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Original subtitles

Gaza é uma estreita faixa costeira no mar Mediterrâneo,

faz fronteira com Israel e Egito.

Mede 40 km de comprimento, e 11 km de largura,

o território é lar de quase 2 milhões de palestinos.

Em 2005, Israel destruiu seus assentamentos e saiu de Gaza.

Logo depois, o movimento de resistência islâmica Hamas

chegou ao poder em eleições livres, e governa Gaza desde 2007.

Desde então, Israel impôs um cerco a Gaza, bloqueando as fronteiras.

Meu nome é Ahmed Jamal Al Aqraa.

Tenho 14 anos.

Meu pai tem três esposas.

Eu tenho 10 irmãs e 3 irmãos da mesma mãe.

Sou muito feliz por ter uma família grande assim.

Eu vivo no campo de refugiados Der Al-Balah.

Minha família inteira mora na mesma casa,

que tem só três cômodos.

Quase não há espaço para todos.

Algumas vezes, os meninos dormem na praia...

para aliviar a superlotação.

Eu me sinto muito mais confortável quando durmo na praia.

Eu nasci perto do mar,

moro perto do mar, e morrerei perto do mar.

Meu sonho é ter um barco de pesca.

Um grande.

Vou querer que meus irmãos e meus primos trabalhem comigo.

E eu vou ser o capitão.

Ahmed!

Venha aqui, quero te ensinar algo.

Sabe o que é isso, Ahmed?

É um aparelho de GPS.

Ele atrai os peixes?

Não, ele é usado para medir velocidade e distância.

Está vendo...

Você precisa prestar atenção neste motor.

É preciso verificá-lo constantemente.

Verifique a água e o óleo dele.

O que você precisa para desenvolver seu corpo?

Comida, não é?

E sua mente precisa de educação.

- Concorda comigo? - Sim.

É assim que você se tornará um grande capitão.

Um capitão que nunca será enganado. Aprendeu muitas coisas hoje?

Sim, aprendi.

Minha família por parte de pai é originária de Jerusalém,

Meu avô foi um dos primeiros advogados formados em Istambul.

Portanto meus antepassados ​​são de Jerusalém.

Já minhas irmãs e eu nascemos em Gaza.

Eu tenho três irmãs.

Minha filha Karma nasceu um ano antes da segunda Intifada

em 1999.

Foi uma época bem difícil para nós,

especialmente para Karma

porque ela é uma jovem muito sensível.

As pessoas de outros países

só enxergam que vivemos constantemente em guerra.

E eles se limitam a expressar simpatia conosco.

E essa superficialidade me incomoda bastante.

Eles só veem o que querem ver.

Eles deveriam se aprofundar mais.

Sempre que fecho os olhos e começo a sonhar,

eu me vejo numa ilha

e tudo que dá para ver é o mar.

Sempre que estou lá e respiro o ar do mar,

posso respirar liberdade.

O sentimento é incrível.

Não pode ser expresso com palavras.

Entre.

Há coisas que você não consegue expressar com palavras.

É por isso que tenho meu violoncelo.

É como se fosse o tradutor daquilo que eu sinto.

Espero um dia poder tocá-lo como uma profissional

e ele vai receber o tratamento que merece.

Espero um dia conseguir isso,

e ser criativa e feliz.

Mais de dois milhões de pessoas vivem em Gaza

em uma região com cerca de 40 km de comprimento e 10 km de largura.

Pode imaginar tantas pessoas vivendo em uma região tão pequena?

A maioria das pessoas aqui são gente comum como eu.

Eles querem ter o direito de viver suas vidas.

Querem poder cuidar de suas famílias e educar seus filhos.

Nós queremos paz.

Queremos uma vida normal.

Seja bem-vindo!

- Como vão as coisas? - Na paz de Alá.

- O de sempre? - Manda ver.

- Com leite? - Sim.

Um café com leite para o meu querido.

Uma deliciosa bebida para este grande ser humano!

Eu vivo em Gaza desde meados dos anos 1990.

