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[ruído abafado]

[música de suspense] ♪

♪ [música intensifica e finaliza]

[ofegante]

[ofegante]

[chilrear de pássaros]

[batidas na água]

- [chilrear de pássaros] - [batidas na água continuam]

[chilrear de pássaros]

[cricrilar de grilos]

[marulho]

[marulho continua]

[menino 1 grita] Ô, Sem Coração!

[menino 2 grita] Sem Coração!

[menino 3 grita] Sem Coração!

[grita] Sem Coração!

[menino 1] Vai lá, Cidão! Vai lá falar com ela.

Quem é ela?

[ventania]

[chilrear de pássaros]

[vozerio de crianças ao fundo]

Obrigada, minha filha.

[vozerio de crianças continua]

[Tamara arfa]

[latidos ao fundo]

[menino ofegante]

[destranque de travas]

[Tamara] Entra aí, galera.

[vozerio]

[menino] "Bora".

Caralho!

[vozerio]

[menina] Eu vou lá em cima. Senta aqui.

[vozerio]

- [menino 2] Eca! - [menino 3] É de mentira, é?

Essa casa...

[vozerio e risos]

- [menina grita] - [risadas]

[vozerio]

- Quem quer travesseiro? - [menino 1] Eu quero!

Rapaz, vai quebrar aí.

Nossa.

- [menino 1] Também quero. - [menino 2] Toma.

- Liga aí. - [Tamara] Não sei ligar.

[menino 1] Bota aí um negócio bom pra gente ver.

- [menino 2] Tem o que no frigobar? - [TV ao fundo]

- Comer depois, né? - [menino 1 ri]

Assistir filme.

- [menino 2] Eita, bicho cheiroso! - [riem]

- [música de tensão na TV] - [homem na TV] Isso.

- [grunhidos na TV] - [homem na TV] Isso.

Calma. Calma que tem para todas.

[música de tensão na TV] ♪

- [grunhidos na TV] - [homem grita na TV]

[mulher na TV] Ah, meu Deus!

[homem na TV] Socorro!

Socorro! [grita]

Ai, não!

- [ruído ao fundo] - [gritos na TV]

Vocês escutaram isso?

O quê?

[homem na TV] Uma planta que não assusta ninguém.

Não escutei nada, não.

[ruído ao fundo]

É tipo um barulho lá embaixo, como se tivesse alguém aqui.

Essa luz estava acesa?

[menina] Rapaz, eu acho que não.

[menino] Tem alguém aqui, velho!

[menina] Tenho certeza que essa luz estava desligada.

[equipamento liga]

- [Cidão] Meu Deus. - [menina] Vamos nessa, galera!

[juntos] "Bora", "bora"!

[passos apressados se afastam]

[vozerio e risos]

[Edu] Voltaram cedo, hein?

O sol tá muito quente lá fora, é?

Opa, Edu. Boa noite!

[música animada no rádio] ♪

- Boa noite, tia! - [menino] Boa noite.

Boa noite, gente.

Preparando esse bichinho aqui, tá?

Mas se quiser alguma coisa pra "beliscar", tem lá fora, viu?

- [Tamara] Tá bom, pai. A gente se vira. - [menino] Tá bom, obrigado.

[vozerio]

Tamara, minha filha, vá trocar esse biquíni, vá.

- Você tá com ele desde que acordou. - Já tá seco, mãe.

[Fátima] Vai pegar um fungo desse jeito.

- Olhe, chegou uma carta da sua tia, viu? - [Tamara] Viu.

Dá uma olhadinha lá, botei do lado do seu computador...

[Tamara] Tá bom, tá.

Acho que tem foto lá do quarto, que ela ficou de mandar pra você.

- Viu, Tamara? - [Tamara] Tá!

Adolescente...

[música animada ao fundo] ♪

[vozerio e risadas ao fundo]

[mulher] Tamara.

Deixa eu te apresentar a Su. Ela morou em Brasília também.

E aí, tudo bom? [ri]

Sua mãe falou que você vai pra lá, né?

Eu fiz UnB, fiz Arquitetura.

Ah, que "massa".

[Su] Você vai tentar lá?

Vou, mas antes tenho que fazer cursinho.

Ah, gente. Cidade chata. Chata!

- Já quer desencorajar a menina? - "Mongação"!

Não. É que ela nasceu nessa praia linda, sempre descalça,

agora vai ter que pegar carro pra fazer tudo. Nossa.

Vocês estão achando que vão ficar fortes, é?

Oxe, não tá vendo o resultado, é?

[ri] É bom malhar a perna, então,

senão vão ficar parecendo uma codorna frita.

