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A vida como a conhecemos come�a com sal.
Surgiu neste mundo h� 4,5 mil milh�es de anos
e difundiu-se pelo planeta,
temperando os nossos oceanos
e acumulando-se em densos dep�sitos sob a crosta terrestre.
H� milhares de anos que os humanos fazem as coisas mais extraordin�rias
para extrair sal.
No Corno de �frica, na ponta mais distante do Grande Vale do Rifte,
pr�ximo de onde se pensa que os humanos come�aram a evoluir,
fica um dos pontos mais baixos do planeta.
Um fosso vulc�nico cerca de 150 metros abaixo do n�vel do mar,
que cont�m um corpo de �gua dez vezes mais salgado do que o oceano.
Este � o Lago Assal.
LAGO ASSAL JIBUTI
Caravanas de camelos transportam sal desta paisagem sobrenatural h� s�culos.
Antigamente, chamavam-lhe "ouro branco".
Omet Moosa � dos �ltimos que ainda hoje trabalha com sal.
N�s somos sal.
Est� em n�s.
Est� � nossa volta.
A cada momento, todos n�s temos mais de dois saleiros
de cloreto de s�dio dentro de n�s.
Percorrendo o nosso sangue, dilatando as nossas c�lulas,
permitindo que o nosso cora��o bombeie, os m�sculos retraiam, o c�rebro funcione.
Mas � mais do que biologia.
Mais do que necessidade.
Se aprofundarem melhor,
descobrir�o que a hist�ria do sal � a nossa hist�ria.
Meu lindo camelo
Vamos ver o que vai acontecer juntos
Todos os camelos se cansam Todos os camelos se cansam
Tirando tu
Todos os camelos se cansam Todos os camelos se cansam
Tirando tu
OMN�VOROS
CAP�TULO 3 SAL
Vamos cobrir assim de sal,
com as patas de fora.
V�o a um restaurante, e a comida est� insossa.
� o pior que pode acontecer a um cozinheiro.
Um cliente pedir sal?
Isso cria um p�nico instant�neo.
Quando eu me tornei cozinheiro, o sal era apenas sal.
Era o mesmo sal de mesa fino que todos os restaurantes tinham.
S� quando comecei a viajar e a explorar o mundo
� que percebi que o sal tem mais que se lhe diga.
Extra�do de lagos de montanhas.
Escavado de cavernas.
Fervido do oceano.
Dinamitado de minas.
Rosa das montanhas. Preto vulc�nico.
Azul cristal.
De todo o sal extra�do da terra,
pouco tem a qualidade ou o selo
do sal retirado das po�as de mar� da costa ocidental de Fran�a,
a flor de sal.
Na sua tortuosa viagem pelo Atl�ntico,
pelos sapais e po�as de mar�,
a salinidade aumenta de intensidade � medida que a �gua evapora.
Aqui, na ilha de Noirmoutier,
o sal impulsiona a economia da ilha desde a idade das trevas.
NOIRMOUTIER FRAN�A
A sua hist�ria com 1300 anos est� repleta de flutua��es.
Mas algo se manteve constante.
O trabalho delicado de extrair flor de sal tem de ser feito manualmente.
Veteranos experientes como Elisabeth e Fabien
passaram anos a aprender a retirar os fr�geis cristais da superf�cie da �gua.
SALINEIRA
� verdade que, quando vemos um sapal,
conseguimos perceber a quem pertence.
Pela forma como o moldamos com as m�os,
inevitavelmente introduzimos um pouco de n�s.
Nos meus sapais podem ver-se as minhas obsess�es e os meus defeitos.
A parte de mim que � muito organizada...
... que pensa que n�o h� tempo a perder.
Tudo tem de ser gerido o melhor poss�vel.
Como � um bom dia para um salineiro?
� um dia em que se possa secar a roupa ao ar livre.
Na verdade, n�o extra�mos sal.
O sal forma-se � nossa frente enquanto o retiramos.
� diferente do sal que vem das minas ou do Jibuti.
Esse sal formou-se h� milhares ou milh�es de anos
e vem de mares que secaram.
N�s seguimos o processo de cristaliza��o.
� dif�cil de extrair e requer muito tempo,
por ser um fen�meno da superf�cie.
Mas h� um aspeto misterioso.
N�o h� uma f�rmula para a flor de sal.
N�o se pode dizer: "Com esta quantidade de �gua
e esta quantidade de sol,
pode fazer-se flor de sal."
SALINEIRO
Fa�o-me muitas perguntas sobre como funciona.
Por vezes, fa�o sal branco. Outras vezes, � mais cinzento.
