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Original subtitles

Brasil, início da década de 1970.

Os grupos armados de resistência à ditadura militar.

Instalada no país em 1964, começam a perceber...

que não têm mais condições de enfrentar...

a forte repressão do regime.

Divididos, com suas organizações bastante atingidas pelas prisões.

E mortes na tortura.

Tentam estabelecer focos de guerrilha em áreas rurais.

Lutam pelo sonho da revolução.

E pelo desejo de liberdade.

"Meus sentidos estão aguçados.

Sinto que entraram em sintonia com a minha vontade de lutar...

por uma sociedade mais livre e mais justa.

Meus pensamentos correm soltos, desorganizados.

E é por isso que eu te escrevo, Clara...

pra tentar por as idéias em ordem.

Na verdade, desde que eu entrei nesse apartamento...

eu senti que alguma coisa estava pra acontecer.

Eu ainda nem tinha arrumado as minhas coisas...

e esse homem, belo e sem rosto, apareceu.

Trazido, quem sabe, pelo destino.

Todas as minhas certezas se reforçaram...

e eu pude ver, então, que eu tomei o rumo certo.

Agora, só o que eu posso fazer...

é lembrar do caminho que me trouxe até aqui.

E esse novo caminho não tem volta."

Sonhos e Desejos - O Balé da Utopia / Carnal Utopia -

"O mundo que venci Deu-me um amor alado

Galopando em céus irados

O mundo que venci Deu-me um amor

Amor feito de insulto E pranto e riso

Amor que dorme e treme

Que desperta

E torna contra mim, e me devora

E me rumina em cantos de vitória"

Vocês percebem como esse poema é revolucionário?

É preciso querer mudar a realidade. É preciso lutar.

É preciso... é preciso vencer o mundo...

pra experimentar um amor como esse.

- Tudo bem? - Não.

A situação está complicada.

Eu vou ter que largar a faculdade.

- Viajo hoje à noite. - Hoje?

E não volto mais.

O seu ônibus sai amanha à tarde.

Você está preparada, não está?

Você vai pra esse endereço aqui. A chave é essa.

Outra coisa...

o seu nome agora é Cristiana.

- Cristiana... - E o meu é Saulo.

Cuidado pra não me chamar mais de Tiago, hein?

"Querida Clara...

acabo de chegar na minha nova casa.

Sinto que estou me afastando cada vez mais de você.

Mas até aqui, tudo bem.

Comigo eu só trouxe a minha mala...

carregada de sonhos e um nome diferente."

Saulo!

"Acho que a única maneira de conhecer a cidade...

vai ser através desses postais que eu comprei na rodoviária.

A viagem foi uma mudança rápida de cenário...

mas mesmo assim, prazerosa.

E pensar que eu só estou no início dela.

Será que eu estou indo na direção certa?

Não sei. Mas agora não posso parar."

Vamos embora.

Vamos!

Vai!

Deixa eu ver sua mão.

Fica tranqüilo. Nós vamos cuidar disso, tá?

Camilo, mais rápido.

Um companheiro foi ferido na ação.

- Você está bem? - Comigo está tudo bem.

Bota ele ali. Bota ali.

Senta aí.

Vamos cuidar dele.

É melhor que você não veja o rosto dele.

Pra sua segurança, e segurança de toda a organização.

Pelo menos a ação foi bem-sucedida.

É por pouco tempo, né?

Ele vai ter que ficar aqui até curar aquela mão.

Assim fica menos abafado.

Ficou bom.

- Você prometeu. - Que ia pensar.

Eu prometi que ia pensar.

Pretende me deixar trancada aqui sozinha o tempo todo?

Cristiana, você sabia que ia ser assim.

Foi sua decisão vir.

A minha decisão é não colocar sua vida em risco.

Tá, mas eu vim pra participar.

E pra ficar com você.

Eu sei, meu amor, mas eu não posso te levar comigo, entende?

Você não teve o treinamento necessário.

Além do que, você agora tem uma missão importante que é cuidar dele.

- Porque ele é importante. - Nesse momento, ele realmente é.

Ele vai partir pra uma ação decisiva.

Precisa ser preservado.

- Será possível? - Tudo bem.

Eu sei que a minha função também é importante.

Mas, pelo menos participar...

das reuniões, das decisões.

Diz que sim, meu urso!

Cuida bem dele, tá?

- Quem é? - Telegrama.

Você pode deixar debaixo da porta, por favor?

Tem que assinar o recibo.

- Obrigado. - Obrigada.

