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[vozerio] …neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos, e a nós volvei.
E depois deste desterro, mostrai Jesus,
criador do Céu e da Terra,
e em Jesus Cristo,
seu único filho, Nosso Senhor,
que foi concebido pelo poder do Espírito Santo,
nascido da Virgem Maria,
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado,
desceu à mansão dos mortos,
ressuscitou ao terceiro dia,
subiu aos céus, e está sentado…
Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve.
[padre] Que o Senhor venha em teu auxílio
com a graça do Espírito Santo
para que, liberto dos teus pecados, ele te salve,
e na sua misericórdia
alivie os teus sofrimentos.
Zé?
Zé?
Está rezando?
[Zé] Sua mulher tem um tumor no útero.
Preciso operar.
Zé, para! Tá louco?
Você matou minha mulher! Zé! Você matou ela!
O que é que foi que você fez? Você matou minha mulher!
[homem] Das Dores!
[mulher] Meu Deus, ela tá viva! É um milagre!
[homem] José, aceita…
Essa é sua missão.
Esse é seu destino.
- Me paga no fim do mês, Dinalva. - Agradecida, Seu Zé Arigó.
Fiado outra vez, Zezé?
Agradecida, Seu Zé Arigó.
Ô, Dinalva, pode levar. Não tem problema, não.
[homem] Aceita.
Esse é seu destino.
[mulher] Zé?
Zezé.
Tá doente de novo?
Eu já devia ter me acostumado.
E o médico ainda diz que você não tem nada!
Zezé.
[homem] Ô, Zé Arigó.
Pela última vez, homem. Vamos ao comício com nós.
Tenha dó. Não posso, não.
Eu disse que não ia adiantar.
Ele funda o sindicato e depois pica a mula.
Uma vez minerador, sempre minerador, Zé.
Sou minerador mais não.
Vamos embora.
Vem, Zé.
Você é nosso líder, você começou isso tudo,
e os homem te escuta.
Esse comício é importante pra nós, vamos!
É um absurdo não ter comício.
O deputado veio só pra isso.
Se ele não pode falar, vocês falam por ele.
É a chance de contar como são as condições nas minas.
Você acha que o deputado tá preocupado com isso?
Fizeram nós de trouxa, isso sim. Viagem inútil.
Vai ser inútil se vocês forem embora.
Bora procurar o deputado e falar o que têm pra falar.
Você não devia nem estar aqui.
Nem minerador mais é. Volta pra casa, Arigó.
É uma pena que você tenha desistido do sindicato.
Desculpa a intromissão, mas eu posso saber por quê?
[Zé] Ah, Seu Deputado,
os problemas de saúde que eu tive.
Se vai mesmo se afastar do sindicato,
você podia pensar em se filiar ao partido.
O PTB precisa de gente como você.
O seu trabalho é muito bom, não pode parar.
[Zé] Se o Getúlio ganhar, não carece.
Já vamos ter um presidente que defende o trabalhador.
O médico me preveniu,
mas eu achava que eu ia conseguir fazer o comício.
Desculpe, eu vou ter que ir pro meu quarto.
Muito agradecido pelo pouso. Acabei perdendo minha carona.
[deputado] Não foi nada, Arigó.
Arigó.
Esse é seu nome mesmo?
Não é, não, senhor. Meu nome é José Pedro.
Arigó é só apelido.
Em caipirês é "gente da roça",
"bobo", "capiau".
[deputado] Você pode ser da roça, José Pedro,
mas de bobo você não tem nada.
Com licença.
[Zé] Doutor?
O senhor tá bem, doutor?
O senhor tá machucado.
Você não se lembra?
De quê?
Foi você.
Eu?
Não fui eu, doutor.
O senhor tá enganado.
Foi você,
mas não parecia você, entende?
[deputado] Isso já tinha acontecido antes?
Tem certeza?
[padre] …seu único filho… Que renuncias a Satanás.
Sim, renuncio.
E a todas as suas obras,
e a todas as suas seduções.
Sim, eu renuncio.
[padre] Afastai os maus espíritos,
mandai que se afastem.
[homem] Acode o moço! Alguém ajuda ali!
O moço ali!
[mulher] Para, você não tem culpa de nada!
Ele deve estar morto, Arlete! Vão me prender!
Se tivesse acontecido alguma coisa, nós já tava sabendo!
O deputado tava vivo quando cê saiu de lá, para com isso!
Zé, para!
[Arlete] Shh…
Eu só queria que parasse.
[Arlete] O que foi isso?
[Arlete] Quem foi?
[Arlete] Ô, filho.
[menino] Ainda tá doendo.
[Arlete] Shh.
[Arlete] Tá tudo bom.
Tarcísio, quanto mais cê se mexer, mais vai doer.
Fica quietinho que vai passar.
Ainda tá doendo, pai.
Vai passar, filho.
[homem] Arigó…
Esse é seu destino.
Lutar contra ele só vai lhe fazer mal.
[Zé] Você sai daqui!
Não! Não tá certo!
Cura meu filho! Não é isso que cê quer? Curar as pessoas?
