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♪
♪
E então, Arrebita?
Não vais me responder?
Mostra-me o que tens no bolso de tua casaca.
Eu não tenho que te dar satisfação do que carrego comigo.
Estás enganado.
Estás no palácio do Imperador e deves cumprir as minhas ordens.
A segurança do Imperador é minha responsabilidade.
O que está acontecendo aqui, Chalaça?
O marido da preta seguiu Vossa Majestade até aqui.
E agora se recusa a mostrar o que tem no bolso.
Queres dizer-me alguma coisa?
Por acaso devo-te algo que queiras me cobrar?
Por que vieste até aqui para me espreitar?
Vamos, livreiro!
Se não me mostras por bem o que tens em teu bolso,
obrigo-te à força.
Chalaça?
Parece que a festa aqui está bem mais animada do que lá dentro no salão.
Não se trata de festa, senhor Ledo.
O que se passa aqui é muito mais grave.
Mas o que aconteceu?
Este homem está tramando contra o Imperador.
Meu amigo Chalaça, é louvável seu zelo com a segurança de Sua Majestade.
Mas uma acusação dessa é muito grave.
E devemos lembrar que,
de acordo com a constituição promulgada por Dom Pedro,
todo homem tem direito de se defender antes de ser considerado culpado.
Pois eu digo que o que esse homem carrega em seu bolso
é sua própria sentença.
Sua atitude de seguir sorrateiramente Dom Pedro é muito suspeita.
Provavelmente os cornos lhe doeram na testa
e pensas que pode resolver isso atentando contra a vida do Imperador.
Vais engolir o que disseste, verme bajulador.
Soltem o livreiro. Eu parto-lhe a cara aqui mesmo.
Parem com isso agora.
Onde está o respeito pela minha pessoa?
Vós não estais na taverna.
Senhor Ledo, as suspeitas de Chalaça são compreensíveis.
Basta que vejamos o que o livreiro pretendia pegar em seu bolso
e tudo será esclarecido.
E se ele for inocente, será tratado como tal.
Vossa Majestade tem toda razão.
[Respiração ofegante]
♪ Suspense ♪
Com licença, Majestade...
[Inspira]
O tabaco. Fonte de bem-estar.
Acho que essa fraqueza humana
não é considerada um atentado à vida do Imperador.
Isso está muito estranho, senhor Ledo.
Charutos não são hábitos da ralé.
Meu caro Chalaça, não devias ser tão preconceituoso.
Os ingleses entregam todo tipo de produto nessa cidade.
E esse homem...
esse homem é um funcionário promissor da corte.
Que mal há em vir ao jardim do palácio e fumar um...
um charuto?
Majestade!
Majestade. Majestade,
Majestade, por favor, venha depressa.
A Imperatriz desmaiou.
Mas o que mais pode me acontecer nessa noite? Venha, Chalaça!
Chega de confusões.
Homem, pega a tua mulher e vai embora.
Mas como?
Não, não, não. Não faças perguntas.
Agradece a Deus e às mãos leves e rápidas desse nosso amigo,
pois graças a elas te livraste da forca.
Obrigado. Obrigado, senhores.
Obrigado. Obrigado.
O que faço com isso agora?
Entrega para o Osório.
E diz-lhe que o plano não deu certo.
♪
♪
♪
[Gonçalves Ledo] Como eu havia previsto,
não demorou muito até que a vingança de Chalaça e do Imperador
caísse sobre o Arrebita.
♪
Mais uma vez, a intermediação da Inglaterra foi de grande valia
no tratado em que finalmente Portugal reconhecia
a independência do Brasil.
Mas os ingleses queriam mais do que os milhões de libras pagos pela ajuda.
Majestade, a Grã-Bretanha fica feliz com sua decisão
e estamos certos de que nossos laços de amizade se fortalecerão
com o vosso compromisso de extinguir totalmente
o tráfico negreiro daqui a quatro anos.
