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Original subtitles

É demasiado perigoso, não previmos nada disto.

Serão umas filmagens muito simples e muito rápidas.

Partiremos para sul esta manhã e voltaremos esta noite.

Para fazer o quê?

Para quê correr tantos riscos?

Catherine irá ao sul com Rabih Mroué,

o ator com quem fazemos todos os nossos filmes.

Vão percorrer juntos a região depois da guerra,

e nós filmaremos, muito simplesmente.

Pensei que ela vinha apenas para uma gala de beneficência.

Estaremos de volta a tempo da gala.

Ela estará lá a tempo.

Quero ver.

Não compreendo. Quer ver o quê?

Eles já começaram a reconstrução,

julgo que não vai ver nada do que imagina.

Além do mais, vai para uma zona totalmente minada,

em todas as acepções da palavra.

Há bombas armadas que não foram desativadas.

A FINUL, o Hezbollah, a fronteira com Israel.

O que a senhora quer ver?

Sra. Deneuve, a senhora é uma pessoa muito conhecida,

umas filmagens não se organizam assim.

É preciso tomar certas medidas, encontrar guarda-costas.

Não sei como iremos protegê-la.

Quero ver.

EU QUERO VER

UM FILME DE

- Onde vamos? - Aos arredores, ao sul e à fronteira.

- Vocês vêm conosco? - Sim, o tempo todo.

No carro à sua frente.

- Vão filmar o tempo todo? - Vamos.

Quase todo o tempo, a você e a Catherine.

Mas não se preocupe, vai dar tudo certo.

Ali vem ela. Vamos.

Catherine, apresento-lhe Rabih.

Bom dia.

- Seja bem-vinda. - Você vai no carro com ele.

Certo.

Vamos deixá-los a sós para poderem conversar melhor

e nós vamos no carro que está à frente.

Obrigada.

Desculpe, pode vir conosco no carro?

Não me posso afastar muito da Sra. Deneuve.

Ficaremos no carro da frente.

E o meu guarda-costas?

Ele esta lá.

Bem-vinda a Beirute.

Obrigada. Não entendi o seu nome quando nos apresentaram,

havia muito barulho.

- Rabih. - Rabih.

A letra "R" é um pouco difícil.

Rabih.

Significa "primavera",

mas não gosto do meu nome,

por isso.

Mas tudo bem.

Chegou ontem?

Ontem à noite.

Importa-se que eu fume?

- De modo nenhum. - Todos aqui fumam.

Sim, praticamente. Eu, por acaso, só fumo à noite.

Queria dizer que aqui não é proibido fumar em lugar nenhum.

O que é aquele edifício grande, cinzento?

É o Burj el Murr, é...

É o quê?

É a Torre Murr, é o nome de...

É a torre que não tem nada, feita de concreto?

Sim, é um monumento à guerra.

Diz-se que é um monumento. É um edifício...

que não foi acabado.

Durante a guerra, ocorreram muitas batalhas lá.

É uma longa história da guerra civil.

Mas vai ficar assim? Não vai ser terminado?

Agora se diz que é um símbolo.

Eu penso que é bom que ele fique como um monumento

para todos os libaneses.

A memória...

Desculpe o meu francês, não está...

Não, está muito bem.

Nós nos compreendemos.

Sinal vermelho ou verde não faz grande diferença aqui, hein?

Não.

E eu devia ter colocado o cinto. Esqueci, eu devia ter lembrado.

Aqui não é grave.

Já viu o que acontece nos cruzamentos?

Aqui não é obrigatório?

Sim, mas agora não há nada obrigatório.

Depois da guerra e tudo isso,

as coisas andam um caos.

Mas oficialmente é obrigatório colocar o cinto?

Com certeza! Evidentemente.

Mas se não colocar ninguém diz nada.

Há coisas muito mais importantes.

Mas antes da guerra,

tínhamos de colocar ou então recebíamos multa.

E quando se retomarão os bons hábitos?

Eu?

Não você pessoalmente.

Quero dizer, o povo de Beirute, daqui.

