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Embora a história se baseie na realidade,
as personagens e os diálogos são fictícios.
Mãe, eu fico aqui, sim?
Está bem.
Silvia.
-Ainda bem que voltaste. -Padre.
-Lamento muito. -Muito obrigada.
-Tu sabes. -Sim.
-Olá. -Olá.
-É o Fer, da revista Rolling Stone. -Um segundo.
Sim, claro.
Pronto, diga. Desculpe.
Não queria incomodar-te,
mas vi a lista de falecidos e fiquei a pensar se...
O Lucas Binder é teu familiar?
Meu irmão.
Tamara, lamento muito.
Obrigada.
Estou a ligar-te porque a revista vai cobrir o que aconteceu.
E queria que soubesses que estamos aqui para te ajudar
no que for preciso.
Se quiseres que publiquemos uma das tuas fotos, nós publicamos.
CROMAÑÓN: THE NIGHT OF THE FIRE
Perante o chefe do governo,
a direção da entidade reguladora das discotecas
admitiu a existência de ilegalidade na vida noturna de Buenos Aires.
O incêndio já provocou o afastamento de dois funcionários de Aníbal Ibarra.
Apesar da regulamentação, da fiscalização dos bombeiros
e dos controlos em vigor, uma tragédia causou a morte de 200 pessoas.
Uma tragédia é um acontecimento inevitável.
O Cromañón não foi uma tragédia. Foi um massacre.
Como é possível que um espaço licenciado em 1997
nas condições mais precárias e irregulares
possa ainda hoje funcionar?
Os inspetores foram ao Cromañón e saíram de bolsos cheios.
Há muitos cúmplices nesta rede criminosa.
Chabán, os Callejeros...
Vou concentrar-me nos responsáveis pelos controlos que não funcionaram.
Eles são responsáveis e serão punidos.
O táxi está à sua espera. Vai para Tapiales?
JANEIRO DE 2005
Não, vou a outro canal.
Passo mais tempo na televisão do que em casa.
-Sr. Binder. Isto é seu. -Obrigado.
Obrigado.
Sr. Binder?
Sou a Berta Reynoso.
Mãe do Julián Vasallo.
Também morreu naquela noite.
Elas também perderam os filhos.
Assim que o vimos na televisão, sentimos que tínhamos de falar consigo,
pois não sabíamos mais aonde ir.
Em quem confiar.
Muitos advogados nos abordaram no necrotério.
Uns dez colegas seus deram-nos os seus cartões,
mas não queremos que se aproveitem de nós.
Sim, é o que está a acontecer.
A escumalha está por todo o lado.
Foi por isso que pensámos
que podia representar-nos.
Estamos perdidas.
E há muitas famílias na nossa situação.
Claro.
Contem comigo.
Dou-vos o meu número de telefone.
Liguem-me e falamos.
-Muito obrigada. -Obrigada.
Elas pediam o corte da Amélie.
Agora, querem um swoop.
-O quê? -Um swoop.
Com a franja gira de lado. Por causa da Rachel de Friends.
Se fizesse isso, pareceria ter sido apanhada por uma onda.
O que não entendo em Friends é como ninguém no grupo
tem problemas a sério.
Bem, quem tem problemas a sério aos 20 e tal anos?
Então, princesa, que vai ser?
Não sei.
Um corte.
Está bem.
Tens o cabelo tão bonito.
Comprido e saudável.
Estou grávida.
Mas...
Quero dizer...
Não sei se consigo lidar com isso.
E uma amiga, a Natalia Pedrozo, sugeriu que viesse cá.
-Para falar consigo. -Tudo bem, podes falar informalmente.
Conheço a Natalia.
Queres interromper a gravidez, certo?
Muito bem.
Que idade tens?
Dezanove.
Vou receitar misoprostol.
É um fármaco muito seguro e eficaz quando a gravidez é inferior a três meses.
Mas posso comprá-lo na farmácia?
Sim. Não digas para que é, claro.
Tem outros fins médicos, como problemas gástricos.
Estes comprimidos causarão contrações que ajudarão a expulsar o embrião.
Dói?
Não, não te preocupes.
A dor será semelhante à da menstruação. Mais nada.
Está bem.
