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N�s somos o que comemos.
Esta � a receita mais antiga e verdadeira que conhe�o.
Seguindo essa medida,
sou dezenas de quilos de amoras colhidas quando crian�a nos prados da Maced�nia.
Eu tamb�m sou o alho selvagem, colhido por um jovem chef
no ch�o da floresta ao longo da costa da Dinamarca.
Sou uma pitada de sal retirada de mar�s distantes,
alimentada pelo mineral que moldou a sociedade por mil�nios.
Todas essas mordidas me trouxeram at� o Noma, meu restaurante em Copenhague,
onde passei os �ltimos 20 anos com a minha equipe
aprendendo tudo sobre os ingredientes que nos alimentam.
Mas os ingredientes fazem mais do que nos alimentar.
Eles nos unem e nos dividem.
Eles nos decifram e nos definem.
Eles abastecem economias,
pol�ticas de poder
e desvendam verdades ocultas sobre quem somos e para onde estamos indo.
Esta � a hist�ria dos itens do cotidiano
que mudaram o mundo de maneiras que a maioria de n�s nunca imaginou.
Some todos e voc� obter� uma receita para a humanidade.
No centro dela, est� um ingrediente
que imprimiu na minha mente os poderes transformadores dos alimentos,
e � onde esta jornada come�a.
QUER SE JUNTAR A N�S? E-MAIL | loschulosteam@gmail.com
CAP�TULO 1 - PIMENTA
Quando eu era crian�a na Maced�nia,
me lembro dos homens do nosso vilarejo carregando pimenta nos bolsos.
A gente se reunia ao redor da mesa para banquetes.
Entre mordidas de frango assado e arroz,
eles davam mordidinhas nas pimentas picantes.
Me cativou aquele estranho ingrediente
e como algo t�o pequeno podia ser t�o poderoso.
Parecia a porta de entrada para um mundo que eu desconhecia.
Anos depois, eu sonhava com pimenta.
O que ela iria fazer comigo?
Que mist�rios esse estranho ingrediente desvendaria?
O que me esperava depois daquela primeira degusta��o
da pimenta?
A pimenta nasceu aqui, na Bacia Amaz�nica, h� milh�es de anos.
Por mais linda e sedutora que seja, a pimenta arde por um motivo:
Evitar que animais famintos destruam as preciosas sementes.
Um dos designs geniais da natureza.
O mundo animal respondeu e deixou a pimenta em paz.
Bem, nem todos os animais.
Os p�ssaros.
A �nica esp�cie imune � pic�ncia da capsaicina.
O outro animal: N�s. Os humanos.
M�veis, engenhosos e famintos por castigo.
No bico dos p�ssaros e no por�o dos barcos,
a pimenta se espalhou de seu ber�o na Amaz�nia para todo o planeta.
Em 1493, Colombo voltou com not�cias de um novo mundo
e um punhado de p�s de pimenta.
Por volta de 1500,
Portugal a levou ao Extremo Oriente e mudou a comida para sempre.
Quinhentos anos depois,
esta fruta picante virou parte da nossa identidade.
Uma amostra do que significa ser humano:
Experimentar a dor em busca do prazer e sempre ultrapassar os nossos limites.
Quanto arde a pimenta?
O Dr. Wilbur Scoville quis saber em 1912, ent�o diluiu a pimenta em �gua com a��car
e contou as gotas necess�rias para a pic�ncia sumir.
Este virou o m�todo para medir a pic�ncia das pimentas.
A escala de Scoville.
Esta � uma viagem dos sop�s mais amenos aos cumes mais picantes
onde cada parada revela uma nova camada de calor,
uma nova rela��o com os temperos
e uma nova dimens�o de n�s.
A pimenta s�rvia, comumente usada para fazer p�prica...
PIMENTA P�PRICA
...faz parte da esp�cie mais universal de pimenta, a Capsicum annuum.
Com apenas 250 pontos na Scoville,
esta pimenta suave e frutada � mais um beijo do que uma mordida.
S�RVIA
No cora��o da S�rvia,
n�o muito longe da mesa de jantar em que descobri a pimenta,
voc� encontrar� um lugar onde as pimentas dominam a vida cotidiana.
Um vilarejo chamado Donja Loko�nica,
em que cada um dos 1.200 cidad�os
produz em m�dia tr�s toneladas de p�prica por ano.
Secadas como cortinas vermelhas de teatro em todas as superf�cies que o sol toca.
