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� entrada do mar Mediterr�neo
h� uma armadilha que existe h� tr�s mil�nios.
Acima da �gua, aparece apenas como uma longa faixa de boias laranjas.
Mas, sob a superf�cie, passa-se algo muito mais significativo.
Um labirinto de cordas e n�s,
criado para interromper a migra��o primaveril
de um dos predadores mais brilhantes da Natureza.
O atum-rabilho do Atl�ntico.
H� poucos ingredientes que envolvem uma rede mais diversa e complexa
de oper�rios, artes�os, chefes de cozinha, intermedi�rios e comensais do que este.
Mas a reviravolta mais surpreendente desta hist�ria surgiu nos �ltimos 50 anos.
Lote tr�s!
Algo outrora t�o indesej�vel...
Sai da�.
... hoje � muito valioso para pessoas de todo o mundo.
Poucos animais demonstram melhor a amplitude da economia alimentar mundial
e o poder do apetite humano para transformar o mundo.
E o in�cio dessa jornada
� um confronto entre pescadores e o mar.
A almadraba.
OMN�VOROS
CAP�TULO 2 ATUM
BARBATE ESPANHA
MERGULHADOR PRINCIPAL
Podemos passar a vida no mar,
mas nunca devemos perder o respeito por ele.
O touro pode apanhar o melhor toureiro.
Aqui, � a mesma coisa.
Vivi em Barbate toda a vida.
Os meus pais s�o de Barbate.
Quando tinha 16 anos,
comecei a mergulhar e a pescar.
Cada um escolhe o caminho que quer.
Bom dia.
Ao longo da costa do Sul de Espanha,
uma das tradi��es de pesca mais antigas do mundo
mant�m-se inalterada.
Ao amanhecer, em barcos cheios de pescadores experientes,
o ar pesado de d�vida quanto ao que a pesca do dia trar�.
Chamam-lhe almadraba,
uma ca�a ao atum que se estende da primavera ao in�cio do ver�o.
� uma forma de vida.
Chega fevereiro, e come�a a cheirar-se a almadraba.
Quando maio chega, � altura do atum, atum e mais atum.
H� 30 anos, a reserva global de atum estava t�o baixa
que a almadraba quase desapareceu.
Hoje, o atum-rabilho � um dos peixes mais valiosos do oceano,
tal como era quando os fen�cios criaram o elaborado sistema de pesca.
Tr�s mil anos depois, a armadilha permanece quase inalterada.
Foi um artista que a inventou.
Era um grande g�nio.
Pensou: "Como posso apanhar estes animais pondo uma rede fixa no mar
onde eles entrem e n�o consigam sair?"
O poder da almadraba � a sua simplicidade.
Quase n�o h� captura acidental com o sistema de redes.
Tudo o que � mais pequeno, sejam anchovas, lulas ou atuns beb�s, consegue passar,
deixando apenas os atuns adultos.
Quando entramos na �gua, esquecemos tudo.
Estamos l� com os atuns, e mais nada.
O animal, quando v� a rede e a escurid�o da rede, assusta-se.
Os mergulhadores re�nem o cardume com bolhas dos tanques.
Basta um movimento em falso para os atuns voltarem para tr�s.
Com um simples fio, um mergulhador conta a pesca do dia.
Cem peixes por n�.
Oitocentos no total.
Depois, a porta da armadilha � cuidadosamente fechada.
Rede a bordo!
Com o puxar da rede, os peixes aproximam-se da superf�cie.
O capit�o da frota d� o sinal.
� hora de ca�ar.
H� uma boa raz�o para o sistema ainda ser conhecido pelo seu nome �rabe.
Almadraba, "um lugar para lutar".
Tenho um corte na cara, na mand�bula.
Foi um atum. Um atum grande, com 500 quilos.
Nunca se perde o respeito.
Nunca se perde.
H� uma grande mudan�a na t�cnica de pesca antiga.
A lupara, uma arma de fogo comprida de a�o.
Surgiu mais recentemente para trazer ordem � almadraba.
A bala de ponta oca de 12 mil�metros faz com que o fim seja r�pido.
