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Susana!
Não posso deixar a maionese,
vai passar do ponto.
Ela deve estar com fome,
vou para preparar uma mamadeira.
Não, mãe. Faz meia hora
quem tomou a última.
-Onde você vai?
-Ela deve estar nervosa.
Quer que eu dê a ela
uma colher de tília?
Não, não dê nada.
Não dê nada para ela!
Coloque a chupeta na boca
e deixe ela em paz.
Mas, Susana, eu coloco
a chupeta na boca,
mas ela cospe,
ela cospe o tempo todo.
Sabe de uma coisa,
deve ser o seu leite.
Sabe, você está muito nervosa
ultimamente.
Quando pareço nervosa?
Jorge, veja se fez cocô.
Fez cocô!
Você pode trocar as fraldas?
- Não! Eu te disse - Que não gosto de fazer isso.
-Então eu vou trocar.
-Não! Não.
Você fica aqui.
Aqui! Eu vou trocar.
Muita ciência
trocar uma fralda, afinal.
Susana, faço alguma coisa?
Quer que eu faça alguma coisa?
Não, não faça nada!
Por que não senta
para ler o jornal em paz?
Não diga nada.
Você a faz se sentir inútil.
Prefiro que fique quieta.
Isto deve ser
para fazer flanzinhos.
Sua chorona, mamãe estava
preparando a comida.
Tome, leve ao banheiro
e cuidado para não cair nada.
- Eu fui lá - E você começou a chorar.
Pode passar isso, Jorge?
Quando eu passo, queimo tudo.
Eu passo para você, Susana.
Não falei com você, mamãe Cora.
-Onde coloquei o alfinete?
-Tome cuidado.
Não se mexa, meu anjo,
não se mexa. Desapareceu.
Não estou vendo.
-Tire outro do armário.
-Do armário, do armário.
Por que me manda,
se eu não sei de nada?
Aprenda. Dentro do armário.
Dentro, dentro, mas onde?
Jorge, não me deixe
mais nervosa do que estou!
Não faça isso, não faça aquilo,
como se eu não servisse
para nada.
Na bebê nem me deixam tocar.
Isso parece uma pedra, meu Deus.
Deve faltar açúcar.
Olhe, macarrão,
está tudo misturado.
-O que é isso?
-Da sua mãe.
Como matamos ela de fome,
esconde comida
debaixo do travesseiro.
-Aqui está o alfinete.
-Bem, deixe-me te ajudar.
Ela não é inútil,
não está caducando.
Não?
Bem, meu amor, bem. Agora durma.
Até a próxima mamadeira,
está bem?
-Vamos colocá-la no carrinho?
-Para mim você pergunta?
Meus outros maridos
não estão neste momento.
Para quem quer que eu pergunte?
E como vou saber?
- Dá omelete de batata - Para a menina?
Não!
Sua mãe escondeu
o que sobrou de noite.
Por isso o quarto cheira assim.
-Cheira como?
-Você não tem nariz?
Você não sente como eu?
Cheira a podre!
-Ela dormiu?
-Está quase.
O que aconteceu?
Onde?
Com a maionese.
O quê? Aquilo era maionese?
-Onde está a maionese?
-Eu achei que...
O que você achou?
Não parecia maionese, Susana.
O que você fez
com a minha maionese?
Flanzinhos.
Ontem à noite
você falou de flanzinhos.
Você a ouviu, Jorge.
Ele ia ou não ia fazer flan?
Mamãe!
Quatro ovos, litros de óleo,
litros de leite, sal...
Pare.
Mostarda, e com certeza
toneladas de açúcar,
para jogar no lixo!
Por que você fez isso, mãe?
Não tinha cara de maionese,
Jorge.
Você não deve fazer nada
sem perguntar primeiro!
E fique quieta, não se mexa!
Não tinha cara de maionese!
Para onde você vai? Pare!
Pare! Para onde vai?
-Matilde, telefone!
-Não sabe que estou dormindo?
Atenda!
-É o meu único dia de descanso.
-Queria saber qual é o meu.
Alô. Sim.
Não, aqui não tem
nenhuma Pirula.
E, por favor,
atenda quando tocar.
Eu não vou me mexer deste sofá.
Eu nunca descanso
e não faço tanto drama.
Eu também queria
ter ficado na cama até 11h.
Mas você teve a boa ideia
- de convidar para almoçar - Seu irmão Antonio e Nora.
Era só ter dito
para eles não virem.
E te privar dos carinhos
que Nora te faz?
Que carinhos?
-Mãe!
-O que você quer?
Feche a torneira
que estou tomando banho!
A torneira está fechada.
E agora o que faço?
Estou toda ensaboada!
Mamãe!
-Cortaram a água de novo.
-E você quer que eu tome banho.
Mãe, agora o que eu faço?
Para começar, pare de gritar.
- Não, Sra. Elisa, - Não era para você.
É a Elvira.
O que acontece com a água?
Eu fiz ravióli,
quer uma tragédia maior?
Você também? Que coincidência!
Bem, faça-me um favor,
não jogue fora.
Cozinhe seu ravióli
e depois me ligue
que eu mando buscar a água.
Obrigada, você é um amor.
Eu faço cozido, ela faz cozido.
Eu faço ravióli,
ela faz ravióli. Que país!
Mamãe. Mamãe!
-Está gelada!
-Claro, estava na geladeira.
Quer que eu pegue pneumonia?
Mal-agradecida, vista-se,
- e compre - Três garrafas de água mineral.
Mas eu me deitei às 4h da manhã.
- Onde estava? - Os vizinhos te viram entrar?
- Quem trouxe ela? - Você deu permissão?
O que respondo primeiro?
Eu estava em um cabaré
com 200 marinheiros!
Não faça gracinha,
nada de gracinha comigo, ouviu?
Um dia desses dou uma porrada
- que vai lembrar - O resto da vida!
Eu não aguento mais!
- -Por quê? - -Por nada.
Me cocei a manhã toda.
Não sabe o trabalho
que dá uma casa?
- Minha mãe ficou viúva - Aos 38 anos, com quatro filhos.
-Já conheço essa.
-Trabalhava o dia todo.
Sim, cozinhava,
costurava, tecia, lavava,
e com certeza dava uma.
E nunca fazia uma reclamação!
Você contou um milhão de vezes.
Mas eu sou de carne
e ela, de ferro!
Coitada da mamãe.
Penso em tudo que ela sofreu
e na pouca felicidade que teve.
Se forem eles, me dou um tiro.
O que aconteceu?
-Acontece que tenho só 30 anos.
-Não é nada.
Trinta e três!
Trinta e dois! E não me resigno
de morar em uma casa
na qual sou só uma empregada.
Já começou de novo
com essa ladainha?
Por que não lavam a roupa suja
no tanque da casa de vocês?
Por que essa roupa suja
também é sua, querida!
Sabe o que aconteceu? Susana
tinha feito uma maionese ótima,
e a mamãe, em um descuido,
tirou e transformou em flan.
Que tragédia horrível!
Fazem quatro anos que sua sogra
mora na minha casa,
e com o firme propósito
de não sair de lá!
-Minha sogra?
-Sim, sua sogra! E sua mãe!
Em que te incomoda
a pobre santa?
Em que me incomoda?
Pergunta em que me incomoda?
Na cozinha, no banheiro,
no quarto, na sala,
no corredor, no terraço
e aqui! Tenho ela aqui!
Como falar assim de uma velha
que talvez não viva
nem mais três anos?
Sim, talvez nem tanto.
Foi o que disseram
há quatro anos,
quando ela foi morar conosco,
mas acabou! Acabou!
Comigo já deu!
E não aguento mais
a foto do seu pai na sala!
-Coitada da mamãe.
-Não quero fotos na minha sala!
Meu pai também morreu
e tenho a foto dele na gaveta.
Para completar, há uma semana
se suja de um jeito.
-Se suja?
-Como se suja?
Sim, ela se caga!
E não vou colocar calcinha
de plástico como uma criança!
Eu tenho que andar
com o pano na mão limpando...
Coitadinha.
-E por isso tanto drama?
-Olhe, isso não é piada.
- Mete as mãos em toda parte, - Pega em tudo.
Ela quer te ajudar.
Que fique quieta,
eu não quero ajuda!
Faz 15 dias, como não estávamos,
ela foi dar banho na bebê.
-Mas que bom.
-Quase a afogou.
Mas que...
-Traga ela por um tempo.
-Aqui?
Pobre velha, onde vou colocá-la?
-No quarto dos fundos.
-No das tralhas?
- Coitadinha, - Ali não cabe um alfinete.
Coloque aqui ou na sua cama,
mas na minha casa acabou.
Afinal, seu marido
é o mais velho dos irmãos.
Mas eu sou a mais nova
das cunhadas.
- Por que acha - Que ela deve morar aqui?
Não tem outros irmãos?
Não me interessa onde ela vai
ou com quem!
- Meus raviólis - .
Quero que tirem ela
da minha casa!
Pare, porra,
cale a boca de uma vez!
