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Uma caixa de granadas de m�o francesas, modelo VB.
Cinco minas antitanque alem�s, asfalto e vidro.
E uma dezena de m�sseis de 28cm.
H� quem saiba viver, n�o?
Recolhemos e voltamos para casa?
N�o.
H� quatro cargas,
carregadas de f�sforo.
Parece ser um enorme dep�sito da Resist�ncia.
Tudo bem, rapazes?
S�o da Grande Guerra?
Na Bretanha, todas as muni��es n�o explodidas datam de 39-45.
Os alem�es n�o chegaram c� na I Guerra.
Erwan!
- Forno? Fogo de artif�cio? - Nem um nem outro.
Procedimento 24 com per�metro de seguran�a duplo: 100 e 200 metros.
Pede � Margot que ponha ali um contentor e sanit�rios.
- Vamos ficar aqui algum tempo! - Que festa!
Duzentos metros, vai bloquear-nos toda a explora��o!
A sua pedreira est� carregada de explosivos.
E quanto tempo v�o demorar?
Entre a recolha de res�duos, a desconta- mina��o, a verifica��o das escava��es...
- Pelo menos, um m�s. - Imposs�vel!
Temos de entregar 60 mil toneladas de areia � D28!
E eu tenho de respeitar as normas de seguran�a.
Claro que conseguimos.
Destaca j� o Jean-Marc com os dois mergulhadores.
E porque � que eles ainda n�o chegaram?
Eu preciso de 7 homens a tempo inteiro na pedreira.
Sim, e pede ao Christophe que traga o detetor.
A responsabilidade � deles, fizessem a dete��o antes de come�ar os trabalhos!
Calcularam mal...
Prop�e-lhes fazer um teste de magnetometria urgente.
J� te ligo.
N�o podes chegar a horas por uma vez na vida?
Eu cheguei a horas, tu � que est�s adiantado.
Quem � essa?
N�o sei.
Como te chamas?
- N�o falas? - Baya!
O que faz com a minha filha?
A coitadinha estava perdida no servi�o de obstetr�cia.
� l� que eu trabalho! Tinha que se meter?!
Desculpe a minha filha, ela � muito jovem.
"Muito jovem"? Estou gr�vida!
- Pronto, tudo bem! - Anda!
J� chega!
- Eu cheguei antes, posso explicar? - N�o.
Bom...
Vamos l� ver o processo...
Pesquisa indireta em tr�s gera��es
duma poss�vel transmiss�o de Ataxia Espinocerebelar do tipo 3,
bl�, bl�, bl�...
Foi a irm� do seu pai que teve a doen�a, certo?
A minha tia. Acabou por ficar paralisada.
O resultado das an�lises feitas ao seu pai o m�s passado
d�o-no como portador do alelo patol�gico, mas de forma assintom�tica.
Ele est� bem, sim.
Quanto a n�s, at� agora...
n�o est�vamos muito inquietos...
mas disseram-nos que era melhor despistar todos os riscos para o beb�.
- � o pai? - Sim.
Daquela crian�a, sim, mas n�o sou do seu...
J� me perguntava...
E o pai?
- N�o h�. - H� sempre um pai.
� o que estou farto de lhe dizer! E al�m disso, ela quer cri�-lo sozinha!
Deixas-me em paz?
Ent�o a minha filha pode ou n�o contrair a ataxia da "Tia Coisa"?
Tranquilize-se, est� tudo bem.
V�s?
- Inquietas-te por nada. - Eu � que me inquieto?!
Mas...
H� algum problema?
Pode deixar-nos, menina, por favor?
Porqu�?
Preciso de falar com o seu pai sobre algo que n�o lhe diz diretamente respeito.
Pode dizer.
- Ela j� � crescidinha. - Estou gr�vida e tudo!
Muito bem.
Senhor, cabe-me inform�-lo que tenho a prova indiscut�vel
de que n�o pode contrair a doen�a da sua tia.
Muito bem.
Ent�o qual � o problema?
� tamb�m meu dever dizer-lhe que posso explicar-lhe a raz�o
na condi��o de querer ouvi-la.
N�o estou a perceber nada...
Diga l� ent�o.
Sr Gourmelon,
as an�lises que efetu�mos revelam que n�o � portador do gene nocivo,
pela simples raz�o de n�o ter qualquer gene em comum com Bastien Gourmelon.
N�o tenho qualquer gene em comum com o meu pai?
De certa forma...
Isso � poss�vel?
Est� a brincar.
Bastien Gourmelon n�o � o seu pai biol�gico. Lamento imenso.
S� PARA TER A CERTEZA
Continua, � mais longe.
- N�o posso, estou sem bateria. - Sem bateria, como?
- Quem tratou das baterias foi o Didier. - Quem � o Didier?
O estagi�rio que a tua filha nos impingiu.
O que fizeste � bateria do Cyclops?
Trouxe a que tinha o indicador vermelho. A outra estava vazia, estava mal carregada.
Ainda hesitei...
entre essa e a do indicador verde, mas...
Vai buscar o meu fato.
E o protocolo?
Para a pr�xima, lembro-me dos sem�foros.
Que rural...!
O que fazemos? Torpedeamo-las?
Se fosse qu�mico, ela j� estaria cozida.
� um ovo, eu tinha raz�o.
Eu tinha a certeza!
Erwan!
- Que bronco me impingiste, Juliette? - O que aconteceu?
O Didier Morpain! N�o tens l� gente mais qualificada?
Eu trabalho na A��o Solid�ria, n�o num Centro de Emprego.
Pois, mas o meu trabalho � incompat�vel com gente burra!
N�o podes ajudar apenas as pessoas que te conv�m!
Fa�o isto para te ajudar! Podias fazer um esfor�o, porra!
Custa-te assim tanto dar um pouco do teu tempo �queles que precisam mesmo?
- As empresas n�o se gerem com boa vontade. - Dizes isso, porque nunca tentaste!
H� que confiar na humanidade.
A humanidade p�e bombas em todos os cantos da rua.
Melhor, pois � disso que tu vives.
Pois, melhor...
Porcaria de caixote do lixo...
Isso d�i! Doeu mesmo!
Senta-te l�.
