhã.
- Ruth, vão sabe como é a vida na estrada. - Não me importo!
Ademais, minha presença aqui está criando embaraço aos Newman.
O porteiro ameaçou falar de mim para a polícia.
Mas por quê?
Você não faz ideia como alguns homens se comportam...
...diante de uma mulher pretensamente indefesa.
- Então o porteiro... - Não seja bobo.
- Que horror! - Não. Apenas cansativo.
Certo.
Então iremos juntos.
De agora em diante, cuidarei de você.
Sim.
NAZISTAS INVADEM A ÁUSTRIA
- Não vai levar suas coisas? - Não. Chamaria a atenção.
Importante é não chamar atenção. Só ser rápido mas não demais.
Bem, então façamos o seguinte. Vou comprar suas coisas.
- Obrigado. - Não me agradeça, vou lucrar com isso.
Bem. Sabe...
- Odeio esse tipo de despedida. - E eu também.
É apenas questão de rotina, mas entre mim e você, é a pior coisa do mundo.
Tudo acaba virando rotina.
Conheço um homem que perdeu quatro esposas nos últimos dez anos.
Agora se casou com a quinta, e também já está doente.
Não é preciso dizer que já está procurando a sexta.
É apenas questão de rotina.
O que acontecerá se for pego?
Estaria melhor morto.
Adeus, Lilo.
Fiquem onde estão!
Vai se arrepender disso, sabia?
ATENÇÃO TODOS OS POSTOS DE FRONTEIRA!
DETENHAM ESTE HOMEM RECOMPENSA POR SUA CAPTURA: 5.000 XELINS
- Bom dia. - Hm.
Agradeceríamos se nos deixasse descansar ali por um dia.
Para onde estão indo?
Estamos tentando alcançar a fronteira francesa. Nós...
- Está resfriada. - Pegou uma gripe na chuva ontem à noite.
- Podem ficar se desejarem. - Obrigado, muito obrigado.
- Mas não acendam o fogo. - Pode deixar.
Melhor tirar essa roupa molhada e vestir alguma coisa seca.
Vamos dormir bem agasalhados.
Vem.
Depois vou à cidade tentar vender alguma coisa.
Tome cuidado, Ludwig!
Só o suficiente para comprar comida, não se preocupe.
Fique quentinha e descanse.
Ludwig.
Herr Ammers.
A criada disse que você é um exilado alemão.
- Sim, senhor. - Não tem passaporte?
Não, senhor.
Bem, minha esposa pode dar uma olhada nas suas coisas.
Sim, senhor.
- Desculpe. - O que você vende?
- Quanto? - 30 centavos, Frau Ammers.
- Quanto? - 60 centavos.
- Quanto? - I franco e 80.
Quanto?
Bem, já dei o preço disso, Frau Ammers, 30 centavos.
Vou ver o que minha irmã diz.
- Quanto? - Já dei os preços para Frau Ammers.
Talvez prefiram pensar melhor até amanhã.
Gostaria de uma xícara de café?
Sim, sim eu gostara, se já tiver preparado.
Sim, certamente. Será só um minuto.
Uma xícara de café cairá bem. Não tomo café há algum tempo.
O café está muito quente. Não tenha pressa.
Beba com calma.
Aí está, oficial. O homem sem passaporte banido do Reich.
Prenda-o.
Venha comigo.
Gostaria de vê-lo novamente só por 10 minutos, 5 minutos, 1 minuto.
- Ouviu isso? - Ele ainda não o agrediu.
Apenas manifestou seu desejo de encontrá-lo novamente.
Siga-me.
Não sabe quem ele é, rapaz? É o espião local do partido nazista.
- Como eu sou idiota. - De carteirinha!
Escuta, oficial, tem alguém me esperando.
Isso não é problema meu. E deixe eu te avisar.
Se tentar escapar, terei que pegar minha arma.
