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Devido às contestações levantadas agora pelo MP,
vou fazer-lhe algumas perguntas para clarificar estas circunstâncias.
Quero recordar-lhe que está sob juramento.
Está obrigada a dizer a verdade
e a não esconder nada que seja do seu conhecimento.
Como contestou o MP,
no dia 15 de junho de 2016,
a senhora declarou que a arguida aqui presente,
Annalisa Magliocca,
é a responsável direta pela morte de Mario Cantapane.
O motivo do homicídio, disse-o,
era a relação extraconjugal que a senhora tinha com a vítima.
Confirma?
Nunca disse isso.
Pode falar mais alto, por favor?
Nunca disse isso.
Temos um depoimento assinado por si.
Reconhece a sua assinatura?
- É a minha. - Não percebi.
Parece ser minha.
E porque assinou uma coisa que nunca disse?
Não o li.
Portanto, os polícias terão alterado o seu depoimento?
Ou o que está aqui escrito não é verdade?
Não, senhor juiz, não é verdade.
- Desculpe, vou à casa de banho. - Faça favor.
A outra metade, como te foi prometido.
Isto está cheio de polícias,
mas, agora que me vou embora, garantes-me que isto está encerrado?
Tens a minha palavra.
Aonde vais agora?
Não importa para onde vou. Basta que seja para longe daqui.
Lembra-te da promessa.
GOMORRA
Olá, Gennaro.
Olá, Gegè.
Então? O que me queres dizer?
Esse é o relógio que o meu pai te deu?
Sim, quando me formei.
- Todos os Savastano têm um. - Eu nunca tiro o meu.
Faz-me sentir parte de uma família.
Só um órfão como tu pode pensar que a família é uma coisa boa.
Recebi novidades do meu amigo. Era isso que te queria dizer.
O carregamento chegou?
Amanhã, às 7h.
Preciso de um lugar para um barco de 20 metros.
- Em Cala Galera. - Claro.
O barco chama-se Esperanza.
- Tem bandeira do Panamá. - Eu trato disso.
- Já decidiste o pagamento? - Numerário, Gegè.
Preciso de dinheiro para fazer uma guerra.
Mas quem é que compra fora do sistema?
Amanhã de manhã, no molhe,
traz-me uma garrafa de champanhe.
Fria.
- Este chaço é o teu carro? - Sim.
Vamos mudar isso. Vou comprar-te um carro novo.
- Não se preocupe. - Preocupo-me, sim. Sabes porquê?
Quando me deres boleia, não quero apanhar tétano.
Diz ao sacana do Gennaro Savastano que tenho de falar com ele já.
E agora liga esta limusina e leva-me a casa.
Bem-vinda, Dona Annalisa.
Desde que voltaste que está a aprender a andar.
Parece que está bêbado. Anda todo torto.
Ouviste a tua mãe? Disse que pareces bêbado.
Dá-mo. Vamos testar.
Vem ao avô. Como és bonito!
Vem cá, meu netinho lindo. Vejamos...
- Pai, o que estás a fazer? - Ele gosta de vinho.
- Deixa estar, Azzurra. - Gennaro, faz-lhe mal!
- Mal? Tu cresceste com este vinho. - Chega, pai.
Vais ver que dorme bem.
Estou? Que é?
- Essa cabra já saiu da prisão? - Quer ver-te já.
- E que quer ela? - Já não aceita o acordo anterior.
Ela está doida, quer guerra.
Ela, sozinha, contra mim?
Diz que consegue tudo quando mete uma coisa na cabeça.
Sempre ao telemóvel... Nem ao almoço estamos em paz.
O teu marido é um homem de negócios.
Diz a essa cabra que vou esta noite.
Mas não será na zona dela. Assim estaremos todos tranquilos.
Diz adeus ao teu pai.
- Tens mesmo de ir a Nápoles? - Que posso eu fazer?
ESTAÇÃO DE NÁPOLES
- Um café. - Um café para o bar.
Aqui tem.
- Amanhã, às 7h, pega no Pietro e sai. - Para onde?
- Para aqui. - E tu?
Não te preocupes. Assim que acabar venho ter convosco.
Gennaro...
O teu pai tornou-se um problema.
E eu tenho de resolver esse problema.
Volta depressa.