- Tens de esfregar. Esfrega bem. - � aqui...
N�o te preocupes, pomos-te um belo penso
e vai ficar super harmonioso, a condizer com os outros.
Vais falar com o Av�?
De qu�?
N�o tens curiosidade em saber quem � o teu pai?
J� tenho um e basta-me.
Quando penso no que me chateaste para eu encontrar o dela...
O que fazes quando um turista est�pido te entra bombordo dentro?!
A traineira pesa 5,3 toneladas, n�o consigo manobr�-la!
Olha para isto!
Merda!
Esta � boa!
E este barco n�o �... J� n�o � novinho em folha.
Mas eu queria morrer l� dentro!
N�o sei quem � o pai do beb� que a minha filha espera.
Ele teve um caso uma noite, engravidou
e gostava de encontrar o genitor para o informar da gravidez.
Gostava ela ou o senhor?
Ela tem 23 anos, nem percebe nada de nada.
E o que diz a m�e dela?
A m�e da Juliette?
N�o diz nada.
J� n�o est� entre n�s.
Cancro nos pulm�es.
Foi-se em tr�s meses, quando a Juliette tinha nove anos.
Lamento.
N�o tem mal.
Tem gra�a, porque...
tem o mesmo nome que ela:
C�cile.
Agora me apercebo...
que n�o dizia o nome dela h� muito.
C�cile...
Eu e a Juliette...
falamos pouco da m�e.
E seja como for, quando ela falava nela...
dizia M�e...
e n�o C�cile.
Assim, voltei para Fran�a para cuidar dela.
Da minha filha.
Como ela j� n�o tinha m�e, e eu tinha um trabalho perigoso...
Preferiu sacrificar a sua carreira?!
De modo algum! N�o sacrifiquei nada.
Algu�m tinha de cuidar da minha filha.
Portanto...
Gostava que eu encontrasse o estuporzinho que a engravidou.
� importante para uma crian�a... saber quem � o pai.
Para a constru��o da identidade...
Por exemplo,
no meu caso, o meu pai foi sempre...
muito presente.
Sim?
Sim.
Devo-lhe muito, apesar de tudo.
� um homem... formid�vel.
Deveras.
Imagino que seria um grande golpe, ele saber que afinal n�o � filho dele?
Sim.
Dois minutos, sete segundos.
- Est� na m�dia. - Que m�dia?
De concretiza��o.
Em m�dia, 80% dos meus clientes come�am por contar uma hist�ria
que nada tem que ver com a verdadeira raz�o da sua vinda.
Nada que ver...?
Adiante...!
Quer que eu investigue as suas origens
e que encontre o seu pai biol�gico, certo? - N�o...!
O ginecologista pode ter-se enganado.
A minha mulher diz sempre:
"As vacas que v�m de longe t�m tetas grandes".
A sua mulher?
A minha mulher.
- O que quer isso dizer? - N�o fa�o ideia.
Vai registar tudo o que sabe
e depois n�o quero mais intera��o: serei eu a ligar-lhe.
Vou preparar um contrato.
Isto significa que o pedido de renova��o foi recusado.
Recusado, como?
O atestado m�dico indica que o seu pai j� n�o est� apto a pilotar uma traineira.
Isso � imposs�vel!
Eu navego desde que sei andar!
Erwan, ele n�o me pode fazer isto!
De certeza que n�o h� nada a fazer?
As pessoas de idade nem sempre t�m consci�ncia das suas limita��es...
� dif�cil aceit�-lo.
- H� que considerar o risco para os outros. - Que risco?
� um barquito de 9 metros!
Pode atender, se quiser.
Atende!
Est�?
Sr Gourmelon?
Sim?
Identifiquei e localizei o seu pai.
N�o s� ainda est� vivo, como vive a menos de 20km de si!
Passa c�, para eu o p�r a par?
Gourmelon?
Obrigado.
Preciso duma assinatura aqui...
Assim, o seu paizinho poder� ir para casa descansar.
Ou�a...
O barco � aquilo que o meu pai tem de mais precioso.
Talvez possa mostrar-se um pouco mais flex�vel, n�o?
Limito-me a cumprir o processo.
Eu tamb�m j� fui funcion�rio, conhe�o o processo.
N�o te preocupes, Pai.
Vamos a outro m�dico. Ele arranja-te um atestado m�dico e isto resolve-se.
Anda, vamos embora.
Cordiais sauda��es, senhor.
Eu bem lhe disse, tamb�m n�o h� bomba que me resista!
Boa sorte para todos e cumprimentos aos seus pais.
H� qualquer coisa a incomod�-lo?
N�o, � que me perguntava...
Sim, se devia ligar-lhe? Ir visit�-lo? Escrever-lhe? Mandar-lhe um telegrama?
V�!
Siga o seu instinto!
Parab�ns a voc�
Nesta data querida
Muitas felicidades Muitos anos de vida!
Um, dois, tr�s, pedra, papel, tesoura!
Um, dois, tr�s, pedra, papel, tesoura!
- Estou farto... - Escolho sempre mal!
Ou�a, Didier...
Posso perguntar-lhe uma coisa?
Diga.
- Tem pai? - Como toda a gente!
Imagine que um dia,
� apenas uma suposi��o, claro,
dizem-lhe que o seu pai n�o � seu pai,
mas sim um outro, que nem sabe da sua exist�ncia.
Escolhia ir conhec�-lo ou n�o?
Escolhia n�o o conhecer.
Muito bem, obrigado.
N�o quer saber porqu�?
Entra l�!
- Tire a senhora... - Muito bem.
Fui busc�-la � SPA.
Tem um medo patol�gico do abandono.
- � um braco alem�o? - � arra�ada.
- E como se chama? - Pinochet.
Mas � uma querida!
Muito obrigado, senhora.
O anterior chamava-se Pol Pot, e o anterior, Ceausescu.
Tem mais piada quando lhes damos ordens.
Pinochet, de p�!
Pinochet, deita!
Pinochet, isto, Pinochet aquilo...
Pinochet, vem aqui!
Para!
Espere! Deixe-me ajud�-lo.
Deixe-me fazer.
Que patif�rio!
Muito obrigado, jovem.
Est� tudo bem?
