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O PROCESSO
Diante da lei, há um guarda.
Um homem vem do interior pedindo para entrar.
Mas o guarda, não pode deixá-lo entrar.
Ele pergunta se pode entrar mais tarde.
''É possível'', diz o guarda.
O homem tenta olhar. Aprendeu que a lei foi feita para todos.
''Não tente entrar sem minha permissão'', diz o guarda.
''Sou poderoso, apesar de ser o menor dos guardas''.
''A cada sala e porta, cada guarda é mais poderoso que o anterior''.
Com a permissão dada, o homem senta ao lado da porta, e espera.
Espera durante anos.
Ele vende tudo o que tem, na esperança de subornar o guarda.
Este, sempre aceita o que o homem lhe dá,...
para que o homem não sinta, que não tentou.
Fazendo vigília ao longo dos anos,...
o homem conhece até as pulgas no colarinho do guarda.
Ficando gagá com a idade...
pede as pulgas, que convençam o guarda a deixá-lo entrar.
Sua visão é curta, mas na escuridão...
ele percebe o brilho imortal na porta da lei.
E agora, antes de morrer,...
toda sua experiência se concentra em uma pergunta que nunca fez.
Ele chama o guarda, que pergunta o que ele quer.
O homem diz que todos lutam para ter lei.
Então, por que em todos aqueles anos...
ninguém pediu para entrar?
Sua audição não é boa, e o guarda grita em seu ouvido:
Só você poderia entrar.
Ninguém passaria por esta porta.
Esta porta foi feita somente para você.
''Agora eu a fecharei''.
Essa é uma passagem do romance, ''O Processo''.
Diz-se que a lógica dessa história,...
é a lógica de um sonho.
De um pesadelo.
Srta. Burstner?
Esperava a Srta. Burstner?
Não, que ideia,... claro que não.
Mas falou seu nome.
- Quando? - Chamou-me assim, quando entrei.
Bem, é o quarto dela.
O que faz aqui? O que quer? Quem é você?
A Srta. Burstner vem aqui toda noite?
Não, nunca.
A porta fica trancada, e a chave fica com a Sra. Grubach.
- Onde está ela? Sra. Grubach! - Esperava a Sra. Grubach?
Não esperava ninguém. Nem você, seja quem for.
Aonde vai?
Acho que a Sra. Grubach gostaria de saber que há estranhos aqui.
la para lá. Pelo que disse, é o quarto da Sra. Burstner.
- Sim, ela gostaria de saber disso. - Ela não está aí.
lsso não é uma surpresa. Às vezes ela chega tarde.
- Você é da polícia? - Ela costuma chegar tarde?
- Não tire conclusões. - Que conclusões?
O horário do clube, não é culpa dela.
Ela mesma responderá, está para chegar.
- Você é da polícia? - Por que acha que a queremos?
Não tenho opinião formada a respeito.
Nada tenho com isso. Mal conheço a Srta. Burstner.
Somos vizinhos, isso é óbvio.
Ela está metida em algum problema?
Acha que viemos procurar a Srta. Burstner?
A mim é que não vieram procurar,... não é?
Você não nega, nem afirma nada.
Só fica ai me olhando em meu quarto, às 6:14 da manhã.
Por que devo tolerar isso?
- Nem mostrou seus documentos. - Não é você que deve?
Meus documentos estão em ordem. Pode ver.
Por que não termina de se vestir?
Para sua informação, tenho hábitos regulares.
Vestir-me às 6:15 não é um deles.
Além disso, acho que não conseguirei mais dormir.
Aonde vai?
Tomo banho de manhã se quer saber. Por quê?
- Não se troca diante de mim... - Eu me troco no banheiro.
- Por quê? - O banheiro é quente...
e a sala é fria. Mais alguma pergunta?
- Por que se vestiria na sala? - Fique aqui.
- Por que ia se vestir na sala? - Não me visto na sala.
