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Original subtitles

''Quanto Mais Quente Melhor'', ''Pagos a Dobrar'',

''O Crepúsculo dos Deuses'', ''O Apartamento''...

Vinte e cinco filmes escritos e realizados por Billy Wilder.

Para além de outros vinte ou trinta cujos argumentos escreveu.

Ei-lo em 1988 a caminho do escritório em Brighton Way, em Beverly Hills.

Durante anos tentei entrevistá-lo sobre a sua profissão atrás das câmaras.

E durante anos ele recusou.

Soube então que Mr. Wilder

estava a trabalhar num livro com Hellmuth Karasek,

e pedi para os acompanhar com uma câmara.

Aceitou na condição de eu não mostrar o material enquanto ele fosse vivo,

mas no fim disse, a rir: ''Faça o que quiser''.

Ele achava que isto não seria suficientemente profissional,

um ensaio, no melhor dos casos, para algo real que se faria mais tarde.

Mr. Wilder tinha então 83 anos,

eu tinha 48, ganhara um Oscar com O Tambor

e acabara a minha primeira obra nos EUA, ''Morte de um Caixeiro Viajante''.

Começámos então as nossas conversas

numa mescla informal de inglês e alemão,

uma geração a questionar outra,

o nosso pequeno ensaio levou a outro e a outro...

E acabámos por falar e gravar durante duas semanas.

Estas entrevistas representam uma lição sobre cinema,

uma história oral desse mundo

e um retrato de um dos mestres mais encantadores e talentosos do cinema.

BILLY WILDER NA PRIMEIRA PESSOA

Quando começamos a escrever um filme, não temos uma página em branco,

temos quatro milhões de ideias

que é preciso organizar e ficar apenas com o que é bom.

É mais fácil do que começar do nada, mas ninguém começa do nada.

Começamos sempre com muito.

Um escritor...

tem de ser poeta, por assim dizer,

mas também tem de ser arquiteto.

Tem de ser um organizador. Tem de ser...

contabilista.

Todas essas coisas entram em jogo no momento de colocar tudo

em 130 páginas.

Temos de estilizar as coisas.

A edição da história pode demorar três semanas,

e temos de manter as coisas em segredo,

para que tudo seja manejável, digerível.

Também temos de...

exagerar um pouco

para exprimirmos as nossas ideias.

E isso tem de ser feito através da escrita, da atuação ou de ambas.

Porque quando mostramos o nosso trabalho

não queremos que apontem o dedo ao que fizemos.

E como conseguimos isso?

Como chamamos a sua atenção? Como...?

Como garantimos que percebem o que queremos dizer?

Como fazer isso enquanto realizador?

Como fazer com que se lembrem?

Tem de se fazer...

Quanto mais subtis e elegantes formos, melhor realizador seremos.

Para Mr. Wilder, o sonho americano chegara cedo.

Apesar de ter nascido na Áustria, a mãe tratava-o por Billy

porque em adolescente visitara os Estados Unidos

e ficara fascinada com as histórias de Billy the Kid.

O seu pai geria uma cadeia de bares na Galícia, na Polónia.

Mais tarde, a família mudou-se para Viena,

onde Billy frequentou a escola secundária,

até ao dia em que foi para Berlim com uma banda de jazz americana.

Mr. Wilder tinha pouco mais de 20 anos.

Berlim vivia a loucura dos anos vinte,

e ele diz que esses foram os anos mais felizes da sua vida.

Passado pouco tempo arranja trabalho como jornalista,

há quem diga que era bailarino ou gigolô num clube,

e começa a escrever argumentos para filmes

para o estúdio UFA em Babelsberg.

Os seus trabalhos mais conhecidos são ''Emilio e os Detetives''

e o filme dos Irmão Siodmark, ''People on Sunday''

Em 1933, os nazis assumem o poder

e Mr. Wilder, como milhares de pessoas, teve de abandonar o país.

Chega aos Estados Unidos via Paris.

Imerge na cultura popular, nos desportos e na rádio

e rapidamente domina a língua

e consegue trabalho como argumentista na Paramount.

Um dos seus primeiros êxitos foi ''Ninotchka'',

protagonizado por Greta Garbo, produzido pela MGM,

e promovido com o famoso slogan ''Garbo Laughs'' (Garbo ri).

O realizador Ernst Lubitsch, outro emigrante alemão,

que se tornara amigo e mentor de Wilder.

Testemunho da influência de Lubitsch

é o cartaz que Billy Wilder teve durante anos no seu escritório.

''Como é que Lubitsch faria isto?''

Quando terminava um filme, as pessoas vinham ter comigo e diziam:

''Parece Lubitsch.

É exatamente como Lubitsch, mas não é Lubitsch. Não é igual''.

Era uma forma de pensar completamente diferente,

que era difícil de imitar.

Como dizíamos na altura, ele não era um realizador

que tivesse medo que as pessoas não o compreendessem,

ou que tivesse medo que...

Dois e dois são quatro,

e três e um são quatro,

e um e um e um e um também são quatro.

Mas Lubitsch dizia: ''Dois e dois, e acabou.

O espetador que faça as contas''.

Umas vezes trabalhávamos no escritório.

Outras vezes íamos a Nova Iorque.

Estava sempre com ele.

Não havia um dia que estivesse com ele em que não...

Nessa altura reuníamos-nos uma ou duas vezes por semana.

Ele tirava sempre o melhor partido de cada situação, por assim dizer.

Frustrado pelo modo como outros cineastas

retalhavam os seus argumentos,

Wilder torna-se ele próprio realizador.

Em 1942, realizou o seu primeiro filme americano,

''A Incrível Susana''.

Disse que fez o seu primeiro filme em legítima defesa...

- Claro. - Contra os argumentistas.

Contra os realizadores.

Contra os realizadores.

Odiava quando me perguntavam

se os realizadores também tinham de saber escrever

e eu respondia que era mais importante que soubessem ler.

AS AVENTURAS HILARIANTES DE UMA MENINA GRANDE

QUE É DEMASIADO BOA PARA SER VERDADE

Sabes, Susan? És uma rapariga muito especial.

Podes crer que sim.

No dia anterior, fui visitar Lubitsch.

Disse-lhe: ''Amanhã começo a trabalhar

nas primeiras cenas do meu primeiro filme.

Estou borrado de medo''.

Ele respondeu-me: ''Já fiz 70 filmes, e continuo a borrar-me de medo''.

Dizem que é difícil contar uma história num palco.

Mas nós, os cineastas,

podemos levar a nossa câmara para todo o lado.