N�o se sente bem?
Posso ajud�-lo?
Na verdade...
Chamo-me Erwan Gourmelon
e descobri h� coisa de um m�s que o meu pai n�o � meu pai.
Mas est� tudo bem?
Contratei uma detetive privada que investigou junto de muita gente...
Uma detetive! Que divertido!
Julgava-a uma profiss�o em desuso, como os carvoeiros ou os aguadeiros!
Tudo come�ou porque a minha filha est� gr�vida...
Parab�ns!
Ent�o vai ser av�!
Joseph.
Joseph Levkine.
� a minha m�e.
N�o tem um ar muito feliz. Embora casasse nesse dia...
Acha que ela est� melanc�lica porque j� conhecia o seu outro pai?
Na verdade, j� estava gr�vida.
Mas parece que era a �nica a saber.
Um segredo bem pesado para uma mulher t�o jovem.
Chamava-se Marie.
Marie Morvan, era o nome de solteira.
E pensa que eu posso ter conhecido o amante dela?
N�o sei.
Parece que ela o conheceu na Centro Cultural da Juventude de Lorient.
Como o mundo � pequeno! Sabe que eu era um membro ativo?
Sim?
�ramos todos volunt�rios.
N�o � imposs�vel que me tenha cruzado com eles, com ela ou com o amante...
Est� nesta fotografia?
- Onde a encontrou? - Foi a detetive.
Mas este sou eu!
E ali, l� em cima...
com o seu vestido florido...
est� a minha m�e.
Este � o Gandaubert... e estes...
O Antoine e o Fabrice!
Posso ficar com ela?
Segundo a detetive, conheceu a minha m�e a 23 de junho de 1970.
Uma das amigas dela convidou-a para a festa de inaugura��o.
Quis beber um caf� comigo...
para saber se sou o seu pai? - N�o me leve a mal.
J� ningu�m se interessa pelos outros sem uma raz�o ulterior. E afinal...
estamos todos s�s.
D�-me licen�a....
Porra!
Voc� est� doido?!
Tenha mais cuidado!
Est� ferida...
- N�o � nada. - Tem a certeza?
- Tenho um estojo de primeiros-socorros... - Isto j� passa!
Merda!
Que est�pido o javali! Riscou-lhe o b�lide todo!
Cuidado, � perigoso.
Est� bastante ferido e pode...
- Devia ter cuidado. - Com quem?
- Deixe-me tratar disso. - Tem raz�o.
Vou s� ver se o meu batom n�o caiu quando lhe bati.
� veterin�ria?
Pode agarrar-lhe as pernas?
� anestesia?
Chanel N� 5.
Obrigada.
Adeus.
E o javali?
Matei-o.
Pai?
Tudo bem, Pinochet, sou eu.
Pai?
Est�s �s escuras... Porque n�o acendes a luz?
N�o dei conta...
- Est�s encharcada! - Sim, o que � isso?
Foi no CCJ. Eu s� tinha 30 anos, olha...
- Ainda n�o almo�aste? - Comi sardinhas �s quatro horas.
Preparo-te refei��es equilibradas,
n�o � para depois comeres o que te der na gana noutros s�tios.
Tomaste os comprimidos, ao menos?
Se os tomas sem comer, depois n�o te queixes do est�mago.
Eu n�o me queixo.
Est�s ferida?
Atropelei um javali. Ele n�o sobreviveu.
Tens a testa dura.
Deve ser...
- Posso perguntar uma coisa? - Diz.
Achas que um dia me podes vir ver, s� porque sim...?
N�o pela inje��o, mas s� pelo prazer?
Quando n�o tiver de te fiscalizar, sim.
H� de ser no cemit�rio.
Por correio, ent�o?
Hoje sem falta. Est� bem.
Adeus, senhor.
Desculpe, mas est� ali...
Acho que � o seu pai.
O meu pai? E que horas s�o?
Calculo que umas 11h34.
Bom dia?
Bom dia.
Lamento aparecer sem avisar.
Incomodo?
N�o me incomoda nada.
Foi o senhor que disse que era meu pai?
Na verdade...
Na verdade, queria dizer-lhe... N�o me orgulho muito...
No dia da inaugura��o do CCJ, eu estava de tal forma febril...
de tal forma ansioso...
Bebi tudo o que pude!
Eu era um homem casado,
n�o era um valdevinos...
No dia seguinte, quando eu e a minha ressaca abrimos os olhos...
Havia uma mulher comigo, na cama da enfermaria.
Provavelmente, a sua m�e.
Joseph!
Por favor...
Espere um minuto.
N�o se importa?
Didier?
Sim?
Tenho de ir, mande isto � DRIRE, por correio registado.
- Carta registada. DRIRE. - DRIRE � Dire��o Regional da Ind�stria.
Confio-lhe uma grande miss�o, uma verdadeira responsabilidade.
- Posso contar consigo? - N�o o desiludirei! Est� prometido!
Concentro-me tanto na estrada, que j� nem reparo na beleza disto!
Estou claramente melhor aqui no lugar do morto.
Ol�, Carole.
- Tudo bem? - Sim, e tu?
Onde est� ele?
E o meu pai?
Est� com o outro pai.
Ele n�o parecia ter a certeza de que era o pai dele.
- Enfim, � estranho. - O outro pai...
Juliette, que se passa com o teu pai?
�ramos para almo�ar,
mas aqui o teu namorado n�o me diz onde ele est�.
Ele n�o � meu namorado.
- Esqueceu-me... - N�o te esqueceu nada!
Teve um contratempo.
E que contratempo impede um filho de ligar ao seu pai?
Uma urg�ncia!
Alerta de bomba.
Terrorista.
- A s�rio? - N�o, terrorista n�o.
Alerta de sequestro.
- Escondem-me qualquer coisa. - � altamente secreto.
N�o podemos dizer-lhe nada: � segredo profissional.
- Teve um acidente? - N�o! N�o te aflijas.
Digam-me a verdade!
Conheceu uma pessoa.
E � s�rio?
O meu pai apoiou os bolcheviques com risco da pr�pria vida.
Pode dizer-se que eu tinha a revolta no sangue.
Tamb�m participei, com Jean-Paul Sartre,
na manifesta��o proibida contra a guerra na Arg�lia.