Se não me trocar no banheiro após o banho,...
serei obrigado a andar pelo corredor de roupão.
Espero que entenda.
Você disse que ia se vestir na sala, não disse?
Para que se vestir? Não vai a lugar nenhum, está preso.
É uma acusação formal?
Eu não poderia fazer isso.
- De que sou acusado? - Tentativa de falar com o inspetor.
Começou o processo. Até depor, ficará em seu quarto.
- Estou em meu quarto. - Não posso evitar.
- Belas camisas. - Deixe-as aí.
É melhor dar suas camisas para nós.
Se as confiscarem e as levarem para a central, desaparecem.
No serviço público há muita corrupção.
- Somos seus amigos. - Poderia nos dar algumas...
Deve ser uma brincadeira...
dos meus amigos do escritório.
- Eles estão lá. - Quem está lá?
São do meu escritório.
Quem os trouxe?
A polícia?
O que eles têm a ver com isso?
Rabenstein, Kublick e Kaminer.
- O que é isso? Uma senhora! - É a mãe dela. Deixem isso aí!
Especialmente você. O que faz aqui, Rabenstein?
O inspetor disse que seria mais discreto se fossem juntos.
Discreto, pois sim! ''Comedido'' é a palavra.
- Como posso ir se estou preso? - Não precisa trabalhar.
- Disse para eu ficar no quarto. - Leu a página.
Obviamente, isso não deve ser importante.
Não me lembro de nada que possa ser acusado.
Só pode ser um engano. Algo banal.
Mas a verdadeira questão é: quem me acusa?
- Com que autoridade?... - Não se preocupe com isso.
Lamento, mas não encontro nada subversivo...
- ou pornográfico. - Não toque em meus discos!
- O que é isso? - Meu ''pornógrafo''.
- O que é isso? - O quê?
Uma linha com quatro furos. Não é circular, é mais ''ovular''.
- Não anote isso. - Por que não?
- ''Ovular''. - Só porque você não quer?
- A palavra não é essa. - Nega que há algo ovular aqui?
- Ele nega tudo. - O Sr. Grubach era dentista.
Aí está ela. Sra. Grubach!
- Era o consultório do Sr. Grubach. - Ela não pode entrar aqui.
A cadeira de dentista estava pregada no chão.
Quer um conselho, amigo? Não quero que ouçam.
Quer dinheiro? Pegou o cara errado.
- É o que todos dizem. - lsto é extorsão!
Espere aí. Pedi algo a você?
- Vamos sair, amigo. - Vai criar problemas?
Bom dia, Sr. K. Seu café está pronto.
Gostaria que contasse a ele.
Ele se acha inocente e não quer falar. Entende?
lsso causa uma péssima impressão.
- Devo-lhe desculpas. - Não, Sr. K.
Prometo que não acontecerá de novo.
Muitas coisas acontecem nesse mundo, Sr. K.
É meu melhor inquilino.
- Creio que posso ser franca. - Pode falar.
Penso no seu bem e levo isso mais a sério do que devia.
Sou apenas a sua senhoria.
Tive uma conversa particular com o inspetor.
Parece que o senhor está preso, Sr. K.
- Disso eu sei. - Mas não como um ladrão.
Sinto que sua prisão é algo mais abstrato, se é que me entende.
Tão abstrato que não se aplica a mim.
Claro que não, Sr. K. Não vai comer nada?
Entrar assim no meu quarto... eu não estava preparado.
No escritório estou sempre preparado.
Lá eu não permitiria que entrassem assim.
As pessoas levam uma semana para falar com a minha secretária.
Meu erro foi deixá-los entrar antes de tomar meu café.
Tem sempre café pronto no fogão.
Deixo para a Sta. Burstner, quando voltar do trabalho.
Que horário ingrato.
- É a sua profissão. - lmagino que sim.
É o horário da boate, não é culpa dela.
Talvez não. Acha que devo oferecer-lhes café?
- A quem? - Aos que trabalham com o senhor.