Adeus, querido.
Sim, a embarcação chama-se Esperanza.
Exato, vinte metros. Chega amanhã às 7h.
Posso ficar tranquilo com o lugar para o barco?
Perfeito. Obrigado.
- Quanto material vem nesse barco? - Cem quilos. Cerca de 5 milhões.
- E estás a fazer tudo o que eu disse? - Sim, mas não é fácil, Don Avitabile.
- As empresas dele são intocáveis. - Que raio estás a dizer?!
Tu é que as criaste.
Para me tirarem o meu dinheiro.
Sim, eu é que as criei.
É por isso que são intocáveis.
Eu nunca quereria
que, por culpa dessas empresas de merda,
as pessoas de quem mais gostas
acabassem feridas com gravidade.
Farei tudo o que for preciso.
Assim já gosto.
Esperamos que o barco chegue
e depois é o fim para o Gennaro.
E depois vens trabalhar para mim.
O que se passa?
Ela ainda quer matar-nos, porque não se esquece do filho.
E nós não esquecemos o Trak!
A memória é uma coisa importante.
Mas lembrem-se de como estavam no ano passado, depois da guerra.
E se tivermos outra guerra agora,
vamos acabar todos mortos.
Eu sei, Gennaro, mas é mais forte do que eu.
Ainda o vejo à minha frente.
Eu percebo-te.
Mas ele está a ver-te e a dizer: "Pensa bem no que fazes".
Olá, Gennaro. As armas?
Annalisa!
- Gosto de te ver cá fora. - Duvido, Gennaro.
- Bem que me cheirava mal... - Esta cabra!
Acho que os mortos têm de ser deixados no cemitério,
senão é que lá que vamos parar.
E ondas achas tu que vamos parar? Diz-me.
Perdi um filho.
E que pensas tu agora? Que vou ser tua criada?
Estou-me a cagar para o teu dinheiro, Gennaro.
Mas quando estavas presa dava-te jeito.
Lá dentro, até a merda parece chocolate.
Diz-me, Annalisa, o que queres?
Independência.
Convém-te?
Sim. E sabes porquê?
Porque tu não me podes dar nada a não ser problemas.
Não é verdade.
Hoje, tal como ontem, posso dar-te a única coisa de que precisas.
A melhor cocaína do mundo.
Ou não?
És a única daquela aliança que merece o meu respeito.
Sabes porquê?
Porque pagaste esse respeito com o teu sangue.
E é por isso que quero fazer-te um tratamento diferente.
Que tratamento?
Eu dou-te a tua zona e tu fazes o que quiseres.
Só me dás uma percentagem.
- Quanto? - Trinta por cento.
Pensa nisso.
- Vou pensar. - Muito bem.
Gennaro?
O Ciro di Marzio... Não se sabe nada dele?
Olha aqui, olha.
Já não consigo ver-me com esta vassoura na cabeça.
Dona Annalisa, não se preocupe. Vai sair daqui como nova.
Despacha-te.
Então? O que achas?
O que digo ao Gennaro?
Trinta por cento é muito.
Na minha opinião, pode pedir apenas 25.
Então, devo aceitar?
Por enquanto, sim.
Tem de se tornar muito forte. E depois vemos.
E como é que nos tornamos fortes se temos de ficar abaixo do Gennaro?
Entretanto tem de roubar um pouco daquilo que tem de lhe dar.
Primeiro tem de conseguir os 25, senão diz-lhe que não há acordo.
E depois dá-lhe vinte.
Como é que ele há de saber? Está sempre em Roma.
E ele confia em mim.
És uma grande filha da mãe, Patrizia.
Devias ter-te casado com o meu Lellucio.
E não aquela cabra da Marinella.
O sangue não se escolhe.
Só se escolhem os amigos.
Passou tanto tempo
Nunca te deixaremos
Somos os filhos do Vesúvio
Talvez um dia expluda
Uma vida ao teu lado No domingo às três
Não consigo estar sem ti
Quando um dia morrer Lá de cima te observarei
Os coros que no funeral terei
Passou tanto tempo
Rapazes, mais baixo. Estão a incomodar os outros.
- Carmela, estamos a brincar. - Deixa estar a Maria.
Até à meia-noite não é tua namorada, é minha empregada.