Mas isso levaria tempo. Então talvez... talvez fosse melhor algemá-lo.
Onde foi que eu coloquei a coisa?
Obrigado.
Congestão do pulmão direito. Tem que ir para o hospital.
Não, não posso ir para o hospital. Não podemos pagar um hospital.
Esqueça o dinheiro. Seu estado é grave.
É o melhor a fazer. Vista-se. Tenho cobertores no meu carro.
Não temos escolha, querida.
Onde você vai ficar enquanto eu estiver fora?
Vou ficar aqui.
Como nos veremos? Não pode ir ao hospital, vão te prender.
Todas as noites estarei em frente ao hospital olhando a sua janela.
- Será como se te visitasse. - Quando?
Às nove.
- Como saberá qual é a janela? - O médico me dirá.
Estará escuro às nove. Não poderei te ver.
Só posso ir depois que escurecer.
Não, não, não deve ir de jeito nenhum.
Eu irei. Agora se vista.
Não se preocupe.
Vamos, precisa ser corajosa.
Estou com medo. Não quero te deixar. Receio que algo te aconteça.
Ficarei bem.
Está pronta?
Até logo.
Sorria pra mim, rápido.
Não me esqueça. Me ame.
Muito bem. Vamos andando.
Não consegue me ver.
O que está fazendo?
Ah, nada. É apenas uma piada inocente, nada mais.
Um momento. Você conhece Herr Ammers?
- Não. - Talvez ele conheça você.
Temos uma queixa na delegacia que se encaixa perfeitamente com você.
Vamos, para cima, Ammers. Vou te arrebentar.
Isso só me faz mais forte.
E toma! E toma!
Vamos, levanta, Ammers.
É nisso que dá mexer com pobres refugiados.
- Então, velho Steiner? - Belo trabalho!
- Não te ouvi. - Estava lutando muito bem.
- Como ela está? - Bem. Tudo normal.
Te trouxe uma coisa.
Vamos, leia.
Não, lerei mais tarde.
Não quer ler antes de eu ir?
Não, agora não. Não tão rápido. Não tenho nada pra fazer o dia inteiro.
Entendo. Bem, estou indo para o hospital agora.
- Tem algo para eu levar? - Daqui não dá.
Mas daria um recado a ela por mim?
Diga que esperarei todo o dia à tarde nos Correios de Genebra.
No guichê da Posta Restante.
- Entendeu? - Claro.
- Ah, e diga que eu... que eu... - Isso ela já sabe. Mas eu direi.
Obrigado.
Recupere-se rápido, querida, pois estarei lá esperando por você.
Keln, Kelton... Nada para Kern.
Ruth, é você, é você! Há quanto tempo está aí?
- Desde esta manhã. - Estive esperando e esperando,
indo e voltando da França.
Agora podemos tentar entrar na França hoje à noite.
Os dois quartos custam 20 francos, com as refeições.
Dá pra viver assim uns 10 dias. Mas até lá conseguirei trabalho.
Paris! A cidade do glamour.
Dá pra ver a Torre Eiffel... se ficar na posição certa.
- Professor Meyer! - Estamos olhando a Torre Eiffel?
- Ora! - Marrill disse que tinha chegado.
Todos fugindo, hein? Primeiro me expulsaram da Alemanha, depois da Áustria.
Mas nunca me pegarão em Paris.
- Marrill. - Professor Meyer, esse é Herr Kern.
- O que está fazendo, Professor? - Corrigindo provas. Escondido, claro,
para um amigo meu que ensina química na Universidade.
- Gostaria de assistir às suas aulas? - Adoraria!
- Se conseguir algum trabalho. - Não encontrará trabalho algum, isso é certo.
Não agora.
- Como assim? - Não pode trabalhar sem uma licença.
Me disse que era fácil obter uma na França.
Isso foi antes da invasão da Áustria. Desde então, a França está apinhada de refugiados.
Agora está mais difícil.