Os peixes n�o asfixiam lentamente na rede.
N�o se contorcem num anzol.
� uma morte direta e instant�nea.
Quando damos um tiro a um atum, ele fica intacto.
O atum n�o sofre nem se afoga.
Mant�m a sua cor azul e amarela.
Mant�m-se bonito.
A morte d� ao peixe um valor monet�rio,
posse, at� prote��o legal.
Uma etiqueta amarela torna-se o seu passaporte,
do conv�s deste barco ao outro lado do planeta.
Este atum, pescado das �guas do Sul de Espanha,
deixou de ser um animal selvagem.
Agora, � um bem global.
Altamente valioso e iminentemente perec�vel.
A partir daqui, cada passo da sua complexa jornada
� cuidadosamente concebido, at� ao mais �nfimo pormenor.
O com�rcio de atum-rabilho come�ou com os fen�cios,
quando transportavam atum salgado pelo mar Mediterr�neo
para ser comido em tabernas gregas.
Os romanos seguiram-se e juntaram-lhe outra camada de valor.
Prensaram atum seco ao sol num dos primeiros molhos do mundo, o garo,
mantendo esta regi�o do Sul de Espanha abastada durante s�culos.
Mas o tempo da pesca at� � cozinha diminuiu dramaticamente.
Hoje, o que importa � a frescura e manter a cadeia de frio ininterrupta.
A temperatura interna de um atum em tr�nsito
nunca deve ultrapassar os 4 oC.
Da almadraba n�o percebo muito.
INSPETOR DE ATUM-RABILHO
Percebo � dos peixes na terra.
Quando descarregamos um peixe, � essencial que o atum n�o perca a cadeia de frio.
Trabalhamos com pouco tempo.
Um peixe que descarregamos �s seis da manh�
tem de ir a caminho dos mercados �s dez da manh�.
Cada mercado tem uma qualidade diferente.
H� pessoas mais e menos exigentes.
Eu realizo os testes para verificar a qualidade.
Podemos avaliar a gordura, a cor, tudo.
Se a qualidade n�o for boa, a cor tamb�m n�o o �.
O atum-rabilho representa 1% do atum pescado no mar.
Espadarte, atum-de-barbatana-amarela, albacor.
S�o estas as esp�cies que dominam as prateleiras e frigor�ficos nos mercados
de todo o mundo.
Mas o atum-rabilho tem algo especial que lhe d� mais valor. Gordura, e muita.
A combina��o de carne macia e delicada e de gordura intramuscular salgada
� algo que o mundo tanto deseja e valoriza.
Isso mant�m empresas como a Petaca Chico ocupadas com encomendas,
transportando atum para compradores em Espanha, na Europa e mais al�m.
A procura est� a crescer a n�vel mundial.
� isso que faz com que o valor do peixe continue a aumentar.
Mas, por tr�s das t�cnicas refinadas usadas no processo,
h� uma presen�a constante.
Uma for�a potente que mant�m as redes a funcionar.
Uma presen�a t�o significativa que, entre 1970 e 1990,
o pre�o m�dio do atum-rabilho pago aos pescadores do Atl�ntico subiu 10 000%.
Que ajudou a transformar o atum de um peixe insignificante a um tesouro?
O Jap�o.
Come�ou nos anos 60.
Na altura, mal havia atum na culin�ria japonesa.
A carne gordurosa era dada aos animais, mas n�o era um peixe apreciado.
Depois, os tempos mudaram. As pessoas mudaram. Os paladares mudaram.
A carne de vaca tornou-se popular ap�s a guerra no Jap�o,
alterando o paladar nacional a favor de carne mais escura e rica.
O atum deixou de ser a captura acidental e passou a ser a captura.
Mas, nos oceanos ao redor do Jap�o, havia apenas um n�mero limitado.
A procura e os pre�os aumentaram,
mas n�o o n�mero de atuns que podiam ser comprados e vendidos.
At� algu�m ter mudado a situa��o.
Akira Okazaki, um gerente intermedi�rio
que trabalhava no departamento de cargas da Japanese Air Lines.
