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["Pecado Original" de Caetano Veloso tocando]
♪ Todo dia, toda noite ♪
♪ Toda hora, toda madrugada ♪
♪ Momento e manhã ♪
♪ Todo mundo Todos os segundos do minuto ♪
♪ Vivem a eternidade da maçã ♪
♪ Tempo da serpente nossa irmã ♪
♪ Sonho de ter uma vida sã ♪
♪ Quando a gente volta O rosto para o céu ♪
♪ E diz olhos nos olhos da imensidão ♪
♪ Eu não sou cachorro não ♪
♪ A gente não sabe o lugar certo De colocar o desejo ♪
♪ Todo beijo, todo medo ♪
♪ Todo corpo em movimento ♪
♪ Está cheio de inferno e céu ♪
♪ Todo santo, todo canto ♪
♪ Todo pranto, todo manto Está cheio de inferno e céu ♪
♪ O que fazer com o que Deus nos deu? ♪
♪ O que foi que nos aconteceu? ♪
♪ Quando a gente volta O rosto para o céu ♪
♪ E diz olhos nos olhos da imensidão ♪
♪ Eu não sou cachorro não ♪
♪ A gente não sabe o lugar certo De colocar o desejo ♪
♪ Todo homem, todo lobisomem ♪
♪ Sabe a imensidão da fome ♪
♪ Que tem de viver ♪
♪ Todo homem sabe que essa fome É mesmo grande ♪
♪ Até maior que o medo de morrer ♪
♪ Mas a gente nunca sabe mesmo ♪
♪ Que que quer uma mulher ♪
[música para]
[conversas indistintas]
- Quem? - Cuidado aí, pai.
Quem?
Não sei, papai, eu tô nervosíssimo, sabe?
Por quê? Eu acho natural.
Absolutamente natural.
Oi, como tem passado? Tudo bem?
Obrigado pela presença.
Hoje é um dia muito feliz na minha vida, Carlinhos.
Vamos ter uma conversa, meu filho. Imagina…
que vendo você com Solange,
eu comecei a pensar muito em mim e na tua mãe.
A tua mãe é que devia estar aqui agora.
Ah, ela que tinha adoração por Solange.
O amor de vocês é como o nosso.
Eu fui o primeiro namorado da tua mãe.
Você foi o primeiro namorado da Solange.
O nosso namoro começou na infância
e o de vocês também.
Engraçado.
Parece que vocês vão continuar o nosso amor.
Papai, o senhor não acha que Solange…
Os modos de Solange são parecidos com os de mamãe?
Você também acha? Eu também acho.
Acho, sim!
Sabe que isso me deixa meio assim…
[mulher gritando] Carlinhos!
- Ele já vai. - Sabe, papai…
Tão te chamando, meu filho. Carlinhos…
- [mulher] Carlinhos! - Quero dizer algo
que eu aprendi com o casamento.
Nunca diga pra tua mulher:
"Não amola! Não chateia!"
Nada de bate-boca, nada!
- Amor… Amor começa amor. - Tá bom, papai.
- Vou lá pra cima, tá? - Espera, outra coisa.
Já vou indo. Peraí!
Desde que tua mãe morreu,
eu nunca mais estive com outra mulher.
Eu não sou homem…
com as outras mulheres.
Mas, papai, por que o senhor tá me dizendo isso?
Não sei, sei lá.
Eu acho que eu… tô meio bêbado. [ri]
Eu já tô na quinta dose de uísque.
- Mas o que que eu tava falando mesmo? - Vou lá pra cima.
- Tá bem? - Não, espera. Eu preciso acabar.
Eu me satisfaço sozinho.
Tua mãe morreu. Tá morta.
Mas juro, meu filho,
é por tua mãe.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
[conversas indistintas]
[conversas indistintas]
[câmera clicando]
Vamos cortar o bolo.
Ah, peraí.
Peraí. Peraí um pouquinho.
Primeira parte pro papai. [ri]
- Pro papai. - Pro papai, pro papai. Isso!
Muah!
Muah!
Tá bom. Peraí, deixa eu passar. Quero falar com a minha filha.
Eu quero chegar lá. Peraí.
Peraí. Ai, que bom.
Olha lá a minha filha.
Ô, Dr. Borborema, minhas gratidões.
- Felicidades pra você. - Paulinha.
Paulinha. É!
- [Solange] Ô, Rodrigo, obrigada. - Meu filho, meu filho.
Fala, meu filho.
- Ah! - Papai!
Um abraço, felicidades.
[Solange] Ô, Antenor, obrigada.
[conversas indistintas]
[gargalha]
[conversas indistintas]
Meu amor.