No quarto da Sta. Burstner?
Pensei que tivessem partido. O que fazem aqui?
Rabenstein, ponha as fotos onde estavam!
- Café para os cavalheiros. - Não, Sra. Grubach.
Não são meus amigos. Deviam ter saído com a polícia. Leve-os.
- Por aqui, senhores. - O que são vocês? lnformantes?
Sobre o que informarão?
- Ainda está aqui? - Está chamando a atenção, Sr. K.
Chamando a atenção? Quero meus documentos de volta.
Acha que não sabemos quem você é?
Sr. K. não está ajudando seu caso em nada.
De que caso está falando?
- Não estou falando de nada. - Por que não?
- De que sou acusado? - Não posso falar do seu caso.
- lnspetor? - Sim!
Qual é a acusação?
Sr. K. está se declarando inocente?
Claro.
lsso é invasão de privacidade e abuso dos direitos civis.
Não conheço a tecnologia legal, mas um advogado me ajudará.
Um famoso advogado é amigo de minha família.
Ameaça fazer uma queixa oficial?
E farei. Também posso mencionar uma tentativa de extorsão.
Aí vem sua amiga, a Sra. Burstner.
Não é bem minha amiga. Vai ficar aqui na minha casa a manhã toda?
- Vai tirar minhas digitais? - Podemos fazê-lo na delegacia.
Onde mais registraria uma queixa?
- Vamos esquecer isso. - Está registrado.
Usou a palavra ''ameaçar''.
- Quem a usou foi você. - O que é esse ''pornógrafo''?
Não tente entender, a menos que tenha uma mente suja.
Fique, Sra. Grubach.
Nada disso ficará bem no relatório.
Meus homens disseram que tentou impedir que escrevessem.
Tentei impedir que um deles fizesse papel de bobo. ''Ovular''.
O que é isso? Não existe tal palavra.
O marido da Sra. Grubach era dentista?
O que isso tem a ver com seu caso?
- Nunca disse que tivesse. - Por que mencionou isso?
Para explicar que formato ovular...
''Formato ovular''...
Escreve tudo o que digo!
O relatório deve ser completo, mas essa conversa fiada...
não causará boa impressão, senhor K.
Não vai mesmo.
Ainda bem que ele se foi. Temia que amolasse Srta. Burstner.
- Ela está subindo. - Mais atrasada do que nunca.
Espero que tenha estado fora ontem. A que horas ela trabalha?
Acho que se veste, ou se despe, para o 1º show, à meia noite.
- Um jantar dançante? - Não sei como chamam.
- É um jantar dançante. - Não sei dizer...
- É como o chamam. - Nunca estive em tal lugar.
Por que alugo meu 2º quarto a uma mulher desse tipo?
- Como assim? - Gente de teatro, Sr. K.
Não é lugar para elas. Sei que concorda comigo.
Eu não sabia. Veio com a mãe, uma senhora respeitável.
Ela também parecia. Quando a mãe morreu...
Bem, sempre tive o coração mole.
Sra. Grubach, o que está querendo dizer?
Tenho a impressão de que é sobre a Srta. Burstner.
Já que perguntou, ela não faz só o espetáculo,...
mas bebe com os homens depois.
Só perguntei se estava divagando sobre a moral de sua inquilina.
Sr. K., não diga isso...
Boa noite, Sra. Grubach.
Não a mandaria embora sem provas concretas.
Um senhorio deve manter sua casa....
acima de qualquer suspeita.
Acima de qualquer suspeita?
Sra. Grubach, se mandará gente embora daqui comece comigo!
Boa noite, Sra. Grubach.
- Não me entendeu... - Boa noite Sra. Grubach.
Srta. Burstner?
Boa noite. Ou melhor, bom dia.
Se quer dizer algo, diga: ''Feliz Aniversário''.
Seu aniversário? Por isso chegou mais tarde?
Não sabia que controlava meu horário, senhor...
