All language subtitles for El.Exilio.de.Gardel.Tangos.1985.1cvb080p.WEB-DL.AAC2.0.x264-DODEN.por

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Original subtitles

TANGOS - O EX�LIO DE GARDEL

PARA MEUS PAIS

N�s vamos apresentar

Sem tirar nem p�r

Sem tirar nem p�r

Os tangos do ex�lio de Gardel

Do jeito que eles s�o

N�s vamos contar

Sem tirar nem p�r

Para come�ar

Os tangos Dos nossos pequenos dramas

Os tangos do ex�lio de Gardel

S�o tangos feitos com nossa pele

Uma tangu�dia ainda atual

Me chamo Maria. Acabei de completar 20 anos.

Cheguei com minha m�e em Buenos Aires h� 8 anos.

E ainda estou aqui.

Talvez por isso que precise te contar...

algumas coisas que vivemos com ela e seus amigos em Paris.

Capital de todos os ex�lios, milagres e mis�rias.

A hist�ria do ex�lio de Gardel

come�ou em um lugar para imigrantes e refugiados.

Chamavam de A casa do Rio Prata,

porque viviam muitos argentinos e uruguaios.

N�s conhec�amos o Gerardo...

Um escritor e professor amigo de papai, que nos ajudou muito.

Pobre homem!

Quando foi renovar o passaporte, o consulado exigiu que raspasse a barba.

Pedi o status de refugiado.

Nunca quis causar problemas. Mas isso � demais!

Eles que v�o se foder! Vou ficar com minha barba.

Assim, at� aqui. Como Valle Incl�n ou Mart�n Fierro.

O Negro e Susana tamb�m viviam na casa.

Ele era advogado e contrabaixista.

Estavam esperando o primeiro filho.

...Ros�lia?

Miseria era um m�sico uruguaio.

Todos o adoravam...

Ele conseguia telefones que ligavam sem moedas.

Quem estragou os telefones? N�o se pode ligar daqui!

Alicia era a ex-mulher de Juan Dos.

Havia chegado h� pouco com seus filhos Manuela e Carlitos.

Juan Dos.

Tangu�dia Dois.

Um compositor, com quem mam�e se meteu.

Havia formado um quinteto e convencido seu pianista, Angel,

tamb�m core�grafo, a nos ajudar a montar a tangu�dia.

Segundo ele, era a melhor obra de tangos jamais escrita.

Ainda n�o sei se pode ser feito ou n�o.

Perd�o outra vez.

Farsante!

Vamos continuar nossa hist�ria

Nossa can��o

Entrando no ex�lio de Gardel

E assim, sem perceber...

eles come�aram a viver

uma vida de cachorro na cidade das luzes.

E finalmente, Mariana, a protagonista da tangu�dia.

Divina.

Insuport�vel.

Minha m�e.

Maria!

Onde est�?

Ser� que n�o v�o vir buscar esses meninos?

N�o gosto que fiquem espalhados pela casa.

Pode baixar a m�sica quando eu falar com voc�?

Por que n�o me deixa em paz?

Viu minha pasta de documentos?

Estou farta! Farta!

-Ser� que n�o a perdeu? -N�o seja insolente!

Ligaram do banco. Est� devendo.

Devendo?

O que disse a eles?

Nada. Querem que voc� ligue.

Vamos, crian�as. Vamos!

Maria?

Continua ligando para esse garoto, Cool?

-Sim. -Sim?

1.800 francos na conta do telefone!

Cool mora em Lille. E voc� liga para Buenos Aires!

-N�o fale besteira! -Vou pegar 20 francos.

-Por qu� -Vou dormir na casa de Teresa.

-Como assim? -Isso mesmo.

Vamos ensaiar at� tarde. Est�o esperando por mim.

Vai faltar a escola de novo?

� a �ltima vez, te prometo.

Maria! Sua av� manda dinheiro para seu estudo e voc� n�o estuda!

Por favor, n�o exagere. J� chega!

J� chega o qu�? Estou aqui, me sacrificando como uma est�pida...

e voc� n�o faz nada,

absolutamente nada, para conseguir seu diploma!

Para que me serve um diploma?

Te ligo mais tarde. Comporte-se.

-N�o. -N�o?

Tchau.

MISERIA EM PARIS

E vamos encontrar na esta��o

Os her�is do ex�lio de Gardel

Disfarcem e fa�am fila, ou seremos presos.

Agora fa�a a liga��o.

Est� pedindo moedas.

-Mas eu liguei... -Est� pedindo moedas.

-Para onde ligou? -Para Montevid�u, noite passada.

Quem te deu essa informa��o?

Uma modelo inglesa...

Uma modelo! Isso precisa de moedas! Conserte-o!

Tem 10 pessoas que est�o congelando aqui. Depressa, Miseria.

Conserte!

-Falta muito? -Sei l�!

Por que n�o usamos moedas?

Miseria! Miser�vel...

N�o se preocupe, Gerardo, n�s teremos nossa pizzaria.

Claro, a m�e do Juan est� vindo com os d�lares.

Um liban�s...

de Gotemburgo me ensinou esse truque. � muito simples.

Pegue o fone.

Fa�o contato e corto o sinal de discagem.

Voc� n�o cortou nada!

� o mesmo sinal de antes!

Cuidado com a fila. Fa�am fila.

Se continuar fumando, vai acabar queimando os pulm�es.

Sim, tudo vai queimar.

Todos meus livros. Tudo que eu tenho.

Voc� foi proibido de fumar!

De que se queixa, Gerardo?

De tudo, filha, de tudo.

N�s perdemos tudo, minha casa, minha filha, tudo.

E agora os livros.

E meus arquivos. 20 anos de trabalho.

N�o exagere.

Ainda n�o os queimaram.

Mas o que v�o fazer? S�o 2.000 livros.

Onde v�o enfi�-los? V�o enterrar, destruir, queimar.

Agora vai falar com eles pelo telefone.

O cunhado tem que vender o s�tio e temos que esvaziar a casa.

E n�o pode guard�-los em outro lugar?

