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Desculpe. Podemos tirar outra?
- Sim. - Marianna, mais perto do teu pai.
Olha em frente. Não roas as unhas. A tia vai dizer que és uma selvagem.
Sabes que o teu namorado parece ser interessante?
Apresenta-o à família.
É um amigo. O Andrea.
Quando a amizade é verdadeira, não é preciso mais nada.
Avança um pouco, Lidia.
O teu amigo sabe que estás a apaixonar-te por outro homem?
- O quê... - Estou pronto.
A senhorita pode olhar para este lado, por favor?
De novo. O que se passa lá fora?
Três.
Dois.
Um.
Marianna.
Santo Deus.
Meu Deus.
Vittorio.
Ajuda-me, Enrico.
Matei o meu pai.
A LEI DE LIDIA POËT
Enrico, espera. Íamo-nos esquecendo do carimbo.
Não, Lidia. Eu ia-me esquecendo do carimbo. Tem um bom dia.
- Também quero ir. - Não.
Cresci com ele e o irmão.
Mas fugiste para não te casares com o irmão.
Eu não queria casar com ninguém.
- Só quero ajudar... - Lidia.
Há uma providência do procurador. Não posso ter outra queixa.
- Compreendes? - Sim.
Au revoir.
Ouvi bem? Ias tornar-te cunhada de um assassino?
Resta saber se ele é um assassino.
Tem um bom dia.
Jacopo.
É resistente?
Sim, diria que sim. Porquê?
O Alberto tinha ido a Nice a negócios. Foi por isso que dormi em casa dele.
A minha nora está grávida.
A gravidez está a ser complicada.
Não consigo acreditar que o Vittorio fez o que dizem.
Não é possível.
Tu conhece-lo. Sabes que não faria mal a uma mosca.
Calma, Matilde.
Acalma-te. Sei que é difícil,
mas temos de proceder de forma ordeira.
Alguém pode ter entrado em casa, não?
Infelizmente, não há sinais de arrombamento.
Só esteve cá o seu filho ontem à noite.
Procurem melhor.
Não adiantaria de nada, mãe.
Fui eu.
Porque dizes isso?
O Vittorio fuma ópio. Quando fuma, diz disparates.
Ontem à noite, discutimos, como sempre.
Comecei a fumar para me acalmar.
E, quando acordei,
tinha a minha navalha junto a mim.
E havia sangue por todo o lado.
Obrigada pela boleia. Arranjo forma de voltar para casa.
Se não te importares, estou interessado no caso.
Procedo à detenção, advogado?
Há alguma objeção?
Não.
Não, senhor procurador, não há.
Olha-me esta casa.
Eu sei. Eu cresci aqui.
A sério?
Porque a venderam?
Não sei, foi decisão do meu pai.
Papá!
Aqui está ela!
A minha princesa.
Uma surpresa boa, não é?
Lidia?
Olha ali.
Esta é uma madeira muito porosa.
Basta um pouco de suor para deixar rasto.
E o rasto vem...
... dali.
É como se tivessem tirado um corpo desta sala para a outra.
O Vittorio devia estar aqui.
Podia ter sido arrastado para o escritório do pai,
se estivesse inconsciente ou a dormir?
E isto?
Isso não é do Vittorio.
Senhorita Poët.
Pensei que tinha sido claro na última vez que nos vimos.
Não. Sem dúvida.
Não sei se o Enrico... lhe disse que já vivemos aqui nesta casa.
Gostamos muito dela.
E o Sr. Barberis tem de escrever um artigo para o jornal.
É como aquelas árvores tortas que nem mil estacas conseguem endireitar.
E o Sr. Barberis sabe que a imprensa não pode estar em locais de crime.
Sabe, a concorrência é feroz.
Mas eu sou mais feroz do que a concorrência.
Saiam daqui, os dois!
Primeiro quer acompanhar-me, depois não pode sair.
O Vittorio não estava sozinho naquela noite.
Para além de que nunca foi violento, sabes disso.
As pessoas mudam.
Tens de estar muito perto de uma pessoa para a degolar.
Se o Vittorio o tivesse matado, estaria coberto de sangue.
Mas o Vittorio tinha pouco sangue.
Claro. Não o matou, mas acordou ao lado do corpo.
Pode ter sido arrastado para aqui.
Lidia, ele entregou-se.
Arranja-me outra confissão, senão esta discussão é inútil.
Porque é que o pai vendeu a casa aos Muraros?