Foi declarado estado de s�tio. Papon tinha enviado as CRS
e tivemos oito mortos na Esta��o de Charonne.
Cinco dias depois,
�ramos um milh�o na rua, em homenagem �s v�timas.
- E continua a militar? - Com quem?
Desfilei pela �ltima vez h� 7 anos, contra o desvio da estrada nacional.
�ramos 12 na manifesta��o
e eu era o mais novo...
J� nem sequer sou capaz de ir sozinho � cidade.
Fico a ver as manifesta��es na televis�o.
Nos notici�rios.
E eu que sempre pensei ter uma fam�lia banal...
E eu, h� duas horas, era apenas um homem que tinha enganado a mulher.
Tenho de ir, Nicole. Bom dia, e at� para a semana.
Menina...
Voc�, outra vez?
Sim...
Est� melhor, o seu...
Sim.
N�o teve mais acidentes desde ontem?
Mora aqui perto?
O meu consult�rio.
Mas tenho de fazer um domic�lio, est�o � minha espera. Adeus.
Espere, espere...
Queria convid�-la para jantar.
- Para me perdoar. - Para perdoar o qu�?
Perdoar por...
n�o a ter convidado antes.
� casado? Tem filhos?
N�o. E sim.
- Esclare�a. - Tenho uma filha de 23 anos.
- Mulher? - Tive uma.
Mas morreu.
� que se quer dormir comigo, � melhor. J� tive a minha conta de homens casados.
Desculpe...
Espere.
Tem um peda�o de salada nos dentes.
Voc� tem jeito para as mulheres...
Espere.
� do outro lado.
� salsa.
- Obrigada. - Tem de reconhecer uma coisa.
O qu�?
A tarde j� vai no fim,
e depois do almo�o ningu�m se atreveu a dizer-lhe que tinha salsa nos dentes.
Fui o �nico.
Sexta, �s 20h30, no Albergue de Magou�re.
Tenho de estar em casa �s dez, levanto-me cedo ao s�bado.
S�o muitas emo��es...
Como � ele?
Pai!
- Como � ele? - � um velhote, Juliette.
- Onde mora? - Perto de Etel.
- Os arenques marinados n�o est�o aqui. - � simp�tico?
- N�o sei... Acabo de o conhecer. - E eu, quando o conhe�o?
Quando fizeres um exame de consci�ncia.
Quando a tua filha for grande, h� de querer encontrar o pai.
Vai encontr�-lo e depois vai abandonar-te.
Fala por ti.
Eu n�o abandono ningu�m.
Que sentido faz procurar um tipo de quem nem sei o nome,
para lhe impingir um filho at� ao fim dos seus dias?
Do ponto de vista da crian�a, faz sentido.
O que dir�s � tua filha quando ela tiver idade para perguntar pelo pai?
Direi que foi uma queca isolada. A verdade.
E o que te diz que o tipo em quest�o quer ter um filho?
Na volta, � casado, pai de fam�lia...
Ent�o n�o sabes nada dele?
Dormes assim com qualquer um, em qualquer altura, sem prote��o?
Com o Zorro, num baile de m�scaras,
contra um muro em ru�nas, podre de b�beda, se queres saber!
- N�o quero saber! - Tarde demais.
S�o 25,80, por favor.
Ainda bem que ela escolheu o Zorro e n�o um Bernardo.
S�o 4,20, por favor.
Deixa, deixa, tenho muito gosto.
- Obrigado. - Tomem.
Obrigada, senhora.
A minha filha tamb�m � complicada em quest�o de homens.
Tem uma filha?
Sim.
- Sim. - Bom...
Cinco...
dez...
e com dez, faz vinte.
Desculpe, senhora. Acho que lhe dei 50 euros.
Quem julga que eu sou?
Desculpe! N�o queria ofend�-la.
- J� n�o vejo bem, lamento. - Mas deu-lhe mesmo 50 euros.
Tem alguma coisa com isso?
Tenho, porque...
Porque sou filho dele!
Pronto, deixa estar.
- E trata o seu pai por voc�? - E voc� rouba os velhos, est�pida?
Erwan!
Vamos!
Vou v�-lo ao lar todas as semanas.
Falo-lhe da chuva e do bom tempo, mas n�o sei se ele me ouve.
Mas a dada altura, ele interrompe-me.
Pousa-me a m�o no bra�o, assim, e diz:
"Sabes que isto que h� entre n�s � muito forte?"
E eu respondo-lhe:
"� natural, Fr�do, �s o meu melhor amigo."
Ent�o ele olha para mim,
o olhar torna-se l�mpido, e exclama:
"Isso vem mesmo a calhar. � formid�vel!"
Coitado do Fr�do. Perdeu completamente o ju�zo!
Que horas s�o?
N�o sei.
Pai?
- N�o lhe diga nada, por favor. - � a minha irm�?
N�o lhe digas nada.
A minha filha, Anne.
Erwan Gourmelon.
Esta � boa...!
Pois �.
Conhecem-se?
J� nos cruz�mos.
- Mas como? Onde? Porqu�? - Encontr�mo-nos no bosque, de noite.
- O que fazias no bosque, � noite? - O que faz aqui?
O senhor trabalha na Associa��o dos Reformados de Morbihan.
Anda a visitar os velhos, para combater o isolamento.
Anda a visitar os velhos?
E est�o a beber Calvados?
Fui eu que insisti.
Est� bem. N�o apostaria um c�ntimo em como voc� trabalha na �rea social.
� para ver como s�o os preconceitos...
Vou andando, ainda tenho muitas visitas a fazer. Adeus, Sr Levkine.
Tive muito gosto.
Voltamos a ver-nos?
Sim, sim. Mas tenho uns problemas de fam�lia a resolver.
- Eu acompanho-o... - N�o � preciso.
- Sim, sim. - N�o, deixe.
- Adeus, senhora. - Sempre jantamos amanh�?
Sim.
At� amanh�, Erwan.
At� amanh�.
Tens um encontro rom�ntico?
Sirvo-lhe mais um?
Obrigado.
- Est� adiantada. - Como assim?
Combin�mos �s 20h30 e s�o 20h22.