�s vezes, h� algas no sapal. Outras vezes, n�o h�.
J� discuti isto com os meus amigos salineiros.
E, �s vezes, estas perguntas n�o t�m resposta.
Na Natureza, temos de nos adaptar.
E � isso que explico �s crian�as.
Podemos viver bem se nos adaptarmos.
Eu e o meu filho, o Gustave, fazemos tudo o que os meus pais n�o me deixavam.
Andamos descal�os.
Eu ensino-o a usar brocas e diferentes ferramentas.
Fazemos diques com lama.
Tudo o que quer�amos fazer em crian�as.
E � incr�vel.
Vamos ver a sa�da da �gua.
Se est� aberta ou fechada.
Ele j� tem o seu pr�prio sapal.
Est� aberta.
- Podes fech�-la? - Sim.
Ele diz que � o sapal dele. � o sapal do Gustave.
�timo.
E � mesmo o sapal dele.
O que fazemos em Noirmoutier n�o se faz em muitos outros s�tios,
mas continuamos a faz�-lo.
Secamos o sal ao sol e n�o usamos quaisquer m�quinas.
N�o usamos nenhum tipo de energia.
Pomos o sal numa mesa grande e deixamo-lo secar ao sol.
E, ap�s estar seco, separamo-lo � m�o.
A flor de sal tem algo diferente,
algo mais...
Acho que algo mais crocante.
H� quem ache que saiba a violeta.
� como o vinho de Beaujolais.
H� sabores diferentes todos os anos.
Cada pessoa sente um sabor �nico.
O sal est� presente em todos os aspetos da nossa hist�ria.
Os n�meros dizem tudo.
H� mais de 14 mil utiliza��es diferentes para o sal,
desde fazer borracha a derreter neve.
Hoje em dia, apenas 3% do sal � usado na comida.
Durante 2600 anos, o governo chin�s controlou o sal.
� o monop�lio mais antigo do mundo.
Os impostos recolhidos pagaram o ex�rcito imperial
e a Grande Muralha.
A l�ngua cont�m in�meras palavras baseadas no sal.
Salsicha. Sal�rio. Salaz.
A palavra "sal" encontra-se nas p�ginas das escrituras mais sagradas.
"Sal da terra."
"Um fresco e doce, um salgado e amargo."
"Cada um ser� salgado com fogo."
- Ol�, tudo bem? - Ol�.
- � uma �poca grande. - Sim.
Cada l�grima humana, cada gota de sangue,
cada pingo de suor,
est� repleto de sal.
Houve alturas em que um grama de sal custava o mesmo que um grama de ouro.
Hoje, um quilograma de sal custa cerca de 20 c�ntimos.
N�o a flor de sal.
Um quilograma do sal dos sapais de Fabien e Elisabeth
custa mais de dez d�lares.
Quando terminar a sua viagem,
esta flor de sal estar� em cozinhas de todo o mundo.
FLOR DE SAL
Nos primeiros tempos do noma,
o or�amento era limitado, tal como os comensais.
N�o t�nhamos m�quinas nem equipamento moderno.
E a primeira coisa em que pens�mos foi:
"E se cobr�ssemos coisas com sal?"
Cobr�amos algo � volta de um ingrediente
para que a sua ess�ncia se mantivesse.
Primeiro, foi no inverno, e us�mos raiz de aipo e beterraba.
E um ingrediente muito banal e simples como o aipo
transformou-se em algo luxuoso.
Lembro-me de que o cobr�amos com muito sal e, algumas horas depois,
podia servir-se com uma colher, como um gelado.
Podia servir-se o aipo muito suave e saboroso.
Era o melhor que j� comera, na altura.
Pronto.
Podemos tomar o sal como garantido,
mas, n�o h� muito tempo, ele era tudo.
O sal moldou a espiritualidade desde o princ�pio da civiliza��o.
Influenciou as nossas cren�as e rituais e as hist�rias que contamos de n�s mesmos.
SALINEIRA
Maras existe desde antes dos incas.
Maras foi transmitida de gera��o em gera��o,
e continuamos a trabalhar com sal.
Estas s�o as l�grimas de Ayar Cachi,
o deus destinado a estabelecer o imp�rio inca.
Fechado numa gruta pelos seus irm�os ciumentos,
ele chorou at� ter criado as Salineras de Maras.
Os incas transformaram esta rede sofisticada de salinas,
a tr�s mil metros de altitude nos Andes, num ecossistema pr�spero.
Ainda hoje continua, virtualmente inalterada.
Demonstra o engenho de uma das sociedades mais avan�adas.