Não quis dizer isso. Além disso, não é da minha conta.
Certo. Boa noite.
Feliz aniversário!
Desculpe...
Eu devia ter feito isso.
O quê?
Quando bati, devia ter esperado que mandasse entrar.
- Está com alguma ideia? - Claro que não.
Só porque bati na sua porta...
É o que quero dizer. Você bateu, não? Por que não?
É um bom rapaz, mas não estou disposta.
Foi uma noite longa e cansativa.
- É verdade. - Como sabe?
- Eu falava de mim. - É o que todos fazem.
De que mais pode falar? Deixe-me descansar.
- Certo. - Certo o quê?
Farei o que quiser. Mas não quer que eu fale, não entra...
Como posso? A bruxa velha está doida para me mandar embora.
- Quem, a Sra. Grubach? - Ela está sempre me vigiando.
- Algum problema? - Já disse, estou cansada.
Desculpe.
- Esqueci o que ia lhe perguntar. - Talvez se lembre.
Nunca lembro de nada. Grande frase... fique quieto!
- Desculpe. - Desculpe...
Vive se desculpando. Quem se importa?
Eu sei. Des...
- Qual é a graça? - Eu ia dizer de novo.
Você tem razão. Ninguém dá a mínima, nem você.
Eu o quê? Deixe a porta aberta!
Concordei com você, com o que disse.
Nem sei o que eu disse.
Droga, todo aquele champanhe nacional barato...
Sabe de que é feito?
Ninguém sabe.
Não trocaram por chá gelado.
O freguês sabia disso...
E tomava pequenos goles da minha taça,...
para ter certeza de que eu ficaria bêbada!
Desculpe.
Droga, falei de novo.
Adianta se desculpar?
É pior quando não se fez nada e se sente culpado.
Lembro de meu pai olhando-me fixamente.
Ele dizia: ''O que andou fazendo, rapaz''?
Mesmo que eu não tivesse feito, sentia-me culpado. Sentiu isso?
Depois a professora dizendo que sumira algo de sua mesa.
''Quem é o culpado''?
Eu, claro. Eu me sentia mal de tão culpado.
E sequer sabia o que havia sumido.
Talvez seja isso.
A menos que seus pensamentos sejam puros.
lsso se aplica a todos?
Mesmos os santos, têm tentações.
- O que acha? - Acho que é louco.
Tem razão. lsso explicaria...
Devo rejeitar tudo, exceto os fatos.
Sou normal, inocente, não cometi crime algum..
Três vivas para você.
- Não acredita em mim. - Claro que acredito.
Seja franca. O que pensa?
Esteve em algum lugar.
Acha que fui beber, que estou bêbado?
Na próxima, beba onde trabalho. Ganho uma porcentagem.
Não saí do meu quarto desde que voltei do trabalho ontem à noite.
- E não sou de beber sozinho. - Então, qual é seu problema?
Estou preso.
- lnacreditável, não? - Como aconteceu?
Não tenho a menor ideia.
Como sabe? Não é algo que aconteceu de repente.
- Fui acordado e me disseram. - Estava mesmo acordado?
Se acha que eu estava sonhando, veja suas fotos.
É minha mãe, em diferentes poses. ''Os Pássaros'', um bom show.
Deixe minha mãe fora disso! Por que o pegaram?
- Não me pegaram. - Não disse que o prenderam?
- Foi o que disseram. - Qual é a acusação?
Não disseram. Só sei que serei interrogado.
- É para crimes sérios. - Foi o que pensei.
Disseram que o crime não era sério?
- Não disseram isso. - Talvez seja um trote.
Pensei nisso. Algum dos colegas do escritório brincando comigo.
Mas não acreditei, queria acreditar.
É fácil ser desmoralizado, não é?
É o que querem.
Contam com isso. Mas não sou bobo...
Você deve ter feito algo.
Talvez sejam apenas boatos vindos do escritório.