Cê não é do outro mundo? Então faz a dor passar, eu quero ver!
O meu filho nunca pediu pra fica doente!
Se não vai me ajudar, vai embora daqui!
[homem] Esse é seu destino.
[Zé] Mentira!
Eu não aceitei missão nenhuma!
[homem] Aceita.
[Zé chora] Vai embora daqui!
Por sua causa, eu matei um homem!
Eu vou ser preso!
[Zé chora] Eu vou ser preso, vai embora daqui!
Vai embora daqui!
[homem] Esse é seu destino.
Lutar contra ele só vai lhe fazer mal.
Eu só acredito se o doutor não morrer.
Eu só acredito se o doutor não morrer.
Se eu não fosse ateu, eu diria que é um milagre.
- É impressionante. - Mas e o tumor?
Não está mais aí.
Eu tô curado?
Eu não conheço esse técnica.
Você se operou. Onde foi? Nos Estados Unidos?
Qual era o nome do médico?
Porque a técnica que ele usou,
eu confesso que nunca vi nada parecido.
[menino] Extra, extra! Tudo sobre o milagre do deputado!
Aqui no O Profeta por apenas 50 centavos!
- Muito obrigado. - Agradecido.
A mentira sobre a fusão…
[senhor] Desde que casou com a sua prima,
essa casa não é mais sua.
Você me desobedeceu!
Agora passa daqui!
Volta lá pra sua mulher!
Ô, Zé Pedro, eu tô falando com você!
[Zé] Eu vim pegar um trem que deixei aqui.
[senhor] Trem? Aqui tudo é meu!
[homem] José Pedro.
[senhor] O que é que cê pegou?
Deixa eu ver.
Se o senhor quer tanto ficar, eu deixo com o senhor, pai.
Faz questão?
Cê não vai abrir aquela porta, vai?
Zezé, cê não pode dar ouvido a essas vozes. Só vai piorar.
Mais, Lete?
Eu já fiz tudo que os médicos pediram…
que os padres pediram, e não melhorou.
Se o Nosso Senhor colocou o careca na minha vida, tem motivo.
Cê tem que confiar em Deus.
Mas eu tô confiando.
[padre] Eu não vou admitir espiritismo na minha paróquia.
Você manda essa gente embora agora.
[Zé] Com todo respeito, Seu Padre.
Essa é a minha casa, e é uma casa católica.
Vai entrar aqui quem eu quiser.
O que você está fazendo, Arigó, não tem volta.
Isso não é de Deus.
Se não é de Deus, é melhor o senhor ir embora.
Arlete?
Meu marido já disse tudo que tinha pra falar.
[padre] Pois muito bem.
Isso não vai ficar assim.
[Zé] Se o Nosso Senhor colocou o careca na minha vida, tem motivo.
[Arlete] Cê tem que confiar em Deus.
[Zé] Mas eu tô confiando.
[radialista] A Rádio Congonhas AM 1020 confere de perto
o misterioso poder sobrenatural e fenômeno místico
que se abateu sobre nossa província.
Dezenas e dezenas de pessoas estão formando fila
na porta da casa de José Pedro de Freitas,
mais conhecido como Arigó,
que vão se amontoando pelos cômodas da casa
à espera de um milagre.
Recebemos nos estúdios da rádio
o Sr. Miguel dos Santos.
Conte pra gente,
como ocorreram os fatos
dentro da casa do Arigó?
[homem] O Zé Arigó pegou uma faca de cozinha,
sem nem eu falar qual era o meu problema.
Eu não senti dor nenhuma.
[radialista] Qual doença o senhor foi tratar?
[homem] Catarata, senhor.
O José enfiou a faca no meu olho.
Eu não senti nada.
Não saiu nem uma gota de sangue.
Quando ele acabou, só disse pra eu ir embora.
Eu não tenho mais nada.
[mulher] Levei minha mãe.
Os médicos já tinham dado como perdido,
mas o Arigó salvou com a força da fé do Nosso Senhor.
[homem] Ele falou bem pouco, só pegou e cortou meu braço.
Mas deu pra ouvir a voz dele. Não era a voz dele, era diferente.
[mulher] Ele é um homem santo, me curou, e eu não senti nada, não vi sangue nenhum,
e ele tava com os quatro dedos dentro da minha barriga.
Só pode ser milagre.
[médico] Acho que não preciso falar o quanto é difícil se tornar médico.
Você estuda muito, estuda anos,
se dedica de uma maneira ininterrupta.
Percebem o risco que é um homem que nunca fez nada disso
começar a enfiar uma faca enferrujada no meio das pessoas?
Isso é um absurdo, é um absurdo!
[médico] São pessoas inescrupulosas
que alguém, com o mínimo de bom senso, precisa parar.
[padre] Minhas irmãs, meus irmãos,
hoje a nossa primeira leitura foi um trecho
do livro do profeta Jeremias,
onde ele fala dos falsos profetas de Samaria,
dos profetas que veneravam Baal
e incitavam o povo a cometerem o mesmo pecado.