[muxoxo] Cala a boca e me dá uma água, vai.

[Tamara] Pega essa aqui, ó, irmãozinho.

[grita e ri]

[marulho ao fundo]

[Vânia] Vamos só até a balança!

Né?

- [Vânia] Ô, Íris. - [Íris] Oi.

Sabe que quando Tamara for pra Brasília, ela vai esquecer da gente, né?

- É! - Claro que não, gente.

Ela vai fazer assim, Vânia, olha.

[debochada] "Íris, Vânia. Vocês não mudaram nada.

Continuam iguaizinhas!

Ah! Ainda tem mais! Esse é o meu marido, o George."

[Vânia ri]

[Íris] Ih!

- Olha tua amiga ali, Vânia. - Vixe! Minha, não. Só se for tua.

Deixa a menina.

Vocês nem conhecem ela.

[música suave na TV] ♪

[mulher na TV] Eu sou a prefeita Alexa, a governante dessa seita.

E você foi pego invadindo o nosso território.

[digitação]

[música sensual] ♪

[ofegante]

[disparo]

[disparo]

[Fátima] Tá tudo bem aí?

[Edu] Vou dar uma olhada.

[Tamara] Tá, tá.

[Vitinho] Acho que foi tiro.

[latidos ao longe]

[Fátima] Tá, fica...

[gagueja] Fica aqui, filha.

[repórter na TV] ...Fernando Collor à presidência.

Morre assassinado Paulo César...

[menino] Oxe, olha o que foram os tiros de ontem. Mataram o PC.

[vinheta de jornal]

[repórter na TV] Paulo César Farias, de 49 anos,

foi encontrado morto ao lado da namorada, de 28,

Suzana Marcolino.

Os corpos foram descobertos às dez da manhã

pelo segurança de PC,

na casa de praia do empresário, a 8km de Maceió.

Segundo denúncias,

PC montou e operou, entre o ano de 90 e 92,

um audacioso esquema baseado na cobrança...

Danou-se, o bicho como bandido era bom mesmo.

Olha que quarto lindo ele tinha, lascou-se.

- [mulher 1] Deus o guarde. - [mulher 2] Amém.

[vozes na TV]

[veículo se aproxima]

- [Vânia] Oxe, olha o Galego! - [menino] Mentira.

[meninos] Galego?

[menino 1 ri]

- E aí, Galego? - [Íris] Fala, delinquente!

- [menino 1] Velho, te soltaram, foi? - Dei o meu jeitinho,

aquele velho jeitinho, que vocês me conhecem.

Soltei um dinheirinho lá pra eles.

- [Íris] Foi pra lá por quê? - Tu roubou mesmo o carro, foi?

Oxe! Que isso, menina? Estão duvidando da minha honestidade?

- [menina] Não. Estamos, não! - [Tamara] Tá doido, é?

[gagueja] Eu peguei um carro, pô, emprestado.

- [Íris] Aham... - Emprestado!

Aí, do nada, saí com o carro, sossegado, de boa.

Quando eu chego no bar, quem é que está lá?

O dono do carro.

[Tamara] Mas tu é um vacilão também. Né, velho?

- [Galego] Azar da porra, velho! - [Tamara] Pelo amor de Deus.

- [Cidão] Nós sentimos tua falta. - [Galego] Ah...

- Chegue pra cá, meu pirralho. - [vozerio animado]

[Tamara] E essa blusa? "Chinfrosa" demais!

Oxe! Quer pra tu?

- Não, precisa não, pô. - [Galego] Oxe, presente.

- É sério? - Oxe, fique pra você.

Pode ficar.

[marulho]

[música de suspense] ♪

♪ [música de suspense finaliza]

[marulho]

[Tamara] Por que vocês chamam aquela menina de "Sem Coração"?

[Vitinho] É o nome dela, né, porra?

Não, é sério, pô!

[Vitinho] A gente sempre chamou ela assim,

mas o de nascença mesmo eu não sei como é que é.

É porque ela tem um problema.

Parece que, quando era mais nova, tiraram o coração dela.

Tiraram o coração? Isso é impossível.

[menino] Não é "tirar", não.

É, pô! Colocaram um aparelho no lugar e funcionou.

Agora, não vai viver muito, não.

Vocês são amigos dela, é?

Nunca vi vocês juntos.

[chilrear de pássaros]

Olá.

[Sem Coração] Oi. Me mandaram entregar aqui pra "Andreia". Ela tá aí?

[em italiano] Andrea sou eu.

- [Sem Coração] "Andreia"? - Sim, sou eu. Pode entrar.

[música italiana no rádio] ♪

[mulher ao longe] Dino!