Sim, não há limites em relação a onde a colocar...

Isso é o que eles acham.

É verdade que podemos levar a câmara para qualquer lugar,

mas é muito mais difícil,

porque não sabemos onde a colocar.

Temos mais liberdade para tomar uma decisão,

mas a decisão pode ser desastrosa.

No teatro, as opções são limitadas...

Uso-a como o Eisenstein?

Uso-a como o Bosby Berkeley?

- De cima. - Sim.

A perspetiva de um eletricista.

Como podemos fazer o que quisermos, é muito mais difícil.

O que eu faço...

O meu método é trabalhar rápido

e tentar fazer o menor número possível de takes.

Takes bons e interessantes,

mas não o tipo de takes

com os quais os cinéfilos se enfurecem se acham que são maus.

Se isso acontecer, está tudo perdido.

Sobretudo se se perceber que havia uma equipa de câmaras.

É algo cinematográfico.

É como um orgasmo permanente.

''Olha, há muitas cenas em grande plano''.

''Filma e cala-te, sacana, quero ir para casa''.

O impacto do filme, o poder do filme,

são os planos de detalhe que...

fazem estremecer a casa.

- Dê-me exemplos. - Está bem.

Em ''Farrapo Humano''

há um homem que receia

não dormir durante a noite por não ter álcool.

Escondeu uma garrafa algures e procura-a por toda a casa.

Não a encontra e por fim deixa-se cair no sofá,

olha para cima e...

FARRAPO HUMANO

Quando Wilder decide adaptar o famoso romance de J. Cain, ''Pagos a Dobrar'',

procura a ajuda de outra lenda da ficção, Raymond Chandler,

mas a colaboração revela-se complicada.

Não fazia a mínima ideia do que era escrever um guião.

Apenas conhecia os movimentos da câmara.

''A câmara entra pelo buraco da fechadura

e depois roça a roupa interior da senhora''.

Ele queria ser cineasta, mas não era disso que precisavas.

Disso podias tratar tu.

Mas, o que é que um guião deve ter?

Nada, é só descrever a cena. Se é de dia ou de noite,

para que o câmara possa montar a cena.

Ele não conhecia as regras...

Como foi trabalhar juntos?

No início, queixava-se de si, dizia que era mal-educado.

Não, isso foi a meio do guião.

Não no início.

Regressou porque havia muitas raparigas que me telefonavam

e isso deixava-o perturbado.

Expliquei-lhe a cena,

incluindo o primeiro ato, o segundo, etc.

Mas ele não tinha o dom para o grande ecrã.

Um dramaturgo saberia o que fazer.

Se temos um Mamet, eles sabem como...

Como montar uma cena.

E como adicionar os diálogos.

É como...

É como no xadrez,

fazemos um movimento e continuamos por essa linha.

Uma grande cena que o filme pode dispensar, é uma má cena.

Se eras tu quem fazia esses movimentos,

- o que fazia ele? - Colaborámos nos diálogos...

e definimos o ambiente do filme.

O operador de câmara era John Seitz.

Pedi-lhe um ambiente de tarde

na fictícia casa espanhola de Los Feliz.

Eu queria que as pessoas vissem o pó.

E ele apareceu com umas coisas prateadas...

Não queria saber de peixes coloridos.

Nem de renovar os seguros com Mr. Dietrichson e a sua filha Lola.

Pensava na rapariga de cima, e na forma como olhara para mim,

e queria voltar a vê-la de perto.

Seitz era um homem com coragem.

Foi também ele o operador de câmara de ''Farrapo Humano''

e de ''Cinco Covas no Egipto''.

''Esta cena é muito bonita no guião,

façamo-la também bonita no ecrã''.

É negro.

Na cena da morte,

só se vê a mulher atrás do volante fazer isto.

E isso foi o assassinato.

Sim, essa cena em que a câmara se afasta um centímetro.

Porque estás a fazer isso?

Porque estás a buzinar?

Um dia entrei no carro,

que estava estacionado em frente à Paramount,

mas o carro não trabalhava.

Voltei a correr e gritei: ''Não desmontem o cenário! ''.

Há dois tipos de filmes.

Um para o público

com uma história simples,

bem estruturada e ornamentada.

Que compreendemos porque a história é muito simples.

Outro com uma história complicada.

E se tiver muitos pormenores, as pessoas não conseguem segui-la.

Mas antes de ouvirem uma versão distorcida e exagerada,

antes que os colunistas de Hollywood peguem na história,

talvez queiram ouvir os factos.

Toda a verdade.

Se assim for, vieram ao sítio certo.

Havia a particularidade

de não se conseguir filmar através da água.

A superfície distorcia a imagem.

Tentámos várias vezes, mas era impossível.

No entanto, por fim encontrámos uma solução.

Pusemos...

um espelho no fundo da piscina.

Filmámos diretamente o espelho e funcionou.

Dessa forma podia ver os polícias e os jornalistas a olhar para a água.

Era um simples guionista com um par de maus filmes como crédito.

Pobre idiota,

sempre quisera ter uma piscina.

No início, ''O Crepúsculo dos Deuses''

tinha uma abertura muito diferente, quase cómica.

Passava-se numa morgue de Los Angeles

onde os cadáveres se levantavam e contavam as suas histórias.

Mas este prólogo foi eliminado após uma antestreia desastrosa.

Via-se o corpo de Holden.

Era como fazer o registo num hotel,

onde escrevem o nosso nome numa etiqueta,

bem, o nosso nome ou John Doe,

se for uma pessoa não identificada.

Depois pegavam numa etiqueta e atavam-na ao dedo gordo do seu pé.

Achava muita graça a essa cena.

Fizemos uma antestreia em Poughkeepsie,

no estado de Nova Iorque, e foi terrível.

- Porquê? - Por causa do público.

Eu estava sentado numas escadas,

e passou uma senhora com um grande chapéu.

Ia à casa de banho,

mas voltou-se e perguntou-me...

''Estava lá dentro?''. E eu respondi que sim.

''Alguma vez viu uma porcaria como esta?''

E eu respondi-lhe: ''Nunca''.

E isso nos primeiros cinco minutos de um filme

no qual tínhamos trabalhado durante um ano.

Como disse, o público individualmente é idiota,

mas coletivamente, são génios.

AMOR NA TARDE

Boa tarde, Mr. Flannagan.

Olá.

Boa tarde, senhores.

Estava tudo preparado

para procurar locais em Paris.

Então, começou a falar

das sanduíches horríveis e do café frio.