Onde vou enfi�-los? S�o 2.000 livros.

Ningu�m se atreve a toc�-los. Eles t�m medo.

V�o queim�-los.

Eu vou peg�-los.

J� discutimos sobre isso.

-J� disse que vou! -N�o seja teimosa!

N�o grite! Al�m do mais, as m�es me esperam.

Sempre sonhei em ficar velho e n�o precisar fazer mais nada.

N�o ter mais nenhuma obriga��o.

E me dedicar completamente ao mundo da cria��o.

Mas n�o...

Outra vez estou condenado a fazer muito mais coisas do que j� fiz na vida.

Desde que sequestraram minha filha, Marta, e sua fam�lia...

Tenho enfrentado com minha mulher as piores experi�ncias,

perigos e desgra�as.

Essas notas tamb�m s�o para recordar de San Mart�n,

e do ex�lio da grande na��o inacabada.

O povo Latino-Americano tem vivido exilado dentro ou fora de sua terra,

com a institui��o dos projetos neocoloniais.

-Mas o que deviam... -Sim, mam�e.

Sim, felicidades!

Sim, as crian�as tamb�m te desejam felicidades.

Juan Uno est� por a�? Conseguiu os d�lares?

Foi na casa do Negro?

N�o chegou.

Eu te disse. N�o queria que alugasse o apartamento, mam�e!

Quando pagarem, eu te envio o dinheiro.

N�o aguento viver aqui. Quero ir embora.

N�o quero mais. Estou farta!

Foi a casa do Negro? Esconda-os bem. N�o deixe que os roubem.

Depois compre as passagens e venha.

J� verificaram se eu posso ir?

Fernando falou com o advogado.

Tem que esperar uns meses ainda.

Como est� o velho? Ele fez o eletrocardiograma?

Diga a ele para parar de fumar. Ainda quero v�-lo vivo.

Bom...

Al�? Merda de ex�lio!

Nos cortaram! Pelo menos conseguimos falar.

Voc� falou!

Vou pegar mais moedas.

Ei, telefone!

-Qu�? -Deixe-nos falar!

Quero moedas.

Malvado. Comil�o.

Que antip�tico!

TANGU�DIA DO ANJO

Est�o vindo!

R�pido.

Vamos, Miseria, vamos.

Por favor, sil�ncio!

Que belo lugar.

Aqui est�o eles.

O que est�o dan�ando? Tango?

Que maravilha!

Achei que n�o viria.

E perder seus argentinos? Est� louco!

Esse � Juan Dos.

Oi!

N�o ser� Gardel?

-Oi. -Ol�.

-� Florence Millet, a atriz? -Sim.

-� a Tangu�dia que tocaremos agora? -Claro, idiota!

Aquela � Mariana.

Uma famosa atriz argentina.

E muito atraente.

Ol�, Mariana.

Ol�, Florence.

Ela faz teatro.

Estrelou A Respeit�vel Prostituta.

Ela tem a apar�ncia certa.

J� vou...

� o autor?

S� da m�sica. O autor � Juan Uno.

Ah, Juan Uno e Juan Dos?

Nos chamam assim, mas somos quase "um".

Juan Uno est� em Buenos Aires. Nunca sair� de l�.

Entendo.

� um louco muito talentoso.

Adoro escritores argentinos.

Borges, Cort�zar.

E o mais conhecido, aquele da solid�o...

Quem? Garc�a M�rquez?

Sim, formid�vel.

Mas ele � colombiano!

N�o importa. O ruim � que s�o pouco traduzidos.

Vamos.

Vamos para o "Ex�lio".

Voc� ver� uma Tangu�dia.

Tangu�dia: Tango, mais trag�dia, mais com�dia.

Muito bom!

Mariana, que beleza!

O m�sico � marido dela?

N�o.

Interessante.

Muito interessante.

Como interessante? Est� brincando?

Muito talentoso, mas incompreens�vel.

Como tudo que voc� gosta, querido.

Tenho que ver a vers�o completa,

mas ainda assim, adorei a Tangu�dia.

-Obrigado. -Obrigada.

Pode nos ajudar?

Claro!

Quando estiver pronta a mostraremos a Jean-Marie.

Tchau.

Mas precisa estar pronta!

Pronta?

-N�o foi isso o que combinamos! -O que quer dizer?

-Ainda faltam 2 meses de ensaio. -Por que est� t�o exaltado?

Voc� disse que tinha um teatro. Que tinha um or�amento.

Que Florence assinaria o contrato hoje!

D� quase no mesmo.

No mesmo? Est� louco, Juan?

Voc� n�o tem nada concreto.

Angel.

Acabou-se!

Chega.

Angel, n�o se v�!

-N�o se v�. -Angel j� se foi.

Vai quebrar as asas!

� o fim.

Para mim a Tangu�dia terminou.

S�o 3 meses de ensaio. Eu queria termin�-la.

Mas n�o posso mais ajud�-los.

Voc�s acham que n�o me d�i?

J� estou em Paris h� nove anos.

Esse � outro fracasso. Sou um profissional!

Nove anos. J� estive com todas as estrelas.

Estive com B�jart. Com Peter Brook. Acham que n�o d�i?

O Angel vai cair na frente de voc�s.

O sonho do Angel foi destru�do em muitos peda�os.

Como abandona a Tangu�dia assim?

O que vamos fazer sem diretor?

Pode substitu�-lo?

-Quem, eu? -Sim.

Claro!

Claro.

-Sim. -Eu?

Sim, voc�.

Precisamos termin�-la, Pierre. Todos n�s ajudaremos.

Faltam poucos n�meros.

A PO�TICA DE JUAN UNO

Como teve a ideia de fazer a Tangu�dia?

Em Buenos Aires eu estava muito mal.

Separado de minha mulher, sem trabalho e censurado na r�dio.

Juan Uno me disse: "Se tocar sax, pode ficar aqui,

mas com o bandone�o, corra para Paris".

"Mas o que vou fazer em Paris?", eu perguntei.

-"A Tangu�dia, Juan!" -Qual?