- Que tipo de boatos? - Quer dizer no meu caso?
Não faço a menor ideia!
Espero que não seja política!
- Não é nada disso. - Não me meta nisso!
Andamos em círculos.
Não é culpa minha. Não quero falar. O que faz aqui?
- Você me convidou. - É o que diz.
- Srta. Burstner, por favor... - Por favor, o quê?
Se está em apuros lamento, mas não me meta nisso.
Eu disse que você nada tinha com isso, mas não me ouviram.
Quando mexeram nas fotos de sua mãe...
O quê? Quem mexeu nas fotos de minha mãe?
Acho que foi o Rabenstein.
Mas também a polícia.
- A polícia? - Era o que eu ia lhe dizer.
Fora daqui!
Fora daqui, deixe-me em paz!
O que os outros pensarão? Acordará a Sra. Grubach.
- Saia do meu quarto! - Já saí!
- Se tiver alguém, atendo logo. - O gerente geral o procura.
E sua prima está aqui.
Minha prima? Ela não devia vir ao escritório.
Ela disse que era sério.
Bom dia, senhor. Eu preparava uma surpresa de aniversário.
No armário de limpeza?
Comprei um bolo para uma colega, mas não posso deixá-lo na mesa.
- Não acha? - Quem é ela?
Se soubesse, eu a teria convidado para hoje à noite.
- Os ingressos se esgotaram. - Entendo.
- Espero que entenda. - Ela não se chateará....
Já se chateou. O bolo é meu presente de paz.
Se ela não aceitar, não é moça para você.
Quem é?
É minha prima lrmie. O que ela faz aqui?
- Sua prima? - É do interior e estuda aqui.
- Tomo conta dela. - E temos de tomar conta de você.
Parece jovem.
Há hora para tudo, certo?
Garanto que ela nunca ousou vir aqui.
É um dos nossos jovens mais brilhantes, e em ascensão.
Não estrague tudo.
- Qual é a idade dela? - A lrmie?
Deve ter 16, no máximo.
Meu Deus!
Sr. K, a jovem...
-Tire-a daqui. - Ela disse que é urgente.
Pouco importa o que ela disse. Tire-a daqui!
- Não é o baú da Srta. Burstner? - E se for?
Pensei tê-lo reconhecido. Pegue o bolo.
Estou ocupada com essa coisa.
Deixe-me ajudá-la. Tome.
Deixe-me chamar um táxi.
Nem todos podem pagar um táxi, Sr. K.
Sabe meu nome?
Se for amiga dela, pode me dizer se ela está em casa?
Se se refere a casa da Sra. Grubach,...
a resposta é ''não''.
Marika tem um lar, mas não é o da Sra. Grubach.
- Marika? - Como?
- Não sabia seu primeiro nome. - Que ironia!
Ela tem outra casa?
Agora tem, felizmente.
Deixe-me ajudá-la, parece pesado.
É pesado, mas eu levo sozinha. Obrigada.
- Levar o baú para onde? - Espero que não me siga.
- De forma alguma. - Até agora, está me seguindo.
Só não gosto de ver uma mulher carregando coisas pesadas.
Sobretudo as paralíticas, não é?
Já que sente tanta pena Sr. K., por que não se afasta...
da causa do seu desconforto?
Desculpe.
Não quero incomodá-la, mas gostaria de saber...
se a Srta. Burstner se mudará, e para onde?
Algo mais?
Também gostaria de saber porque está se mudando.
E ainda diz que não sabe?
Como poderia? Acabei de chegar.
Ela não me disse que se mudaria.
Ela não ia mudar. Foi uma surpresa desagradável.
Fala como se eu fosse o culpado.
- Finge nada ter com isso? - Não finjo nada.
Só falei com ela e a beijei.
Não diga que só porque a beijei, está se mudando.
Afinal, é uma mulher experiente. Trabalha em uma boate.
O que está insinuando?
Nada, mas deve admitir que ela é uma mulher adulta.