Vives com os teus pais?
Tens namorado?
Mais ou menos. Não. É complicado.
Tens amigos, irmãos?
Na verdade, estou sozinha nisto.
Cancelei o concerto de Gesell.
Têm de me dizer o que querem fazer.
A banda vai continuar?
É difícil, Alemão.
Estamos arrasados. Perdemos tantos amigos.
Perdemos o Victor. Era o mais entusiasmado com a banda.
Além disso, muitas discotecas estão a fechar.
É uma confusão. Não sobrará nenhuma.
Eu não quero tocar mais.
Para mim, a música acabou.
Para mim, acabou. Não por causa da banda,
mas por minha causa.
Não consigo lidar comigo mesmo.
Não consigo.
Acabou.
Nico...
Deixa-o estar.
Male, porque não tentas dormir um pouco?
Minha querida.
Gosto do teu cabelo.
Quanto mais o observo, mais gosto.
Isto vai ficar aqui para sempre.
Não. Para sempre, não! Vai cicatrizar.
Ao fim de algum tempo, nem te vais lembrar.
Quero contar ao Lucas.
Quero contar-lhe o que aconteceu, mãe.
Não acredito que ele morreu.
Que não lhe posso contar mais nada.
Não sei como se faz.
Não sei como continuar a viver.
Querida, não...
Queres fazer alguma coisa?
Vamos sair juntas? Fazer alguma coisa?
Podemos visitar a tia Cata?
Em Rosário?
Sim, preciso de me ir embora.
Está bem, sim. Claro que podemos.
Se eu tiver de voltar ao trabalho, podes ficar lá com ela.
SAÍDA
Não consegues dormir?
Eu também não.
Está um calor horrível.
Como estás?
Vou andando.
Se quiseres falar...
Não me apetece.
Filho, não sou muito bom nisto,
mas não acho que seja bom guardares tudo para ti.
Talvez conversar com alguém ajude.
Talvez.
Olha.
Olha para mim.
Vai ficar tudo bem.
Prometo.
Esquece. Não volto a vender fogo de artifício.
Não sabes como me sinto culpada.
Se quiserem fogo de artifício, vão a outro lado.
Aqui, não.
Estou?
Olá. Posso falar com o Javier?
Olá, Javi.
Que tal a terapia? Como tem corrido?
Não sei.
Não falámos. Ficámos os dois em silêncio.
De repente, ele disse: "Fala-me do teu pai."
E fui apanhado de surpresa.
Não percebi. Não percebo.
Mas...
Como é?
Vai doer-te? Como é?
Não.
A ginecologista explicou como é
e nem preciso de ir a lado nenhum.
Tens a certeza, miúda?
É o melhor.
Não me imagino com uma criança, Cheti.
Não estou bem para mudar a minha vida. Agora, não.
As nossas vidas já mudaram, Luli.
O que importa é o que queres fazer agora.
Eu apoio-te em qualquer decisão.
Estás a falar a sério?
Sim.
Se não o quiseres ter, estou aqui.
Se o quiseres ter...
...também estou aqui.
Sentes?
Para mim, são batimentos cardíacos extra.
São vidas extra enviadas lá de cima
e estar bem é uma forma de agradecer.
És crente?
Quem sabe?
Não achas um milagre estarmos aqui os dois? Vivos? Juntos?
Pensa nisso.
Chateia-te?
Não, não gosto de ser observado.
Então, se te beijar em público, tens um ataque cardíaco?
És o esquisito mais fofo do mundo. Sabias?
-Dás-me outra? Não escreve. -Sim, claro.
CHEGA DE IMPUNIDADE
Bem-vinda, Male.
Obrigada.
Fico feliz por estares aqui.
Male. Senta-te.
Obrigado, Nico.
Bem...
É este o ponto de situação.
Temos de ter isto em mente, para que todas estas pessoas paguem.
Temos de entender isso. O julgamento começa daqui a uns dias.
Nem peritos, nem bombeiros nem inspetores
sabem a verdade. Nós é que sabemos.
Vamos provar que, naquela noite,
havia mais de 4000 pessoas no Cromañón,
enquanto a licença permitia mil.
E, para isso, subornaram a polícia.
