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Alexandria, Egito.
Uma vasta metrópole onde vivem 5 milhões de pessoas.
E uma arqueóloga na missão de uma vida.
Pepi Papakosta está à procura
do túmulo perdido de Alexandre, o Grande.
Encontrar o túmulo de Alexandre
é o sonho de qualquer arqueólogo.
É o Santo Graal.
Alexandre liderou um exército ao longo de 19 000 km,
conquistou o mundo então conhecido e tornou-se um deus vivo.
Pepi combina manuscritos antigos e tecnologias modernas
para identificar o local exato da cidade perdida de Alexandre.
Está a desenterrar pistas incríveis,
-tesouros gregos... -Ela é linda.
... túneis ocultos...
... e até uma estátua de mármore formidável
que se pensa ser do próprio Alexandre.
Cada descoberta coloca-a cada vez mais perto
do derradeiro prémio no campo da arqueologia.
A Pepi é capaz de ser a arqueóloga que mais perto esteve
de descobrir o túmulo perdido de Alexandre, o Grande.
Se a minha teoria estiver correta,
há uma grande probabilidade de encontrar o túmulo de Alexandre.
O TÚMULO PERDIDO DE ALEXANDRE, O GRANDE
Vou a caminho da cidade de Alexandria,
fundada pelo próprio Alexandre há quase 2300 anos.
Nos últimos 20 anos, Fred Hiebert, arqueólogo da National Geographic,
esteve envolvido em descobertas arqueológicas por todo o mundo.
A Pepi Papakosta está a fazer escavações inovadoras.
Está a encontrar muitos artefactos da época de Alexandre, o Grande.
É muito emocionante.
Pepi já descobriu um tesouro que chamou a atenção do mundo.
Era o último dia da escavação.
Eu estava quase a desistir.
Mostraram-me um pequeno pedaço de mármorebranco
numa das paredes da escavação.
Mais de seis metros abaixo da superfície,
a equipa encontra mármore grego no solo lamacento.
Havia a possibilidade de ser apenas um pequeno pedaço de mármore.
Mas apareceu o joelho,
a perna,
a outra perna, depois o corpo.
Foi algo incrível.
E depois vi uma cara que me era muito familiar.
Vi a cara de Alexandre, o Grande.
Foi um momento fantástico,
talvez o momento mais importante da minha vida.
Voltei a trazê-lo à luz do dia,
depois de 2300 anos.
2 DE MAIO, 2018
A descoberta da estátua gera burburinho por todo o mundo,
levando o presidente da Grécia a visitar o local das escavações.
Todos os gregos se interessam por Alexandre.
Todos os gregos o admiram, até hoje.
Ele está vivo na alma dos Gregos.
Foi Alexandre que me levou a tornar-me arqueóloga.
Alexandre é a razão de eu estar aqui.
É algo que não controlo. É algo que me vem da alma.
Alexandre, o Grande, é considerado um dos melhores líderes militares
de todos os tempos.
Tornou-se rei com apenas 20 anos,
depois de o seu pai, Filipe II da Macedónia,
ser brutalmente assassinado.
Ao longo de 12 anos, ele liderou o seu exército ao longo de 19 000 km,
criando um vasto império que se estendia do Egito
até ao atual Paquistão.
Em 332 a.C., Alexandre invadiu o Egito,
tornando-se faraó e um deus vivo.
Mas, com apenas 32 anos,
morreu em circunstâncias misteriosas, na Babilónia.
Depois de morrer, foi mumificado
e sepultado em Mênfis.
Depois, quando a capital passou para a nova capital de Alexandria,
desenterraram Alexandre e construíram-lhe um novo túmulo
mesmo no centro da antiga Alexandria.
Depois, por volta de 350 d.C.,
a história de Alexandria começa a cair em silêncio.
Há sismos, tsunamis, motins nas ruas.
Não há mais descrições daquela belíssima cidade real.
O túmulo de Alexandre desaparece.
Já foram feitas mais de 140 buscas reconhecidas do túmulo de Alexandre.
O arqueólogo Howard Carter,
Heinrich Schliemann, o homem que descobriu a antiga cidade de Troia,
e até Napoleão Bonaparte, todos foram seduzidos por este mistério.
Há referências antigas
sobre mais ou menos onde ele foi enterrado.
Pepi está a estudar as fontes da antiguidade grega e romana
em busca de pistas sobre o local do túmulo de Alexandre no Egito.
