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Original subtitles

DESERTO DO THAR, PAQUISTÃO

Vamos, vamos.

Vamos.

Vamos.

Aqui jaz o Homem Sem Rosto.

Aquele que faz existir.

Cuidado.

Quem é?

Ele tem muitos nomes.

Alguns o chamam de...

Indra, Zeus...

Odin, Javé.

Isabel, Areta...

espero que ao lerem esta carta...

entendam as razões pelas quais me afastei de vocês.

Se não fosse assim...

eu nunca teria encontrado o valor de fazer isso.

Quero que saibam que saber que estão bem...

foi o que me deu coragem para ir em frente todos esses anos.

Eu gostaria de compartilhar isso com vocês.

O que descobri me transformou profundamente.

Tenho certeza de que posso mudar a maneira de pensar das pessoas.

Mas agora...

parece que cheguei ao fim da viagem...

e uma tempestade nos impede de continuar o caminho.

É irônico. Parece que a mesma força...

que me levou a descobrir a identidade de Deus...

é a mesma que quer que esse segredo continue sepultado...

mais cinco mil anos debaixo desta areia.

Seja feita a vontade...

de Deus.

Veja!

Ei! Venham, venham!

Andem, vamos!

Cave aí!

Cave, vamos! Rápido.

Assim!

Beba um pouco.

CIDADE DO MÉXICO

O senhor tem outro documento? Seu passaporte está vencido.

Isto é do consulado. Fiquei dez anos fora.

O que estava fazendo no Afeganistão?

Procurando alguém.

O que tem aí?

Deus.

Quer que eu mostre?

Tudo bem.

Obrigado.

DOUTOR HONORIS CAUSA

Tome.

Sua água.

Devagar, isso.

Meu Deus.

Não entendo.

Como isso aconteceu?

Há dois anos, estávamos em Cuernavaca com amigos.

Ele se sentiu mal e foi deitar.

De manhã, ele começou a falar estranhamente.

Achei que fosse alemão ou francês.

Ele não gostava de brincadeiras.

O médico disse que foi um derrame cerebral.

- E o que se pode fazer? - Nada.

Antes pelo menos, ele tentava falar.

Agora, passa o dia todo assim.

- E a filha dele? - Na Sorbonne.

Vem uma vez por ano, mas a vida dela é lá.

Ele se incomoda se eu falar com ele?

Claro que não.

Mas não tenha muitas ilusões, porque...

não sei se ele continua aí.

Ela já foi.

Pare de ser chato.

Suas férias acabaram, porque, adivinhe...

o senhor tinha razão.

Não era um mito.

Eu encontrei...

todos.

Veja.

É Marduk.

Encontrei também os doze Anunnakis.

Se não se levantar daí, não vou dizer a ninguém...

que tudo foi ideia sua.

Quando o mundo ficar sem fronteiras e eu ganhar o Nobel...

- aí sim, o senhor terá um ataque. - O que está lhe dizendo?

Nada.

Ele age assim porque você o fazia cortar a grama...

ele não gosta disso.

A comida está pronta. Ande, senão ela vai esfriar.

Vou deixá-lo com seu amigo...

para que conversem.

Vou ver, Erick. Como acha que os estou escondendo?

Agora estou entregando mil exemplares do romance.

É meu primeiro pedido.

Escute! Juro que lhe pago na semana que vem.

Quando falhei com você?

Está bem. Dê lembranças à Miroslava.

Está bem, tchau.

Quanto é?

Quinhentos quilos.

- Não brinque. É uma Kombi cheia. - Deu 480kg, dei-lhe mais 20.

Pese de novo. Tem de acomodar bem as caixas.

Esta está caindo. Pese.

- Quinhentos e cinquenta. - Está vendo?

Por que engana as pessoas? Sem brincadeira, eu facilito.

Dê-me 500, e o resto já sabe.

Vamos, aqui, aqui.

Obrigado.

Olá. Eu lhes pago na semana que vem.