Ei, Dino.

[em italiano] Onde estão meus cigarros, você viu?

Ei.

[Dino, em italiano] Antonella, como vou saber onde estão os seus cigarros?

Caralho! Você nunca sabe nada!

Nessa casa não se acha nada!

[Sem Coração] Aqui estão as tainhas. Chegaram agora, fresquinhas.

E agulhinha, um quilo.

[em italiano] Perfeito, maravilhoso.

Vou pegar o dinheiro. Vou pegar o "dinero."

[homem, em italiano] Bom dia!

Sim, estou bem. Sim, sim.

E você, como está?

Tudo bem, tudo bem.

Não, amanhã. Amanhã te ligo de novo.

Ok.

Vamos nos encontrar sexta-feira.

[em italiano] Aqui está o dinheiro.

[Sem Coração] Não tem trocado, não? São 15.

Quinze?

Yes, 15. Você tem 20?

Alguém tem 15 ou 20?

Silvio! Tem 15 ou 20?

Tem 15 ou 20?

O que 15 ou 20?

- [música de forró no rádio] - [Tamara ri]

- [menino] Vai, passa para o Cidão aí! - Ei! Para o Cidão, não, gente.

[Galego] Ô, Vitinho, todo mundo da sua família é assim, bicho?

"Assim" como, teu tabacudo?

[Galego] Assim, meio aloprado.

- Meio fraco da feição também. - [Tamara] Tá me incluindo nisso aí, é?

[Galego] Não. Dos trouxas, você é a menos trouxinha.

- Tá doido, é? - [Galego] Oxe!

Olha, galera, a Tamara botando a gente em perigo.

- Manda pra cá essa "pingazinha". - [Íris] Toma, Galego.

[Vitinho] Oxe, e o motorista bebe também, é?

[Galego] Oxe, bebe mais que o carro!

[riem]

[gritos animados]

[vozerio]

[gritos animados]

[Vitinho] Velho, velho!

Vânia, me segura! Eu tô falando sério.

Puta que pariu.

[marulho]

[menino] Ô, Galego.

Conta aí como foi na Febem.

Mexeram contigo lá, não?

[Galego] Ah, velho, pra mim lá foi de boa.

Assim que cheguei, velho, fui lá pra minha cela,

sentei lá no corredor,

aí passava uns caras que eu nem conhecia.

"E aí, Galego", e eu: "E aí, velho".

[Tamara ri]

[Galego] Fui já me acostumando

com o lugar, e foram me apresentando outros caras.

Os grandões lá também têm que tomar cuidado, velho.

Se você não tem moral, se for um cara meio abestalhado,

você tá lascado, velho. Apanha todo dia, assim eles queiram.

Mas pra mim lá foi de boa, velho.

Dormia a hora que queria, falava com todo mundo.

E sua família, hein? Ficava como com isso?

[Galego] Eles ligavam pra mim, preocupados.

Perguntavam como é que eu estava.

Aí eu: "Tá tudo bem aqui, não precisa se preocupar".

Pra falar a verdade, lá é melhor que em casa.

[Vânia] Ô!

E se esses cocos caíssem na cabeça da gente, hein?

Esse coqueiro tá todo carregado.

[muxoxo] Não cai coco nenhum, não.

[Íris] Lá vai o Galego, olha.

[Vânia] Coco mata mais que tubarão!

- [Vitinho] "Bora". - [Íris] "Bora", pô.

[Vitinho] Levanta daí.

[Galego] Olha o coco!

[vozerio]

[Vitinho] Cuidado com a minha cabeça!

Cuidado aí, velho, ele tá louco!

- [Cidão] "Bora" nadar até o barco! - [Vitinho] "Bora"!

[gritos animados]

[riem]

[menina resmunga]

Espera aí, galera, olha a Sem Coração ali.

[menino] Oxe, galera.

[Vânia] Chama ela.

[Galego] Ainda acho que ela ganha do Vitinho.

Por que tu não vai tomar no cu? Oxe!

Ei.

Os meninos estão te chamando pra tu apostar uma corrida

debaixo d'água, daquele barco até o outro.

Eu estou ocupada, menino!

Tu não consegue, né?

[música de suspense] ♪

[Galego] "Bora"! Quero ver quem vem agora!

Vamos, então.

[Vânia prende respiração]

[prende respiração]

[prende respiração]

[prende respiração]

[Tamara ofegante]

[ofegante]

[canto de baleia]

[Galego, voz ecoada] Ô, Sem Coração!

[Vitinho, voz ecoada] Sem Coração!

[Cidão, voz ecoada] Sem Coração!