Não tem nada que valha a pena vender.
- Podem ir se vestindo. - Já estamos prontos!
Garoto!
Chame seus amigos. Vamos celebrar.
Ah, frango!
Frango.
- Olha ele cortar. - Isso, corta, corta, corta.
Dá licença.
Que isso? Vai parar no quarto frango? Cadê teu apetite?
Não consigo!
Tragam a sobremesa!
- Ela é muito bonita, não é? - Sim.
E uma ótima estudante. Devia se matricular na universidade.
Por enquanto dá pra ir levando, não?
Mas quanto tempo poderá continuar sem documentos?
Um dia desses acabarão presos e...
- O que se há de fazer? - Casar.
- Mas não temos documentos. - Não é isso.
Casar-se com um francês.
- Sim, seria o ideal, mas não é possível. - Engana-se. É possível.
Durant se casaria com ela. Ele mesmo me disse.
- Quem? - Durant. É verdade, você não conhece.
Um professor na universidade. Bom homem, de excelente família.
Acho que o seu tio é senador. Está loucamente apaixonado por Ruth.
Talvez não devesse ter-lhe contado isso.
Claro, claro... somos pessoas sensatas. É que...
- Qual é seu nome completo? - François Durant.
Ei... você estaria...
Ah, não, não. Quer dizer, se tiver que ser assim, tudo bem.
Tudo bem.
- Tudo estaria resolvido. - Engraçado, pensei que...
Mas, se é assim que pensa, seria maravilhoso para ela.
Realmente maravilhoso.
- Conhece Françoise Durant? - Sim.
- Por quê? - Você gosta dele?
- O que quer dizer? - Exatamente isso.
- Gosta? - Meyer!
A primeira vez que fica bêbado e que hora que escolheu.
Não estava tão bêbado assim.
- Venha já aqui! - Não estou brincando, é sério!
Se não vem, eu vou até você.
- Vamos, o que foi? - Deve se casar com ele.
- O quê? Que foi que você disse? - Deve se casar com ele!
Pobrezinho, que coisas mais loucas passam pela sua cabeça.
Mas precisa! Casamento não é uma questão de vida ou morte,
mas ter ou não ter passaporte é.
- Não perca essa oportunidade. - Outra igual talvez nunca apareça.
- Não está me levando a sério. - Claro que não, do jeito que está falando!
- Eu? - Claro! Dá ouvidos a um bêbedo...
...e decide bancar o herói livrando-se de mim.
E eu não conto? Nem sei o que dizer!
- Por quê? - Porque eu te amo, idiota!
É só você que eu amo.
Agora você acredita?
Desculpe. Sei onde conseguiremos trabalho amanhã.
- Trabalho? - Trabalho em construção, sem perguntas.
Toca aqui, Steiner.
Nada mau.
Não é uma lindeza. Comprei em Les Halles, o melhor de Paris.
Diga-me, conhece alguém chamado Steiner?
- Huh? - Conhece o Steiner?
Isso te interessa?
Quem quer saber que fim levou Steiner?
- Você é o Steiner? - Não.
- Por quê? - Tenho uma carta para você.
É da Alemanha.
- Obrigado. - De nada. Ainda bem que te encontrei.
Tenho outras cartas que não foram entregadas há anos.
É sobre a minha esposa.
- Leia. - Não, fique aqui comigo.
Está no hospital.
Há 10 dias ainda estava viva.
Que hospital?
Disseram?
- Sim. - Então vamos ligar para o hospital.
Com um nome falso.
- O que foi? - Ela foi operada.
Esta desenganada.
O médico diz que tem três ou quatro dias no máximo.
- Eu irei hoje. - É perigoso demais.
- Tenho um passaporte austríaco. - Estará perdido se cruzar a fronteira.
Se ela morrer estarei perdido de qualquer maneira.
Isso não é verdade. Pode parecer desalmado,
mas acho que você devia escrever, telegrafar, qualquer coisa.