Para as pessoas desta comunidade unida,
a p�prica n�o � um p� que acumula poeira na dispensa,
mas um tempero vibrante que d� cor � identidade e fortalece a sobreviv�ncia.
O povo de Loko�nica n�o imagina
a vida sem a pimenta.
BEM-VINDOS AO REINO DA P�PRICA
A pimenta � melhor aqui em Loko�nica.
Demos as nossas sementes pra outros vilarejos.
A pimenta n�o crescia l�.
Eu n�o sei por qu�.
Talvez esta terra seja especial. Talvez seja o clima.
Tem alguma coisa especial aqui.
PIMENTICULTORA
Vamos pegar outro.
As mulheres costumam amarrar. Os homens sabem, mas n�o fazem.
� muito dif�cil pra eles.
Meu ombro direito ainda d�i.
Usamos guirlandas pra secar a pimenta.
A tradi��o � formar uma r�stia.
A pimenta � mais que um trabalho de tempo integral.
Ent�o, n�o paramos.
Os principais produtores s�o a Marina e o Boban. S�o a minha filha e meu genro.
PIMENTICULTORA
Diz pro Boban que pode descarregar agora. Tem espa�o suficiente.
PIMENTICULTOR
Eles s�o os chefes.
E o meu neto Danijel tamb�m trabalha com eles.
Sacode um pouco.
Todas as gera��es da minha fam�lia eram pimenticultoras.
Meu av�, meu pai e outros estavam todos envolvidos.
Ent�o vou continuar nisso tamb�m.
Comecei a trabalhar com a fam�lia quando estava no 8o ano.
PIMENTICULTOR
Eu ajudo o quanto posso. N�o � f�cil.
Meu marido, meu filho mais velho e eu estamos sempre no campo.
Estamos sempre ocupados.
Devemos assar mais?
Nasci no meio da pimenta.
Passei a vida inteira comendo pimentas e ganho a vida com elas.
Tenho que aprender a fazer isso.
Vai aprender, mas primeiro tem que tirar essas unhas.
Como diz o ditado, fui criado com pimenta e banha.
DIRETOR DA COOPERATIVA DE P�PRICA
H� hist�rias de que a pimenta veio da Am�rica do Sul,
e eles a deixaram para ser transmitida de gera��o em gera��o.
�s vezes fazemos pimentas recheadas,
ou picadas, ou moemos pra churrasco.
A panela tem que ir ao fog�o pra fritar o ajvar.
Estamos bem preocupados com os pr�ximos 15, 20 anos.
Os jovens n�o se interessam por agricultura em geral.
Eles est�o conseguindo outros empregos.
Ano ap�s ano, temos menos produtores.
Coloco a��car e sal?
Sim, pode p�r.
Est� uma del�cia.
Isso est� t�o gostoso.
Incr�vel.
Vamos comer.
Ajvar delicioso...
Os jovens est�o indo trabalhar em empresas.
A agricultura � um trabalho f�sico e dif�cil.
E o lucro � pequeno.
Eles n�o querem mais cultivar.
Eles preferem trabalhar em empresas.
A maioria dos meus amigos nunca faria isso.
Tamb�m tentei trabalhar numa empresa.
Mas simplesmente n�o era pra mim.
� um momento decisivo pra nossa produ��o.
Enquanto agricultores familiares lutam para competir com a ind�stria agr�cola,
a gera��o de Danijel decidir� o destino dos nossos ingredientes mais importantes
e tradi��es preciosas.
Meu filho se interessa mesmo pela agricultura.
Trabalhar n�o � problema pra ele.
Estou muito feliz por ele ficar, se for o que ele quer.
Eu disse pra ele: "� uma decis�o sua, n�s vamos te apoiar."
Ele escolhe o destino dele.
Esta pimenta � de qualidade soberba,
e seria uma pena se n�o a preservarmos.
Senhoras e senhores,
queridos convidados dos vilarejos e de longe,
bem-vindos ao 16o Festival do Dia da P�prica.
Este dia � dedicado a um dos vegetais mais famosos da regi�o:
A renomada pimenta p�prica de Leskovac.
Por s�culos, este vilarejo manteve viva a antiga receita de cultivo
e produz a p�prica mais suculenta e saud�vel do mundo.
N�s nos reunimos
para melhorarmos a qualidade e a quantidade
e, acima de tudo, para termos menos dificuldades e vivermos mais.