Quando cheguei, eu tinha uns 20 anos.

Eu realmente queria vir morar aqui em Gaza,

porque fiquei sabendo que as pessoas aqui são mente aberta.

E que as pessoas não se metem na vida dos outros.

Eu vi muita coisa mudar em Gaza.

Mas nos últimos quatro anos,

de 2014 a 2018,

aconteceram mudanças radicais.

Em 2014,

as pessoas eram alegres, costumavam ser felizes.

Eu curto bastante andar de táxi.

Mas às vezes os motoristas fazem umas coisas estranhas.

Não é uma coisa incomum...

eles começarem a discutir com os passageiros.

Eu conheço um motorista...

que se você estiver no táxi e ele receber um telefonema de casa

pedindo para que ele compre verduras e pão,

ele insiste para que o passageiro o ajude a fazer as compras.

Já aconteceu comigo!

"Perdão, mas precisamos parar pra comprar pão."

E ele te leva para o mercado.

"Preciso comprar tomate, pepino, você vai comigo."

E você tem que ir!

Você passa o dia inteiro com ele!

Que horas começa a festa?

No início da tarde.

- De tarde? - Sim.

- Eu estou convidada? - É claro!

Vou trazer um presente pra Sara e pegar as meninas.

Falei que você estava convidada.

Eu sei imitar voz de criança.

Quer ouvir?

A noite passou, o amanhecer chegou, os pássaros estão cantando.

O menino vê um gato, ele chama e o gato faz "miau".

A mãe dele diz ao menino deixar o gato sozinho.

Ele joga os livros no chão, provoca o gato e o gato o arranha.

É isso que acontece quando você não escuta sua mãe.

Muito bom!

Meu nome é Mahmoud Osama Riashi.

Quando eu era menino, fomos morar na Jordânia.

Eu frequentei a escola na Jordânia.

Depois disso...

voltamos para Gaza para nos reunir com o resto da família.

E é dessa época a minha primeira memória do mar.

Eu trabalhava como fotógrafo.

Quando a guerra começou, precisei para de trabalhar.

Porque alguns dos meus amigos foram ou mortos ou ficaram muito feridos.

E temi que também fosse acontecer comigo.

Ei Shawqi!

- E aí, cara. - Bem-vindo, capitão.

Amo você, amigo.

Você andou sumido.

Há sete anos trabalho como salva-vidas.

Eu peguei esse emprego porque sou muito ligado ao mar.

Todo mundo sabe que em Gaza falta eletricidade.

As pessoas sabem que passamos falta de comida.

Não há água potável, não temos eletricidade.

Gaza é como uma grande prisão aberta.

Tento me apegar a pouca liberdade que tenho...

ainda posso me expressar com liberdade.

Tento me divertir e ter alguma alegria.

É claro que o cerco impõe sofrimento.

Então sempre estamos tentando encontrar soluções.

Para lidar com isso, é preciso lutar contra a rotina.

Mal começamos a trabalhar. Não costuramos nada ainda.

É uma loucura, só tivemos 10 minutos de energia.

Que Alá nos ajude.

O cliente já ligou mil vezes.

Dane-se todos eles.

Apagões de energia são um grande problema em Gaza.

Só temos quatro horas de energia por dia.

Como pode ver, já estou velho e mal consigo conseguir comida.

Como está o negócio da alfaiataria?

- Está como nos velhos tempos? - Sinto falta daquela época.

Você ainda quer abrir um negócio no Egito?

Se a fronteira abrisse, talvez eu iria para o Egito.

- E a confecção que você tinha aqui? - Precisei vender para sobreviver.

Precisou vender?

Eu tinha oito máquinas lá.

Só temos duas passagens de fronteira.

Rafah, no lado egípcio; e Erez, no israelense.

E há o mar.

Mas quem tentar sair pelo mar vai ser morto.

Eles matam qualquer um que tentar atravessar pelo mar.

A fronteira com o Egito está fechada, a de Israel também.

Toda a Faixa de Gaza está sitiada.