- Não te sabia tão apegada. - Não estou.
Só quero saber porque a vendeu.
Eu acabara de ficar noivo. Tu tinhas saído de casa.
Os pais ficaram lá sozinhos, naquele casarão.
- O que querias que fizesse? - E quanto recebeu?
Isso não te diz respeito.
Fizeste a tua escolha. Foste-te embora.
Não adianta discutir isso agora.
Está bem.
Está bem.
Se a própria justiça nega a uma mulher o que naturalmente concede aos homens,
como lhe podemos chamar justiça?
Entre.
Desculpe, senhorita.
Albertina.
Chegou isto para si esta tarde, mas com a confusão...
Tem sido um dia difícil para todos.
Vou fazer a cama da senhorita Marianna, senão ela não dorme.
- Boa noite. Obrigada. - Boa noite.
PARA A LIDIA
Querida Lidia,
Constantinopla é maravilhosa e o artesanato é soberbo.
Envio-te uma peça que era da cortesã preferida de Solimão, o Magnífico.
Quando se encontravam, ele também entrava no quarto dela pela janela.
LOJA DE PENHORES
- De acordo. - Sim? Obrigada.
Posso?
Lidia.
Olá, Alberto.
Lamento.
O meu irmão sempre foi complicado,
mas esta história
é inimaginável.
Achas que foi ele?
O pai queria que ele largasse o ópio.
Achava que era só uma questão de disciplina.
Andavam sempre a discutir.
Segundo a tua mãe, foste a Nice.
Sim. Por causa disto.
É caxemira. É da Mongólia.
Tenciono começar uma produção aqui.
É um negócio que pode ser muito lucrativo.
Fico contente por estares orientado.
Sei que vais ter um filho.
Sim.
Parece que já passou tanto tempo desde que nós...
Bem,
cada um seguiu o seu caminho.
E tu? Ouvi dizer que achas que podes ajudar o Vittorio.
É por isso que estou aqui.
Não tenho a certeza,
mas... acho que ele estava com uma mulher naquela noite.
Andava com uma lavadeira que trabalha no rio Stura.
Beatrice. Não sei o apelido dela.
Às vezes, o Vittorio convidava-a para fumar lá em casa.
Obviamente, os meus pais não sabiam.
Lidia, não quero acusar ninguém,
mas, esta manhã, reparámos que falta um dos colares da minha mãe.
Beatrice?
E quem és tu?
Desculpa se te estou a incomodar. Sei que conheces o Vittorio Muraro.
Falei durante quatro horas com a Polícia. Disse-lhes tudo o que sabia.
Claro. Se não te importas, queria que me repetisses tudo.
Chamo-me Lidia Poët. Estou a defender o Vittorio.
Achava que as mulheres não podiam fazer certos trabalhos.
Não és a única.
No entanto,
estou a seguir o caso
e não estou nada convencida de que o Vittorio matou o pai dele.
Mas foi isso que aconteceu.
Estava com ele ontem à noite.
Podes falar-me disso?
Fumámos ópio.
Muito.
Mais do que o habitual.
O Vittorio estava nervoso.
Disse que odiava o pai, que não suportava viver com ele.
Depois, eu adormeci.
Quando acordei, o Vittorio já não estava na cama.
Levantei-me para o procurar.
Mas quando vi o que se passava no escritório,
parei junto à porta.
O Vittorio estava de pé, com uma navalha, a atacar o pai,
que caiu ao chão e não se mexeu mais.
E o colar?
Que colar?
O colar da Matilde Muraro que desapareceu da casa. Sabes disso?
Não tirei nenhum colar.
Vem a minha casa. Mostro-te que não o tenho.
Não é preciso.
Era só uma pergunta.
E eu respondi.
- Agora, tenho de trabalhar. - Obrigada.
Boa noite, Teresa.
Estou a aprender.
Quieto aí!
Vocês estão completamente loucos.
Estávamos só a beijar-nos.
A tua mãe está lá fora. Pode entrar a qualquer momento.
Façam isso noutro sítio...
- Sim, mas... - Mas?
Estou de turno o dia todo. A senhora pediu-me para ficar até tarde.
E respeitas o teu turno. Bravo.
A culpa é minha, tia. Convenci-o a fazer uma pausa.
Se a tua mãe descobre o que vou sugerir, mata-me.
Por favor, ouçam com atenção e façam tudo o que vos digo.