Disse...

''Que fazemos em relação ao título?''

''Que queres dizer?

O título é ''Amor na Tarde''.

''Estás a brincar!

Que espécie de título é esse?''

Eu disse-lhe: ''Que sugeres?''

Então tivemos uma pequena discussão

sobre o que é um bom ou mau título.

''Diz-me o melhor título que te lembres''.

Pensou durante cinco segundos e disse:

''Wichita''.

A cidade do Kansas.

''Porque é que é um bom título?''

''Porque é o Velho Oeste''.

''Se Wichita é um bom título,

então há outros também muito bons, como Kansas, Seattle...

Oklahoma também é um bom título.

Há mais 49 bons títulos''.

''Estás a gozar comigo?''

''Não estou a gozar contigo.

Este é o título e é assim que vai ficar.

E aviso-te já,

não quero que tenhas mais ideias

que pareçam anedota''.

''Que queres dizer?''

''Pega no guião e vai para casa''.

Eram tipo 13h30.

Pedi-lhe para me ligar às 18h00.

''Tiveste tempo para pensar e decidir,

mas nós vamos ficar.

É o melhor para o guião. Adeus''.

E fomos, com o guião e tudo.

Sentámo-nos em frente a uma farmácia e começámos a rir.

Às 18h00, telefonou-nos e disse:

''Não percebes uma piada?''

Uma piada... Wichita.

Terias feito filmes se não te tivessem pagado para isso?

Estás louco?

Estás a gozar? Por amor de Deus...

Ficar à mercê dos atores

e dos executivos? Credo...

Acha que sou um idiota? Um masoquista?

Não, quero ganhar o mais possível com essas pessoas

porque eles vão tentar dar-me o menos possível.

É a luta que existe entre nós.

Na estreia mundial de ''O Inferno na Terra''

aconteceu uma coisa inacreditável:

para não ofender o público do lucrativo mercado alemão,

a Paramount sugeriu mudar a nacionalidade do vilão

de alemão para polaco.

Quando estava em Paris a gravar ''Amor na Tarde'',

recebi uma carta que dizia...

Era de um alto cargo a seguir a Balaban, uma pessoa muito importante.

''Será do seu agrado saber

que vamos estrear ''O Inferno na Terra''

na Alemanha,

apesar de isso não estar inicialmente previsto.

Mas será necessário fazer algumas pequenas alterações.

O vilão não é nazi,

é polaco.''

Deixem-se de disparates,

sabemos que é o bufo e qual é a recompensa.

- Vamos despachar isto. - Despachar isto como?

Isto é o quê? Um tribunal popular?

Porque não agarras numa corda e fazes o que está certo?

Não me dês ideias.

Estão muito contentes. Estão aqui há demasiado tempo.

Somam dois mais dois e dá-vos quatro.

- Mas não é quatro. - O que é que tens a ver com isso?

Enganaram-se de pessoa.

Os nazis não iam meter dois bufos na mesma caserna.

E aquilo que me fizerem a mim,

vão ter de voltar a fazê-lo quando encontrarem o culpado.

Não podia acreditar nos meus olhos quando li a carta,

e dizia também que isso significaria muito dinheiro.

Mas o dinheiro não me importava.

Escrevia isto a um homem que tinha perdido a mãe e o padrasto em Auschwitz,

e ele agora queria fazer dos polacos os maus da fita.

Enviei uma cópia da carta a Balaban e exigi um pedido de desculpas.

Tinha um contrato com a Paramount para mais três filmes,

e se não pedissem desculpa, não as faria.

Estava furioso quando escrevi a carta.

Mas não aconteceu nada.

Ninguém se desculpou. Então, peguei nas minhas coisas e fui-me embora.

Wilder rescindiu o contrato

e, após 18 anos de êxitos cinematográficos,

deixou de trabalhar para a Paramount.

Wilder tinha opiniões fortes sobre a traição dos nazis aos europeus,

sobretudo no respeitante ao Holocausto.

Em 1945,

Wilder trabalhara com o Departamento de Guerra dos Estados Unidos

para fazer um filme que obrigasse o mundo

a confrontar-se com a realidade dos campos de concentração alemães.

MOINHOS DA MORTE

Quando os aliados chegaram,

retiraram os sobreviventes das masmorras

onde vivam tendo ratazanas por companhia.

Apesar dos esforços desesperados dos médicos aliados

a ajuda chegou demasiado tarde para muitos.

O general e todos os outros estavam sentados connosco,

e eu disse-lhes que tínhamos de mostrar este filme

ao maior número possível de alemães

porque tinha a sensação de que iam difundir mentiras e dizer:

''São fascistas. O filme foi feito por uns judeus de Hollywood.

Exageram tudo para que pareça que sofreram''.

Mas, de verdade, eram todos pele e osso.

Acho que disse que o filme estrearia em Wurzburg.

E fizemos uma antestreia ao estilo de Hollywood.

As pessoas estavam a ver uma opereta

e pedimos-lhes: ''Por favor, fiquem e vejam isto''.

Iniciaram a viagem como se fossem a um piquenique.

Afinal de contas, a distância entre qualquer cidade alemã

e o campo de concentração mais próximo era muito curta.

Quando o filme acabou...

só ficaram 75 dos 500 espetadores.

Ninguém tinha preenchido nenhum dos cartões,

e tinham levado os lápis todos.

Isso foi um problema.

Disse: ''Deixa-me pensar''. E tive uma ideia:

a senha de racionamento que lhes permitia arranjar pão

deveria ser carimbada no fim da projeção,

caso contrário não teriam pão.

Mas estes alemães,

que disseram que nada sabiam, também são responsáveis.

Puseram-se de boa vontade

nas mãos de criminosos e lunáticos.

Agora dizem que não pretendiam fazer mal,

que não sabiam o que estava a acontecer

ou que não podiam fazer nada.

Os agricultores receberam cinzas humanas como fertilizante,

sem, aparentemente, suspeitar que eram cinzas humanas.

Os fabricantes receberam toneladas de cabelo humano,

sem, aparentemente imaginar que era de mulheres assassinadas.

Aqueles que viviam perto

dos campos de concentração nunca tiveram pesadelos.

Para eles, os gritos e o choro dos torturados

eram apenas o som do vento.

Durante a Primeira Guerra Mundial, eu era um miúdo, em Viena,

mas estava do lado errado. Desta vez, estava do lado certo.

Os americanos nunca tinham sofrido uma guerra no seu próprio território.

