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BASEADO EM UMA HIST�RIA VER�DICA
Querido Sr. Presidente,
estou em minha mesa, sentada no escuro e assustada.
Mesmo que eu pudesse acender uma vela,
teria pouca luz ao meu redor
e todo o resto permaneceria rodeado pela escurid�o.
Isso mostra o qu�o poderosa � essa escurid�o.
ESCURID�O
Papai, o que est� acontecendo?
N�o saia.
Milutin, o que houve?
- Mam�e, o que aconteceu? - Fique a�!
Papai!
Papai!
Pegue a chave!
Espere um pouco.
Um segundo.
Oi, Vukica.
- Milica, o que aconteceu? - L� em cima.
- Encontre o Milutin. - Milica, aonde est� indo?
Espere aqui.
Mande-os aqui, agora! Eu quero que eles vejam isso!
Mexam-se!
- Milutin... - Venha comigo.
Quero lhe mostrar uma coisa.
Veja isso.
Voc� vai esperar at� que eles nos matem tamb�m? Ele est� morto?
- Acalme-se. - N�o pe�a para eu me acalmar!
N�o olhe isso.
Veja aquilo!
Ali! Se voc� n�o est� vendo, eu posso lhe mostrar!
Venha aqui!
Agora!
Olhe isso.
Bem aqui. Viu isso?
- N�o. - Olhe melhor!
Este ch�o foi pisoteado.
Esta � a pegada de uma bota.
Entendeu? Est� vendo? � a pegada de uma bota.
- N�o dormimos a noite toda. - Eu vou fotografar isso
e escrever um relat�rio para a base, est� bem?
Um relat�rio? Voc� est� me ouvindo?
Est� piorando a cada noite!
Eu quero falar com o seu comandante!
- Milutin, primeiro o relat�rio. - Para qu�?
E quanto ao meu filho desaparecido? E o meu genro?
Quantos relat�rios voc� j� escreveu?
Quando iremos sair daqui?
Quando o seu pai voltar, querida.
Voc� s� se importa com os relat�rios!
O que farei com a minha vaca, agora que ela perdeu o seu filhote?
Este animal alimenta a minha fam�lia!
Ela vai parar de dar leite. Voc� est� me ouvindo?
Milutin, eu te dou uma nova vaca com os meus superiores.
N�o precisa. Esses caras tamb�m a matar�o.
Voc�s n�o se importam se vivemos ou morremos aqui.
- Obrigado. - Voc�s s� se importam com relat�rios!
Por que voc� n�o nos telefonou?
O celular n�o est� funcionando. Estamos sem bateria e eletricidade.
- Tchau, Luca. - Tchau, senhorita.
Ficamos sem luz ontem � noite.
Posso carregar o seu celular no acampamento.
Eu vou busc�-lo.
Quero que voc� organize uma vig�lia noturna aqui!
Assim voc�s ir�o viver como n�s, nas trevas.
N�o vou deixar este lugar at� que voc�s encontrem o meu filho e o marido dela!
Entendeu?
Entre.
Traga um pouco de arame para a cerca.
- Obrigada. - De nada.
Mauricio.
- Por que voc� n�o pegou a Andjelija? - Disseram na base que n�o precisava.
- N�o precisava o qu�? - Peg�-la.
Fiquem a�.
Luca!
Que tal um pouco de m�sica?
Como est�?
Cad� a Andjelija?
Eles n�o a pegaram.
Nosso porco desapareceu na noite passada.
Me d� o seu apito.
- Bom dia, Zivan. - Bom dia.
Bom dia, crian�as.
- Bom dia. - Bom dia a todos.
- Bom dia, Zivan. - Bom dia.
- Bom dia, crian�as. - Bom dia.
Bom dia, querida.
Zivan preparou algumas velas para voc�s levarem para casa.
Coloque-as em suas mochilas.
Crian�as, hoje iremos fazer uma tarefa muito especial.
Ela � muito importante, por isso temos que fazer o nosso melhor.