Como j� c� est�...
Eu chego sempre adiantado.
Assim, sempre que nos encontrarmos, chegamos dez minutos mais cedo.
- Fa�a favor. - Obrigada.
Boa noite.
Sim, desculpe. Boa noite.
Depois disso, a minha m�e foi viver para a Palestina.
Hesitou entre...
o Vietname, a Rom�nia e mais n�o sei qu�...
Queria ocupar-se de todas as desgra�as do mundo.
Exceto da filha.
Ent�o eles mandaram-me escolher aos 10 anos:
pai ou m�e?
Tive de escolher entre um homem sozinho e desorganizado
e uma entusiasta 20 anos mais nova que ele que se estava nas tintas para mim.
Mas o seu pai parece ser boa pessoa.
Sim... enfim...
Mas diga-me l�...
� boa pessoa?
Que interesse tem no meu pai? � geront�filo ou qu�?
N�o, mas por exemplo...
Ele d�-se com muitas mulheres?
O normal.
- E costumava enganar a sua m�e? - Podemos esquecer o meu pai?
N�o podia ter arranjado um trabalho mais interessante do que cuidar de velhos?
N�o, mas os velhos...
N�o � o meu trabalho.
� uma coisa que fa�o como volunt�rio. Ocasionalmente.
Sim?
Ent�o em que trabalha?
Sou desarmador.
Desarmador de qu�?
De bombas.
De bombas...
Minas antipessoal, minas antitanque...
S�o tudo minas de press�o, ou de al�vio de press�o,
porque t�m todas por baixo uma chapa de press�o
e algumas t�m at�...
um sistema armadilhado irrevers�vel.
Irrevers�vel?
Quer dizer que mal a pisamos, estamos tramados?
Em princ�pio, sim.
Ent�o, basicamente...
se ouvimos um clique...
Veja...
Tem um bal�o? Ou um saco de pl�stico?
N�o.
Espere.
Infelizmente, n�o passei pelo loja de bricolage antes de vir para c�.
Para desativar, sondamos a praia toda,
assim,
a 45 graus.
� preciso ser super preciso,
para n�o correr o risco de pressionar a chapa.
Quando encontramos uma coisa dura,
estacamos, controlamos...
e desativamos.
E se fizerem uma sondagem a 50 ou a 60 graus?
N�o � a mesma coisa.
Ora repare...
Ficou cheio de areia!
Obrigado.
O que estamos a fazer?
N�o sei.
Aquilo que se faz quando um homem leva uma mulher a jantar!
Depois de a seduzir com esculturas de areia
e garantir que o seu encanto resultou, ele acaba por a beijar, n�o?
O natural � dormirmos juntos,
e acordarmos com uma ressaca sem saber bem o que recordamos...!
O b�sico, p�, fazemos o b�sico!
Lamento.
� simp�tico fazeres isso.
J� queria faz�-lo...
Mas andas muito ocupado, n�o?
N�o especialmente.
Queres falar?
De qu�?
A Juliette disse-me que conheceste...
Ela disse-te?
E ent�o?
� bonita?
Sim.
� muito bonita.
Como se chama?
Chama-se Anna.
� daqui da zona?
De Etel.
- E faz o qu�? Trabalha? - � m�dica.
Boa, m�dica!
E tem filhos?
Desculpa, sou muito curioso! Calo-me j�.
Mas estou radiante!
Vou buscar umas cervejinhas.
E porque � que ainda n�o come�aram a descontamina��o qu�mica?
Tudo bem, amigo? N�o est�s com boa cara.
Fiz-te uma pergunta.
Aguardo a autoriza��o da DRIRE.
J� mandei o requerimento h� 10 dias.
Parece que n�o.
- Margot para Madjid? - Diz.
H� not�cias da autoriza��o da DRIRE? Pergunta o Erwan.
Vou perguntar � PA se tem not�cias.
Didier!
N�o recebemos nada, mas a Marianne pode ter arrumado mal. Ligo-lhe?
Esquece a autoriza��o. J� percebi.
Onde � que eu pus aquilo...?
Sim, n�o � isto...
Tem gra�a!
Tamb�m n�o � isto...
Como foi a primeira vez que enviei uma carta registada,
fiquei t�o orgulhoso que guardei ciosamente o tal�o. Tenho a certeza!
Onde � que o enfiei...
Tenho a certeza, tem de estar aqui.
Mas onde � que eu...
Muito bem!
"Don Didier de la Vega".
N�o quiseram devolver-me a cau��o porque faltava isto.
Isso j� � uma boa not�cia!
C� est�!
Tenho a prova!
J� me estava a fazer duvidar!
Tem o carimbo,
a data,
c�digo postal... Tudo.
O que �?
Tem aqui o comprovativo.
Do correio que eu ia enviar.
Sim, vejo que tem o carimbo, mas o campo destinado ao remetente � este.
E este ao destinat...i
Que estupidez!
At� pensei: porque � que enviam um duplicado pelo correio...
N�o era um duplicado...
Vou resolver, n�o se aborre�a.
Deito fora?
Engravidar dum dos casos sociais de que ela se ocupa � o c�mulo do envolvimento!
S� que ela n�o fazia ideia de quem era o mascarado.
� a paix�o do sacerd�cio...
A Anna � o mesmo com a medicina.
A prop�sito de Anna...
� melhor p�-la ao corrente.
N�o me trates por voc�, eu n�o sou nenhum bar�o!
� melhor falares com ela.
Antes que ela saiba de outra forma.
Claro. Falo com ela.
Quando for oportuno.
O Madjid disse que queria falar comigo.
Bom dia, Didier.
Entre. Um caf�?
Com muito leite, ent�o. Fiz alguma coisa mal?
N�o... porqu�?
S� queria conversar um pouco consigo.
- Vou ser despedido. - N�o, porqu�? Sente-se.
Tenho uma coisa muito importante para lhe dizer
que talvez v� abal�-lo.
Posso comer uma bolacha?
Sim, sirva-se, claro.
O que queria dizer-me?
Primeiro...
Fale-me um bocadinho das suas origens.
Disseram-lhe que estive preso?
Sim, j� sabia.
E porque foi?
Viol�ncia em bando organizado, mas n�o fui eu.
