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Somos o que comemos.
Essa � a receita mais antiga e verdadeira que conhe�o.
Nesse sentido,
sou um alqueire de amoras, apanhado em crian�a nos campos da Maced�nia.
Sou tamb�m alho-porro, colhido como chefe de cozinha jovem
do solo florestal ao longo da costa da Dinamarca.
Sou uma pitada de sal escumada de mar�s distantes,
alimentada pelo mineral que molda a sociedade h� mil�nios.
Tudo isso me trouxe at� aqui, ao noma, o meu restaurante em Copenhaga,
onde passei os �ltimos 20 anos numa jornada com a minha equipa
para aprender o m�ximo poss�vel sobre os ingredientes que nos alimentam.
Mas os ingredientes n�o nos alimentam apenas.
Unem-nos e dividem-nos.
Decifram-nos e definem-nos.
Alimentam economias,
movem pol�ticas
e desvendam verdades escondidas sobre quem somos e para onde vamos.
Esta � a hist�ria de produtos do quotidiano
que mudaram o mundo de formas que a maioria de n�s nunca considerou.
Se os juntarmos todos, obtemos a receita para a humanidade.
No centro dessa receita est� um ingrediente
que sempre me fez pensar nos poderes transformativos da comida.
E � a� que come�a esta jornada.
OMN�VOROS
CAP�TULO 1 MALAGUETA
Ao crescer na Maced�nia,
lembro-me dos homens na nossa aldeia que andavam com malaguetas nos bolsos.
Reun�amo-nos � volta da mesa para longos banquetes,
e, entre garfadas de frango assado e arroz,
eles iam mordiscando as malaguetas picantes.
Fiquei fascinado com aquele estranho ingrediente
e por algo t�o pequeno conseguir ser t�o poderoso.
Parecia um portal para um mundo que eu desconhecia.
Durante anos, sonhei com malaguetas.
Que me fariam?
Que mist�rios desvendaria este estranho ingrediente?
Que me esperaria do outro lado da primeira prova...
... de malagueta?
As malaguetas nasceram na bacia do Amazonas h� milh�es de anos.
Apesar de muito bonitas e sedutoras, s�o picantes por um motivo.
Para impedir que animais esfomeados destruam as valiosas sementes no interior.
Uma das conce��es geniais da Natureza.
O mundo animal respondeu e deixou as malaguetas em paz.
Mas n�o todos os animais.
As aves.
A �nica esp�cie imune ao ardor da capsaicina.
O outro animal somos n�s. Os humanos.
M�veis, engenhosos e glut�es por puni��o.
Nos bicos de aves e nas barrigas de embarca��es,
a malagueta viajou do seu ber�o na Amaz�nia para todo o planeta.
Em 1493, Colombo regressou com not�cias de um novo mundo
e uma m�o-cheia de malaguetas.
No s�culo XVI,
os portugueses levaram malaguetas para o Extremo Oriente e mudaram a comida.
Quinhentos anos depois,
esta fruta picante tornou-se parte da nossa identidade.
Um gosto do que significa ser humano,
experienciar dor na procura do prazer,
ultrapassar sempre os nossos limites.
Qu�o picante � uma malagueta?
O Dr. Wilbur Scoville quis descobri-lo em 1912.
Diluiu as malaguetas em �gua com a��car
e contou o n�mero de gotas at� ao ardor desaparecer.
Este tornou-se o m�todo para avaliar o picante de todas as malaguetas.
A escala de Scoville.
Esta � uma viagem das encostas mais suaves aos picos mais picantes,
em que cada paragem revela uma nova camada de picante,
uma nova rela��o com o picante
e uma nova dimens�o de n�s.
A malagueta s�rvia, geralmente usada para fazer paprica...
MALAGUETA
... faz parte da esp�cie mais ub�qua de malaguetas, a Capsicum annuum.
Tendo apenas 250 unidades Scoville,
esta malagueta suave e frutada parece mais um beijo do que uma dentada.
DONJA LOKO�NICA S�RVIA
No cora��o da S�rvia,
n�o longe da mesa de jantar onde eu descobri as malaguetas,
h� um lugar onde elas dominam a vida.
A vila chama-se Donja Loko�nica,
e cada um dos seus 1200 cidad�os
produz, em m�dia, tr�s toneladas de malaguetas por ano.