Que seca, Carmela!
- Olhem! Olhem! - Onde raio te meteste?!
Se fosse por ti, só vinhas amanhã.
Parvo, cheguei tarde porque prenderam o Cantonês.
- Quem? A Polícia? - Lembras-te daquilo no estádio?
- Onde está? - Prenderam-no. Amanhã já está cá.
Vamos buscá-lo!
Vamos!
Liga a mota.
Como é que me encontraste?
Toda a gente sabe onde vive o neto do Santo.
O que posso fazer por ti?
Tenho cinco quilos daquela droga.
Da que não compraste na Bulgária.
Queres?
Claro.
Vens buscar o dinheiro amanhã?
Mas olha que desta vez o dinheiro tem de ser verdadeiro.
Aquela cabra da Scianel...
Eu conheço-a bem.
O que importa é que aceitou.
Menos uma preocupação.
Sei que o meu irmão encontrou trabalho.
Obrigada, Gennaro.
Rapazes?
Vamos até ao mar.
O barco chegou.
Não, não me parece que o Gennaro esteja lá.
O que fazemos agora?
Está bem.
- Mas que raio?! - Cala-te e entra.
- Quem são vocês? - Mexe-te.
- O que querem? - Mexe-te.
- Diz-me onde raio está o material. - Qual material?
Estás a fazer-me perder tempo.
- Aqui não há nada. - Então?
- Estão enganados. - Não há aqui nada.
- Viu? - Anda comigo. Anda.
Que raio queres dizer?! Não está aí?!
Vai-te lixar!
Sacana!
A minha família já não tem nada, só este sítio de merda.
Não nos deixaram nada.
Levaram-nos tudo.
Mas vamos tornar-nos mais fortes do que antes.
Isto é a primeira prestação. São vinte mil. Conta.
Não é preciso.
Espera. Aonde vais?
Não te disse uma coisa sobre a minha família.
Sabes como é que o Santo começou o contrabando?
Vivia na rua, morria à fome.
Um dia roubou um carro americano
e encontrou 30 mil dólares lá dentro.
Que vaca, não é?
Estava com um amigo, o Stregone. Também era uma criança.
Ele é que teve a ideia de fazer contrabando de tabaco.
Foi assim que nasceu o império.
O que queres dizer?
Que na vida só importam duas coisas.
A sorte e os amigos.
Os bons tempos acabaram, Enzo.
O mundo mudou.
Como quiseres, mas uma cabeça como a tua ia dar-nos muito jeito.
Tu vês-nos como uns esfomeados, mas não temos medo de ninguém.
Junta-te a nós.
Estão ali.
Giovanni, ajuda-nos.
Depressa.
Dá cá.
Levem o carregamento para o depósito de plástico.
- E vemo-nos amanhã de manhã. - E tu aonde vais?
Tenho de falar com o novo contacto calabrês.
Tenham cuidado.
Biagio, o carregamento chegou. Amanhã estamos prontos.
- Que é? Mudaste de ideias? - Não sei, Gennaro.
Qual é o problema?
O problema é que nem sempre nos vendes a droga.
Mas agora vou aumentar a minha área.
E nem sempre a vendes ao mesmo preço.
Amigo, porque ma queres oferecer?
Porque se não fosses tu, teria morrido na Alemanha com o Mico.
Tu avisaste-me. Isto é a minha maneira de agradecer.
O que fazemos, amigo?
Muito bem.
Olá, Gegè.
Gennaro, o que fazes aqui?
Senta-te.
Estás com medo de mim?
Já disse para te sentares.
Estás cansado?
Trabalhas sempre até tarde.
Agora tens outro patrão.
Não tive escolha.
O Avitabile ameaçou o Silvano.
Estou-me a cagar para quem te vai ao cu!
Entregaste-me ao Avitabile e ele nem uns guardas te arranjou.
Pensavas que não viria à tua procura?
Sim?
Gennaro, acredita.
O dinheiro está seguro. O Avitabile não lhe pode tocar.
Disseste que eras da família.
Foi por isso que te mandei seguir.
Porque se há coisa que aprendi é que nem na família posso confiar.
Perdoa-me, Gennaro.
Por favor, perdoa-me.
As empresas estão a salvo.
Eu não podia fazer mais nada.