Completamente bloqueada.

Se algum dia chegarmos a um acordo de conciliação

acha que abrirão as fronteiras e teremos trabalho novamente?

Mesmo sem uma conciliação, precisamos ter mais empregos.

- Não acredita em conciliação? - Não...

Nunca vai haver uma conciliação com Israel.

O mundo inteiro virou as costas para Gaza,

por causa do Hamas.

O Hamas dificulta que a causa palestina seja resolvida.

Sim, filho.

Sim, estou escutando.

Verifique bem e chame a Cruz Vermelha.

Eles vão organizar uma maneira segura de você voltar.

Seu pai vai sair da prisão amanhã.

Vou comprar roupas novas para vocês.

Como vai receber seu pai quando vê-lo?

Vai beijá-lo?

Vai beijá-lo dos pés à cabeça?

- E você, Mohammed? - Também.

Vocês amam muito seu pai, não?

Graças a Alá ele está voltando.

Meu filho e uns primos saíram para pescar.

Eles estavam usando varas e anzóis.

Sem redes, isso para mim nem é pescar.

É só uma diversão.

Eles só fazem essa pesca simples,

por causa da restrição de 10 km.

E a patrulha de Israel apareceu e prendeu meu filho.

Sinto saudades. Não o vejo há dois anos.

Se você mencionar o sobrenome Bakr em Gaza,

dirão que são pescadores.

Nossas crianças aprendem a pescar aos 8 ou 9 anos.

Assim como nós aprendemos.

A pesca está nas nossas veias.

Não podemos viver sem ela.

Comecei a pescar com meus irmãos, e ficamos bom nisso.

No passado, as coisas eram melhores e tínhamos mais acesso ao mar.

Pegávamos muito peixe.

Era como um tesouro.

No resto do mundo, dá para ter uma vida digna com pesca.

Mas Israel impõe a restrição de 10 km, numa faixa onde há pouco peixe.

Esperamos que o futuro seja melhor e o mar seja nosso novamente.

Se acontecer,

em uma semana o barco estará pronto. Odeio vê-lo neste estado.

Com a restrição, não dá nem para sustentar os filhos com pesca.

E se você se arriscar indo um pouco além,

aparecem os israelenses para te humilhar.

E a patrulha decide...

o que fazer com você.

Podem atirar em você, prender

ou até mesmo deixá-lo nu no meio do mar.

Às vezes eles borrifam água de esgoto nos pescadores.

É humilhante.

Durante cinco meses,

o povo de Gaza protestou na fronteira com Israel,

preparando a Grande Marcha do Retorno, em 15 de maio de 2018.

O objetivo da marcha era exigir

o direito de retornar às terras de seus antepassados, de pais e avós.

Muita gente temia que o conflito que se aproximava

desencadearia outra guerra como a de 2014.

Nesses últimos 10 anos,

estes jovens ficaram sem futuro,

sem esperança.

Acordam todos os dias sem nenhum horizonte.

Eles não têm pelo que viver.

Todos os dias são a mesma coisa.

As únicas saídas estão bloqueadas.

As fronteiras.

Mesmo se uma pedra acertar um soldado, não vai feri-lo.

Mesmo assim a resposta será um tiro.

Alguém precisa ouvir os gritos destes jovens!

Eles acabam tendo membros amputados.

Jovens fortes, necessários para a sociedade...

acabam se tornando um fardo para a sociedade.

Acabam com a vida destes jovens.

A sociedade palestina está sendo destruída e dilacerada.

Eu sou a salvação para a alma

O presente também importa

Eu sou um pensamento profundo

Eu sou a balança da justiça

Eu sou aquele que todos duvidam

Minha caneta estimula a consciência

Eu sou a voz da consciência

Eu mato as injustiças E te mostro o obituário

Eu sabia que tinha algo chamado rap, mas não sabia o que era.

Então aprendi que era sobre expressar seus sentimentos.

Tenho um vulcão de coisas acontecendo dentro de mim.

As pessoas não entendiam meus sentimentos.