Secas em grandes cortinas vermelhas em todas as superf�cies expostas ao sol.
Para as pessoas desta comunidade unida,
a paprica n�o � uma especiaria que acumula p� na despensa,
mas um tempero vibrante que pinta a sua identidade e as permite sobreviver.
As pessoas de Loko�nica
n�o imaginam viver sem malaguetas.
BEM-VINDOS AO REINO DA PAPRICA
As melhores malaguetas s�o as de Loko�nica.
Demos as nossas sementes a outras vilas.
A malagueta n�o cresceu l�.
N�o sei porqu�.
Talvez esta terra seja especial. Talvez seja do clima.
Algo tem de ser especial.
PRODUTORA DE MALAGUETAS
Mais uma.
As mulheres costumam encordoar. Os homens sabem faz�-lo, mas n�o o fazem.
� muito dif�cil para eles.
Ainda me d�i o ombro direito.
Usamos grinaldas para secar as malaguetas.
Encordoamo-las de forma tradicional.
O neg�cio das malaguetas � mais do que um emprego a tempo inteiro.
Nunca paramos.
Os produtores principais s�o a Marina e o Boban, a minha filha e o meu genro.
PRODUTORA DE MALAGUETAS
Diz ao Boban que j� pode descarregar. H� espa�o suficiente.
PRODUTOR DE MALAGUETAS
Eles est�o no comando.
E o meu neto Danijel tamb�m trabalha com eles.
Abana um pouco.
Todas as gera��es da minha fam�lia foram produtoras.
O meu av�, o meu pai e outros estiveram todos envolvidos.
E eu vou continuar a tradi��o.
Comecei a trabalhar com a minha fam�lia no oitavo ano.
PRODUTOR DE MALAGUETAS
Ajudo o m�ximo que posso. N�o � f�cil.
Eu, o meu marido e o nosso filho mais velho estamos sempre no campo.
Nunca paramos de trabalhar.
Assamos mais umas?
Nasci no meio de malaguetas.
Passei a vida rodeado de malaguetas e ganho a vida com elas.
Tenho de aprender a fazer isto.
Vais aprender, mas primeiro tens de cortar as unhas.
Como se costuma dizer, cresci a comer malaguetas e banha.
DIRETOR DE COOPERATIVA DE PAPRICA
H� hist�rias de que a malagueta veio da Am�rica do Sul
e que foi transmitida de gera��o em gera��o.
Por vezes, fazemos malaguetas recheadas
ou picadas ou moemo-las para o churrasco.
A panela tem de ir para o lume para fritarmos o ajvar.
Preocupamo-nos muito com os pr�ximos 15 a 20 anos.
Os jovens n�o apreciam a agricultura no geral.
Est�o a escolher outras profiss�es.
A cada ano que passa, temos cada vez menos produtores.
Ponho a��car e sal?
Sim, p�e.
Est� delicioso.
Isto � delicioso.
Incr�vel.
Vamos comer.
O ajvar � bom.
Os jovens est�o a partir e a querer trabalhar em empresas.
O cultivo � um trabalho duro e f�sico.
E o lucro � baixo.
N�o querem cultivar mais.
Preferem trabalhos empresariais.
A maioria dos meus amigos nunca faria isto.
J� tentei trabalhar numa empresa,
mas n�o gostei.
� um momento cr�tico no sistema alimentar.
Com os produtores pequenos a lutar para competir contra quintas industriais,
ser� a gera��o de Danijel que decidir�
o destino de alguns dos ingredientes e tradi��es estimadas mais importantes.
O meu filho interessa-se por agricultura.
Nunca � dif�cil para ele trabalhar.
Fico muito feliz por ele ficar, se for o que desejar.
Disse-lhe: "A decis�o � tua, e n�s vamos apoiar-te."
Ele escolher� o seu destino.
Esta paprica � de �tima qualidade,
e seria uma pena n�o a preservarmos.
Senhoras e senhores,
estimados convidados das vilas e de longe,
sejam bem-vindos ao 16.o Festival do Dia da Paprica.
Este dia � dedicado a um dos produtos mais famosos da regi�o.
A conceituada malagueta de Leskovac.
H� s�culos
que esta vila mant�m viva a antiga receita do cultivo
e produz a malagueta mais suculenta e saud�vel do mundo.