Falei com seu chefe. Se quiser, ligue para ele.

- Que chefe? - Ele garantiu...

Finalmente você chegou.

Olhe, esse é Salvador. Ele vai ficar aqui conosco.

Ele foi aluno do seu avô. Trate-o bem...

e não seja malcriado.

Vovó, sério. Achei que estivessem fazendo algo com vocês.

Quem faria algo comigo?

Há gente ruim no mundo. Eu me assustei.

Desculpe-me.

- Jogue isto no lixo. - Acabei de chegar, calma.

Jogue.

Mal chego e já me faz trabalhar. E aí, vovô?

Como está?

Dez anos, puxa.

Então, você passou por todas as guerras: Iraque, Afeganistão.

Síria, Líbia...

Egito.

- E o que estava fazendo lá? - Estava procurando alguém.

- Procurando quem? - Já ouviu falar de Marduk?

Não me é estranho.

Ele era o Deus da Guerra e do Trovão, na Babilônia.

Meu avô me contou algo. Era como Zeus, não?

Desafiou os deuses que o criaram e se tornou deus.

Essa é a lenda, mas a verdade é que...

ele não era um deus.

Era um homem como eu e você.

Marduk inventou...

o conceito de deus.

Não brinque.

Seus discípulos se deram conta do poder...

de seus conhecimentos e o assassinaram.

Depois, eles se espalharam pelo mundo...

dando início a todas as religiões.

Está dizendo que todas as religiões são uma fraude?

É a evolução. Marduk é...

o pai espiritual...

de toda a humanidade.

E o que vai fazer com seu achado?

- Publicá-lo, ora essa. - Você já tem editor?

Creio que haja alguém interessado.

Se fosse há três meses, eu o teria publicado.

- Tenho bons contatos. - Pois vamos ver.

Se eu precisar, aviso.

Veja bem, o negócio mudou muito. Não cobrarei muito, 20 por cento.

O que foi?

Certo, 15 por cento. Porque é como se fosse da família.

Sério, só que antes, preciso ler o livro.

Está aqui na caixa?

Caramba, calma.

Escute, rapaz...

uma vez, eu estava em Omã, na Arábia...

e então um dia eu vi, em plena rua.

Cortavam o braço de um ladrão.

Aquilo me pareceu...

tão selvagem.

Dois anos depois, na Síria, conheci um druso...

muito simpático...

ele tocava cítara e se chamava Jalil.

Um dia, notei que ele não era meu amigo...

e que a única coisa que ele queria...

era o que tem nessa caixa.

Ele queria vendê-lo.

E depois?

Digamos que ele não toca mais cítara.

- Eu não ia roubar sua caixa. - Que ótimo.

Porque você me lembra ele. Assim, simpático.

Vou ver se minha avó precisa de alguma coisa.

Certo.

Boa-tarde.

Estou procurando Isabel.

Aqui não mora nenhuma Isabel. Desculpe.

Salvador?

Como vai? Tudo bem?

Os documentos pedidos pelo Sr. Martínez.

Vou deixá-los com você.

- Boa-tarde. - Tem hora marcada?

Vim para isso, marcar uma hora. Tenho um livro.

Não aceitamos material não solicitado.

- O que está fazendo? - Nada.

- Consegui um trabalhinho. - Que ótimo.

- Você tem uma lista telefônica? - Para quê?

O que importa? Você tem ou não?

Aqui.

Obrigado.

E aí?

O que é isso?

Estou prevenindo, se houver um incêndio ou algo assim.

- Vai cortar minhas mãos? - Não diga besteiras. Dê-me!

Prometa que não vai fazer nada e lhe dou.

Estou avisando, Dante. Dê-me.

- Dê-me, maldito! - Está bem.

Está no meu quarto, acompanhe-me.

Agora, apague tudo que pôs no computador.

- Foram 4h de trabalho. - Apague, ou o jogo pela janela.

Está bem.

Pronto.

- O que é isso? - O arquivo digital, não perca.