Não conseguiam compreender.

Tudo o que diziam era: "vai ficar bem, não se preocupe".

É uma dor que foi infligida

A vida o acolheu e o fez cantar

Culpem eles Não culpe a vida

Coloque-o de volta no túmulo É o que querem

Ele se feriu

Se pudesse voltar Eu mudaria o amanhã

Tudo o que precisamos É de uma chance

Eu cresci durante a segunda Intifada.

Eu era bem novo.

Tinha 10 anos.

É bem difícil para uma criança viver um conflito desses,

ainda mais sem entender bem o que ocorria.

Eu tinha só 16 quando levei o tiro. Era uma criança.

Fiquei caído no chão por quatro horas.

Enquanto eu estava caído, os israelenses me deram mais três tiros.

Fiquei lá caído, no meio da lama e do sangue.

Perguntaram seu eu podia me levantar.

Eu disse que não.

Foi quando me deram outro tiro no peito.

A bala passou bem perto do meu coração.

Me fingi de morto até uma ambulância vir me socorrer.

- Sem música a vida seria impossível. - Você está certo.

As ideias e as palavras são sempre mais fortes que as balas.

Pelo menos faço algo, não me sinto um fardo.

E isso me dá uma voz.

- Vamos, me dê sua mão. - O quê?

Eu tenho duas, não vou ficar com a sua.

Toque aqui!

Excelente!

Eu tenho 22 filhos que frequentam a escola.

22, talvez mais. Vamos ver.

Acho que são 22 mesmo.

Abdullah está na escola,

três, quatro...

cinco, seis, sete, oito...

Ahmed, 15... Emad, 16... Ramy, 17... Hany, 18...

Odai, 19... Asaad, 20.

Na verdade, tenho 20 filhos na escola.

Ahmed sabe muito pouco.

É o que tem mais dificuldades aqui.

Quando chegou, não sabia nem segurar um lápis.

Ele não conseguia nem segurar o giz para escrever no quadro.

Tento ajudá-lo o máximo que consigo.

O mais importante

é que a família consiga fazê-lo vir todos os dias.

Eu acho que sou o único na Faixa de Gaza

que tem 40 filhos.

Espero que Alá os ajude. É como se fosse uma sentença de morte.

Eu os trouxe ao mundo, agora sou responsável por eles.

Eu queria uma quarta esposa,

mas então decidi que três era suficiente.

A situação não está boa, e resolvi que era hora de parar.

Meu último casamento foi há cinco anos.

Não há mais espaço, a casa é muito pequena.

Já tenho dois filhos que têm idade para se casar.

E o Ahmed, em dois anos, poderá se casar também.

Meu irmão Hani nos ensinou tudo que sabemos sobre o mar.

Tudo sobre o mar.

O mar é traiçoeiro. Às vezes, perdemos nossas redes.

É traiçoeiro.

Quem não souber nadar bem vai se afogar.

Não tem peixes por aqui.

Tem dias que só comemos sal.

Morar perto do mar me conforta. Me dá uma sensação de liberdade.

Mas, ao mesmo tempo, nos faz recordar nossa miserável realidade.

Podemos ver a imensidão do mar,

que está inacessível para nós.

Há uma fronteira invisível.

É uma enorme tortura.

Quando penso em como vivemos,

e comparo com a vida de adolescentes em outros países,

é tão injusto.

Eu adoraria poder estudar no exterior,

e me formar em direito internacional ou ciência política.

Quero deixar minha marca,

e ajudar meu povo.

Se uma nova guerra se iniciar,

o que vai ocorrer com meus estudos?

O que vai acontecer comigo? Para onde eu irei?

Não sei.

Traga seus vestidos, Najah.

Vai dar este para Sarah?

Minhas origens são beduínas, e amo como minha avó se vestia.

Ela costumava usar um traje tradicional.

Tenho uma clara memória de como minha vó se vestia.

Eu quero levar adiante essa tradição.

Eu organizei o primeiro desfile de moda em Gaza.

Foi fantástico. Significou muito para nós.