Iremos escrever um ensaio intitulado "Minha vida em Kosovo".
Voc�s escrever�o para o presidente do nosso pa�s,
ent�o, prestem aten��o � ortografia.
O melhor ensaio ser� lido nas Na��es Unidas.
N�o queremos passar vergonha.
N�o se esque�am de colocar a data.
Quero que voc�s escrevam sobre os seus sentimentos,
a forma como vivem e o que desejam para o futuro.
Milica, voc� tem muito a dizer
sobre os motivos que a fizeram mudar de aldeia.
Acredito que isso precisa ser de conhecimento p�blico.
� nossa chance de apresentarmos o nosso lado da hist�ria ao mundo.
N�o temos muitas oportunidades
de falarmos sobre as nossas vidas por aqui.
Ontem a Andjelija e a sua fam�lia sa�ram daqui.
Muitas outras pessoas j� deixaram este lugar antes.
Talvez isso ajude que ningu�m mais v� embora
e aqueles que partiram voltem algum dia.
Eu tenho onze anos
e moro no Kosovo.
A casa onde moro n�o � aquela em que nasci.
Nossa casa ficava em outra aldeia e era feita de tijolos.
T�nhamos �gua encanada e um banheiro.
Aquela casa foi incendiada, ent�o minha m�e, meu pai e eu
nos mudamos para c�, com o meu av�.
Desde a P�scoa, a eletricidade � cortada todos os dias.
N�o podemos nem recarregar a bateria do celular
e mal dormimos � noite.
As pessoas aqui vivem com muito medo.
As autoridades respons�veis por n�s
dizem que n�o precisamos nos preocupar, porque elas est�o nos protegendo.
Nos deram apitos, para soprarmos em caso de emerg�ncia.
Meu melhor amigo, Milos, modificou os nossos apitos.
Agora eles soam como um melro-preto.
Existem muitas aves desta esp�cie na floresta.
Dessa forma, podemos nos comunicar enquanto os outros pensam
que os p�ssaros est�o cantando.
Mas para que servem esses apitos?
Assobios n�o podem nos proteger do medo.
Ningu�m pode.
H� apenas seis crian�as nesta escola,
depois do que aconteceu em mar�o deste ano.
Todas as outras partiram.
Os outros soldados poder�o assumir a partir daqui.
Meu tempo como comandante deste lugar acabou.
Senhor, tenha piedade e salve os nossos filhos que ainda est�o aqui conosco:
Milica, Natalija, Ruzica, Radovan, Smiljana e Milos.
E todos os nossos pais ainda vivos:
Marta, Jelica, Vukica, Milutin,
Lazar, Ilija e Igor.
Assim como os mortos e os desaparecidos,
e d� descanso, Senhor, � alma dos Teus servos.
Perdoe todas as transgress�es e conceda-lhes o Reino do C�u.
Meus pais decidiram ir embora.
Minha m�e n�o aguenta mais.
Nem a minha, mas n�s temos que esperar pelo papai.
- Para onde voc�s v�o? - Para algum lugar na S�rvia.
N�s dois n�o temos para onde ir.
Nossa casa � a pr�xima, depois da fam�lia de Smiljana.
Natalija, sua casa � a mais pr�xima da igreja.
Milos, diga � eles.
Minha m�e e eu vamos ficar.
Se todos n�s ficarmos, eles ter�o que fazer algo por n�s.
Temos que permanecer unidos.
Ol�.
Que diabos est� fazendo aqui, Blagoje?
N�o seja t�o �spero, Milutin. Eu vim te ajudar.
Como voc� pode nos ajudar?
Soube o que aconteceu. Tenho arame farpado pra sua cerca.
Deixe-nos entrar e eu lhe explicarei tudo.
Milutin, voc� precisa ficar aqui!
Obrigado.
Voc� acha que 5 metros de arame farpado far�o as pessoas ficarem?
Precisamos de voc�s aqui! Voc�s n�o podem ir embora!
Ol�.