O que queria dizer-me?
Queria dizer-lhe que estou muito contente com o seu trabalho.
A s�rio?
E penso propor-lhe um contrato.
A s�rio?
Como foi a sua filha que me prop�s este est�gio,
pergunto-me porque � que a sua fam�lia gosta assim tanto de mim.
- Talvez por o Didier o merecer? - Acha?
H� que ser realista!
Tenho 31 anos e meio,
durmo num centro de acolhimento, �s vezes no meu carro,
n�o tenho namorada nem amigos...
At� hoje, n�o se pode dizer que a sorte me tenha sorrido muito.
Mas n�o lhe aconteceu nenhuma desgra�a.
- Mesmo assim. - N�o...
- �s vezes, a vida traz-nos boas surpresas. - A mim, n�o.
Agora, por exemplo, quer propor-me um contrato,
e eu n�o consigo impedir-me de pensar
que isso esconde qualquer coisa.
N�o, n�o! Assumo desde j� que sou incapaz de cuidar duma crian�a!
- Sou demasiado falhado! - Eu posso ajud�-lo.
Eu sou um tipo bo�al! No seu lugar, despedia-me j�!
N�o diga disparates.
Se a minha filha n�o tivesse f� em si, nunca o teria posto aqui!
E sou um cobarde!
S� lhe pe�o que considere assumir a paternidade.
Se n�o o faz por si, fa�a-o pela crian�a.
Ser� vital para a menina crescer a saber quem � o pai!
�...
- � uma menina? - Sim.
Segundo dizem, Adolfo Hitler morreu no Brasil com 95 anos.
Protegido pelos amigos no Vaticano.
- S� faltava essa! - Juro!
Fugiu para o Jap�o num submarino
e depois foi para a Argentina, por Espanha.
H� muito disparate na Internet, n�o se pode acreditar em tudo.
At� t�m uma foto dele nos bra�os duma preta lind�ssima!
A fotografia est� meio desfocada, mas v�-se que � ele.
Mesmo tendo rapado o bigode! Eu trago-lha!
- Fico � espera. At� breve. - At� breve.
Adeus, Sra Moussafir.
Pr�ximo paciente.
Se me passar um atestado,
mal recupere a minha licen�a, levo-a a um passeio no mar!
Fuma?
Parei, quando me tornei pai.
E a Doutora, tem filhos?
Uma dezena de consultas pedi�tricas por semana...
O dobro na consulta de gastro...
Pode vestir-se.
O seu nome?
Gourmelon, Bastien.
� alguma coisa a Erwan Gourmelon?
Sim, � o meu filho.
Conhece-o?
Conheci-o h� pouco.
N�o me diga que � a Anna.
Ele falou-lhe de mim?
Est� a brincar?
Passa o dia a falar de si!
Anna isto, Anna aquilo, Anna para aqui, Anna para ali...
Est� obcecado!
Ele j� me tinha dito que a Doutora era muito inteligente
e muito bonita,
mas agora percebo melhor porqu�!
Que coincid�ncia!
Est�s contente?
Para festejar, preparei-te uma surpresa.
Que tipo de surpresa?
Tipo adiantada.
Esta calou-te!
- Veja, est� comovido. - Bom dia.
Bom dia.
Conhecemo-nos por um acaso incr�vel.
N�o me mentiste.
Ela � mesmo encantadora!
O seu pai preparou um piquenique tr�s estrelas!
Vou abrir uma boa garrafa para festejar.
N�o � rancorosa...
Porque sinto que h� algo entre n�s.
Dou tr�s voltas,
passo a ponta pelo cabo de cima...
e ajusto!
Assim?
Magn�fico!
Fez o n� � primeira!
Bravo!
Costumava lev�-lo muitas vezes a velejar?
Quando ele era mi�do, eu e a m�e pass�vamos todos os fins de semana com ele no barco.
Foram os melhores anos da minha vida.
Lembras-te, Erwan?
Incomoda-o que eu esteja aqui?
N�o.
- De maneira nenhuma. - A s�rio?
Sim, gosto muito, Anna. Gosto mesmo at� muito.
Est� contente?
- Posso fazer uma pergunta? - Sim.
Sente-se bloqueado pelas mulheres?
- N�o, porqu�? - Tudo bem, acontece.
Em adolescentes, retra�mo-nos; aos 18, temos vergonha;
a press�o aumenta ano a ano; aos 25 anos, � inconfess�vel. Ficamos aterrados.
Com o receio de ir �s putas aos 30 anos, � um c�rculo vicioso...
- Mas como teve uma filha... - Se n�o tiv�ssemos o mesmo pai,
eu j� teria h� muito...
O que disse?
Disse que temos o mesmo pai.
Que hist�ria � essa?
- Basta-me o meu, n�o preciso do seu. - Mas � o seu que � meu.
Se eu n�o lhe agrado, diga!
Escusa de vir com a trag�dia dos �tridas, para eu o engolir melhor.
- A trag�dia de qu�? - Nada.
Voc�s irritam-me, porra!
Pai?
Tudo bem, Pinochet, sou eu.
Pai?
Bom dia, filha.
- O que est�s a fazer? - Estou a mudar de h�bitos.
Ou tento.
N�o me lembrava que isto era t�o pesado.
E estou farto de estar de costas para a janela.
Est�s bem?
- Pareces cansada. - N�o, tudo bem.
- Queres um caf�? - Sim.
O que te traz c�?
Queria dizer-te...
Sim?
Estive com o teu...
Estive com o Erwan.
- Sim? - Sim.
Ele p�s-me a par. J� sei tudo.
Pai...
Sim?
Diz-me que n�o � verdade.
Infelizmente, sim. � verdade.
Bom dia, Sr. Montand. Soube que arranjou trabalho.
Bom dia, Emed, tudo bem?
Se n�o se importar, a Elsa vai assistir.
� estagi�ria e vai substituir-me durante a licen�a.
Assim fica a conhecer o processo.
Pelo contr�rio! Assim fica a saber tudo
e a Menina Gourmelon ter� mais tempo para tratar da filha.
Como sabe que vou ter uma filha?
Como tem a barriga muito subida...
� uma menina, eu sei ver.