Vão para o meu quarto. Sem barulho, sem ninguém vos ver.
Tranquem a porta.
Se alguém bater à porta, não respondas.
Eu invento uma desculpa. Apareces para jantar a horas.
Não podes ser visto com ela.
Entendido?
Prometam que, enquanto estiverem no meu quarto, se comportarão...
... com decoro...
... e não me farão arrepender disto.
Prometo.
Obrigada, tia.
Vão. Despareçam.
Obrigado.
Gostaste da minha bicicleta.
- As notícias correm depressa. - Os vizinhos não falam noutra coisa.
Imagino.
Poupa-me os comentários. Não estou com disposição.
- Descobriste algo? - Obrigada.
O Vittorio tem uma amiga com quem fuma ópio.
Ela estava lá naquela noite.
Ela disse à Polícia que o viu a esfaquear o pai.
Caso encerrado, então.
A Matilde Muraro diz que falta um dos colares dela.
Acho que a rapariga podia estar a tentar roubá-lo.
Mas o Sr. Muraro apanhou-a.
Assustada, ela matou-o.
Mas, para evitar suspeitas, ela arrastou o corpo do Vittorio...
A questão é essa.
O Vittorio é magro, mas ainda pesa 70 quilos.
E achas que a rapariga não tem força para isso.
Não, odeio quando tenho uma ideia,
me apego a essa ideia
e começo a distorcer os factos para os outros me darem razão.
Às vezes, sou tão obstinada que me torno obtusa.
Sabes?
Desculpa, esta noite, não sou boa companhia.
Não faltarão oportunidades, de certeza.
Boa noite, Lidia.
Boa noite.
Bom dia.
Não.
ÁREA INTERDITA
Sim, guardei-a.
Para um segundo. O que procuramos exatamente?
Não faço ideia, mas temos de começar por aqui.
Está bem.
Há aqui algo interessante, acho eu.
CULTIVO DE FLORES DE FERRARI
O sangue não podia chegar aqui.
Não pode ser.
Ouve-los?
É imaginação tua, Lidia. Os fantasmas não existem.
Estão aqui as coisas todas do meu pai.
Encontraste algo?
Uma carta antiga do meu pai.
Estou bem. Obrigada.
Enfim...
... de facto, alguém esteve aqui
e usou este cachimbo.
Parece tabaco fresco.
Enrico.
Onde está o teu pai?
Ele saiu há dez minutos.
Disse que o cliente dele, o Vittorio, se enforcou na prisão.
Porra.
Como está ele?
Está inconsciente.
O médico diz que o pior já passou.
Se ele tivesse morrido, nunca nos teríamos perdoado.
O que podíamos fazer? Ele não suportava a culpa.
Não. A culpa não tem nada que ver com isto.
Olha.
PARTIDA: COLLEGNO CHEGADA: TURIM
Lembras-te de, em miúda, eu dizer que havia fantasmas no escritório?
Sim. Estavas obcecada com fantasmas. Dizias sempre...
Esquece. Obviamente, não eram fantasmas.
Era o pai.
O quê?
Atrás do escritório,
há uma divisão secreta.
É absurdo.
As coisas todas do pai ainda estão lá.
Livros, objetos, fotos...
... cartas secretas.
- Impossível. - Juro, encontrei-o lá.
É um bilhete de comboio de Collegno para Turim.
Mas não é do pai.
É do dia do homicídio.
Sabes o que penso?
O assassino sabe da divisão secreta.
Sem ninguém reparar,
entrou quando a Matilde foi visitar a nora.
Quando estavam todos a dormir, ele saiu. Ele matou o Antonio.
Entrou no quarto do Vittorio, que estava drogado,
e arrastou-o para o escritório.
Pôs-lhe uma navalha na mão e o resto tu já sabes.
- Só uma pessoa poderia ter feito isso. - Foi ele, Enrico.
Lidia!
Podes parar um segundo, por favor, para pensar nisso?
Lidia!
Não há tempo, Enrico.
Bom dia.
O advogado Poët tem uma reunião com o juiz.
Pode anunciá-lo, por favor?
Desculpe, mas duvido que o juiz tenha marcado reuniões.
Ouviste? O senhor duvida.
Deve ser um mal-entendido.
Talvez, mas...
Diz-lhe o que o juiz disse.
Ouça, o juiz disse que...
Ele insistiu em receber estes documentos antes da hora de almoço,
porque os considera de importância vital.