Por que voc� n�o vem morar aqui?
Vamos ficar todos juntos, vai dar tudo certo, me escute!
Aqui.
- Pronto. Ele est� carregado. - Obrigada.
Entrem, por favor.
Com licen�a.
- Que tal um caf�, Vukica? - Claro. Sentem-se.
Milutin, ainda estamos procurando pelo seu pessoal.
N�o se preocupe, o seu caso ser� resolvido.
A For�a Militar do Kosovo n�o pode fazer nada.
Deve-se passar um ano do dia do desaparecimento
para que sejam declarados mortos.
- Esse dia chegar� em breve. - J�?
Ou�a...
Isto � do munic�pio.
Eles est�o dando para cada um de n�s.
E isso � meu, para a menina.
Espere.
Precisa de mais alguma coisa?
Eles mataram o meu bezerro, cara!
Ent�o, vamos comprar uma vaca para voc�!
- Quem vai comprar? Voc�? - O governo.
Voc� n�o v� que a gente nem consegue ir ao banheiro?
Eles ir�o matar todos n�s!
N�o funciona assim. Os italianos est�o aqui para nos proteger.
N�o fale bobagem.
A casa da minha filha foi incendiada.
Quem est� nos protegendo?
Est� excelente.
Obrigado.
Vukica.
Pilhas para o r�dio.
Obrigada.
Voc� far� isso?
Que horas s�o?
S�o 06h09.
Seis horas e nove minutos.
DICION�RIO S�RVIO - ITALIANO
Voc�, finalmente, ir� contar para ela?
- Eu n�o posso. Diga voc�. - Eu?
Ela espera ouvir isso de voc� e n�o de mim.
Obrigado.
Muito obrigado.
Est� quente!
Excelente caf�! Foi o que eu te trouxe?
Est� realmente bom.
Hoje tem eletricidade?
O que foi isso, Milutin?
Isso te assustou, n�o foi? Voc� encontrou algu�m?
Vivemos assim o tempo todo.
Eles jogam pedras em n�s, mesmo quando voc�s est�o aqui!
Por causa dessa pedra, voc�s ir�o passar a noite aqui.
Se eles est�o aqui para nos protegerem, como voc� diz,
- diga para ficarem aqui esta noite. - Eu n�o falo italiano.
Milutin, o p�ssaro trouxe a pedra.
O que um p�ssaro faria com uma pedra t�o grande como essa?
Est� bem. Fa�a um relat�rio.
Um para voc�
e um para mim.
Viu o relat�rio? Vai ficar tudo bem.
N�o precisa se preocupar. Est� tudo sob controle.
Diga a ela agora ou voc� n�o ter� outra chance.
- Aonde voc� est� indo? - Est� quase escurecendo.
Ent�o, voc� foge quando escurece?
Milutin...
O qu�? O que voc� quer nos dizer?
Tchau.
Espere, pare! Voc� est� me ouvindo?
Aonde voc� est� indo? O que devo fazer com este relat�rio?
Voc�s aparecem aqui, fazem uma bagun�a e v�o embora quando d� vontade!
E n�s?
Para onde podemos ir? O que fa�o com as minhas meninas?
N�o temos para onde correr.
Blagoje, voc� est� me ouvindo?
Falarei com o meu comandante para enviar algu�m para c�.
Tudo ficar� bem.
Diga a ele que n�o pode mais contar conosco. Precisamos ser justos.
- Podemos te dar uma carona para a igreja. - O qu�?
Em caso de outro apag�o, ligue para o acampamento.
Agora que o seu celular est� funcionando.
N�s n�o voltaremos mais.
O qu�?
Cuide-se, meu amigo.
Nos vemos amanh�?
Eles n�o pegaram a Andjelija esta manh�.
Ela e a fam�lia foram embora.
A Smiljana ir� embora tamb�m. Todos est�o partindo.
At� a m�e do Milos.
E quanto ao Milos?
Ele me prometeu que ficaria.
Est� vendo?