Nunca tinham tido aviões a lançar bombas sobre eles.

Houve um ou outro submarino, no Atlântico, que eles capturaram,

e um submarino japonês, mas de resto...

Estávamos bem preparados para essa situação.

Tínhamos lido muito,

tinham-nos falado dos apagões...

e das ambulâncias.

Também fizeram um simulacro como treino.

Parecíamos os Keystone Cops.

Era um simulacro de preparação para um bombardeamento.

Tínhamos de salvar pessoas.

Vieram ambulâncias e tivemos de socorrer aquelas pessoas.

- Isso em estúdio? - Não, nas ruas de Bel Air.

Deitámos as pessoas em macas

e metemo-las na ambulância.

Como não éramos muito fortes, escolhemos uma mulher.

E claro, escolhemos a mais baixa.

Era a mulher de Hitchcock.

Deitámo-la na maca e metemo-la na ambulância.

A ambulância partiu a toda a velocidade. Mas esquecemo-nos de fechar a porta,

e ela saiu disparada.

Depois houve um apagão de treino...

- Um simulacro. - Sim.

O Walter Reisch e Lobitsch também lá estavam.

Patrulhavam as ruas para verificarem que as luzes estavam apagadas.

Caso contrário, gritavam:

''Há luz nessa janela''.

E quando chegavam junto da janela diziam:

''Os nazis já chegaram?...''

Com sotaque alemão.

Durante o verão e o outono de 1945...

Nunca esquecerei o ambiente da cidade.

Meti-me num helicóptero com um operador de câmara

e sobrevoámos as ruas.

Era indescritivel.

Disseste que...

se o material documental não servisse e não pudesse ser utilizado,

retratarias os alemães de outra forma.

És um artista, mas também um moralista.

Não o podes negar.

Em ''A Sua Melhor Missão'', revelas uma imagem diferente dos alemães.

Se tivesses tido campos de concentração e cadáveres, não terias...

Espera, Johnny, senta-te.

A SUA MELHOR MISSÃO

Não é romântico?

Em cada filme...

Pensava que tinham uma relação pessoal muito próxima.

Não com a Paramount Pictures.

Se tivesses visto os outros filmes da Paramount,

perceberias porquê.

- Sabrina, vamos sair daqui. - Sim, vamos.

Espera.

- Sai tu primeiro, encontramo-nos... - No corte de ténis coberto.

- Sim. - E trarás champanhe.

Claro.

E vais pedir à orquestra que toque. Não é romântico?

Claro que sim.

Eles tinham a propriedade de algumas canções

para não ter de pagar direitos de autor

- e nesse filme... - É muito bonito quando as usas em Paris,

enquanto passeavam pelos Campos Elíseos.

Por que razão as usas quando eles atravessam as ruínas de Berlim?

- Usei-as? - Sim.

É para veres que não somos gastadores.

Não sei...

Acho que gostavas desse contraponto, não?

Sim, claro.

Sem dúvida.

Não sei por que tentas envergonhar-me, tem um significado profundo.

Quando começaste a escrever, já tinhas em mente a Marlene Dietrich.

A Berlim de 1945 e Dietrich encaixavam na perfeição.

Sim, Dietrich e as canções de Hollander.

Ela tinha regressado da frente.

Tinha passado mais tempo na frente que eu.

Mais até do que Eisenhower.

Tinha feito muitos filmes com Sternberg e tal,

e era uma perita em iluminação.

Sabia como posicionar o rosto para ficar bem.

Aprendeu com ''Strindberg''...

- É um deslize interessante. ­ Sim, um verdadeiro deslize.

Sim.

Seja como for, ele ensinou-lhe isso.

É raro que uma atriz diga:

''Acho que essa luz não está no sítio certo''.

Sim.

Ninguém sabe se a cena está iluminada demais ou escura demais.

''A luz''...

É um pouco...

''Estás à vontade.

Explica isso ao eletricista.

Eu não sou teu inimigo, ele é que é''.

É preciso ter cuidado.

Mas era uma rapariga de 35 anos.

Bem, para mim, era mais homem que mulher, sabes?

- Um combatente. - Sim.

Falávamos de...

de ilusão e de charlatanismo.

Ilusão é aquilo que vemos no ecrã do cinema,

quando ela aparece com todos aqueles rapazes,

e que sabíamos ser uma farsa.

Telefonava-lhe sempre que ia a Paris.

Mas ela disfarçava a voz,

fingia que era uma cozinheira checa ou uma criada francesa.

E respondia-me:

''Vou transmitir a mensagem a Miss Dietrich''.

Exagerava muito no sotaque, não?

Sim.

''Vá lá, por amor de Deus. Marlene, sei que és tu''.

''Não percebo. Que disse? ''.

Disse-lhe: ''Marlene, vou subir.

Quero falar contigo.

Eu vendo os olhos.

Que achas''?

''Telefono-te na segunda de manhã''.

E ligou-me no domingo à noite a dizer que não podia encontrar-se comigo

porque ia ao oftalmologista.

Disse-lhe que nos podíamos encontrar na terça e ela responde:

''Não ias embora na terça?''

Disse-lhe que poderia mudar os meus planos, mas ela respondeu:

''Não, não, tinhas planeado ir na terça, por isso vai terça''.

Gosto verdadeiramente dela

e vou sentir a sua falta.

Ou, se eu morrer antes dela, ela vai sentir a minha falta.

Deus não o permita.

Tive problemas com o argumento de Sabrina.

Escrevia à noite,

- e durante o dia filmavas... - O que tinha escrito à noite.

Uma vez... tinha de escrever quatro ou cinco páginas...

Era uma sexta, por isso tinha o sábado e o domingo para adiantar trabalho.

Mas nessa sexta, só consegui escrever página e meia.

Ninguém sabia. Exceto Audrey Hepburn.

Porquê ela...?

Porque eu lhe disse. Disse-lhe que não podia ir tão depressa

porque não tinha mais nada escrito.

Curiosamente ela respondeu: ''Compreendo''.

Filmei a cena de um ângulo, depois de outro.

Tentei prolongar o momento.

Por vezes ela fingia que se enganava na fala para me ajudar.

O que a Monroe fazia sem querer, ela fazia-o para te ajudar.

Terminámos o que eu tinha escrito às 17h00,

e disse-nos, a mim e ao meu assistente...

''Dói-me a cabeça, ficamos por aqui''.

Ajudou-me imenso.

Muito bem.

A reunião do conselho de administração das Indústrias Larrabee vai ter início.

Como presidente, gostaria de dizer...