Acredito que seja o melhor pra mim.
Queria seguir o que a minha fam�lia vem fazendo h� anos.
Em sua forma mais pura,
a min�scula e brilhante pimenta tabasco atinge 50 mil na escala de Scoville.
� uma for�a que merece respeito.
Mesmo assim, a maioria das pessoas sentir� o gosto da pimenta tabasco
em sua forma l�quida mais suave.
Prontos?
- Prontos? - Ent�o vamos.
Se algu�m fizesse um molho rival hoje, usando nosso m�todo,
n�o conseguiria vender nenhum por uns cinco anos.
N�o. N�o pegamos esse pedacinho.
Como dizemos aqui, da semente ao molho, demora cinco anos.
Inclui o processo de envelhecimento de tr�s anos.
Uma tradi��o consagrada pelo tempo, e n�o estamos s� dizendo isso.
ILHA DE AVERY - LOUISIANA, EUA
Cresci entre a Maced�nia
e um dos pa�ses que menos usa pimenta no mundo, a Dinamarca.
Ame ou odeie, por anos, o Tabasco era o �nico que existia.
Uma porta de entrada para um mundo mais picante.
Duvido que algu�m tivesse ideia da origem desse misterioso molho vermelho.
Esta � a hist�ria de uma fam�lia e de sua receita de 150 anos
de um p�ntano salgado no sul da Louisiana que ajudou a arder o mundo todo.
ILHA DE AVERY
� preciso uma ilha muito especial Um sol muito especial
E pimentas muito especiais Para fazer o �nico
Tabasco, Tabasco
MOLHO DE PIMENTA - MARCA TABASCO
O molho original de pimenta
Tem quem ache que Tabasco seja qualquer molho de pimenta.
ARQUIVISTA DA FAM�LIA AVERY
N�o � o caso. Existe s� um Tabasco,
o molho original de pimenta, feito na Ilha de Avery, na Louisiana.
Edmund McIlhenny, inventor do Tabasco,
mantinha registros meticulosos.
Este � um dos dois cadernos que cont�m memorandos sobre suas correspond�ncias.
Bom, um destes, este aqui mesmo,
para Hugh Auchincloss, em Nova York, em 18 de janeiro de 1868,
diz que ele agradece pela lente para o microsc�pio
e envia a ele "uma garrafa do meu molho de pimenta Tabasco",
sabe, como forma de agradecimento.
Essa � a primeira refer�ncia conhecida ao molho Tabasco pelo nome.
Segundo a tradi��o familiar, Edmund, depois da Guerra Civil,
voltou para a ilha, e achamos que ele come�ou a cuidar da horta da fam�lia.
E, sabendo que as pimentas estragam muito r�pido depois de colhidas,
� preciso tritur�-las e mistur�-las com um pouco de sal,
sen�o, elas estragam.
Achamos que ele fez isso, al�m de adicionar vinagre.
� dessa mesma forma que se faz chucrute.
Ele come�ou a fazer esse molho de pimenta pras refei��es da fam�lia.
Por volta de 1890, a empresa crescia cada vez mais.
Estamos em 195 pa�ses e territ�rios ao redor do mundo.
Existimos em 35 idiomas e dialetos.
Ao contr�rio de outras marcas ic�nicas,
o Tabasco ainda � feito pela fam�lia do seu inventor.
Tabasco.
Tabasco
Hoje, permitimos que o pur� de pimenta fermente naturalmente.
Ele envelhece por at� tr�s anos.
E esse processo de fermenta��o acelera de verdade no ver�o.
Queremos os armaz�ns a mais de 37 graus l� fora no ver�o,
porque isso d� in�cio ao processo de fermenta��o.
Realmente suaviza o sabor do pur�.
E a� ele fica pronto pra pr�xima etapa.
O cheiro foi a parte mais dif�cil de se acostumar.
Na hora de ir pra casa, tinha muita coriza e olho vermelho.
Acho que, com o tempo, voc�...
DEPARTAMENTO DE MISTURA
O Tabasco entra no seu sangue.
N�o fico mais com essas manchas, meu nariz n�o escorre.
O molho vermelho, eu diria, � como um bom vinho.
A arte reside no envelhecimento.
� isso que nos separa de muitas outras pessoas.
E, sabe, no nosso mundo, todo mundo quer tudo r�pido.