Por que fica tão nervoso?

Não sabe o que isso significa, não entende nada.

"Ao seguir os passos de Marduk, só concluo...

que ele já pensava numa coletividade de consciências.

A Terra se cobrindo não só de grãos de pensamento...

como também de um só invólucro pensante...

o Ponto Ômega, o uno." Suas palavras, página 325.

Você tem memória fotográfica.

Que ótimo. Não vai esquecer o que vou dizer.

Se mexer nas minhas coisas...

vou entrar no seu quarto à noite...

e castrar você, vou arrancar seus testículos.

Só queria ajudar.

E aí, está tudo bem?

Assunto?

Não gostei de como as coisas ficaram.

Não quero que fique achando que sou um idiota.

Você não é idiota. Intrometido e tolo, sim.

É o Sistema Solar, não é? São os Anunaques.

Está buscando relações. Sim, li seu livro.

Marduk foi o 1o astrônomo...

e todas as religiões vêm da Astronomia, não é?

Leu as palavras, mas não entende o significado.

Não escreveu o livro para ser o melhor ou subestimar ninguém.

Acho que quer dizer...

que humanidade e religiões devem se reconciliar, não é?

Aceito suas desculpas.

- Então, estamos numa boa? - Dante, o acádio...

não é como o latim.

Preciso de toda concentração. Se não há mais nada...

Tem algo mais que não lhe contei.

Mas agora que estamos numa boa, tenho ótimas notícias.

Consegui marcar hora na Perséfone.

É a maior editora da América Latina.

Eu sei.

Disseram que não estão aceitando material.

Não fizeram objeção quando lhes mandei seu livro.

- Fez o quê? - Calma, eu o registrei on-line.

Aqui está, em seu nome, veja.

Estou um passo à frente e cuido de você.

- O que mais disse a eles? - A verdade...

que o livro pode mudar o mundo.

Se quiser, cancelo o compromisso.

Como seu representante, não aconselho isso.

- Será a que horas? - Às 10h, amanhã.

Ande, vamos.

Sua avó não lhe ensinou a bater?

Não brinque. Por que cortou o cabelo?

Você é um artista, esteve no Oriente Médio...

morou com os beduínos.

Está bem... ponha a roupa que estava usando quando chegou.

São farrapos, vão se ofender.

Ao contrário, vão adorar. Senão, o que vamos vender a eles?

Quem vai comprar um livro de alguém que usa terno?

Temos de ser diferentes.

Quer vender seu livro?

Espero lá embaixo.

Não sei como me convenceu. Isso é ridículo, droga.

- Você está incrível. Demais. - Não me encha.

Olá, bom-dia.

- Temos um encontro. - Nome?

Dante Lizardi.

Ele é Paulo Coelho?

Paulito está na Índia, escrevendo. É outro cliente.

Deixe-me ver se o advogado está pronto.

Obrigado.

Coelho? O que você disse a eles?

Nada.

Sabe que falsa identidade é crime, não é?

Só enfeitei um pouco para nos deixarem entrar.

Na vida, temos de arriscar ou não chegamos a lugar nenhum.

Diga a Cuauhtémoc que o vejo na próxima semana.

Vou a Nova York, ele está na minha agenda.

Convide-o para o café da manhã, na próxima semana.

- Por favor, sentem-se. - Obrigado.

Bem-vindos. Aceitam algo que não seja água?

Já vi pessoas se matar por causa de água.

Assim está ótimo, obrigado. Quer?

- Bem, o que achou do livro? - Para ser sincero...

fazia tempo que eu não lia um livro até o final.

- É um texto maravilhoso. - Obrigado.

Qual seria a tiragem de lançamento? Pensei em 5 mil.

Mas creio que com esse livro podemos arriscar 10 mil.

- O que acha? - Antes da tiragem, temos de...

tratar de alguns temas do livro.

Claro, não podemos ser pretensiosos.

O que meu representante mandou é só um rascunho.

