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Chamo-me Mick.
Sou inglês e tenho 18 anos.
Tenho 18 anos e estou aqui para ver a revolução.
Não sabia que era possível haver revoluções na Europa.
Pensei que só aconteciam na América do Sul.
Mas está em curso, aqui e agora.
E vim para saber mais.
Os meus pais pensam que eu sou louco, mas isso é normal. Aqui estou.
Chamo-me Hildtraut.
Eu estudo em Berlim, mas sou de Munique.
Estou num comboio a caminho da Azambuja, para ir para uma cooperativa.
Eu já lá estive, recentemente. E gostei muito.
Experimentei todo o tipo de trabalho que podia, e é por isso que vou voltar.
Apanhar tomates, trabalhar o campo, passear as ovelhas,
fazer queijo, cozinhar…
O que me apetecer. Vou passar lá as minhas férias de Verão.
É assim:
o povo unido, jamais será vencido.
É algo que eu gostava de acreditar. Gostava mesmo.
Estou a aqui para ver se isso é possível.
- Poderia ajudar-me? - Claro.
Sim? Obrigado.
É isso mesmo, obrigado! Ótimo!
21 de abril de 1975
Quando as mulheres portuguesas te cumprimentam,
dão-te um beijo em ambas as faces.
Beijaram-me mais aqui nos primeiros dias do que na minha vida inteira.
Bem, talvez não seja verdade, talvez em miúdo tenha sido mais beijado.
Homens jovens e velhos, vêm ter contigo e abraçam-te. Abraços longos.
Uma jovem estrangeira disse-me que estava cansada disso.
Demasiada proximidade física num curto espaço de tempo.
O que podemos fazer?
É um encantamento mútuo que cresce entre as almas.
A primeira coisa que ouço de manhã é a última coisa que ouço à noite:
Camarade, Camarade, Camarade.
Lá está, a ressoar na minha cabeça.
Ela fala muito.
Nós?
Como nós lavamos? Com as máquinas de lavar?
Temos de nos despachar, despachar.
- Ela é muito rápida! - Sim, bem mais rápida que nós.
- Todos os dias? - Todos os dias.
E sem homens.
Sem homens? Sem homens?
- Entendes? - Não...
- Ela disse: “O homem senta-se e bebe”. - Okay, okay.
Acho que ela quer que nos despachemos.
Rápido!
Queres que acabe?
50 copos, 50 pratos de jantar, 50 pratos de sopa,
50 conjuntos de talheres, oito terrinas grandes,
oito frigideiras, colheres de pau, tachos tão grandes como banheiras…
Todas as manhãs, até às 10h, a lavar pratos.
- Não lhe ligues. Ele está meio bêbado. - Alguém acabou de me tocar?!
Alguém acabou de me tocar?!
Isto é um bocado estranho.
Ela está assustada, um bocado assustada.
4 de maio de 1975
Pila, foda, peido, cona.
Como é que se diz em inglês?
É tudo o que as mulheres da cooperativa parecem querer saber.
Elas oferecem-me formidáveis homens portugueses para namorar,
casar e fazer filhos.
Asseguram-me que são uma magnífica espécie masculina com pilas enormes.
Estas mulheres parecem projetar em mim os seus próprios desejos,
e quando eu não aceito os seus incríveis presentes ou não entro no jogo delas,
dizem que sou pudica, que não tenho sentido de humor.
Hoje sinto que me abandonaram cruelmente à minha solidão neste país estrangeiro.
Tanto branco!
Novos e velhos,
leves e arejados,
ou pesados como neve derretida,
sem rugas ou brancos amassados, brancos pálidos, brancos tiranos.
É assim, rodeados de todo este branco que nos atiramos aos sábados.
Aos sábados, as roupas são batidas,
são lavadas a sabão,
e torcidas para escorrer a água fria,
e todas as nódoas são removidas à mão.
São estas as características do nosso sábado:
toalhas, panos de cozinha, panos de mesa, lenços de pano,
lençóis da cama e uma infinita corrente de fronhas de almofada e camisas…
Um mar de branco sem sinal de capitulação.
Ficamos cegas de tanto branco português.
Uma máquina de lavar a roupa vinha mesmo a calhar.
Isso é incrível.
- Au. - Desculpa.
Aqui são os teus pés que sofrem. É de tanto andar.
Não pressiones muito.