Ent�o, sentar e esperar para produzir ele perfeito
pro cliente e pra nossas fam�lias que comem ele
� bastante �nico.
N�o se pode apressar o processo. N�o tem como fazer r�pido.
O pur� diz quando estiver pronto.
Ao entrar no pr�dio,
voc� v� a gente escumando e produzindo o molho Tabasco.
N�o � apressado. � uma arte de produ��o.
Cada barril � tocado, cada barril � tratado.
Cada barril � verificado. Cada barril passa pelas m�os de cada um
pra se certificar de tudo.
Nosso CEO tamb�m aparece
e inspeciona os barris todas as manh�s.
Checamos todos os 96 barris, todo dia.
Parte do meu trabalho, e do trabalho de todo CEO,
� descer e inspecionar o pur� antes de produzirmos o molho.
� dif�cil explicar, pois, ao saber tanto do produto,
quando voc� enfia a concha no pur�
e a levanta, voc� sente o cheiro. � t�o r�pido que voc�...
Existem tantas notas diferentes a se buscar.
Essa � de carvalho, essa � amadeirada, essa � verde,
essa � fresca, essa � fermentada.
O Tabasco n�o foi feito pra tirar o gosto do que voc� cozinhar.
O objetivo � voc� ainda ter o seu toque na sua comida.
N�s s� a real�amos.
Nenhuma ave migrat�ria, nenhum explorador portugu�s
influenciou tanto o dom�nio da pimenta no mundo quanto os molhos picantes.
Durante centenas de anos, culturas diversas em todo o mundo
t�m triturado e transformado as pimentas em intensificadores.
Nas �ltimas d�cadas, assistimos � transforma��o
da cultura do molho picante numa corrida armamentista,
inundando despensas com vers�es cada vez mais picantes
desta ardente fruta amaz�nica.
O apelo � �bvio.
O molho picante permite a qualquer um se tornar cozinheiro.
Esfregar, pintar ou embeber cada mordida em rajadas concentradas de tempero.
Tabasco.
Quando se pega aquela garrafa na m�o,
sabendo que participou na produ��o dela, que as pessoas adoram
n�o s� na sua comunidade, mas no mundo todo,
� uma honra muito grande.
De ter feito parte de algo que est� pelo mundo afora, que as pessoas amam.
N�o se engane com esta fruta modesta, o prik kee noo.
Com 100 mil na escala de Scoville,
esta pequena pimenta cont�m o tipo de pic�ncia
que confunde a linha entre prazer e dor.
Poucas cozinhas s�o mais picantes do que as de Bangcoc.
E poucos chefs sabem mais sobre o poder da capsaicina do que Prin Polsuk.
Um calmo gigante do norte da Tail�ndia que conquistou as cozinhas de Bangcoc,
cozinhando alguns dos pratos mais apimentados do planeta.
Um homem possu�do pelos poderes da pimenta.
Ningu�m mais que esta pequena bomba-rel�gio,
prik kee noo, a "Pimenta de Fezes de Rato".
A pimenta no centro de tudo.
BANGCOC - TAIL�NDIA
Esta � a hist�ria de amor entre um mo�o do campo e uma mo�a da cidade.
Um amor improv�vel forjado nas chamas de uma obsess�o partilhada pela pimenta.
Nas noites de folga, Prin e sua esposa Mint jogam perigosamente:
Ca�am pimenta.
Um passeio por restaurantes da cidade
em busca dos pratos mais apimentados que puderem achar.
A Mint � de Bangcoc.
Sou filho de agricultores.
Considerando de onde venho, nunca achei que conheceria algu�m como ela.
O que faz a gente se ver � a comida.
Quando conheci ele, pensei:
"Ei, esse � o chef famoso de quem todo mundo est� falando?"
Vi ele e pensei: "Ele parece um jogador de futebol, algo do tipo."
Assim que ele come�ou a falar, as palavras que sa�ram da boca dele me fizeram pensar:
"Ei, esse cara � bem interessante."
Tudo o que ele falava fazia muito sentido para mim.
- Chegamos. Obrigada. - Obrigado.
- Vamos. - Obrigado.
Tia Moo.
- Oi. - Boa noite.
- Como est�, tia? - Estou bem, querida. Estou �tima.
Posso sentar?
O que quer?
O que comer na chuva?
- Na chuva, se bebe cerveja. - A chuva une gente safada.
- Voc� tem enguia, cozinha. - Pode deixar.