Nos anos 70, a sua fun��o era encontrar carga
que pudesse ser carregada em avi�es vazios que regressavam ao pa�s.
De avi�o, em 15 horas,
os seus bens podem estar em T�quio ou do outro lado do mundo, em Paris.
Bens valiosos que precisavam de ser transportados rapidamente
e que garantidamente seriam vendidos.
Okazaki-san descobriu o atum-rabilho.
Tr�s anos de testes constantes
foram necess�rios para desenvolver um contentor com sistema de refrigera��o
que fosse suficientemente leve e tamb�m mantivesse o atum fresco
nuns perfeitos 0 oC por um per�odo de 40 horas.
Em 1972, os primeiros atuns foram do Canad� para o Jap�o.
Os peixes n�o estavam congelados, mas frescos.
Poucos dias separavam o oceano e os locais de leil�es.
Os sistemas criados para transportar atum,
a tecnologia de refrigera��o, a log�stica, os regulamentos e a papelada
passaram a ser usados para transportar outros bens gastron�micos valiosos.
Assim nasceu a rede alimentar moderna e mundial.
Espargos do Equador,
morangos de Marrocos...
MERCADO DE PEIXE OSACA, JAP�
... abalone de Om�.
Tempo, valor e procura.
Polvilhem que chegue destes tr�s ingredientes
e o espa�o entre a origem e o comedor reduz,
desde que estejam dispostos a pagar o valor certo.
Lote um!
S�o 1425!
Com um sistema de entrega t�o complexo,
n�o admira que o atum seja muito solicitado.
Os melhores atuns-rabilhos s�o vendidos por cem mil d�lares ou mais.
E o leiloeiro tem de se certificar de que o pre�o � o mais elevado poss�vel.
Centenas de atuns-rabilhos, dezenas de pa�ses de origem
e uma legi�o de intermedi�rios autorizados est�o prontos para responder a pedidos
de milhares de compradores em seis continentes.
Se h� alguma demonstra��o do poder da economia gastron�mica global,
ela est� nos locais de leil�es destes mercados de peixe por todo o Jap�o.
S�o 2900 ienes!
Se dois compradores fizerem a mesma oferta,
o famoso jogo de pedra, papel ou tesoura conduz o acordo a um resultado civilizado.
N�o h� maior cole��o de criaturas marinhas
em qualquer lugar da Terra como nos muitos mercados do Jap�o.
Como este, em Osaca.
Este vasto espa�o parece uma enciclop�dia dos sete mares.
Peixes-chatos e crust�ceos.
Limpa-fundos e bivalves.
Pequenos camar�es e enormes lulas.
Um testamento salgado do nosso dom�nio dos mares abertos.
Estes mercados s�o um nexo de movimento, dos polos at� ao equador.
Se pode ser apanhado e comido, � muito prov�vel que acabe aqui
ou em qualquer um dos v�rios mercados de peixe internacionais
existentes nos centros urbanos mundiais.
Mas o poder impressionante dos mercados de peixe modernos
levanta uma pergunta urgente.
Conseguir�o os oceanos suportar o apetite humano?
T�QUIO JAP�O
Sonho todos os dias com atum.
S� penso em atum, 365 dias por ano.
At� quando n�o trabalho, pergunto-me como estar� no dia seguinte.
Para alguns, o atum � um neg�cio e uma obsess�o.
INTERMEDI�RIO DE ATUM
Yukitaka Yamaguchi n�o � s� um comerciante de atum.
� um encantador de atum.
Um homem possu�do por todos os pormenores destes magn�ficos peixes.
A sensa��o quando corto um atum oferece-me um momento de calma.
� um momento em que me sinto livre e claro.
N�o imagino a minha vida sem atum.
O brilho da pele.
O aroma da gordura.
A densidade da carne.
Tudo isso ajuda a procura de Yamaguchi-san pelo peixe perfeito.
Esta dedica��o aos pormenores mereceu-lhe a sua alcunha,
o "Rei do Atum" de T�quio.
N�o h� uma b�blia.