Já venho fazer o seu curativo.

Preparado, companheiro?

Pode vir.

Essa noite eu sonhei que estava num trem.

Acordei com a nítida impressão de que...

era como se esse aparelho, essa sala...

fosse a cabine de um trem.

Não se iluda.

Esse aparelho é de concreto, está bem preso nesse chão...

e não vai a lugar nenhum.

- O sofá é muito duro. - Obrigado.

Gosta?

Pronto, é sua de novo...

com os três rios cortados que não sabem mais que direção seguir.

O braço fica todo dormente.

- Bom dia pra senhora. - Obrigada.

- Bom dia. - Bom dia.

Obrigada.

Que risco enorme eu estou correndo por você, Clara, enviando esse postal.

Mas acho que vale a pena.

Registrar cada momento vivido nessa minha aventura...

de tentar vencer o mundo.

Não adianta a gente se livrar só dos militares pra acabar com a injustiça.

A sociedade é que é injusta.

Então, a gente vai ter que derrubar as construções...

arrancar as fundações e começar tudo de novo, do zero, do nada.

O que foi que te irritou tanto?

Uma criança pedindo esmola na porta da igreja.

Ah, bom.

É terrível. Eu também acho.

Mas a gente tem que tomar cuidado.

A revolução não admite sentimentalismos.

Então, eu temo pela revolução.

É pra mudar a sociedade que estamos nessa luta, companheira.

Saulo.

O companheiro precisa de um pouco de privacidade.

"Meu querido, ingressos ballet comprados. Um beijo, vovó."

Sabe o que isso significa?

Que está tudo pronto pra sua transferência.

Sua mão ficando boa...

você parte pra organizar a luta no campo.

Na mata eu serei a árvore, serei as folhas, serei o silêncio.

Você será a nossa voz, isso sim...

convocando os camponeses pra revolução.

Assim espero.

- Ao pássaro de fogo. - Ao pássaro de fogo.

A gente saiu pichando a cidade inteira.

Todo o poder ao povo.

Eu me senti um herói naquele dia.

Nós usamos aqueles bastões de sebo de boi misturado com tinta preta.

Lembra?

Naquela noite eu vi o meu destino com a maior clareza.

Eu vi que através da arte, eu ia fazer o povo...

se juntar a nós na revolução.

Pra tomar o poder.

Queria ter essa mesma certeza agora.

Companheiro, você está cansado, está ferido.

Não pense que estou fraquejando, Saulo.

Mas como disse a nossa amiga cartomante...

cartomante, não. Como é que se chama mesmo quem faz leitura de mãos?

- Quiromante. - Quiromante.

Eu não sabia que você tinha esse dom.

Pois ela viu.

Aqui na minha mão...

três rios que não sabem mais pra onde correr.

Acho bom eles correrem pro Araguaia, pra revolução.

Claro, Saulo. Claro, eu estava brincando.

Nós vamos até o fim nessa luta.

Nossas vidas pela revolução.

Vamos deitar?

Não, estou meio sem sono.

Bom, então podem ficar conversando, mas falem baixo, tá?

Alvorada amanhã às 7h.

Que brinde foi aquele?

Ao pássaro de fogo?

Nijinski. O bailarino russo.

- Conhece? - Já ouvi falar.

Ele era um gênio.

Mas acabou encarcerado num hospício...

sem poder dançar.

Nós também estamos encarcerados, sem poder dançar.

Só não estamos loucos. Ainda.

Quem é você, afinal?

Pássaro de fogo.

O pássaro que veio ao mundo pra combater a injustiça.

Lutar contra os poderosos...

libertar princesas cativas.

Até que horas vocês ficaram conversando ontem à noite?

Sei lá. Meia-noite, no máximo.

Toma cuidado, hein?

Quanto menos informações você tiver sobre ele...

melhor pra segurança da organização.

É com a segurança da organização mesmo que você está preocupado?

Toma aqui. Pras compras.

Sim, senhor, companheiro.

Sabe Clara, quando a gente começa a se acomodar numa rotina...

alguma coisa está errada.

Não demora pro jantar, viu?

Eu nunca gostei de rotina nenhuma, você sabe.

Eu não posso nem quero me acomodar.

Não foi pra isso que eu deixei você no passado e embarquei nesse trem...

nessa viagem sem destino certo.

Você acha mesmo que eu não posso te conhecer?

Eu não posso nem saber o seu nome, quer dizer, o seu codinome?

Não sou eu que acho. Essa é a norma.

Eu detesto a norma.