Você está falando da minha mãe.
E você, por que não arranja
um lugarzinho?
Afinal você é
tão filho dela quanto eu.
E sua esposa tem
mais paciência que a minha.
Mais paciência nada,
também tenho meu nervosismo.
E não quero estar limpando...
Se precisa de enfermeira,
poderíamos pagar
os quatro irmãos.
Onde vai ficar a enfermeira?
A velha na minha casa acabou.
Não vai jogar minha mãe
de lugar nenhum, entendeu?
O Antonio está vindo,
façam a oferta para ele.
Algo me diz que vamos passar
um dia muito especial.
Entrem. Como vai, querida?
-Bolinhos, você é má.
-Os mesmos de sempre.
-Como engordam.
-Vaidosa!
- -Como vai, Antonio? - -E aí?
Mais convidados, que surpresa.
Que boa surpresa.
-Como vai, linda?
-E você?
Morta de calor.
Como vai, amoroso?
Este homem tem
a felicidade pintada no rosto.
Como vai,
meu amante maravilhoso?
Você está insistindo muito,
já estou desconfiada.
Mas se é verdade, querida.
É possível que não acredite?
Isso é ofensivo.
Como vai, Susi?
Quanto tempo sem te ver,
gosto tanto de você.
Você está ótima. Com esse ar
tão sereno que te caracteriza.
Me dá uma paz te ver.
Você para mim
é como uma colina inglesa.
Verde, agradável, generosa.
Você sim tem um olho clínico.
Você me prometeu
ravióli com molho.
Eu amassei com esta mãozinha.
- -Vive sonhando com suas comidas. - -Sim?
E se lembra toda vez
quem vê as manchas de molho
que ficam nas camisas dele.
Qual é o segredo
dos seus molhos?
Não consigo fazer.
Por que esta deliciosa
reunião familiar?
Pare com isso.
Nós não fomos convidados.
É preciso ter dinheiro
para ser convidado.
Você acha que recebemos
uma mensalidade do Antonio?
Bom, nós viemos passar
um tranquilo domingo em família.
Calmo, tranquilo, sereno
e de reconciliação nacional.
Então chegaram em péssima hora.
Mas já acabou. Passou, passou.
Vamos os convidados para a sala.
Me dê suas coisas, Nora.
Que luvas lindas.
O casaco de pele também.
E os óculos, é claro.
Não. Os óculos, não.
Eu odeio o sol do meio-dia.
Bem, vou me trocar.
Sergio, cuide dos drinks.
Drinks?
Serviram as aulas de idiomas.
Sim, ela aprendeu a dizer não
em quatro ou cinco línguas.
-Malvado.
-Eu?
Daria meu reino por um vermute,
para ver se me solto um pouco.
E a garotinha, Jorge?
Nem fez um ano ainda, não é?
Essa bebê ocupa um lugar
privilegiado no meu coração.
Não é mesmo, Antonio,
que sempre falo dela?
De quem?
Matilde, com você está completo
o abençoado quadro familiar.
Olá, tio Jorge.
Esta menina me rejuvenesce.
E você nunca tem tempo
para ir nos visitar?
Mora a quatro quarteirões
e não conhece a priminha.
Como não? Eu fui ao hospital
visitar a tia Susana.
Sim, nós fomos. Com um chocalho,
uma bata amarela e um xampu.
Você não lembra?
-Olá, tio Antonio.
-Como vai?
Tia Nora.
-Que vestido lindo.
-Você gostou?
Comprei em Miami.
É lindo, não é?
-É um sonho.
-Matilde!
Leve este vermute para a tia.
Susana, e você?
Se a "tia" bebe vermute,
acho que não vou beber nada.
Por que diz isso?
Porque meu cunhado disse:
"Leve este vermute para a tia".
Eu não sou tia.
Eu sou pobre!
Você veio
com o cão no couro mesmo.
Tia.
Obrigada, meu amor.
Já te sirvo, tia Susana.
Não sabe que não bebo?
- Então - Por que faz tanta confusão?
Onde está o conhaque?
A mamãe guardou.
Traga um uísque, meu bem.
Uísque?
Não tem.
Elvira, onde está o conhaque?
Venha buscar a garrafa, Matilde.
Quando vão levar
a menina lá em casa?
O jardim está tão maravilhoso.
Aquilo é tão inspirador.
-Vocês têm que ir. Quando irão?
-Quando você nos convidar.
Amanhã.
Não, amanhã não, na terça.
Não, na terça também não,
na quarta.
Eu te ligo na quarta e marcamos.
A menina pode pegar sol,
correr pelo jardim...
Ela ainda não corre.
Mas eu imagino
que ela respira, não é?
Eu adoro crianças.
Deve ser por isso
que Deus me fez estéril.
E você procurou um médico?
Às vezes são os homens
que não podem.
Mas de onde você tirou isso?
Eu posso, mocinha.
Como você sabe?
Porque ejacula não significa...
O que ela está falando?
Parece uma qualquer.
Elvira, você ouviu?
Eu falei de coisas naturais.
Aqui não se fala
de coisas naturais.
O que é isso? Uma zona.
Eu li naquelas revistas
da sua mesinha?
-Olhe a cara do Sergio.
-Mas pai.
Você deve pensar
que sou virgem, não é?
Para o seu bem,
espero que esteja, menina.
-Elvira, você ouviu?
-Ouvi!
Ela só quis dizer
que não é boba.
- Não é, amor, - Que você só quis dizer isso?
Sim, mãe.
Alô.
Sra. Elisa.
Como?
Um momento.
Mãe, é a chata aqui do lado.
Idiota, ela vai ouvir.
Já cozinhou o ravióli,
mas a água tem trigo demais.
Vá pegar assim mesmo
e não se queime.
Tenho que ir sempre?
Leve as luvas, Matilde!
Vai te queimar!
Que se dane.
Cortaram nossa água esta manhã.
Mas a invejosa do lado
me imita em tudo.
Faço cozido, ela faz.
Faço ravióli, ela faz.
- O que olha? - Não vê que coincidência?
Elvira, o telefone.
Será que ela ouviu?
Meu Deus, tomara que não.
Olá. Não.
Ouviu. Que menina idiota.
Mãe, dona Elisa
mandou todos nós para o inferno.
Retardada mental.
- Quem te ensinou - A não desligar o telefone?
Ninguém, eu aprendi sozinha.
E quando eu começar
a exigir e então?
Porque eu posso começar
a exigir. Ou não posso?
O que acontece se eu disser
que a mobília é minha,
que as panelas são minhas.
O que acontece?
Vamos ver, o que acontece?
O que acontece? Meu Deus.
O que eu estava dizendo?
Ônibus.
-Para onde você vai?
-Para onde você quer ir?
Para a casa da Emilia.
Fica naquela...
Naquela avenida... Como era?
É longe, muito.
Algum dia eu também vou exigir.
Já verão, já verão.
Eu vou exigir.
Esta é a casa do Sergio.
Vamos lá, vamos lá.
Mamãe Cora, venha.
-Eu?
-Sim, você. Venha.
Olhe só, justamente hoje
estava pensando em você.
Viu só? Acredite se quiser.
Olhe os carros, Mamãe Cora.
Falando de Roma...
Cuidado!
O burro aparece.
Justamente hoje eu pensava
no matambre da sua mãe.
Dominga, o que eu ia te dizer?
Sabe que eu esqueci?
Como estou com a cabeça.
- Esqueci - Do que eu vinha te dizer.
Eu chamei você, Mamãe Cora.
-Quem?
-Você.
Eu nem percebi.
Hoje eu levo ela
para um passeio de carro.
Tomar um pouco de ar
vai ser bom para ela, não é?
Seria bom para ela
morar na sua casa um tempo.
Não, coitada, ela ficaria
entediada como uma ostra.
Nunca estamos em casa.
- Antonio - Passa o dia na financeira
e eu não passo um dia
sem ir à casa da mamãe.
Além disso, eu confesso, tenho
pouca paciência com os velhos.
Mãe?
Para ser franca,
se o Antonio levasse a velhinha,
minha mãe teria
um ataque de ciúmes.
Isso mataria a mamãe.
Mãe, posso ir ao...?
-E na sua casa, Sergio?
-Não tem espaço aqui.
Discutimos com Susana.
Aqui é impossível,
não tem lugar.
Antonio, a mamãe fez aniversário
na semana passada.
Droga, esqueci.
Você poderia ter me avisado.
Maldade sua, Jorge.
Afinal ela mora na sua casa,
vocês têm mais obrigações.
Que droga.
Vejam que legal.
Além de morar conosco,
temos que arcar
com todas as obrigações?
Imagino que o Jorge
dá tudo o que ela precisa.
E por que você imagina?
Sabe quanto seu irmão ganha?
Bom, chega.
Passei o inverno
economizando cada moeda
para comprar um casaco,
mas a velha
teve um ataque de fígado
e tudo o que eu juntei
se foi para médicos e remédios.
E nenhum de vocês ligou para ver
se precisávamos de ajuda.
Pare com isso.