Temos de fazer alguns ajustes. Incluirei um novo capítulo.

O problema não é o conteúdo. Para mim, já está pronto.

Qual é o problema?

- Este. - E o que é isto?

Veja. Abra qualquer página ao acaso...

e me diga você.

O estilo é um tanto banal, as conclusões são diferentes...

mas é praticamente o mesmo livro.

Não pode ser.

Nosso Depto. Jurídico o achou nos registros.

Ele é publicado há 5 anos com relativo sucesso.

Esses malditos roubaram nosso livro? Não entendo.

Não sei, mas entendam que esta editora...

não pode publicar o livro e arriscar ser processada por plágio.

Apresente outro tema, e com prazer o publicaremos.

Conte sua viagem ao Oriente Médio, pode ser um sucesso.

Já sei o que faremos.

Tenho um amigo cujo primo conhece alguém que faz filmes.

Podemos adaptá-lo.

- Você não entende? - O quê?

Não posso fazer nada com o livro. É de outra pessoa.

Vamos mudar umas coisas. Eles fazem isso em Hollywood.

- Vamos deixar que nos roubem? - Eu não disse isso.

Não entendo como isso aconteceu. A quem o mostrou?

- Seu avô e alguns amigos dele. - Aí foi o erro.

Nunca deixei uma cópia com eles. A não ser com o tal de...

Askar Hyr, Hyrum, não sei ao certo.

- Quem é? - Quem diz que o escreveu.

Vamos ver.

Askar Hyrum.

Aqui diz que é o líder espiritual dos Filhos de Indra...

que veneram Marduk e têm vários templos no país.

Nunca ouvi falar deles.

Tem algum endereço? Vamos falar com o desgraçado.

Não tem o nome real, para saber em que templo trabalha.

CINCO ANOS DE SUCESSO

Pare de procurar. Já sei quem o imprimiu.

Você o conhece?

- O que foi? - Vou sozinho.

- Vou com você. - Não, obrigado.

Quero fazer isso sozinho. Não demoro.

- Aníbal está? - Está ocupado.

- Agora, ele vai estar. - Não pode entrar, senhor.

O cliente escolheu esta gráfica, entenda.

Ligo depois, surgiu um imprevisto.

- Olá, sogro. - É preciso muita coragem...

para vir aqui após a tolice que fez.

Não vim falar de minha família. Vim falar de negócios.

De negócios? Não me diga.

Nunca foi capaz de manter nem sua família.

Por causa de vadios como você...

que se dedicam a prejudicar outros.

Você se prejudicou sozinho...

escrevendo besteiras que não interessam a ninguém.

É? Então, explique, por favor...

por que está publicando isso.

- O que é? - O livro...

que eu lhe trouxe há dez anos, e não quis publicar.

Saiba que ele está vendendo como pão quente.

- Seu livro? - O que roubou de mim...

e mudou o nome para ficar rico.

Não, homem. Nem li seu livro.

Se quiser, processe-os. Eu prefiro que não.

Pela primeira vez, fez algo para alimentar sua família.

Eu sei, eu a abandonei. Não sirvo para nada.

Agora, nem posso lhes dizer por que fui embora.

- Já entendi. - O quê?

É disso que se trata, não é?

Diga-me. Quanto vai me custar...

para sumir de uma vez da vida de minha família?

- Não diga tolice, Aníbal. - Quem está dizendo tolice é você.

Não sabe o que minha filha e minha neta passaram.

Nem o que é ver minha filha destruída...

por não saber se você estava vivo ou morto.

Nem sabe o que é levar minha neta ao psiquiatra...

para convencê-la de que não as abandonou por culpa dela.

Ponha quantos zeros quiser e suma no deserto.

Não brinque, caramba! Não brinque. Por quê?

Como foi?

Desconte-o, antes que ele mude de ideia.

Quem disse que vou descontá-lo? Não quero nada desse velho.

Está claro, o cheque é uma confissão. Para que ele lhe deu?