Parar no sinal vermelho, pôr o cinto...

Não é que eu seja pela ordem, mas é perigoso!

E esses edifícios? São da última guerra?

Não. São destruições da guerra anterior a essa.

Há muitos vestígios da guerra civil que permanecem na cidade.

Não são demolidos nem renovados?

Não. É assim.

Por que quer ir ao Sul do Líbano?

Porque estar tão perto e...

É difícil para mim me manter de lado. À margem.

Se eu estivesse muito mais longe...

Mas assim, uma vez que é possível fazê-lo,

tenho vontade de... ver.

- Eu também tenho vontade de ver. - Imagino que você queira rever.

Sabe, nós só vimos imagens na televisão.

E isso parece sempre um pouco irreal.

Irreal?

Sim, como Beirute foi reconstruída e tudo isso... tenho vontade de ver.

Não sei se vou entender muito, mas tenho vontade de ver.

É bom você estar no Líbano.

O quê?

É bom você ter vindo ao Líbano, a Beirute.

Não são todos que querem vir pra cá, neste momento.

Mas infelizmente, será por muito pouco tempo.

Talvez outra vez.

Há muito que eu devia ter vindo. Sim, já há muito tempo.

Aqui estamos.

Chegamos ao subúrbio.

Que há nos subúrbios?

- É o bairro que foi... - Mais destruído?

Sim, o mais arrasado durante a guerra.

Acho que as pessoas te reconhecem.

Não me parece.

É verdade...

Só nesta rua é que podemos ver os edifícios bombardeados.

- Os outros edifícios já foram... - Já foi tudo demolido?

Sim, eles destruíram tudo para reconstruir.

Sim, é isso. Agora está vazio,

só umas crateras enormes.

Todas as ruínas, as pedras e todo o entulho

foi despejado em outro lugar.

Mesmo ao lado do mar.

- Rabih! - Sim!

- Não estacione aí. - Por quê?

Não temos autorização. Razões de segurança.

Estacione onde tínhamos previsto, por favor.

Está bem.

Não entendi nada, achei que íamos parar ali.

- Não vamos? - Não sei.

- Continuamos? - Continuamos.

- Que está acontecendo? - Temos de parar de filmar.

Não podemos filmar para além desta linha.

Temos de ir mais longe, para outro prédio.

Paremos de filmar. Vamos para o Sul.

É longe?

É a mais de duas horas daqui.

Mas a estrada é linda.

Seja como for, sabe que tenho onde estar esta noite.

A minha família é do Sul, mas eu nasci em Beirute.

Cada verão eu vou ao interior, à casa da minha avó.

Há muito tempo que não vou.

Há quanto tempo?

Desde a última guerra.

Não vi ainda como está o lugar.

Mas agora vamos lá juntos.

E não teve notícias nenhumas da sua avó?

Não, ela está em nossa casa, em Beirute.

Mas saiu de casa por causa da guerra.

Mas já não é habitada? Está sem ninguém lá?

Não sei. Há muito tempo que não vou.

Mas você tem medo de ir ao Sul?

Na verdade, não tenho muita vontade de ir.

Não me quero ver...

todos os bombardeamentos e destruições.

Sinto-me como se fosse um turista no meu próprio país.

Mas com você é diferente.

Já começaram a reconstruir?

Em alguns lugares, já. Em alguns vilarejos.

Mas é muito lento.

É fácil desconstru...

- Destruir? - Sim.

Não é fácil refazer. Leva tempo.

Por que não queria voltar lá?

Para mim, é estranho.

Agora é interessante para o filme ir lá e descobrir tudo de novo.

Julgo que é por causa da imagem.

Porque toda a gente esteve lá a filmar e fotografar.

- Refere-se às televisões? - Sim, a tudo isso.

E agora, é o paradoxo, porque eu...

agora irei lá com você para ficar dentro das imagens.

É interessante.

Veremos.

Posso fumar, não o incomoda?

Não, de modo algum.

Merda, não pus o cinto!

Não importa, não é grave.

Não é grave, como?

Por agora, tudo bem...