Ela está sempre protegendo os homens.

As normas existem para mantermos a sanidade.

Mas não é isso que você está questionando.

Não é?

Sabe...

eu adoraria poder tirar a máscara pra você, mas...

Mas é uma questão de segurança.

Tudo bem, companheiro.

Se você se sente seguro escondendo a cara debaixo desse trapo...

Mas sem nome você não vai ficar.

Eu vou te chamar de Nijinski.

- Roco. - Saulo.

Como vai? Fez boa viagem?

Um pouco longa.

Mas eu não estou cansado.

Eu não. Nem um pouco.

Ótimo.

Como estão as coisas em Portugal?

Lá, como aqui, o tempo anda bastante fechado.

- O que foi? - Calma, companheiro.

Está tudo sob controle.

Vamos.

- Deixa que eu corto, vai. - Não, não, eu faço questão.

- Tá bom. - Tá bom.

É bom que eu exercito essa mão.

Eu estava na parte de trás de um trem, e quando entrei no vagão...

eu vi alguém. Um vulto, e...

comecei a correr. Correr e...

depois eu não lembro mais.

Você lembra se estava de capuz no sonho?

Acho que eu não estava, não.

Mas como não há testemunhas, eu não posso ter certeza.

Você sonha muito, Nijinski.

É o que me resta.

A sociedade ideal é o que todos nós buscamos.

Mas como encontrar a sociedade ideal...

se esse ideal não for coletivo?

É essa a contradição que precisa ser trabalhada.

Partindo individual, de cada um de vocês...

pra se chegar ao coletivo.

Companheiros.

Quero reiterar a explanação do companheiro Tiago.

- Só na coletividade... - Você falou muito bem.

- Gostei. - Obrigado.

Eu acho que os companheiros gostaram também.

Eu posso te dizer uma coisa?

Companheira, aqui não.

Você parece um urso gostoso.

Polícia! Estão invadindo!

Tudo limpo!

Que saudade.

Vem cá.

Perdeu o sono?

Perdi.

Eu também.

Sabe que às vezes eu sinto saudade de ir ao cinema?

De fazer as coisas normais da vida.

Sério?

Meu maior orgulho é ter trocado tudo isso pela revolução.

Mas às vezes, dá saudade.

Engraçado...

nem me lembrava mais que existia cinema.

Se tivesse uma sessão agora, no meio da noite...

eu te chamava pra ir comigo.

Acho que não ia dar.

É proibida a entrada de mascarados no cinema.

"Querida Clara...

a vida que eu escolhi parecia mais colorida quando a escolhi.

Não importa, continuo viva.

Eu sei que a qualquer momento o tempo pode mudar...

mas eu prefiro deixar as coisas correrem por si mesmas.

O destino, ou seria o acaso...

ainda me surpreende."

Pelo menos de tédio eu não morro.

"Saudades.

PS: As lembranças que eu tenho de você, Clara...

perderam um pouco o contorno.

Procuro sempre te manter acesa em mim...

mas a distância entre o que você era e o que eu sou agora...

aumenta a cada dia.

Isso é bom. Dá um sentimento esquisito, gostoso...

de que a vida está seguindo em frente."

Espero que você goste.

Queria saber dançar que nem você, Nijinski.

Você dança muito bem.

Vem, dança comigo.

Eu acho melhor você fazer o curativo.

São 19h37, 38 minutos.

Se até a meia-noite eu não estiver de volta...

- vocês podem evacuar o aparelho. - Está certo.

- Você se comporta, ouviu? - Como assim?

Vê se não importuna o companheiro.

Aonde é que você vai?

Se o Saulo voltar...

diz que eu não demoro.

- Companheira... - Eu tenho que ir.

Comunista desgraçada!

O Saulo já voltou?

Como é que foi a ação?

Depois eu conto.

Ninguém tem registro da sua entrada aqui no Brasil.

Como é que você sabe? Se eles me pegam, estou morto.

- Estou morto, ouviu? - Calma, Roco! Fica calmo.

Presta atenção, olha pra mim.

Olha pra mim!

Eu não vou deixar você sozinho.

Você está vendo? Eles já me viram.

Eu tenho certeza.

Roco, esse sujeito é uma figura conhecida aqui do parque.

Está sempre por aí.

A mim esses cegos não me enganam.

Eu sei muito bem por que esse cego tá aqui.

Hoje fui eu que sonhei.

Só hoje?

Com você? Só.

Não vai me contar?

Você estava usando esse trapo na cara.

E o que mais?