Se o Milos tiver que ir, n�s iremos embora tamb�m?
Ele te prometeu que n�o iria.
Mas e se ele for embora?
N�s n�o temos para onde ir.
N�o podemos decidir sobre isso.
Vamos. R�pido.
Papai.
Vamos, papai.
Empurre.
Vov�?
Vov�?
Quanto tempo mais teremos que esperar aqui pelo papai e o titio?
Aqui vamos n�s.
Bogo.
Cuidado com o Bogo.
L�...
Mam�e, venha aqui!
Gostaria de ouvir outro toque?
O que foi?
S�o os italianos?
N�o s�o os italianos.
- Mam�e! - Fique a�!
- Ajude-me com isso. - N�o saia.
Empurre!
Vamos!
O que esse cara quer?
Parece que ele quer que a gente saia.
Porra!
Estamos aqui pela garota, senhor.
Milika.
Onde est�o os italianos?
Viemos aqui pela garotinha.
Iremos lev�-la para a escola.
Eles vieram atr�s de mim.
Onde est�o o Mauricio e o Luca?
Eu sou o Jim.
Brandon.
N�s iremos cuidar de voc�s.
- O que disseram? - Que eles ir�o fazer a nossa escolta.
Onde est�o os italianos?
Os italianos?
Foram embora.
N�o h� mais italianos.
O que voc� quer dizer com isso?
E o relat�rio sobre as pessoas desaparecidas?
Quem ir� fazer isso?
Jesus, eu n�o entendo uma palavra.
- Traduza! - Eu n�o sei como, vov�.
Voc�s n�o v�o a lugar nenhum at� resolvermos isso!
Chega de me fazerem de idiota!
Eles continuam me enrolando e n�o encontrar�o resultados reais!
Fiquem a� e me observem.
N�o v�o conseguir entrar desta forma. Fechei a porta com t�buas! Esperem aqui.
A �nica maneira de chegar no celeiro � pela casa.
Jesus Cristo, o que esse cara est� fazendo?
Eu n�o fa�o ideia.
Eles mataram o meu bezerro. Vou defender este lugar com minha vida!
- Entendo que esteja chateado. - Meu filho e genro sumiram!
Mas agora temos que levar a menina para a escola.
Eles os enviaram para come�arem uma nova investiga��o!
Eu sei! � por isso que eles os enviaram!
- Cuidado onde pisa. - Eles os mandaram para encobrirem tudo!
Assim, ningu�m jamais saber� o destino deles!
Prefiro morrer do que deix�-los fazer isso!
Fui claro?
Voc� me ouviram?
Continuem a nos assediar, seus bastardos!
Papai, as galinhas sumiram!
As galinhas sumiram!
Ent�o, � por isso que voc�s vieram? Para nos fazer sair daqui!
Isso � tudo culpa de voc�s.
Voc�s s�o os culpados disso!
S�o os respons�veis por isso, seus malditos!
- Voc�s nos bombardearam! - Venham aqui!
V�o nos deixar morrer aqui, como animais!
Sim, bem aqui.
- Vejam isso... - Est� bem, senhora.
Por favor, n�s vamos olhar. S� preciso que voc� se afaste, est� bem?
Essas pessoas s�o loucas. Vamos dar uma olhada e dar o fora daqui.
Parece que animais selvagens mataram as galinhas.
Parece que eles passaram por aqui.
Voc� acha que foram lobos?
Existem lobos por aqui?
Provavelmente.
Faremos um registro disso e te enviaremos o relat�rio completo.
A bateria est� descarregada.
N�o. Sinto muito, mas isso � contra as regras.
Desculpe, mas isso � contra o procedimento. N�o � nada pessoal.
Tome cuidado. Existem animais l� fora e eles s�o perigosos.
Certo.
Voc� est� com o seu apito?
O seu apito?
Voc� apita se o telefone n�o funcionar ou se algo acontecer.
Est� bem? Voc� me entendeu?
Certo. Vamos l�.
N�o fique a� sentado.