Mas todas foram escritas algumas centenas de anos após a morte dele.
Temos de nos basear nestas fontes. São a única coisa que temos.
Strabo, o geógrafo grego, que visitou Alexandria no século I a.C.,
diz claramente que o túmulo de Alexandre está aqui,
na cidade que ele fundou.
E ele descreve também que Alexandre foi sepultado
no interior do Bairro Real.
A cidade antiga com um Bairro Real referida por Storba
desapareceu há muito sob a Alexandria dos tempos modernos.
Para encontrar o túmulo de Alexandre,
primeiro, Pepi tem de encontrar a sua cidade perdida.
Alexandria é a principal cidade egípcia no Mediterrâneo,
junto ao Delta do Nilo.
Atualmente ocupa mais de 260 km2,
cerca de cinco vezes o tamanho de Manhattan.
Oculta sob as suas ruas
está a antiga cidade grega fundada por Alexandre.
Era uma grande cidade, fundada por uma grande figura.
Mas Alexandria é um sítio difícil de escavar.
Pepi está a escavar num jardim público
do tamanho de 17 campos de futebol.
JARDINS SHALLALAT
É um dos poucos sítios que não está coberto
pela densa expansão urbana.
Os Jardins Shallalat ocupam uma área enorme,
com cerca de 93 mil metros quadrados.
Ninguém antes explorou Shallalat devidamente.
Desde que encontraram a estátua,
a equipa de Pepi retirou cerca de 20 mil toneladas de terra,
quase o dobro do peso da Torre Eiffel.
Tenham cuidado, sim?
Cada camada que Pepi escava
contém um registo selado da história da cidade.
Ela está a escavar a mais de 9 metros de profundidade,
através de camadas modernas, bizantinas e romanas,
em busca do nível grego da época de Alexandre.
Pepi está à procura de fragmentos de influência grega,
indícios que a ajudem a localizar a cidade antiga original.
Cuidado.
Boa.
É um fragmento de um vaso.
É possível ver o desenho, a cor, o vidrado preto.
Cuidado. Talvez encontremos o resto.
Experimenta, aqui deste lado.
Muito bom.
Incrível.
É uma figura feminina.
Tem asas.
E ouro nas asas. Deve ser uma deusa.
Penso que não é de Alexandria, talvez seja importado da Grécia,
porque é de alta qualidade e muito antigo.
Ela é linda, mesmo 2300 anos depois.
Mas é linda.
Para ajudar Pepi na sua busca pela cidade antiga,
o arqueólogo Fred Hiebert chega ao local.
Que bom ver-te. Obrigada por teres vindo.
É um prazer estar aqui.
Ele traz anos de experiência em escavações internacionais.
É incrível. É uma escavação gigantesca.
Sim, é muito difícil, sinceramente,
por causa da enorme quantidade de detritos
e também do problema com a água.
Temos de bombear a água continuamente para podermos escavar.
Vamos ver de...
Papakosta! Encontrámos uma coisa.
Ótimo, Mabruk. Vou já.
-Olha para aquilo. -É uma pega de uma ânfora.
Podem limpá-la primeiro?
As ânforas eram grandes vasilhas de barro com pegas
onde se colocava vinho.
Estas ânforas costumavam ser
importadas de Rodes e de ilhas gregas,
com vinho para Alexandria.
Teria pelo menos um metro de altura, certo?
-Sim. -É muito vinho.
-E vinho de qualidade. -E de qualidade.
Os alexandrinos eram um povo muito alegre,
um povo muito feliz. Bebiam muito vinho.
Cada pega de ânfora tem marcado o nome do fabricante
e a data de produção.
-Vemos aqui as letras gregas. -É fantástico.
Encontramos nomes gregos na terra do Egito.
É como uma mensagem numa garrafa.
Parece que escavaram mesmo até à fundação da cidade,
às ruas em que Alexandre andou.
Abaixo desta camada há solo e substrato rochoso
sobre os quais foi construída a cidade original.
Diz-se que Alexandre terá marcado pessoalmente
os contornos das primeiras construções.
Aqui foi construída a primeira Alexandria que conhecemos.
A cidade que foi instituída pelo próprio Alexandre, o Grande.
Exatamente.
Pepi identificou a cidade dele.
Agora, pode concentrar as buscas no Bairro Real.