Já devem tê-la beijado antes.
Acha que é um assunto para ser discutido na rua?
- Ora, diabos! - Não é preciso xingar.
Por que estou sempre errado, sem ao menos saber o motivo?
Não discutirei isso com você.
- Examine sua consciência. - Ela vai bem, obrigado.
Ela estava com a Sra. Grubach há mais tempo que o senhor.
Ela gostava daquele quarto.
O meu é pequeno, escuro, úmido e frio.
- Não terá conforto comigo. - Então, por que se mudou?
Não grite comigo. Sou aleijada, mas não tolerarei abusos.
Grite com essa tal de Grubach.
Espere aí. Quer dizer que...
Droga, é tarde.
Diga a verdade. A Sra. Grubach pediu que ela saísse?
Pensei que não soubesse.
Ela falou da Srta. Burstner, e eu contestei.
Eu disse que ela estava se excedendo.
Quer dizer que ela foi despejada?
Então acho que sou o responsável.
Ouça, senhora...
Com licença, senhor.
Um bilhete para o senhor. Um homem o espera.
- Onde? - Lá fora.
Acompanhe-me, Sr. K.
Estamos fazendo o máximo esforço...
para não interferirmos na sua vida.
Por exemplo, para não ter de se ausentar do escritório,...
encaixamos os interrogatórios fora das horas de trabalho.
Fique sob a lâmpada.
Quem são eles?
Não pode saber onde estão os interrogadores.
Certo, não sei.
Preenchi isso em seu nome. Há um pequeno mapa do outro lado.
Você o entregará assim que chegar.
- Quando será isso? - Agora.
- Está noite? - Espero que ache o lugar.
Esses dois podem me orientar.
Como assim?
Não me seguirão e observarão meus movimentos?
Não, eles não o seguirão. Não é o trabalho deles.
Entre aí.
Devo fechar a porta. Ninguém mais deve entrar.
Devia ter chegado há uma hora e cinco minutos.
Tais atrasos, não devem se repetir. Aproxime-se, por favor.
Você é pintor de casas?
A pergunta do magistrado sobre ser pintor, parece típica...
desse processo que foi impetrado.
O livro do magistrado confirma o que digo.
Este é o relatório do magistrado examinador!
O que acontece comigo não é importante,...
mas acho que representa o que acontece com outras pessoas.
É por eles que estou aqui, não por mim.
Apoiado!
Fui preso e talvez, segundo às palavras do magistrado,...
haja uma ordem de prender um pedreiro,...
tão inocente quanto eu.
Os policiais sugeriram o suborno e tentaram roubar minhas roupas.
Fiquei calmo e perguntei o motivo da prisão.
Qual foi à resposta do inspetor?
Se ele estivesse aqui, me ajudaria.
Mas não falou nada, apenas me prendeu.
Vi o magistrado sinalizar para alguém.
Não sei se foi sinal de aplauso, ou de vaia.
Mas autorizo o magistrado a dirigir-se a seus agentes....
em voz alta, para que vaiem ou façam o que quiserem.
Há alguma dúvida de que, por trás da minha prisão...
está agindo uma enorme organização?
Organização composta de servidores civis, policiais,...
talvez até carrascos.
Vejo que todos vocês são servidores de algum tipo.
Significa que vieram ouvir o que puderem sobre mim.
Metade me aplaudiu para me animar. Saiam da frente!
Talvez treinem para iludir um inocente...
Ou se divirtam por eu achar que queiram justiça.
Espere! Só quero mencionar que hoje desperdiçou...
por conta própria,...
as vantagens que um interrogatório dá ao acusado.
Espere para ver.
- O que fazem aqui? - Seremos chicoteados.
- O quê? - Por sua culpa, amigo.
Reclamou de nós às autoridades.
- Acusou-nos de corrupção. - Fez uma queixa.
- Apenas mencionei ao inspetor. - E ao magistrado.