Desconte-o já.

Não quero dinheiro. Quero que deixe de imprimi-lo.

Então, temos de mostrar que ele é o louco que aparece no livro.

É o que faremos.

- Era só o que me faltava. - Você os conhece?

É minha esposa.

Mas você tinha uma filha. Quem é o menino?

Ele não é meu. Parti há dez anos, Dante.

Desculpe-me.

Você está bem?

Podemos continuar outro dia, sem problema.

Eu estava preocupado com o que meu sogro disse...

que estavam destruídas, mas não, veja.

Estão continuando com suas vidas. Siga-os.

E aí? Vemo-nos lá fora?

Quero me aproximar de minha filha.

- Eles podem ver você. - Tomarei cuidado.

Prazer em conhecê-lo. Fiquem bem, boa sorte.

Você gostou?

É um milagre ninguém ter notado seus erros.

Vamos ter de mudar de peça. Uma mais do seu nível.

Não pode estar me dizendo isso, Pascal.

Melhor não nos tratarmos por "você".

Desgraçado.

Aproxime-se de minha filha. Fale com ela.

O que vou dizer? Não a conheço.

Trouxe o acessório do celular?

- O fone de ouvido? - Isso. Ligo para você.

Ajudo você, tente.

- Estava perfeito. - Meu amor.

Vovô.

- Pascal, parabéns. - Obrigado.

- Amor, meus parabéns. - Obrigada, mãe.

Vamos celebrar? Vamos jantar onde quiser.

- Dormirei na casa de uma amiga. - Areta...

Ora, tudo bem. Vamos outro dia.

Bem, devíamos pegar o carro...

porque isso vai virar uma bagunça. Venha.

- Até logo. - Tchau, Pascal. Obrigada.

- Ligue, por favor. - Sim, mãe. Tchau.

O que você tem? Estava ótima.

- Você gostou? - Claro.

- Obrigada, vovô. - Foi uma interpretação correta.

Ainda mais porque alguém não estudou todas as tardes.

Bem, discordo.

A senhorita tocou de maneira perfeita.

O staccato foi insuperável, o vibrato no tempo...

e o arpejo, soberbo.

Suponho que seja um especialista.

Digamos que reconheço o que é bom.

Então, deve ter percebido que no 3o e no 4o compasso...

houve alguns erros gravíssimos.

Nada disso. Está dizendo tolices.

A peça foi composta para ter acordes dissonantes.

Bem, isso também é um erro comum do ouvido leigo.

Se conhecesse a peça original, saberia que...

tais compassos foram compostos para ser dissonantes.

Parece-me, professor, que o jovem sabe muito.

- Deveria dar aulas aqui, não é? - Seria uma boa ideia.

Bem, já vou. Prazer em vê-lo.

- Prazer, bem-vindo. - Obrigado.

Areta, vemo-nos na aula.

Com licença.

Você é professor? Nunca vi você.

Bem, é que vou começar a dar aulas de cítara.

- Cítara? - Não fale tolice.

Exótico, não é, vovô?

- Aníbal Galván, a seu dispor. - Jalil Mustafá.

- Não brinque. - Árabe?

Parte da minha família é da Síria. Acabo de voltar de lá.

- Meu pai esteve lá. - Que coincidência.

- Devo conhecê-lo. Seu nome? - Veja, na verdade...

é uma tragédia, não falamos nisso.

Como tragédia? Pergunte mais, não os deixe ir.

O que aconteceu? Meu irmão é policial.

Pergunte mais, estou mandando.

Se ficar falando, não posso improvisar.

- Tudo bem? - Tudo, e você?

Que dia, não é?

- Até amanhã. - Quer um uísque?

Vamos, para relaxar.

Obrigado.

Eu estava pensando...

em tudo que perdi esses anos.

Veja...

por exemplo, este drinque.

Nenhuma gota de álcool em dez anos.

Para quê?

Perdi os aniversários de minha filha, seus recitais.