Unimo-nos todos
para melhorar a qualidade e a quantidade
e, acima de tudo, para sofrer menos e viver mais.
Acredito que isto seja melhor para mim.
Quero continuar o que a minha fam�lia faz h� tantos anos.
Na sua forma mais pura,
a pequena e reluzente malagueta do tabasco chega �s 50 mil unidades Scoville.
� muito potente.
Mas a maioria das pessoas apenas prova a malagueta do tabasco
na sua forma l�quida mais suave.
Prontos?
- Prontos? - Sim, vamos.
Se algu�m come�asse hoje a fazer um molho rival com o nosso m�todo,
n�o poderia vender molho nenhum durante cerca de cinco anos.
N�o, n�o apanh�mos este peda�o.
Como costumamos dizer, da semente ao molho demora cinco anos.
Isso inclui o processo de envelhecimento de tr�s anos.
� uma tradi��o respeitada, e n�o o dizemos s� por dizer.
AVERY ISLAND LUISIANA, EUA
Eu cresci entre a Maced�nia
e um dos pa�ses menos picantes do mundo, a Dinamarca.
A realidade foi que, durante muitos anos, apenas se encontrava Tabasco.
Um portal para um mundo mais picante.
Duvido que algu�m conhecesse a fonte deste misterioso molho vermelho.
Esta � a hist�ria da fam�lia e da sua receita com 150 anos
de um p�ntano salgado do Sul do Luisiana que ajudou a deixar o mundo em chamas.
� necess�ria uma ilha muito especial Um sol muito especial
E malaguetas muito especiais Para fazer o incompar�vel
Tabasco, Tabasco
MOLHO DE MALAGUETA
O molho l�quido de malagueta original
H� quem ache que Tabasco s�o todos os molhos.
ARQUIVISTA DA FAM�LIA DE AVERY
Mas n�o � o caso. S� h� um Tabasco,
o molho de malagueta original feito em Avery Island, no Luisiana.
Edmund McIlhenny, o inventor do Tabasco,
mantinha registos meticulosos.
Este � um de dois cadernos com notas sobre a correspond�ncia enviada.
Uma das cartas, como se v� aqui,
foi para Hugh Auchincloss em Nova Iorque, no dia 18 de janeiro de 1868,
e diz: "Agradeci-lhe por uma lente para o meu microsc�pio
e enviei-lhe um frasco do meu molho Tabasco",
como forma de agradecimento.
Esta � a primeira refer�ncia conhecida ao molho Tabasco pelo nome.
A hist�ria familiar � que Edmund, ap�s a Guerra Civil,
regressou � ilha, e pensa-se que tenha come�ado a tratar da horta da fam�lia.
E, sabendo que as malaguetas apodrecem rapidamente quando colhidas,
� preciso tritur�-las e mistur�-las com um pouco de sal,
para n�o se estragarem.
Pensa-se que ele fez isso e adicionou um pouco de vinagre.
� o mesmo m�todo que se usa para fazer chucrute.
Ele come�ou a fazer o molho de malagueta para a fam�lia.
Por volta de 1890, a empresa come�ou a crescer bastante.
Estamos em 195 pa�ses e territ�rios em todo o mundo.
Estamos em 35 l�nguas e dialetos.
Ao contr�rio de muitas outras marcas ic�nicas,
o Tabasco continua a ser produzido pela fam�lia do seu inventor.
Tabasco.
Tabasco
Hoje, deixamos a mistura de malagueta fermentar naturalmente.
O processo de envelhecimento dura at� tr�s anos.
E essa fermenta��o fica bastante ativa no ver�o.
Queremos que os armaz�ns ultrapassem os 38 oC no ver�o,
pois isso ajuda a iniciar o processo de fermenta��o.
Suaviza bastante o sabor da mistura.
Depois, vem o passo seguinte.
O pior era o cheiro.
Ficava com o nariz a pingar e os olhos vermelhos.
Com o passar do tempo...
DEPARTAMENTO DE MISTURA
... o Tabasco entra-nos no sangue.
J� n�o fico com manchas nem tenho o nariz a pingar.
Diria que o molho picante � como um vinho de qualidade.
A arte est� no processo de envelhecimento.
� o que nos distingue de muitos outros.
No mundo atual, onde todos querem tudo no imediato...