[padre] E esses profetas pareciam ser
homens de Deus.
E por que é que eu trouxe hoje o trecho de Jeremias?
Porque a nossa cidade, assim como Samaria e Jerusalém,
está sendo invadida por falsos profetas.
Minhas irmãs e meus irmãos,
vamos orar para aquela mulher que é casada com um feiticeiro,
com um macumbeiro, que vai trazer um grande mal para a nossa cidade.
Que Deus Todo-Poderoso tenha misericórdia dela
e dos seus filhos.
[mulher] Zezé é um homem bom.
O coração dele é bom.
As pessoas falam dele porque não conhecem ele direito.
[Tarcísio] Tá doendo.
[Arlete] Tá doendo?
[Zé] Já disse, não sou médico. Médico é o Dr. Fritz.
É ele que cura. Longe de mim querer ganhar dinheiro
em cima de quem tá doente.
Ai!
[vozerio] [suspiros nervosos]
[radialista] Amigos ouvintes,
a fantástica missão do Zé Arigó continua
e agora de casa nova.
Essa mudança era inevitável,
pois a casa de Arigó não comportava mais
tanta gente chegando todos os dias
e fazendo fila na sua porta.
A quantidade de gente que já foi ver Arigó
já é bem maior que toda a população da região,
e a cidade está tendo a honra de receber muitos forasteiros
que vêm de muito longe conhecer de perto
o que Zé Arigó vem fazendo nesses anos.
[homem] É verdade, eles vêm pra cidade
estudar os fenômenos paranormais
que acontecem dentro do centro espírita.
Um deles trouxe até equipe de cinema.
Vão fazer filme do Arigó, e vai passar no estrangeiro.
- Já sente a presença do Dr. Fritz? - [Zé] Ainda não.
Já tem gente chamando o Arigó de estrela internacional,
porque agora ele é o homem mais famoso das Minas Gerais.
[vozerio] [apito]
[vozerio] [suspiros nervosos]
Como está a perna?
Os médicos disseram que é gangrena.
Não quero que cortem minha perna, doutor.
Vai ficar curado.
[homem] Graças a Deus.
- Vai com Deus. - Arigó?
Sou eu, o Jorge, de BH.
- Eu tô com… - Lepra.
Mas vai ficar bom, tem cura.
Mas os médicos disseram…
[Zé] Tem cura!
Toma remédio e volta em dois meses.
[padre] Não sou eu que estou dizendo,
é o padre Quevedo, e eu concordo com ele.
Não existe essa coisa de "operação espiritual".
Isso é uma feitiçaria, isso é um engodo.
Anselmo, engodo ou não, as pessoas acreditam.
Tem gente vindo do exterior.
Temos que tomar uma providência o mais rápido possível
e colocar esse homem na cadeia, que é o lugar dele.
Mas isso não cabe é nós. Isso é a Justiça.
Ainda não saiu a sentença.
Não, não saiu. Ainda.
Mas a nossa associação de médicos tá convicta, firme nesse propósito,
inclusive eu estive em São Paulo,
e esse filme tá sendo exibido lá.
Filme sobre Zé Arigó
passando no cinema no centro da cidade de São Paulo.
Se ninguém parar o Arigó,
daqui a pouco a gente não vai conseguir caminhar por Congonhas
cheia desses ônibus cata-jeca vindo de tudo que é lugar.
A nossa cidade vai virar um foco de doenças e de espiritismo.
[padre Anselmo] Não podemos esmorecer, nem a Igreja
nem a Associação dos Médicos.
Nós temos que marcar em cima.
Agora ele vai ser condenado.
[Zé] Bom dia.
[todos] Bom dia.
[Zé] Orlandinho. Bom dia.
- Bom dia. - Tudo bem?
Tudo, mas tá cheio hoje, viu?
[Zé] Tá bem.
- Bom dia. - Bom dia.
- Bom dia, doutor. - Bom dia.
- Bom dia, Preto. - Bom dia, Arigó.
- Bom dia pra todo mundo. Bom dia. - [todos] Bom dia.
Aqui a gente tem esse horário nosso,
que o Dr. Fritz vai atender,
mas a gente tem também um trabalho com os amigos que vêm pra dar o passe.
Tem muita gente aqui precisando do passe.
Eu peço, pra quem puder, que fique pra reunião da noite.
Vamos começar o nosso trabalho.
Quem souber, puder me acompanhar na oração a São Camilo…
São Camilo foi enviado por Deus
pra ser amigo e pai dos pobres enfermos.
Consagrai a vida inteira, assisti e confortai,
contemplai dos Céus quem vos invoca
confiando no vosso auxílio pra curar as doenças da alma e do corpo,
faz desses pobres irmãos um cumbe de miséria
que torna triste e doloroso esse auxílio terreno.
Aliviai e confortai vossos corações com a esperança imortal.
Assim seja.
[todos] Assim seja.
[homem] Seu Arigó, Deus lhe abençoe.
É o nosso filho, ele não tá nada bem.
Os médicos disseram que ele tá com aquela doença ruim.
[Zé] Espera seu marido lá fora.