E agora, um farsante está enganando as pessoas...

com uma coisa que eu escrevi.

E não posso me aproximar de minha família.

Não seja tão duro consigo mesmo.

Se explicar suas razões, vão entender.

Com que cara vou lhes dizer...

que sumi todos esses anos para nada?

Mas você as abandonou mesmo?

Nunca tentou se comunicar? Uma ligação?

Claro que sim. Eu escrevia o tempo todo.

Tenho um monte de cartas que não consegui enviar.

Ouviu minha filha. Não quer nem falar de mim.

Eu perdoaria você.

Mas não o abandonei para ir ao outro lado do mundo, não é?

Mas sei como é isso.

Por quê?

Quando eu tinha 11 anos...

meu pai ficou muito doente.

Por isso, vim morar com meus avós.

Achei que não me queriam, que tivessem me dado.

E o que houve depois?

Meu pai ficou cada vez pior...

e minha mãe acabou com a vida dela, cuidando dele.

E no dia em que ele ia morrer...

não quis me despedir dele.

Quando cresci...

dei-me conta de como fui idiota.

Hoje, eu daria tudo para me despedir dele...

e dizer que o amava.

Tenho certeza de que elas vão perdoá-lo.

Tomara.

- Você quer perguntar? - Não, acho que é por aqui.

Puxa vida, que bonito.

SANTUÁRIO FILHOS DE INDRA

Esta é nossa área jurídica.

Aqui se dá apoio às famílias que estão no santuário.

Desculpe, mas apoio jurídico por que motivo?

Acontece que muitos que estão aqui...

têm parentes na prisão ou dívidas muito grandes.

E aqui, sua Santidade os ajuda a pagá-las ou a soltá-las.

Entendo.

De que revista disseram que são?

Amor y Fe.

Grave muito bem isso. É nosso maior orgulho.

Sim, senhorita.

O que temos de fazer para entrevistar Askar?

Isso é praticamente impossível...

porque sua Santidade está muito ocupado.

O senhor tem de compreender que são 500 famílias...

que dependem dele.

Estamos falando de cerca de nove mil pessoas...

entre crianças, idosos e adultos.

- Talvez possa nos ajudar. - Farei o possível.

No fundo, temos uma cozinha completa...

porque é um refeitório bem grande.

Todos que pertencem ao Santuário Filhos de Indra comem aqui.

Quem se aproxima de nós também pode comer de graça.

Dante.

Já vou. Bom apetite.

Sua Santidade se comprometeu muito...

e por mais de cinco, seis anos, fez tudo isso.

Graças a ele temos casa, comida e sustento.

E esta é minha área preferida.

É a área de educação.

- Posso entrar? - Claro.

Obrigado.

Aqui, as crianças aprendem a seguir o caminho de Marduk.

- E não interfere com a escola? - Escolas?

Aqui não temos escolas.

Elas são obsoletas. Com o Livro de Indra...

as crianças aprendem tudo o que precisam na vida.

Se me acompanharem, veremos o local dos cultos religiosos.

Eu gostaria de ficar e assistir à aula, se possível.

- Ele pode acompanhá-la. - Claro, sem problema.

A palavra de Marduk sempre é sabedoria.

- Muito obrigado. - Aproveite.

Acompanhe-me, por favor.

Vocês estão colorindo um momento muito importante.

É quando Marduk furtou as tábuas dos Anunnakis...

e as entregou ao povo. Alguma dúvida?

- Papai disse que roubar é ruim. - Como ele se chama?

Pedro.

Seu pai não se chama Pedro. Ele se chama...

Marduk.

- Ele se chama Pedro. - Quem criou você, eu...

e tudo que existe se chama Marduk.

E sua encarnação na Terra é...

Askar Hyrum.

E agora, diga-me, quem tem razão?

Marduk ou o senhor que mora na sua casa e se chama Pedro?

Então...

não sei.

Não sabe porque não presta atenção à aula.

Você é burro.

E vocês, não celebrem a ignorância dele.