Tá na hora, meu bem. Vai mudar de roupa, vai.
Ainda é cedo, Carlinhos. Que horas são?
Meu bem, eu não posso esperar mais nem 15 minutos.
Vai.
[fogos de artifício assoviando]
[fogos de artifício estourando]
Não. Já não, Carlinhos.
Tira a mão daí.
Dá um bom beijo, dá.
Mas aqui?
- Um beijinho só. - Olha o chofer.
- Ele não vê! - Pelo espelhinho.
Eu sou teu marido, não sou?
Não, já não.
Se recusa, né?
E você não pode esperar um pouco?
Olha, escuta.
Eu tenho um pedido pra fazer pra você.
Faz.
Mais tarde.
Que pedido, hein?
Tem tempo.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
- E agora o meu beijo. - [geme suavemente]
Calma, você tá me machucando. Ai.
- Meu amor. - Não.
Eu sei por que que você quer que eu abra a boca.
Beijo de língua, não.
Mas que conversa é essa, hein?
Só existe beijo de língua, você sabe.
Em amor só existe beijo de língua, meu bem.
Mas eu não gosto, Carlinhos. Sabe?
Eu não sou como as outras.
Mas você vai querer dizer isso pra mim?
Pra mim?
Desculpa, Carlinhos, eu sei que você tá com a razão.
Eu sei que beijo de língua é assim. Eu não sou criança e sei.
Solange, você vai dizer isso olhando pra mim.
Fala! Não vira o rosto!
Você ainda gosta de mim?
Você gosta de mim?
Ou você duvida?
Sim ou não? Fala.
Você quer mesmo saber?
Eu adoro você! Adoro!
Não saberia viver sem você.
Adora?
Meu amor…
[ambos gemendo]
Agora sim.
Agora foi um beijo de verdade.
Espera.
- [exclama] Não, Carlinhos. Não. - Meu amor.
Eu tenho um pedido pra te fazer.
Agora você é minha.
Não, Carlinhos. Não.
- Carlinhos, eu tenho um pedido. - Pedido? Que pedido?
Eu queria que essa noite não acontecesse nada entre nós.
Tem que esperar ainda?
Eu quero que você entenda.
Entender o quê?
Eu ainda não estou preparada.
Mas nós somos namorados desde garotinhos e você não tá preparada?
Nós somos noivos há dois anos e você não tá preparada?
Tem paciência comigo.
Vale a pena esperar.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
Não, Carlinhos. Não me descobre.
Ok, eu espero, mas tira a calcinha, tá bem?
- Não, Carlinhos, não. - Que isso, Solange?
[gritando] Não, eu não quero me sentir uma violada! Não!
Não!
- Fica quieta. - Me deixa!
[gemendo]
Não.
Não!
[música excêntrica]
[grita]
[grita]
Não!
[música para]
[Carlinhos] Agora você é minha.
Todos os dias eu vou ser violada.
Eu não quero sujar meu amor com sexo.
[ruído urbano]
Peraí, mas ouve. Não, papai,
- pelo menos ouve. Não. - Ih, rapaz.
Porra.
O que o senhor acha que devo fazer, papai?
Meu filho, você, duas semanas de casado?
Mas Solange disse que tem horror de sexo.
Sim, e daí?
- E daí? E o senhor acha pouco? - Acho!
Acho pouco.
Na minha opinião, esposa deve ser fria.
Fria? Não, papai.
Essa não.
Calma, filho. Calma, vem cá.
Senta.
- Escuta aqui. - [mulher] Dá licença, Dr. Alexandre.
Mas outra vez?
É a Dona Matilde, ela disse que é só uma palavrinha.
Olha aqui, vai lá, diz que estou em reunião e que não posso atender.
- Sim, senhor. - E não me interrompe.
Sim, senhor.
[porta fecha]
Onde é que eu estava mesmo? Ah, sim!
Eu dizia que o sexo nada tem a ver com o casamento.
Aprendi com o meu caso pessoal.
Você já é homem feito e pode ouvir certas confidências.
Nunca houve no mundo esposa melhor do que a tua mãe.
E era fria.
Era santa porque era fria.
Eu nem sei como você conseguiu nascer.
Mas, papai, o senhor não precisava me dizer isso.
Disse pra salvar teu casamento.
[mulher] Não, não pode entrar.
Pode se entrar?
Quer esperar um minuto, Dona Matilde?
Eu já vou andando, papai.
Não, não, não, espera um minuto.
Eu estou resolvendo um assunto, Dona Matilde.
Eu não sou de cerimônia, Alexandre.
Eu passo mais tarde, tá?
É a fiança.
Deus te abençoe, meu filho.