Usei os meus v�rios anos de experi�ncia para compreender o atum.
Afinal, n�o podemos perceber um atum se n�o o abrirmos.
Parte central da barriga de um atum. Este � maravilhoso.
Vamos limp�-lo. � maravilhoso.
A parte superior da barriga do n.o 17.
Yamaguchi-san e outros h�beis peixeiros no Jap�o
n�o vendem s� o lombo e a barriga do atum-rabilho.
Este � enorme. Chegam tr�s?
Cortes valiosos s�o tirados das bochechas marmorizadas,
da coluna carnuda, da cauda tendinosa.
Querem um peda�o magro, certo?
- Sim. - Este serve.
Por tr�s desta arte aperfei�oada
est� um conceito japon�s vital, mottainai.
"Nada se desperdi�a."
Fujinaga, que achas desta parte escura? N�o � boa?
� uma filosofia nobre para qualquer alimento,
mas sobretudo para uma criatura t�o extraordin�ria como o atum-rabilho.
Este corte vender� bem.
A empresa dele exporta atuns
comprados nos leil�es de T�quio para clientes de todo o mundo.
PARA O DUBAI
Diariamente, pode processar at� 30 atuns,
com destino a um dos mil restaurantes que Yamaguchi-san abastece.
Bom dia!
Como especialista, tenho de saber tudo sobre atum.
- Vai cortar atum? - Sim.
Isso � absolutamente essencial. Tenho de responder a qualquer pergunta.
Os de Wakayama que me deu pareciam rijos quando abri a caixa,
mas n�o estavam nada.
- Porque eram de corrico. - Eu sabia.
- O atum de corrico era muito bom. - Sim, s�o tenros.
Ao conversar com os clientes
e ao comer o sushi deles,
percebo que tipo de atum combina melhor com o arroz que servem.
Um homem em particular...
MESTRE DE SUSHI, SUSHI SAITO
... valoriza o talento e a experi�ncia de Yamaguchi-san.
Takashi Saito, um mestre moderno de edomae sushi.
Mesmo que saibam fazer sushi, s� se podem considerar chefes de sushi
se comprarem voc�s mesmos os ingredientes.
T�m de saber o que acham ser bom para cozinhar ou fazer sushi.
Chefe, vou-me embora, mas vemo-nos na segunda-feira.
- Certo. Muito obrigado. - Obrigado.
Obrigado mais uma vez.
Foi por volta da altura em que terminei o secund�rio.
O mestre da peixaria onde eu trabalhava a tempo parcial
levou-me a um restaurante de sushi.
Influenciou-me muito.
Parecia um mundo muito requintado, e eu gostei bastante.
Mas apaixonei-me pelo sushi a faz�-lo.
Na altura, tratava-se mais de perseverar
do que de fazer sushi.
Come��mos muitos, talvez uns dez, e alguns desistiram passado um dia.
Seis meses depois, j� s� �ramos metade.
E, ap�s um ano, s� restava eu.
A �nica altura em que pegava numa faca era quando cozinhava para os superiores.
Mas, aos poucos, come�ou a deixar-me muito feliz.
E decidi viver assim.
O sushi depende dos ingredientes.
Preparamos o sushi para real�ar os sabores.
� o que fazemos.
O resto � t�cnica e intui��o.
� absolutamente �nico.
O sushi � apenas uma cobertura, arroz e molho de soja.
� incrivelmente simples.
N�o se trata de o fazer na perfei��o,
mas de ter a mente e o corpo no mesmo estado.
O sushi trata-se de equil�brio.
Saito-san � o que os japoneses chamam de shokunin.
Um artes�o profunda e unicamente dedicado ao seu of�cio.
Um fabricante de facas.
Um mestre de cer�mica.
Um chefe de sushi.
Todos passam a vida a tentar aprender
e a refinar os pequenos pormenores do caminho que escolheram.
S� um shokunin pode honrar a viagem imposs�vel do atum-rabilho.
S� ele pode transformar a sua mistura de gordura e carne
numa dentada em que pensar�o durante dias, ou at� mais.