Desde que não aconteça nada, sim, está tudo bem.

Você não colocar?

Vou, vou.

Vejo que há muita gente que não coloca.

Já coloquei. Assim é melhor.

Parece que sim.

E tudo isto?

- Os cartazes? - Sim.

São cartazes de mártires da resistência islâmica, do Hezbollah.

Esses são do movimento Amal.

- São muito novos. - Sim, muito novos...

Chegamos ao meu povoado, Bint Jbeil.

Bom dia.

Quero mostrar-lhe a casa da minha avó,

mas não podemos ir de carro, temos de ir a pé, está bem?

- Está bem. - Pode ser?

É por aqui.

Aqui havia uma rua.

Havia uma rua aqui?

Parece que a rua desapareceu.

Rabih! Rabih!

Já vou!

E então?

Não sei.

Não sei onde era a casa.

Já não sei.

Está tudo mudado.

Passei a minha infância aqui

e não reconheço nada.

Não sei como te explicar,

há tantas coisas que eu mesma gostaria de compreender, meu querido.

Coisas que me dizem respeito, que sinto por ti,

coisas que não têm a ver com o prazer, muito para além disso.

Não te peço que acredite em mim, mas nunca me senti tão perto de ti.

Reconheço isso, foi um monólogo que eu fiz em "Belle de Jour".

Assisti muitas vezes.

Mas realmente conheço através das legendas em árabe.

- Quer que eu o diga? - Sim.

É muito bonito.

É curioso como nos lembramos às vezes de partes de filmes,

e não nos lembramos dos nomes que tínhamos nesses filmes.

Não tem nada a ver com o interesse que se tem pelo filme,

ou da importância do filme. É muito curioso.

Mas dizemos "minha querida", ou "meu querido"?

Como é você a dizer o texto...

Esse texto dito por mim é o de uma mulher a dirigir-se a um homem,

e por isso eu disse "meu querido".

Então, eu tenho de dizer "minha querida".

Onde é que ele vai? Buzina, buzina!

Ele se enganou de estrada! Há minas por ali!

Parem! Há minas aí!

- O que foi? - Calma, calma.

Espere, não desça.

Devagar, desliga o motor.

- O que foi? - Há minas aqui.

- Minas, como? - Ande sobre as marcas dos pneus.

Está bem...

Desculpe.

Que aconteceu?

Parece que há minas por aqui.

Como não checamos aquela estrada, preferimos parar tudo.

- Não era a estrada certa? - Não, não.

- Você errou o caminho. - Não sabia, me desculpe.

- Pise só nas marcas dos pneus. - Tudo bem.

- Estávamos conversando e me distraí. - Tudo bem.

Há um milhão e meio de bombas espalhadas por aí.

Vamos buscar o carro.

Mas presta atenção.

Ande em cima das marcas dos pneus.

Desculpe.

Não faz mal, está tudo bem.

Tínhamos previsto entrar por ali e...

Aquela é a estrada boa.

Mas como as minas não são colocadas de forma lógica,

e que as bombas estão espalhadas por todo lado,

numa estrada como essa nunca ficamos tranquilos.

- Não havia nenhum sinal. - Não tem importância, esquece isso.

- Estou indo bem? - Sim, mais para cá.

Está bem, pare.

Isso merece um cigarro.

- Acho que vou recomeçar a fumar. - O susto foi maior que o perigo.

Desculpe.

Não, mas...

Precisa de alguma coisa?

Não, nada.

- O que está acontecendo? - Está tudo bem.

Está tudo bem, como?

Que é isso?

É uma espécie de... como dizer?

- Um... Ghara Wahrmihé. - O quê?

É um ataque imaginário, um raid ilusório, é tudo.

São aviões israelenses que sobrevoam

- a uma altitude muito baixa. - Mas jogaram algo.

É para tirarem fotografias.

É apenas a jidar essawt,

a barreira do som.

Sim, acalme-se.

É sério.

- Sente-se bem? - Não.

- Quer parar? - Eu tirei o cinto...

Não é preciso.