Mande saudações à Sua Majestade.
E diga a ele que as penas aos traficantes de escravos serão severas.
Entretanto, Lorde Chamberlain, é necessário que os ingleses
compreendam que isso não pode ser feito aos sopapos.
Estaremos contrariando os interesses dos agricultores
e isso deverá ser feito com muita paciência.
Eu entendo, Majestade. Eu entendo.
Mas esse já foi um grande passo.
E saberemos reconhecer esse seu ato magnânimo.
Com sua licença, Majestade.
Senhor Chalaça.
[Gonçalves Ledo] Enquanto o Imperador ludibriava os ingleses
assinando tratados que ele não pretendia cumprir,
o ódio que Arrebita sentia de Dom Pedro aumentava,
ao mesmo tempo em que ele pensava em um jeito
de continuar sustentando sua família,
que, aliás, havia aumentado.
O poderoso Dom Pedro sonhava em ter um filho homem
com a Imperatriz Leopoldina,
e o livreiro demitido já tinha dois varões em casa.
Você vai ficar assim até quando, meu amor?
Oh Arrebita, levanta essa cabeça, homem.
Já passamos por momentos tão difíceis antes.
Olha onde nós estamos.
Temos um teto, pernas e braços sadios.
Amor, o resto há de se arranjar.
Eu vou vender as minhas cocadas no Paço e nos pátios das igrejas.
O que estás dizendo, mulher?
É isso mesmo que você ouviu.
Eu já falei com a tia Siara,
ela vai ficar com Manuel e Clementino enquanto eu estiver na rua.
Até me deu um cesto que usava para vender frutas.
Ana, tem juízo nessa cabeça. Já não chega o que estou passando?
Agora queres que digam por aí que vivo às custas da minha mulher?
Arrebita, você se preocupa demais com o que dizem “por aí”.
Sempre vão falar mal de nós.
Se sofrermos ao invés de cuidarmos de nossa vida estamos perdidos.
♪
Somos um casal, não somos?
Temos nossa família e os meninos precisam comer.
Você acha que vou ficar parada sem fazer nada? Você acha?
Você vai conseguir um novo emprego, Arrebita. E o Marrocos?
Disse que nada pode fazer por mim.
É nessas horas que a gente vê quem são os verdadeiros amigos.
Mas faça o que tem que fazer, Arrebita, só não se entregue.
Não aguento mais te ver nesse banzo, homem.
[Gonçalves Ledo] Os escândalos da vida privada de Dom Pedro
e régio pagamento pelo reconhecimento de Portugal à independência brasileira
aumentaram nosso desejo de tirá-lo do trono definitivamente.
Até mesmo entre os que ainda o consideravam
o defensor perpétuo do Brasil, o sentimento de revolta crescia.
Somente a chegada de um herdeiro legítimo do trono
poderia fazer o Imperador esquecer esses problemas.
[Falatório]
É um menino?
Sim.
Deus olhou para mim e minha família.
Ele será forte como o pai.
- Como está Leopoldina? - Está muito fraca, Majestade.
Podes ir.
Não vos falei? Os Bragança têm um herdeiro homem!
Façam publicar nos jornais e preparem os festejos.
Parabéns, Majestade.
Hoje certamente é um dia de júbilo para o povo brasileiro.
Plácido, precisamos avisar meu pai. Sei o quanto ele espera essa notícia.
Eu mesmo lhe escreverei. Traga-me papel e tinteiro.
Sim, Majestade.
Bom, então faremos a recepção no palácio
ou Vossa Majestade prefere o prédio do Paço Imperial?
Faremos nos dois, Chalaça, nos dois.
E que tiros de canhões sejam dados e que soem os sinos das igrejas.
Mas hoje a festa será na casa da Viscondessa de Santos.
E somente para os nossos amigos portugueses.
Vamos, Chalaça! Não fiques aí apalermado, homem.
