All language subtitles for Brasil.Imperial.S01E07.Episodio.07.720p.AMZN.WEB-DL.DDP2.0.H.264-NTb_track4_[por]

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Original subtitles

♪

[Canto do galo]

[Ruídos da natureza ao fundo]

[Relincho]

[Canto do galo]

[Relincho]

Coronel.

- E como é que ele está? - Nada bem.

Parece que a comida de Santos ofendeu-lhe os intestinos, Coronel.

Coloque-se de atalaia e me avise quando ele se aproximar.

Sim, senhor.

[Ruídos da natureza ao fundo] [Canto dos pássaros]

[Passos de cavalos]

Coronel, somos o correio de Sua Alteza.

Trazemos correspondência urgente do Rio de Janeiro. Onde ele está?

Está na colina e não demora a chegar.

Podem apear e descansar enquanto aguardam.

Vamos.

Senhores.

Bregaro.

Que foi, homem? Parece que viste fantasmas.

Trago correspondência para Dom Pedro

da parte do Ministro Bonifácio e da Princesa Leopoldina.

- Onde está Sua Alteza? - Estou aqui, Bregaro.

Um homem não pode nem mais ter a solidão nas horas que mais precisa.

Estou aqui. Dá-me cá o que trouxeste.

♪ Melodia dramática ♪

[Leopoldina] Meu querido e amado esposo,

as notícias de Lisboa são péssimas:

14 batalhões vão embarcar nas três naus

e o povo lisboense tem se permitido

toda a qualidade de expressões indignas contra sua pessoa.

Na Bahia, entraram 600 homens e duas ou três embarcações de guerra.

As circunstâncias em que se acha o nosso amado Brasil

exigem sua pronta presença com muita energia e rigor.

O pomo está maduro, colhe-o já.

[José Bonifácio] Senhor, as cortes ordenaram minha prisão

por minha obediência a Vossa Alteza.

Se ficar, tem contra si o povo de Portugal

e até a deserdação que já está combinada.

Se não ficar, correrão rios de sangue nesta grande e nobre terra,

tão querida do seu real pai

que já não governa em Portugal pela opressão das cortes.

Fique, é o que todos pedem ao magnânimo Príncipe.

E faça do Brasil um reino feliz separado de Portugal.

A Princesa assinou a independência.

[Ruídos da natureza]

Eles o querem, pois eles terão a sua conta.

Chamam-me de rapazinho e brasileiro.

Pois muito bem, vão ver agora quem é o rapazinho.

De hoje em diante estão quebradas as nossas relações com Portugal.

Proclamo para sempre o Brasil separado de Portugal.

Pois então que viva a liberdade!

E que viva o Brasil separado!

- Viva! - Viva Dom Pedro!

Vamos. Preciso comunicar à minha guarda.

♪

♪ Música de abertura ♪

♪ Música de abertura ♪

♪ Música de abertura ♪

[Galopes]

♪

Ele está vindo, senhor.

[Galopes]

♪

♪

[Risos em off]

[Dom João] Crescerás, Pedro.

Não em tamanho, mas em sabedoria e autoridade.

Um dia tu serás o Rei. E precisas te preparar.

E não será deitando com todas as mulheres da cidade

que isso acontecerá.

Ora, meu pai, que mal há em um pouco de diversão?

Estás destinado a governar.

Não podes te misturar com plebeus e circular pelas tabernas.

Tu és o Príncipe.

Príncipe do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

O que está acontecendo, Chalaça?

Ele não quer trair o pai.

Pedro, se o Brasil se separar,

antes seja para ti, que me há de honrar,

do que para algum desses aventureiros.

♪

[Beijo]

Amigos,

estão para sempre quebrados os vínculos

que nos ligavam ao governo português.

E quanto aos laços que representam aquela nação,

eu vos convido a fazer assim.

E viva o Brasil independente!

Viva o Brasil independente!

[Todos] Viva!

Viva Dom Pedro, o nosso defensor perpétuo!

[Todos] Viva!

[Gritaria] [Comemoração]

O brado que acabastes de ouvir da minha boca,

só foi possível pelo vosso apoio.

Vós que desejais um país livre para viver,

trabalhar e criar vossos filhos.

O Brasil será construído por todos vós sob o meu comando.

E seremos um grande Império, como é o nosso destino.

Será nossa divisa de ora em diante:

Independência ou morte!