O que é me estavas a dizer há bocado?
- Sim, sobre aquelas minhas amigas? - As que ficaram lésbicas.
Tantas.
A sério?
Sete em dez das minhas amigas tornaram-se lésbicas,
num curto espaço de tempo.
Isso é imenso, não é? Sete em dez?
E uma delas…
Então e tu?
Ainda estou a pensar nisso.
Uma delas decidiu que não ia falar mais com homens.
Então foi mesmo difícil.
Uma vez estava com uns amigos homens e eles deram-lhe os parabéns
e ela virou-lhes as costas.
- É um bocado ridículo, não é? - Eu sei, foi muito desconfortável.
Ela pode ser lésbica, mas pronto, os homens também existem.
E eu continuo a pensar, como é que elas se dariam aqui?
Como seria?
Porque elas tinham este conceito da mulher forte.
Mas eu vejo as mulheres aqui e elas são inacreditavelmente fortes.
Elas fazem coisas incríveis, conduzem tratores...
Mas não há bem uma comparação, não é?
As mulheres… São mais fortes mas eles não lhes dão importância.
Elas fazem tudo.
E são os homens que são os chefes da casa, os chefes disto e daquilo.
E ficam com o crédito.
São as mulheres que pensam, que têm a força física e mental.
Não achas?
Sim, totalmente. Mas é difícil funcionar.
As mulheres trabalham muito, fazem todos os trabalhos domésticos;
algumas parecem ser matriarcas, parecem ser elas,
no final de contas, a tomar decisões.
Há algo que vos quero dizer.
Acho que é muito injusto que sejam sempre as mulheres a lavar a loiça.
Eu, a Helga e a Olga estamos a lavar a loiça há 3 dias
e vocês ainda nem mexeram uma palha.
E acho que está na altura de serem vocês a lavar a loiça.
Porque se querem mudar as coisas têm de começar na vossa cozinha.
Então tenho uma pequena surpresa: um jogo com dados.
E o José pode começar porque ele está à cabeça da mesa.
Basicamente, lanças os dados
e o que tirar o número mais baixo lava a loiça.
- Vá, Mick. - Queres que comece eu?
Não me importo de começar.
Calhou-lhe 3 quatros.
Ela tem três e...
Isso é bom. Dois, dois.
Então, 1 dois ou 1 quatro.
Lança de novo.
23 de maio de 1975
Sinto uma forte ligação com as mulheres das aldeias.
Não têm água quente então lavam as suas próprias roupas
à mão cá fora com água fria e cozinham numa fogueira.
Aos domingos fazem o pão para a semana toda
e para além disso ainda tomam conta das crianças.
Os rapazes já se comportam como pequenos tiranos dominantes.
Os homens trabalham e depois vão para o café e voltam a casa bêbados.
As mulheres que se juntaram às cooperativas
já deram uns passos em frente em direção à liberdade.
Quando as crianças adormecem e não chove,
quando os homens vão com elas pelos caminhos escuros até à comuna,
então elas vêm às reuniões apesar de nunca falarem.
Só desabafam quando estão sozinhas comigo.
Eu não tenho grandes soluções para os problemas delas.
Nem para os meus tenho.
- Como é que dizes? - “Mão”
Vem cá, Paulinho! Vem cá.
Juntos vamos mudar as relações de trabalho.
Juntos vamos redistribuir a propriedade.
Vamos mudar relações de género.
Criar um novo homem. Uma nova mulher.
Vem ter comigo, Paulinho.
Sou a mais calmeirona.
E fumo.
Fumo nas ruas da aldeia.
Fumo e beijo. Oh sim, oh eu beijo.
E não beijo simplesmente
entre quatro paredes, no palácio.
Até beijo no meio da praça da aldeia.
Disseste que me passeio com os meus seios nus,
mostrando-me pelos corredores do palácio.
Onde ouviste isso, Paulinho? Onde?
Isso não é nada simpático da tua parte porque é tudo uma mentira.
Será mesmo uma mentira, Paulinho?
Não tenhas medo, Paulinho.
Deixa-me mostrar-te algo especial.
Vês como são redondos e firmes?
Queres tocar neles, Paulinho?
Miúdas, não sejam clínicas.
Não se transformem em objetos que respondem a um mestre, a um dono.
Paulinho, ouve-me bem.
Sexo não serve só para procriação.