Sim, realmente.
Nem é só pela grana, Nora,
estou um pouco cansada
e gostaria de viver sozinha
com meu marido
e minha filha por um tempo.
Meu Deus, não tenho
direito a um mês de férias?
Não, sim, claro,
isso não se discute.
Mas acho que seria
de extrema crueldade
dizer assim para essa senhora,
para essa dama,
que vá morar na casa
de outro filho por um tempo.
Ela ficaria muito feliz
se os filhos
disputassem ela um pouco.
Tem que ter cuidado com isso.
Não é, amor?
Eu estaria disposto
a passar um dinheiro por mês.
Quanto você acha, Jorge?
Não precisamos do seu dinheiro.
Só queremos que você leve ela
para sua casa por um tempo.
Pare um pouco, mocinha,
que ela é minha mãe.
Não fale sobre ela
como se fosse um cachorro
ou um par de sapatos velhos.
E na Emilia?
Emilia vive em um casebre
e desde que ficou viúva
trabalha como escrava
para manter o vadio do filho.
Aquele idiota.
Não, com Emilia claro que não.
A mamãe morreria
em dois dias lá com ela.
Cacho!
Realmente, que caráter horrível
tem aquela mulher.
Cacho!
Tem gente que trabalha duro
e não deixa de sorrir por isso.
Mas se Emilia
não tem nem o que comer.
Por isso que não vou vê-la,
não aguento que ela passe fome.
A propósito, tem um cheiro
de molho maravilhoso.
Quanto falta
para saborear esses raviólis?
-Vamos, aqui tem o que comer.
-Isso é uma grande verdade.
Minha barriga faz um barulho.
Ria, Susana.
Não tenho vontade.
Só quero que tiram
a velho de mim.
Se eu não conhecesse
aquela santa anciã,
acharia que é uma bruxa.
A mamãe
é o ser mais doce da terra.
Uma velhinha assim
ilumina a casa de qualquer um.
Nós sempre mantemos
a casa no escuro.
Mamãe Cora passa o dia vendo TV.
É o refúgio dela.
Mas o dia todo,
e no volume máximo,
porque está quase surda.
Que glória chegar a essa idade.
E pensar que não vou chegar.
Uma cigana previu que vou morrer
antes dos 40 anos.
-Ainda te restam 15.
-Sim, ria, ria.
Eu não tenho os pés de galinha
que você tem
nesses lindos olhos.
Pés de galinha? Onde eu tenho?
Que sem-vergonha, pergunta
onde tem e não tem outra coisa.
Você tem aqui.
Aqui, loucura minha!
- Chega, - Já estão passando do limite.
Muita brincadeirinha, mas...
- Vamos ver - Como ri o terror do bairro.
- Vamos ver - Como ri o terror do bairro.
Querem parar de palhaçada!
Antonio, preciso de um mês
sem a Mamãe Cora.
Pedi para o Sergio
e agora peço a você.
Leve ela para sua casa,
por favor.
Não aguento mais.
Ela está muito nervosa.
Eu me casei tarde, antes vivia
tão tranquilo com minha mãe.
E me casei porque vocês queriam
que eu tivesse uma família.
Bem, agora eu tenho uma família.
-Está arrependido?
-Não, estou muito feliz.
O que acontece
é que me sinto tão miserável.
Peço de joelhos,
levem ela por um tempo.
Não aguento mais.
Como estão histéricos.
Obrigada, Mamãe Cora,
logo hoje minha amiga falhou.
Meu amor, me dê um beijo,
vá para o pátio,
vou falar com a vovó.
Mamãe Cora, se meu marido vier
antes de eu voltar...
Ele não vai vir.
- -Quem? - -Meu marido.
- Mas se ele vier, - Diga que eu fui para o hospital.
Para o hospital?
E o que vai fazer no hospital?
- Internaram minha sogra. - A mãe dele.
A finada? A sua sogra?
-A mãe dele, eu disse?
-A mãe dele você disse.
-A irmã dela, Mamãe Cora.
-A irmã? A Porota?
Internaram a Porota?
Não, a outra irmã
que você não conhece.
A única que eu não conheço
é a Dolores. Foi internada?
Não, esta é outra. Uma que está
escondida faz 20 anos.
Vinte anos? Que novinha.
E quando ela nasceu?
Porque o pai morreu
antes da gravidez, então.
Essa mais velha,
muito mais velha, Mamãe Cora.
Eu não sei quantos.
Tudo que sei é que ela nasceu
quando minha sogra
estava grávida da Porota.
Por isso ficou tão ruim,
se juntaram os dois partos.
Mamãe Cora, estou atrasada,
por favor, feche o zíper.
Eu te ajudo,
encolha a barriga.
- -Ai! - -O que foi? Apertou algo?
-Sim, apertou.
-Você está mais gorda.
Não respire.
- O importante - É não dizer nada, Mamãe Cora.
Por quê?
Meu marido não suportaria a dor.
Uma irmã boba.
Não, não se preocupe.
Mamãe Cora,
são só duas horinhas.
Se ficar entediada,
ligue a TV ou regue as plantas.
Dominga,
você vai sair assim na rua?
Sim.
-Tudo aparece tudo aí.
-Sim.
E se cubra, que quando voltar
vai estar frio.
- Se fizer frio, - Vista uma jaqueta no Oscarcito.
Está bem.
-E você está amamentando?
-Sim, Mamãe Cora.
E então como eu faço?
Não vou poder dar para o bebê.
-O que não vai poder dar?
-O peito, Dominga, o peito.
Peito para o Oscarcito?
Uma banana amassada basta.
Uma banana.
Pode ir. Abraço para a Porota.
Mamãe Cora, a jaqueta.
São só duas horinhas.
Matilde,
você gosta da vovozinha?
Claro.
Viram?
Ela a ama com toda a alma.
Por que não uma cama
no quarto dela?
Veja que legal.
Disse que a ama.
Não no meu quarto.
Querida, como você é egoísta.
A vovó está muito bem onde está.
Não, ela não está muito bem.
Você ouviu a Susana.
Sua avó está muito velha e...
- Quem sabe - Quanto ela tem de vida?
E se ela morrer no meu quarto?
Como você é diplomata.
Sério, como fez
para juntar tanto dinheiro?
Trabalhando para a máfia.
Menina!
Todo mundo diz isso.
Meu amor, vá arrumar a mesa.
Querem a vovó no meu quarto.
No seu quarto? Não.
Como? À força.
Não, é impossível.
Se depender
da minha boa vontade, esqueçam.
-Bem...
-Não quero mais falar disso.
Os raviólis estão prontos
e eu quero passar
um domingo tranquilo.
Um domingo familiar, sereno,
como os que vocês geram.
Você sabe, Elvira,
eu gosto de vir à sua casa.
Eu sei. Quem quiser
lavar as mãos vá ao banheiro.
- Quem quiser fazer outra coisa, - Vá agora também.
Você vá se trocar,
não fique assim.
Vista algo decente.
O que você acha?
Troco de roupa?
Sim, me deprimem
os homens de camiseta.
Mãe, faltam facas.
Venha buscar.
Como sabe todo mundo a menina?
O que estamos esperando agora?
Mandei ele se trocar.
- Já é deprimente - Comer o ravióli dela,
para aguentar ele de camiseta.
Fale baixo.
Você também não gosta
desses raviólis,
mas para bajular ela...
Os raviólis dela
ficaram muito duros.
Os raviólis ficaram muito duros.
Talvez pela água mineral,
pelas bolhas de gás, eu não sei.
Essa idiota não pediu
água mineral sem gás.
-Como eu ia saber?
-Nunca sabe de nada.
E não é tudo, o molho queimou.
- -O que queimou? - -A casa!
-O que vão comer agora?
-Não se preocupe conosco.
- Abra uma latinha - De qualquer coisa.
Não tenho uma latinha
de qualquer coisa.
- -Meu amor. - -Eu não vou!
Vá comprar, Matilde!
Eu já disse que não vou
e é definitivo.
Matilde, vá comprar presunto,
matambre, mortadela
e salsicha ou eu te mato.
Agora ela vai jogar
uma indireta atrás da outra
para você ir comprar
um frango assado.
Não seja assim.
Se não conhecesse sua família.
Minha família?
Você quer falar sobre a sua?
Minha família não fala
das suas atividades.
Minha família sabe
que sobre isso não se fala.
-Cale-se.
-Cuidado!
E agora o que fazemos?
O que fazemos?
-Vamos aproveitar essa paz.
-Não, temos que comprar algo.
Mais onde?
Será preciso ir ao Centro?
Aqui pelo bairro
está tudo morto.
Vamos comer como está.
Adoramos carne chamuscada
e raviólis duros.
Você está louca?
É preciso fazer algo. Antonio,
não levaria o Sergio ao Centro?
Mas, querida,
não precisa gastar.
Não me deixe mais nervosa
do que estou!
- -Me desculpe. - -Está bem.
-Eu tenho um caráter tão...
-Sim, você tem um caráter feio.