Leva a criança.
[Zé] Os médicos falaram a verdade.
Seu filho está com câncer e vai desencarnar logo.
O quê?
[Zé] Vai morrer. Não adianta medicar.
Sua mulher está grávida e não pode saber.
Quando acabar o atendimento, procure Arigó.
Ele vai dar dinheiro pra volta.
Não precisa dar dinheiro nenhum.
Mas você não está sem nada?
O que que aconteceu?
Ele vai morrer. Tá com câncer.
- O seu filho? - Meu filho.
Você não é médico?
Não veio procurar provas contra Arigó?
Não foi pra isso que mandaram você aqui?
Então vem ver como é de perto.
Eu vou mostrar como é a cirurgia espiritual.
Médico também se cuida. Você tá com câncer no esôfago.
Se não acredita em mim, procura colega na capital.
- Que que o Sidney tem? - Não sei.
Chama o professor! Chama o professor!
[professor] Devíamos chamar um médico.
[padre] Isso não é mal do corpo. É da alma.
Pelo amor de Deus, Padre, o menino tá doente. Vou chamar um médico.
Não se atreva!
Sidney?
Sidney? Sidney?
Sidney!
Sidney, você está me ouvindo, meu filho?
Acorda, menino!
Não faz isso, Padre, ele pode ser sonâmbulo!
Isso é uma pasmaceira! Para com isso, isso não existe!
O que aconteceu com o pitucho de Arigó?
Agradecido.
Com licença.
- Vamos pra casa? - O senhor vai contar pra mãe?
- Nem do desenho? - Vou não.
Isso vai ser um segredo nosso.
Espera o pai lá fora.
[Zé] Vai, filho.
Os inocentes sempre pagam pelos pecadores.
Não sei do que tá falando.
[padre] Do seu filho. Ele está doente.
E por sua causa.
Daqui a pouco vai ouvir vozes também. É isso que você quer pra ele?
Nunca desejaria isso pra um filho.
[padre] Então por que você continua em pecado, José?
Capaz!
[padre] Você tem que parar.
Eu não posso, Padre.
[padre] Não pode, mas vai, porque o processo está andando.
Você vai ser preso, Arigó,
e não vai conseguir escapar como escapou da outra vez.
Uai, mãe, mas eu não entendo por que o pai não pode te curar.
Shh, fica quieto.
[Zé] Lete, chegamos!
Encontrei o Lagoinha na porta e trouxe pra jantar.
Tarcísio, pega uma muda de roupa pra ele, que a dele tá podre.
[Zé] Não precisa falar assim.
- Vai, Lagoinha. - Obrigado.
- Bora, Lagoinha. - Arlete.
[Arlete] Eu sei, meu filho.
Foi asma, foi?
[Zé] Foi nada, o menino só teve uma gastura.
Gastura…
[Arlete] Vocês não falam nada.
E você?
[Arlete] Só cansaço.
Não vou mais na igreja, não vou no seu centro também.
[Zé] Larga de bestagem.
Eu não consigo.
Filho, fala pra mamãe. Fala o que aconteceu.
Deixa eu ver aqui. Com febre cê não tá.
Que que falaram no colégio, hein, Zezé?
Hora de curar pitucho de Arigó.
[Zé] Beija.
[Zé] Beija.
Já tá curado, filho. Pode sentar.
Já jantou, Tarcísio? Então senta aí, filho.
Tô sem fome.
Não quis comer por quê, filho?
Tá doente?
Nasci doente.
Tarcísio.
Por que curou meu irmão e não me cura?
[Zé] Não sou eu que curo, filho. É o careca.
Pede pra ele me curar, pai.
Ele não pode.
Ele não cuida de osso.
Por quê?
Por quê?
Tem gente que não pode ser curada, filho.
Precisa passar pela doença pra…
Pra sofrer.
Não, Tarcísio.
Ô, Arigó.
Já tá na hora.
Alô.
Oi, Dr. Jair.
Pois não, é a Arlete, sim.
Ã-hã.
Sei.
Não tem como adiar esse julgamento, Doutor?
[homem] Doutor!
Doutor.
Vou embora. É preciso.
[homem] Arigó, você acha que vai ser preso?
Se sente vítima de perseguição? Acha que merece esse processo?
Pensa em fugir do julgamento?
Acha que não dá pra escapar da prisão?
[menina] Arigó!
Um homem morreu.
[Zé] Dá licença, faz favor.
[Zé] Deixa eu passar!
[Zé] Sai!
Sai da frente! Sai da frente!
Sai! Todo mundo pra trás!
Acorda!
Acorda! Acorda!
Se quer morrer, morre em casa, e não aqui no centro.
Aqui vai prejudicar Arigó. Vai embora daqui. Vai embora!
Pra fora, todo mundo! Aqui não é lugar para isso!
Pra fora, todo mundo!
[Orlandinho] Todo mundo, vai embora daqui!
Senhor, por favor.
- Pois não? - Nós queremos falar com o doutor.
Nós viemos trazer um presente.
E tem muito mais. Nós podemos trazer outras amostras.