Todos os extintores estavam inutilizáveis.
Vamos provar a mentira da creche nas casas de banho.
Uma mentira dos média para nos fazer parecer estúpidos
e salvar a pele do governo.
-Uma mentira que continuam a repetir. -Certo.
Carlos, qual achas que seria uma sentença justa?
Os 15 réus serem considerados culpados
de destruição intencional, homicídio por negligência e suborno.
Ou seja, pagamento e cobrança de subornos.
Deve dar entre oito e 25 anos de prisão.
Para os Callejeros também, Carlos?
Sim.
Carlos, os Callejeros eram miúdos de 25 anos.
Também foram vítimas.
Também perderam familiares. Ficaram arrasados.
Ou fui o único que viu o Pato a retirar pessoas?
-É verdade. -Todos o vimos.
E então?
Eles não podem ir presos como o resto.
Não, os Callejeros organizaram o concerto com o Chabán.
Concordaram em pagar subornos
ou haveria menos gente.
Não se importaram com os fãs.
Que acham que acontecerá
quando tentarem acusar quem acendeu as tochas?
Há uma investigação clara sobre quem acendeu a tocha,
mas o queixoso não se concentrará nisso.
Todos sabíamos que se acendiam tochas naqueles concertos e porquê.
Não éramos crianças malucas
a querer imolar-se dentro de um local.
Se tivessem uma tocha,
sentiam-se parte do espetáculo, pelo menos.
Já não eram uns zés-ninguém em casa ou alguém com um trabalho de merda.
As tochas eram luz, caramba! Luz.
Está bem, Tuca.
Eu percebo.
Mas o tribunal não se importará com a tua visão poética das tochas.
Estás a esquecer-te de algo importante, Nico.
De que estás a falar?
Da música.
Não estou a falar de poesia, mas de música.
Ou esqueceste-te da sensação de ir a um concerto?
Não, não me esqueço.
-Não? -Não.
Pensei que sim.
Lembras-te de que tínhamos uma banda?
Não parece.
Pareces o meu pai.
Que elogio.
Não era um elogio.
Também me lembras do Lucas.
Isso já encaro como um elogio.
Queres? Está fresca.
Gostei de algo que o Cheti disse.
Tem razão.
Sobre não deixarmos de fazer coisas de que gostamos.
Gostas de música, de livros.
Sim.
Não, o que quis dizer foi...
-Vem aí o julgamento. -Sim.
Temos de nos concentrar nisso. É o mais importante.
Temos de estar unidos.
Sim, não estou a falar de agora. Estou a falar do futuro.
Caso contrário, o Cromañón apodera-se de tudo.
Acaba por parecer um projeto.
Percebes?
Sim.
Dá-me isso.
Ligaram-me do México.
E?
Ganhei a bolsa.
-Que bom! -Sim.
Por falar em projetos...
Testemunho e vou-me embora.
E nós?
Lulita.
Senti muito a tua falta.
E eu, a tua. Precisava de ti.
Desculpa por ter demorado.
Não estava bem. Não sei porquê, mas não conseguia estar em Celina.
-Desapareci, basicamente. -Sim, e deixaste-me à espera.
Sim, eu sei.
Mas não foi só a ti. Foi a tudo.
Já passou. Estou aqui.
Claro.
Todos fizemos o nosso melhor.
Sim.
Quanto tempo vais ficar?
Alguns dias.
Fala-me da patinagem. Estás a arrasar, não?
A arrasar, mas tesa.
Mas estou melhor.
Continuo de um lado para o outro. Não aguento mais.
Pelo menos, desta vez trouxe o troféu para casa.
Parabéns, amiga.
Quem está ali?
Olá.
Querido.
-Como estás? -Que tal?
Parabéns pelo menino.
É lindo.
A Juli ficaria orgulhosa.
SANTUÁRIO DOS NOSSOS ANJOS DO ROCK 30/12/04
Já não sei o que fazer ou pensar
A MÚSICA NÃO MATA
Estou meio perdida nesta cidade
Olha para mim
Diz-me onde estás
Os teus olhos são duas luzes que se vão
ACHO MUITO IMPORTANTE QUESTIONAR
A SITUAÇÃO DO HOMEM E DA SOCIEDADE HOJE EM DIA.