Malvada. Venha aqui, louca.
- -Esqueça. - -Esqueça.
-Como estou?
-Como está?
Ótimo para sair correndo
e comprar alguma comida.
Você poderia ter
mais cuidado na cozinha.
Olhe como fala,
não sou sua empregada.
- Se quiser comer algo, - Vá comprar.
-Se não quiser, não vá.
-Posso ir a um restaurante.
Ótima ideia. Vá onde desejar
e me deixe em paz.
Elvira, por favor,
um domingo tão lindo,
não vamos estragar.
Uma vez que recebemos visita.
Eles nos tratam como reis
quando nos convidam.
Eles têm empregada. Que piada!
Nora nem molha
a ponta dos dedos quando vamos.
Você não comprou sardinha
nem batata-frita,
nem azeitonas
para entreter a boca.
Não levante a voz
- ou vou pedir ajuda - No convento do outro quarteirão.
Nesta casa, se tem uma vítima,
não é exatamente você.
Não, eu vou embora.
Thank you very much.
Um domingo assim eu não passo.
É uma questão de hábito.
Na casa dos meus pais
nunca se levantou a voz
nem para dizer bom dia.
Então, são todos adoráveis,
amo vocês, mas... Antonio.
Nora, o que deu em você?
Vamos brincar com o velocípede.
Venha, venha.
Vamos ver como você anda.
Vamos, vamos.
-Nora, não seja criança.
-Não sou criança.
Eu odeio violência, só isso.
Infelizmente, não sou sensível,
sou hipersensível.
- Me aniquila, - Meus nervos não são de aço.
Eu me desintegro.
- -Está aqui? - -Quem?
-Mamãe Cora. Está aqui?
-Não. Ela veio?
Saiu. Deixou a menina sozinha,
a porta aberta e saiu.
Ela saiu da sua casa?
Onde ela estará?
Onde ela estará?
E agora você se preocupa?
Eu sabia que essa cobra
ia pensar o pior.
Ninguém expulsou ela!
Esses, não são...? Sim, são.
- -Pobre senhora. - -Deve ter ido para a Emilia.
Não fique aí parado.
- Pegue o carro, - Vá ver se está lá.
- -Vamos. - -Sim, eu vou com você.
Não, não são. Mas sim, são eles.
- Me leve em casa - Que deixei a menina sozinha.
Não, não são. Não são.
Mas eram. Sim, eram eles.
Embora, não sei.
Pode ser que fossem.
Aí está o idiota.
Eu?
Cacho!
- -Você é o Cacho, não é? - -Sim.
Nós somos seus tios, se lembra?
Idiota!
Bando de filho da mãe!
Bichas, agora vão ver.
Para que aprendam,
filhos da puta.
Filho da puta!
Viu sua avó?
Parem! Parem!
Parem, filhos da puta!
Parem!
Vão ver quando pegar vocês.
Não fique bravo. Viu sua avó?
- -Qual? - -Minha mãe.
A mãe da sua mãe.
É possível?
Não sabe o que é uma avó?
-Onde está sua mãe?
-Foi comprar comida.
Quando ela voltar, para ligar
para a casa do tio Sergio.
Punheteiro!
Qual tio Sergio?
De novo? Parem!
Filhos da puta.
Seus viados, vão ver.
Venham aqui.
Droga de aparelho, caiu de novo.
-Elvira, eles já vão voltar.
-Não.
Não vou perder
para essa droga de apa... Alô!
Levanto o tubo e cai.
Droga de telefone,
com o que custa.
Estou ficando nervosa,
Elvira, te peço.
Essa é a última.
Está chamando.
Alô.
Desculpe, senhor, por gentileza,
poderia chamar a Sra. Emilia?
É muito urgente.
Como?
Não consigo ouvir.
Bem, que azar.
Você é um verdadeiro cavalheiro.
O que ele te disse?
Que não.
Espero que se engasgue
- e que levem ele - Para o hospital meio afogado.
- Mamãe Cora - Deve estar na casa da Emilia,
e os homens terão ido
comprar comida.
- -Estou com fome. - -Dane-se!
Por que você não abre
o pacote de bolinhos?
Você quer, tia?
Bem, mesmo não sendo
muito amiga de bolinhos.
-Não vai comer?
-Vou, vou comer.
-O que foi?
-Corra para a cozinha.
Leve os bolinhos.
Se nos virem comendo
sem saber sobre a velha,
dirão que não temos coração.
- -E então? - -Nada ainda.
Para o seu bem,
que não tenha sido nada.
Que quer dizer?
- Se aconteceu algo, - Foi culpa sua,
vai pesar na consciência.
- -Isso...! - -Não, chega!
- -Nada. - -Leonor também não sabe de nada.
Que miséria. Que miséria!
Sabe o que tinham para comer?
-Pastéis.
-Três.
Me doeu na alma.
Três pastéis que sobraram
de ontem para duas pessoas.
Meu Deus, como se pode
fazer pouco pelas pessoas.
Sim.
A única coisa que se pode fazer
é não pensar, porque senão...
Não pensar, não pensar.
Sorte que meus irmãos
têm o que é preciso.
Não acredite.
-Você tem uma pobreza digna.
-E o Jorge? E a Emilia?
Eles sabem o que é a miséria.
Sim, sabem o que é a miséria,
mas é uma miséria digna.
- VOCÊ TEM DIREITO - DE VIVER EM LIBERDADE
Com quem deixou a bebê, Susana?
Desde que te vi, Elvira,
- quando vim comer com Jorge, - Pensei...
-Chega, droga!
-Eu não comecei!
Deixe ela terminar!
O que você pensou quando Jorge
te trouxe para comer?
Quer mesmo ouvir?
- Não está vendo - Que morro de curiosidade.
Muito bem, eu pensei: "Esta é
a mulher mais falsa do mundo".
Falsa, eu?
Com quem ficou a bebê?
Se eu sou falsa,
nem sei como te catalogar.
Falsa é você, que ficou calada.
Eu teria te dito.
Naquele tempo,
eu não fiquei calada
e disse para o Jorge:
"Você vai se casar com isso?
Vai te meter chifre
com um mês de casados".
Eu te disse ou não?
Matilde, traga os bolinhos
para seus queridos tios.
Insulto vai, insulto vem.
O que têm na cabeça?
- -Você quer, tia? - -Não.
Não faça isso.
Limpe meu tapete, agora.
Por que você disse
que eu ia meter chifre nele?
Susana, isso foi há quatro anos.
Quem lembra disso agora?
Ela se lembra.
E tenho o direito
de saber por que ela disse.
Sim, e não tenho
nenhum problema em te dizer.
Primeiro, eu disse
porque tenho língua.
Segundo, porque vivemos
- em um país independente, - Soberano, livre,
- com liberdade de expressão, - Sem censura...
E terceiro, porque eu quis.
- Se eu aproveitasse - As três besteiras que você disse
e dissesse
só uma coisa que eu sei,
você não ia mais querer falar
gratuitamente das pessoas.
O que sabe de mim?
Fale! Mas antes lave bem a boca
com água sanitária,
porque não tenho o que reprovar
nos 18 anos que tenho de casada.
-Tem certeza?
-O que você acha?
Que vai manchar minha reputação
como manchou o tapete?
Não fique como uma múmia grega,
semeando dúvidas
para Nora e Matilde.
O que você tem a dizer?
Nada.
Não me venha agora com nada,
como se escondesse
um segredo horrível!
Se sabe de alguma coisa, cuspa.
Já chega, gralhas.
Gralha e sua madrinha.
A minha cortina!
Susana,
te pergunto pela terceira vez,
com quem deixou a menina?
Com minha sogra.
Que legal.
Como está sua maravilhosa mãe?
Mais ou menos.
Faz tempo que não a vejo,
e gosto tanto dela.
Diga, e com a bebê
ela se sente feliz?
Mais ou menos.
A bebê dá muito trabalho.
Ela fica chata
porque chora muito
e ninguém sabe por quê.
- -E não para. - -Com certeza. Sabe o que é?
Deve estar alargando os pulmões.
A natureza é sábia,
nesse sentido.
Não tem vergonha?
Como pode inventar algo assim?
Não pode ser, Elvira.
Com quem? Com quem?
Eu sei com quem.
Chega.
Olhe que é delicado
o que você está dizendo.
E ela pode dizer
que coloco chifre no meu marido?
Como?
Ela é de uma natureza
muito peculiar, muito nervosa.
Tem certeza do que está dizendo?
Eu não posso acreditar, te juro.
Então não acredite.
E o Sergio sabe?
Não ligue, é mentira,
invenção para atingir a outra.
- Não, não. - A Susana é muito honesta.
Ela não inventaria algo
para prejudicar uma inocente.
Não é mesmo?
Não, se ela diz
é porque tem base
para fazer isso.
Conheço poucas pessoas
tão honestas,
com esse senso de justiça.
Eu te admiro, nunca te disse?
Te admiro, eu juro. Conte.
Minha cabeça está fervendo.
Coloque a toalha.
Coloque a...
Entre.