[música de tensão] ♪

[canto de baleia]

[crepitar de chama]

♪ [música de tensão finaliza]

[Fátima] Filha, você viu aquele livro de fotografia no deserto?

[som de negação]

[Fátima muxoxa] Hein, filha?

Não, mãe. Não vi.

[Fátima] As meninas vêm aí hoje?

[Tamara] Sei, não.

Não falei com elas ainda.

[irônica] Tá animada, hein?

[chilrear de pássaros]

Levanta essa cabeça pesada.

Nossa senhora. [suspira]

[respiração profunda]

[Fátima] Eita, que mão gelada é essa, menina?

Hum?

- Faz carinho nas minhas costas. - Faço.

[Tamara] Eu tô com medo.

[Fátima] Medo de que, filha?

[chilrear de pássaros]

Não sei.

De viver uma coisa

que eu nunca vivi.

É normal, né, meu amor?

Sentir medo em um momento assim, de uma mudança tão grande.

Mas aproveite essa oportunidade.

É normal ter medo de uma coisa que você quer muito fazer?

Filha,

você sabe que a gente vai estar sempre aqui,

te apoiando,

que você pode contar com a gente

para o que for.

Tá?

Você lembra quando seu pai teve que ir pra São Paulo?

Que ele ficou dois meses lá viajando

e a gente ficou aqui sozinha, eu, você e o Vitinho?

E aqui em Guaxuma era quase só a nossa casa.

A noite aqui era um breu!

Eu ficava morrendo de medo.

Aí, era só eu, você, Vitinho e um facão.

Ainda meio cego.

[Tamara] E se entrasse alguém aqui,

você ia se defender com um facão?

[Fátima ri]

Ainda bem que nunca aconteceu nada, né?

["Iansã", de Maria Bethânia, toca] ♪

[Fátima] Tua avó

que ficava dizendo que cassaco entrava em casa

pra pegar menino pequeno.

Eu, hein? Nunca esqueci.

[Tamara] Vovó adorava contar essas histórias.

[Fátima] É, se deixasse ela ficava a noite inteira falando.

[suspira]

[na vitrola] ♪ Rainha dos raios... ♪

Às vezes, quando estava só a gente aqui sozinha,

eu ficava com medo, sabe, aí eu botava esse disco.

♪ ...Senhora das chuvas de junho ♪

♪ Senhora de tudo... ♪

Tu adorava.

Ficava balançando os bracinhos, assim. [ri]

Aí, um dia tu caiu da rede de queixo no chão.

Nossa, foi sangue pra tudo quanto foi lado.

Fiquei doidinha, não sabia o que fazer.

Tu chorando para um lado, eu chorando para o outro.

Vitinho não entendendo nada do que estava acontecendo.

Ele ficava alisando, assim, pra ver se passava. [ri]

♪ ...Um céu partido ao meio No meio da tarde ♪

♪ Eu sou um céu Para as tuas tempestades ♪

♪ Deusa pagã dos relâmpagos ♪

♪ Das chuvas de todo ano ♪

♪ Dentro de mim ♪

[canta] ♪ Rainha dos raios Rainha dos raios ♪

♪ Rainha dos raios ♪

[juntas] ♪ Tempo bom, tempo ruim ♪

♪ Rainha dos raios Rainha dos raios ♪

♪ Rainha dos raios ♪

♪ Tempo bom, tempo ruim ♪

♪ Rainha dos raios Rainha dos raios ♪

♪ Rainha dos raios ♪

♪ Tempo bom, tempo ruim ♪

♪ Rainha dos raios... ♪

Te amo, mãe.

Ô, meu amor.

♪ ...Rainha dos raios ♪

♪ Tempo bom, tempo ruim... ♪

[chilrear de pássaros]

[vozerio de crianças ao fundo]

[crianças cantam]

[vozerio de crianças]

[canto de galo ao longe]

Tá acabando as coisas da cesta, né?

Tem tomate e cebola aí no saco.

Onde foi que tu pegou isso, menina?

Atrás de umas caixas, em cima do armário.

O senhor tinha dito que ia me ensinar a fazer jereré.

[homem] Isso aqui dá certinho pra tu.

[Sem Coração] O senhor não vai comer?

Eu já comi.

E a pesca?

A pesca foi ruim hoje.

Fui largar um lance no canal de sete braças,

na hora de largar o lance, passou uma lancha por dentro,

e espantou todo o cardume.

[chilrear de pássaros ao longe]

[homem] Mas amanhã vai estar melhor.

[passos se aproximam]

[canto de galo ao longe]

[estalo de dedos]

[Sem Coração] "Painho", deixa eu esperar com o senhor?