Falta a sua assinatura.
Mas que fiança, Matilde?
Fiança do meu apartamento, Alexandre.
Matilde, nós, os sócios da firma, não podemos dar fiança.
Mas você prometeu. Já dei seu nome.
De fato eu prometi, entenda.
Constrangimento na hora, não tive coragem.
Você nega fiança à melhor amiga da sua mulher?
Mais que amiga!
Dolores me contava tudo.
Coisas que você nem desconfia.
Espera aí, espera um instante.
Eu gostaria, mas há um impedimento contratual, eu sinto muito.
Alexandre, aqui se faz, aqui se paga.
Eu desconfio que você vai se arrepender.
- Adeus. - Eu te levo até a porta.
Não precisa. Eu sei o caminho.
Mas não se esqueça: eu sou vingativa.
[fundo sonoro excêntrico]
[Alexandre] Nunca houve esposa melhor do que a tua mãe.
E era fria. Santa e fria.
E era santa porque era fria.
E era fria.
Santa e fria.
E era santa porque era fria.
Bem, sabe o que eu tô notando?
Meu amor…
[Solange geme]
Viu como eu gosto de beijo de língua?
Olha só como eu tô arrepiada.
Vem cá, vem.
Vamos lá pra cima, vamos?
Não, logo mais.
Eu acho que… Que eu fiz um papel na primeira noite.
E nas outras.
Às vezes as palavras dizem coisas que eu não quero dizer.
Eu…
Eu tinha medo de não ser normal.
[gemem suavemente]
Eu pensei que você fosse fria.
Nosso namoro, nosso noivado…
foi tão seco que eu…
Eu não compreendi o beijo de língua.
[ri suavemente]
[Carlinhos geme]
Coração,
eu só quero te dizer que eu…
Eu nunca pensei que um homem pudesse gostar tanto assim de uma mulher
como eu gosto de você.
Às vezes eu fico até com um pouco de medo de gostar tanto assim.
[ambos gemendo]
Vamos.
- Vamos. - Vamos agora.
Eu digo lá ver o que a gente vai jogar fora, vamos.
Olha só como eu tô te provocando.
[ambos gemendo]
Vem cá, vem. Quero te ver nua no claro.
No claro.
Tudo aceso.
[ambos gemendo]
É inútil.
Eu… Eu tô fingindo.
Vamos começar outra vez, é?
Será sempre assim?
Não.
Não.
Não será sempre assim.
Eu quero que você saiba…
eu te amo.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
Eu te amo.
Eu te amo.
Eu te amo, me perdoa.
Tem paciência comigo.
[música para]
[campainha tocando]
Que surpresa!
Vamos entrar.
Como vai?
Eu vim aqui porque…
Tá chorando, filha?
Por quê?
Carlinhos.
Não é ele.
Sou eu.
Eu achei que a senhora que…
Que foi a melhor amiga da mãe de Carlinhos…
Desde meninas.
De tomar banho juntas, de mocinhas.
Mas o que é?
Problemas com o Carlinhos?
Imagine que…
estamos casados há dois meses…
e eu não sinto nada, prazer nenhum.
Não se pressione minha filha.
Isso é mais comum do que se pensa.
Vem com o tempo.
A senhora acha?
Eu acho.
Às vezes quem não se dá sexualmente com um homem,
pode se dar perfeitamente com…
outro.
Ou outros.
Mas ele é o meu marido.
Não, eu não falei de você.
Você quando quiser, pode vir aqui.
Pra mim, pode falar tudo.
Bom, então eu já vou.
Você vai me fazer um favor.
Você está vendo esta carta?
Eu quero que você entregue isto ao Dr. Alexandre.
Pois não.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
Ah, eu ia me esquecendo da carta de Dona Matilde.
[Alexandre] Pra mim?
- [Solange] Aham. - Me dá.
Deus te abençoe.
[ruído urbano]
[passarinhos cantando]
[Matilde] Alexandre, fui muito amiga de sua mulher.
Mais do que amiga, confidente.
E mais do que confidente.
Um dia ela apareceu na minha casa…
[música sublime]
Que tristeza é essa?
Tô desesperada.
Não me assusta.
Que houve?
Eu acho que eu estou, Matilde.
Está o quê?
É isso mesmo que você está pensando.
Grávida.
Estou.
Grávida.
[Dolores] Escuta, Matilde.
Escuta.
Sua porca, não me toque.
Eu te avisei, sua vagabunda. Filho, não!
[Dolores] Não vou gostar dessa criança.
Porque é meu filho e de um homem.
Juro que desde menina, eu tinha nojo de menino.
[conversas indistintas]
[telefone toca]
Alô? Pode completar.