... poder esperar e aguardar para que fique perfeito
para os clientes e para as nossas fam�lias
� algo �nico.
N�o podemos acelerar o processo. N�o o podemos apressar.
A mistura diz-nos quando est� pronta.
Quando entram no armaz�m
e nos veem a escumar e a fazer o molho Tabasco,
nada � apressado, h� uma arte envolvida.
Todos os barris s�o vistos. Todos os barris s�o tratados.
Todos os barris s�o verificados. Cada barril passa pela m�o de todos
para garantir qualidade.
O nosso diretor executivo inspeciona os barris todas as manh�s.
Tratamos diariamente dos 96 barris.
DIRETOR EXECUTIVO
Parte do meu emprego como diretor executivo
passa por inspecionar a mistura antes de ser feito o molho.
Custa explicar, porque percebe-se muita coisa
quando mergulhamos a colher na mistura,
a levantamos e a cheiramos. � muito r�pido.
Temos de estar atentos a tantos aromas.
Se tem um odor a carvalho, a madeira, a verde,
a fresco, a levedura.
O Tabasco n�o pretende ofuscar o que se cozinha.
Pretende que a comida ainda se evidencie,
o Tabasco s� d� uma ajudinha.
Nenhum p�ssaro migrat�rio ou explorador portugu�s
influenciou tanto o dom�nio mundial da malagueta como os molhos picantes.
H� centenas de anos que diferentes culturas de todo o mundo
esmagam e trituram malaguetas para intensificar sabores,
mas as �ltimas d�cadas testemunharam a transforma��o
da cultura do molho picante numa competi��o,
com o aparecimento de vers�es cada vez mais picantes
desta fruta ardente da Amaz�nia.
A atra��o � �bvia.
O molho picante permite a todos serem cozinheiros.
Serve para cobrir, tingir e imergir comida em explos�es concentradas de picante.
Tabasco.
Quando temos um frasco na m�o
e sabemos que tivemos um papel na sua produ��o,
sendo algo que as pessoas adoram na nossa comunidade e no mundo inteiro,
isso torna-nos muito humildes.
Fazemos parte de algo que � apreciado em todo o mundo.
N�o se deixem enganar por esta modesta fruta, a Prik Kee Noo.
Chegando �s 100 mil unidades Scoville,
esta pequena malagueta cont�m uma dose de picante
que distorce a linha entre o prazer e a dor.
Poucas cozinhas t�m comida mais picante do que as de Banguecoque,
e poucos chefes conhecem melhor o poder da capsaicina do que Prin Polsuk.
Um gigante discreto do Norte da Tail�ndia que conquistou as cozinhas de Banguecoque
cozinhando alguns dos pratos mais picantes do mundo.
Um homem possu�do pelos poderes da malagueta.
Sobretudo por esta pequena bomba-rel�gio,
a Prik Kee Noo, a "malagueta de fezes de rato".
A malagueta no centro de tudo.
BANGUECOQUE TAIL�NDIA
Esta � uma hist�ria de amor entre um rapaz do campo e uma rapariga da cidade.
Um amor improv�vel forjado nas chamas de uma obsess�o partilhada por malagueta.
Em noites de folga, Prin e a esposa, Mint, fazem um jogo perigoso.
Perseguem malaguetas.
Visitam restaurantes de toda a cidade
em busca dos pratos mais picantes que encontrarem.
A Mint � de Banguecoque.
Eu sou filho de agricultores.
Tendo em conta de onde sou, nunca pensei conhecer algu�m como ela.
Compreendemo-nos atrav�s da comida.
Quando o conheci, pensei:
"Este � o chefe famoso de que todos falam?"
Mas, quando o vi, pensei: "Ele parece um jogador de futebol."
Quando ele come�ou a falar, as palavras dele fizeram-me pensar:
"Afinal, ele � muito interessante."
Tudo o que ele disse ressoou em mim.
- Cheg�mos. Obrigada. - Obrigado.
- Vamos. - Obrigado.
Tia Moo!
- Ol�! - Boa noite.
- Como est�s, tia? - Estou �tima, querida.
Posso?
Que querem comer?
Que comemos � chuva?
- Est� a chover. Vamos beber cerveja. - A chuva une m�s pessoas.
- Tens enguia? Pode ser isso. - Certo.
- E r� frita com alho. - Sim.
E entranhas?