Peixe cru, ligeiramente quente, arroz avinagrado e a mem�ria muscular
de toda uma vida passada a treinar para servir esta �nica dentada.
Por isso se esperam anos para comer ao balc�o de hinoki de Saito-san.
Porque o sushi a este n�vel
� um dos maiores atos de transforma��o do mundo gastron�mico.
Sirvo o atum por ordem de magro, m�dio e gordo.
Queremos mostrar aos clientes que, mesmo que a textura seja a mesma,
o sabor � muito diferente.
Por exemplo, a parte magra, akami, � da zona traseira do peixe.
A parte m�dia, chutoro, � da zona interm�dia.
A mais gorda, otoro, � da barriga.
A parte vermelha tem a menor quantidade de gordura,
mas a falta de gordura confere-lhe mais sabor e acidez.
A chutoro e a otoro t�m gordura,
e a chutoro tem o melhor equil�brio entre as partes magras e gordas.
Ele sente que, quando vai ao mercado, consegue ver a diferen�a no peixe?
Cada vez menos peixe.
Repara na diferen�a de ambiente
sempre que vai ao mercado de Toyosu?
Comparando com h� dez anos, quando ainda havia o mercado de Tsukiji,
o ambiente mudou imenso.
A quantidade de atum n�o � a mesma de h� dez anos.
J� n�o vejo os atuns gigantescos que me deixavam estupefacto.
Agora, o abastecimento alimentar est� a desaparecer rapidamente,
e acontece o mesmo � cadeia alimentar.
O n�mero de peixes est� a diminuir rapidamente.
Atualmente, o pre�o n�o � elevado s� porque a comida � deliciosa.
� por n�o haver peixes suficientes dispon�veis.
Por isso � t�o dif�cil. � um verdadeiro dilema.
Estou grato por ter podido vir aqui.
Tanto pela comida deliciosa como pela oportunidade
de testemunhar tamanha mestria.
No Sushi Saito, a qualidade do atum-rabilho
e uma vida de pr�tica e experi�ncia implicam que o peixe seja caro.
Noutros s�tios, a economia do atum-rabilho valoriza o peixe de forma diferente.
Bem-vinda! Mesa para um?
- Vim ter com uma pessoa. - Certo.
Por aqui. Sente-se, por favor.
CHUTORO FRESCO
O sushi de passadeira foi criado no Jap�o
em 1958 para alimentar apetites cada vez maiores com menos funcion�rios.
O conceito era simples: mais r�pido, mais barato, mais quantidade.
Tudo o que est� nos pratos de pl�stico,
incluindo nigiri otoro, dos mais vendidos, custa 200 ienes.
Cerda de 1,50 d�lares.
Num pa�s que consome anualmente cerca de meio milh�o de toneladas de atum,
uma alta percentagem � servida em passadeiras.
Mais do que outros estilos de comer,
o sushi acess�vel apresentou o atum-rabilho a um p�blico mais vasto
e testou o futuro deste peixe.
BALI INDON�SIA
A comida sempre foi uma medida da dist�ncia que nos separa.
H� dois mil anos, caravanas chinesas passavam anos na Rota da Seda
para transportar bens b�sicos europeus como trigo e vinho para o Extremo Oriente.
No s�culo XV, comerciantes de especiarias venezianos
demoravam meses a levar noz-moscada e pimenta de barco para o Ocidente.
Hoje, o atum-rabilho do Atl�ntico � pescado no Mediterr�neo numa segunda,
vendido num leil�o em T�quio na ter�a
e chega a uma mesa para dois junto a uma piscina em Bali
antes de o sol se p�r no terceiro dia.
Obrigada.
- � bom. - Numa quest�o de d�cadas,
o peixe tornou-se o ingrediente por que todos anseiam.
O sushi exp�s t�o bem o atum-rabilho
que o resto do mundo o come�ou a reconsiderar.
Bistr�s em Paris.
Cevicherias em Lima.
Rulotes de comida em Las Vegas.
As culturas gastron�micas de todo o mundo encontraram uma forma
de aproveitar a gordura e o sabor do atum-rabilho.