[Gritaria] [Comemoração]

♪ Melodia triunfante ♪ [Gritaria ao fundo]

[Passos de cavalos]

♪

[Gonçalves Ledo] A separação do Brasil de Portugal já estava consumada

antes mesmo do correio real chegar a Dom Pedro.

Há muito tempo ela vinha amadurecendo

nas reuniões das elites políticas brasileiras.

Dom Pedro não teve outra saída senão ratificá-la.

A palavra liberdade estava na boca de todos,

mas assumia diferentes significados.

Os meses que se seguiram à independência,

colocariam o “garboso” Príncipe dos Bragança à prova.

Desconfiado, desonesto, briguento,

mulherengo, arrogante e despótico

eram os adjetivos que ele acumularia

em sua luta para manter o poder centralizador da realeza.

E nós, republicanos,

não estávamos dispostos a facilitar as coisas para ele.

♪

Arrebita, devo dizer que há muito tempo não provo

uma comida tão supimpa.

Aah!

Minha Ana tem mão santa para os temperos, Marrocos.

As cocadas eu já conhecia.

Agora, esta carne de porco está divina.

[Risos]

Eu também tenho uma Anna em casa,

mas não tenho a felicidade desta mesa com essa qualidade.

E por que não a trouxe com você?

Compramos uma escrava nova ao filho do Elias Antônio.

E Anna ainda não tem confiança em deixar as crianças com ela.

Que arda no inferno a alma daquele maldito Elias.

E que seu filho tenha a mesma sorte.

Mas conta-me, Marrocos. Como estás em teu novo posto?

Muito bem, meu amigo, muito bem. Umas patacas a mais nunca fazem mal.

Dom Pedro deve estar muito feliz com o apoio popular à independência.

Feliz ele está, pelo que me parece.

Mas quanto à independência, muita coisa ainda precisa ser acertada.

Revoltas ao norte devem ser

totalmente debeladas, mas isso é questão de tempo.

As tropas imperiais estão em franco progresso na Bahia

e os navios do Lorde Cochrane bloquearam o porto de Salvador.

Mas os caminhos diplomáticos também precisam ser percorridos

para a nossa aceitação internacional.

E isso vai custar milhares de réis.

De onde o Imperador vai tirar esse dinheiro?

Aumentando os impostos, suponho.

Aumentar os impostos não ajudaria a popularidade de Dom Pedro.

E agora, mais do que nunca, ele precisa do povo ao seu lado.

A Inglaterra está disposta a fazer um empréstimo ao Brasil.

- Ah, os ingleses. Claro. - Não há outro jeito, meu amigo.

As finanças do Império estão em frangalhos.

Funciona assim: Portugal tem uma dívida com a Inglaterra.

E para reconhecer o Brasil como uma nova nação,

vai cobrar dois milhões de libras como indenização.

Só que o Brasil não tem esse dinheiro, então a Inglaterra empresta-o.

Sendo assim, esse dinheiro não sai dos cofres dos ingleses.

Portugal deixa de ser o devedor e quem passa a dever?

O Brasil.

Certamente vão querer um bom quinhão em troca.

Digamos que as taxas aduaneiras

continuarão favoráveis aos produtos ingleses.

Mas reivindicam outra coisa.

E essa é mais complexa.

O quê, Marrocos?

Querem que o Brasil adote a proibição ao tráfico negreiro.

Mas se aceitar isso, Dom Pedro terá problemas

com os fazendeiros e com os comerciantes.

Eu fiquei sabendo que o Imperador compra cavalos comuns

e os marca com o selo da Fazenda Real de Santa Cruz.

Depois, o seu barbeiro vende por um valor muito maior.

Os dois dividem os lucros.

Por Deus, Ana, onde consegues essas informações?

Decerto não estão escritas nos jornais que o Arrebita te ensinou a ler.

É, Marrocos, mas nem tudo o que acontece nessa cidade

está nos jornais.

As lavadeiras nas fontes sabem muito mais que os jornalistas.

Arrebita, ainda permites que a tua mulher lave roupa em público?

Não, agora que estarás à frente da biblioteca,

precisas comprar uma escrava de bom trato para os afazeres domésticos.

Senhor Marrocos, nessa casa não se escraviza ninguém.

Eu tenho boa saúde para a lida do meu lar.

Desculpe-me, Ana. Não está mais aqui quem falou.

[Pigarro]

Muito bem, muito bem.

Levantemos um brinde ao meu amigo Luiz Marrocos.

Novo Oficial Maior da Secretaria de Estado

dos Negócios do Império Brasileiro.