Assunção, grande figura! Pode falar.
Sei.
Claro, meu querido. É lógico.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
[falam indistintamente]
- Compra limão. - Compra limão.
[falam indistintamente]
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
Vê um café pra gente?
Aliás, vê dois cafés, hein!
Você me assustou no telefone.
O negócio é mesmo pra assustar, Assunção.
Meu casamento não vai nada bem, sabe?
Você tá brincando.
Antes fosse brincadeira.
Mas o que que eu tava falando mesmo? Ah!
Só tem dois homens em quem confio, Assunção.
No meu pai e em você, sabe?
E eu que não tenho pai, só acredito em você.
Mas que que é?
Não há mulher mais interessante que Solange.
Eu também acho.
Sabe, é que eu não sei mais o que fazer, eu não sei mais.
Eu vou te resumir a nossa história sexual.
Solange se casou virgem.
Mas tem um tal horror a sexo
que ela só chegou a se entregar a mim 15 dias depois de casada.
Mas finge, Solange.
Pelo menos finge.
Eu sabia.
Por isso eu te pedi pra esperar.
Eu não sei fingir.
Por que que você não tenta psicanálise?
Quem sabe?
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
[Solange chorando] Eu tinha 11 anos.
O muro da minha casa dava pra um capinzal.
Um dia eu ouvi gemidos no terreno baldio.
Subi na escadinha encostada ao muro.
Olhei.
Eu vi o amor de dois mendigos.
[chora]
Eram dois velhinhos.
A mulher tinha na cara um roxo.
Um roxo de gangrena.
E ele tinha no pescoço aquilo… Como é que chama?
Bócio, acho que é bócio.
[chora]
Os dois cobertos de ferida.
E era como se as feridas se devorassem, se possuíssem.
Você acha que você ainda
gosta do seu marido?
Desde que eu me casei eu sonho todas as noites com ferida.
Mas eu perguntei se você ama o seu marido.
Eu amo.
Desde que eu me casei eu sonho todas as noites com serpentes.
As feridas são como pequenas víboras.
As feridas são víboras
subindo, subindo…
subindo na carne.
Mas eu perguntei se você ama o seu marido.
Amo.
Amo cada vez mais.
Ou o senhor não compreende que meu marido é tudo pra mim?
Nem o mendigo nem a mendiga tinham dente.
E ela, bruxa, gritava.
"Me bate, me xinga.
Me bate, me xinga.
Me bate, me xinga.
Me bate, me xinga.
Me bate, me xinga."
[ruído urbano]
[samba tocando no restaurante]
Vê se te cuida, Carlinhos.
Meu papel aqui é pagar.
Sou marido da minha mulher e pronto.
[gargalha]
Olha só, rapaz.
Toda mulher analisada
passa a achar o pai um cretino,
a mãe uma víbora
- e o marido uma besta. - Deixa eu falar.
Eu estou cada vez mais vidrada no meu marido.
O melhor homem do mundo. [ri suavemente]
[samba continua]
[Carlinhos] É verdade.
Não faz piada, Assunção.
Olha…
- [Assunção] Toma cuidado, hein! - [gargalha]
[Carlinhos] Onde é que você aprendeu isso?
[Solange e Carlinhos gargalhando]
[Carlinhos] Que coisa engraçada.
[samba continua]
[aplausos]
[bossa nova tocando]
Tá triste, Carlinhos?
Eu? Não.
Absolutamente.
De repente você mudou.
Pelo contrário.
Me sinto feliz como nunca.
Agora é que eu sou feliz.
Eu esqueci que tenho que passar na casa de papai.
- Tenho que ir lá. - Telefona.
Tem que ser pessoalmente. Eu não demoro, volto já.
E o meu beijo?
Na boca.
Obrigada.
De quê?
Um beijo assim?
É assim, olha.
[carro acelera]
[passarinho cantando]
Ué.
Você aqui a essa hora, meu filho?
Por quê?
Vim desabafar porque senão eu morro.
- Dinheiro? - Antes fosse, papai.
Queria tá sem um níquel no bolso, sem um tostão. Falido e o diabo.
Fome eu tiro de letra.
Senta aí.
Diz "senta" como se fosse uma solução.
- Sabe o que é? - Tô esperando que você me diga.
Meu pai…
desconfio de minha mulher.
- De Solange? - É, de Solange, sim.
Você ficou maluco?
Você andou bebendo?
Que cretinice é essa?
É de Solange, sim, papai. Eu também queria que fosse cretinice.
Carlinhos.
Vamos falar de homem para homem.
Eu tô escutando.
Eu conheço, você conhece,
sua mãe conhecia Solange desde garotinha.