Est� bem...
Como podemos ajud�-lo?
N�o queria falar diante...
A Elsa sabe que est� a estagiar na empresa do meu pai.
Como podemos ajud�-lo?
A sua gravidez est� a correr bem?
Est�, sim, Didier. Mas n�o estamos aqui para falar de mim.
N�o, claro...
J� sei... Queria saber...
Quanto tempo dura a licen�a de maternidade?
A licen�a de maternidade s�o 16 semanas,
em princ�pio com um per�odo pr�-natal de 6 semanas antes da data prov�vel do parto,
e uma licen�a p�s-natal de 10 semanas depois do parto.
Fant�stico! Obrigada, Elsa.
E para depois disso j� arranjou algu�m...
para cuidar da mi�da?
Sim, vou resolver.
- Com o pai? - Entre outros.
Quem �?
Didier, quem faz as perguntas sou eu.
Seja como for, se fosse eu, ajudava com muito gosto.
E mesmo n�o sendo eu, como conhe�o a sua fam�lia...
E se fosse eu,
assumiria totalmente toda a minha responsabilidade.
� vital para o equil�brio de um beb� ser reconhecido pelo seu pai!
Mas eu tamb�m saberia ser discreto.
Quero dizer, n�o sou nenhum idiota.
Seja como for,
no caso de... sei l�... a crian�a um dia perguntar:
"Quem � o meu pai?"
eu estaria sempre l�, sempre presente, de cora��o e alma.
N�o estou a perceber. O que lhe diz que o beb� n�o tem pai?
Quero dizer...
Falava teoricamente...
N�o tem pai?
Elsa, pode sair um bocadinho?
- Mas... - Por favor.
Foi o meu pai que te mandou c�?
- A tua filha precisa dum pai. - Didier Morai!
- E falas dum pai...? - Ao menos, j� sabes.
O que � que achas? Soube antes de ti que ele era o Zorro!
Mas eu � que tinha de decidir se lhe dizia ou n�o!
Ent�o porque correste o risco de mo confiar?
N�o sei, para...
Para o observar.
E achei que o trabalho o ia fazer ganhar ju�zo!
E o capitalista que s� pensa no seu interesse pessoal sou eu?
N�o, mas o pai do meu filho � aquele que eu escolher!
N�o, Juliette!
O pai do teu filho � o pai do teu filho!
� um facto, n�o � uma escolha! Se ele quiser envolver-se, envolve-se.
- E o que tens tu com isso?! - Vives em minha casa!
Queres livrar-te de mim.
N�o digas disparates, Juliette.
Sei bem que sou um estorvo para ti.
Se eu n�o existisse,
ainda estarias a salvar vidas em vez de desenterrar obuses da I Guerra!
Eu sei que te estraguei a vida!
Sabes que mais? Liberto-te!
Para, Juliette!
- Aonde vais? - Vou dar uma queca com o Capit�o Gancho!
N�o me toques!
Anda c�, por...
�s tu?
Que se passa, querida?
Tenho fome.
Entra.
Sempre gostaste dos meus cozinhados.
Em pequenita, a Av� chamava-te "a ogre". Lembras-te?
Eu detestava!
Tens saudades dela?
Era uma chata, r�gida como a lei.
Comia como um passarinho...
- Nunca acabava o que tinha no prato... - Tal e qual o Pai.
� verdade.
Herdou os defeitos todos da m�e.
E de ti?
O que herdou ele de ti?
Diz-me tu!
Acho que � maneira dele, � generoso.
Como tu.
E � uma pessoa �ntegra, como tu.
� verdade.
Modesto tamb�m.
Tem os seus segredos.
Como tu.
N�o comeste as cenouras.
Tenho aqui peras, v�o estragar-se.
Se ela n�o estivesse gr�vida, voc�s tinham-se casado na mesma?
Claro!
Bolachinhas com leite quente?
Tu sabias.
Se j� n�o tens fome, vou ver o notici�rio.
Av�...
Tu sabias que ele n�o era teu.
Agora tenho a certeza que ele sabe.
Mas tinhas d�vidas.
Julgas que n�o sei o que � um teste de ADN?
A ideia j� me estava a encantar...
Via-me na loja de brinquedos com a mi�da,
a jogar flippers...
e mesmo no campo de futebol.
Se olharmos assim, semicerrando os olhos,
sem o capacete e com um bigode, � mesmo a cara do Hitler!
Veja!
- Ainda tem Tanakan? - Pouco.
Veja, ele envelheceu, mas...
� perturbador, n�o �?
- Precisa de Duphalac, ou ainda tem? - E logo com uma preta!
N�o, j� despach�mos o campo de Tellermine Z43
do outro lado da zona 4.
Isso nunca mais acaba, �...
Despeja os res�duos contaminados no canto sul e liga-me quando souberes.
Tudo bem?
Que se passa, Pai?
Erwan!
Desculpa.
Que se passa? Falta-te alguma coisa?
Temos um problema...
Acabou-se.
J� n�o h� retorno poss�vel.
Sou o pai do beb� e quero ser reconhecido!
Se a Juliette n�o vier ouvir o que tenho a dizer nas pr�ximas 24 horas,
salto.
Didier, s� razo�vel!
Sai da�!
Vamos conversar com calma!
N�o des�o, n�o tenho nada a perder.
- Aposto 50 em como n�o salta. - Agora n�o.
- Pro�bo-o de se suicidar! - Pai, por favor...
Prometo fazer tudo para convencer a Juliette.
Ela � uma rapariga inteligente,
h� de acabar por aceitar.
� isso, sim!
Ela que venha c� e que mo garanta pessoalmente!
Ela n�o quer nada consigo, rapaz!
D� provas de dignidade e esque�a o assunto.
N�o me venha com isso! N�o tem moral para me dar li��es!
Se tivesse tido a coragem de dizer a verdade ao seu filho,
ele n�o teria sido obrigado a andar � procura do pai dele.
Pai...
O que faz ele? Vai busc�-la?
Pai?
M�e...?
H� que fazer face � adversidade!
Fala do atendedor do Bastien.
Isto grava?
N�o percebo nada, merda!
Seria simp�tico atenderes.
Menina, sente-se bem?