Mas a cidade antiga não revela facilmente os seus segredos.
Numa questão de minutos, isto pode ficar destruído.
Alexandria, Egito.
A arqueóloga Pepi Papakosta e a sua equipa
estão a fazer escavações profundas, abaixo do lençol freático.
Têm bombas ligadas 24 horas por dia
para controlar o fluxo constante de água que sai do solo.
O tubo partiu-se.
Diz ao Sochi para chamar o Mahmood.
Ele está ali.
Numa questão de minutos, isto pode ficar destruído.
A água cheia de sedimentos entope os tubos e as bombas,
fazendo aumentar a pressão.
Cada vez que deixam de funcionar, no espaço de duas horas,
o local fica inundado com quase 3 metros de água,
provocando semanas de atraso nas escavações.
Estou tão cansada deste problema.
Pepi descobriu vestígios da cidade perdida de Alexandre.
Mas, até a inundação ser controlada,
a busca pelo Bairro Real está suspensa.
Sabemos da existência do Bairro Real de Alexandria
através dos textos do geógrafo grego Strabo.
Tinha palácios, uma biblioteca, um museu.
Também tinha o cemitério real, a Sema.
Então, a nossa expetativa é encontrar
uma enorme rede de ruas,
e os cruzamentos no centro seriam o epicentro da cidade,
seria a zona do Bairro Real.
Esse Bairro Real nunca foi encontrado.
A quantidade de água é inacreditável.
Quando as bombas param, forma-se aqui um lago.
Sempre pensei que a água devia ser uma coisa boa.
É uma bênção na nossa vida.
Na minha vida, é uma desgraça.
Mas agora conseguimos diminuir o lençol freático.
Bombeamos a água 24 horas por dia,
com 16 bombas, oito poços.
Vejam. É um deles. Temos muitos.
Talvez tenha derrotado o Nilo.
Com a água controlada, a equipa pode continuar a escavar.
Estamos a descobrir pedras negras.
Mesmo um pequeno pedaço de pedra negra é muito importante
para a arqueologia de Alexandria,
porque todos sabemos que as pedras negras são o material
de que eram feitas as estradas romanas.
Fantástico. É fantástico. Pedras lindas.
A parte que descobrimos tem cerca de 25 metros.
Imaginam quantas pessoas caminharam sobre elas?
Quantas carroças, quantos cavalos?
Acontecia de tudo nesta rua.
Temos de perceber qual é a relação entre esta estrada
e as outras descobertas que fizemos.
As estradas romanas eram muitas vezes reconstruídas
por cima de ruas gregas já existentes.
Pepi regressa a um dos seus guias históricos fundamentais,
uma planta da cidade antiga.
Este mapa foi feito
pelo astrónomo egípcio Mahmood Bey el Falaki,
em 1866.
Nessa época, as ruas
e muitos edifícios antigos eram visíveis.
O mapa mostra que Alexandria tinha duas ruas principais.
A Via Canópica, com quase 30 m de largura,
ligando Este e Oeste,
era atravessada por outra rua principal, a R1,
que ligava Norte e Sul.
Isto é uma imagem de satélite da Alexandria moderna.
E estamos aqui. Isto são os Jardins Shallalat.
Fizemos uma versão em acetato do mapa de Mahmood Bey.
Os mapas são alinhados usando a linha costeira como referência.
Quando alinhamos o mapa antigo com o moderno,
o resultado, para mim, é fantástico.
Vemos claramente
que o cruzamento das duas grandes vias da Alexandria antiga
fica muito perto da área que estamos a escavar.
Através da interpretação dos textos de Strabo,
ela sabe que o Bairro Real, onde está o túmulo de Alexandre,
ficava a norte do cruzamento central.
Pepi tem agora provas de que o cruzamento fica a escassos metros
dos Jardins Shallalat.
Acredito que a estrada que descobrimos
é a primeira rua paralela à Via Canópica.
A estrada L2 de Pepi atravessa o Norte dos Jardins Shallalat.
A estrada da Pepi vem revolucionar o estudo de Alexandria,
porque a Pepi encontrou uma das estradas principais
descritas por Strabo.
Isso coloca toda a descrição da Alexandria clássica
num quadro de referência que agora nos permite afirmar
que estamos em cima do Bairro Real de Alexandria.
Pepi fez escavações mais profundas nesta zona de Alexandria
do que qualquer outra pessoa.