Picante.
Devias p�r mais malagueta do que enguia.
Posso ajudar?
Por favor.
Quero espirrar com o picante.
Muito forte.
Como queiras.
O espa�o da tia Moo n�o � um restaurante, para mim.
Ela faz-me lembrar a minha av�, de quando eu era pequeno.
Certo. Cheira muito bem.
Vamos polvilhar malaguetas picantes.
E pimenta muito saborosa.
Eis a especialidade do nosso restaurante. Enguia salteada com malaguetas.
Parece bom.
Cheira bem?
- Muito bem. - Provem.
- J� podemos comer? - Vamos provar.
- Vamos provar. - A cabe�a.
As malaguetas est�o boas?
Est� delicioso.
Picante!
- Est� picante? - Sim.
- Sa�de. - Sa�de.
Obrigado.
Diz-se que, quando comemos comida picante,
assim que o ardor desaparece, ficamos felizes.
- N�o �? - � verdade.
� como fazer sexo.
Que malandro!
- A s�rio? - Sim.
A Tail�ndia chocou as minhas papilas gustativas.
Nunca comera nada t�o consistentemente picante.
Mas, num pa�s cheio de sabores ousados,
destaca-se a comida de Isaan, a regi�o mais a nordeste da Tail�ndia.
� pungente, cheia de acidez, potente, repleta de capsaicina.
A comida de Isaan assemelha-se a um desporto de contacto.
N�o � do tipo que a maioria consideraria segura numa primeira vez.
O nosso primeiro encontro n�o envolveu alta gastronomia.
Eu quis lev�-la a provar a comida de rua de Isaan.
O restaurante era junto � estrada.
Mas tinha receio de que ela n�o gostasse da comida de Isaan.
Cheg�mos.
Obrigado.
- Boa noite. - Ol�.
Que vamos querer?
Salada de papaia?
Carne crua amarga, salada picante e carne assada.
A malagueta tornou-se parte da nossa experi�ncia gastron�mica.
E tudo come�ou aqui.
Aqui est�.
Obrigado.
- Obrigada. - Que maravilha!
No nosso primeiro encontro, nem pude acreditar.
A Mint comeu larb com carne crua, sangue, tudo.
Apaixonei-me logo por ela.
� assim t�o forte?
Sa�de!
Dentada a dentada, ardor a ardor, criaram um mundo juntos.
Incluindo a �ltima paragem da noite, o Samrub Samrub Thai,
o novo restaurante de Prin e Mint.
Uma carta de amor repleta de malagueta � culin�ria ancestral da Tail�ndia.
- Ol� a todos! - Ol�.
- Ol�! - Ol�.
Vou fazer caril da selva para todos.
Picante, por favor.
- Picante? - Sim, bastante.
- Querem mesmo algo picante? - Muito picante. Sim.
Vou cozinhar.
O primeiro ingrediente que uso sempre � malagueta.
Mas qu�o picante?
Um picante divertido? Ou um picante para me odiarem?
Est� picante.
A malagueta...
... confere mais dimens�o a tudo.
M�i malaguetas, por favor.
Malaguetas mo�das. N�o s�o muito picantes.
Quanto mais picante usamos, mais adicionamos do�ura.
Mais adicionamos sal.
Mais adicionamos outros sabores, como amargura e adstring�ncia.
Tudo equilibra o sabor picante.
As malaguetas s�o essenciais em toda a nossa comida.
Usamos malagueta em praticamente todos os pratos,
tirando nas sobremesas.
H� sempre algu�m que chora
e algu�m que tro�a de um amigo.
As pessoas n�o escondem nada. Revelam-se.
At� choro.
Sinto que ajuda a quebrar o gelo e a baixar o ego das pessoas.
Sei que querem muito caril.
� o �ltimo peda�o. Tenho aqui um pouco.
O que fa�o agora com a minha comida
� ligar as pessoas.
Quero que as pessoas v�o para casa felizes.
� o meu �nico desejo.
H� uns meses, plantei sementes de malagueta.
A Bhut Orange Copenhagen, uma varia��o da malagueta-fantasma,
� o ingrediente mais picante que j� plant�mos no noma.
Chegando �s 800 mil unidades Scoville,
faz parte de uma classe de malaguetas designadas por superpicantes.
� o ingrediente mais picante do mundo.