A sexualidade é uma maneira de nos libertarmos dos nossos mestres.
A repressão sexual é um instrumento de controlo social.
Paulinho, o sexo não é só para produzir herdeiros,
para manter a propriedade nas mãos de uns poucos.
Consegues pensar em algo mais bonito,
para fazer a distribuição de propriedade mais justa, que fazer sexo?
Para produzir outro dono.
- Um dono. - Um dono de terras e de todos nós.
Não tenhas medo, Paulinho, anda lutar connosco!
Não serás castigado.
A não ser que queiras…
Talvez uma fodinha?
Não, vai-te embora!
Não. Vai para a cama! Vai dormir!
Vai-te embora!
Oh, isso é tão bom.
Isso foi bom.
Então vamos mudar o mundo, certo?
Bem, ele precisa de mudança.
Mas é complicado este conceito sobre o feminismo
e como introduzes a ideia,
sem seres injusto para uma série de mulheres.
- Sim. - Porque acho que há um feminismo
natural em todas as mulheres.
Estão todas zangadas, carregam todas muita fúria dentro delas.
- Mas não querem mostrar isso. - Não se expressam.
Ou não têm coragem de o expressar, de certa maneira. Brutalmente.
Mas carregam de certeza muita força dentro de todas elas.
Quer dizer, todas as mulheres que vimos aqui. Incrível.
Sim, eu sei, é inacreditável.
Mas que oportunidades vão ter? Para fazer outras coisas?
Ir a outros lugares? Ter essa coragem?
Porque é fácil para nós, porque é uma escolha para nós.
Mas elas não têm essa escolha. E como é que chegam a essa escolha?
Quer dizer, às vezes penso em vir viver para aqui.
Mas não sei se teria a resiliência que estas mulheres têm.
Talvez durante dois anos, não mais que isso….
Talvez por termos tido essa escolha, como dizes.
E podemos escolher ir embora.
Seríamos inúteis.
Porque somos bastante inúteis agora. Somos más em tudo.
Digo-te uma coisa, sou muito boa a ordenhar cabras.
Consigo ordenhar uma cabra em 4 minutos. A sério!
Mas não quereria fazer isso para o resto da minha vida
Estão sempre a observar-te. Tudo o que fazes.
Quando eu estava plantar os feijões,
tudo o que eu fazia, elas estavam a observar.
- Para ver se estavas a fazer bem. - Porque elas sabem que não é assim.
Bem, nunca seremos peritas.
Mas faremos o que conseguirmos,
e depois vamos fazer algo num lugar diferente.
Sim, mas… Faz-te pensar o quão privilegiadas nós somos.
Termos essa escolha.
Essa é a questão, não é?
- Qual? - A escolha.
Sim, eu sei, mas se não a tens, então é…
Escolha, ter ou não ter.
Pressiona com regularidade. Clica, clica, clica, clica.
Oh aí, aí. Isso é tão bom.
28 de novembro de 1975
Eu leio um jornal alemão e fico chocada.
Dizem que o estado português expulsou todos os revolucionários estrangeiros
pela sua interferência desestabilizadora na política do país.
E mais: dizem que fazemos parte de um grupo que matou a tiro
o último veado vermelho ibérico de uma quinta ocupada.
Têm um talento especial para os contos de fadas, estes jornais reacionários!
Da nossa cooperativa, só o Oscar, o Colombiano, foi expulso
para a fronteira espanhola.
Mas voltou passado dois dias.
Ele andou à boleia e chegou esfomeado e deprimido,
mas manteve-se connosco.
2 de agosto de 1975
Continuo solteira e independente.
As minhas escolhas de vida não convencem as mulheres da cooperativa:
perguntam-me se não me sinto só, se não quero ser mãe
e eu não lhes sei responder.
Ontem conversei a noite inteira com um casal simpático de 70 anos.
Ela admitiu que é obrigada a ter a casa arrumada
e a comida pronta quando o marido chega e começa a ralhar-lhe.
Mas passado um minuto,
já estava a dizer que a vida a dois é linda e reconfortante.
E eu acreditei neles. Eu!
Solidariedade entre mulheres estrangeiras
e donas de casa de uma aldeia portuguesa não é possível!
Não em tão pouco tempo de convívio.
Logo com elas que nunca me perguntam que visão tenho eu da vida,
quem eu amo e se estou feliz.
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