Ela revelou a cidade antiga de Alexandria.
Agora, redescobriu o Bairro Real.
Ela acredita que no meio dele está o túmulo de Alexandre, o Grande.
E não é tudo.
Depois da morte de Alexandre,
o seu império foi dividido entre os seus generais de confiança.
Ptolomeu tornou-se soberano e faraó do Egito.
A dinastia de Ptolomeu durou 275 anos e mais de 10 gerações.
Cada soberano fez-se sepultar perto de Alexandre,
num grande cemitério no Bairro Real.
Queriam estar perto de um deus para toda a eternidade.
Dentro do recinto real de Strabo
há um Vale dos Reis, literalmente.
Até hoje, ainda não foi encontrado nenhum rei ptolomaico.
O túmulo de Alexandre é o Santo Graal da arqueologia.
É o sonho de todos os arqueólogos do mundo.
Na sua procura pelo túmulo de Alexandre,
a arqueóloga Pepi Papakosta fez uma descoberta
mais importante do que alguma vez podia ter imaginado.
Redescobriu o Bairro Real da Alexandria antiga,
onde fica o cemitério real.
Fontes clássicas dizem-nos que Alexandre está sepultado aqui,
rodeado pelos últimos faraós do Egito.
Estou muito satisfeita
porque acredito que há grandes probabilidades
de estarmos no sítio certo.
Pepi tem autorização exclusiva para escavar em qualquer local
dentro dos 93 mil metros quadrados dos Jardins Shallalat.
É uma tarefa hercúlea.
Um arqueólogo precisa de uma vida inteira
para escavar os Jardins Shallalat.
Precisamos do apoio da tecnologia.
A National Geographic vai apoiar-nos
e ajudar-nos a usar uma nova tecnologia.
Um método geofísico inovador
chamado Tomografia por Resistividade Elétrica
irá gerar uma imagem detalhada
do que está debaixo dos Jardins Shallalat.
os resultados ajudarão a decidir onde escavar a seguir.
São estendidos cabos pelos jardins
e o método transmite eletricidade para o solo, a grande profundidade.
Fazendo centenas de leituras,
a solidez relativa do solo é cartografada em mapas digitais.
As áreas de areia ou terra solta contrastam com áreas densas,
como pedra maciça, os contornos de um edifício
ou mesmo um túmulo.
No final, podemos ter uma ideia,
saber se é grande ou pequeno, a que profundidade está.
A equipa de especialistas demorará dez dias a terminar o levantamento.
A Farsália, de Lucano, é a única descrição detalhada
do túmulo de Alexandre que sobreviveu da Antiguidade,
uma visita de Júlio César.
"Com uma pressa ansiosa, entrou na gruta
escavada para um túmulo.
"Ali repousa o filho louco de Filipe de Pela", Alexandre.
Então, é provável que o túmulo dele tenha uma câmara subterrânea
para manter uma temperatura fria e constante durante todo o ano.
Estamos a entrar no grande túmulo de Kom el Shoqafa.
Isto é verdadeiramente incrível.
Estando o Bairro Real identificado,
Fred quer descobrir como o túmulo de Alexandre
e os dos faraós sepultados à sua volta poderão ser.
Imagina como era transportarem os seus mortos até aqui?
Está a 18 metros de profundidade, pelo menos.
Não consigo imaginar o que será trazer um cadáver até cá.
A arqueóloga Maria Nilsson está a mostrar a Fred
os túmulos dos cidadãos gregos que viviam na Alexandria antiga.
É uma cidade dos mortos subterrânea.
-Faz lembrar um templo grego, não? -Faz mesmo.
É típico de Alexandria, estes túmulos escavados na rocha.
Aqui temos exemplos magníficos
de como a arte egípcia se combina com os recém-chegados.
Aqui no friso temos o disco do Sol alado,
tradicional da arte egípcia.
Mas, se nos aproximarmos um pouco...
Aqui, vemos claramente os elementos gregos.
Sim, a Medusa. É incrível.
Então, agora vamos entrar
no santuário principal.
E temos uma cena única.
Parece uma cena de mumificação tradicional.
Exato. O que temos aqui é uma representação de Osíris,
que é uma representação do próprio morto, claro.
Temos Anúbis, que está a fazer a mumificação.
E a sustentar todo o processo de mumificação
temos os vasos canópicos.