"O Ex�lio de Gardel".

"Mas, o que � isso?

O que � a Tangu�dia?"

"Algo que conte o que acontece em Buenos Aires".

Eu disse: "Mas isso � um risco enorme! V�o liquidar com voc�!".

E o que ele te respondeu?

Ele disse: "A decis�o de ser � sempre arriscada.

"Juan, n�s dois estamos em perigo.

Viver aqui � arriscado, mas partir tamb�m � um risco.

O triunfo est� em resistir, em nos manter unidos,

aqui e l�".

E assim ele come�ou a desenvolver sua estrat�gia de risco:

"Precisamos inventar uma cultura, uma po�tica do risco."

A prepot�ncia do desejo...

Ai, Gardel? Angel?

"Alguns se foram, outros desapareceram.

Estamos sepultados em Corrientes e Talcahuano."

-Quem � esse? Juan Uno? -N�o, esse � Disc�polo.

E este � Troilo, acordeonista.

-Est� vendo? -Sim.

Meu maestro.

E esses s�o: Arlt,

Macedonio Fern�ndez,

Marechal, Homero Manzi.

� uma antologia de Buenos Aires. Uma mitologia...

-Uma cosmogonia. -Cosmogonia.

Um poema de amor,

mas com sangue.

O ex�lio de Juan Uno.

Sozinho como um zero

Perdido como um cachorro Abandonado

Quer um mate?

Arrastando meu velho esqueleto

Sozinho, como um suicida

Nada � amargo demais para voc�.

Vinho franc�s? N�o �?

Sim.

A po�tica de Juan Uno.

� um ex�lio.

Nossa Tangu�dia.

-Esta � a pe�a? -Sim, �.

Uno escreve sem l�gica.

-Em bares e restaurantes. -Folhas de...

"Opor especula��o intelectual com a fantasia da vida."

"Abaixo a imita��o, a burocracia da criatividade e a depend�ncia."

"Tomemos a decis�o. A decis�o j� � um sucesso."

Desenhos tamb�m...

Precisamos encontrar a l�gica.

"Cuidado com o conforto e a vaidade."

Mas...

"Atire pela janela as regras da est�tica. Misture os estilos."

"Rasgue as f�rmulas prontas e invente a sua pr�pria."

"A cria��o � loucura e desordem: organizemos a desordem."

"Precisamos arriscar o feio para atingir a beleza."

� um princ�pio da Tangu�dia.

"O perfeito e acabado est� morto. Viva a imperfei��o, viva a vida."

� a hermen�utica de Uno. Entende, Pierre?

E vamos come�ar o segundo ato

Com cartas do ex�lio E do pa�s natal

E vamos contar para voc�

O que eles viveram em Paris

As cartas do ex�lio v�m e v�o

Carregadas de amor e esperan�a

De pedidos e de not�cias

A prova de que todos est�o l�

Cartas v�m e v�o

Cartas v�m e v�o

Cartas, cartas, mais cartas

Cartas v�m e v�o

CARTAS DO EX�LIO

Depois do que aconteceu com papai, me disseram que iriamos para a Europa,

e que voltar�amos depois das f�rias.

Mas vov� escreveu, dizendo a mam�e que esperasse alguns meses.

E tem sido assim nestes anos.

Perdi um ano de escola, meus amigos...

e Diego, que eu estava paquerando.

Mam�e quer me ajudar, mas quando lhe conto o que sinto,

ela n�o sabe o que dizer.

Quando perdi o papai...

senti que tamb�m tinha perdido a mam�e.

Todo s�bado vamos a uma reuni�o de uma comiss�o de solidariedade

em um teatro na periferia de Paris.

Que chatea��o! Mas para mim � como ir a um encontro com papai.

As pessoas est�o saturadas de mensagens. Os petit�rios n�o funcionam mais.

Precisamos inventar algo, um espet�culo, uma festa...

Algo que chame a aten��o das pessoas...

Para que venham. Somos quantos aqui?

Obrigado a Jean-Marie e Florence por terem vindo.

Vamos fazer um esfor�o de imagina��o...

para falar com as pessoas usando uma nova linguagem.

Vai funcionar com os manequins?

Sim, com as pinturas, m�sicos, tudo. Um ato de cria��o.

Sim, algo positivo!

Estamos sempre divididos entre os sentimentos...

de culpa, de dever ou de piedade,

mas essas coisas n�o s�o coerentes.

Sim, creio que primeiro precisamos saber por que o p�blico

n�o se sente mais comprometido

porque perderam seu interesse e sua paix�o.

Por que nos transformamos em seres amorfos?

Por que n�o nos questionamos mais?

Por que nos refugiamos em um ego�smo

que est� nos levando � morte.

Quando me disseram que na Fran�a Havia mais de 400 comit�s

de solidariedade aos argentinos, me emocionei muito.

Um desses comit�s se chama Marta e Martita.

Me lembro do dia em que Arlette e C�line chegaram dos alpes em seu carro,

para organizar a viagem de Alcira para Buenos Aires.

"Minha querida Martita:

vai completar tr�s anos que est� longe de n�s.

Tr�s anos desde que

te sequestraram junto com seus pais,

sendo voc� um beb� cheio de vida.

Por tr�s anos, n�o fizemos nada al�m de pensar em voc�,

de tentar te encontrar.

Por tr�s anos, n�o fiz nada

al�m de sonhar com voc�.

Onde voc� estar�?

Como ser�o seus olhos?

Como os de Marta ou os de Raul?

Como as pessoas que est�o com voc� te chamam?

Est� feliz? Precisa de alguma coisa?

Sabe que sua av� vai derrubar todas as portas para te encontrar?

E que estamos indo at� Buenos Aires para te encontrar?

N�o tenha medo: eu te reconhecerei.

Voc� � filha da minha filha, sangue do meu sangue.

Confie em mim, eu te encontrarei!

At� logo, minha netinha querida!"

O que planejam fazer?

Uma campanha de apoio a nossa viagem:

Enviaremos 10.000 cartas ao governo argentino,

exigindo que nos entreguem Martita.