Mas fique aqui.
Não poderá ajudá-la mesmo que vá para lá.
Poderei vê-la.
Ela ficará horrorizada se você for.
Se lhe perguntasse, ela faria de tudo pra impedir que fosse.
Preciso vê-la.
Marie.
Minha esposa. Está viva.
Seus olhos ainda estão lá, e seus pensamentos.
E eu ainda estou lá, dentro daqueles olhos.
Em alguns dias ela estará morta.
Não restará nada dela. Estará lá deitada... e não será nada.
Mas agora...
Agora ainda está viva por mais alguns dias. Os últimos.
E não estaria com ela.
Não há outra solução.
O mundo está acabando. Se não a vir, estarei liquidado.
Morrerei com ela.
Não há nada que eu posso dizer, nada que possa fazer para que entenda?
Sei quais são os riscos.
E mesmo que fossem mil vezes maiores, ainda assim tomaria aquele trem.
Nada me pararia.
Consegue entender isso?
Sim.
Se não voltar em 10 dias, dê isso para os jovens.
Vou deixar vocês três sozinhos.
- Boa sorte. - Obrigado.
Bem, crianças...
De certa forma, sempre imaginei que seria assim.
Adeus, Ruth.
Até logo, Kern.
Às vezes as coisas acontecem devagar.
Outras vezes, rápidas demais.
Volte logo!
Nós... não podemos fazer muito por você, mas...
tudo o que somos é seu.
- Sempre. - Todos a bordo!
Cuidem-se.
Oh, Marrill. Você viu Ludwig? Ele sempre chega às seis,
não sei o que pode ter acontecido!
Vim para lhe dizer que o levaram assim que estava largando o trabalho.
Mandaram-no para prisão de Maubeuge na fronteira,
para onde deportam estrangeiros.
O que você esperava?
Pegaram-no trabalhando quando não há emprego nem para seu próprio povo.
Toma.
Ele te escreveu uma carta.
Ele diz...
...que não conte com sua volta à França.
- Quer que eu... - Se case com o Durant. Sim, ele me disse.
Significaria tudo para ele saber que está segura e bem tratada.
- Bem tratada? - Sim, bem tratada!
Hoje em dia isso é muito para gente como nós!
Pode se sentir infeliz por um tempo, só isso.
Não desistirei dele.
Isso não é uma resposta, é uma solução!
Quando for tarde demais, verá que soluções são coisa da cabeça não do coração.
Cabeça e coração! Pois fique sabendo.
Antes de conhecê-lo eu me sentia uma velha, desconfiada de tudo.
Ele me fez jovem de novo, voltei a sorrir. Estava desesperada,
sem fé, sem bondade e humanidade. Ele me animou e me encheu vida.
Fez isso com sua sinceridade instintiva. Com seu amor, se quer saber.
Nem essa carta em que ele renuncia a mim consegue derrubar seu ceticismo, Leo?
Não significa muito mais que toda essa conversa de sentimentos nobres,
êxtase e todas essas baboseiras?
Sei que você é bem intencionado, Leo,
que ele lhe mandou dizer isso tudo e amo ele por isso.
Mas ele me pertence e eu pertenço a ele.
- Claro! E o que pretende fazer? - Vou tirá-lo de lá!
Mas seu sobrinho me garantiu que tinha influência.
Meu sobrinho está enganado. Eu entendo seu problema,
mas não posso fazer nada pelo Sr. Kern.
Se me permite, tenho um compromisso.
Se recusar me ajudar, se arrependerá.
Como assim, senhorita?
Ou me ajuda a tirar Ludwig Kern da prisão, ou me casarei com seu sobrinho.
Que tolice. O casamento de François está arranjado há anos.
Ficaria convencido se o chamasse e ele mesmo lhe dissesse?
Por favor!
Percebe que isso é chantagem?
Usar o meu sobrinho!