Ana, pega mais vinho para nós.

A gente não tem mais vinho, meu amor.

Deixa estar, Arrebita. Já bebemos o suficiente.

Peço-te desculpas, Marrocos. Fico a te dever esse brinde.

Eu vou até a tasca do Abílio e pego mais um vinho para nós.

Mas já é tarde, Ana.

Não fica bem uma mulher a essa hora em uma tasca.

Não fica bem pra quem, meu amor?

Ana, não sejas atrevida diante da visita.

As ruas estão infestadas de ladrões.

E por acaso eu não sei me defender?

Mulher, escuta o que eu te digo. Ana!

Desculpa os modos de minha Ana.

Essa mulher é xucra como uma égua selvagem.

Não te preocupes, meu amigo. Sei o que passas com Ana.

E sei também o quanto a amas.

Agora que aprendeu a ler está a todo momento questionando-me.

Só fala em direitos e liberdades para os pretos.

Outro dia discutia comigo sobre reforma agrária, Marrocos.

Tens ideia do que é isso?

Mulheres letradas são um problema. Mas olhemos pelo lado bom.

Pelo menos o vinho do Abílio é de boa qualidade.

É. Lá isso é.

[Risos]

Acho que se pudesse, o senhor me matava ali mesmo.

[Risos]

Abílio, enche os copos de meus amigos. Essas são por minha conta.

[Falatório ao fundo]

E teu copo, Chalacinha? Está vazio?

Pedro, amigos comprados com vinho não merecem confiança.

O que queres dizer, homem?

Tu achas que esse chapéu e essa capa te protegem de alguma coisa?

Devias ouvir o que Bonifácio te disse.

Muitos são os que te criticam pelas esquinas e nos jornais.

Não deves te expor tanto assim.

Chalacinha, eu acho que tu estás preocupado à toa.

Eu fui coroado, não fui? Sou o Imperador do Brasil agora.

Quem se arriscaria a me fazer mal?

Além do mais, os trabalhos da Assembleia Constituinte já começaram.

Não era isso que queria o grupo do Gonçalves Ledo

com seus abaixo-assinados?

Vou governar o Brasil com a Constituição embaixo do braço.

Mas limpo-me a bunda com ela a hora que quiser.

[Risada]

Pedro, tu sabes que eu sou teu amigo, não sabes?

Sim, Chalaça, eu te tenho como um irmão.

Pois então é para o irmão que falo agora e não ao Imperador.

Fala, homem.

Trazer Domitila ao Rio foi um erro.

Lá vens tu novamente.

Todos comentam, Pedro. Todos comentam.

Domitila não é nada discreta.

E a Imperatriz Leopoldina é amada pelo povo.

O que querias tu, Chalaça? Que eu fosse a São Paulo todo mês?

Os fuxiqueiros iriam comentar da mesma forma.

Domitila espera um filho meu agora, homem. E esse há de vingar.

Não será o primeiro bastardo teu, Pedro.

Tu não fales assim de meu filho com Titilia.

Titilia? Titilia?

É isso que me assusta, Pedro. Eu nunca te vi assim.

Sempre tivestes tuas amantes,

e ninguém melhor do que eu entende tuas necessidades.

Agora, essa mulher parece que te enfeitiçou.

Trazê-la para a corte e esfregá-la na cara da Imperatriz...

ela anda se metendo nos negócios do governo.

E já há quem a consulte para chegar até ti.

E que mal há nisso, Chalaça?

Por acaso não ouço sempre os que me procuram?

Não fico atento ao que me pedem?

Vamos mudar de assunto, por favor, Chalaça.

Não quero estragar a noite discutindo contigo. Olha pra aquilo.

- Boa noite, Ana. - Boa noite, senhor Abílio.

Me vê duas garrafas daquele seu melhor vinho.

É pra já.

♪

É de um balaio como o teu que preciso para guardar meus mantimentos.

Como te chamas, preta?

Não sabes falar? Ou o teu senhor cortou tua língua?

Aqui estão.

Obrigada, senhor Abílio.

Coloca na conta do meu marido.

Tens marido?

E ele dá conta de tudo isso que tens por baixo do vestido?

Deita-te comigo, pago-te bem.

Mão pesada tem a preta. Gostei dela.

[Risos]

Isso é muito bem feito para ti.

Chalaça, descobre quem é essa preta.

Se for forra, veja quanto o marido quer por ela.

Se for cativa, manda seu dono botar-lhe preço. Esta vai ser minha.