Mas a viagem...

J� est� decidido?

Sim.

Recolhemos dinheiro suficiente para acompanhar Alcira.

N�o sei o que dizer.

N�o posso impedir minha mulher de fazer a viagem...

Mas ir assim para Buenos Aires, � uma loucura!

Gerardo.

N�o � a primeira vez que viajamos para defender os direitos humanos.

Sempre conseguimos resultados.

N�s temos o apoio de v�rios organismos internacionais.

UNO EM BUENOS AIRES

Corta!

Muito bem!

Vejamos,

aproximem-se.

Isso � fundamental. Fique aqui, In�s!

Voc� est� muito linda.

Deve colocar as m�os assim.

Isso que d� a continuidade. Certo?

De novo? Vamos!

Em seus postos...

Muito bem.

M�sica!

N�s n�o temos o n�mero 7, nem o 9 e nem o final.

Mas temos o n�mero 8.

Assim n�o d�.

N�o consigo visualizar a pe�a completa.

N�o se preocupe.

Escute,

Juan Uno modifica diariamente a Tangu�dia,

porque ele est� descobrindo

a amplitude do ex�lio.

Do seu ex�lio. Compreende?

-Entendo. -� horr�vel.

Um massacre. Compreende o que se passa por l�?

N�o posso fazer um espet�culo sem saber o fim.

Sim, ligarei para ele.

Mas, Miseria, como pode me chatear com problemas t�o pequenos?

N�o tenho sina de discagem e preciso falar com Juan Uno em Buenos Aires!

-Falta o fio terra, Miseria! -Me passe os fios.

Voc� � t�o burro, Miseria! Essa � uma cabine autom�tica.

E quando s�o autom�ticas precisam de fio terra.

Esse � o �nico segredo. 50 francos cada um.

50 franquinhos. � dif�cil falar com o Juan Uno.

50 francos para um final para a pe�a. N�o � muito.

Esse pre�o � s� para voc�.

Tentem disfar�ar, n�o fa�am tumulto.

Miseria, venha c�!

Fique aqui.

Quando eu ligar a carga, voc� liga os fios.

-Entendeu, Miseria? -Sim.

-Est� ligando? -Sim.

Deu sinal!

Me d� os fios.

At� mais, Miseria.

Deu sinal! Deu sinal!

Juan!

Juan, � o Juan Uno!

� o Juan Uno.

O que est� acontecendo?

Voc� sabe... o final...

-Juan Uno... -Venha, est� preso!

O Juan Uno est� na linha.

Ana!

Como est� linda.

Est� divina! N�o mudou nada.

Voc� tamb�m n�o.

E como est� minha Buenos Aires? Me conte, pior?

Est� tudo muito caro! Um desastre!

O que est� fazendo? Teatro?

Televis�o, como sempre.

Veja.

Veja s� isso.

Veja o que � esse pa�s.

E voc� quer partir? Olhe onde voc� est�.

Feche os olhos e veja!

Como tem gente estranha por aqui.

Mariana, n�o est� se encontrando com refugiados, n�o �?

Estou falando s�rio. Pode pegar fama de exilada e se queimar.

Quando voltar, estar� acabada. Tenha cuidado!

Picasso!

N�o, Picabia.

-Picabia! -Sim.

Mas que parecido.

Que apartamento fabuloso. Que lindo!

-Paris deve ser... -� caro.

Caro? Isso que ia te perguntar.

O que foi?

-Transam... -Qu�?

Est�o transando.

Est�o transando aqui?

-Maria! -Sim.

Vista-se.

Estou com Cool, mam�e.

Por isso mesmo!

N�o pressione! Aonde queria que eu fosse?

N�o sei. Ao col�gio.

-Na minha pr�pria casa. -Est�o transando aqui?

Mas que maravilha � a Europa!

Onde queria que eles transassem? Na rua?

Estou farta de viver aqui.

Volte ent�o. N�o acontece mais nada l�.

Como nada? E o filho de Adela?

Quem pode saber onde ele est� metido.

As pessoas exageram muito.

N�o torturam como antes.

� terr�vel, mas...

Acabamos nos acostumando.

Eu duvido.

Voc� quer voltar ou n�o?

-Claro que sim. -Ent�o volte!

-Como "volte"? -Susana voltou. Est� �tima.

Claro.

Ela falou com um general.

N�o!

Precisa falar com Ricardito.

Explique tudo a ele.

O que est� falando?

O que eu tenho que explicar? Eles � que precisam se explicar.

Como exagera as coisas.

Tenho que ir.

Te ligo.

-Para pagar a conta do telefone. -N�o, n�o quero.

Sei que n�o quer, mas pague assim mesmo. Assim amanh� posso te ligar.

Tchau.

-Juan? -Sim?

Vou embora.

Te deixo a Tangu�dia, o ex�lio.

O que disse?

Vou voltar para Buenos Aires.

N�o pode.

Sinto falta de minha fam�lia, minha casa,

meus amigos, do teatro, de tudo.

Sim, meu amor, mas voc� est� comigo. E vamos terminar "O Ex�lio" juntos.

Vamos encontrar um final.

Nunca!

Eu te juro, n�o estou mentindo. O colocaremos em cartaz.

N�o conte hist�rias! Ande, cante uma de Gardel.

Voc� vai casar comigo, Mariana.

O dia em que te amarei...

O dia em que me amar�s,

voltar� para mim.

N�o conte hist�rias Cante uma de Gardel

-Te digo que te levarei -Te amo e isso me assusta

-Te digo que n�o posso -Te amo e posso.

-Te digo que te levarei -Acredito e isso me assusta

-Te digo que te amo -Acredito e isso me assusta

O ex�lio acentua Tua loucura natural

Como uma garoa Que cai eternamente

O ex�lio continua Como um triste carnaval.

TANGOS DE PAPEL

Chegaram as f�rias de inverno,

com �rvores de Natal, visitas de Buenos Aires.

De t�o grotesco, nunca vou esquecer aquele Natal de 1979.