-Onde punham os rins, o fígado... -Exato.
Os escritos do historiador Quintus Curtius Rufus
dizem-nos que Alexandre, o Grande, foi mumificado
como os faraós egípcios que o antecederam.
Não é o túmulo de Alexandre, o Grande,
mas o túmulo dele deve ter algumas parecenças
com este tipo de túmulo.
Subterrâneo, esculpido,
com vários estilos diferentes.
Deve ter parecenças, sim.
Decerto terá incluído também elementos da cultura egípcia.
Sabemos a partir das fontes que havia uma câmara principal
onde Alexandre foi colocado num sarcófago.
A combinação da arte egípcia e grega
-é o legado de Alexandre, o Grande. -É.
Tal como estas catacumbas,
um complexo labirinto subterrâneo com corredores e túneis
fariam parte do túmulo de Alexandre.
De volta aos Jardins Shallalat,
a equipa de Pepi descobriu algo escondido no subsolo.
Acabámos de encontrar esta construção
e percebemos que há um túnel lá dentro.
É interessante dar uma vista de olhos.
Foi construído pelo Homem. Muito interessante.
Gostava de ir lá dentro.
Mas esqueci-me do fato de banho.
Meu Deus. Novas aventuras, nesta escavação.
Temos de ir lá dentro, mas é muito difícil.
Acho que vamos pedir voluntários.
Não sabemos o comprimento e a profundidade que tem,
por isso, é melhor tomarmos algumas precauções.
Ramadan, se tiveres medo, sais.
Está bem? Tem cuidado, por favor.
Talvez leve a outra coisa, algo interessante.
Vamos ver.
Só havia uma exígua bolsa de ar para a equipa respirar.
Há centenas de toneladas de terra por cima do túnel,
que pode colapsar a qualquer momento.
Está tudo bem?
Tens de falar connosco.
Está tudo bem?
Gostava de levasse a uma porta secreta, a uma câmara.
É muito comprido.
Termina ou continua?
Papakosta, há uma espécie de muro.
Ao fim de 7,5 m, há um grande problema.
O túnel colapsou.
Há muitos detritos.
A passagem está tapada com um monte de escombros
coberto de marcas de queimaduras.
Também há fragmentos de corda queimada.
Parece que este corredor está tapado há centenas de anos.
Não é seguro escavar mais devido às toneladas de terra,
da rua, e de um edifício moderno enorme.
Depois de 12 anos de trabalho no local,
é um revés frustrante para Pepi.
Foi um dia muito difícil.
Mas não estou preparada para dizer
que não há aqui nada nem que é algo grande.
Sou otimista, vamos continuar.
Não posso parar, tenho de continuar.
Alexandre não nasceu com o título "Grande",
mas tinha uma linhagem forte.
Era filho de um rei poderoso, Filipe II da Macedónia.
Filipe foi sepultado numa cidade chamada Vergina
com descobertas incríveis.
Foi das descobertas arqueológicas mais incríveis da década de 1970.
O seu esqueleto foi encontrado num sumptuoso caixão de ouro.
Havia coroas feitas de ouro maciço.
Autênticas obras-primas.
Se se encontraram aqueles objetos formidáveis no túmulo do pai,
o que haverá no túmulo do próprio Alexandre?
A equipa de geofísicos grega entrega a Pepi
os resultados do levantamento nos Jardins Shallalat.
O relatório mostra cerca de 14 anomalias,
ou seja, alvos arqueológicos.
Dos 14 pontos identificados pelo levantamento geofísico,
decidi começar no maior. Chamamos-lhe E3b.
A maior das 14 anomalias, a E3b,
fica a 245 m do local onde Pepi está a escavar agora.
Antes de formar uma equipa de escavação,
é necessária fazer alguma exploração preliminar.
O passo seguinte seria fazer perfurações
para confirmar que os pontos sugeridos estão corretos.
Isto é o boroscópio da National Geographic.
Vamos introduzi-lo num destes furos
para podermos ver o interior
do que a Pepi está a descobrir.
É uma câmara muito boa, de alta resolução,
presa a um cabo de fibra ótica muito comprido.
Na verdade, foi desenvolvido para inspecionar motores de aviões 747,
e os nossos engenheiros adaptaram-na para investigação arqueológica.
Tem esta incrível extremidade robótica, aqui,
que consegue olhar em todas as direções.