O relógio.
- Estou? - Estou, Azzurra? Estás bem?
Sim, Gennaro, já te tinha dito. Eu estou bem.
- E o Pietro? - Está a dormir.
Falaste com o teu pai? Sabes onde ele está?
Não, não sei, Gennaro. Vim para aqui, não sei nada.
Tu estás bem?
Sim, estou bem, Azzurra.
- Até amanhã. - Boa noite, Gennaro.
Esse filho da mãe levou-me as minhas coisas todas.
E agora eu vou reavê-las, uma de cada vez.
A começar por ti.
Se não te mandasse ir buscar, onde é que estarias?
- Em lado nenhum, pai. - Não digas disparates!
Se os meus homens chegassem um minuto depois, onde estarias?!
Querias fugir, Azzurra? Também tu querias tramar-me?!
Sabes o que eu pensei?
Que se calhar foi aquele cabrão que me mandou para a prisão.
E se calhar tu sabias. E se calhar fizeram-no juntos!
Não, eu não fiz nada, pai, juro. Não fiz nada, juro!
Juro que não fiz nada.
Larga-me, estás a magoar-me!
Vai calá-lo.
Cala-o.
- Rapazes. - Gennaro.
- Olhem o que eu trouxe. - Trouxeste cerveja?
- Obrigado. - Abre-as.
- Tens o isqueiro? - Sim.
Temos de brindar.
- Dá-me o isqueiro. - Não tinhas um?
- A quê? - À nossa saúde.
Ao dinheiro.
Rapazes, a nós.
Não posso confiar em ninguém.
Só em vocês os dois.
Mas tenho de saber se estão comigo.
Estamos contigo, Gennaro.
- Têm a certeza? - Temos.
Venham cá.
Vamos fazer uma montanha de dinheiro.
Vamos.
Preparem-se para a troca.
O que estão a fazer?
- Quem raio são vocês? - Quieto. Cala-te, senão morres.
- Rapazes, tenham calma. - Gennaro?
- Larga-me! - Entra no carro!
- Tenham calma. - Para onde raio vão levá-lo?!
Não se preocupem!
Diz-me quem os mandou. Diz-me quem os mandou!
Não! Não! Não!
Não! Para o carro!
Porquê?! Para o carro! Não!
Não! Não!
Anda. Mexe-te, anda.
Ajoelha-te.
Ajoelha-te!
Diz-me uma coisa, Gennaro.
Achas que o Avitabile é uma mulher?
Então, como raio pensaste que podias fodê-lo?
Amigo.
Sabes porque te trouxe aqui?
Para te fazer perceber o idiota que foste.
Mas tu achas que os calabreses,
se pudessem escolher, ficariam do teu lado?
Contra todos nós?
E sabes porque é que eu vim?
Sabes porquê?!
Para te matar com estas mãos!
Mas és o pai do meu neto.
O marido da minha filha.
Mas uma coisa é certa.
Agora vales menos do que nada.
Vais deixar de vender droga no centro de Nápoles.
Vais deixar de vendê-la seja a quem for.
Sabes porquê?
O novo canal só fala connosco.
Cortámos a cabeça ao teu amigo hondurenho.
Querias ficar com tudo o que era meu?
Agora nem um euro tens, Gennaro.
Fiz uma denúncia anónima de lavagem de dinheiro às Finanças.
Enquanto investigam, vão apreender-te tudo.
As empresas e o dinheiro.
Não te resta porra nenhuma.
Só tens de voltar para o teu esgoto
e não sair mais de lá.
Tira um pé de Secondigliano e eu dou cabo de ti.
Mas sobretudo...
Já não tens mulher nem filho.
Não podes fazer isso, Guiseppe.
Eles são do meu sangue!
Tu não és digno dela.
E então ela vai voltar comigo.
Vou deixar-te vivo. Mas sozinho, como um cão.
Não a mereces.
Quando uma coisa não é merecida, perdemo-la.
Continuem.
Se eu descubro que ele veio à tua procura,
e tu sabes que eu descubro,
juro pela Virgem Maria que lhe corto a cabeça.
NO PRÓXIMO EPISÓDIO
Olha para baixo! Para baixo!
Tradução e Legendagem JOSÉ GONÇALO SILVA RTP - Produção
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