O ano que terminava, levava junto o sonho de retorno de mam�e,

ou da pizzaria de Negro e Juan.

Tudo come�ou na noite em que Pepa chegou, a m�e de Juan Dos.

Ela veio carregada de cartas e presentes.

E com as economias de Negro e Juan.

Por medo de ser revistada e perd�-los,

ela colocou os 6 mil d�lares em um len�o

e os escondeu em sua calcinha.

Ela os perdeu.

Meu Deus!

O que foi?

Os d�lares...

Se foram. Junto com o len�o.

Que cagada! Ela deu descarga! Entende?

Ei, Juan, a velha cagou nos d�lares?

Veja como os franceses dan�am.

Obrigada!

Agora quero apresentar-lhes o quinteto de Juan Dos.

Que v�o tocar com exclusividade...

alguns n�meros de O Ex�lio de Gardel.

Uma homenagem a Gardel e Disc�polo, dois grandes compositores de tango

e que tiveram alguns de seus trabalhos censurados pela ditadura.

Juan Dos!

Deixe-me apresent�-los: Eduardo, meu marido,

Hector Lobotrico e Norma Lobotrico da embaixada.

Ernesto Figueroa e sua esposa.

Ele trabalha no Minist�rio da Economia.

-Melhor irmos embora, Ana. -Por qu�?

N�o temos motivos para estar aqui.

Tem algo errado?

Algo errado?

Est� brincando?

N�o estou entendendo.

Ex�lio de Gardel? Como se ele tivesse sido exilado.

N�o. � s� o t�tulo da pe�a.

� assim que difamam nosso pa�s! Gar�om!

Mas o que est� dizendo?

Voc� me escutou. N�o estou brincando.

� por culpa dessa gente que o pa�s est� onde est�!

Por culpa de voc�s!

Por que n�o cala a boca?

-Nunca! -Subversiva!

-Fascista! -Terrorista!

Fascista, sim! Ponham-no para fora.

-Desgra�ada, voc� me paga! -N�o me toque!

Te amo.

E voc� sabe.

ERAM DOIS EX�LIOS...

Escute, Pierre!

O que deve terminar � o espet�culo, n�o a Tangu�dia.

Porque o ex�lio continua. Aqui e l�!

E assim deve sentir o espectador.

Mas preciso de um final.

Sou um diretor de teatro!

Voc� n�o entende. Precisa ser deixado em aberto.

� como o sul, como nossas vidas, nossos encontros.

Como tudo, como...

� como os pampas, entende? Enorme, infinito, sem fim.

Genial! Um espet�culo nos pampas. Nunca ouvi tanta bobagem!

Preciso de um final.

Aventuras n�o.

N�o � verdade. N�o quer correr riscos como diretor.

Isso n�o � desordem! � outra ordem.

N�o � falta de estilo. � outro estilo. � outra forma.

N�o existe cria��o sem riscos. Burocrata!

E a criatividade e o talento que me falava. Farsante!

Est� com medo! N�o quer romper a concha que te envolve.

Eu tenho medo?

Medo sim! Est� morto de medo.

J� estou aqui h� dez anos. Faz quanto tempo que est� aqui?

Fazem dez anos que eu abandonei tudo.

Eu tamb�m me exilei.

Acha que � preciso pegar um barco para estar no ex�lio?

Sou um exilado, deixei tudo,

meu trabalho, o teatro com Florence. Deixei tudo para ser livre.

Medroso, medroso.

Esse � o meu ex�lio.

Toda hist�ria tem um fim.

Tango, tango para dan�ar juntos

Mais dois Tango de cumplicidade

Procuro meu pa�s, Tango com voc�, meu amor

Tango, tango para dan�ar juntos

Mais dois Tango de cumplicidade

Sonho com meu pa�s, Tango com voc�

Um pa�s que te ajude a viver

E acima de tudo te respeite

At� na idade da chupeta

Um pa�s onde possa votar

Onde valha a sua opini�o

Onde valha a sua opini�o

Mesmo que seja apenas um ratinho

Mesmo que seja apenas um ratinho

Um pa�s

Onde eu possa ser eu mesmo

Mesmo se quiser ser uma barata

Ou abaixar as cal�as

Que pa�s ser� esse pa�s?

Onde possa trabalhar Sem ter que mendigar

Tango, tango Tango de papel

Dance tango, dance com sua alma

AUS�NCIAS

O pa�s que n�s deixamos j� n�o existe mais, Mariana.

Tudo mudou, o teatro, as pessoas. Tudo.

Precisamos aceitar isso

para continuar vivendo, que � o que importa.

Eu sei.

Mas n�o consigo esquecer.

Sinto falta dele.

Eu o vejo.

Eu vejo Hern�n.

Me vejo chegando em casa.

Regando as plantas.

N�o posso aceitar a ideia

de que perdi tudo.

Todos n�s perdemos

algo muito querido.

Mas precisamos aceitar. � a �nica forma de seguir vivendo.

� isso que importa.

N�o tenho mais tes�o por nada. Entende?

N�o tenho �nimo.

E voc� pensa que eu tenho tes�o de continuar escrevendo?

N�o sabe o que me custa levantar todas as manh�s.

�s vezes quero morrer,

mas n�o...

Cort�zar estava certo: precisamos inventar um projeto.

Precisamos inventar coisas para fazer.

O que � ser velho, Gerardo?

N�o ter mais �nimo.

Simplesmente, n�o ter �nimo.

Pense no pobre velho San Mart�n. 25 anos aqui.

25 anos

sozinho.

Que ingratid�o!

O homem que havia libertado metade do continente.

CASAL DO GENERAL SAN MARTIN BOULOGNE-SUR-MER

"Nunca reconhecerei

como governo leg�timo da p�tria,

sen�o aquele que ter� sido eleito

pela livre e espont�nea vontade do povo."

Ele morreu neste quarto.

Ex�lio � aus�ncia.

E o que � a morte, sen�o uma aus�ncia prolongada?

Quem entre n�s n�o morreu um pouco nesses anos?

Quem n�o perdeu seus sonhos

e suas esperan�as?