Bem.
Parece que terei que ajudá-la, queira ou não.
Conseguir um visto para você é simples.
Mas seu amigo foi preso. E fazer algo por ele será muito será muito mais difícil.
Marie, Marie, Marie, Marie, Marie...
Marie, Marie, Marie, Marie, Marie...
Seu passaporte, por favor.
- Nome? - John Hubert.
- Idade? - 43.
- Data de nascimento? - 29 de janeiro de 1894.
- Onde? - Krems an der Donau.
- Por que viaja para a Alemanha? - Vou visitar a família.
- Vive em Paris? - Não, em Gratz.
Fui a Paris visitar um parente.
Quanto tempo pretende ficar na Alemanha?
- Duas semanas. - Tem dinheiro?
- Sim. 500 francos. - Anotarei isso no seu passaporte.
Traz algum jornal, revista ou livro consigo?
Não, nada.
Obrigado.
Quero o Quartel General da Gestapo em Munique, rápido.
Com que propósito voltou para a Alemanha?
Queria ver a minha mulher antes de morrer.
Com quais dos seus amigos políticos se encontrou aqui?
Nenhum.
Seria melhor que me dissesse antes de ser sentenciado.
Eu já disse, nenhum.
Sob instrução de quem você voltou aqui?
Não recebi instruções.
A que organização política estava filiado no estrangeiro?
- A nenhuma. - Então como vivia?
Com o dinheiro que ganhava. Como vê, tenho um passaporte austríaco.
Você será transferido esta tarde.
Gostaria de pedir algo.
Não é muito, mas é importante para mim.
Minha esposa ainda está viva.
O médico diz que tem no máximo dois ou três dias de vida.
Pessoalmente, não espero compaixão ou favores de qualquer natureza,
mas gostaria que minha esposa morresse em paz.
Imploro que me permitam ficar aqui um ou dois dias.
- E permitam-me visitar minha esposa. - Nada feito.
Não posso dar-lhe oportunidade para escapar.
Não escaparei! Se alguém vigiar a porta, não terei como.
Não peço isso por mim, mas por uma mulher moribunda.
Impossível! Não tenho autoridade para isso.
Tem essa autoridade!
Pode usar a desculpa de que posso passar à minha esposa alguma informação lhe interessa.
Você providenciar uma enfermeira de confiança para escutar o que fosse dito.
Tolice!
Sua mulher não dirá nada. Nem você a ela.
Claro que não! Ela não sabe nada.
Mas morreria em paz.
Coronel. Já interroguei esse homem sobre o caso do grupo 4.
Ele recusou-se a dar o nome dos membros.
Tenho certeza de que não há jeito de fazê-lo falar, exceto um.
- Tenho sua permissão? - Prossiga.
Se conseguir que possa visitar sua esposa por dois dias,
você me dará o nome dos outros membros do grupo 4?
Sim.
Então diga.
Me dará dois nomes amanhã... e o resto no dia seguinte?
Darei todos os nomes... depois de amanhã.
Verei o que posso fazer.
Sou eu, Marie.
Josef!
Me segure, Josef!
Quero sentir que realmente está aqui.
Eu... sabia que não podia vir. Mas esperei por você o tempo todo.
E agora eu vou ficar com você.
Não pode ficar!
- Deve ir imediatamente, Josef! - Não tem perigo.
Mas é perigoso!
Não sabe como tem sido.
Não vou durar muito mais.
Mas agora que te vi...
...conseguirei encarar isso sozinha.
Vá embora, por favor.
Providenciei tudo... para poder ficar aqui, Marie.
Haverá uma anistia, e eu serei contemplado.
É verdade, eu juro, meu amor.
Ninguém precisa saber que estou aqui. E mesmo se souberem, não faz mal.
Você não se divorciou de mim.
Como poderia?
Era para a sua segurança.
Para que ficasse mais fácil para você.
Não foi tão ruim.