Nós sempre moramos no mesmo bairro,
tivemos as mesmas amizades, os mesmos vizinhos.
Nós sabemos tudo a respeito da vida de Solange.
É ou não é?
- Ninguém conhece ninguém. - Isso…
é literatura.
Nunca ninguém teve qualquer dúvida sobre Solange.
Olha pra mim, Carlinhos.
- Olha pra mim! - Você tem cigarro aí, papai?
Solange não é uma nora qualquer.
É a filha que eu nunca tive.
Como se fosse minha filha.
De vez em quando eu tenho a impressão que o casamento de vocês
é incestuoso.
Ora, papai.
Sua besta! Eu estou falando sério.
E agora em que que você vai se basear?
Eu quero fatos! Fatos concretos!
- Vamos lá. - Você quer um fato?
Eu tenho um!
Eu fui jantar com Solange,
Assunção e a mulher.
De repente caiu o guardanapo no chão,
eu me abaixei pra pegar e vi, papai.
Eu vi o pé de Solange em cima do pé de Assunção!
Pé em cima de pé. Sapato em cima de sapato. Eu vi!
- Que mais? - Só.
- Mais nada? - Só isso.
Só isso?
E você vem aqui a essa hora da noite me acordar pra falar de sapatos?
Por enquanto é só uma dúvida.
Se fosse um fato, seria uma certeza.
Mas você não me disse que a tua esposa é fria?
Pode ser fria comigo, papai. Só comigo, com outro não.
Olha, Carlinhos, presta atenção.
Vê lá o que você vai fazer com Solange.
Solange é como se fosse minha filha.
Se for verdade o que eu desconfio, meu pai, eu mato a minha mulher.
Pela alma de minha mãe, eu mato.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
[ruído urbano]
Que que há com vocês?
- Há como? - Há.
Seu marido me telefonou.
Ótimo.
Ele queria falar sobre o casamento, que não vai bem.
Continua.
E agora é você que me chama.
Mas eu não vou falar sobre o meu casamento.
Vocês me assustam.
Não me chama de "vocês".
Eu não sou "vocês".
Diga pra mim,
"você".
Você me assusta.
Ah, é?
As mulheres te assustam?
Que que eu sou pra você?
- Amiga. - Hm.
Só?
[Assunção] E você acha pouco, é?
Faz um favor?
O quê?
Vira de costas pra mim.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
Pronto.
Posso virar?
[Solange] Pode.
Que isso?
Ainda sou sua amiga?
Não.
Não quero.
Sou tão desinteressante que só sirvo para amiga?
Aqui? Na sua sala?
Na casa do teu marido, não. Entra alguém aí.
- Arranja um lugar. - Tem que ser longe.
[ambos gemendo]
[música alegre]
[música termina]
Eu não devia tocar em você.
Sou um canalha.
Não, nunca me passou pela cabeça que você gostasse de mim.
Eu não gosto de você.
- O que que você disse? - Me dá um cigarro?
Não dou cigarro nenhum. O que que você disse?
- Eu não gosto de você. - Não gosta de mim?
E trai seu marido comigo?
[gritando] Eu? Melhor amigo dele!
Não grita, tá?
Responde!
- Me dá minha bolsa que eu tenho cigarro. - Fala.
Hum?
Quer um?
Eu quero saber o que que você me disse.
Estamos aqui por quê?
Fria.
Sou fria com o meu marido.
Eu queria saber se era só com ele ou se era com qualquer um.
Ah, uma experiência.
E eu fui a cobaia.
Agora diz.
Qual foi o resultado?
Você não chega aos pés do meu marido.
Eu tenho nojo, nojo de você.
[desdenha]
Mais feliz que eu.
Pelo menos você tem nojo de mim.
Eu não sinto nada por você.
Vê que horas são.
Pra você não tenho horas.