A presidente está tonta.

Audrey pegava numa fala complicada e lia-a com grande convicção.

Por vezes temos de dar indicações,

mas sem que...

odeiem o guionista,

apenas para ajudar na cena. Isso é muito importante, a cooperação...

Se eles quiserem...

ser maldosos, podem sê-lo.

Mas em última instância não me prejudicam a mim nem ao realizador.

Prejudicam o filme, e prejudicam-se a eles próprios.

Vou só pôr qualquer coisa. Vou à cozinha vestir-me.

À cozinha?

Sim. Sabe o que faço quando faz muito calor?

Ponho a roupa interior no congelador.

No congelador.

Tenho sempre em mente que...

Bem, era algo sexual.

É genial vestir roupa interior congelada.

Resumindo, fizemos umas graças à volta da temperatura.

Posso pôr o ventilador

no congelador,

deixar a porta do congelador aberta,

deixar a porta do quarto também aberta

e empapar os lençóis e a fronha com água gelada.

Não, é demasiado frio.

Hoje em dia os filmes mostram dois corpos nus

e não sabemos se aquilo é um seio ou um joelho.

Não se conseguem distinguir, é como um pretzel.

E isso não se consegue imitar.

Porque agora vou abraçá-la e vou beijá-la...

muito rápido e com muita intensidade.

Tenha calma!

Uma vez chegou atrasada e eu disse-lhe...

- Em Nova Iorque? - Não, aqui no estúdio.

''Que aconteceu?'' E ela respondeu:

''Não encontrava o estúdio.''

Há seis anos que ela trabalhava aqui.

''Esqueci-me onde ficava o estúdio. Não o encontrava. Desculpe.''

- Estava a falar a sério? - Sim.

Sugeri que podíamos passar a mandar um motorista para a ir buscar.

''Não, não, não.''

- Era ela que conduzia? - Acho que sim.

Mas...

Quando sabemos que uma pessoa não é de fiar

e que não diz bem as suas falas, podemos prevenir-nos.

Mas ela era...

Era surpreendente.

Fazia sempre algo inesperado.

Às vezes sabia oito páginas do guião.

Mas outras vezes, tinha um bloqueio mental.

Às vezes chegava muito cedo.

Era consternante.

Eu faço filmes, e ela era paga para interpretar um papel.

Mas tentava pôr-me no seu lugar

e...

Andava sempre no médico.

Todos os médicos que arranjava.

Psicólogos, psiquiatras,

até hipnotizadores.

Não sei, consultou-os a todos.

Mas havia algo

dentro dela...

demónios que a faziam esquecer as falas

e a bloqueavam mentalmente.

Às vezes ela conseguia dar a volta à situação.

Em ''Quanto Mais Quente Melhor'' havia uma cena na praia,

e ela tinha um diálogo complicado com o Tony Curtis,

que fingia pertencer à família Shell,

a do petróleo e tal.

Eram quase duas páginas de diálogo.

Filmámos a cena na praia.

E havia uma...

Havia uma base da marinha,

e os aviões passavam cada 10 minutos.

Imaginei que demoraríamos quatro dias a filmar a cena por causa dos aviões.

Filmavam quando não havia aviões, não?

Mas a segunda vez que filmámos, saiu tudo bem.

O diálogo completo de duas páginas, sem falhar uma vírgula.

Tudo na perfeição.

Demorámos 18 minutos, e não três dias.

Mas havia outras cenas em que apenas tinha uma frase

e acabávamos por a repetir 80 vezes.

Sou eu, Sugar.

''Sugar, sou eu''. Não, é ''Sou eu, Sugar''.

Trocava a ordem.

Despois de 30 takes...

''Vamos espetar isto na porta

com um alfinete''.

''Sou eu, Sugar''.

Próximo take.

''Sugar, sou eu...''.

''Olha, está aqui.

Está aqui escrito''.

Respondeu-me: ''Não quero ler isso,

vou esquecer as outras falas''.

Eu disse-lhe: ''Só tens uma fala''.

Onde está esse uísque?

Pusemos as falas em todas as gavetas 83 vezes.

E depois de 60 takes, disse-lhe:

''Calma. Não te preocupes''.

''Não me preocupo com quê? ''

Qual é o problema? Só fizemos 60 repetições.

Às vezes dizia a fala perfeita,

sem nenhum erro e...

no momento certo com o tom de voz perfeito,

percebia a piada.

Sabia que tinha nascido com um dom,

porque haveria 50 atrizes,

e todas elas muito boas...

Algumas poderiam ser mais...

não eficientes, mas sim mais técnicas.

Mas nenhuma teria sido melhor que ela.

Tínhamos dois homens,

muito desejados na altura,

dois sex symbols da nação.

Tivemos muita sorte.

Não era uma rapariga comum.

Era a rapariga mais atraente da década.

- Ela tinha uma postura altiva ou...? - Não.

E eu também não alimentava isso.

- Não? - Não, não é o meu estilo.

Se me focasse demasiado num ator,

poderia estar a ignorar os outros.

Tal como com as mulheres...

Tinha de estar tudo muito claro.

Quando estavam todos descontraídos,

era quando começávamos a trabalhar.

Não queríamos mal-entendidos ou mistérios

Éramos todos muito frontais.

Tudo se sabia, e todos nos conhecíamos.

Confiávamos uns nos outros.

Ninguém se metia com ninguém nem fazia nada de estranho.

É a única forma de se trabalhar bem.

Tivemos muita sorte em ter o Tony Curtis e o Jack Lemmon

porque são muito diferentes em termos físicos e...

na forma de estar. Isso era óbvio, por exemplo, na cafetaria.

Lemmon comportava-se como se estivesse em casa.

E o Tony Curtis andava encostado às paredes...

Ao Tony custava-lhe muito sair do camarim.

Tinha vergonha. O Lemmon ia buscá-lo pela mão.

Estávamos a falar de ritmo e de como passar de uma fala para a seguinte

deixando o espaço necessário entre elas.

Isso significa que temos de ter em conta as gargalhadas do público

e saber quanto tempo vão durar.

- Antes de passar à fala seguinte. - Sem dúvida.

O realizador sabe perfeitamente

se a coisa se está a arrastar,

embora também não seja bom ir com muita pressa

porque depois as coisas atropelam-se.

Foi por isso que deu mais diálogos a Lemmon?

- Caso não rissem? - Não, caso se rissem.

Caso o público se risse.

Mas não se pode prolongar isso.

Caso contrário sobrepunha-se à fala seguinte.