Tu não tens jeito, hein, Pedro. Não tens jeito.

[Estrondo]

Olha!

Olha o que fizeste, português estafermo!

Desculpa, senhor.

Vai-te à merda, português. Teu lugar não é aqui.

Volta pro teu maldito país, volta.

Já ganhaste mais do que mereces em nossas terras.

Eu já te pedi desculpas, senhor.

Eu não aceito as tuas desculpas, portuguesinho.

O Brasil precisa se livrar de parasitas portugueses como tu.

Agora somos uma pátria livre, entendeste?

Ouviste bem?

- Uma pátria livre. - Solta este homem e acalma-te.

- Isso não é contigo, homem. - É comigo sim.

Também sou português e o Brasil é uma terra para todos.

Este homem acordou cedo, antes do sol nascer,

para abrir a tasca e ainda está aqui servindo a todos.

E tu o chamas de parasita? Tu deves desculpas ao Abílio.

Queres que eu peça desculpa ao portuguesinho?

Desculpas uma ova!

Estes porcos imundos portugueses

sugaram tudo o que puderam de nossa terra.

E a deixaram na mão de um principezinho fanfarrão.

Tu sabes com quem estás falando, palerma?

- E tu sabes o que tenho aqui? - O que tu tens aí eu também tenho.

♪ Suspense ♪

Se eu fosse o amigo, eu não arriscaria a vida por uma discussão tola.

Vamos. Vamos, Osório. Vamos embora.

♪ Suspense ♪

Bom dia, baronesa.

Bom dia, Plácido.

Estás atrasado.

Perdão, Dona Domitila. Foi o Alemão que me fez esperar.

Dom Pedro me pediu que o trouxesse até a senhora.

Quem precisa de favores e ainda se atrasa

já não começa bem o seu intento.

- Onde ele está? - Está lá fora.

- A senhora quer que eu o mande entrar? - Não, não. Deixa-o esperar, Plácido.

Não te apresses agora.

O que trazes aí?

Ah, sim. O Imperador pediu para lhe entregar isto.

Ajuda-me, Setembrina.

[Suspiro]

Como é generoso o nosso Imperador.

Não é lindo, Setembrina?

É sim, sinhá. Muito bonito.

Dom Pedro também mandou pedir-lhe que o use hoje à noite

quando ele vier visitá-la.

Guarda isso em meu quarto, Setembrina.

E cuidado, hein?

Vá, vá.

Vamos, Plácido. Conta-me as novidades.

A Assembleia continua dividida.

O grupo de Bonifácio está sofrendo muitas críticas.

Gonçalves Ledo voltou de Buenos Aires

e tem feito forte oposição a elite coimbrã.

Bonifácio está colhendo o que plantou com sua arrogância autoritária.

Dom Pedro tem grande estima por ele. Não faz nada sem consultá-lo.

Isso não é bom, Plácido.

Precisamos fazer alguma coisa.

- E tu precisas ajudar. - Conta comigo, baronesa.

Setembrina?

Chamou, sinhá?

Manda entrar o homem que está lá fora.

Essa Constituinte é uma ameaça ao poder imperial, Plácido.

E a nós também.

E Bonifácio já demonstrou não ter forças para impedir

que o grupo de Ledo leve a cabo suas ideias liberais.

A perseguição que promoveu contra esses anarquistas

só fez piorar a imagem de Dom Pedro.

Os jornalecos continuam despejando veneno entre o povo.

Precisamos agir Plácido. Precisamos agir.

Sim.

Bom dia, senhora Domitila.

É Baronesa, meu senhor.

Desculpe, Baronesa.

Eu agradeço se formos direto ao assunto,

eu tenho muitos afazeres.

Podes ir, Setembrina.

Senhora Baronesa, encontro-me com meu navio impedido

de descarregar as mercadorias no porto.

Já tentei por todas as vias o desembaraço de minha carga,

que corre o risco de perecer.

Mas não tive sucesso.

Fui informado que a baronesa é o melhor caminho

para se obter justiça no Rio de Janeiro.

Rogo-lhe, humildemente, que interceda por mim nessa questão.

Está bem, Capitão. Eu verei o que posso fazer.

Tomarei peito em sua causa sem, entretanto, garantir êxito.

De antemão lhe afirmo que serei eternamente grato, Baronesa.

Agora preciso me retirar.

Plácido irá pôr o senhor a par

dos detalhes dessa sua...

gratidão.