Boa tarde.
-Sente-se. E então Peralta?
-Você não está vendo?
- A broca não é o pau-de-arara, - Peralta.
A broca é para a saúde.
-E o Barrionuevo?
-Hoje é domingo.
- -Vallejo? - -Você não soube?
O quê?
Preso por tráfico de drogas.
- -Caramba. - -E ele?
Meu irmão Sergio.
E aquele outro rapaz...?
- O que era - Braço direito do Vallejo.
-Cano, não era?
-Cano. Caiu com ele.
Eles estão perdendo muito
ultimamente.
Em que posso servir?
-Nome?
-Mamãe Cora.
Dolores.
- -Ana María! - -De los Dolores.
- -Buscaroli... - -De Musicardi, eu disse.
Por que ele disse Mamãe Cora?
Desde pequena a chamam assim
os pais, os irmãos, todo mundo.
Agora, os filhos.
Ana María de los...
Dolores... Sobrenome?
Buscaroli de Musicardi.
Idade?
- -Oitenta? - -Por aí.
Eu tenho que colocar
a idade certa.
Que diferença tem
entre 75 ou 80 anos?
Ela deve ter 77, 78, eu acho.
- Eu ligo para minha esposa - E pergunto?
Jorge deve saber.
Coloco indeterminada.
É meio velha.
Vestida?
-Claro que vestida.
-De que cor?
Fazemos um apelo solidário.
Precisa-se localizar
María de los Dolores
Buscaroli de Musicardi.
Responde também
ao nome de "Mamãe Cora",
tem ao redor de 80 anos.
Acredita-se que sofre
de amnésia parcial e que...
Se eu não estivesse aqui
diria que estou lá.
Qualquer informação...
- -E então? - -Fizemos uma denúncia.
Na Emilia não sabem de nada,
nem no tio Agustín.
-Ninguém sabe.
-Trouxeram algo para comer?
- Matilde, - Pergunte pela vovó, primeiro.
Foram ao seu primo Felipe?
Não. Como não pensamos nisso?
- -Matilde, traga a lista. - -Sim.
-Diga, ela tinha dinheiro?
-De onde ia tirar dinheiro?
Como, você não dá?
Cadê a Elvira?
Deitada. Não se sente bem.
- -O que ela tem? - -Nada.
Felipe, é o Sergio.
Que Sergio?
Que primo?
Que mamãe?
Que tia?
Aqui não temos nenhuma tia.
Quem fala? Sergio...
Você conhece algum Sergio?
Mãe. Mamãe!
Mãe, você conhece algum Sergio?
Quem não conhece algum Sergio?
Olá, para que número você...?
Desligou.
Sergio, o filho da Cora!
Por que não me disse
que era o filho da Cora?
Que como o amor de mãe
Outro no mundo não terá
Fizemos bem em sair
um pouco daquele inferno.
Deveríamos tomar outra coisa.
Gostaria de algo gelado?
Um conhaque,
um licor, um uísque?
-Uma cerveja gelada?
-Não.
Peça o que você quer, eu pago.
Está bem assim.
Como quiser.
Você me deixou gelada
com isso da Elvira.
- Não vou falar sobre isso, Nora. - Não perca tempo.
Susana.
Era só o que você queria.
Susana.
Mas, Susana...
Você me levou para um café
só para falar desse assunto.
Era isso, Nora.
Mas se enganou, eu não falo.
Quem tiver um tumor,
preciso remover.
Se tem um segredo
que te angustia...
Por que ia me angustiar
o que aquela mulher faz?
-É uma velha história?
-É uma história, ponto.
Se não quiser falar,
não fale, mas...
Como amigas de sempre,
sua atitude me ofende um pouco.
Acha que eu espalharia
uma fofoca?
Por que não?
Você tem a língua solta.
Bom, querida.
Tiramos as máscaras.
Já sei o que pensa de mim.
Para que você quer saber
com quem Elvira dormiu?
- Para saber - Que tipo de mulher ela é.
As mulheres não mudam por serem
mais ou menos fiéis ao marido.
Veja, você tem
um caso com o Sergio
e para mim você é a mesma.
Como você pode
dizer uma coisa dessas?
Como você pode
dizer uma coisa dessas?
Não vou te perdoar
enquanto eu viver.
Não vou te perdoar enquanto...
Faz dois anos que eu sei
e nunca disse nada.
-Susana. Juro que não, Susana.
-Não jure.
- Está jogando com a reputação - De duas pessoas,
a paz de duas famílias
está em suas mãos.
Eu vi você sair do motel
com o Sergio.
Mentira!
Não repita ou eu te processo.
Com óculos escuros
e lenço na cabeça.
- Me solte! - Não quero que você me toque.
Não te julgo, Nora. Também
não sou feliz no meu casamento.
Como você pode insistir?
- Viu há dois anos - Uma mulher de óculos escuros,
com um lenço preto,
uma capa preta...
-Eu não falei de capa preta.
-Sim, você falou.
Não, não falei.
Sim, agora me lembro.
-Você usava uma capa preta.
-Mas acabou!
Alô. Sim, sou eu.
- -Onde? - -O que aconteceu? Quem é?
-Mamãe.
-O que aconteceu?
Sim, claro. É claro.
Mas, homem, por favor,
- até quando vai nos manter - Em suspense?
Fale de uma vez!
Uma velha saltou
na passagem de um trem.
Temos que ir ao necrotério
reconhecer o corpo.
Mamãe.
Tomara que não seja ela.
Tomara que não seja ela.
- -Tomara que seja. - -Mãe!
Tomara que seja!
- Para doer na consciência, - Como ela merece.
Apareceu?
Seus irmãos foram
reconhecer uma velha
que se jogou debaixo do trem.
As pessoas jovens
não encontram sossego.
Droga de velha, sua desgraçada.
Emilia.
Mamãe!
Está muito desfeita.
Eu reconheço,
são os sapatos da mamãe.
São os sapatos da mamãe!
Vejamos, vejamos,
coma sua comidinha.
Abra a boquinha.
Olhe como come. Muito bem.
Tem que comer,
porque é preciso ter saúde.
Sempre peço a Nossa Senhora.
Vamos lá, outra, outra.
Que bom. Peço à Nossa Senhora,
mas à de Luján.
A Lourdes não vou mais.
Eu sempre ia.
Eu trazia a água benta
para beber com chá-mate.
Mas da última vez
me deu uma diarreia.
Como me lembrei
daquela Nossa Senhora, sabe.
No final, ela te cura
de um lado, te ferra do outro.
Falando mal de mim!
De mim,
que fui fiel até a idiotice.
Até a idiotice.
Porque se tem algo
que tenho que me arrepender
é de ter sido tão submissa
a ele toda a vida.
Eu não disse sempre?
As únicas mulheres felizes
são as colocam no marido
uns chifres bem grandes assim.
E dizer na sua cara.
E na frente da Matilde.
Da menina, que parece uma moça,
mas só tem 15 anos.
- -Dezesseis. - -Quinze.
Não, ela não tem direito.
Não aguento, eu não sei.
Você passa o dia tentando
dar uma educação cuidadosa,
dentro do possível,
e vem uma miserável
e joga tudo por águas abaixo.
Ela não tem direito.
E com quem?
Com quem eu iria trair o Sergio?
- Juro pela sagrada - Memória da minha mãe,
por esta cruz, eu te juro,
que eu nunca traí o Sergio.
Nem mesmo com o pensamento.
Que eu morra se estou mentindo.
Que o teto caia sobre mim.
Que se abra o abismo do inferno.
Mamãe!
Eu digo isso para que façam
uma ideia até que ponto
tenho a consciência limpa.
Só que ela
não pode dizer o mesmo.
- O que esperar da filha - De uma empregada e um garçom?
Não, isso não.
Tem mulheres da limpeza
muito honradas.
Meu pai carregou uma bandeja
toda a vida.
Mas é que...
Mas é claro.
Não, eu não quis dizer isso.
Não, me desculpe.
Elvira, alguém nos chama
daquela varanda.
Você acha que não ouço?
Ignore, não a suporto.
- -É uma velha. - -Pior ainda.
Não quero saber de velhas.
- O que fizeram com a pobre velha - Não tem nome.
Sim. Expulsar a pobre velha
para a rua, como um cão.
Onde já se viu coisa parecida?
Eu digo, o que somos?
Negros, assim tão selvagens?
Ou judeus, para não termos
nem mesmo crença religiosa?
Essa mulher
não tem perdão de Deus.
Tomara que seja a velha
que se jogou no trem.
Pobre, querida
e doce Mamãe Cora.
Tão doce, ainda era
tão prestativa, tão útil.
- Tão útil, - Tão prestativa, lembra?
Trabalhava como uma besta
o dia todo a pobre velha.
Não, ela não tem perdão.
- Se os pecados - Não são pagos na terra,
são pagos no céu, ou no inferno.
Em algum lugar são pagos.
- -Com certeza. - -Não sei.