Vai, pai, me leva pra pescar à espera.

Você tem que fazer outra coisa, menina.

A vida da pesca não é certa, não.

Eu gosto.

[homem] Você tem que ter um futuro melhor que o meu.

Pesca não é futuro, não.

Por quê?

A Quinha, lá da balança, perguntou se eu queria ajeitar o cabelo.

- [homem] E tu falou o quê? - Ah...

[cadeira arrasta]

Essa aqui tu não tinha visto ainda, não foi?

Menino, pai!

[homem] Tua mãe mais nova.

Que linda ela!

[homem] Usava o cabelo assim "toda vida".

Igual ao meu.

Igualzinho.

E esse cavalo, era de quem?

[homem] Parece que era do vizinho lá, chamado Léo.

[chilrear de pássaros]

[ri]

A sacola pequena é do seu Jacir, viu?

Lá na praça, em frente a lotérica.

Você entregue a Olivia.

Esse é de dona Lio.

Tá.

[marulho]

[chilrear de pássaros]

[cricrilar de grilos]

- [marulho] - [cricrilar de grilos]

- Calma, mexe a cintura assim, ó. - [Galego] Uhum.

[ofegante]

[chilrear de pássaros]

[Galego] Vai lá, Issac. Vai lá agora.

[impacto de pulo no chão]

Não, o Isaac, não.

Vem o Wandeck.

[marulho]

[impacto na água]

[música de forró] ♪

[vozerio]

Olha, "painho", aquela mulher ali não para de olhar para o senhor.

[homem] Isso é coisa da sua cabeça, menina.

É sério!

- Boa noite! - [homem] Boa noite, moça.

Tem cerveja?

- [homem] Gelada só temos Kaiser. - Pode ser.

[mulher] Só tenho três reais, você faz?

Infelizmente, não posso...

O que é isso, "painho"? Pode. Ele pode, sim.

[mulher] Aí, amor.

- Tá pago, viu? Obrigada! - [mulher] Obrigada.

[mulheres riem]

Larga de ser besta.

[Sem Coração] Vixe...

[homem] Cadê tuas amigas?

Vá se divertir com suas amigas, vá.

Pai, eu tô cheia de serviço aqui agora.

Não, pode deixar que eu faço. Pouca coisa, eu faço.

[música de forró] ♪

[Galego] Ô, Vitinho.

Olha tua namorada.

Ô, vai te foder, rapaz.

Oi.

[Sem Coração] Oi.

Eu sou irmã do Vitor.

Infelizmente.

[música suave] ♪

A gente tá combinando de ir acampar lá no hotel abandonado esses dias.

Sabe qual é?

[Sem Coração] Sei.

Você quer ir com a gente?

Não vai dar, não.

[Tamara] Mas eu nem disse quando era.

- E quando é? - [Tamara] Quinta.

Não vai dar, não.

[marulho ao fundo]

[marulho continua]

[homem grita] Seu veado do caralho! Sai, porra!

[vozerio]

[homem exaltado] Sai, caralho!

[menino] Sai daqui!

[vozerio exaltado]

[marulho ao fundo]

♪ [música suave finaliza]

[vozerio e risadas]

[menina] Eu vou ganhar.

Loiro do caralho! Quando vi, Tamara estava agarrada no pescoço do cara.

[Tamara] Oxe, Binho também.

[Binho] Eu dei foi na cara daquele babaca do caralho.

Um monte de gente se pegando lá na festa,

se beijando, se agarrando.

Aí, eu cheguei isso aqui perto do cara,

toquei nele um pouco assim.

[Vânia] Esses bichos vivem fazendo merda.

Já, já vão prender esses

- bostas do caralho. - [Íris] É.

Você acha, Vânia?

Prende nada.

E se prender, vai aparecer mais.

É sempre assim.

Sempre vai ser.

O certo é você andar com uma faca.

- Com uma faquinha. - [Vitinho] Faca, velho?

Se quiser, arrumo até uma pra tu de presente, quer?

Não gosto disso, não.

Andar com faca na rua, na mão?

Dá nada.

E se eu usar?

Quem é que vai acreditar em mim, que merecia?

Não dá certo isso, não.

Eu acho que entre usar faca, sei lá, arma

e ficar em casa, eu prefiro ficar em casa.

[Vitinho] E você vai fazer o quê? Vai viver com medo?

Já vivo.

[Galego] Binho, não fica assim.

Fica assim, não.

A gente te ama, cara. A gente te ama!

Dê um abraço!

[todos se comovem]

[Binho ri]

[riem]

- [marulho] - [chilrear de pássaros]

[marulho]

[Galego] Eita, porra!