As pessoas se perguntavam como algo tão belo poderia acontecer em Gaza.

Quero que o mundo conheça as mulheres de Gaza.

De como são bonitas, modernas e talentosas.

Precisamos esquecer um pouco de nossa vida terrível.

E se as fronteiras forem abertas,

vou te levar para ser modelo no país que quiser.

Na França, nos Estados Unidos...

Recebi vários convites para organizar desfiles no exterior.

Mas atualmente não nos permitem viajar.

Quero que deixe Gaza orgulhosa de você.

Há muitas mulheres que são forçadas

a se cobrir e usar véus.

Mas muitas outras são livres para se mostrar.

Há um aspecto religioso envolvido,

mas para mim é, sobretudo, uma questão de escolha individual.

Eu ainda não me cubro, porque sou nova.

Mas se for vontade de Alá, eu o farei no futuro.

Usar o hijabe é um grande compromisso.

Então, se eu for usá-lo, farei da maneira certa.

Quando eu for me cobrir, quero estar comprometida com isso.

É natural do ser humano querer julgar os outros,

assim que vê outras pessoas.

Não é porque usamos hijabe...

que somos pessoas superficiais.

Não me avalie pela aparência, enxergue minha essência.

Quando eu era criança,

Gaza era bem liberal nos costumes.

Tínhamos uma vida comum.

Podíamos ir à praia e usar trajes de banho.

As mulheres não cobriam a cabeça naquela época.

Não havia as restrições que temos agora.

Com todas as dificuldades que tínhamos no passado,

nunca imaginei que piorariam tanto como agora.

Todas as noites, enquanto Karma e minhas outras filhas dormem,

eu me sento ao lado da cama delas e acaricio seus cabelos.

E fico me perguntando se foi justo da minha parte

trazê-las à vida nesta situação.

Como eu pude obrigar minhas meninas

a ter de sobreviver a três guerras?

Sou diretor de teatro em Gaza.

Passei a minha vida inteira no palco.

Sou casado, tenho três filhos e três filhas.

Criamos nossos filhos

esperando que o futuro seria melhor. Mas não foi.

Meus seis filhos se formaram na universidade,

esperando conseguir empregos. Mas não conseguiram.

Existe um muro que se ergue

entre o povo de Gaza e a própria vida.

Uma grande muralha que afasta as pessoas de seus sonhos.

- Pode me levar ao teatro? - Entre.

Olá!

- Como vai? - Bem, graças a Alá.

Onde mais encontraríamos paciência suficiente para curar nossas dores?

- Está de bom humor! - Estou com um ótimo humor!

Quando você está preso nesta situação, só resta o bom humor!

- É a única maneira de lidar. - Tem razão.

Se não der um jeito de extravasar...

tem um ataque cardíaco. Igual muitos amigos meus.

Está certo, precisamos nos cuidar!

Sobrou eu, só estou esperando minha hora!

É por isso que você tem que continuar cantando!

Oh, minha querida.

Oh, minha querida.

Amo tudo em você Minha querida

Seu cabelo é meu luar

- Gostou dessa? - Excelente!

Incrível!

Um verdadeiro artista!

Sempre que caminho pelo campo de refugiados,

no caminho de casa para o mercado,

sinto pesar em cada passo que dou.

Vejo as crianças brincando com pedras no meio das ruas sujas.

Vejo os homens sentados na porta de casa, sem emprego.

Vejo homens que desperdiçaram

15 ou 20 anos de suas vidas jogando dominó.

Você consegue sentir o sofrimento do povo.

Há muita gente que vive nessa miséria terrível.

Já nem percebem mais a extensão de seu sofrimento.

Meu filho vai sair da prisão hoje.

Mal posso esperar para que ele volte para casa, para seus filhos.

No dia que meu filho foi preso, soltaram nossos primos. Só levaram ele.

Havia um boato...

que os israelenses descobriram algo contra ele.

Mas conheço meu filho. Ele não aprontou nada.

A Frente Popular de Libertação saúda a libertação do prisioneiro Ammar Bakr!