Meu único consolo, Nora,
e graças a Deus tive educação
- católica, apostólica - E "românica",
é pensar que Deus vai chamá-la
e fará ela pagar um por um
todos os seus feitos.
Se tem algo em que acredito
é em Deus e na justiça.
Sim, a igreja
é um grande consolo.
Verdade.
Uma vez que o juiz
der permissão,
poderão levá-la...
Para minha casa, é claro.
E ela vai trazer
para minha casa.
Quem?
- -Susana. - -Trazer quem?
- A velha. Vai trazer - O cadáver para minha casa.
-Ela vai se atrever?
-Você não conhece ela.
Mas também não me conhece.
Sou capaz de jogar
o cadáver pela janela
com Susana e tudo.
De mim ninguém vai rir.
Que desgraça.
Sabe, estou mortificada.
É tão horrível viver a vida toda
cercado por gente rude,
sem cultura.
O papagaio cagou.
Meu marido sim
gostava de vinho, meu Deus.
Quando ele bebia ficava ruim,
levantava a mão para mim.
Tantas vezes me bateu
o desgraçado.
Que caráter ele tinha.
Mas era o vinho,
o vinho o deixava ruim.
Mas ele era bom.
No fundo, eu e meus filhos
não temos de que reclamar.
Ele nunca deixou faltar nada.
Que às vezes não tínhamos
o que comer é verdade.
Mas ele me tinha
como uma rainha,
e meus filhos como príncipes.
Isso ninguém pode negar.
Não tem mais homens assim.
Tesouro...
Como "quem fala"?
Eu te digo "tesouro"
e me diz "quem fala"?
Desculpe, Sergio, estou nervosa
e não reconheci a voz.
Claro que ninguém mais
me chama de tesouro.
Pensando bem, você também não.
Mas diga, o que aconteceu?
Não. Mas não, não, não me diga.
Não me diga. Me conte.
Mas não, Sergio, não.
Mas que atrocidade.
É a velha?
Diga, não poderíamos
velar ela lá?
Aqui?
Sergio, com o sensível
o que é a menina?
Eu sei como você se sente,
era sua mãe.
Também me sinto muito mal,
eu também sinto.
- Nós não somos nada, viu? - Que coisa.
Antes que eu esqueça,
que Susana não pise nesta casa.
Que não pise aqui. Ficou claro?
Demoram muito com esses papéis?
Está bem. Até logo, amor.
Querido, meus pêsames.
Vão trazê-la para aqui,
eu sabia.
- -Onde ela vai ser velada? - -Sei lá.
- Na casa de onde - A bruta da sua tia a expulsou?
Vá comer algo agora,
que depois não vai poder.
O que é isso?
Sim.
Elvira, você não pode
fazer isso comigo!
Ela viveu a vida toda comigo.
Bem ou mal, mas vivia comigo.
Elvira!
A mamãe não sabia o que fazia!
Nora, que grande desgraça!
Pode imaginar como será
minha vida depois disso?
Sim, claro, eu imagino,
um calvário, como deve ser.
Não sabem o que aconteceu,
não podem fazer isso.
- -O que estamos fazendo? - -Como?
Antonio e Sergio dizem que,
como mamãe não era feliz comigo,
não será velada na minha casa.
Eu acho uma ideia sensata.
Afinal ela se matou por isso.
Então eu me mato também.
Ainda hoje eu me mato!
Não posso suportar...
Sim, agora ele se lembra
de seu bom nome, viu?
Cale a boca, vadia!
Está vendo, Nora?
Fofoqueira! Falsa!
Está vendo
com o que temos que lidar?
Você é o mais velho
e tem mais ereto que os outros.
agora se lembram dos direitos.
Pena que não pensaram
nos deveres
quando expulsaram a velha.
Quem a expulsou?
Meu Deus, quem a expulsou?
Susana estava fazendo
uma maionese...
Não, não aguento mais
a história da maionese.
Lembrem-se,
vocês queriam que alguém
a levasse por um tempo.
Deus ouviu vocês e a levou,
por um longo tempo.
Sim, por um longo tempo.
Levou ela para sempre.
De que está reclamando?
Ela viveu a vida toda comigo.
E vai sair da minha casa
para sua morada final comigo.
- -Sergio também é filho dela. - -E Antonio.
-Desde quando?
-Para as pessoas.
- Mas quando foram - Filhos para ela?
- -Não falei com você. - -Eu também não.
Melhor, quem precisa de você?
Se não precisa de mim,
por que veio? Quem te chamou?
Eu te liguei, que desgraça?
Alguém ouviu minha voz?
Viemos porque pensamos
que você decide nesta casa,
e porque conhecemos a rocha
que tem no lugar do coração.
E você se atreve
a falar do meu coração?
Você que não teve
o menor escrúpulo
em mandar para a morte
à velha mártir
só porque ela estragou
a droga da maionese?
E você se atreve
a falar do meu coração!
- As lágrimas que eu chorei hoje - Por sua causa.
Hipócrita!
Meninas, um pouco de respeito
pela alma daquela velha.
É, um pouco de respeito,
de paz, agora que está morta.
Charlatã! Por que não cuida
de outras coisas
- em vez de se meter - Na vida alheia?
De que, por exemplo?
De Nora e Sergio, por exemplo.
Eu vou te dar um tapa.
O que tem Nora e Sergio?
Como você pode
inventar uma coisa dessas?
Eu fiquei com vontade...
Logo neste momento.
O que ela quis dizer com isso?
Que Sergio e você...?
-A menina, Elvira.
-A menina. O que faz aqui?
Vá para o quarto.
Sempre com os mais velhos.
Que droga!
O que você quis dizer?
Vamos, Jorge.
Ou terei que desenhar
para ela entender.
Não, você não sai daqui.
Você jogou a pedra,
agora não esconda a mão!
Como você pode levar a sério
uma coisa dessas?
Em um momento assim,
diz-se qualquer absurdo.
Elvira, temos que pensar
na pobre velha.
- -Que pobre velha? - -Mamãe Cora.
-Mamãe Cora? Mamãe Cora.
-Claro, coitada.
Como você pode se ofender
com o que Susana diz
nesse estado?
Eu perdoo ela.
Te serve de exemplo?
Ela me ofendeu mais
do que a você, e eu a perdoo.
Então eu sou a chifruda
e você se ofende mais?
Aqui passaram coisas
mais importantes hoje.
Desculpe, Elvira.
Inventei essa mentira
para te fazer sofrer.
Não falemos mais,
palavras são palavras
o vento as leva.
Para mim, não.
Saiam desta casa
antes de eu contar cinco.
-O quanto à mamãe?
-Olhe, sua mãe...
-Calma.
-Me solte. Fora!
Prepararam o quarto?
Trouxeram a mamãe.
-Antonio!
-Nora!
-Sergio!
-Elvira!
Que dor!
Mas que dor tão grande!
Que terrível!
Irmão!
Sergio, que terrível!
Matilde, a vovó!
A vovó morreu.
Sergio, deixe-me
velar na minha casa.
Não, senhor, saia daqui!
Isso vai ficar minha casa!
Não, vai para a minha casa.
- -Saia daqui! - -Não! Por que fazem isso comigo?
Ela vai para minha casa.
Antonio, velem na minha casa!
Calma.
Não, minha mãe será velada
na minha casa.
Minha mãe é minha. Ela será...
Calma, droga.
Minha mãe vai ficar aqui.
Ajuda-me, Antonio.
-Não. Ladrões! Usurpadores!
-Saia daqui.
Ladrões de mãe!
Não, minha mãe, não. Não!
Com licença.
Ave Maria, cheia de graça,
o Senhor é convosco.
Bendita sois vós
entre as mulheres...
Eu vim rezar um pouco
com minha mãe.
Menina, o que vai fazer?
É a vida, menina.
O que se pode fazer?
Minha pressão cai,
por isso tomo um gole.
Além disso, com este calor,
ficamos desidratados
e a garganta seca.
-Aqui tem um morto?
-Não, uma morta.
Não é forma de se expressar.
Um pouco mais de respeito.
Maldito pirralho.
-Onde deixo?
-Deixe ali.
- Não, desculpe, - Mas os mortos me impressionam.
Meus pêsames e deixo com você.
Anjinho, não chore mais,
meu amor, você vai adoecer.
Por que colocaram ela
no meu quarto?
Matilde!
Mas os mortos me impressionam
-Mas é sua avó.
-Mas ela está morta.
Cale a boca.
Ou não vai receber minha bênção.
E você o que está fazendo?
Não espere uma gorjeta
em um dia de luto como hoje.
-Quer entrar?
-Não, senhora.
- -Você pode. - -Obrigado, senhora.
- -Entre. - -Não, senhora.
Eu disse que pode entrar.
Entre, vamos.
Faça número,
veio tão pouca gente.
Dora e Alfonsina.
Quem é esse menino que entrou?
Não sei, trouxe esta coroa.
Ficou impressionado.
Está tão quente lá dentro.
Viu como é?
O que achou
do grito da hipócrita?
Quem não chorou, Elvira?
Estou desidratada.