Sei que nunca chegarei a ver o pa�s que sonhei.

Assim como San Mart�n ou Vallejo.

Tem golpes que tomamos na vida que s�o t�o fortes.

Eu n�o sei.

Gerardo?

Por que papai n�o se exilou?

Porque pensou que nada aconteceria com ele.

Mas ele foi amea�ado!

Como quase todo mundo.

Quando Hern�n pegou o caso de Martita, j� tinha outros 6.

Nenhum advogado os teria aceitado.

Vinte advogados j� haviam sido mortos ou presos.

Eram assassinados ou tinham que fugir.

Mas por qu�?

Por qu�?

Mariana, decidimos apresentar a Tangu�dia aqui.

Tangu�dia?

Sim, em 10 dias. � poss�vel?

E Pierre, e Juan?

Pierre concorda,

desde que se reagrupem e encontrem um final.

Um fim?

N�o existe hist�ria sem final.

O que disse Florence?

V�o vir pessoas da casa de cultura,

cr�ticos, produtores. V�o convidar...

Por favor! T�m crian�as pela casa!

E que culpa tenho eu?

Bem, temos que terminar a... Maria!

-Por favor. -Temos que terminar.

N�o � no final que est� pensando.

S� penso nos finalmentes.

N�o, da Tangu�dia, idiota!

-Pierre quer... -Tudo que ele quer � me ver morto.

O que est� fazendo? Por favor, n�o!

N�o! Sai fora, o que � isso?

-Viram Fr�d�ric? -N�o.

Feche a porta.

Vou tomar banho.

Me espere!

Voc� est� linda.

-Meu Deus, que gostosa. -N�o.

-Te quero! -Ai, sim.

-Sim. -Sim?

Meu Deus, te amo.

Te amo.

Te amo.

Fr�d�ric!

O que esse garoto est� fazendo aqui?

Ol�, madame!

Quem � melhor? Rei Juan Carlos ou Giscard?

J� basta, Manuela!

O �ltimo: O que � mais f�cil? Falar espanhol ou franc�s?

Espanhol.

Que sorte!

Por qu�?

Porque vamos para Barcelona.

Como?

Caminhando?

Daqui a uma semana.

Sim.

Vamos para Barcelona.

Est� louca? Sua m�e n�o me disse nada!

Pois fale com ela.

Por que n�o me disse?

N�o pude, Juan.

Poderia ao menos ter me perguntado, n�o acha?

Te perguntado o qu�? Se posso sair de Paris?

J� faze sete anos que nos separamos.

Eu sei, Alicia.

� o primeiro trabalho que me oferecem desde que cheguei na Europa.

-Mas n�o � na Fran�a. -Eu sei que n�o.

A Fran�a n�o me deu os documentos.

O que fa�o aqui em Paris, Juan?

As crian�as n�o podem ficar se mudando de um lugar para outro.

Buenos Aires, Paris. E agora onde?

Foi voc� que me pediu que os trouxesse.

Voc� foi expulsa da escola, certo?

-Se sentia perseguida. -Sim, tem raz�o...

Mas voc� disse que eu conseguiria trabalho.

N�o, disse que ia te ajudar.

N�o v�o embora, por favor.

N�o estou sendo ego�sta.

S� quero que fiquemos juntos.

N�o suporto a ideia de me separar das crian�as novamente.

N�o posso perder essa oportunidade, Juan.

Beijos, cora��o.

MILONGA LOUCA

Alegria!

Ei, August�n!

Viu a turma de Juan Uno por aqui?

Voc�s n�o imaginam como � a vida l�.

Todo dia levam algu�m.

Mesmo assim fizemos a primeira greve.

Apanhamos de cassetete,

-mas a coisa est� andando. -Est�?

-Devagar, mas andando. -Que bom.

Vejam.

Erva mate.

Juan Uno n�o mandou nada para mim?

-Ah, sim. -Nada.

Uma coisinha.

O que � isso? Um bumbo? Est� louco?

-Nenhuma carta? -Aqui.

"N�o perder a confian�a, todos unidos..."

-S� isso? -E o final?

Quem � Juan Uno?

Quem �?

Esse cara vai me deixar louco!

Est� quebrado.

Totalmente. Sem conserto.

N�o, n�o quero.

N�o me levem!

A VOLTA DO MUDO

Juan?

Algu�m est� vindo.

Um homem.

Juan!

Ele est� nos olhando. Vamos!

Parece da pol�cia.

Ele est� rindo, Juan. Est� rindo.

Est� vindo.

Est� ocupado!

N�o est�o fazendo direito.

Esperem.

A� est�!

Fant�stico!

Genial!

Que figura!

Se eu contar, ningu�m vai acreditar.

� do Caf� Universal?

Juan Uno est�?

� do Los Angelitos?

Juan Uno est� a�?

Aqui � Juan Dos de Paris.

-Como est�? -Ol�!

-Oi. -Oi!

Estou aqui com Mariana. Vou passar pra ela.

Uno...

Como est�?

O final, meu irm�o. Mande o final!

N�o, � s�rio. Estamos montando a pe�a.

N�o, na semana que vem.

Como?

N�o, como assim? N�o posso fazer nada.

Al�? Oi?

Ficou maluco e desligou! Al�?

N�o pode ser. Ligue de volta.

-Posso? -Sim.

-N�o insistam mais. -Por qu�?

Ele est� com medo. � normal.

Voc�... voc� n�o �...

Disc�polo?

Disc�polo. Eu mesmo.

Venham.

Uno quer que a pe�a seja montada. � seu maior sonho, mas...

Aqui � f�cil falar sobre ela, mas ele est� l�.

E l� a coisa est� feia, compreende?

Sim, claro.

Se seu nome aparecer na Tangu�dia, ele pode ter problemas.

� melhor que ele fique.

N�s nunca pensamos em apresent�-la com o nome dele.

Compreendam, o medo assusta.

Nos segue em toda parte, como uma sombra.

Como um c�o raivoso, com cuidado para que n�o nos morda.