Vai preparar tudo.
É muito bom te ver assim, meu amor.
Só tu podes completar minha felicidade.
♪
♪
♪
[Risos]
E como se chamará o Príncipe, Majestade?
Ora, e como haveria de ser, Mario? Meu filho vai se chamar Pedro.
Ah, e se herdar a coragem e a astúcia do pai,
com certeza nós teremos um grande governante no futuro.
E se herdar outras características também...
ai das negrinhas de Santa Cruz e das donzelas da corte.
Quem sai aos seus não degenera.
- Como foi a sua viagem à Bahia? - Excelente, Majestade, excelente.
Meus amigos ficaram muito felizes
com o reconhecimento de Portugal à nossa independência.
Antes tarde do que nunca, não é, Chalaça?
E o que disso pode vir é o que mais nos anima.
Mas o que tu estás tramando, hein, Mario?
O que teus olhos de águia viram que pode estar oculto para mim?
Muito fácil deduzir, meu caro amigo Chalaça.
Quais foram os primeiros monarcas a reconhecer o Brasil independente?
Eu acho que foram os africanos, não é?
Isso, resposta certa.
Os Obás de Benim e de Lagos foram ligeiros.
Mas isso tem uma razão: deixamos muito dinheiro por lá
cada vez que um de nossos navios zarpa com os pretos nos porões.
Onde estás querendo chegar, Mario?
Majestade, agora que a questão com a vossa pátria-mãe já foi resolvida,
precisamos pensar grande. Nos livrar de uma vez por todas
da perseguição que os ingleses fazem ao comércio de escravos.
Se incorporarmos Angola ao nosso Império...
Majestade, Majestade, o território passa a ser brasileiro.
E os pretos que vierem de lá serão assunto nosso.
Não pode mais ser considerado tráfico,
como os ingleses insistem em classificar os nossos negócios.
Teus negócios, Mario, tu queres dizer, os teus negócios.
Isso está fora de cogitação.
Majestade, a colônia de Benguela está pronta a juntar-se a nós.
Eu não arranjaria guerra com Portugal por motivo algum.
Além do mais, o tratado de paz e aliança firmado entre mim e meu pai
não nos permite a anexação de qualquer colônia portuguesa.
Sim, isto é verdade, está no artigo terceiro.
Pelo que foi assinado, Dom João VI manterá até a sua morte
o título de Imperador Honorário do Brasil.
Mas a soberania do Império continua com Dom Pedro.
E agora que nasceu o príncipe, a sucessão está garantida.
Não devemos arriscar essa tão esperada harmonia
por um ninho de pretos na África.
Em breve viajarei à Bahia, Mario.
Passarei algum tempo por lá.
Se for necessário, aviso pessoalmente aos teus amigos
que desistam dessa ideia louca de anexar Angola.
Mas corre um boato na cidade
de que Vossa Majestade pretende unir os dois Reinos
anulando a nossa independência. E da Europa chegam rumores
de que Dom Miguel planeja revidar o exílio forçado a que foi submetido,
invadindo com um exército de mercenários as colônias de Portugal.
Boatos, Mario Antonio, boatos e mais boatos.
É disso que vivem esses panfletos republicanos.
Meu irmão conspirou contra nosso pai e teve o que merece.
Na verdade, eu tenho esperança que um dia ele se arrependa
e volte a Portugal para ocupar o lugar que é dele.
Antes de tudo, ele é um Bragança.
Com licença, senhores.
Podem ceder-me a real companhia de Vossa Majestade?
Certamente, Viscondessa.
Pedro, vem.
Quero te apresentar o diplomata americano recém chegado ao Rio.
Tem que ver o agrado que ele trouxe para nossa Isabel.
Vem, Pedro.
Pedro? Nem mais o cuidado de chamá-lo de Majestade em público ela tem.
É, meu caro amigo Chalaça, quando o homem para de pensar
com a cabeça que carrega sobre o pescoço... tudo desanda.