O que n�s vamos fazer agora?
Eles est�o brincando com a gente. Todos eles.
Isso aqui?
Vamos ter que comer isso?
Eu n�o posso continuar assim, papai.
Eu n�o ficarei aqui, nem a minha filha e nem voc�.
N�s vamos embora!
N�o olhe para l�.
Olhe a sua volta. Veja como estamos vivendo!
Voc� est� me ouvindo?
Papai!
Escute-me, por favor.
Apenas me escute.
Parem aqui!
- N�o vamos parar aqui. - Precisamos pegar o Milos!
Eu preciso que se sente, Milika. N�o podemos parar agora.
- Milos! - Milika!
- Milika! - Milos!
- Milika, vamos embora! - Milos!
Milos, saia!
Milos, n�s estamos atrasados para a escola!
Milos!
Milika, n�o h� ningu�m a�.
Eles se foram, querida. A casa est� vazia.
Eles se foram. N�o h� ningu�m l�.
Vamos voltar para o ve�culo.
Vamos pegar as outras crian�as. Est� bem, querida?
Natalija, Smiljana e Milos tiveram que partir ontem.
Suas fam�lias eram contra a substitui��o dos italianos.
Enquanto houver um de voc�s aqui, esta escola continuar� aberta.
Tenham isso em mente.
Voc�s tem para onde ir?
N�o, n�s n�o temos.
O vov� mandou perguntar se a gente poderia ficar aqui, na igreja.
Podemos ajudar no que voc� precisar.
N�s precisamos de ajuda.
E voc�, Milica?
Sua m�e ligou.
Eu e ela quer�amos ir embora,
mas estamos esperando o meu pai e o meu tio voltarem.
Mam�e, e quanto ao papai?
Ele ir� nos encontrar.
E a nossa vaca? Voc� disse que n�o podemos deix�-la.
Os soldados cuidar�o dela.
� melhor do que ela ficar no celeiro.
E o Bogo?
O Bogo ir� conosco.
Querida, isso � muito importante.
Preciso que me ajude a convencer o vov� de que devemos partir.
Voc� precisa falar com ele.
Voc� s� quer ir agora porque o Mauricio se foi.
Nunca mais diga isso.
Papai.
Pare com isso!
Milutin!
Obrigada por ter vindo.
- Ele n�o quer ir embora? - N�o.
Sente-se aqui.
Estou te ouvindo, Milan.
N�o posso mais segurar voc�s aqui.
N�o � voc� quem est� nos segurando.
Os americanos est�o no comando e isso n�o � algo tempor�rio.
A maioria do nosso povo j� partiu. Restam apenas voc�, o Jelica
e os seus netos.
Eles ficar�o comigo, na igreja.
A Milica me disse que podem ficar em outro lugar.
As crian�as dizem todo o tipo de coisa.
Nunca tivemos uma segunda casa.
Milutin, estou aqui para te ajudar.
Escute-o, papai, por favor.
Voc� est� aqui h� mais de um ano
e como me ajudou at� agora?
Voc� conseguiu
alguma informa��o sobre o meu filho e o marido dela?
Voc� sabe que ningu�m te dar� essa informa��o.
Eu n�o sei, Milan!
Eu queria trabalhar na terra,
mas o Jovan n�o deixou.
- Disse que ele e o Stevan iriam... - N�o comece com isso, por favor.
N�o comece com isso agora.
Eu n�o deixarei este lugar at� que eles voltem para casa.
Voc�s entenderam?
Milutin, o sacrif�cio se faz pelos vivos.
N�s estamos vivos, papai.
Est� vendo isso?
Desde que perdeu o filhote, isso � tudo o que ganhamos da nossa vaca.
Eles mataram todos os meus animais, contaminaram o jardim com veneno...
� exatamente por isso que temos que ir embora!
N�o podemos viver assim!
Milutin, n�o h� mais vida para n�s aqui.
Sinto muito se eu n�o te dei outra escolha.
Eu s� quero o melhor para voc�s.