Se é questão de celebrar a ignorância...

você vai ganhar um diploma.

Quem é o senhor?

Alguém que se espanta com sua inteligência...

sua sabedoria, que maravilha.

Repreende o menino porque ele não sabe nada, não é?

Mas você sabe muito. Então, explique-me...

que parte do livro diz que Marduk criou tudo?

"E a cada passo que dava Marduk...

o mundo ia se criando diante de seus olhos.

À sua direita, viu uma imensidão de água e chamou de mar.

E o que estava à sua esquerda, chamou de terra.

E foi pondo nome em todas as coisas que existem."

- Palavra de Marduk. - Era uma metáfora.

O homem é a medida de tudo.

As coisas têm o nome e o significado...

que o homem lhes dá.

É isso que queria dizer. O que vocês fumam?

- Calma, calma. - Que droga, soltem-me!

Vamos, vamos.

Diga a seu chefe que sou Salvador Pereira...

autor do livro que o desgraçado plagiou.

- Saiam de nossa comunidade. - Tome, diga a ele que me procure.

- É o segundo número. - Ladrão, covarde.

- Ande, entre. - A câmera.

- Não mexam na minha câmera. - Saiam!

Vamos, vamos!

Dante, vamos.

Ande!

- O que fez? - Briguei com um professor idiota.

Por que deu meu cartão? Caramba.

Não sabemos quem é Askar, mas ele já sabe quem sou.

Há dez mil anos, eles vieram a este mundo...

e ocultaram seu conhecimento no deserto.

Esse sou eu? Não parece.

Espere, aí vem a melhor parte.

Mas ele os encontrou. Jesus, Buda, Zaratustra.

Todos vêm dele, de Marduk.

Atreva-se a conhecer o segredo.

Reserve agora.

Quantidade limitada.

Fez isso fumando maconha?

Um pouquinho.

Falta o pulo do gato e conseguir um bom designer...

mas admita que tem seu encanto.

Quer que eu vire outro Askar?

Askar é um charlatão. Você seria mais como...

Sófocles na Grécia.

- Sócrates. - Certo.

Pelo que sei, ele não cobrava pelo que falava.

Como sabe? Estava lá?

Claro que não, mas não há nenhum escrito...

que diga que ele cobrava.

Também não há um livro que diz que ele fazia cocô.

E se ele fazia, é porque comia.

E se comia, é porque comprava comida.

- O melhor silogismo que já ouvi. - Pode rir, mas subi a página...

e já tem cinco pessoas interessadas no curso.

E tem mais, vou ler.

"Paulina Ibarra. Por favor, Professor Salvador...

preciso de sua ajuda, meus problemas são intermináveis."

O que digo à coitada?

Entendo que o templo de Askar o tenha impressionado...

mas não fiz isso para ficar rico.

Deixe-me resolver o assunto, e depois falamos de dinheiro.

Minhas ideias acabaram. Não quer publicar o livro...

não quer dar cursos, não quer descontar o cheque.

Faça o que quiser.

O cheque.

A solução de nossos problemas. O que tem ele?

Fez sentido quando pensamos...

que meu sogro era Askar.

Senão, por que ele me deu o dinheiro?

Não sei, culpa?

Tem algo mais.

- Quer mesmo fazer isso? - Claro.

Meu sogro fez algo. Quero saber o quê.

Quem é?

São eles?

Terá de falar com minha esposa sozinho.

Droga, por quê?

Se nos virem juntos, estraga tudo. Eu ligo.

Peço muito, Dante.

Uma SUV branca está chegando.

Aproxime-se e lembre-se: estamos observando.

Ponha isso.

Por favor.

Quando falar com sua Santidade, trate-o de Askar Hyrum...

ou Vossa Excelência.

Não olhe nos olhos dele nem o toque de jeito nenhum.

Está claro?

- Está claro? - Está.

Professor.

Quanto tempo sem nos ver.

Sem nos ver?

Quem é você?

Alfonso.

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