Muito obrigado, mas acho que não vamos precisar.
Ele não receita remédio de alopatia?
Então ele pode receitar esses e ainda dar uma amostra pros pacientes.
Eu posso explicar a bula de cada um deles.
Eu vou deixar com o senhor, e o senhor mostra com calma.
Já vi e não quero.
Sai daqui, abutre!
Não é a primeira vez que esse povo aí de laboratório vem aqui.
Nem a última.
De repente era melhor ter ido com o Dr. Puharich.
Não quero deixar vocês.
Não tenho por que fugir, Lete.
Será que eu continuo recebendo salário na cadeia?
Não quero que cê pegue mais costura.
Não vou poder recusar serviço não, Zé.
Mas eu gosto de costurar.
Ninguém vai prender você, não.
Você ainda tem muita coisa pra fazer aqui fora.
Só vão sossegar quando me pararem,
e pra me parar, só me prendendo.
[homem] O curandeirismo é punido para se resguardar incolumidade pública.
O indivíduo que sem ser médico faz a determinação de uma doença pelos sintomas,
que sem ser médico faz operações dizendo ser aparelho de um espírito em transe
receita ou opera ou fornece garrafadas, raízes de mato,
que usa passes, atitudes, posturas, palavras, rezas,
encomendações, benzeções, esconjuros ou qualquer outro meio
para facilitar partos,
curar a tosse rebelde,
mordedura de cobra, câncer,
debelar a febre, tuberculose, hemorragia, espinhela caída…
Esse cidadão representa um tremendo perigo para a saúde
de um indeterminado número de pessoas,
cuja tutela incumbe inquestionavelmente ao estado
a pena de 16 meses pelo crime de curandeirismo,
figura delituosa prevista no artigo 284 do Código Penal Brasileiro.
[juiz] A pena deve cumprir-se em regime fechado, iniciando-se hoje.
O condenado pode ser algemado e conduzido à Casa de Detenção de Lafaiete.
Estão esperando o quê?
É pra algemar o condenado!
Se o senhor permitir, eu mesmo me entrego.
Não preciso de guarda pra me levar, eu sei o caminho do presídio.
[mulheres] Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,
bendita sois vós entre as mulheres,
bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores,
agora e na hora de nossa morte.
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres,
bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores,
agora e na hora de nossa morte. Amém.
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres,
bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores,
agora e na hora de nossa morte. Amém.
Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres,
bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, mãe de Deus…
E esse povo todo aí fora?
Que que eu faço com isso?
Eles vieram atrás de mim.
Ave Maria, cheia…
Mas a cidade não pode ficar assim.
Eu quero que você mande eles embora.
[Zé] Não posso fazer isso, doutor.
Posso atender eles, mas negar ajuda eu não posso.
Você ouviu o que eu disse?
Eu quero que você mande eles embora daqui!
[Zé] Eles vão voltar amanhã, doutor.
Bendita sois vós entre as mulheres…
Leva ele daqui.
[preso 1] É o Arigó! É ele mesmo!
[preso 2] Será? Aqui ele é que nem nós.
[preso 3] Cala a boca, imbecil. Ele não devia nem estar aqui.
[preso 2] Se cuida, Arigó. Escreveu, não leu? Vai pra cima da égua.
[preso 4] Não vão fazer isso com ele, não.
[preso 1] Me ajuda, Arigó. Cê tem poder. Me tira daqui.
[preso 5] Me cura. Cê não cura todo mundo?
[preso 6] Quero ver fazer milagre aqui dentro. Cadê o doutor alemão?
Não foi preso também?
[preso 1] Deixa ele em paz!
[gritando] Silêncio!
Estão querendo ir pra égua?
Tá olhando o quê? Anda.
Mordomia já. Uma cela só pra você.
Que que tá acontecendo aqui?
O que é isso? Quem é o senhor?
O senhor é o juiz Barros?
O que que você quer?
Eu quero que o senhor reze, mas reze muito.
Eu quero que o senhor peça pra Deus com muita força
pra que nenhum filho seu tenha lepra.
Se tiverem lepra, agora não tem mais o Arigó pra curar.
Tenha uma boa noite, doutor.
Você tá comendo direitinho?
Hã?
Não pode se abater, Zezé.
Tô abatido não, Lete.
Tô achando até bom ficar aqui, eu tava precisando descansar.
Você vai descansar na sua casa.
Já fiz a apelação. Espero que entre outro juiz pra analisar o meu pedido.
Outro juiz?
É.
Parece que o Barros…
Eu ouvi boatos de que ele vai sair.
Sem ele, aumentaria muito a nossa chance de rever sua sentença.
Mas eu não cometi um crime.
Deixa ele falar!
Zé, não existe crime sem dano.
O que você fez não feriu ou prejudicou ninguém, muito pelo contrário.
Vou te tirar dessa cadeia, mas cê tem que me prometer que, quando sair daqui,
não vai mais chamar atenção.
Nada de cirurgia grande.
Coisa pequena, sem ninguém ficar sabendo, ainda vai.
[Sidney] Ô, mãe!
