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UM ANO DEPOIS
Numa época de crise como esta os bancos têm de ajudar.
Li nos papéis que me enviou que os cheques do final do mês
são de cerca de 80 mil euros.
Não posso fazer mais nada. Faço o que posso.
Mas eu acho que pode escolher um caminho mais tranquilo.
Para além disso, este imóvel tem prestígio.
Tenho um cliente interessado em investir.
Acho que é possível chegar a uma solução.
Gennaro?
Olá, Gegè.
Então?
Aceitou logo.
- É nossa. - Muito bem.
Ouve, desta vez não podemos pagar a mercadoria contra reembolso.
Porquê? Há algum problema?
O meu amigo está a passar um mau bocado.
Precisa de dinheiro já.
- Que liquidez temos? - Cerca de 70 mil.
- Preciso de tudo. - Depois ficamos sem nada.
Não te preocupes. Só ganhamos se investirmos, não é?
Foste tu que me ensinaste.
- Quando é que os queres? - O meu amigo chega esta noite.
Adeus, Gegè.
Adeus, Gennaro.
GOMORRA
É tão bom ter-te aqui, irmão!
Irmão...
Fizeste-me falta, mano.
Vamos.
Joaquin, este é o Gegè.
- Muito gosto. - Tudo bem?
É meu amigo. É o melhor contabilista do mundo.
O Genny exagera.
Se não fosse a família dele, estaria desempregado no sul do país.
Fala-me do teu problema.
Calma, ele é de confiança.
Aqueles filhos da mãe já estão aqui, em Roma.
E quem são eles?
É um bando de merda que me está a fazer guerra.
Se voltam às Honduras com um acordo,
eu fico sem nada, Genny.
Disse-te que tenho grandes amigos na Calábria.
Deixa-me fazer umas chamadas. E depois vemos, está bem?
Está bem.
Vamos, Gegè.
Tens de ter calma.
Estou preocupado. Estão a matar os meus homens.
Eu sei.
Esta noite ficas comigo.
Não, não posso sair. Ainda estou à espera aqui.
Diz à Giulia. Depois eu falo com ela.
Sim.
Adeus.
Eu sei que isto não é para ti, mas é uma emergência.
O que aconteceu?
Falei com o meu amigo.
E se queremos resolver isto, tem de ser já, esta noite.
E eu preciso de ajuda.
- Há algum problema? - Não, nenhum problema.
Estou à tua disposição, já sabes.
Eu sei. Só queria ouvir-te dizer.
E eles? O que vão querer em troca?
Vamos vender o quilo a 23.
E em troca os teus amigos vão vendê-la a 29.
Amigos? Esses 6 mil euros vão sair muito caros a esses cabrões!
Vamos.
Espera aqui.
Amor, agora não posso.
Preciso de ti lá dentro.
Temos de nos despachar. Daqui a duas horas vêm limpar.
- Estás pronto? - Estou.
Na casa de banho está uma esfregona.
Mexe-te, Gegè!
- Vamos ao próximo, irmão. - Vamos, mano.
Gegè, sentes-te bem?
Anda.
Filma o Joaquin.
Vamos.
Seus cabrões!
Vão para onde forem, estejam onde estiverem,
é assim que vai acabar toda a merda da vossa gente.
O Diabo chegou, paneleiros.
Vamos cortar a cabeça a todos vocês, cabrões!
Já está.
Tira a lanterna da mochila.
Estes cabrões!
Vou descer.
- Estás pronto? - Sim.
A outra, mano.
Desamarra a corda, Gegè.
Está bom aqui.
Um, dois e três!
Passa-me a lanterna, Gegè.
Vão-se lixar, sacanas.
Vamos, Gegè. Vamos.
Sinto muito pela Giulia.
Não te faz bem o que andas a fazer.
Está a dar-me uma oportunidade que nunca teria tido.
O que aconteceu esta noite?
Podes dizer-me?
Nada, tive de acompanhá-lo com um cliente importante.
Nunca te faço perguntas. Seja como for, estou do teu lado.
Mas podes sempre voltar atrás.
Basta que o queiras.
Quando voltares, fazemos um belo almoço juntos.
Depois de amanhã já estou aqui.
Adeus.
Patrizia? Sentimos saudades tuas.
O que posso fazer por ti?
A Scianel quer que entregues um recado à tua amiga Marinella.
E o que lhe digo?
Que ela está muito aborrecida. Não gostou de ver o filho num caixão.
- Eu sei. - E agora há o processo.
A tua amiga seria ótima para eles se se soubesse comportar.
Não sei onde ela está.
Se tu quiseres, de certeza que consegues descobrir.
Acho que a Marinella não faria uma coisa dessas.
Fala com ela.
Todos nós precisamos de uma segunda oportunidade, não é?
- Vou ver o que posso fazer. - Faz como quiseres.