Se não acabam de ouvir aquela fala,

não vão ouvir a que vem a seguir.

Por falar em gargalhadas,

disseste certa vez

que é preciso criar um certo ambiente para o público se rir.

Sim, numa comédia com gargalhadas constantes.

Não pode haver uma gargalhada esporádica

e depois nada durante cinco minutos.

Isso é pior do que não haver nenhuma gargalhada.

- Porque uma vez que começa... - É efeito bola de neve.

E como se consegue por o público a rir logo no primeiro take?

O primeiro take...

é um take...

O primeiro take pode ser escalar a fachada de um hotel.

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

Isso é uma coisa que temos de controlar

porque não podemos sobrepor uma fala à fala seguinte.

E é verdade que eles faziam isso

entre as falas de cada um,

em algumas cenas.

Mas eu era capaz de controlar a duração da cena.

O que é que o Jack Lemmon dizia disso?

No início acho que se chateou porque eu interrompi

uma das suas melhores cenas. Mas depois percebeu.

E está sempre a falar disso

para mostrar como sou um realizador engenhoso.

Vou ver se encontro essa cena.

Acho que é uma boa lição.

Curtis aproxima-se da janela.

A partir do momento em que ele diz: ''Estou noivo''.

Começa tudo a funcionar.

Felicidades. Quem é a felizarda?

Eu.

''O quê?'' ''Osgood pediu-me em casamento.

Casamo-nos em junho''.

''Que estás a dizer? Não te podes casar com o Osgood''.

Achas que é demasiado velho para mim?

- ''Jerry, não estás a falar a sério.'' - Porquê?

Ele está sempre a casar com raparigas.

Mas tu não és uma rapariga. És um homem.

Porque é que um homem iria casar com outro homem?

Por segurança.

''Jerry, é melhor deitares-te. Não estás bem.''

''Para de me tratar como uma criança. Não sou parvo, sei...

Sei que há um problema''. ''Bem vejo que sim''.

Jerry, há outro problema.

Que vais fazer na lua de mel?

Já falámos disso. Ele quer ir à Riviera,

mas eu prefiro as cataratas do Niágara''.

''Estás louco?''

''Que pensas fazer? Como vais resolver isso?''

''Acho que não vai durar muito''.

- Conto-lhe no momento certo. - Quando?

Depois da cerimónia. Fazemos uma anulação rápida

e chegamos a um bom acordo.

E eu continuo a receber mensalmente os cheques da pensão''.

''Estás louco. Jerry, ouve-me.

Existem leis, convenções.

Não podes fazer isto''.

Joe, esta pode ser a última oportunidade de me casar com um milionário.

Jerry, posso dar-te um conselho?

Esquece isto tudo. Diz para ti próprio que és um homem.

És um homem.

- Sou um homem. - Isso é que é de homem.

E assim sucessivamente.

Esta é uma cena de página e meia, mas...

- É de cinco ou seis páginas. - Não, de página e meia.

Mas interpreta-se como se fossem cinco páginas.

Divertes-te a ler o guião. Divertiste-te a escrevê-lo?

Sim, se souberes...

se pensares que estás a trabalhar em algo sólido...

Percebes o que quero dizer?

Éramos como crianças numa loja de doces,

porque podíamos escolher qualquer coisa.

Poderíamos ter escrito cinco vezes mais

porque tudo o que tocávamos, tudo o que dizíamos, era divertido.

Até os ensaios eram divertidos.

E tu criaste uma atmosfera

em que tudo funcionava.

Tudo funcionava, e...

Quando conquistamos o público,

quando despertamos a sua atenção, quando eles interagem

com as pessoas no ecrã,

é como tê-los prendidos pelo pescoço. Não os podemos soltar.

E não podemos deixar de apertar.

Não os deixamos fugir. Não deixamos que de repente...

Não os acordamos. Não deixamos que se apercebam...

Que estão apenas a ver um filme. Isso é muito importante.

E muitos poucos filmes o conseguem.

Poucos filmes meus o conseguem.

Lembro-me que estávamos a trabalhar no final de ''Quanto Mais Quente Melhor'',

na cena em que Lemmon tenta explicar a Joe E. Brown

que não pode casar com ele.

Precisávamos da fala final.

Uma gargalhada demolidora.

E lembrámo-nos de ''Ninguém é perfeito''.

Não nos entusiasmou,

mas era muito tarde e estávamos exaustos.

Decidimos pôr isso por escrito para que eles pudessem ensaiar.

Esperávamos encontrar algo mais divertido

mas chegou o momento de filmar a cena.

Conto isto apenas para conhecerem um pouco melhor

dois vencedores do Laurel Award.

- Sou um homem. - Bem, ninguém é perfeito.

Não existe um filme no qual...

a história fique completamente definida.

É impossível.

Mas temos de dar algumas pistas ao público.

Ele tentará manter-se sóbrio,

e essa congressista e o polícia...

- tentarão encontrar a felicidade. - Sim.

Pareces muito esperançoso, mas deves estar...

Preferes inexpressivo ou intenso?

- Inexpressivo. - Podes...

Está bem, começas com indiferença e depois mostras-te surpreendido.

E depois voltas a ficar frio.

É uma sugestão, podes fazer diferente.

Só tens de...

Quando trabalho com atores que já trabalharam comigo,

digo-lhes: ''Não são os 10 mandamentos.

São as 10 sugestões. Se tiveres uma melhor,

diz-me antes de começarmos a filmar.

Não apareças nas filmagens

a dizer que não podes fazer aquela cena.

Diz-me dois dias antes para poder prepará-la com tempo''.

Afinal, quando estamos a filmar,

tempo é dinheiro.

E às vezes é demasiado tarde.

Comecei alguns filmes sem saber como seria o terceiro ato.

Sabia como queria que o filme se desenrolasse

mas havia um erro de cálculo

porque quando começamos um guião,

temos de contratar a equipa,

reservar o estúdio, desenhar os cenários...

E então chegou o momento de começar, mas o guião não estava acabado.

E seguimos em frente.

Começámos a filmar e foi o melhor,

porque pudemos desenvolver melhor as personagens.

Mas filmas sempre as cenas por ordem.

Sim, embora isso às vezes também seja complicado.

Uma vez tivemos de filmar primeiro o final,

mas faltavam-nos 30 páginas por escrever.

Acho que vou desistir de tudo.

Desistir de quê?

O APARTAMENTO

Porque é que as pessoas têm de amar outras pessoas?

Compreendo.

Uma rainha.