O juiz disse mesmo isso?
Ouça, não me recordo das palavras exatas, mas...
O juiz está prestes a tomar uma decisão que pode destruir a vida de um homem.
Entende?
Quando ele perceber que não nos deixou entrar,
não me atrevo a imaginar o que pode acontecer.
O quê?
Vai descobrir.
Esperamos aqui.
Quem é?
Desculpe, Sr. Juiz. O advogado Poët e...
Bom dia. Pardon. Desculpem a interrupção.
Advogado, mas o que é isto?
Pediu-me as plantas da casa Muraro até às 9 horas. Infelizmente, eu...
... por culpa da minha assistente,
cheguei atrasado, eu sei, mas já estamos aqui.
Confirmo que as suas dúvidas eram mais do que justificadas.
Não sei do que está a falar.
Alberto Muraro afirma que passou o dia do crime em viagem para Nice a trabalho
e que só voltou no dia seguinte.
No entanto, ele só deu à Polícia o bilhete de ida. Porquê?
Diz que perdeu o outro.
Eu... encontrei-o.
O Alberto Muraro nunca chegou a Nice.
A minha teoria
é que Alberto Muraro fingiu que ia para Nice
para ter um álibi
e saiu na primeira estação para voltar para Turim,
sem contar a ninguém.
Nessa altura, entrou em casa da mãe.
E escondeu-se...
Posso?
... precisamente aqui.
Há uma câmara interior,
entre o escritório e as paredes exteriores da casa.
Ficou lá até bem tarde,
à espera que o irmão ficasse inconsciente.
Depois, ele saiu
e matou o pai.
Estás a pensar na Matilde?
E no Alberto.
- Podias ter casado com ele. - Não.
Duvido que isso tivesse acontecido.
Mas também acho incrível que ele pudesse fazer algo assim.
O pai recusou-lhe um empréstimo.
E ele precisava de dinheiro para um negócio novo.
Para criar ovelhas, acho eu.
Cabras de Caxemira.
Sabias?
A lavadeira?
Tinhas razão.
O Alberto pagou-lhe para prestar falso testemunho contra o irmão.
E também roubou o colar da Matilde.
Ouve, queria...
... perguntar-te algo.
Mas tens de ser sincero.
Sabias que o pai tinha dívidas?
Eu sabia que ele fez um mau investimento
e que perdeu a maioria dos bens. Foi por isso que vendeu a casa.
E não me ias dizer?
Não era da minha conta?
Tive medo que achasses o pai ainda mais desagradável.
Mas não foi um mau investimento, Enrico.
O pai tinha uma dívida de jogo para com o Antonio Muraro.
- Isso era normal. - Não. Uma dívida avultada.
Ele vendeu quase tudo.
Até a casa?
Mais tarde, sim.
Mas a primeira proposta do Muraro
foi...
... que, se me casasse com o Alberto,
ele consideraria a dívida paga.
O que estás a dizer?
Estava na divisão secreta do pai.
Lidia, juro que é a primeira vez que ouço falar disto.
Não...
Pensei que o pai fizesse aquilo por ti.
Pensei que estavas a ser teimosa.
Isto é coisa de feira de gado.
- Se eu soubesse disto, Lidia, juro... - Eu sei.
São águas passadas.
Sim, mas ainda podemos fazer algo.
Porque uma providência do procurador pode sempre ser impugnada.
Podes voltar a ser minha assistente.
Nunca deixei de ser.
Contestaremos a sentença no Tribunal de Recurso.
Serás readmitida na Ordem.
Já comecei.
Obrigada.
- Olá. - Vamos encontrar-nos assim?
- Clandestinamente? - Sim.
- Posso entrar? - Não posso ter visitas.
Queria conhecer a tua família. Ia gostar.
- Que medo. - Estou a brincar.
Queria convidar-te para jantar na sexta-feira.
Para te pedir desculpa.
Porquê?
Não te zangues.
Penhorei a tua jarra em troca de uma bicicleta.
Uma bicicleta?
- Uma bicicleta custa umas 20 liras. - Meio estragada.
- Quinze. Nada de especial. - Mas estou feliz.
Está bem, combinado. Era uma obra de arte única, mas tudo bem.
- Vou compensar-te. - Quando?
Sexta-feira?
Agora?
Tenho de ir.
Que tortura! Está bem. Vemo-nos na sexta?
Estás a pedir que me meta na tua vida.
Legendas: Georgina Torres
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