[Suspiro]
♪
Olha a cocada! Cocada fresquinha.
A melhor cocada do Rio de Janeiro.
Olha a cocada! Cocada fresquinha.
A melhor cocada do Rio de Janeiro.
Olha a cocada! Cocada fresquinha.
A senhora quer uma cocada?
Ai, quero sim. E dessa vez vou levar algumas para casa.
Suas cocadas são uma delícia.
Muito obrigada, senhora. E quantas vai querer?
Dá-me cinco. Maria, traz o cesto.
[Falatório ao fundo]
Aqui está.
Está certíssimo, senhora. Muito obrigada, e volte sempre.
Olha a cocada! Cocada fresquinha!
A melhor cocada do Rio de Janeiro!
Senhora!
Pois não?
Pega.
- Essa é para você. - Isso não é necessário.
Eu faço questão, senhora.
Come.
♪
Maria, vamos.
Olha a cocada! Cocada fresquinha!
A melhor cocada do Rio de Janeiro!
♪
Majestade. Que alegria vê-la aqui.
Eu me preparava para ir visitá-la no palácio.
Meu dono me deixou sair.
Mas para isso precisei me prestar ao papel de comparecer a uma recepção
com os parentes da meretriz.
Eu estou preocupado com a sua saúde.
A senhora tem se alimentado direito?
O que posso lhe dizer, meu amigo? Ele tirou meu cavalo.
Me indica onde e quando devo sair.
Para tudo preciso da autorização de meu marido.
Até para comer.
E ainda tenho que conviver com a presença aviltante
daquela mulher e da sua filha bastarda.
Ela agora é Marquesa. Marquesa de Santos.
- O senhor sabe disso? - Sim, Majestade.
Já chegou aos meus ouvidos o novo título concedido à Domitila.
A má conduta do Imperador tem feito estragos
em sua imagem junto ao público.
Tributar tantas homenagens a uma mulher indigna e de baixa educação
não é o que o povo brasileiro espera de seu monarca.
Às vezes chego a pensar que Pedro está sob bruxedo.
Não posso comparecer em nenhum local público
sem que Domitila me acompanhe.
Chegou ao ponto de ameaçar uma bofetada em nossa Maria da Glória
porque a menina se recusou a conviver com a bastarda.
E a viagem à Bahia?
Faltam-me forças até para lembrar de tão horroroso acontecimento.
Cheguei a pensar que Pedro não levaria sua concubina nessa viagem.
Mas eu estava enganada.
Tratou-a com intimidade o tempo todo na frente de todos.
Fez suas refeições com Domitila ao seu lado
enquanto eu comia sozinha.
Em Salvador hospedou-se com ela e eu fiquei em outro prédio.
Meu Deus.
Meu amor por Pedro me reduziu a um estado de escravidão.
Estou totalmente esquecida pelo meu marido.
Vim aqui para que tome minha confissão.
Minha morte está próxima.
Por favor, Majestade. Não diga isso.
A senhora precisa resistir.
O povo brasileiro ama a sua Imperatriz
e não poderá viver sem a sua presença, sem a sua bondade
manifestada principalmente entre os mais pobres e necessitados.
♪
Que Nossa Senhora da Glória tenha compaixão de minha alma.
Eu coloco minha vida diante desse altar.
Nada mais posso fazer.
[Mulher] Eu vou levar essa aqui.
[Falatório ao fundo]
Maria, traz o cesto... Maria?
Mas o que está acontecendo com essa negrinha?
- Ana. O que tens aí? - São cocadas, Majestade.
Melhores que essas não existem na cidade.
Eu tenho certeza que não.
E eu posso oferecer uma à Vossa Majestade?
Eu preferia que as vendesse.
Não tome como desfeita, mas eu sei da tua luta
e das dificuldades que tu e teu marido estão passando.