Tenho um dom especial para me apaixonar pelo homem errado,

no lugar e no momento errados.

De quantos homens estamos a falar?

De três.

Prémio para melhor argumento e guião escritos especificamente para filme.

E o vencedor é...

''O Apartamento'', de Billy Wilder e I. A. L. Diamond.

Obrigado, I. A. L. Diamond.

Obrigado, Billy Wilder.

Jack Lemmon é o tipo de homem

sobre cuja atuação, em cada filme, me poderias questionar

e a resposta seria sempre a mesma.

É um profissional completo e purista.

Não há outro ator que leve o seu trabalho mais a sério.

- Que tal estou? - Bem. Espere.

Obrigado.

Reparei que quando trabalhava no elevador,

usava sempre uma flor.

Boa sorte. E limpe o nariz.

Havia muita química entre ela e Jack Lemmon.

Outras atrizes poderiam tê-lo feito. Não é assim tão difícil.

Não é um papel assim tão difícil.

Mas ela esteve insegura até ao final.

Mas a personagem dela é assim...

Sim, mas para interpretar uma pessoa insegura,

é preciso estar-se muito seguro de como a interpretar,

porque...

Para interpretar uma personagem estúpida,

ser estúpido não significa ser o melhor para o papel.

É preciso ser muito inteligente para fazer de parvo

e estar sóbrio para fazer de bêbedo.

A Shirley MacLaine perguntou à minha mulher, Audrey:

''Acha que vai ser um bom filme? ''.

Ela respondeu: ''Ele está a esforçar-se, mas nunca se sabe''.

''Claro, claro''.

Ela...

- Tinha dúvidas? - Sim.

Deixa-me perguntar-te algo.

Naquele momento estavas no auge da tua carreira, certo?

Logo após ''Quanto Mais Quente Melhor''.

O auge da minha carreira é sempre o filme seguinte.

- ''O Apartamento''? - Não, é sempre o seguinte.

O último filme foi bom? Pois o seguinte vai ser melhor.

Mas ganhaste muita reputação após ''Quanto Mais Quente Melhor''.

Muita? Não sei, o normal.

Mas ainda assim ela tinha dúvidas.

Sim, ela conhecia-me.

É fácil dizer que um filme é bom ou mau,

mas é difícil sabê-lo quando se lê o guião.

Temos de fazer um esforço.

A vida, que pode ser muito compassiva,

teve piedade de Norma Desmond.

O sonho ao qual ela se agarrara,

não a abandonara.

Disseram a Gloria Swanson que queríamos fazer uma audição.

Dizer uma atriz com o seu estatuto que tem de fazer uma audição,

era ir longe de mais.

Ela respondeu: ''Claro, compreendo''.

- Aceitou? - Aceitou sem pensar duas vezes.

A sua forma de atuar...

Hoje em dia, as mulheres com aquela idade

atuariam de forma diferente.

Ela atuava como no cinema mudo...

Onde eram mais expressivos porque tinham de interpretar palavras.

E era isso que eu gostava nela.

Tinha uma forma de atuar datada.

O estilo dela era dos anos 20. Isso não se aprende.

É inato.

Não era um estilo moderno.

Mas era um pouco arriscado,

porque quando é levado ao extremo,

pode-se cair no exagero.

Sim, pode roçar o ridículo.

Como uma mulher bonita pode roçar o feio.

É Norma Desmond, não é?

Do cinema mudo. Era importante.

Eu sou importante.

O cinema é que ficou desinteressante.

Gloria Swanson revelou algum sinal de ''declínio''?

Não, ela sabia o que fazia. Tive de controlar um pouco, mas...

É mais fácil dizer a alguém que modere a sua intensidade

do que dizer-lhe que se esforce mais.

Sim, moderar é mais fácil que esforçar-se.

Há muita matéria e poderia explodir,

por isso é preciso controlar.

- Não disse que não era muito falador? - Às oito horas?

- Impossível. - Às nove?

Não. É muito tarde.

Às cinco? Às quatro?

Da tarde? Quando é que trabalha?

Quando não estou ocupado. Vai tentar?

Disseram-me que você não era bom.

Então tentaremos os dois.

Você tentará estar aqui às quatro e eu tentarei ser bom.

Boa noite, Mr. Flannagan.

Boa noite...

miúda.

Não havia nada mais bonito

do que Gary Cooper a chegar ao estúdio

no seu Bentley descapotável.

Usava fato cinza e camisa rosa,

tudo combinava na perfeição.

Ele era de Montana,

mas era muito elegante.

Quando olhava para a Audrey...

de certeza que não estava concentrado nem nada, apenas olhava.

E de repente dizia:

''Não me digas.

A sério? Nunca tinha pensado nisso.

Pensei que eras apenas uma mulher bonita e atraente.

Mas parece que também és filósofa''.

As mulheres têm muitas preocupações,

e têm medo de incomodar as pessoas à sua volta com elas.

Mas ele estimulava-as a falar.

E elas desabafavam

e quando se apercebiam estavam na cama.

É como se se tivesse aberto uma janela

e uma brisa fresca tivesse entrado nesta casa abafada.

Como me poderia opor?

Mesmo que a brisa venha da garagem?

Estamos no século XX, Sabrina.

Usar alguém que é bom ator,

mas que não é conhecido em comédia...

é surpreendente.

Ninguém sabe porque é que esse homem era tão carismático.

Era difícil trabalhar com ele, porque durante as cenas de amor

ele cuspia um pouco ao falar.

Era preciso ajustar a câmara de acordo com isso.

E nada de imagens diretas.

Parecia que chovia da boca dele.

Isso em teatro percebe-se.

No início, entrámos os dois com o pé esquerdo.

Mas depois descobri o verdadeiro Bogart.

É verdade que gozava com o seu sotaque durante as filmagens?

Toda a gente goza.

Ele não gostava do papel, não gostava do estúdio,

e eu não era um realizador que ele tivesse em alta estima.

Foi uma mistura de coisas.

Mas devemos pensar sempre:

''Estou na prisão, mas não vai ser para sempre''.

Vou estar aqui dois meses...

Sim. ''Estou aqui com esta miúda,

tenho de contracenar com ela, mas não estamos casados.

Um dia destes vejo-me livre dela''.

E como eram as brigas entre ti e...

Não, não brigávamos.

Eram pequenas discussões?

Sim, era isso.

Como te disse...

todo aquilo foi perdoado e esquecido

porque...

Depois voltei a vê-lo e disse-me que tinha cancro...