Meu Deus.
-Vamos começar a ver. -Está bem.
-Podes subir? -Queres subir?
E para o lado... Aqui.
Há marcas brancas de calcário,
mas não sei bem se é uma construção ou se são pequenas pedras.
A rocha calcária não faz parte da composição do solo, aqui.
Valorizada pelos gregos pela sua qualidade estética,
era proveniente de minas a cerca de 50 km da cidade.
Podem estar a ver fragmentos de edifícios originais de Alexandria.
Podemos dar uma vista de olhos e ficamos com uma ideia
de que há pedras lá em baixo, mas não chega, pois não?
Claro que não. Temos de escavar.
Sem dúvida.
Mas sabemos que temos mesmo de escavar aqui.
Enquanto os trabalhos na escavação principal continuam,
Pepi divide a equipa e começa a escavar
a grande anomalia, a E3b.
Isto é o culminar da obsessão da Pepi aqui em Alexandria.
Ela começou há quase 23 anos, e aqui estamos,
no Bairro Real da cidade de Alexandria de há 2300 anos.
Ela sabe isso, tem o X marcado no mapa,
com a estrada romana que está nas outras escavações.
Sabemos que ela vai encontrar algo, não sabemos é o quê.
Pepi Papakosta está à procura do túmulo perdido
de Alexandre, o Grande.
Identificou a sua antiga cidade
e confirmou a existência do seu Bairro Real.
Uma equipa a trabalha na escavação principal,
enquanto 250 m a leste uma segunda equipa escava
para chegar à maior anomalia, a E3b.
Já estão a encontrar indícios fascinantes.
Bravo. Ótimo. Vejam.
-É gesso, mas tem cor. -Vamos ver.
Lindo.
-Azul, vermelho. -Fantástico.
Isto é um tipo de decoração dos túmulos macedónios, como sabes.
Pensa-se que gesso com esta cor azul intensa
terá sido o primeiro pigmento artificial do mundo,
criado por uma mistura de cálcio, cobre e sílica.
Esse pigmento foi usado para decorar o túmulo do pai de Alexandre.
É interessante, porque encontramos muitas pequenas coisas.
-Papakosta? -Sim?
Dá-mos.
-Ibrahim, trazes-me água? -Mais mármore.
-É mármore branco. -É mesmo mármore.
Mármore branco grego.
É muito invulgar ver isto aqui no Egito,
em especial no Delta do Nilo.
Não há aqui rocha, muito menos mármore egeu como este.
É muito raro encontrar mármore branco em Alexandria.
-É um bom sinal, é encorajador. -É um excelente sinal.
Mesmo com uma vasta equipa de trabalhadores,
retirar cerca de 400 toneladas de terra, areia e lama
demorará semanas.
Fred regressa aos EUA, enquanto os trabalhos continuam.
DOIS MESES DEPOIS
Estamos no final da época de escavações
e tempestades tropicais fora de época inundam o local.
Estamos no início de dezembro, por isso, o tempo está a piorar.
Normalmente, é um problema para nós, porque pode criar perigo.
A terra pode colapsar, os trabalhadores podem escorregar,
por isso, não é fácil trabalhar com chuva.
Mas esperamos que a chuva pare e continuamos.
Quando a chuva para, a equipa percebe
que o local de escavações E3b está sob 1,2 m de água.
O trabalho foi muito difícil, desta vez,
porque tivemos de enfrentar água de cima e água de baixo.
Chegámos a uma grande profundidade.
A terra é muito instável
e estava com receio de que pudesse colapsar.
E o nível de água também é sempre um problema.
Uma bomba potente é descida até à escavação alagada.
Esta anomalia pode ser muitas coisas.
Pode ser um edifício, um monumento, até pode ser um túmulo.
Estou entusiasmada, mas também muito nervosa.
Talvez seja algo importante, talvez não seja nada.
Fred está de volta ao Egito
e vai a caminho do local de escavações E3b.
Pepi e a sua equipa estão prestes a expor a grande anomalia,
7,5 m abaixo da superfície atual.
-Bem-vindo de volta. -É ótimo ver-te.
-Igualmente. -Meu Deus, vejam bem.
Sim. Foi um trabalho duro, desta vez.
Bem, Pepi, é enorme. A que profundidade estão?
A 7 metros, 7,5 metros.
É um trabalho colossal.
O problema mais complicado é o nível da água, como sempre.