Come�amos por fazer circular o sal.
Em qu�chua, chamamos-lhe "chulquir".
E, depois, pisamo-lo.
A seguir, apanhamos o sal cor-de-rosa.
O sal cor-de-rosa pode ser usado para todo o tipo de comida.
Assados, pratos principais, molhos. Serve para tudo.
Ap�s a queda do imp�rio inca,
o sal de Maras era sobretudo usado nas pequenas comunidades
que rodeiam as salinas.
Hoje, gra�as a uma cooperativa unificada e a um canal de distribui��o global,
o seu valor � apreciado muito al�m dos Andes.
O sal de Maras � apenas uma parte de uma consci�ncia crescente
da contribui��o dos incas para o mundo gastron�mico.
E, quando os melhores chefes de cozinha do mundo querem compreender
um ingrediente selvagem ou uma t�cnica esquecida desta regi�o,
v�m ter com Cleto.
AGRICULTOR
A principal miss�o de Cleto � um tipo diferente de preserva��o.
Quer relacionar s�culos de sabedoria com a comida e as tradi��es atuais.
A minha paix�o � ensinar.
Adoro ensinar as coisas que aprendi na vida.
Como o pouco que aprendi sobre a cultura andina
e a hist�ria dos incas.
Historicamente, charqui vem da �poca dos incas.
Aqui, no topo dos Andes,
� adicionado sal a alpaca e a carnes frescas para fazer charqui.
Seca, port�til, potente e deliciosa.
Podem conhec�-la como carne seca,
mas come�ou como uma forma de comer carne durante os frios meses de inverno.
O meu pai e a minha m�e faziam charqui.
Foi com eles que aprendi a fazer charqui.
Charqui � uma forma de preserva��o.
Se deixarmos a carne aqui, ela apodrece em dois ou tr�s dias,
mas, com o processo de charqui, conseguimos preserv�-la.
O sal � a d�diva do tempo.
Uma pitada pode estender uma esta��o durante uma eternidade.
De bacalhau a presunto
e a legumes salgados,
a preserva��o atrav�s do sal
permitia ter sempre comida dispon�vel,
o que nos possibilitava conhecer melhor o mundo.
No noma,
quando t�nhamos aberto h� apenas cinco, seis ou sete meses,
depar�mo-nos com alho-porro.
Tem uma pequena semente.
Uma esp�cie de rebento.
Um dos nossos forrageadores disse que, antigamente,
era usado para fazer alcaparras.
Bastava ser salgado e passar por um processo de fermenta��o.
� um ingrediente extraordinariamente vers�til
que tem o sabor forte do alho,
a do�ura da cebola cozinhada, a salinidade de uma alcaparra
e a acidez que se obt�m
com um fermento l�cteo como kimchi ou chucrute.
Nadine.
� simplesmente incr�vel.
Funciona.
Que acontece quando se adiciona sal a legumes ou a um peda�o de carne?
Com o tempo, o lactobacilo, uma bact�ria probi�tica, forma-se.
Alimenta-se dos a��cares naturais,
extrai acidez e preserva a vida, por vezes, indefinidamente.
Os legumes em picle do Leste Europeu.
Os queijos de leite de ovelha do Levante.
Barris de arenque na Escandin�via.
N�o s�o apenas produtos principais,
mas pilares das culturas de onde v�m.
Poucos pratos desempenham um papel t�o central na cultura de um pa�s
como o kimchi na Coreia.
SEUL COREIA DO SUL
O ato de fazer kimchi � um ato de comunidade feito por milh�es
em todo o pa�s no outono, antes da chegada da primeira geada.
Para os coreanos, � vital como �gua ou ar.
� o quanto o nosso corpo requer kimchi.
� um alimento que o nosso corpo pede.
Posso conseguir viver sem o meu marido, mas n�o consigo viver sem kimchi.
Os coreanos comem muitos legumes.
Preservamos legumes em sal,
adicionamos tempero e processamo-los com fermenta��o.
� a isso que chamamos kimchi.
MESTRE DE KIMCHI
Quando eu era pequena e tinha uns dez anos,
lembro-me de a minha m�e fazer kimchi com vizinhos.
Bebiam vinho de arroz e cantavam can��es depois de fazerem kimchi.
A minha fam�lia demorava tr�s dias a fazer kimchi.
Depois, �amos a outra casa ajud�-los a fazer kimchi.
E, depois, a outra casa.
As pessoas entreajudavam-se.
� uma mem�ria preciosa e maravilhosa que tenho.
Ol�! � bom v�-la. Bem-vinda.