O que seria de n�s se Juan Uno se for?

Mas n�o podemos deixar assim, sem final.

N�s encontraremos um final.

A tangu�dia ser� nossa vingan�a!

Gardel.

Sem rumo pela vida, Um bo�mio andarilho

Eu sou Buenos Aires, Ancorado em Paris

Cheio de males, Rodeado de urg�ncias

Me comunico deste pa�s distante

Contemplo a neve Que cai calmamente

Da minha janela at� a avenida

As luzes avermelhadas De tons moribundos

Parecem pupilas Esquisitas de se olhar

Oh, distante Buenos Aires, Mantenha seu esplendor

J� faz 10 anos Desde que me viu partir

Aqui um pobre prisioneiro Sem esperan�a

As lembran�as Me machucam como um punhal

As ruas de Corrientes Devem estar mudadas

Suipacha e Esmeralda E o sub�rbio tamb�m

Algu�m me disse Que est� crescendo

E as ruas se formando Em diagonal

N�o imagina como quero v�-la

Estou aqui desempregado Sem dinheiro nem f�

Talvez uma noite A morte me pegue de surpresa

Adeus, Buenos Aires, Nunca mais a verei

Oh, distante Buenos Aires, Mantenha seu esplendor

J� faz 10 anos Desde que me viu partir

Aqui um pobre prisioneiro Sem esperan�a

As lembran�as Me machucam como um punhal

As ruas de Corrientes Devem estar mudadas

Suipacha e Esmeralda E o sub�rbio tamb�m

Algu�m me disse Que est� crescendo

E as ruas se formando Em diagonal

N�o imagina como quero v�-la

Estou aqui desempregado Sem dinheiro nem f�

Talvez uma noite A morte me pegue de surpresa

Adeus, Buenos Aires, Nunca mais a verei

A �LTIMA TANGU�DIA

-Ol�. -Formid�vel.

Muito bonito.

E a m�sica, que emocionante!

Bom trabalho, Pierre.

E que tangos!

Uma beleza, "O Ex�lio de Gardel". Como sempre disse.

Gardel. Que grande personagem!

� uma pena. Por que Gardel n�o aparece mais, Pierre?

Mas ele est� presente em tudo...

Que pena. Seria uma ideia genial.

Gardel representa toda uma �poca. Um homem fabuloso!

Eu o conheci aqui em uma filmagem, eu era um jovem figurante.

Ele chegou acompanhado de uma mulher horr�vel,

uma americana cheia de dinheiro, a vi�va de Chesterfield.

Ent�o, Gardel chegou num carro enorme e nos disse:

"Muchachos..." Com sotaque de Toulouse.

"Se a tirarem de cima de mim, os convido para jantar essa noite."

Sabem aonde ele nos levava? N�s, os pobret�es do cinema?

Ao Hotel Plaza!

Fabuloso Gardel! Que pena.

Te interessa?

Sim, � muito boa.

� lindo. Um belo espet�culo.

N�o vejo que interesse possa ter para nosso p�blico.

� muito t�pico.

Sim, a m�sica, os personagens, at� mesmo os tangos.

� muito argentino para n�s.

Nosso p�blico vai compreender?

-Est� falando s�rio? -Sim, por qu�?

O que esperava?

Um tango esquim�?

N�o fique chateado.

Como?

Ele disse que a tangu�dia � sulista, do Rio da Prata.

Como?

A tangu�dia � sulista, do Rio da Prata.

Para n�s n�o quer dizer nada.

N�o estamos acostumados a essa dramaturgia.

Mas n�o � raz�o para rejeit�-la.

Pierre, explique do que se trata.

� uma tangu�dia.

O qu�?

Uma obra que o autor concebeu sem consult�-lo.

Para que nos convidaram, ent�o?

Se a julgarmos pelo que costumamos ver aqui, n�o entenderemos nada.

Eu gostei, mas o final...

N�o o entendi.

O final � um risco que devemos correr.

Na Fran�a sempre queremos que os outros fa�am o que esperamos deles.

Voc� acredita nisso, Nathalie?

Eu tenho interesse,

quero levar o espet�culo ao festival da Picardia, em Amiens.

N�o v�o entender nada.

Eles n�o nos conhecem. N�o entendem nossa hist�ria.

N�o exagere. O p�blico � o p�blico!

Sim, mas...

N�o estamos correndo o risco

de n�o encontrar outro final

que n�o seja a volta para casa.

Rapaz, precisamos resistir.

Ei, Juan!

A tangu�dia encontrou seu final

e n�s, os dois Juans, j� n�o somos necess�rios.

N�o fique deprimido, meu amor.

Juan? Juan, n�o murche.

Continuemos com o ex�lio E com a can��o.

Procurando uma sa�da e um final

Hist�rias convertidas em fic��o

Com toda sua dolorosa humanidade

A Europa ofereceu solidariedade

Sincera ou por culpa

O Norte tamb�m foi c�mplice

De leste a oeste, solid�o

N�o tenho nenhuma novidade.

N�o sabe o que foi percorrer novamente os juizados, as delegacias, os quart�is.

E ficar pensando o tempo todo

que Marta e Martita,

em algum momento, podem ter passado por aqui.

Chegamos em Buenos Aires com tanto medo de n�o encontrarmos ningu�m.

Mas as m�es e av�s estavam nos esperando.

Me dei conta de que havia muita gente que lutava pelo mesmo que eu.

E isso me deu novas esperan�as.

ONDE EST�O?

ONDE EST�O MEUS FILHOS?

Aten��o, senhoras e senhores!

Negro e Suzana t�m algo para lhes mostrar.

O mais belo ato pela vida que n�s j� fizemos.

Venham!

� a �nica.

Nossa filha, Vict�ria!

SOZINHO

Al�, mam�e?

Papai?

O que disse? Como est�? Est� melhor?

N�o.

Quem?

Mas quem, papai?

Mam�e?

Mam�e!

Me espere, n�o v�!

Mam�e, eu quero...

Espere! Eu quero te dizer coisas que nunca disse antes!

N�o v�, mam�e.