Sinto muito.
Papai, por favor, recupere o bom senso.
Espere.
Deixe-me limpar isso.
Fomos abandonados, Milan.
Todos n�s.
Arrume as suas coisas e v� embora.
Vamos.
V�, eles est�o te esperando.
- Est� quase escurecendo. - Milutin...
Os soldados s� voltar�o na segunda-feira.
- Vamos, papai. - Podem vir comigo para a igreja.
Vamos.
Voc� pode ir quando e onde quiser.
Pergunte a sua neta o que ela quer.
Basta olhar para ela e perguntar.
Pela primeira vez, pergunte a ela.
Milica, venha aqui.
Diga ao seu av� o que voc� quer.
Eu quero ir embora daqui.
Milutin, n�o temos muito tempo.
Vejo voc�s na segunda-feira.
Milica, vamos embora.
Vamos.
V� na frente.
Vamos.
Vamos l�.
Milica!
Venha, vamos embora!
Ent�o, eu vou sozinha!
Voc� me ouviu?
Eu estou indo!
Milica, eu estou indo! Estou indo embora!
Eu estou indo!
Era isso o que voc� queria?
Nos manter aqui?
Voc� � realmente ego�sta, sabia?
Voc� j� tinha partido. Por que voltou?
Voc� quer nos matar?
Ou�a, eu nasci aqui e vou morrer aqui.
Mas eu n�o, nem a Milica. Esta n�o � a nossa casa!
- O qu�? Quer ir para a sua casa? - Encare o fato de que eles morreram!
O Jovan e o Stevan n�o est�o vivos!
Eles nunca mais voltar�o!
Desligue esse celular!
N�o desperdice a bateria.
Acendi a �ltima vela.
Eu me sinto como esta pequena chama,
tremulando com a mais leve brisa
e que pode se apagar a qualquer momento.
Mam�e vai ficar brava comigo por acender a vela t�o cedo,
por desperdi�ar a luz,
mas quero terminar esta carta o mais r�pido poss�vel.
A professora nos disse que falar� sobre o Kosovo e Metohija
para as pessoas que decidem o nosso destino.
� por isso que estou escrevendo esta carta, Sr. Presidente,
porque s� me resta um desejo.
Eu s� quero ter o meu pai de volta.
Por favor, leia esta carta e me ajude a encontr�-lo.
Um dia, ele foi com o tio Stevan trabalhar na terra e n�o voltou mais.
O nome dele � Jovan.
Algumas pessoas nos contaram que o viram em uma aldeia.
Estou escrevendo esta carta para voc�,
mas, na verdade, estou escrevendo para ele.
Espero que ele ou�a isso em algum lugar, na televis�o.
Ele saber� que ainda estamos aguardando o seu retorno.
Vukica, fa�a o caf�.
Mam�e, eu preciso fazer xixi.
Fa�a aqui.
Eu n�o quero fazer aqui.
Mas voc� precisa.
N�o a force.
Ela n�o tem que fazer isso aqui.
Cobras!
Entre em casa, r�pido!
- Bogo! - F�sforos!
Bogo!
Bogo!
Volte aqui!
Vukica, a luz!
Bogo!
Segure a arma!
R�pido! Pegue a menina e entre na casa!
Tem algu�m l� fora!
Eles est�o no quintal!
Vamos, querida.
Vukica, me ajude!
Mova isso e coloque a garota embaixo da mesa!
R�pido!
Vamos, puxe!
Vamos, com mais for�a!
- Espere. - Cuidado.
Eles est�o do lado de fora. V�o para o por�o, agora!
- N�o, estou com medo. Est� escuro. - Vamos!
Milica, ou�a a sua m�e!
Pronto, querida.
Des�am l�, agora!
R�pido.
Vamos.
Papai, n�o v� l� fora.
- Vov�, n�o v�! - Pare.
Mam�e, n�o v�!
- Mam�e! - Fique a�. Eu j� volto.
Papai, n�o v� l� fora!