-Como sempre. -Como sempre.
Vai ser muito emocionante ver o que há ali debaixo.
-Vamos ver? -Sim, claro.
Ótimo.
Vejam bem isto.
Finalmente, conseguimos ver o fundo desta escavação incrível.
Vejam.
Arenito.
Que é o substrato rochoso natural de Alexandria.
Isto é o substrato rochoso natural de Alexandria?
Exatamente. Mas há aqui atividade humana.
Esta é uma camada construída, certo, Pepi?
Sim, é. Foi construída.
A grande anomalia detetada pelo levantamento elétrico
não é o túnel ou câmara subterrâneos que Pepi esperava encontrar.
O que achas que é, Pepi?
Na minha opinião,
isto deve ser uma espécie de fosso defensivo
das muralhas islâmicas do Leste de Alexandria.
É incrível.
Então, a cidade de Alexandria, fundada por Alexandre, o Grande,
mudou imenso, ao longo dos séculos,
e aqui é claro que, mil anos depois,
cavaram um fosso enorme à volta de outra muralha da cidade.
Nesta secção dos Jardins Shallalat,
a camada greco-ptolomaica não existe.
Parece que esta parte do Bairro Real foi completamente destruída,
quando habitantes posteriores remodelaram a cidade.
Esperava que fosse outra coisa, claro,
uma construção ou outro material.
Ainda acreditas que o túmulo de Alexandre, o Grande, está aqui?
O único sítio lógico para ser enterrado, na altura,
era nesta zona.
O local de escavações E3b não revelou o túmulo de Alexandre,
como Pepi esperava.
Mas, 250 m a oeste,
a segunda equipa continuou a trabalhar na escavação original.
E, 9 m abaixo da cidade moderna,
ela descobre o achado mais extraordinário de todos.
Estás a ver estas pedras grandes?
-São enormes. -Sim.
Retirámos duas delas, o que foi muito difícil,
e percebemos que debaixo delas não há mais nada,
é o substrato rochoso de Alexandria.
Deixa-me mostrar-te a dimensão destes alicerces.
É enorme, esta fileira toda.
Continua e continua.
Fazes ideia do comprimento total que terá?
Já escavámos 60 m, mais ou menos, e não chegámos ao fim.
-De um só edifício? -Sim. E continua.
Isto são as enormes pedras basilares
do que terá sido um edifício muito grande.
-O que achas que era? -É uma boa pergunta.
No Bairro Real, ficavam os edifícios públicos mais importantes da cidade.
Por isso, de certeza que este edifício
será um desses edifícios famosos do passado.
Os vastos alicerces servem de guia para recriar
o aspeto que este enorme edifício grego poderá ter tido.
Construído em mármore branco e arenito,
este terá sido um dos muitos templos, palácios e túmulos
que enchiam o Bairro Real de Alexandria.
Alexandria tornou-se uma das cidades mais deslumbrantes
do mundo antigo.
A procura do túmulo de Alexandre, o Grande é particularmente especial.
É um grande mistério.
Mas também é fantástico trabalhar com uma investigadora
que é verdadeiramente persistente,
que segue a história e não aceita um não.
E ela fez descobertas incríveis.
Alicerces ptolemaicos que nunca ninguém viu.
Ela estabeleceu uma relação entre isso e uma rede de estradas romanas
que foi descrita na década de 1860 e depois se perdeu na História.
Ela escavou a uma profundidade maior em Alexandria
do que alguma vez alguém tinha feito.
A estátua de Pepi, agora totalmente restaurada,
ocupa um lugar de destaque no Museu Nacional de Alexandria.
Esta estátua mudou a minha vida.
Nunca imaginei que pudesse encontrar uma estátua de Alexandre.
Estou muito orgulhosa.
Descobri a cidade dele, confirmei a existência do Bairro Real
e agora vou continuar a minha busca.
Pepi tem mais 13 anomalias para escavar,
espalhadas pelos Jardins Shallalat.
Se aprendi alguma coisa com a Pepi,
é que temos de continuar a tentar, de continuar a andar para a frente.
Se ela já o encontrou? Ainda não.
Mas acho que nunca ninguém esteve mais perto.
É uma sensação incrível, para um arqueólogo.
Isto é um presente.
Por isso, agora, não tenho o direito de parar, tenho de continuar.
Tradução: Joana Barata
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