Parabenizamos nosso povo e a família Bakr

pela libertação de nosso prisioneiro.

Ammar Mohammed Najib Bakr!

Queremos nossa independência.

Queremos nos livrar da ocupação israelense.

Queremos ser livres, como qualquer outro país.

Não vamos conseguir aguentar mais 60 anos de ocupação.

Está ocorrendo enfrentamentos entre jovens palestinos

e os israelenses em Nahel Ouz,

no lado leste do bairro de Shujaiyah, na cidade de Gaza.

Estão lançando pedras.

Os jovens não temem sacrificar a vida lutando por liberdade.

Enquanto Israel ocupar nossas terras, não vão desistir.

E enquanto fizerem isso, nosso dever é ajudá-los.

Olhe pra direita, agora pra esquerda.

Não é nada. Respire um pouco de ar fresco e ficará bem.

Se você olhar nossa atuação como paramédicos,

verá que temos muito pouco recursos para tratar das pessoas.

Por causa do cerco a Gaza,

suprimentos médicos são muito difíceis de conseguir.

Mas do lado israelense, eles têm de tudo.

Como está o trabalho?

Mal dá para pagar o que gasto de gasolina.

Mas está com saúde, é o que importa.

Seu carro precisa de cuidados. Precisa lavá-lo, cara!

Estou sem dinheiro pra isso, a coisa não está fácil.

Nem me diga!

Tenho esta loja e mal consigo sobreviver.

Mas fazer o quê?

- Fique um pouco e vamos tomar chá. - Obrigado, mas eu preciso ir.

- Não suma! Que Alá te proteja! - O mesmo! Cuide-se!

Se precisar de alguma coisa...

Sou como qualquer outra pessoa comum em Gaza.

Eu trabalho duro, muito mesmo.

Mas mal posso sustentar minha família.

Não consigo pagar as contas.

Eu passei um ano na prisão,

porque não consegui pagar minhas dívidas.

Eu mesmo me entreguei...

e pedi para ser preso,

porque não tinha como pagar minhas contas.

Na prisão, eu conheci pessoas que jamais imaginei presas.

Eu conheci 46 dos maiores comerciantes de Gaza.

Donos de revenda de carro e de outros grandes negócios.

Parecia que toda a população de Gaza estava endividada.

Israel impõe um cerco a Gaza para nos forçar a ficar de joelhos.

Para fazer com que os palestinos esqueçam suas terras.

É um desastre atrás do outro.

Como um povo pode sobrevier dessa maneira?

Qualquer povo precisa ter indústrias e agricultura.

Estamos privados de nossas principais fontes de subsistência.

Os mortos estão em melhor condição do que os que vivem na Faixa de Gaza.

Os mortos têm mais comodidade.

Apesar das guerras, dos levantes e do atual cerco,

tentamos nos convencer de que é preciso paciência,

de que o amanhã será melhor.

E estamos vivendo assim desde que eu nasci.

É como se estivéssemos em um carro presos no atoleiro.

Não podemos nos mover nem pra frente nem pra trás.

Estou me preparando para o espetáculo de hoje.

Entro no palco no fim da tarde, espero uma boa plateia.

Ontem o menino Atallah foi nadar no mar.

Uma bala zuniu pelo ar...

veio de um israelense.

Seu corpo...

caiu na água.

Ele...

ficou como um peixe carregado pelas ondas...

Um fio de sangue escorria do coração,

O sal ardia em seus lábios...

"Atiraram em Atallah!"

"Eu vi o helicóptero de Israel com um sniper atirando."

"Atallah está morto!" Sua mãe, Somah, correu até lá.

E todas as mulheres da vizinhança a seguiram.

Somah se atirou sobre o garoto.

Meu irmão era mais velho do que eu.

Eu tinha 11, ele quase 14.

Eu me lembro, eu estava na escola...

quando eu escutei três tiros.

Quando voltei para casa,

minha mãe,

e os vizinhos estavam chorando.