Tem que pôr limite nesse garoto!
Para de gritar. A mãe tá trabalhando!
Deixa a mãe trabalhar!
Chega!
Parem, vocês!
[padre] Estou ouvindo, Arlete.
[Arlete] Eu tô com raiva.
Raiva?
Raiva do Zezé.
De mim.
De Deus.
Eu tô cansada.
Por que a gente não pode ter uma vida normal?
Uma vida como a de todo mundo?
Com o marido que você tem, nunca vai conseguir isso.
Ele escolheu o caminho das trevas,
e você, como sua mulher, também está neste caminho.
Se bem que você tem escolha.
Arlete. Arlete.
Meu juramento é minha escolha, Padre.
Desculpa incomodar.
[pancada] [grito de dor]
[pancada] [grito de dor]
[pancada] [grito de dor]
[pancada] [grito de dor]
[pancada] [grito de dor]
[homem] Socorro!
[homem] "O Brasil deve orgulhar-se
por ter um homem como Arigó
trabalhando por ser povo.
Julgo este trabalho tão notável
que merece, futuramente, um estudo científico profundo.
Farei tudo ao meu alcance para despertar a atenção dos cientistas sobre Arigó.
Solicito a Vossa Excelência que considere o caso dele com compaixão e justiça,
no interesse da humanidade.
Sinceramente, Henry K. Puharich."
Não acha impressionante que um cientista americano da NASA
tenha se dado o trabalho de me escrever?
Barros, este homem estava estudando o Arigó.
Nós estamos diante de um caso único.
O caso Arigó já não é mais problema meu.
Pra mim é muito simples.
Trata-se de um curandeiro que infringiu a lei
e lesou toda uma comunidade.
Lesou como? Por favor, me diga.
Todos os depoimentos reforçam que ele curou ou ajudou as pessoas.
[juiz] E praticou medicina ilegal.
Então o crime é contra o sistema,
e não a comunidade.
O senhor faça como quiser essa revisão.
Eu tô fora.
Não é incômodo nenhum eu atender sua mãe,
mas se eu atender um, tenho que atender os outros.
Você acha que eu vou deixar você dar expediente na minha cadeia?
Pelo menos os outros presos. Tem gente bem doente.
Jesus não quer que sangre.
Já vai chegar nossa vez.
Com licença,
a senhora disse
"vai chegar nossa vez". Por quê?
[em espanhol] Não sabe, senhor?
Arigó voltou a atender os enfermos.
- A senhora é de onde? - Do Uruguai.
- Mas mora aqui? - Não, vim só para ver o Dr. Fritz.
- A senhora veio do… - Sim.
Boa sorte.
Desculpa.
Desculpa.
O que você tá fazendo aqui?
Ele tava certo. Eu tô com câncer no esôfago.
E você veio aqui pra ele te curar?
O que que cê acha?
Cadê médico que quer prejudicar Arigó?
[Zé] Pra ele não ganhar recurso na Justiça?
[Zé] Pode vir aqui.
- Pode vir, doutor. - Me solta!
O juiz pode vir também.
Eu não preciso ver nada!
Eu sei!
Isso tudo é uma farsa!
Um circo!
E vocês são palhaços! Vocês todos! Palhaços!
Doutor.
Isso é operação espiritual.
Não é Arigó que cura. Quem cura é Jesus.
Desculpe. Onde eu coloco isso?
Pode ser aqui.
[limpa a garganta] Posso ver a receita?
Pode.
"Olobintin, uma injeção por dia."
O Arigó não receita chás, ervas?
[datilógrafo] Só remédio de farmácia.
- Só remédio de farmácia. - Só.
Vem cá. Vem ver de mais perto.
Você mesmo, vem.
[Zé] Segura.
É pior aqui ou lá?
[preso 1] É isso aí! Cadê a valentia agora?
Para! O que vocês estão fazendo?
[Zé] Não faz isso! Para com isso!
Para!
[Zé] Para com isso!
[pancadaria] [vozerio]
Para! Chega! Chega!
Matar esse homem só vai piorar as coisas pra vocês!
Ele merece! Não é gente!
É, sim! Todo mundo aqui é gente!
Todo mundo aqui quer uma segunda chance, recomeçar a vida!
Deixa ele com a gente!
Não ajudei vocês pra isso!
Matar ele não vai adiantar nada.
Só vai aumentar a dívida de vocês, trazer mais sofrimento!
[Zé] Careca!
[Zé] Careca…
[médico] Agora sim.
[Zé] Doutor?
Me perdoe a indiscrição. É que não acreditei quando me chamaram aqui.
Você cura tanta gente, tantas doenças graves…
Não sou eu que cura. Quem cura é Jesus, através do Dr. Fritz.
Então por que o Dr. Fritz não te curou?
Curou de quê?
Do problema que você tem no coração.
Tudo que o careca pode curar, ele cura.
Quando não pode, não cura.
[médico] Descansa.
[juiz 2] "Não é possível admitir-se que alguém possa ser punido por um crime
quando não ocorra o resultado,
passando a ser substituído por uma mera presunção,
que contraria o artigo 11 do nosso Código,
segundo o qual a existência do crime depende do resultado,
seja ele dano ou perigo.