S�o couves ideais para fazer kimchi.
N�o � incr�vel? O cheiro...
Espetacular!
Tamb�m gosto das cebolinhas. Fa�a a conta.
Certo.
Pass�mos de uma cultura que faz kimchi
para uma cultura que compra kimchi.
O kimchi tornou-se um produto que se compra.
As pessoas substitu�ram os ingredientes de qualidade
por outros mais baratos devido � concorr�ncia.
Foi a� que decidi come�ar o meu pr�prio neg�cio de kimchi.
O meu objetivo � reproduzir o sabor de qualidade
do kimchi que as nossas m�es faziam.
Apesar de ter uma empresa que produz kimchi,
acho que o meu verdadeiro talento � ensinar sobre kimchi e cultura.
M�SICA DE KIMCHI
Kimchi, kimchi, delicioso kimchi Kimchi, kimchi, vamos fazer kimchi
Est�o prontos?
Sim!
Kimchi, kimchi, delicioso kimchi Porque � o kimchi bom para mim?
Querem saber?
Sim!
O kimchi est� cheio de lactobacilo
Que limpa os nossos intestinos
O kimchi previne doen�as E mant�m-nos saud�veis
O kimchi � um superalimento
Vamos comer kimchi
Sim!
Agora, vou mostrar-vos como esta enorme couve
se torna assim pequena.
Para fazermos encolher esta grande couve precisamos de sal.
Certo?
Tenho receio de que o kimchi n�o seja consumido pelas futuras gera��es.
O nosso kimchi est� pronto.
Est�o a aplaudir-me? Muito obrigada!
As fam�lias comem mais fora.
N�o fazem kimchi em casa.
E n�o d�o muito kimchi aos filhos.
T�m todos luvas?
Sim!
Tentem juntar a pasta de malagueta.
Vou ver como est� a correr.
Sim, junta a pasta assim.
Muito bem!
Quando as crian�as fazem kimchi e o levam para casa,
come�am a com�-lo,
porque o fizeram elas pr�prias.
Fermentar � mais do que preservar.
Confere sabor.
Quando os micr�bios desfazem compostos maiores na comida,
intensificam sabores existentes e criam outros novos no processo.
Sabores �cidos intensos.
Sabores umami ricos que os humanos nunca provaram.
Camada a camada, juntamos temperos
e pomos tudo num frasco.
E enterramos o frasco no ch�o para fermentar.
Amadurece de forma deliciosa.
Todos os sabores fortes do mundo s�o viciantes.
Ap�s provarem kimchi uma vez,
as pessoas s� querem comer mais.
Salgar comida � algo que se vai aprendendo.
Passo a passo.
Em pequenos, cozinhamos o primeiro ovo.
Juntamos-lhe sal. E percebemos de quanto gostamos.
Uns mais, outros menos.
Enquanto cozinheiro,
e provavelmente a coisa que mais pessoas se esquecem,
� importante provar e temperar.
A comida pode passar de insossa, pouco inspirada,
talvez at� algo de que n�o gostam para algo delicioso,
viciante, "quero mais", "quando posso repetir",
"faz novamente na pr�xima semana".
Uma pitada de sal pode fazer essa diferen�a.
Claro que um chefe profissional que n�o saiba usar sal...
N�o sei.
Pode considerar-se sequer cozinheiro?
O sal est� na ess�ncia de tudo.
Verdadeiramente.
Vamos fazer um enorme huatia!
Apesar das nossas diferen�as,
apesar de tudo o que torna um ser humano diferente dos outros,
uma sociedade distinta das outras,
h� algumas coisas que nos unem.
Sobretudo o que comemos.
A comida � tudo.
M�e Terra, honramos-te.
Sa�de, Elena, filhas, sobrinhas, sobrinhos...
- Sa�de, pai. - Sa�de.
O sal pode ser necess�rio para a sobreviv�ncia,
mas � tamb�m essencial para um dos ingredientes mais vitais
para os seres humanos.
A nossa procura por prazer.
Gustave, d�s-me a flor de sal, por favor?
Podes p�r. P�e um bocadinho aqui.
�timo! Vai ficar delicioso.
� o que torna a vida mais deliciosa.
Imaginem uma batata assada sem sal.
Um ovo estrelado sem sal.
Uma refei��o ou uma vida sem tempero.
Parece �timo.
Sim?
Trinta e cinco minutos.
A comida nunca � apenas comida.
� um espelho.
Um microsc�pio.
Um mapa.
Est� bom?
� a hist�ria de quem somos.
Legendas: Lara Kahrel
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