[vozerio]

[mulher] E o mau cheiro? Deve dar um mau cheiro enorme.

[vozerio]

[vozerio continua]

Eu sonhei com essa baleia.

Eu também.

[batimento cardíaco]

[batimento cardíaco]

[batimento cardíaco]

[ventania]

[Sem Coração ofegante]

[ofegante]

[fala inaudível]

[música de tensão] ♪

- [ofegante] - [fala inaudível]

[canto de baleia]

[ofegante]

[canto de baleia]

[ofegante]

♪ [música de tensão finaliza]

[marulho]

[música de suspense] ♪

[Sem Coração] Mãe?

♪ [música de suspense finaliza]

[cricrilar de grilos]

[Fátima] Essa melancia tá docinha demais.

Quer não, Tamara?

[Tamara] Ai, eu quero uma.

- [Fátima] Pega uma frutinha. - [Vitinho] Não, tô só no cuscuz.

[Fátima] Se deixar, vou acabar com essa melancia.

[Edu ri]

[Edu] Rapaz, tu conseguiu mesmo salvar a muda da craibeira, foi?

A bichinha estava fraquinha, mas eu limpei a folha dela.

Troquei a terra e botei estrume também,

aí a bichinha levantou.

Plantei alfavaca lá na horta.

- [Edu] Foi, é? - [Galego] Foi.

Pra espantar os insetos.

Agora tem que tomar cuidado, que ela não se dá com arruda.

Ô, Tamara!

Pega a enxada lá pra mim.

[Edu ri]

É bom!

- [Edu] É de comer? - É.

[marulho]

[Binho] "...é contratado pela diva pornô Krista Wilder

pra captar toda a sua essência de sua sensualidade."

Não tem foto do pintor aqui, só dela.

[Binho] "Se você pensava já ter visto tudo sobre sexo anal..."

- Rapaz! - "...prepare-se..."

- O povo aqui tem dinheiro. - "...pois agora é pra valer."

[Vitinho] É, tem mesmo.

[Binho] "Instale-se confortavelmente

e assista essa experiência inesquecível de dar água na boca."

- Agora, bonitos não são. - [riem]

- [Galego] Olha o sorrisinho de tarado. - [Binho ri]

[Vitinho] Nossa.

[Wandeck] "Velório erótico."

- [Vitinho] Cadê? - [Wandeck] Aí, ó.

- [Vitinho] Velório, velho. - [Wandeck] É, velório...

- [Galego] Oxe. - [Vitinho] Gostei, não.

[Galego] "Dei ouro para o bem do Brasil."

De 1964.

Rapaz, o cabra dá ouro pra ganhar um anelzinho velho de lata?

Ai dos espertos se não fossem os bestas, viu?

"Já deveríamos saber que quando os amigos de Jimmy Corben

se reunissem pra lamentar sua trágica morte,

as lembranças do falecido inspirariam um clima bastante erótico."

Velho, tesão em velório?

Absurdo.

[Vitinho] Bota essa outra aqui.

- [música sensual na TV] - [gemidos na TV]

[gemidos na TV continuam]

[ofegantes]

Gente, aqui tem banheira.

Eita, boba!

[vozerio]

[marulho]

[destranque de porta]

[partida de motor]

[aceleração]

[pressionar de botões]

[buzina]

[chilrear de pássaros]

[Galego] Ei, menino, tá doido?

[exaltado] Onde você vai com isso daqui?

Isso não é brincadeira de criança, viu?

Onde você achou isso aqui, hein?

Eu mandei você ir buscar essa porra lá?

Mandei?

- Hein? - [som de negação]

[Galego] Tire esse sorrisinho do rosto!

- [música suave] - [vozerio]

[Galego] Binho, Binho!

[vozerio]

[Galego geme]

[gritos animados]

[vozerio]

[ofegante]

♪ [música suave finaliza]

[motor de veículo ao longe]

[Galego] Oxe, olha pra isso aí.

Ô, Vitinho, "cola" aí!

[Vitinho] Tô indo.

[Vitinho] Não fica andando com esse relógio aqui, caralho!

[menino] Relaxa, velho. Pega tua grana aí.

[marulho]

[latido ao longe]

Vaninha, vou pegar um sanduíche, você quer?

[Vânia] Pode ser.

Mas sem presunto.

Pega um pra mim também?

[debochado] Irmãzinha querida.

[tilintar metálico]

Oxe.

[Vitinho] O que foi?

Os vizinhos.

Estão aqui.

[Fátima] E aí, ninguém vai falar nada?