� territ�rio desconhecido,
com cada dentada a levar-nos al�m do que julg�vamos poss�vel.
COPENHAGA DINAMARCA
Quando olho para estas malaguetas,
e sei que s�o muit�ssimo picantes, volto a sentir um medo infantil.
N�o as quero comer, mas penso: "Ser� que aguento?
Conseguirei com�-las?"
� intimidador pensar que esta coisa t�o pequenina,
se n�o estivermos habituados, nos pode causar muita dor.
� assustador.
Mas, � medida que vamos subindo nos n�veis da escala de Scoville,
vamos apreciando o sabor.
E ficamos ainda mais viciados no picante.
As malaguetas apoderam-se da nossa mente.
Talvez se estejam a apoderar de n�s agora.
De forma lenta, mas certa, num plano a longo prazo.
As malaguetas devem pensar: "Vamos viciar os humanos nisto
para sobrevivermos e sermos plantadas em todo o mundo."
No noma, cada momento, t�cnica e ingrediente s�o cuidadosamente pensados.
Mas as malaguetas mais picantes s�o o oposto.
Cruas e indomadas, for�am-nos a baixar a nossa guarda
e a aceder a algo mais profundo dentro de n�s.
Sempre me perguntei: "Que aconteceria
se serv�ssemos uma das malaguetas mais picantes do mundo no noma?"
Ainda que por uma noite.
Kenneth, vai come�ar o servi�o.
- Reuni�o! - Sim!
Boa noite a todos.
Boa noite.
Obrigado por um �timo servi�o de s�bado.
Fico feliz por dizer que � a �ltima semana da temporada vegetariana.
Para a �ltima semana,
pensei em trazer uma surpresa para os clientes e para n�s.
Isto chama-se Bhut Orange Copenhagen
e � uma malagueta que foi criada por um dinamarqu�s chamado Bjarne.
E � picante. � extremamente picante.
Nunca nada t�o picante foi criado na Dinamarca.
E pensei em servi-la hoje aos clientes.
Mas, antes disso, acho que a dev�amos provar.
Sim, porque como podemos servir algo aos clientes
que nunca prov�mos?
Vai ser picante. � mesmo muito forte.
Esque�am os jalapenhos que comem nos nachos.
Isto � um n�vel diferente.
Se n�o quiserem provar, n�o h� problema. Cheirem apenas.
Mas, se quiserem provar,
acho que vai ser uma bela experi�ncia.
For�a.
Tirem uma malagueta.
For�a.
Todos podem fazer este passo.
T�m todos uma malagueta?
Sim.
Estou nervoso, mas...
Vamos ter um �timo servi�o.
Boa sorte a todos.
Qual � a coisa mais picante que j� comeram?
Pensem nisso por um momento.
Lembram-se de como se sentiram? Da ativa��o do vosso sistema nervoso?
De como sentiram dor pelo corpo todo?
Do ardor latejante na vossa boca, como se tivessem engolido um petardo?
"Voltarei a ser o mesmo?", come�am a perguntar-se.
S� desejavam que acabasse.
Se pudessem voltar � fat�dica dentada, voltariam a faz�-lo?
Se forem como eu, a resposta � sim.
Sim. Mesa dois.
Temos um prato com duas malaguetas. Do lado esquerdo...
Do lado direito, t�m uma padr�n suave grelhada.
Do lado esquerdo, t�m uma Copenhagen Bhut.
Escolham a vossa arma.
Porque fazemos isto?
Os investigadores chamam-lhe masoquismo benigno.
A procura pelo desconforto.
Uma colis�o de sensa��es positivas e negativas,
como montanhas-russas e filmes de terror, can��es tristes e Shakespeare.
N�s acolhemos a dor.
Que haver� de mais humano do que brincar com o fogo?
Qu�o mais picante se poder� o mundo tornar?
- Meu Deus! - N�o parece haver um fim � vista.
Onde sentes a arder?
- Em todo o lado. - Sim.
Mas o mais interessante nas malaguetas n�o � como ardem.
� como nos ligam.
Criaram comunidades, fomentaram guerras, semearam revolu��es, despertaram paix�es
e inundaram in�meros c�rebros com uma mar� quente de endorfinas.
Nada mau, para comida de p�ssaro.
EM MEM�RIA DE
Legendas: Lara Kahrel
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