Sim, tem razão. Só se fosse
de pedra para não chorar hoje.
Sra. Gertrudis. Sra. Gertrudis!
Sr. Genaro.
O que dizem dessa tragédia?
-Ainda nem acredito.
-Quem pode acreditar?
A Sra. Gertrudis, professora
de francês da Matilde.
Nora, minha cunhada.
- -Enchanté. - -Enchanté.
- -Que tragédie. - -Sim.
-Não acredito.
-Não, ninguém pode acreditar.
Que perda irreparável!
Era uma santa.
Sim, mais uma santa
que se foi da terra.
Tinha condições
de aprender francês.
Tinha condições,
condições para muitas coisas.
Mas não se preocupe,
que certamente neste momento
Deus a tem à sua direita.
Pourquoi? Pourquoi?
É isso que todos
nos perguntamos. "Pur cuá"?
- Vão vê-la, - Vai lhes dar uma grande alegria.
Entre. Leve isso por gentileza.
Pobre Mamãe Cora.
Diz-se "destra"?
De tão tonta nem sei o que digo.
Sim, diz-se "destra".
E pensar que foi ontem
quando você se casou.
Foi ontem que nasceu
a petite Emilia.
A petite Emilia.
O que mais vamos ouvir?
A velha tinha quase 80 anos.
- Queriam - Que vivesse até 100 anos?
Se viver um dia depois dos 80,
eu me mato, te juro.
- -Foi o que ela fez. - -Foi o que ela fez, tem razão.
Mãe, posso ir à casa da Pocha?
Não, não pode.
O que vão dizer?
Fique e chore um pouco.
Você não tem vergonha?
Tem o caráter dos Musicardi,
- que são duros e egoístas - De matar.
Por outro lado, os Romero
somos tão sentimentais.
É melhor ser como eles,
porque você sofre menos.
Olhe, nessa menina
ninguém vai pisar.
- -Vá ao quarto. - -Não quero.
Deite na minha cama
e chore um pouquinho.
Coitada, parte meu coração.
O que posso dizer?
As pessoas são malvadas.
Se eu deixar, o que vão dizer?
Que estava comemorando
porque a velha morreu?
Vamos, depressa. Venha, venha.
No velório do papai
passou meia Buenos Aires.
Todo mundo adorava o papai.
Mas é domingo, é verão,
muita gente vai para o mar.
Teríamos mais sucesso
se a velha esperasse um pouco.
No inverno, e dia de semana.
E Sergio tem muitos amigos.
-Não fica bem.
-Precisávamos tomar ar.
É, a gente se afoga lá dentro.
Espere, o que está fazendo
nossa querida cunhada?
-Chora.
-Falsa!
Ele não sabe nada daquilo.
Sabe o que ela insinuou hoje?
Que você e Nora são amantes.
Para mim, diga o que quiser.
Estou com a consciência limpa.
Mulheres. Mas como podem
ir e vir com fofocas e boatos
em um momento assim?
Quem vai e vem com fofoca?
Que me importa
o que Susana pode inventar?
-Não vê que como sofro?
-E eu? Acha que não sofro?
Eu tenho coração de pedra?
-Elvira!
-Dona Elisa!
O que diz dessa tragédia?
Que nesses momentos
não tem espaço para rancor.
Eu trouxe a água do ravióli.
Que gentileza, que sorte.
Pegue, linda,
leve para a cozinha.
Elvira.
-Meus pêsames.
-Muito obrigado, dona Elisa.
E a você minhas condolências.
Mas por que ela fez isso?
É o que todos nos perguntamos.
Por que fez isso, Mamãe Cora?
-Uma alma tão pura.
-Tão pura, tão requintada.
A passagem pela vida é tão curta
que não vale a pena.
Não, não vale a pena.
Entre, entre, dona Elisa.
Que a alma da Mamãe Cora
vai se sentir muito confortada.
E a Matilde?
Gostou dos bolinhos?
Vou te dar.
Matilde está no meu quarto,
está muito aflita.
Vá acompanhá-la um pouco.
-Que belo vestido o seu.
-Gostou?
Até parece uma modelo.
Você está linda.
Como está horrível,
cada dia mais como o pai.
Nora, vou tomar uma aspirina,
minha cabeça está rachando.
E depois faço um café. Que dia!
Logo hoje Susana
foi falar sobre nós.
Se Antonio descobrisse...
Pobre irmão, seria terrível.
-E eu gosto tanto dele.
-É o que eu digo.
Mas sua esposa
não tem muita discrição.
Quem pode ser discreto
quando pega chifre?
Ela, porque, segundo dizem,
colocou em você.
Ela nunca me fez de corno!
Ela nunca me fez de corno!
E que pai exemplar.
Se tivesse que quebrar a cabeça
do Antonio para não chorar,
ele quebrava.
Se tivesse que matar
o Jorge de fome, ele matava.
Uma vez deixou ele
três dias sem comer.
Se tivesse que trancar o Sergio
no quartinho dos fundos,
ele trancava.
Não, ele era assim.
Ele nunca duvidava.
E assim eles saíram.
Sim, senhor, muito religiosos.
É horrível. Jorge
nunca vai me perdoar.
Sim, ele vai te perdoar.
É um pobre homem, sem caráter.
-Eu nunca vou me perdoar.
-Isso é outra coisa.
Se você se sente culpada...
O que você faz
para não sentir remorso?
Eu? Eu, nada. Faço o meu dever.
Tento não ser injusta.
Eu que sou
a menos culpada das três
tenho remorsos medonhos.
Menos culpada, por quê?
Você é tão inocente quanto eu.
Elvira, eu não gostaria
de colocar o dedo na ferida,
mas Sergio e você
estão morando nesta casa
que foi da Mamãe Cora.
E estes são os móveis dela.
Alô.
Sim, é a esposa dele.
O quê?
O quê?
Como é?
Senhor, você diz cada coisa.
E não fala claro.
Fale claro.
Tire o que tiver na boca
e fale claro.
Repita, por favor.
Não é brincadeira?
Não seria a primeira?
Não seria a primeira vez?
Não tem vergonha,
em um dia como este?
Mas, senhor...
Estou ouvindo. Na verdade,
eu não prestei atenção.
Mas se os filhos,
sangue do seu sangue,
carne da sua carne,
não notaram...
O que não notamos?
Que erraram de morta.
Esse cadáver é de uma intrusa.
Alô!
Até tinha os mesmos sapatos.
Então, senhor,
mande buscá-la agora mesmo.
Faz tempo que estamos
velando essa intrusa aqui,
no quarto da menina
e chorando como loucos.
Não se brinca assim
com os sentimentos
das pessoas boas.
Filho da mãe.
- -O que foi? - -O que foi?
Vocês erraram de morta, idiotas.
Como erraram de morta?
Como erramos...?
O que a Emilia faz aí?
Mamãe! Eu quero minha mãe!
Essa mulher é húngara,
deixou uma carta
antes de se matar.
Eram os sapatos da mamãe.
Pelos sapatos se reconhece
uma mãe? Que família!
E todo mundo chorando
feito idiotas.
-Onde está minha mãe?
-Eu sei lá.
- -Onde? - -Mas são mesmo idiotas.
Só um idiota se engana de morto.
O que é um morto? Um pacote?
Eu não durmo mais no quarto.
- -Cale a boca. - -Não calo nada.
Que tragédia! Acabei de saber.
Mamãe, era para ficar em casa.
-Por que Cora fez isso?
-Olhe, Cora...
Só faltava a surda.
Onde está minha amiga?
Sua amiga está muito bem.
A que está aí é...
Para que explicar? Ela é surda.
-Onde está minha amiga?
-Eu já disse que sua amiga...
E não é sua...
Essa que está aí
é uma húngara que...
Onde está minha amiga?
Não sabemos onde está.
A que está aí... Bom, pode ir.
Onde está minha amiga?
Está com vontade de chorar?
Vá e aproveite, senhora.
O que fazemos agora?
Tirem essa húngara
do quarto da menina.
Não tão depressa,
a ligação pode ter sido trote.
O que aconteceu? O que fizeram?
Quem te deixou assim?
Alguém tem o telefone
da polícia?
-Eu.
-Tanta lágrima inútil.
Tanta dor desperdiçada.
Por que não ficam no país deles
esses comunistas mortos de fome?
Pobre da mamãe, se fosse ela.
Nem um velório tranquilo
teria tido.
-Quando se nasce malheureuse.
-Quando não se tem sorte.
Não chores mais,
controle-se um pouco.
Alô, aqui é Antonio Musicardi.
Quem é, Angel?
O que foi?
Passe ao delegado.
Por favor, saiam.
Um pouco de respeito.
Com o Menéndez, então.
Como? E o Fortunato?
Preciso de uma informação.
Não tem um responsável?
Algum responsável tem que ter.
Ele foi ver se tem.
Saiam, façam o favor.
Não aglomerem.
Pergunte pelo Benigno,
seu amigo tão importante.
Está na cadeia.
O Benigno?
Alô.
Benigno? Como vai?