[ruído urbano]
["Pecado Original" de Caetano Veloso tocando]
♪ Todo dia, toda noite ♪
♪ Toda hora, toda madrugada ♪
♪ Momento e manhã ♪
♪ Todo mundo Todos os segundos do minuto ♪
♪ Vivem a eternidade da maçã ♪
♪ Tempo da serpente nossa irmã ♪
♪ Sonho de ter uma vida sã ♪
♪ Quando a gente volta O rosto para o céu ♪
♪ E diz olhos nos olhos da imensidão ♪
♪ Eu não sou cachorro não ♪
♪ A gente não sabe o lugar certo ♪
♪ De colocar o desejo ♪
♪ Todo beijo, todo medo ♪
♪ Todo corpo em movimento ♪
♪ Está cheio de inferno e céu ♪
♪ Todo santo, todo canto ♪
♪ Todo pranto, todo manto ♪
♪ Está cheio de inferno e céu ♪
♪ O que fazer com o que Deus nos deu? ♪
♪ O que foi que nos aconteceu? ♪
♪ Quando a gente volta O rosto para o céu ♪
♪ E diz olhos nos olhos da imensidão ♪
♪ Eu não sou cachorro não ♪
♪ A gente não sabe o lugar certo ♪
♪ De colocar o desejo ♪
♪ Quando a gente volta O rosto para o céu ♪
♪ E diz olhos nos olhos da imensidão ♪
♪ Eu não sou cachorro não ♪
♪ A gente não sabe o lugar certo ♪
♪ De colocar o desejo ♪
♪ Todo homem, todo lobisomem ♪
♪ Sabe a imensidão da fome ♪
♪ Que tem de viver ♪
♪ Todo homem sabe que essa fome ♪
♪ É mesmo grande Até maior que o medo de morrer ♪
♪ Mas a gente nunca sabe mesmo ♪
♪ Que que quer uma mulher ♪
[música termina]
[conversas indistintas]
[cobrador] Calor filha das unha, malandro.
[motorista] É, tá mais pra camelo do que pra pinguim.
- Como é que tá a fera aí? - [cobrador] Ah, tem umas pererecazinha.
[cantarola]
[campainha do ônibus toca]
[motorista] Ó, o negócio tá russo lá na frente, eu vou cortar por fora.
Alguém vai ficar na praça?
[cobrador] Não, malandro.
Todo mundo pela Avenida Brasil.
Mosquito!
Vem cá, rapaz! Vem cá, rapaz!
Vem cá, Mosquito.
[Mosquito] Que que é, Bacalhau? Que que é?
Olha aí, não vem com essa história, não. Você adora me sacanear.
Mosquito.
Olha ela só de novo no ponto parada.
Olha lá.
Rapaz, ela tá um croquetão, viu?
Ela tá um croquetão.
Ou vai ser hoje ou vai ser nunca, cara!
- Mas escuta, como é que eu vou fazer… - Esvazia essa merda.
Eu não posso botar todo mundo pra fora.
- Que que eles vão ficar pensando? - Vamos.
Vamos mandar todo mundo embora.
- Vamos lá. Tá enguiçado. Vamos embora. - Não. Deixa comigo.
Olha aí, pessoal, senhores do conselho deliberativo,
terminou a sessão.
O carro vai agora pra garagem, hein!
Pra garagem. [bate palma]
[burburinho]
[Bacalhau] Vambora!
Como é?
Vamos embora, minha filha. Não dá, tá enguiçado, não dá.
Agora vai pra oficina. Bora!
[burburinho]
[Mosquito] Fora!
É por aqui, madame.
Entra.
[burburinho]
Olha, eu posso me chamar Mosquito…
O pessoal ficou na maior bronca.
Escuta, mas tu precisava ver o tamanho dele.
Dei nos cornos daquele malandro, pode crer.
Achatei os cornos dele, é!
Assunto, deixa comigo.
- Tá esperando há muito tempo no ponto? - Aham.
Vocês são engraçados.
Gostosona.
- Ô, Mosquito? - Hm?
Dá uma sacada lá atrás que eu acho que o pneu tá furado.
Ih!
- Mosquito! - Pô, Bacalhau.
Dá uma sacada lá atrás que o pneu tá furado, ô cara!
Pô, Bacalhau, você vive querendo me sacanear, pô.
Mosquito, o pneu tá furado, quer dar uma sacada lá atrás?
Tá legal, tá legal. Eu vou, mas e eu?
- Vai dar uma sacada ou não vai? - Tá legal.
Não grita comigo. Tá legal, Bacalhau.
Eu vou ver o diabo desse sapato de borracha.
Tá legal, Bacalhau. Tá legal.
[ambos riem]
Filho da mãe, Bacalhau!
Não me deixa aqui sozinho, Bacalhau!
Bacalhau, filha das unha!
Vem cá.
[ambos gemem]
Há muito tempo que eu tô a fim da senhora.
Vamos fazer um amor bem gostoso? Hm?
[rindo]
[gargalhando]
[gritando]
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
[ruído urbano]
O senhor aqui?
Oi. Como vai, minha filha?
Eu… Eu quero falar com você.
- Tô cansada. - Senta.
Eu não vou demorar.
O que que há entre você e Carlinhos?
Papai…
Eu estou sempre querendo chamar o senhor de papai.
Gosto que você me chame de papai.
Queria ter uma filha como você.
[ri suavemente]
Que horror.
Mas por quê?