Você é muito disciplinado.

Muito obediente mesmo.

Nem no sonho tira a máscara.

E o que mais?

Não lembro.

O que escondo de você é muito pouco perto do que você esconde de mim.

E além do mais, a culpa não é sua, não é?

É da norma.

Parece que você não entende que nós somos guerrilheiros clandestinos...

no meio de uma ditadura militar.

Nós? Não.

Vocês.

Eu sou apenas uma dona-de-casa inofensiva.

Você sabe o que é ser torturada?

Você se imagina num porão cheio de ratos?

Levando choque? Sendo espancada...

com um bando de milico te estuprando?

- Eu não ia entregar ninguém. - Me conta o seu sonho.

Eu não lembro, eu já disse que não lembro.

- Fala! O que foi que aconteceu? - Você está me machucando!

O que eu estava fazendo no seu sonho?

Me beijando.

Ai, idiota! Você me machucou.

Você ainda quer ver o meu rosto?

Quero.

Aconteceu alguma coisa?

Eu é que pergunto.

Você está com uma cara.

Bobagem.

Impressão sua.

- De manhã em casa? - Só vim avisar uma coisa.

O que foi?

Acabei de encontrar com o Roco.

Ele enlouqueceu de vez.

Acha que está sendo perseguido por fantasmas, sei lá.

É capaz de tudo.

Entrar numa delegacia e se entregar, dar um tiro no peito.

Não são exatamente fantasmas que estão nos perseguindo.

Vocês tinham que ver. Os olhos arregalados...

assustadíssimo.

Nós temos que agir rápido.

Eu vou trazer o Roco pra cá.

É perigoso, companheiro.

A vizinhança pode suspeitar.

Ele não vai entender nunca um homem de capuz o tempo todo.

Eu tenho certeza que a companheira Cristiana vai saber cuidar...

muito bem de mais um companheiro com problemas.

Você tem razão, Urso.

Eu vou mesmo saber cuidar do Roco.

Então, me diz...

o que foi que sobrou da minha mão de três rios?

Vamos ver o que temos aqui.

Os três rios...

da vida, da cabeça e do coração.

Agora tem lagos...

e um monte de afluentes.

Eu acho que estou exatamente no meio de um desses lagos...

e gostado de ficar aqui.

Será que eu encontrei o meu destino?

Quem é que pode saber?

No dia em que esse trem chegar à estação...

você vai ser minha convidada especial...

pra apresentação do Balé da Utopia...

na Terra do Sol.

Todas as revoluções dentro de mim.

Nijinski acende o pavio de cada desejo meu num sincronismo perfeito.

Tudo vai explodir!

Eu não sei o que você faria no meu lugar, Clara.

Mas eu não posso mais dominar os meus sentidos.

Agora são eles que me comandam.

O mundo aí fora custa a mudar, anda pra trás.

Mas não importa.

Aqui dentro dessa sala, e da minha alma inquieta...

todas as batalhas estão sendo vencidas.

Coloca isso.

Roco, coloca isso.

Pode tirar, Roco.

Calma.

Você está entre companheiros.

- Cristiana está no quarto? - Está.

Olho nele.

- O que aconteceu aqui hoje? - Como assim?

Você está pensando o que? Que eu fiquei cego?

Eu não quero brigar com você.

Na verdade, eu não posso brigar com você.

Nós estamos lutando por uma causa...

e eu não vou deixar esse sentimento pequeno burguês...

tomar conta da minha cabeça!

Eu não sei do que você está falando.

Queria tanto acreditar nisso.

Você trouxe o Roco?

Vai. Pode ir.

Vai ver se o Roco está precisando de alguma coisa.

Deixa eu descansar.

Ele não pára de me olhar.

Você quer comer alguma coisa?

Você quer ouvir música?

- Por algo será. - Por algo será coisa nenhuma.

Eu faço um brinde ao Roco. O nosso novo passista.

Sabe, Cristiana...

ele não se parece com aquele que na escola de samba...

toca cuíca, toca surdo e tamborim?

Faça por ele como se fosse por mim.

- Me empresta a sua máscara. - Não posso.

O regulamento do baile não permite que eu mostre a cara.

Só na saída, depois que essa festa acabar.

Ô companheiro Vou lhe pedir um favor

Que só depende Da sua boa vontade

É necessário uma viração Pro Nestor

Que está vivendo Em grande dificuldade

Ele está mesmo dançando Na corda bamba

Quem é esse Nestor que vocês estão confundindo comigo?