Minha gente, invadir a casa de uma pessoa é uma coisa muito séria.

[Geraldo] Isso é coisa de bandido.

[Edu] "Bora" lá, pessoal.

Melhor ser honesto, falar. "Bora".

Hum?

Olha, estou muito decepcionada, viu?

Agora, tiveram coragem de invadir uma casa,

tem que ter coragem de assumir o erro.

Então, "bora", minha gente!

[Binho] A gente entrou mesmo.

Inclusive, queria pedir desculpa. Tá, seu Geraldo?

Não vai acontecer mais.

[Fátima] Quem aqui entrou?

Tudinho.

Entrou todo mundo, mas esse negócio de relógio, ninguém pegou.

[exaltado] Foram vocês, sim, cabra safado!

Oxe, olha o respeito, rapaz.

[Geraldo] Ô, Vitor, eu sei que você e a Tamara

são meninos educados, foram bem-criados,

não precisam disso.

Me fale, quem dos seus amigos roubou o relógio?

Porque ele é muito caro.

Eu não tô chamando o filho de vocês de ladrão, entende?

Agora, esse pessoal da "grota", que anda com eles, eu não confio.

Otário.

- [mulher] Meu bem, fala do cheiro. - [fala ininteligível]

É que a gente, às vezes, sente lá de casa

um cheiro muito forte de erva.

- Não é? - É, a gente sente um cheiro como esse,

que parece ser de erva.

[Edu] Erva, é?

[mulher] Maconha.

É mesmo?

Ei.

O senhor deixou cair, ó.

- Agora? - [Galego debocha] Não.

Claro que foi agora, né? Ia ser quando?

Pega aí.

Olha se tá tudo aí.

[mulher, repetidamente] Vem, vem! Ave Maria...

[Galego] Ei.

Vai nem me agradecer?

[portão fecha]

[Geraldo] Palhaço.

[Binho] Mas e daí, velho?

- E daí? Ele é meu número. - [riem]

Ele é meu número.

Eita porra, Tamara.

[Tamara] O que foi?

[Galego] "Bora", anda!

[veículo se aproxima]

[Galego] É meu pai, velho! É meu pai!

[Galego] Não, não, pai!

- Não, não... - Vagabundo, cabra safado!

[grita] Solta, vagabundo! Solta, vagabundo!

Solta!

Vagabundo!

Cabra safado!

[veículo se distancia]

[Tamara] Calma, Galego.

[voz embargada] Sai daqui, Tamara! Sai, Tamara!

[ofegante]

[exaltado] Ele é meu pai, Tamara!

O tempo que eu passei na Febem,

esperando por ele. Liguei pra caralho, Tamara.

Ele nunca me atendeu.

Quando me atendeu, disse que não criou filho pra ser bandido.

[Tamara] Calma.

[música melancólica] ♪

[grita] Filho da puta!

[ofegante]

Eu estava morrendo de medo, Tamara, lá dentro.

Eu estava morrendo de medo.

[chora]

Eu estava morrendo de medo, morrendo de medo.

[chilrear de pássaros]

[música de tensão] ♪

[ofegante]

[ofegante]

- [disparos] - [cliques de câmara vazia]

[ofegante]

[grita]

[ofegante]

♪ [música de tensão finaliza]

[Cidão] Tamara, "bora" voltar.

[Tamara] Não.

[ventania]

[estrondo]

[estrondo]

- [estrondo] - [Binho] Que porra é essa, velho?

[Galego grita]

- [Binho] Puta que pariu! - [ofegantes]

Quem vai?

[Galego] "Bora", Tamara!

[ventania]

[Tamara] Vou nada.

[ventania]

[Binho] Será que um dia vou sair daqui?

Me leva, Tamara.

Deve ser bom conhecer outros lugares,

gente nova.

Ser eu mesmo, sabe?

[Tamara] Acho que pode ser bom eu ir.

Mas eu tô meio assim, sabe?

[Binho] Quem vai me defender quando tu não estiver aqui?

Pular no pescoço do povo?

[Tamara ri]

Eu sei que se eu saísse daqui,

também não ia conseguir voltar.

[música suave] ♪

[Binho] Sei nem se eu ia querer voltar.

Como o senhor sabe o caminho?

Eu não vejo é nada.

[homem] Passou uma pedra bem perto de você agora.

- [Sem Coração] Agora? - [homem] Não viu?

[Sem Coração] Não.

O senhor não tem medo de vir de noite, sozinho, nesse breu?

[homem] De mal-assombro?

[marulho]

[Sem Coração] Quanto tempo ainda é pra puxar?

Daqui, mais ou menos, uma hora.