Mas se condenarem a Scianel, a culpa é toda tua.
Fica bem.
Parece um príncipe.
Mas o pai dele ainda não é rei.
- Estás nervosa? - Não.
Pronto.
Azzurra, tem calma.
Com o dinheiro que ganhei este ano para o teu pai,
ele devia fazer-me uma estátua de ouro.
Não o conheces bem, Gennaro.
Não confias em mim?
- Estou? - Gegè?
Esqueceste-te de hoje?
Esta manhã o meu sogro volta para casa.
- Sim. - Passará umas horas com a família.
E tu vens às duas, está bem?
Olha que ele é um filho da mãe.
Não me metas no meio. Ele tem de pensar que é tudo dele.
Perfeito.
- Já preparaste os documentos? - Sim.
Até logo.
Vamos conhecer o avô, Pietro?
Vamos.
Maldita prisão domiciliária!
Só tenho tempo para estar com o meu neto.
- Olá, Giuseppe. - Vem cá, menino do avô!
Que bonito!
Como és bonito, malandro! Que bonito!
- São os meus testas de ferro? - Precisamente.
São testas de ferro das sociedades que lhe pertencem, doutor.
Se fosse doutor, não teria estado um ano na prisão.
- E isto é tudo meu? - Exato.
Vou mostrar-lhe as participações e os rendimentos.
Mas porquê, Gennaro?
- Porquê o quê? - Tinhas imensas pessoas
que serviam para fazer isto,
mas tu...
... quiseste escolher um miúdo das tuas bandas
que pensa que basta falar italiano para perder o fedor a miséria.
Precisava de uma pessoa limpa que não conhecesse ninguém.
Todos os teus homens já o magistrado conhecia.
Sabes o que se diz?
O cão só conhece a voz do dono. E este cão é teu.
Não há cães aqui. Na tua casa só mandas tu.
Por favor, Gegè, explica-lhe bem a situação.
Antes de ser preso, tinha um património de 60 milhões de euros.
As penhoras do tribunal reduziram isso a 1,5 milhões de euros.
Isso já eu sabia.
Contidos numa empresa oculta.
Hoje possui 17 sociedades na totalidade ou como sócio.
Perfazendo um total de 97 milhões de euros.
Tu não sabes, mas estar preso é um inferno.
E quando voltas a casa, vês que a tua vida continuou.
E já não te encontras. Até com a família te sentes estranho.
E todos aqueles com que te preocupavas
parecem-te uns desconhecidos.
Mas já não estás preso, Giuseppe.
O que queres? Os teus consultores de novo?
Amanhã, o Gegè traz os documentos e não aparece mais.
Também queres os testas de ferro?
Vamos ao notário e esclarecemos a situação.
Podemos fazer tudo o que quiseres. Eu não me importo.
Mas nunca mais digas que sou um desconhecido.
Sou o marido da tua filha, sou o pai do teu neto.
E isso é uma coisa que nunca deves esquecer.
Se há coisa que nunca quero esquecer
é isso mesmo.
- Estou? - Fala a Patrizia.
Folgo em saber que estás bem.
Não liguei para te cumprimentar.
Temos uma amiga em comum que pode armar confusão.
Tenho de te ver o quanto antes para te explicar.
Vemo-nos esta noite.
Onde?
Eu mando-te uma mensagem.
Olá, Gennaro.
Entra.
Queres um café?
Obrigado.
Que é?
Não gostas da minha casa?
Tu é que a escolheste.
Eles estão ali.
Os meus irmãos.
Quando me veem, mudam de rua.
Só posso vê-los daqui.
E daqui a pouco nem assim.
Porquê?
Para ficar com as minhas irmãs, o meu irmão começou a trabalhar.
E agora descobri que perdeu o emprego.
A assistência social já lá foi uma vez.
Para a próxima leva-as.
Põe-nas num lar de acolhimento e eu nunca mais as verei.
Patrizia, o que queres de mim?
Um trabalho para o meu irmão.
Honesto.
Mas não tem de ser em Nápoles.
A minha família tem de sair deste inferno.
Amanhã o teu irmão tem trabalho.
Não pode saber quem lhe deu o trabalho.
Está bem.
Mas agora tens de me dizer o que quer a nossa amiga.
A Scianel mandou-me um recado.
Está à procura da Marinella. Tem uma proposta para ela.
E quer que eu a encontre.
O que faço?
Aquilo que te disse.
E se estiveres perto, eu fico mais tranquilo.
Boa noite. Diga.
Estou à procura da Irene.
- Irene? - Já vou!
Não estou arrependida.
Se vivesse cem anos, fazia-o cem vezes.
Diz isso à cabra da Scianel.
- E o que ganhaste com isso? - Fiz justiça!
Os mortos da justiça não contam para nada, Marinella.
Tu vens-me dizer isso, Patrizia?