Eu também não ando muito bem de saúde
e quase nada para em meu estômago.
Saiba que meu amor e meu respeito são de Vossa Majestade.
E não só eu que digo isso.
Eu sei, Ana. Eu sei.
Fiquem todos em paz.
♪
♪ Melodia dramática ♪
♪ Melodia dramática ♪
[Gonçalves Ledo] A morte de Dom João
colocou o imperador em uma situação delicada.
Na condição de legítimo herdeiro do trono português,
ele deveria retornar à Lisboa
acumulando as coroas do Brasil e de Portugal.
Isso, na prática, significaria a anulação de nossa independência,
o que certamente provocaria a revolta do povo.
Para nós, republicanos, seria uma ótima oportunidade de provar
que o interesse de Dom Pedro pelo Brasil era uma falácia.
Mas voltar a Portugal não estava em seus planos.
Reuniu a assembleia para um discurso surpreendente,
no qual, posando mais uma vez de generoso salvador da pátria,
anunciou que abdicaria a coroa portuguesa em favor de sua filha,
D. Maria da Glória.
E disse que assim
agia para não comprometer os interesses de nossa pátria,
da qual era defensor perpétuo.
Aproveitou para reforçar o seu dever para com o povo brasileiro
e o seu compromisso e respeito
para com a Constituição por ele promulgada.
Embusteiro filho da puta!
A quem ele pensa que engana? Respeito a constituição! Pois sim!
Faltou explicar por que gastou dois milhões de libras esterlinas
pelo reconhecimento de Portugal à nossa independência,
e sem nos consultar.
Reconhecimento uma ova. Isso foi um negócio de família.
Ele só se preocupa com as questões portuguesas.
Enquanto isso a Cisplatina consome os recursos que temos.
Nunca vi tamanha patifaria. Vencemos a guerra pela independência,
agora temos que ressarcir os prejuízos ao nosso adversário derrotado.
E ainda posa de herói, o fanfarrão.
Nós compramos nossa independência ao invés de conquistá-la.
Isso não pode continuar, Ledo. Ouve bem o que eu te digo!
Nosso irmão tem razão, Ledo.
Ele mandou devolver as propriedades e os bens dos portugueses
que foram confiscados durante as lutas pela independência.
Temos que nos livrar desses malditos portugueses.
Se não, nunca seremos a pátria que sonhamos.
Calma.
O Imperador já está metendo os pés pelas mãos.
Temos que continuar a combatê-lo pelos jornais
e tentar barrar aqui tudo que ele propuser.
Temos que formar uma bancada capaz de enfrentá-lo
e pôr fim aos seus abusos.
O povo já não está tão cego como antes.
Em São Paulo também há uma grande insatisfação.
O Observador Constitucional aumentou sua tiragem
e Libero Badaró está do nosso lado.
Nobres deputados!
Parece que estão perdidos.
Se desejarem, eu posso mostrar o caminho para o plenário.
Nosso Imperador ainda discursa.
Conhecemos bem essa casa, Chalaça.
É aqui que trabalhamos pelos interesses do povo brasileiro.
Se alguém está fora do seu lugar, és tu.
Pois o gabinete secreto do Imperador não se reúne aqui.
É sempre às escondidas, tramando contra nossa assembleia
e promovendo aquilo que interessa apenas aos portugueses.
Devias ter mais cuidado com tuas palavras, Gonçalves Ledo.
São acusações muito graves as que estás fazendo.
O Imperador respeita a constituição, caso contrário, não estaria aqui.
E francamente, essa história de gabinete secreto...
Isso me soa mais como uma invenção dos que, como tu,
querem envenenar o povo contra o Império.
Vamos embora daqui, meus irmãos.
Este ambiente está cheirando a enxofre.
♪
♪
E então? Como ela está?
Nada bem, senhor Plácido.
Acho que deve ser enviado um correio ao Rio Grande do Sul
pedindo o retorno imediato de Dom Pedro.