Ele é aquele Que na escola de samba

Toca cuíca Toca surdo e tamborim

Agora você não precisa mais da minha máscara.

Deixa eu ver.

Pronto!

Ô Antonico Vou lhe pedir um favor

Que só depende Da sua boa vontade

É necessário uma viração Pro Nestor

Que está vivendo Em grande dificuldade

Ele está...

Saulo! Bem-vindo ao reino do imponderável!

Quer dançar na corda bamba?

Ursinho...

a gente só está querendo dançar e cantar um pouco.

Não banca o revolucionário durão, está bem?

Pelo menos sobrou um pouco de cerveja aí pra mim?

"Querida Clara...

meus sentidos estão confusos e não me pertencem mais.

São independentes da minha vontade, não me deixam pensar direito.

É por isso que eu te escrevo, Clara, pra tentar pôr as idéias em ordem.

Ontem eu tomei um porre.

Mas a ressaca que estou sentindo é dos últimos tempos.

Fomos longe demais. Até onde iremos?

Sobreviveremos? Saudades.

Hoje eu não sinto saudades.

Na verdade, eu acho que nem me lembro mais quem você é.

Por que eu posso ver a cara do Roco?

O Roco enlouqueceu, se é que você não notou.

- Ele já está fora da organização. - Eu também.

Você nunca me deixou fazer parte da organização.

Eu te trouxe comigo porque eu te amava.

Porque eu te amo.

Você não lembra mais disso, não é?

Vocês tinham razão.

Trazer o Roco pra cá foi uma imprudência.

- Tudo bem, companheiro. - Tudo bem não.

É uma autocrítica que estou fazendo.

Eu me precipitei.

É melhor levar logo o Roco pra outro aparelho.

Certo, Roco?

Bom, está chegando a sua hora, né?

Da minha viagem?

Só mais uns dias.

Depois muito verde, ar puro.

Sem o capuz pra incomodar.

Pronto, Roco? Podemos ir?

Não se preocupa que eu vou te visitar.

Aí eu vou levar a cuíca, o surdo e o tamborim.

Roco, fica tranqüilo.

O companheiro Camilo vai cuidar de você, tá?

O Roco vai ficar um tempo aí...

até ele viajar pra Europa.

Tudo bem. Entra, Roco.

Eu vou dormir.

Boa noite.

Temos que fazer um pacto.

Um pacto de amor.

Quem trair, deve morrer.

Você tem coragem? Se eu for o traidor...

você vai ter coragem de me dar um tiro no coração?

A essa hora?

Chegou cedo?

Cansaço.

Estou tão cansado.

Por quê? Estou incomodando?

- Saulo, você sabe muito bem... - Você foi totalmente irresponsável...

sabia? Uma ação solitária, ainda por cima desautorizada.

A essa hora, todos nós podíamos estar presos, ou pior!

Você não tem respeito nenhum com a organização...

com a hierarquia!

Você é perigosa, ouviu? E vai ser julgada pela organização!

Fala baixo, companheiro, que isso?

Que se dane a segurança. Que se danem as regras.

Que se dane esse aparelho maldito.

O que houve?

O que aconteceu?

O Roco e o Camilo.

Estavam os dois num aparelho da gameleira.

Resistiram a manhã inteira, cercados por mais de 10 policiais.

O Roco morreu.

- O Camilo foi preso. - Preso?

O que a gente faz, abandona o aparelho?

Agora não. Mas deixem tudo pronto.

Vamos sincronizar os nossos relógios.

São 14h27.

Se até às 16h em ponto eu não tiver voltado...

eu não tiver dado notícias, vocês abandonem o aparelho.

Cada um pro seu lado, entendido?

Bom, se eu cair isso pouco importa.

Saulo, não fala assim.

Eu estive pensando...

tenho uma peça interessante pro nosso bailarino.

"As Mil e Uma Noites".

Um sultão sabe que suas mulheres são infiéis...

e anuncia que vai sair pra uma caçada.

Elas então, dançam em volta dele...

fingindo querer que ele fique.

- Você não vai contar o final? - Conta o final pra ela!

Não fiquem um minuto além do tempo combinado.

O sultão sai...

e a esposa preferida cai nos braços do amante.

Mas ele volta de surpresa e mata o amante.

A mulher, então, pega o punhal e se mata.

Camilo!

Está tudo bem?

Abriu alguma coisa? Ótimo. Vamos! Vamos!

Vai!

Fora!

A gente sabia que ele ia ser transferido.

Esses milicos são mesmo muito idiotas.