Quando te soltaram?
Fico muito feliz.
Olhe, querido, nós ligamos hoje
para denunciar
o desaparecimento de uma velha.
Sim, hoje de tarde.
Duas horas depois
ligaram para nos dizer
que estava no necrotério.
Morta, sim, claro.
Não chore mais!
No necrotério, reconhecemos
o cadáver, pelos sapatos.
Se jogou embaixo de um trem.
Não fale tanto,
abrevie um pouco.
Aqui também pedem para abreviar.
Bem, depois
de muita burocracia, papelada,
de influências, conseguimos
trazer para a casa do meu irmão.
Depois de quatro horas
velando ela,
ligaram daí,
daí ligaram, falaram
com a minha cunhada e disseram
que o cadáver que temos aqui
não é o da minha mãe,
mas o de uma húngara.
Sim, húngara.
Sei lá como ela veio.
Existem húngaros.
Quebre esse galho,
porque estivemos
chorando inutilmente
uma estrangeira desconhecida...
Entendeu, amigo?
Quebre essa. Sim, obrigado.
Ele foi ver.
Mas circulem, por favor.
Não, tem razão.
Não aglomerem.
Vá para fora, circulem.
-Talvez não seja ela.
-Isso é que é azar.
- Eu nasci assim e não tem jeito, - Tudo dá errado.
- Você reclama? - Vou te contar minha vida.
Não precisa, Jorge.
Faz um calor infernal.
É isso, minha vida é um inferno.
Grosseiro!
Alô. Benigno?
Sim...
E não terá ninguém que...
Tem certeza?
Alguma... que poderíamos...
Bem, obrigado, querido.
E fico muito feliz por você,
É justiça. Tchau, Benigno.
- -E aí? - -E aí?
Não sabem nada
de nenhuma húngara.
Voilá.
Tanta gente baixa
existe no mundo, Nossa Senhora.
Bem, continuamos o velório.
Aqui não aconteceu nada.
Vamos para lá.
Deus te salve!
Ave Maria,
cheia de graça,
o Senhor é convosco...
-Estou aqui, Mamãe Cora.
-Que susto você me deu.
Desculpe por isso,
eu dei uma corrida.
-O que está fazendo?
-Um buquê de flores.
-Do lixo. Para quê?
-E eu sei lá para quê.
A única coisa que eu sei
é que ali na frente,
na casa do Sergio,
estão comemorando algo.
Que estranho isso, Mamãe Cora.
Muita gente.
Sim, desde a manhã.
Veio a Gertrudis, o Felipe,
a Rosaura, a Nora, o Antonio.
Você sabe quem é?
Até a Susana e o Jorge,
que não aturam Sergio e Elvira.
E estão lá, estão!
Mamãe Cora,
e como não convidaram você?
A culpa é minha, olhe,
porque eu não exijo.
Eu nunca exigi. Pelo contrário,
sempre dei para ele.
Dei tudo para ele.
Dei os móveis, as panelas,
até o lençol do meu casamento
eu dei para ele.
Você deu o lençol
e aproveitaram.
Mamãe Cora, quem é bom demais
acaba sendo idiota.
Viu como é? Mas fazer o quê?
Ates de tudo, sou mãe.
-E mãe é mãe.
-E uma mãe como você...
Eu teria na mesinha de luz
se fosse a minha.
-Como ficou o tesouro?
-Que tesouro?
-O bebê.
-Você tem um bebê, Dominga?
Como fico feliz.
Mas veja como te incomodamos
em um dia como este.
Por favor, não se preocupe.
Quanto açúcar?
Três.
-E você, Nora?
-Nada, amargo.
Que sacrifícios você faz
para se manter na linha.
Porque eu, te juro... Que calor!
Hoje batemos todos os recordes.
-Tem alguma dúvida?
-Para que nascemos?
Isso.
Seu desgraçado.
Para que nascemos?
Acho que vou chorar.
Então chore,
que isso alivia muito.
- Não, não vou, - Para não impressionar a menina.
Tenho que me esforçar
para não chorar,
mas sinto que vou me render.
De sacrifícios
é feita a vida de uma mãe.
Sim. Para depois os filhos
nos paguem com um chute...
-Na bunda.
-No traseiro.
Melhor seria criar corvos.
Porque são bichos,
arrancam seus olhos,
mas são bichos,
coitados, não sabem.
Mas um filho...
Olhe, se o inferno existe,
deve ser feito de filhos.
Se existe?
Mas, dona Elisa,
não tenho a menor dúvida
que isso não existe
nada além do inferno.
Elvirita.
O que me diz dessa tragédia?
- -Mamãe Cora! - -Cora!
- -Minhas filhas... - -Mamãe Cora!
Por que está aqui?
Quem está morto, então?
Lá, não.
-O que fazemos, Nora?
-Para o seu quarto.
Venha comigo, Mamãe Cora.
Como é inconsciente esta velha!
Alguém chora
no quarto da Matilde.
-Não.
-É a TV.
-Você tinha uma TV?
-Não.
É a TV da casa do vizinho.
Venha, Mamãe Cora.
Matildita, olhe que surpresa.
Matilde! Matilde!
- -O que foi? - -O que foi?
A chamada de hoje
era da delegacia, só isso.
Elvira, ignore essa chamada,
deixe a pobre Cora
ter um velório tranquilo.
Quem tem um velório tranquilo
é essa húngara.
Mamãe Cora está no meu quarto.
-O quê?
-Mamãe! Mamãe!
Que domingo, minha mãe,
que domingo!
Que domingo!
- -Mamãe! - -Mamãe!
Mãe, mamãe!
Que ilusão,
toda a família reunida.
-Estão vindo buscar.
-Buscar quem?
- -A morta. - -Esta?
Finalmente.
Por favor, cuide disso.
Sim, sim. Mas ouça,
que tirem ela pela janela.
E que os maqueiros
também entrem pela janela.
Eu não quero Mamãe Cora
saiba de nada.
E se a perdemos agora,
- depois da alegria - De recuperá-la?
Seria terrível.
Senhor!
O que aconteceu? Ouvi boatos.
Não é o Filipe?
Meu Deus, é um aviso.
Eu não bebo mais.
-Madame Cora!
-Gertrudis!
Que alegria!
Que lindas flores!
-É para você, madame Cora.
-Para mim?
Mas o que acontece hoje?
Quem faz aniversário?
Onde estava o dia todo?
Eu estava aí na frente,
na casa da Dominga, lembra?
Mas o dia todo?
É que o Jorge e a Susana
estavam muito nervosos,
então para não perturbá-los
queria deixar eles sozinhos
por algumas horas.
Tire rápido. Rápido!
Por que a Matilde
gritou tanto quando me viu?
-Como se eu fosse um fantasma.
-Não, não.
O que faz tanta gente aqui?
Viemos buscá-la
para ir a um velório.
-E quem morreu?
-Uma pobre húngara.
Que tragédia horrível!
Por que a velhinha se matou?
Eu imagino como você se sente,
porque eu amo os velhinhos.
Tenho uma paixão pelos velhos.
Eu acho que conheci uma húngara.
-Faz muitos anos.
-Deve ser a mesma.
Deve ser.
Então não podemos deixar de ir.
Como a vida é curta.
Elvira!
Que tragédia irreparável.
Viu como é isso?
Pergunte à senhora o endereço.
Mamãe Cora é amiga da mãe dela.
Diga, onde será
o velório da velhinha?
Qual o endereço
do velório da velhinha?
O velório, onde vai ser?
Ouça, o velório?
-E onde está a falecida?
-Que falecida?
Eu acabei dormindo
ao lado do caixão.
Qual caixão?
-Meu Deus! Meu Deus!
-Aqui está o endereço.
-O endereço de quem?
-O endereço da húngara.
Vão, vão.
Se forem rápido,
se tiverem sorte,
vão se divertir um pouco
e terão bons lugares.
Vá, senhora, vá.
Que tragédia horrível.
Me contou
a filha da pobre húngara.
-Au revoir, Elvira.
-Au revoir, querida.
Te esperamos amanhã
para a aula de francês.
Tchau, Nora.
- Não se despeçam um por um - Ou nunca acaba.
Vá, Mamãe Cora, vá.
E divirtam-se.
E que Deus abençoe a todos.
Elvira, minha filha
fugiu com a Matilde.
Depois mande ela para casa.
Me empreste ela.
- Até amanhã, - Para acompanhar a Matilde.
Ela não vai querer
dormir sozinha no quarto.
Está bem.
Eu aviso para o pai dela.
Bem, vão, vão. Aí está.
Me pergunto,
será a mesma húngara?
Mas Mamãe Cora,
que dúvida resta?
Nora, o que acha
de preparar algo,
agendar algo
para o próximo domingo?
Algo divertido.
Não passamos mal juntas, não é?
De que você ri?
De você.
De todos nós eu rio.
Tenho uma vaca leiteira
Não é uma vaca qualquer
Ela me dá leite merengado
Mas que vaca tão idiota!
A NOSSOS QUERIDOS PAIS
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