Você já imaginou? Casada com seu filho,
sendo ao mesmo tempo sua nora e filha? Hm?
Ah!
Realmente.
Eu quero que você saiba de uma coisa.
Eu não acho certo chamá-lo de papai.
É, mas no… É, mas no…
Mas no momento eu queria saber o que que eu posso fazer por vocês.
Eu tenho uma amiga, sabe o que ela me disse?
Que o senhor é mais interessante que o Carlinhos.
- Eu sou um velho. - Protesto.
O senhor não tem nada de velho.
[ri] Deixa isso pra lá. Vamos falar de vocês.
Posso lhe fazer uma pergunta?
Claro que pode.
O que é um hotel de alta rotatividade?
Hotel o quê?
Não estranhe a minha pergunta, porque na minha vida
eu sempre vivi numa redoma, não sei de nada.
Hein, que pergunta é essa agora?
Bem, um hotel de alta rotatividade é um hotel para casais.
Não é?
E como é um hotel pra alguns momentos, então chama um hotel de alta rotatividade.
Interessante que Carlinhos não me ensinou certas coisas.
Ele nunca me convidou para ir num hotel de alta rotatividade.
Porque respeitou você.
É uma espécie de respeito que mulher nenhuma gosta.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
O senhor que me levar a um desses hotéis?
Não entendi.
O senhor…
O senhor, não, você.
Compreende agora por que não me agrada chamá-lo de "papai"?
Você está falando como uma… Onde você quer chegar?
Ou pensa que eu nunca reparei nos seus olhos?
Nos seus olhares?
Você nunca me olhou nem como pai, nem como sogro,
nem como um velho.
[música continua]
Vou te cuspir na cara.
Você não tem coragem.
Ai!
[grita] Ai.
[arqueja]
Minha nora. Você é minha nora, meu Deus. Ai!
Você não quer nada comigo.
Você é um velho sujo.
- Coroa. - Não, isso não.
Eu sou um homem de bem.
Sou uma mulher suja.
Hm?
- Vou embora. - Não faça isso.
Espera.
Eu quero você.
[chorando] Eu quero você, meu amor.
[Solange geme suavemente]
- [grunhe] - Minha deusa.
[Solange] Você acha que eu sou gostosa? Ãh?
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
Você é gostosa. Você…
Você é muito gostosa.
Você é a coisa mais gostosa da minha vida.
Você é muito gostosa. Você…
Cachorrão!
- Seu cachorrão! - Sou.
- Deixa eu montar em você. Deixa. - Isso, monta.
Monta em mim. Monta no cachorrinho.
[Solange gargalha] Vai!
- Isso. - Vai.
[falam indistintamente]
[ruído urbano]
Com licença.
Obrigado.
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
[versão instrumental fúnebre de "Pecado Original" tocando]
Eu gosto de ler os túmulos na esperança de um dia encontrar meu nome.
[Solange gemendo]
[gargalhando]
[gargalhando]
[gemendo]
[grita]
[gemendo]
[gritando]
[gemendo]
Não para! Continua, não para!
[gemendo]
[grita]
[gargalhando]
[gritando]
Não para!
[grita]
[gargalhando]
[geme]
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
Me ba…
Me bate, me xinga!
Me bate, me xinga!
Me bate! Me bate, me xinga!
Me bate.
Que foi?
Me bate, me xinga.
Que que é?
[Solange gemendo]
Que que foi, Solange?
- Que que é? - Me bate, me xinga!
- Que foi, Solange? - Me bate, me xinga! [grita]
Tens visto o Assunção?
Nunca mais.
Nem hoje?
Por que hoje?
Nada, não.
Piada minha.
[música misteriosa]
- Solange, vem cá um instantinho. - Vou já.
[gritando] Agora!
[Solange exclama]
Que isso, Carlinhos?
Não adianta você negar.
Eu sei tudo.
Sabe tudo o quê, criatura?
Cínica.
Cínica.
Cínica.
[gritando] Cínica!
Você bebeu.
Vem cá. Olha pra mim que eu quero ver essa tua cara, sua vagabunda.
Não me chama de vagabunda.
- Eu não vou vagabunda. - E o teu amante?
Eu não tenho amante.
Ah, não tem amante.
Tão cínica que é capaz de dizer até que me ama.
Eu te amo.
Você sabe que que é isso aqui?
Eu vou matar o cachorro do Assunção.
Não, ele não.
Prefere que eu te mate?
Ele não foi o único.
Há outros.
Não foi o único?
Há outros?
Eu quero os nomes.
Você vai me dizer quem foi o primeiro. Quem foi o primeiro?
Você vai me contar tudo.