[Sem Coração] Eita!

[canto de baleia]

[homem] Uma semana antes de você nascer,

fiz uma pescaria muito boa.

Vendi todo o pescado lá na balança.

Fiz um dinheirinho bom.

A gente não tinha comprado quase nada.

Dei o dinheiro todinho pra sua mãe, pra ela comprar seu enxoval.

Ela ficou muito feliz, os olhos dela brilhavam.

Até hoje tu tem o macaquinho rosa de girafa.

Tá lá em casa, guardado.

É tanta correria no dia a dia, tanta coisa a se fazer.

Eu sei que a gente não passa muito tempo junto,

mas eu gostei muito que você veio comigo hoje.

[música de suspense] ♪

♪ [música de suspense finaliza]

[música suave] ♪

[ventania ao fundo]

[marulho]

[assobio]

[Tamara] Quem é?

Não precisa ter medo, não.

- [Tamara] Não tô com medo, não. - Pois parece.

[Tamara] Escuridão, né?

[Sem Coração] Daqui a pouco o olho acostuma.

É a pesca da tainha.

Elas são atraídas pela luz.

[Tamara] Muito lindo.

["Lamento Às Águas" toca] ♪

Quer vir comigo?

♪ É niboboiá ♪

♪ Cabirê ♪

♪ Iemanjá ♪

♪ Odé, Oxóssi ♪

♪ Ogum, Ajunssun ♪

♪ Iemanjá leru ♪

♪ Boaô, Boaô, Boaô, Boaô ♪

♪ Iemanjá leru ♪

♪ Boaô ♪

♪ Iemanjá leru ♪

♪ Boaô ♪

♪ É niboboiá ♪

♪ Cabirê ô Yabá ♪

♪ É niboboiá ♪

♪ Cabirê Iemanjá... ♪

♪ [música finaliza]

[Binho] Tchau.

[cricrilar de grilos]

[veículo se aproxima]

[homem 1] E aí, veadinho?

[homem 2] Não vai me dar bola, gracinha?

Psiu!

"Bora", babaca. Vaza!

[freio de mão]

[homem 2] Eu sei o que você gosta, hein?

[homem 1] E aí, vamos dar uma voltinha?

[exaltado] "Bora", porra!

"Bora", porra! Tá achando que eu tô brincando, caralho?

[cricrilar de grilos]

[motor do carro]

[música melancólica] ♪

[vozerio]

[mulher] Meu Deus, tão jovem...

[vozerio]

[mulher] Gente, que tragédia!

[vozerio]

[veículo ao fundo]

[Binho ofegante]

[Cidão grita]

[Tamara ofegante]

[Cidão grita]

[Tamara ofegante]

♪ [música melancólica finaliza]

[chacoalhar de planta]

[chilrear de pássaros]

[marulho]

[Sem Coração] Que coisa isso do Galego, né?

Aquela peste!

No Carnaval,

ele estava passando na rua lá de casa

"bebinho".

Falando que gostava muito de mim,

que me considerava muito.

Falava que...

ele era uma pessoa ruim.

Que, pelo que ele fazia,

ele só podia ser uma pessoa ruim.

Depois ele foi abraçar meu pai.

Ele falava que na vida dele tudo deu errado.

Mas ele tinha um bom coração, que eu sei.

[marulho]

[chilrear de pássaros]

Vai chover.

[chilrear de pássaros]

[chilrear de pássaros]

[marulho ao fundo]

[Tamara] Eita, deu nem impulso!

Vem tu!

Tu vai se mudar de vez mesmo, é?

[marulho ao fundo]

Você tem irmão?

[Sem Coração] Não tenho. Moro só com meu pai.

[Tamara] E sua mãe?

Não conheci ela, não.

Ela morreu quando eu nasci.

[passos se afastam]

[Tamara] Será que vai pegar?

["Please Don't Go" toca no rádio] ♪

Essa é "massa"!

[cantarola]

[cantarolam]

Que linda.

[Tamara] Qual é seu nome de verdade?

Duda.

O que é isso?

[Sem Coração] Eu tenho que ir agora.

♪ [música finaliza abruptamente]

- [marulho] - [ventania]

[chilrear de pássaros]

[motor de caminhão]

[chilrear de pássaros ao fundo]

[crepitar de chama]

[crepitar de chama intensifica]

[crepitar de chama continua]

[chilrear de pássaros]

[água corrente]

[música suave] ♪

♪ [música suave finaliza]

- [cricrilar de grilos] - [água corrente]

[cricrilar de grilos continua]

[água corrente]

[chilrear de pássaros]

[marulho]

[marulho continua]

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