Foi assim que descobri que meu irmão havia sido morto.

Senti uma dor forte no coração.

Foi a primeira vez na vida...

que eu experimentei a morte.

Meu filho, que está com quase 7 anos,

já passou por duas guerras.

Meu pai já está com quase 70 anos de idade.

Em quantas guerras ele já sofreu?

Uma, duas, três, quatro, cinco, seis...

Guerras demais.

Está ardendo!

Respire fundo.

- Abra os olhos, deixe-me ver. - Não consigo.

- Qual seu nome? - Mohammed.

O que aconteceu?

- Eles jogaram gás. - Abra os olhos.

Vai ficar bem, a dor vai passar.

Respire, respire. Relaxe, relaxe.

Durante a última guerra,

eu não vi minha família por 52 dias.

O turno noturno começa às 3 da tarde e vai até às 7 da manhã.

16 horas consecutivas.

Uma coisa que não consigo lidar é quando meus filhos me perguntam:

“quando você vai voltar pra casa?"

Minha profissão é muito difícil.

Por isso respondo: "Se Alá quiser, eu volto."

“Se Alá quiser, nos veremos de novo.”

Quando comecei neste trabalho, eu ainda era solteiro.

Não havia esses sentimentos tão difíceis de lidar.

Nós queremos viver. É isso que as pessoas precisam saber.

Não queremos ser mortos ou ficar feridos.

Queremos viver!

- Olhe lá! - Que avião é?

É um F16.

Eles levam dois mísseis.

Quando comecei a tocar violoncelo,

era o meu escape da realidade.

Mas com o passar do tempo...

ele se tornou um incômodo.

Ele me leva de volta a um tempo,

que eu não quero lembrar.

Disseram que meu pai está ali, mas não consigo encontrá-lo.

Quatro crianças da mesma família chegaram mortas ao hospital Al Shifaa.

A maior parte dos mortos é da família Bakr.

Eles moram no campo de refugiados na parte oeste da Cidade de Gaza...

Gaza sofreu pesadamente nos 50 dias de conflito com Israel.

2200 palestinos foram mortos.

Quase 500 eram crianças.

60 soldados israelenses,

e seis civis israelenses foram mortos no conflito.

É uma dádiva ter minha família comigo.

Muita gente perdeu tudo nesses conflitos.

Sou afortunado.

Tivemos sorte dessa vez.

Em Gaza, você nunca sabe

o que vai acontecer nos próximos cinco minutos.

Vivemos em constante medo por nossa segurança.

Essa visita a nossa antiga casa

me traz sentimentos conflitantes.

Os israelenses ocuparam o topo da casa vizinha

por mais de quatro anos.

Do telhado, eles atiravam nos jovens

que atiravam pedras.

Lembro quando os israelenses bateram e quebraram as costelas de meu pai.

Foi perto daquela porta ali.

Eles bateram na minha mãe e a jogaram no chão.

São memórias dolorosas.

Quando eu era adolescente,

queria crescer logo, para me tornar uma combatente.

Meu grande desejo era matar soldados israelenses.

Era o meu sonho,

porque eu vi os israelenses matar tantos jovens palestinos.

Mas eu cresci e percebi

que essa roda de violência e morte não resolveria nada.

Há muitas outras maneiras de lutar contra eles.

Não precisa ser por meio da violência.

É difícil. Alá sabe como é duro.

Não somos feitos de ferro.

Somos seres humanos.

Sinto muita raiva de todo mundo...

exceto dos palestinos.

14 de maio de 2018,

foi um dos dias mais sangrentos da história de Gaza

desde os conflitos de 2014.

60 manifestantes foram mortos, e mais de 2500 ficaram feridos

pelas armas dos soldados israelenses.

A última guerra foi há quatro anos,

e todos nós sentimos que uma nova se aproxima.

Estamos presos nesta roda infindável de conflitos.

Somos forçados a reviver esta tortura sempre e sempre.

Quando isso vai acabar?

Quando?

Alá nos ajude.

Tradução e legendas: Troskim.

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