Nossas tropas precisam da presença do Imperador.
Estão com o moral baixo.
Corremos o risco de perder a Cisplatina.
Ela abortou um feto. Era um menino.
A febre não cede e ela está tendo muitas crises convulsivas.
- Eu preciso ver a Imperatriz. - Marquesa.
Dona Leopoldina está à morte.
Perdoe-me a ousadia, mas acredito que não seja desejo dela ver a senhora.
E tu agora adivinhas os desejos da Imperatriz?
Vamos, doutor. Ela está delirando.
Eu os acompanho.
Saia da minha frente, padre.
Eu preciso falar com a Imperatriz, eu sou sua dama de honra.
Por favor, minha senhora. Aqui, não.
Plácido, mande chamar o Imperador.
♪
♪
♪
[Leopoldina] Minha muito amada irmã,
dito essas poucas letras
pois já não sou capaz de escrevê-las de meu próprio punho.
Reduzida ao mais deplorável estado de saúde
e tendo chegado ao último ponto de minha vida
em meio aos maiores sofrimentos,
terei também a desgraça de não poder eu mesma explicar-te
todos aqueles tormentos que há tempos existem impressos em minha alma.
Há quase quatro anos que por amor a um monstro sedutor
me vejo reduzida ao estado maior de escravidão
e totalmente esquecida por meu adorado Pedro.
Esta terra que aprendi a amar receberá em breve meu corpo
e peço à Deus e à Virgem Maria que tenham compaixão de minha alma.
A nossa mãe morreu! O que vai ser de nós?
[Estilhaços]
Morte à Marquesa!
[Gritaria]
[Tiro]
[Gritaria]
[Trovão] [Chuva ao fundo]
Majestade.
Dê uma olhada nas anotações que fiz
no documento da constituição portuguesa.
Veja se estão de seu agrado.
Não estou com cabeça para isso agora, Chalaça.
E também, não há muito o que conferir.
Basta que pegues a nossa constituição
e onde estiver escrito “Império de Brasil”,
substitua por “Reino de Portugal”.
E devo manter o poder moderador?
Evidente que sim.
[Chuva ao fundo]
Pedro, meu amigo.
Sei que a morte de Leopoldina foi um duro golpe para ti.
Mas a tua vida precisa continuar, Pedro.
Já se passaram seis meses. Tens dois reinos para governar.
Para que o prestígio do teu trono permaneça forte,
um novo casamento com uma princesa europeia deve ser arranjado.
O Marquês de Barbacena já está em Londres.
Ele está trabalhando nisso.
Melhor assim.
Não faltarão candidatas a te desposar.
Já decidiste o que farás com Dom Miguel?
Meu irmão no exílio, Chalaça, será sempre uma ameaça.
A regência de Isabel e o reinado de Maria da Glória
não terão paz enquanto Miguel não estiver ao nosso lado.
Então farás o que teus conselheiros sugeriram?
Sim, Chalaça.
Nomearei Dom Miguel meu lugar-tenente em Portugal
e lhe darei minha Maria da Glória em casamento.
Assim os interesses dos monarquistas e dos liberais estarão conciliados.
Só então terei um pouco de paz
para fazer o que é necessário fazer por aqui.
Pedro, tu confias em Dom Miguel?
Confio apenas em minha mão direita.
Mas até a esquerda é capaz de me trair.
Mas Miguel é vaidoso.
Sei que se contentará com o que lhe ofereço.
Ele é meu sangue. É isso que importa.
Agora deixe-me sozinho, por favor, Chalaça.
Está bem, Majestade. Com sua licença.
[Batida de porta]
[Choro]
[Trovão] [Chuva ao fundo]
♪ Melodia dramática ♪ [Choro]
[Grito] [Baque]
[Trovão]
[Trovão] [Chuva ao fundo]
Pedro, meu amor.
[Trovão]
♪
♪
♪
♪
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