Esqueceste-te do que me obrigaste a fazer ao Lellucio?
Não te entendo.
Marinella...
Ela encontra-te. Tal como eu te encontrei.
Mas a próxima pessoa não virá com isto.
E eu só trabalho para mim. Meto-me na minha vida.
Trabalhas para os Savastano?
Já te disse o que vinha dizer.
Mais tarde ou mais cedo, tens de acabar com eles.
Promete-me.
Trinta agora e trinta depois.
Não é um presente meu.
Querias dar-lho, portanto, é teu.
Sim, mas o dinheiro não é meu.
Levei metade da minha vida a ouvir o meu pai a irritar-se
por causa da falta de dinheiro.
E a outra metade a perceber como funciona. E sabes o que te digo?
O dinheiro não vale porra nenhuma.
A forma como o consegues não é importante.
A única coisa que importa é que, para a tua filha,
o dia em que o papá lhe deu um carro já ninguém lho tira.
- Silvano? - Sim.
- Silvano Romini? - Sim.
- Aquela deve ser a Giulia. - Mas quem é o senhor?
- Um homem que já não dorme. - Papá!
- Deixem a minha filha! - Porquê?
Também ela deve saber que na minha casa,
na minha cama, com as pessoas que me são caras,
vejo outro, com estes olhos, e não tenho paz!
- E a culpa é do teu amigo. - Papá, o que é que ele quer dizer?
Explica à tua filha. Explica. Mas explica-o bem.
E explica-o também a mim!
Não sei nada.
Não acredito! Tenho de saber a verdade.
E diz isso ao maricas do Gegè.
- Não foste para Londres? - A Giulia está em perigo.
De que estás a falar?
- Ele parou-nos a caminho de casa. - Quem?
O sogro do teu cliente.
- O que quer ele? - Quer a cabeça do genro.
- O que estás a dizer? Porquê? - Eu sei lá, porra!
Porque o odeia?
Porque tentou tramá-lo? Diz-me tu!
Quando te metes com esta gente, já não sais de lá de mãos limpas.
Tenho medo pela Giulia.
O que fazemos?
O que quer de mim?
O Gennaro está a lixar-me.
Eu sinto.
Eu sei.
É verdade?
Quero saber como.
Se eu o faço, o Gennaro mata-me.
E se não o fizeres, mato-te a ti e ao teu amigo.
Gegè... Gegè, tu és bom.
Senão o Gennaro não andava contigo.
Senão eu descobria logo que ele me lixava.
Mas tens de decidir já quem é o teu patrão.
- Este hotel é muito bonito. - Vê-se.
Quanto tempo perdeste a falar com ele, Gegè?
Esteve muito disponível.
- Não te deu problemas? - Não, não.
Olha que maravilha!
Mas mais bonita ainda é esta vista, irmão.
Mostra as fotos, Gegè.
Que hotel, porra!
Isto é que é qualidade!
É o negócio mais incrível de toda a minha vida.
Não é, Gegè?
Não, cala-te. Com a boca ou se come ou se fala.
Cala-te.
Meninas?
À saúde.
Mano.
Amanhã mesmo damos-te 25% deste resort.
E quando o carregamento chegar, ponho-te mais 25%.
Dá um total de...?
Gegè? Estás a dormir?
- Desculpa, Gennaro. O que dizias? - Quanto ganhamos com este hotel?
Dez milhões de euros.
Muito mais do que te devia, mano.
E ainda ficas com este imóvel, do qual somos sócios.
Está bem, irmão.
Nunca tinha investido na Europa.
Mas a ideia parece-me boa.
- Até à morte, irmão. - Sempre.
Sempre.
Comandante.
- Está tudo bem, Gegè? - Tudo.
Até amanhã.
- Azzurra, onde estiveste? - Olá, amor.
A minha mãe acordou de repente e o meu pai não estava na cama.
Tinha saído de casa.
E onde foi?
Não me quis dizer.
Mas porquê, Gennaro? Achas que há alguma coisa errada?
Não, está tudo bem.
Hoje é dia de festa
Cantam as nossas almas
Para o menino Pietro
Uma salva de palmas
Vá, querido. Vá.
Espera por mim aqui. O avô vai buscar-te um presente.
Vem comigo. O presente é pesado.
Depressa.
Deu-lhe o nome do filho.
A quê?
À sociedade fantasma
que o Gennaro criou para me lixar enquanto estive na prisão.
Vai receber um carregamento
e quer os lucros todos para ele.
Não é material para a nossa Roma.
Nem para os clãs de Nápoles.
Este filho da mãe!
Está a tramar-nos a todos.
O que quer fazer agora?
Esperamos que o carregamento chegue
e depois livro-me dele.
NO PRÓXIMO EPISÓDIO
Tradução e Legendagem JOSÉ GONÇALO SILVA RTP - Produção
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