- Deixe-me ir. - N�o saia.
- Deixe-me ir! - Milutin.
Volte l� para baixo!
Deixe-me ir.
Papai, n�o!
Papai, n�o fa�a isso.
Por favor, n�o!
- N�o. - Deixe-me ir. Volte l� para baixo!
N�o.
N�o v� l� fora!
Por favor, n�o v� l� fora!
Afastem-se, seus desgra�ados, ou irei mat�-los.
- Papai, por favor, volte! - Fiquem longe daqui. Eu vou atirar!
- Eu vou sair agora! - N�o, por favor!
Bogo!
- Saiam do meu quintal! - Volte aqui!
Bogo, voc� est� me ouvindo?
Acorde, Bogo!
Bogo!
Papai!
Papai, por favor, n�o v�!
Papai!
Volte aqui!
N�o v� at� l�!
Eu matarei todos voc�s!
N�o suba a colina, por favor!
- Papai, n�o h� ningu�m l�! - Voc�s nunca ir�o nos afugentar!
Mam�e, o Bogo est� morto!
Volte para dentro.
Volte para dentro de casa, agora!
Tomem isso, seus bastardos!
Papai, por favor!
Papai, volte.
- Volte por n�s. - Eu n�o tenho mais nada aqui.
Vov�, n�o v�. Por favor, fique aqui!
Papai!
Voc�s me querem? Eu estou aqui!
Estou indo atr�s de voc�s!
Papai!
Mam�e!
Sou eu quem voc�s querem?
Eu estou bem aqui.
Saiam! Deixe-me ver voc�s, seus dem�nios!
Voc�s levaram o meu filho!
Levem-me, agora!
Estou chegando, seus dem�nios!
Vou estrangul�-los com as minhas pr�prias m�os!
Acham que eu tenho medo de voc�s?
Vou lhes mostrar que n�o estou assustado.
- Papai! - Vamos, mam�e!
Papai!
Vamos, mam�e. N�s temos que ir.
Aqui.
Ajude-me com isso.
Traga aquela aguardente e a derrame na ferida.
Fa�a isso!
Milica, volte aqui!
Vamos para o por�o!
Mam�e!
Mam�e, acorde! Mam�e!
Vamos.
Vamos, filha, pule!
Pule!
Espere.
Mova isso!
Empurre.
- Eu n�o consigo. - Vamos.
Empurre!
A �ltima vez que te vi,
eu era pequena e tinha medo das sombras no escuro.
Agora que cresci,
sei que se eu ficar olhando no escuro por tempo suficiente,
a sombra desaparecer�.
Vou te esperar todos os dias
at� que voc� apare�a na porta,
me pegue em seus bra�os e me d� um grande beijo, papai.
� por isso que eu n�o tenho mais medo.
Atenciosamente, Milica.
Vukica!
Vukica!
Respire!
- Vukica, respire. - Vire-a de lado.
Pegue um pouco de �gua.
- Voc� est� me ouvindo? - Vamos!
Respire!
Passe um pouco no rosto dela.
Respire!
Milica?
Ela est� respirando!
Vamos, respire!
Ela est� respirando!
DURANTE O POGROM DE MAR�O DE 2004 CONTRA A POPULA��O S�RVIA,
E APESAR DA PRESEN�A DE FOR�AS INTERNACIONAIS PARA A MANUTEN��O DA PAZ,
EXTREMISTAS ALBANESES EXPULSARAM
MAIS DE QUATRO MIL S�RVIOS DE KOSOVO E METOHIJA.
MAIS DE 800 CASAS FORAM DEMOLIDAS
E 35 IGREJAS ORTODOXAS CRIST�S FORAM INCENDIADAS.
DEZENOVE PESSOAS FORAM MORTAS.
CENTENAS DE PESSOAS AINDA EST�O DESAPARECIDAS.
A F� DELES AINDA � DESCONHECIDA.
ESCURID�O
EM MEM�RIA DE JELENA PROTIC 1919-2020
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