Mas estar�o os nossos paladares demasiado limitados?
H� um oceano cheio de peixes.
Porque acabamos por comer sempre os mesmos?
Robalo da Am�rica do Sul.
Alabote do Norte do Atl�ntico.
Salm�o de quase todo o mundo.
Mas haver� uma alternativa?
Ol�! Tudo bem?
Ol�! Como est�o?
Vou cantar flamenco.
At� j�.
Sempre admirei �ngel Le�n.
CHEFE/PROPRIET�RIO, APONIENTE
Dedicou a sua carreira a elevar os her�is n�o celebrados do oceano.
No seu restaurante, Aponiente,
localizado logo acima da costa da almadraba,
conquistou o quase imposs�vel.
Ganhou tr�s estrelas Michelin usando principalmente peixes locais desconhecidos
em vez de estrelas mundiais, como lagosta e caviar.
Para �ngel Le�n,
o facto de ainda conseguir comprar atum, pescado nas �guas ao redor de C�dis,
� visto como um milagre.
Em 2009, a popula��o de atuns estava � beira do colapso.
Todos os pa�ses envolvidos no com�rcio de atum-rabilho
foram obrigados a enfrentar a realidade.
Uniram-se para salvar a esp�cie e a sua ind�stria,
com o Jap�o a oferecer uma solu��o.
A chave � a etiqueta amarela.
O passaporte do atum-rabilho.
Todos os atuns-rabilhos do Leste do Atl�ntico recebem uma.
Uma identidade �nica para cada peixe,
localiz�vel em todo o mundo.
� o suficiente para responsabilizar todas as partes interessadas.
E o suficiente para recuperar o atum-rabilho do Leste do Atl�ntico.
Mas o equil�brio continua fr�gil.
Se n�o vivesse em C�dis, n�o cozinharia atum.
Acho que � um peixe global que perdeu a sua identidade.
Podemos com�-lo em Nova Iorque, em Sarago�a,
em Madrid, em Castell�n.
Mas a alma est� aqui, na �gua, na hist�ria e na cultura.
Perdeu a sua ess�ncia.
Eu nunca pediria atum fora de onde vivo.
E acho que isso � um problema.
Vivemos num mundo um pouco caprichoso.
Todos querem comer o melhor que o mundo tem para oferecer.
E o atum � o mais desejado do mar.
J� est�. Vamos p�-lo na grelha, por favor.
Um, dois, tr�s. �timo.
N�o abrimos a mente para pensar que, se este animal � pescado aqui,
o mais l�gico e o melhor seria que ficasse nesta zona.
Mas o dinheiro faz com que valha tr�s vezes mais do que aqui.
Acho que, no final, precisamos que viaje para que tamb�m o possamos comer.
Sen�o, n�o se conseguiria pagar a infraestrutura da almadraba,
os barcos de pesca e todo o espa�o.
� um paradoxo.
O mundo gastron�mico est� repleto deste tipo de paradoxos.
E o atum-rabilho significa algo diferente para todos.
Vamos comer. Comam, por favor.
Por favor.
Para o povo de Barbate,
� uma cultura que remonta h� gera��es.
Continua a brilhar
Meu farol marinheiro
E brilham tamb�m os corais Que a minha sereia leva no cabelo
L� vai ela
A espalhar sal em Ca�os de Meca Onde a espero...
Qual � a coisa certa a fazer?
Pode ser dif�cil saber que comida comer ou que sistema apoiar.
Mas o fundamental � que as nossas escolhas s�o uma das formas mais diretas
de podermos moldar o tipo de mundo em que queremos viver.
E brilham tamb�m os corais Que a minha sereia leva no cabelo
Por agora,
os nossos esfor�os conjuntos ajudaram a restaurar a popula��o de atum.
� um lembrete delicado do qu�o facilmente o nosso apetite pode influenciar o mundo
e de como � importante aprendermos com os nossos erros.
Com um atum de Barbate
Vou d�-lo todo � minha m�e para comer
Ol�!
Legendas: Lara Kahrel
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