As pessoas me ajudaram.
Por isso tenho este quarto.
Tem sido melhor ficar sozinha...
...porque você estava comigo.
Precisa ir agora.
Amanhã eu volto.
Gostaria de poder me levantar.
E ir embora com você.
Logo agora que podia ficar com você...
...eu tenho que ir.
Por favor, não fique zangado comigo.
Você realmente abusou de minha gentileza, Steiner.
Me fez esperar aqui mais de três horas.
Mas afinal de contas, valeu a pena a espera.
Agora terei tempo de sobra com você.
O resto da sua vida, amigo.
E dentro de instantes você me dirá aqueles preciosos nomes conforme prometeu.
Direi agora.
A única pessoa que pude ajudar fui eu mesma.
Do que adianta este visto se não conseguir um para Ludwig?
Estou tão preocupada. Qualquer dia desses vão deportá-lo e ele desaparecerá.
- Talvez nunca mais o encontre. - O que diz o advogado de Durant?
Diz que algo pode ser feito para ajudar Ludwig, mas é preciso dinheiro.
Muito mais do que temos.
Você tem o suficiente... eu acho.
Está muito enganado, Leo.
Infelizmente não.
Não depois de hoje.
Espero chegar antes que o deportem.
Tem tempo de sobra. Na verdade o dia inteiro.
Eles nunca os fazem cruzar a fronteira antes de anoitecer.
- Boa sorte! - Obrigada. Adeus!
Será levado à fronteira Suíça. Entenda bem que não pode voltar.
Assine aqui.
E trate de não voltar.
Não se preocupe, não voltarei.
- Maquinista, o que aconteceu? - Uma avaria.
- Quanto tempo ficaremos aqui? - Uma hora talvez.
Kern... Kern...
Ah, estão levando-o para a fronteira.
- Agora? - Agora.
Onde ele está? Onde ele está, por favor?
- Onde está quem? - O prisioneiro Ludwig Kern.
Olha! Me ajude a trazê-lo de volta, por favor!
Se ele for nunca mais o verei! Vou perdê-lo!
Ah, entendi. Coisas do coração?
Não se preocupe, mademoiselle. Corra atrás dele e traga-o de volta, rápido!
- Sim, senhor. - Corre!
É uma surpresa, não é?
- É realmente uma ordem? - Com certeza. Minha felicitações.
Que isso?
Olha, com este pedaço de papel eu me torno uma pessoa respeitável,
um homem livre que pode fazer o que quiser, não é?
Com certeza.
- Não acha estranho? - O que tem de estranho?
Ontem eu era o mesmo homem que sou hoje, mas ontem tudo era proibido, ilegal.
Ontem não, anteontem. A data de seu visto é de ontem.
Tudo bem, anteontem! Anteontem a minha existência era um crime...
e hoje posso respirar, dormir, viver em paz e está tudo bem!
- Não acha estranho? - Nem um pouco. Acho muito normal.
Tem direito a viver, por escrito, carimbado e assinado.
Logo. Tudo nos conformes.
Vamos, vamos, sua garota está esperando.
O dinheiro é do Steiner.
Ele disse ao Marrill... que queria nos ajudar a ficar juntos.
- Tem um cigarro? - Tenho.
Toma.
Ele não teve medo.
Não teve medo de odiar o mal.
De viver com dignidade... e de morrer para mantê-la.
Será mais fácil agora. Temos documentos, podemos ir aonde quisermos.
Podemos ir para o exterior, pra América do Sul, talvez...
Talvez até para os Estados Unidos.
Estados Unidos.
Mas a primeira coisa que faremos é nos casar.
Entendeu? Nos casar!
Talvez não tenhamos um lar por um tempo, mas estaremos juntos.
Isso é um lar, meu amor.
- Legendas - Luís Filipe Bernardes
Can't find what you're looking for?
Get subtitles in any language from opensubtitles.com, and translate them here.