Tem certeza?

Agora estão longe, está tudo bem.

Você não pôs o cinto, tirou há pouco.

Está bem.

E é sempre para tirarem fotografias?

Não, às vezes é para...

- Para causar medo? - Sim, é isso.

Por que não filmamos?

Esperamos autorização.

Queremos saber se podemos seguir por aquela estradinha, ali.

É proibida, mas talvez a abram para o filme.

- Será a primeira vez. - Esperemos...

Também temos necessidade de colocar um tripé e isso é um problema.

Um tripé na fronteira parece-lhes perigoso.

É a FINUL que tem de nos autorizar?

A FINUL está à espera da concordância de Israel.

Os serviços estão em contato e temos de esperar.

Não podemos fazer nada.

Joana, vamos ver o que se passa?

Já voltamos. Descansa.

Quanto ao tripé, temos autorização, ou não?

Vamos ter as autorizações?

- Estão em contato com o outro lado? - Sim.

Pediram licença para a câmara e o tripé?

Para o tripé, sim.

- Onde? - Aqui está bem.

E para os filmar naquela estradinha deste lado, com o tripé?

Está bem.

Deste lado há problemas?

O problema é que têm de evitar filmar aquele prédio ali...

- O com a antena. - Está bem.

Então, podemos ir buscar o tripé.

Obrigada.

Já usaram os seus aparelhos, jovens?

Está bem? Obrigado.

- Está resolvido? - Sim.

Filmamos daqui a dois minutos. Vá buscar a Catherine.

- Israel deu autorização? - Sim, está resolvido.

- E podemos seguir pela estradinha? - Sim.

Vamos lá.

Ali é a fronteira?

Sim, é a fronteira.

É por aquela estradinha que nos aproximamos mais de Israel.

Neste momento, ela tem um estatuto impreciso.

Ou seja?

Normalmente é proibido passar por ali,

mas tivemos a autorização apenas para o filme,

talvez por você estar conosco.

Vai ser estranho passar por ali.

Para mim, é um sentimento estranho.

Tenha cuidado.

É uma cratera de míssil.

Que fazemos agora?

Você queria ver...

Eu também queria ver,

mas parece que não consigo.

Está vendo isso?

Eu te disse que eles transportavam as ruínas da periferia.

Eles arrasam os edifícios bombardeados e os removem.

Colocam em caminhões e despejam aqui na costa.

Extraem o ferro e trituram as pedras e as lançam ao mar.

Está vendo?

Não se reconhece nada.

Já não se distingue a sala de entrada da sala de jantar,

a cozinha, da entrada,

os quartos do banheiro.

Pedras... pedras misturadas.

É como se tivéssemos querido afastar a cidade, escondê-la.

enterrá-la no mar.

É estranho...

Me faz lembrar de uma imagem...

Uma cidade encalhada na praia,

como uma baleia,

um monstro desfeito que já não pode se mexer,

um corpo deitado ali, a decompor-se longe dos olhares.

Em breve, a cidade repousará debaixo da água,

silenciosa, muda.

E nós começaremos a esquecê-la.

Sim, sabe, você tem razão.

É claro que iremos começar de novo.

Iremos construir de novo. E iremos viver de novo.

Mas...

não me disse,

você virá de novo?

Catherine,

Catherine, me diga.

Virá de novo?

Senhora Deneuve, estou encantada em te ver.

O jantar é aqui.

Muito bem, vou procurar a mesa.

Obrigada.

A senhora está linda.

Boa noite.

Seja bem-vinda.

Boa noite.

O Senhor embaixador, o senhor Bernard Emié...

Boa noite, minha senhora, estou encantado

de lhe dar as boas-vindas a esta noite.

Boa noite, gostei muito de conhecê-la.

Espero um amigo e é por isso que...

É um momento difícil...

Estes momentos são necessários

e permitem elevar o moral dos nossos amigos libaneses.

Não sei se já tinha vindo aqui.

Não, é a primeira vez.

É um povo com uma enorme capacidade de resistência

para ultrapassar os seus problemas.

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