Não preciso de mais nada
Só de uma parte de ti
Já não sei o que fazer ou pensar
Estou meio perdida nesta cidade
Olha para mim, diz-me onde estás
Os teus olhos são duas luzes que se vão
Não preciso de mais nada
QUEM VIVE, ESCREVE AMO-TE INFINITAMENTE - LUQUI
Só de uma parte de ti
Não preciso de mais nada
Só de uma parte de ti
Eu sou assim
A rua vive em mim
Já estava à espera
E não queria dizer
O bairro canta à noite para mim
É uma boa música.
Sabes quem a escreveu?
-Também me vais chatear? -Se te ajudar a agir...
-Tinhas razão numa coisa. -No quê?
Que era bom juntarmo-nos todos.
Sim, claro, Male. Era.
Mas, às vezes, sinto
que só entende quem passou pelo mesmo.
Por isso, é importante reunirmo-nos, falar, partilhar.
Sinto que há coisas que não posso partilhar com ninguém.
Como por exemplo?
Não sei. Durante muito tempo, senti-me uma cabra.
Nunca soube lidar com o que aconteceu.
Ninguém soube.
Cada um fez o que pôde e eu não pude fazer muito.
Quase não consegui fazer nada.
Tenho saudades do Luqui.
Eu também.
No outro dia, encontrei o caderno onde escrevia as minhas músicas.
Encontrei uma nota que ele me deixou. Não sei quando a escreveu.
Encarei como uma mensagem.
Dizia algo como: "Escrever é o mesmo que viver."
E que tinhas de escrever para continuar a viver.
Cantas comigo?
Eu sou assim
A rua vive em mim
Já estava à espera
E não queria dizer
O bairro canta à noite para mim
E acho que contigo
Os meus medos podem desaparecer
E agora?
Estou sempre
Noutro lugar
A imaginar algo mais
Olá.
Male.
Olá, Silvi.
Meu amor, como estás?
-Bem, e tu? -Bem.
O Carlos está?
Não, foi fazer umas coisas. Volta em breve.
Queres entrar? Bebes algo comigo enquanto esperas.
Está bem, eu espero por ele.
-Sim? -Sim.
Come algo. Estás muito magrinha.
A minha mãe diz isso todos os dias. Dá comigo em doida.
Como está a tua mãe?
Vai mudar-se, não é?
Sim, daqui a uns dias.
É muito corajosa por fazer isso.
Está apavorada.
-Sim? -Sim.
Bem, algumas mudanças são boas.
Além disso, a tua mãe é forte e pode fazer o que quiser.
Sim, talvez.
Mas está doida.
Quem não está?
Que bom ter-te aqui.
O Lucas deve gostar que estejamos aqui juntas a conversar.
Mas não te preocupes, não falo com fantasmas.
Mas, às vezes, penso
no que ele pensaria, diria ou faria.
É uma forma de o manter perto,
de lhe tocar.
Chegou o Carlos.
Sim, o relatório do mediador investiga as licenças das discotecas.
Sim, do Cromañón e de outras. A Câmara Municipal não investigou.
Claro.
Não. Bem...
Ligo-lhe amanhã.
Adeus.
Malena.
Que surpresa!
Veio à tua procura e ficámos a pôr a conversa em dia.
Queres falar?
Sim.
Bem, vou deixar-vos sozinhos.
Não, Silvia, fique.
Gostaria de falar com os dois.
Estive a pensar e, se não for demasiado tarde,
gostaria de testemunhar.
A sério?
Que aconteceu?
Nada.
Mas sinto que é o mínimo que posso fazer.
Pelo Luqui, pelo Javier, por todos.
Para nós, testemunhares é...
Obrigado.
Anda cá, meu amor.
Obrigada.
Obrigada.
Que é isto?
"Nunca aprendo, amor. Nunca..."
INFINITO AMAR-TE ASSIM É DIFÍCIL DE ENTENDER
JÁ É A TERCEIRA VEZ QUE PENSO EM VOLTAR
Amar-te assim
PARA O LUQUI
É difícil de entender
Legendas: Nadine Gil
Supervisão Criativa Hernâni Azenha
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