Agradecido.

♪

Pois muito bem, capitão.

Um conto de réis.

Acho muito justo.

Não, não.

Aqui não.

Vamos.

Eu te disse para não ires àquela hora à tasca,

mas tu és teimosa. Viste agora o que arrumaste?

- Então agora a culpa é minha? - Sim! A culpa é tua.

A culpa é tua!

Tu devias me obedecer e não me envergonhar na frente de todos.

O que você está dizendo, Arrebita? Eu não envergonhei ninguém.

Eu agi como uma mulher decente deve agir.

- Esbofeteaste o Imperador, Ana! - E eu lá sabia quem ele era, homem!

E se soubesse, eu de qualquer forma teria feito o mesmo, Arrebita.

Quem aquele homem pensa que é para fazer isso comigo?

Tu não entendes o que aconteceu? Eu posso perder meu emprego.

Nós podemos até ser banidos da cidade.

Arrebita! Um homem apalpa as partes da tua mulher

e você está preocupado com o teu emprego?

O que queres que eu faça? O que queres que eu faça?

Que desafie o Imperador para um duelo?

Não seria má ideia.

Pelo menos isso mostraria o valor que tenho para você, Arrebita.

Entende uma coisa, Ana.

Se eu pudesse, eu faria aquele maldito arrogante comer capim pela raiz.

Mas tu pareces que vives em outro mundo.

Sempre haverá os que mandam e os que obedecem.

É assim aqui e em todo lugar.

Pois em mim ninguém nunca vai mandar.

Nunca mais, Arrebita. Nunca mais mesmo.

E já chega o que passei nos tempos de cativeiro.

Você não me quis livre ao teu lado?

Se está arrependido, eu procuro um quilombo

e vou para lá com o nosso Manuel.

Eu prefiro mil vezes ir atrás com nossos pretos fugidos

do que ser uma mulher desrespeitada.

E agora?

O que é que eu vou fazer?

Como vou apagar essa vergonha que estou sentindo?

Se você tem vergonha de mim, Arrebita, nós não temos mais nada a conversar.

Não, não é isso. Eu não tenho vergonha de ti, espera.

Bom dia.

- Senhor Arrebita? - Sim, sou eu.

O que desejas?

Muito prazer, eu me chamo Francisco.

Eu sou oficial de gabinete de Sua Majestade Real,

o Imperador Dom Pedro I.

Posso entrar?

- Sim, entre. - Com licença.

[Canto de pássaros]

- Posso sentar-me? - Sim, por favor.

Mas o que te traz aqui, senhor Francisco?

Chalaça. Podes me chamar de Chalaça.

Assim fico mais à vontade para te chamar de Arrebita.

Muito bem, meu amigo Arrebita,

o assunto que eu tenho a tratar contigo é extremamente delicado,

e trata-se de tua mulher.

A preta Ana do Congo, não é assim que ela se chama?

O que o senhor quer com minha mulher?

Não, não sou eu que quero. Sua Majestade e tua mulher tiveram...

Bom, tiveram um encontro um dia desses.

Na tasca do Abílio, tu talvez estejas ciente,

pois, infelizmente, se comenta o fato em toda a cidade.

Podemos ir direto ao assunto, senhor Oficial de Gabinete?

Muito bem, assim que se fala, senhor Arrebita.

Eu serei objetivo.

Dom Pedro mandou-me aqui

pois ele tem interesse em estar mais próximo de tua mulher.

Como é?

- O que estás dizendo? - Calma.

Antes que tu penses em alguma bravata, escuta o que eu tenho a dizer.

Dom Pedro é um homem muito generoso, senhor Arrebita.

E como membro da nobreza, ele tem lá os seus caprichos.

Se aceitares, senhor Arrebita,

tudo será feito na mais plena discrição e serás bem recompensado.

Podes até receber um título de nobreza.

♪ Suspense ♪

Saia da minha casa.

E diga ao Imperador para enfiar o título de nobreza pelo seu--

Shh...

Veja bem o que dizes...

Arrebita.

Saia da minha casa.

Agora!

[Suspiro]

♪ Suspense ao fundo ♪

[Batida de porta]

Arrebita...

Me deixa em paz, mulher!

♪

Três meses se passaram e Dom Pedro não cumpriu o prometido.

Nem sequer uma linha

de desagravo à minha pessoa foi publicada no Diário do Governo.

Mas o que continuam valendo são as injúrias de Bonifácio.

Eu não posso esperar mais.