O crime depende do resultado."
"Será o apelante absolvido porque,
mesmo admitindo-se como provado tudo quanto na sentença contém,
o fato não constituiria a infração do artigo 281."
[multidão] Arigó! Arigó!
[assovios] [aplausos]
[advogado] Meu cliente nunca lesou ninguém.
Na verdade, em qualquer lugar do mundo ele seria estudado,
mas aqui no Brasil, não. Aqui ele é condenado.
[repórter] Mas Arigó voltará a atender?
Doutor? Responde à pergunta, doutor!
[todos] Arigó! Arigó!
Muito agradecido!
Que isso, Preto? Tá triste porque eu voltei?
Não, Zé. Que isso!
- Agora acabou a moleza. - Vamos trabalhar.
- Arigó! - Orlandinho…
[Orlandinho] Que saudade!
Fazendo o que aqui?
Vim trabalhar com você.
O médico falou que você não pode dirigir.
Eu dirijo pra você.
E o seu emprego?
[multidão grita] [aplausos]
Eu queria muito agradecer todo mundo que rezou por mim
e que tá aqui hoje.
Eu sei que tem muita gente aqui precisando de ajuda.
Fica todo mundo tranquilo, porque amanhã o centro abre de novo.
[todos] Arigó! Arigó!
[Chico] Tá agoniado por quê?
Se o Dr. Jair te visse aqui ia ter um treco.
Falou pra não receber mais nenhum famoso.
Mas o famoso aqui é você.
[Chico] Como está seu problema de coração, irmão?
[Zé] Tá aqui, Chico.
Nem todos são curados, né?
E tantos irmãos reclamam de você…
Dizem que você não é um kardecista
ou um espiritualista de verdade.
Isso é uma bestagem, meu amigo.
Num país como o nosso, ser médium não devia ser crime.
Você está mudando isso.
Será?
Está.
Infelizmente, quem não crê precisa enxergar.
Sare, Arigó.
Não crie conflitos em si mesmo.
Isso aqui é apenas uma passagem.
[mulher] Não, querido. Ele não pode tomar café.
[Tarcísio] Me desculpe.
Com licença.
Dona Arlete, por favor,
uma foto pro jornal. Por favor, só uma foto.
Com licença, fazendo favor.
Orlandinho.
Ô, Dona Arlete!
A senhora vai entrar?
Será que hoje é o dia? [riso]
Uma vez só não mata, não.
Tudo bom, Orlandinho? Faz um favor para mim, dá um recado pro Zezé.
O Seu Chateaubriand tá lá em casa.
Xi, ele tá lá pelas banda do Caetano Lopes.
[canto de pássaros] [latidos]
[Zé] Tudo porque pita. Não entendo mulher que pita!
Dentes ficam amarelos, boca fedendo a fumo.
O que o cigarro te deu?
Doença! Não aprendem nunca.
Não precisa se preocupar. Eu sei quem é.
Ele já esteve aqui antes, Lete. Por que você tá tão irritada?
Não tá entendendo o quê?
Não escutou o que o Dr. Jair falou?
Falou que é pra você não chamar atenção,
e tá esse Dr. Chateaubriand aqui!
Todo mundo falando disso. A cidade não fala de outra coisa.
Eu sei, mas com doutor ou sem doutor, o povo vai falar.
[Arlete] Não quero que prendam você de novo.
Eu não vou aguentar se eles prenderem você de novo, Zé.
Vai lá.
Vai lá falar. O homem tá te esperando.
[Raul] Eu tenho certeza, Padre.
O Arigó tá mancomunado com um mundo de gente.
Tá na cara que ele recebe um bom dinheiro por tudo isso.
Essa acusação é bastante grave, Raul. Você tem provas disso?
O hotel.
O hotel é do irmão dele, não é?
Isso não quer dizer nada.
Temos que fazer uma nova denúncia.
Pra quê?
Raul, eu tenho ouvido de muitos médicos
que eles estão achando que o Arigó precisa ser estudado.
É mesmo a associação
ou é só você que está querendo colocar o Arigó na cadeia?
Eu tô vendo que a Igreja não tem a força que eu imaginava que tivesse.
Passar bem, Padre.
[Anselmo] Renuncia a Satanás!
Afastai os maus espíritos!
Mandai que se afastem! Crês em Jesus Cristo, seu único filho?
[Arlete] Zezé?
Zezé?
Que foi? Que que foi isso?
Você é feliz, Lete?
Que conversa! O que você tá falando?
Você me perdoa?
Perdoa de quê?
Você casou com um homem e acabou com outro.
Mais da metade do tempo não sou eu que tô aqui, é o careca.
Ô, Zezé…
Como você ia fazer diferente, meu filho?
Não sei.
[soluça] Não sei.
[Zé] Tão gostando da escola?
E a merenda, é boa?
Olha a educação, não vão comer demais,
senão vão ficar que nem eu.
Pai,
é faculdade, não tem merenda.