- E r� frita com alho. - T�.
Tom yum de peixe?
Faz picante.
Usa mais pimenta que enguia.
Posso ajudar?
Por favor.
Quero picante de fazer espirrar.
T�o exagerado.
Como quiser.
A casa da tia Moo n�o � um restaurante pra mim.
Ela lembra a minha av� quando eu era jovem.
T�. O cheiro est� t�o bom.
Agora vamos salpicar pimenta ardida aqui.
E um pouco de pimenta-do-reino bem deliciosa.
� prato exclusivo do nosso restaurante: Enguia frita apimentada.
Parece deliciosa.
Cheiro bom?
- Bom. - Provem, crian�as.
- Podemos comer agora, n�? - Vamos tentar.
- Vamos. - � a cabe�a.
- Est� bom de pimenta? - Uma del�cia.
Picante.
- Est� picante? - Est�.
- Sa�de. - Sa�de.
Obrigado.
Dizem que, quando comemos comida picante,
assim que o calor passa, ficamos felizes.
- Verdade, n�? - Verdade.
� como transar.
Que safado.
- S�rio? - �.
Minha 1a vez na Tail�ndia foi um choque pro meu paladar.
Nunca tinha experimentado comida t�o consistentemente picante.
Num pa�s repleto de sabores ousados,
a comida de Isaan, no nordeste da Tail�ndia, se destaca.
� pungente, cheia de acidez, poderosa, viva com capsaicina.
Comer a culin�ria de Isaan � um esporte de contato.
N�o � uma comida que a maioria consideraria segura para um 1o encontro.
Nosso primeiro encontro n�o foi num restaurante refinado.
Eu queria levar ela pra comer comida de rua de Isaan.
O restaurante ficava na rua.
Mas tive medo que ela n�o gostasse da comida de Isaan.
T�. Chegamos.
Obrigado, senhor.
- Boa noite. - Ol�. Oi.
O que vamos comer?
Salada de mam�o?
Carne crua amarga, salada picante que nem da outra vez e carne assada. �.
Agora a pimenta se tornou parte da nossa experi�ncia de comer.
E tudo come�ou aqui.
L� vem.
Obrigado.
- Obrigada. - Isso est� lindo.
No nosso primeiro encontro, n�o acreditei.
A Mint comia salada com carne crua, sangue e tudo mais.
Na hora, pensei: "J� estou amando ela."
Est� t�o forte assim?
Sa�de!
A cada mordida e pic�ncia, eles constroem o mundo juntos.
Incluindo a �ltima parada desta noite, o Samrub Samrub Thai,
o novo restaurante de Prin e Mint.
Uma carta de amor, assinada com pimenta, � antiga culin�ria da Tail�ndia.
- Oi, gente! - Oi.
- Oi! Ol�. - Ol�.
Vou cozinhar curry da selva.
Faz picante.
- Picante? - �, bastante.
- Quer bem picante? - Bem picante, isso.
Vou cozinhar.
O primeiro ingrediente pra mim � sempre pimenta.
Mas quanta pimenta?
Pimenta pra divertir? Ou pimenta pra ser odiado?
Isso que � picante.
Pimentas...
fazem tudo ganhar mais dimens�o.
Triture as pimentas.
Essas n�o est�o t�o picantes.
Quanto mais usamos pimenta, mais adicionamos doce.
Mais adicionamos sal.
Mais adicionamos outros sabores como amargor e adstringentes.
Tudo pra equilibrar o sabor picante.
A pimenta � o ingrediente principal de toda a nossa comida.
Colocamos pimenta em quase todos os pratos,
menos na sobremesa.
Algu�m sempre chora,
e algu�m tira sarro do amigo.
As pessoas n�o escondem nada. Elas se mostram.
Chorei.
Sinto que ajuda a quebrar o gelo e baixar o ego das pessoas.
Sei que querem o curry.
� o �ltimo. Eu guardei um pouco.
O que estou fazendo agora com a minha comida
� conectar as pessoas.
Quero ver as pessoas voltando pra casa felizes.
� s� o que eu quero.
Meses atr�s, plantei sementes de pimenta como um experimento.
A bhut orange Copenhague, uma varia��o da pimenta-fantasma,
� a coisa mais picante que j� cultivamos no Noma.
Com 800 mil na escala de Scoville,
faz parte de uma classe de pimentas: As superpicantes.
Os ingredientes mais picantes do planeta.