Sem dúvida, era a sua atitude...

Ele fazia de herói, mas nunca o foi.

William Holden era um homem que estava sempre ocupado.

Preocupava-se muito

em fazer coisas boas,

como ajudar os bombeiros.

Ele... Ele...

Trabalhava numa reserva de animais no Quénia.

Se alguém me tivesse dito:

''O Holden morreu''.

Teria pensado que morreu trespassado

por um rinoceronte loco

ou que morreu num pequeno avião

a sobrevoar o porto de Hong Kong.

Mas se me tivessem dito

que morreria por causa de uma mesa de cabeceira, nunca teria acreditado.

Mas foi o que aconteceu.

- Sozinho, no seu... - Estava embriagado.

Tropeçou,

bateu com a cabeça e morreu esvaido em sangue.

Andava sempre preocupado

com as espécies em vias de extinção

e esquecia-se que ele próprio era uma espécie em vias de extinção

pela forma como bebia.

Bom dia.

Que mau tempo.

Esperamos que haja neve no Natal.

Tal como antes.

Foi isso que escreveu aquele homenzinho esperto

que roubou o nome à nossa capital,

esse tal Berlin.

Dirigi Mr. Preminger, esquecia-se sempre das falas.

Apesar de ser muito exigente enquanto realizador.

Dizia-me: ''Desculpa, estou um pouco enferrujado''.

E à tarde aparecia com um quilo de caviar.

Era muito generoso.

Mas os atores,

os tipos que interpretavam os soldados,

já tinham trabalhado para ele antes e ele tratou-os muito mal.

Nas costas de Preminger,

via os atores todos a fazer assim...

''Toma''.

- Schlemmer, está despedido. - Senhor?

A não ser que deixe de bater com os saltos.

Sim, senhor. Desculpe, esqueço-me.

- É o treino da Gestapo. - Mr. MacNamara, não diga isso.

- Não é verdade. - Aqui entre nós, Schlemmer.

- O que fez durante a guerra? - Estava no Untergrund...

- Soldado da resistência? - Não, condutor do metro.

De certeza que era antinazi e que não gostava do Adolf.

Qual Adolf?

Lá em baixo não sabia de nada do que se passava cá em cima.

É tudo, Schlemmer.

O James Cagney não partilhava a minha ideologia política.

Era de direita.

Eu não me importava.

Era um homem de quem gostava, tal como James Stewart.

Falávamos sobre o assunto.

Conheço muitas pessoas que partilham as minhas opiniões políticas,

mas são muito maçadoras. Essas pessoas não me interessam.

Cuspo no seu dinheiro.

Cuspo em Fort Knox, cuspo em Wall Street.

É um porcalhão, não é?

Só porque um homem pensa

que este mundo é injusto, como de facto é,

não vou dar o meu dinheiro à-toa.

Mas isso é outra história.

Olhe para este desperdício.

O capitalismo é como peixe morto à luz da lua.

Brilha, mas fede.

Fala do colonialismo da Coca-Cola.

Como disse o presidente Khrushchev no 40º aniversário da revolução...

Que se lixe a revolução e que se lixe o Khrushchev.

Aprendi muito sobre este país.

Se são democratas, tudo bem,

se são republicanos, também tudo bem.

Não fará grande diferença

se elegerem como presidente um fascista ou um comunista.

Poderão existir...

pequenas diferenças.

Acho que a única coisa importante

é o Supremo Tribunal e o poder do presidente

para nomear alguém...

cujo pensamento político lhe convenha,

porque não existe um juiz do Supremo Tribunal

que seja perfeito.

O último general que foi presidente foi Eisenhower.

E ele não transformou o país num acampamento militar.

E tivemos juízes do Supremo Tribunal muito liberais,

como Brandeis ou como Frankfurter.

Não se transformaram de repente em...

numa espécie de ordem socialista,

misturaram-se neste todo.

E o mesmo acontece com Hollywood.

O grande perigo de nos envolvermos politicamente

é fazer filmes que vão perder dinheiro.

A minha postura é contrária a agitar uma bandeira,

a bater no peito

e a discursos eternos,

porque não é a minha maneira de ser, não é o meu estilo.

Existem certas regras, uma ética

nas quais temos de acreditar.

E eu não quero atraiçoá-las, seja qual for a história.

Talvez seja repetitivo, mas nunca fiz nada...

Fiz maus filmes, sim, mas nunca fiz nenhum

cujo conteúdo me tenha envergonhado

despois de ser um êxito de bilheteira.

Não sei se me percebes.

Cometi muitos erros, mas foram erros honestos.

Mas a ideia básica das personagens

dos perdedores, dos vencedores, são a decência ou a falta dela.

A questão é que...

como tenho muito tempo disto, não me iludo a mim próprio.

Normalmente sei...

quando um filme não funciona e dizemos:

''Está à frente do seu tempo''.

''Estreou demasiado perto do Natal.

A estreia do filme

foi logo a seguir ao Natal,

as pessoas gastaram muito dinheiro em presentes''.

O filme foi um fracasso porque fazia bom tempo

e as pessoas preferiram ir para a praia.

Ou foi um fracasso porque estava a chover

e não havia ninguém nas ruas.

Todo o tipo de desculpas.

A desculpa de ''Um, dois, três''

deve ter sido o facto de eu ter escolhido o tema, novamente.

Na fração de segundo em que decidimos o que fazer...

E ao que parece era...

um filme inadequado para a época.

As pessoas não gostam de se confrontar

com a realidade e com coisas dolorosas.

Uma pessoa não quer gastar oito dólares num sábado

para ir a ver um filme

que lhe diga que é um sacana,

que é má pessoa ou que é cruel.

Mas se não fizermos um filme como este...

Se não é...

Se não for um filme que agrade a muitos

e que assuste a outros,

será um filme muito aborrecido.

Como se costuma dizer,

temos de dar o peito às balas.

Temos de dar o peito às balas e enfrentar a situação.

Cria-se uma história o mais realista possível,

para que as pessoas acreditem.

Conta-se-lhes algo que possam levar para casa.

É o tipo de filme, ou isso esperamos,

que as pessoas veem e depois vão a uma loja

e ficam meia hora a falar sobre ele.

Se conseguirmos isso, tivemos sucesso.

A ignorância é fantástica.

No entanto, é mais gratificante

fazer um filme que conte algo que as pessoas não conheçam,

ou que as faça interessarem-se por um assunto

que lhes era estranho.

Essas são as pequenas vitórias que conquistamos.

Tradução RUI ELIAS

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