Mas não tiveram nem tempo pra pensar.

A companheira Raquel vinha no carro da frente, simulou um acidente.

Foi perfeito! Como uma coreografia.

Há muito tempo que eu não me sentia tão bem.

Vou pegar um cigarro.

Tira a roupa.

- Bom dia. - Cuidado.

O chão tá cheio de cacos de vidro, podem cortar seus pezinhos.

Eu sei.

Não foi mesmo pra me acordar que você quebrou o copo?

O que você quer de mim afinal, hein?

Estou indo encontrar um homem que eu nunca vi.

Ele vai me reconhecer por causa do livro.

É a nossa senha.

Eu vou combinar a sua viagem, sabia?

Sabia.

Acorda o Saulo, que ele tem compromisso ao meio-dia.

- Eu vou tratar do seu futuro. - Vá correndo.

Estou louco pra sair desse apartamento, tirar esse capuz.

Ir ao encontro do meu destino.

- Alô? - Mãe?

- Quem é? - É a Clara.

Minha filha, como é que você está? Quanto tempo, está tudo bem?

- Eu tô bem, mãe. - Você sumiu, Clara.

Vem nas férias. Faz tempo que você não liga, seu pai está muito preocupado.

E a faculdade, Clara, como é que está?

Está tudo bem, mãe. Eu não posso falar muito.

- Minha filha, por quê? - Só liguei pra dizer que estou bem.

- As fichas já vão acabar. - Mas Clara, liga a cobrar.

Olha, chegaram uns cartões postais aqui pra você.

Por que você não me dá seu endereço, eu posso te mandar.

- Não, não precisa. - Você não quer mesmo, filha?

Guarda pra mim, mãe.

- Não fica muito tempo sem ligar... - Saudade.

- Tudo firme, Frederico? - Tudo firme.

Tudo firme, companheira.

Eu já estou com carro e motorista acertados pra amanhã à tarde.

Em frente ao Café Avenida, no centro da cidade.

O Saulo sabe onde fica.

Diga pro companheiro levar tudo que precisar.

Mesmo porque, ele sabe, a gente não tem data prevista pra voltar.

Aliás, só voltaremos nos braços do povo.

Se é que um dia, o povo vai querer nos carregar em triunfo.

Monarco. Monarco da Portela.

É esse mesmo.

Embrulha pra presente, por favor?

Cristiana saiu.

Pode tirar a máscara.

- Saulo, esse tempo que passei aqui... - Sabe de uma coisa?

Nossos dramas particulares não importam.

Não valem nada.

Lembra?

Nós doamos nossa vida, nossos desejos...

nossos sentimentos à revolução.

Um dia, nós vamos nos lembrar disso com orgulho.

Será?

Deixa eu ver sua mão.

Está curada.

Você está pronto pra voltar pra luta.

Hoje à noite...

nós vamos estourar uma delegacia.

Você vem junto.

Eu estou parado há muito tempo, companheiro...

a mão ainda não está boa, não vou conseguir segurar a arma direito.

Vai ser bom pra você desenferrujar.

Nós vamos encontrar o Camilo às 20h.

Ele também vai participar da ação.

Bem-vindo à realidade.

Sabe Clara, quer dizer, Cristiana...

pra ter a coragem de experimentar e de ir até o fim...

é preciso mesmo vencer o mundo.

Esse é o meu presente de despedida.

Ele vai ser parte do seu futuro.

E eu...

o seu passado.

Você viaja amanhã à tarde.

Tudo o que quiseres...

É possível isso?

Tudo...

tudo o que quiseres...

menos meu amor.

Isso já não é amor?

Infelizmente Só não posso ter-te para mim

Coisas da vida É mesmo assim

Aonde você pensa que vai?

Vamos acertar nossos relógios.

- Se nós não voltarmos até... - Você vai sair mesmo?

O Saulo me convocou pra ação dessa noite.

Mas você ainda está se recuperando.

Minha mão já está boa.

Vamos até o fim nessa luta.

Coragem.

- Tudo em ordem? - Tudo bem. Está quase na hora.

- Um deles escapou! - Vai atrás!

Pra onde é que ele foi, meu camarada?

Esse aí não incomoda mais.

O Saulo foi vencido pelo mundo.

Triste.

Muito prazer.

O meu nome é Álvaro.

E o seu?

Clara. Meu nome é Clara.

Mas o que importa pra nós agora...

é que uma nova viagem começa.

Vamos em frente.

Recovered by (c) dCd / March 2018

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