Este � um territ�rio desconhecido.
Em que cada mordida nos leva al�m do que ach�vamos ser poss�vel.
COPENHAGUE - DINAMARCA
Eu olho para essas pimentas na minha frente
e eu sei que s�o muito picantes, sinto um medo infantil de novo.
N�o quero, mas, ao mesmo tempo, eu tamb�m penso: Posso pegar?
Posso mesmo pegar?
� assustador pensar que essa coisinha min�scula,
se n�o tiver costume, pode causar dor.
� assustador.
E ent�o, a cada n�vel Scoville que voc� domina,
voc� tamb�m aprecia o sabor.
E fica mais viciado no apimentado.
A pimenta acaba controlando a sua mente.
Talvez j� esteja nos controlando.
Lentamente. Um plano a longo prazo.
A pimenta est� dizendo: "Ei, vamos deixar os humanos viciados,
para sobrevivermos e sermos plantadas no mundo todo."
No Noma, momento, t�cnica e ingrediente s�o cuidadosamente considerados.
Mas as pimentas mais picantes s�o o oposto.
Cruas e indomadas, elas nos for�am a baixar a guarda,
a explorar mais fundo em n�s.
Sempre pensei no que aconteceria
se servisse uma das pimentas mais picantes do mundo no Noma.
Nem que s� por uma noite.
Kenneth, � hora de servir.
- Reuni�o! - Sim!
Boa noite, pessoal.
Boa noite.
Obrigado pelo fant�stico servi�o deste s�bado.
Estou feliz em dizer que esta � a �ltima semana da temporada vegetariana.
Pra �ltima semana,
pensei em trazer uma pequena surpresa pros convidados e pra n�s.
Essa aqui se chama bhut orange Copenhague
e � uma pimenta cultivada por um dinamarqu�s chamado Bjarne.
E � picante. S�rio, � muito picante.
� a coisa mais picante j� cultivada na Dinamarca.
E pensei em servir pros convidados nesta noite.
Mas, antes disso, acho que dever�amos provar.
E � isso... Como podemos servir algo que os convidados v�o provar
se n�s n�o provarmos?
Vai ser picante, s�rio, picante demais.
Esque�am o jalape�o dos seus nachos.
Isso est� num outro n�vel.
S�rio, e se n�o se sentirem prontos, n�o se preocupem. S� cheirem.
Mas, se quiserem tentar, eu acho que vamos viajar juntos.
Ent�o, vamos l�.
Peguem uma pimenta.
Vamos l�.
Todos podem fazer essa parte.
- Todo mundo pegou uma pimenta? - Sim.
Ai, estou nervoso. Mas...
Vamos servir fantasticamente.
Aproveitem a viagem.
Qual a coisa mais picante que j� comeu?
Pare um momento para pensar.
Voc� se lembra de como se sentiu? A detona��o do seu sistema nervoso?
Como a dor percorreu o seu corpo?
A pic�ncia latejante na boca como se fossem fogos de artif�cio?
"Ser� que vou voltar a ser o mesmo?", voc� pensa.
E s� pensa que queria que aquilo parasse.
Se pudesse voltar �quela mordida fat�dica, voc� faria tudo de novo?
Se voc� for como eu, a resposta � sim.
Certo. Mesa n�mero dois.
Temos uma por��o de duas pimentas pra voc�s. Do lado esquerdo...
Do lado direito, uma padr�n grelhada suave.
� esquerda, uma Copenhague bhut.
Escolha a sua arma.
O que nos leva a isso?
Pesquisadores chamam de masoquismo benigno,
a busca pelo desconforto.
Uma colis�o de sentimentos positivos e negativos,
como montanhas-russas, filmes de terror, can��es tristes e Shakespeare.
N�s abra�amos a dor.
O que poderia ser mais humano do que brincar com fogo?
Quanto mais o mundo pode ser picante?
- Caramba. - Parece n�o existir um limite.
Onde... Onde est�... Onde est� ardendo em voc�?
- Em tudo. - Isso.
Mas o mais interessante sobre a pimenta n�o � como ela arde.
� como que ela nos une.
Ela criou comunidades, fomentou guerras e revolu��es, despertou paix�es
e inundou incont�veis c�rebros com uma mar� calorosa de endorfinas.
Nada mal para uma comida de p�ssaro.
EM MEM�RIA DE ROSS MCDONNELL
Legendas: Valmir Martins
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