� uma contra��o.
� normal.
Tudo bem, eu j� sou crescida.
E o senhor, est� bem?
Os t�xis particulares n�o o t�m prejudicado muito?
N�o, aqui tem sido tranquilo.
Eu sou completamente contra. Acho que � concorr�ncia desleal.
Voc�s pagam um dinheir�o pelo alvar�...
Tenho fome! N�o tens fome?
Pago eu. Anda.
N�o...
N�o pago eu.
Tamb�m n�o tenho um tost�o.
V�s o mesmo que eu?
Eu trato da quiche e tu sacas os gofres.
N�o me sinto bem...
Senhor!
O senhor ouve-me?
Est�?
Est� com a glic�mia muito baixa.
Quando se � diab�tico, n�o se pode tocar em �lcool.
Mate-me de vez, � mais simples.
S� sugiro que leve uma vida mais conforme � sua idade.
O que sabes tu da minha idade?!
Est� cansado, tem de descansar.
N�o me fale como se eu fosse imbecil! Eu n�o sou uma crian�a!
� filho dele?
Sim.
N�o.
J� n�o sei. Estou perdido.
N�o me lembro da tua m�e, Erwan.
Est�s cansado, n�o faz mal.
N�o me lembro.
N�o me lembro.
Isso j� passa.
N�o est� bem?
Tem 13/8, est� muito bem.
- Sim, senhor? - A maternidade?
- � ali. - Obrigado.
- Leve o cobertor. - Obrigado.
Adeus.
Erwan.
Senhor.
Bom dia.
O que fazes aqui?
Procuro a maternidade.
- A Juliette tentou ligar-nos. - Como est� ela?
Elas est�o bem.
As duas.
N�o a fa�am esperar muito.
Empresta-mo?
- A Anna n�o deve tardar. - A Anna?
� a minha filha.
Mas e tu?
- Ficas bem? - Vai!
Vai l�, v�!
Ele foi perfeito esta noite.
Estava perto, n�o tinha nada que fazer...
Mas estiveste aqui.
- Queres pegar-lhe? - N�o, obrigado.
Pai?
J� que aqui est�o, vou aproveitar para...
ir comprar cigarros.
Tu fumas?
At� logo.
Est�s a ver...?
Afinal...
acabou por ganhar ju�zo.
Olha para isto!
Cheio de pelos! Bolas para o Pinochet!
O que te apetece comer esta noite?
Tens de ir, n�o?
- Pai? - Sim.
Dez mil.
Dez mil o qu�?
Mais ou menos dez mil.
As refei��es que me preparaste desde que a M�e se foi embora.
Que hist�ria � essa?
Sabes o que acho muito triste...
com amigos que perderam os pais, quando eram novos?
� nunca terem tido oportunidade de retribuir.
Sim?
Se a tua m�e precisasse de ti, por exemplo,
tu n�o a ajudavas?
Sim.
E porqu�?
Porque...
Porque apesar de tudo...
devo-lhe os primeiros dez anos da minha vida.
Devo-lhe...
Merda!
Deves-lhe?
Sim, devo-lhe...
O desejo de salvar vidas...
Devo � M�e a minha paix�o. E isso n�o tem pre�o.
E como a est�pida nem precisa de mim, tenho de compensar contigo, meu velhote.
H� fortes probabilidades de eu durar at� aos cem anos,
e se queres que te diga,
n�o te quero ter sempre � perna, minha filha!
Lembras-te...
do que a tua m�e fazia com a fruta?
Lembras-te, minha querida?
Obrigava-nos...
a comer a fruta podre antes da madura para ela n�o se estragar.
Resultado?
Pass�vamos o tempo a comer...
Fruta podre.
Tratar dum velho que tem a vida pela frente
quando temos a vida pela frente,
� como comer um fruto ressequido
quando a vida nos estende os bra�os...
como um belo p�ssego maduro.
N�o impede que a gente se veja de vez em quando.
S� pelo prazer de nos vermos.
Se eu n�o estiver muito ocupado, claro.
Vai l�...
Vai.
N�o a achas parecida com ela?
Com a M�e?
Sim.
Nunca pensei tanto nela.
O que �?
Lamento...
N�o, pelo contr�rio.
Penso como ela ficaria feliz e isso d�-me confian�a.
E isso d�-me for�a, percebes?
Ela est� aqui.
Tamb�m me d� for�a.
Registo a crian�a nos vossos nomes?
N�o, � de pai desconhecido.
N�o � assim t�o desconhecido...
Ele j� c� esteve a reconhecer a crian�a.
Didier Morpain.
� isso?
Sim.
Porque te interessas por cavalos-marinhos?
� uma das raras esp�cies em que o macho incuba os ovos e traz as crias ao mundo.
E isso seria uma esp�cie de pai ideal?
Se ser genitor basta para fazer um pai, sim.
Abra bem.
Se n�o forem irm�os, o que v�o fazer?
Em princ�pio, vamos dormir juntos.
Anna!
Anna!
Reservei um quarto em nome de Anna Levkine.
Reservou?
Sim. Em nome de Anna Levkine.
Em que nome?
O que est� a fazer?
Antecipo.
Se for meu irm�o, vamos comer mexilh�es fritos com o Pai,
e acabamos a noite a jogar Scrabble, a ouvir L�o Ferr� ou...
ou Serge Lamas, se preferir.
Caso contr�rio, o que se passa?
Damos por n�s feitos parvos, a fazer amor numa varanda?
Sinceramente, Erwan, j� n�o temos idade para isso.
Quando vamos descobrir que o homem que amamos talvez n�o seja nosso irm�o,
antecipamos um pouco. S� isso. E eu antecipei.
� 0%!
O que est� a fazer?!
Erwan, larga-me!
Larga-me!
Erwan!
Tamb�m j� come�ava a habituar-me � ideia de ter um irm�o...
�s tu!
- Posso sentar-me? - Claro.
E os testes?
Mas almo�amos juntos na quarta?
Como todas as quartas.
S� PARA TER A CERTEZA
Realiza��o
Produ��o
Argumento
Montagem
M�sica
Fotografia
"Ao Didier e aos seus pais"
Tradu��o SARA DAVID LOPES
F I M
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