Eu quero saber tudo agora aqui, nesse momento.
Um dia eu saí de casa.
Deixei o carro no estacionamento.
Peguei um ônibus no fim da linha.
Só tinha um passageiro.
[ruído urbano]
[assovia]
[campainha do ônibus toca]
[assoviando]
Obrigada.
A senhora dá licença?
Pois não?
A senhora não se lembra de mim?
O senhor me conhece?
Eu fui contínuo lá do Seu Carlinhos.
E saí pra ser trocador da C.T.C.
O meu filho morreu, Dona Solange.
Todo dinheiro que eu tinha, eu gastei em algum remédio e…
E não sobrou nenhum pro enterro.
Será que a senhora podia me ajudar?
Você vem comigo.
[campainha do ônibus toca]
Ah, Deus lhe pague.
[ri suavemente]
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
Você me acha bonita?
Quando a senhora ia lá na firma, todos achavam.
A senhora me desculpe,
mas todos achavam a senhora a mais digna.
Eu não sei como tenho coragem de dizer essas coisas à senhora.
Vem comigo.
Você tem coragem de fazer comigo o que você faz com a sua mulher? Ãh?
Eu tenho muito respeito pela senhora.
[ri suavemente]
Me dá na cara.
[hesitando] Eu não tenho coragem.
[gritando] Me dá na cara, sou eu que tô mandando.
Mas e o meu filho?
Depois nós pensamos no seu filho, agora me dá na cara.
Assim não.
Mais forte. Assim, ó.
[gritando]
Esquece o seu filho, pensa só em mim.
[gargalhando]
Meu marido pensa que eu sou fria, mas eu não sou fria.
Vamos, seu contínuo!
Me bate ou eu te mato.
[gargalhando]
[música termina]
Amigo só o Assunção.
Os outros você não conhece.
De muitos nem eu sei o nome.
Se um único…
Eu dava um tiro na besta da Assunção.
Mas eu não posso sair por aí pela cidade caçando teus amantes.
Como é possível?
Certos sentimentos e atos…
exalem mau cheiro.
Eu não sou culpada.
Eu não tenho culpa.
[gritando] Cala essa boca!
Sem calça agora.
Sem calça!
Sua égua!
[chorando]
Morri pro mundo.
[versão instrumental fúnebre de "Pecado Original" tocando]
[música continua]
Pela última vez…
morri.
Estou morto.
[música termina]
[ruído urbano]
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
Você mora aqui em Copacabana?
É, eu tô por aí, em trânsito.
- Ah. - Dando um tempo.
Dá pra entender?
Como é? Tá a fim de dar uma encarada? Ãh?
- Hm. - Uhm?
[música continua]
[sussurrando] Gostosa.
Você é demais.
[versão instrumental triste de "Pecado Original" tocando]
[música termina]
[pássaros grasnando]
[ondas quebrando]
[versão instrumental de "Pecado Original" tocando]
[Solange] Todos os dias,
quase com hora marcada, eu preciso sair de casa.
Eu pego o primeiro ônibus e desço com qualquer um.
Eu não sou como as outras.
Eu não sou como qualquer uma.
[psicanalista] É como as outras.
É como qualquer uma.
[Solange] O senhor não me entendeu.
Eu amo o meu marido.
E me entrego todos os dias a qualquer um.
Entendeu agora?
Que língua eu falo?
Que língua o senhor fala?
Nós não nos entendemos.
Eu faço o que faço e não sofro.
Entenda isso! Não sofro!
E eu quero ter horror de mim mesma e não tenho!
[psicanalista] Mas horror? Por quê?
Sofrer por quê?
A… A senhora…
O que a senhora faz…
Preste atenção.
Você pode desejar o seu marido
ou não desejar seu marido e desejar outro.
Ou outros homens interessantes ou até mesmo desinteressantes.
Olhe…
se todo mundo conhecesse a intimidade sexual de todo mundo,
ninguém mais falava com ninguém.
E a sua agressividade também não é anormal.
[Solange] Eu pago, quero ao menos sofrer!
Pelo amor de Deus, me faça sofrer!
[psicanalista] O pior doente não é a senhora.
É o seu marido.
Ele sim está profundamente doente.
[Solange gritando] Meu marido está morrendo!
O senhor ainda vai ver um cliente seu apodrecendo no seu divã!
Nas suas barbas!
Você é um canalha!
Canalha!
Canalha!
Canalha!
Canalha!
[passos se distanciando]
["Pecado Original" de Caetano Veloso tocando]
♪ Todo dia, toda noite ♪
♪ Toda hora, toda madrugada ♪
♪ Momento e manhã ♪
♪ Todo mundo… ♪
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