Claro que não, filho.
[Zé] Ô, filho.
[TV] Onde está sua valentia? Sua inteligência?
Estou tão cansada!
Como eu gostaria de estar longe de tudo isso!
E deixar o papai sozinho?
Um medalhão de ouro com uma corrente de ouro,
uma pequena fortuna.
O Vitor tirou as economias do banco.
[TV] Você sugeriu o presente.
Eu estava passando na vitrine…
Nem lembro a última vez que eu vi televisão assim com o senhor.
Filho.
Não dorme antes de mim não, tá?
O senhor ainda tem medo de dormir?
Pode deixar. Só durmo depois que o senhor dormir.
[homem] Arigó.
Todo mundo morre, eu sei disso. Mas ninguém sabe quando.
Eu não preciso morrer, só se eu não aparecer mais.
Ainda tem muita gente que precisa da sua ajuda.
[Fritz] Sempre teve medo de começar trabalho. Sabia que não era pra sempre.
Eu não quero.
Não quero deixar a Lete e os meninos.
Eles precisam de mim.
Eu não vi meus filhos crescerem porque tava trabalhando pra você.
Comigo.
É só você não vir mais.
Nós mostramos que cirurgia espiritual é possível.
Nossa missão foi realizada.
Quando vai ser?
Aproveite esse ano, Arigó.
Como vai ser?
Isso, você já sabe.
[Zé] Queria agradecer todo mundo que veio.
É a primeira vez que a gente faz uma ceia assim, grande.
[homem] Já tava na hora, né?
Teve horas na minha vida que eu briguei bastante com Deus.
Não entendia o que tava acontecendo.
Mas Deus escreve certo por linhas tortas,
e ele foi muito bom comigo.
Minha vida é muito boa.
E pra comemorar, eu tenho uma novidade.
Em janeiro, vamos todo mundo pra praia.
Marataízes.
[criança] Praia!
E tem mais! Comprei um presente pra cada um.
Papai comprou presente pra gente?
Deve estar doente.
Pra você. E pra você.
E eu?
[Zé] Pera aí que o seu é grande!
[menino] Bicicleta!
[Zé] É pra você!
Obrigado!
[carcereiro] Eu atendo.
Boa noite. Desculpa interromper, Seu Arigó,
mas o padre Anselmo tá muito mal e pediu pra ver o senhor.
José,
eu queria pedir uma coisa para você.
Padre, se eu pudesse… Mas não sou eu que decido.
Eu sei que eu não posso ser curado.
Mas eu não queria morrer sem antes dizer…
que apesar de eu não concordar com o que você faz,
eu sempre achei você…
um homem bom.
[Anselmo] Eu quero que fique com essa tábua.
Ela foi feita pra você.
Mas eu não sou santo.
E quem é?
[Anselmo] Será, meu filho, será?
Será que a vida é isto, José?
Realizar as missões que Deus nos dá?
Muito obrigado, meu filho.
Muito obrigado por ter feito parte do meu caminho, ouviu?
[Anselmo] A vida,
por mais que tenha sido dura, por mais…
que tenha sido difícil…
dói muito ter que ir embora, ouviu?
A vida terrena é muito importante…
mas a vida eterna…
é mais.
[mulher] Os médicos disseram que ela tá com leucemia
e que não tem muito tempo de vida.
Obrigada.
Obrigada.
Filha!
Arigó. Ô, Arigó.
Onde você vai?
Lafaiete.
Tenho que assinar outro empréstimo.
Não. Deixa que eu dirijo.
Vai dar tudo certo.
Vai comer. Daqui a pouco volto, é pertinho.
[Totonho] Tá indo pra Lafaiete? Me dá uma carona?
Não, você fica aqui, Totonho.
[Totonho] Pode falar que não, mas eu vou.
Onde é que meu pai foi?
Lafaiete. Cismou de dirigir.
Teimoso esse teu pai, viu? O médico proibiu.
Gerson, me dá uma carona aí, por favor. Preciso alcançar meu pai.
Claro, Sidney. Entra aí.
Tostão vai pra seleção de novo. Piazza também.
E os cariocas ainda teimam em falar que não tem jogador bom nas Gerais.
Você viu, né? Só tem jogador do Cruzeiro.
[Zé] Quando vai ser?
Como vai ser?
Você torce pro Cruzeiro, né, Zé?
Zé?
Hein, Zé? É Cruzeiro, não é, que cê torce?
Não vai me dizer que é Galo, por favor!
Perto da praça tem uma pensão com uma comida muito boa.
A gente podia almoçar lá.
A dona faz uma galinha que é de lamber os beiços.
Você gosta de galinha caipira, não gosta?
Tá tudo bem, Zé?
Zé, que que cê tem?
Que que cê tem, Zé?
Acelera, Gerson.
Para o carro, pelo amor de Deus!
Para o carro, Zé! Para o carro, Zé!
Para o carro, Zé! Pelo amor de Deus!
[Zé] Reza, Totonho.
…bendita sois vós entre as mulheres,
bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte, amém!
Pai!
Pai!
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