O Imperador age como se fosse um ajudante de ordens de seu ministro

e não seu Imperador. Ele envergonha a maçonaria.

Bonifácio achou que me calaria mandando-me pros Estados Unidos.

Secretário de Negócios...

sei muito bem o que queria aquele falso.

O salário que me ofereceu foi aviltante.

Mas nem de longe foi o principal motivo da minha recusa.

Ele queria me humilhar. E fazer parar os meus artigos.

May, a Carta Magna está quase pronta.

Com ela em vigor, os desmandos do Imperador

e de seus ministros corruptos não vão continuar.

Eu acho que deves aguardar mais um pouco.

Eu não vou me calar, Ledo.

Eu vou publicar a Malagueta Extraordinária Número Dois.

E eu não vou poupar os Andradas.

O que Bonifácio e seus irmãos fizeram contigo, Ledo,

foi uma grande covardia.

E de lá para cá esses excessos continuam.

O povo precisa reagir. E esse é o nosso dever.

Não, eu não digo que devas fugir ao teu dever.

Só que esperes a hora certa.

Sabes que se esse teu manifesto chegar às ruas, estarás correndo perigo.

O perigo faz parte da nossa profissão.

Mas não se constrói uma nação de verdade sem imprensa livre.

Bonifácio me acusou de bajulador,

de incompetente, de sem caráter.

Eu tenho o direito de resposta.

De mostrar quem é esse que quer a abolição da escravidão,

e controla o governo de acordo com seus interesses privados.

Estamos bem representados na Assembleia.

Se conseguirmos promulgar a Constituição e Dom Pedro assiná-la,

ficaremos muito próximos da república.

Eu folgo em saber disso, Ledo.

Mas o que temos aqui é uma questão pessoal.

Está certo, meu irmão.

Vejo que estás decidido.

E te admiro por isso.

Até mais ver, May.

Até mais ver, meu amigo.

Vamos imprimir.

♪

♪

[Batida de porta]

- Majestade. - Preciso conversar contigo, Bonifácio.

Eu não o esperava tão cedo.

Aconteceu alguma coisa? Então ainda não vistes isso?

- O que é isso? - Luiz Augusto May.

Lê tu mesmo o que diz sobre ti e sobre meu governo.

Mas esse sacripanta não se cala.

Acusa-me de não cumprir com a minha palavra.

Insinua que tenho intenções de me ligar a Portugal novamente.

E sobre ti, Bonifácio... é melhor que leias tu mesmo.

Eu não aguento mais as pressões dessa facção de demagogos republicanos.

E não são só esses, com seus jornalecos,

que estão me atormentando não, Bonifácio.

De um lado os ingleses me pressionando para que a escravidão termine,

do outro os donos das terras me pressionando,

exigindo que esse assunto seja enterrado.

Se eu agrado um, desagrado o outro.

E essa Assembleia Constituinte que eu aceitei formar, Bonifácio,

está me saindo melhor que a encomenda.

Do jeito que as coisas vão,

daqui a pouco terei que beijar as mãos dos nobres deputados todos os dias,

e pedir a eles permissão até para sair às ruas.

Majestade, eu devo lembrá-lo

que eu fui contra a formação dessa constituinte desde o início.

Seis mil assinaturas, Bonifácio. Seis mil. E a maçonaria endossando.

O que querias que eu fizesse?

Dom Pedro...

A constituição existe não só para coibir os abusos do monarca,

mas também dos políticos. Da própria população.

A constituinte não quer o povo brasileiro como súditos, Bonifácio,

mas sim como cidadãos.

Não me opus a isso, mas do jeito que as coisas vão...

os liberais federalistas precisam ser impedidos

ou vão acabar me tornando uma figura decorativa.

Isso eu não vou permitir!

E o que Vossa Majestade pretende fazer?

O que tu pretendes fazer, Bonifácio?

Querem se vingar de ti e derrubar teu ministério.

Sequestrar os bens dos portugueses foi um exagero desnecessário.

Eu não devia ter te dado ouvidos quanto a isso.

Agora precisamos reagir.

Majestade, meu cargo e minha lealdade sempre estiveram à sua disposição.

Peça o que quiser de mim e eu farei.

Quanto a essa Assembleia Constituinte tenebrosa, eu vou pensar no que fazer.

Agora, quanto a isso...

acho que sabes o que quero.

♪ Melodia dramática ♪

[Batida de porta]

♪ Melodia dramática ♪

♪

♪

♪

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