Eu te amo, mam�e!

Sozinho e descartado como um zero

Como um marginal, Eu resisto, sozinho

Longe e perdido como um cachorro, Luto contra o esquecimento

Arrastando meus ossos

Sozinho e sem grana, Como em um suic�dio

S� tenho o Tango Para contar meu ex�lio

Deixo a minha vida Sem ter um porto

Ando � deriva e me d�o por morto

Sozinho e perseguido Em minha Buenos Aires

Ando sem rumo Como uma bala perdida

Longe, tudo � estranho E me sinto pequeno

E se n�o me iludo eu fico louco

Sozinho e escondido Com toda a hist�ria

Que nos foi proibida, Mas que est� em minha mem�ria

Sozinho em ex�lio como um zero

Tempo de ilus�o Que nos faz esquecer de tudo

Sozinho

Como um zero

Sozinho, resistindo sozinho

Escondo meu cora��o no arm�rio

Meu pobre cora��o cheio De buracos

Sozinho como um zero

Sozinho, resistindo sozinho

O rel�gio. Que lindo!

N�o mexa, maria.

As fotos de papai.

N�o mexa, Maria, por favor.

Deixe-me v�-las, n�o seja ego�sta.

Veja, papai quando era jovem.

Por favor, Maria, feche isso.

Entende que s�o coisas minhas?

Mas que chata que voc� �!

At� quando vai continuar com essa hist�ria?

Sabe que n�o gosto que mexam nas minhas coisas.

Sim, eu sei. O que n�o sei � o que vai fazer da sua vida.

Vou embora.

Ent�o v�. Mas v� agora!

Porque tamb�m quero fazer a minha vida, entende?

Se eu vou, voc� vai comigo, Maria.

N�o, vai voc�. Eu vou alugar um est�dio com a Teresa.

O que est� dizendo?

Voc� me ouviu! Quero morar sozinha.

Quero sentir que tenho algo meu, entende?

Cale-se!

N�o fale comigo assim.

Eu falo como quiser!

-� igual a seu pai. -E eu n�o vou aguentar seus caprichos!

Nunca queria viver esses anos de merda!

Cale-se!

Voc� � t�o ego�sta que n�o � capaz de ir ao meu quarto,

porque sabe que eu estou chorando.

Maria.

Maria?

Desculpe.

Voc� � tudo que eu tenho e que amo.

Mas seu pai est� sempre ali,

presente, me esperando.

Queria conseguir n�o pensar mais nele, entende?

Sim, mam�e.

Mas at� quando vou te entender?

� a primeira vez que conversa assim comigo.

Nunca me perguntou o que eu sentia por papai.

Tamb�m n�o posso esquec�-lo.

-Sim, al�? -Gerardo?

Por que continua nos incomodando?

-Quem fala? -Um amigo.

Quem fala?

Continue com isso que mato sua filha e sua neta.

Por que n�o fala pessoalmente?

-Me entendeu? -Vagabundo!

Nunca mais as ver�.

Para voc� que ficou

Para Gaby, Tito e Diego

Para voc� que se exilou Em seu bairro

Ou em seu arm�rio

Para voc� que aguentou

Os interrogat�rios gerais

Para voc� que suportou

As pris�es e a persegui��o

Para voc� que foi levado

Pelos cabelos, por uma suspeita

Para voc� que eles humilharam

E largaram desnudo

Para todos voc�s � o meu canto

Na procura de suas ra�zes

Somos filhos do ex�lio

Dentro e fora do nosso pa�s

VOLTAR

Quem �?

Quem �?

-San Mart�n? -Sou eu.

N�o vai nos dar um susto, n�o �?

� que estou muito mal.

Muito mal.

N�o acha que j� � hora de voltar?

Mas como, General?

Estou muito cansado. E muito pobre.

Eu entendo, Gerardo. Eu tamb�m n�o tenho nem um centavo.

Se esqueceram at� da minha pens�o.

Mas precisamos voltar, mesmo que nos falte vontade.

Por um s�culo e meio que espero

para ver a p�tria que sonhamos.

Grande. Unida.

Voltar.

Sim, voltar. Com a sobrancelha enrugada.

Carlitos!

Claro. Voltar.

N�o duvido.

N�o falta tanto.

Isso � certo.

Voc� acha?

Sim.

O que mais me desgosta � v�-los t�o pouco patriotas.

E voc�, Carlos?

Como pode ver, quero voltar logo.

Cante algo para n�s.

J� n�o canto mais, General. Estou velho.

Voltar com a sobrancelha Enrugada

E as t�mporas prateadas Com as neves do tempo

Sentir que a vida � um sopro

Que 20 anos n�o s�o nada

Que um olhar febril, Cagando pelas sombras

Te busca e te nomeia

O que achou?

Viver com a alma agarrada

A uma doce lembran�a, Que at� choro outra vez.

Tenho medo do encontro Com o passado que retorna

E se confronta com minha vida.

Tenho medo das noites Povoadas de recorda��es

Que enchem os meus sonhos

Mas o viajante que foge

Cedo ou tarde, termina sua fuga

E embora o esquecimento, Que a tudo destr�i,

Tenha matado Minhas velhas ilus�es

Guardo escondida comigo, Uma humilde esperan�a

Que � toda a fortuna Do meu cora��o...

Se passaram alguns anos desde aqueles contratempos.

Mas muito mais se passou em nossa vida do que o tempo.

Me voltou � mem�ria uma tarde na cabine telef�nica.

Quando fizemos o acordo de voltar para a Argentina.

Com os cantos e outras m�gicas.

E com a �nsia de voltar, passou a nostalgia do ex�lio de Gardel.

Quase todos voltaram com seus tangos e dramas.

E para sua terra levaram o ex�lio como uma segunda pele.

Eu n�o sei o que farei.

Vou e venho.

E aqui estou.

Algum dia partirei, quando souber bem quem eu sou.

Mas algo eu aprendi vivendo ex�lios e sofrimentos:

Quanto temos muito para viver,

n�o h� mal que dure 10 anos.

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