- Vamos embora. - Disse que pedimos suborno.
- lnocentes, vocês não são. - Se soubesse nosso salário...
Tenho família, e Frank quer se casar.
É hábito ficar com a roupa do preso.
Que diferença faz umas camisas, a quem vai preso?
- Nada. - Mas você abriu o bico!
Não foi nada pessoal, só defendi um princípio.
Não disse? Não quer que nos castiguem!
Nada teria nos acontecido se você não tivesse nos denunciado!
Por que você...
Que justiça é essa? Temos fichas limpas. Eu principalmente.
Se alguém se queixasse dele, ele estaria aqui?
Tire a roupa você também.
Tirar minhas roupas...
- Ouça... - O que você quer?
Se puder deixá-lo ir, eu agradeceria.
O que pretende? Vai dar queixa de mim?
Não fiz queixa alguma.
Se eu quisesse que fossem punidos, eu iria embora,...
fechava a porta, os olhos, não ouviria nada e esqueceria tudo.
Mas não acho que devam ser punidos.
Seus superiores, sim. As autoridades, a organização.
Se eu fosse um juiz, não me importaria.
Até pagaria por um bom serviço.
Não aceito suborno algum.
Por favor, tente me tirar daqui!
Frank é mais velho que eu. Ele aguenta. Já apanhou antes.
Chega de conversa!
Ele sabe que merece!
Há um homem em seu escritório. Ele diz que é seu tio Max.
Tio Max!
- Olá, meu rapaz. - O que o traz à cidade?
Joseph...
É verdade?
Sim, é verdade. Pelo menos acho.
E você foi preso?
- Tento escrever uma carta. - Muito bem.
Continue com seu trabalho, meu rapaz.
Não se incomode comigo.
- É um caso criminal? - Por favor...
Foi o que me disseram.
E fica aí sentado?
Se não pensa em si mesmo...
Se não pensa em você, pense na família, no nosso bom nome!
Como veio à saber?
lrmie me ligou.
A pobre lrmie, que você não quis receber no escritório.
Não posso manter longas conversas...
com parentes durante o horário de trabalho.
- Também diz respeito a mim. - Tio Max...
Fiz essa longa viagem com o objetivo de tentar ajudá-lo.
Mas você nem quer me ver.
Claro que quero,...
mas deve entender como é difícil...
durante o horário de trabalho.
Parece que seu horário de trabalho terminou, Joseph.
Vamos.
Afinal, sou a coisa mais próxima de um pai...
que você pode achar no mundo. Não se esqueça disso.
Não esqueço tio, acredite.
Precisamos de ajuda legal.
Coisas assim, não ocorrem de repente. Um caso criminal!
- As pessoas estão ouvindo. - O que é aquilo?
Um computador.
Uma daquelas coisas eletrônicas que respondem a qualquer coisa?
- Pronto! - O quê?
Quer saber sobre seu caso? Pergunte a máquina!
Não é permitido.
lsso pode ser arranjado, não?
A quem pedirei?
Nem sei do que me acusam.
Essa é uma pergunta que o computador poderia responder.
Precisaria de dados econômicos, sociais e psicológicos.
Pode ser que consiga. Processa testes de personalidade.
Ela teria de ser alimentada com muitos dados.
- Disse ''ela''? - É como os técnicos a chamam.
Como um carro, ou um barco. Afeição.
Mais do que isso.
Amor? Terror?
- Não sei. - Se for uma mulher, tome cuidado.
Espere.
Deve ser aquele cão no parque.
Está colocando esparadrapo. Não ouvirá seus gritos.
Vê? Assim não ouvirá nada.
Ele diz que toma conta do computador.
- Não toma conta. - É um dos técnicos.
Falando de fatos, um crime é um fato.
Suponha que eu tivesse cometido ou não um crime.
- Eles estão ocupados. - Trabalham em turnos.
O pessoal da noite, depois das 23:00, pode lhe mostrar.
Tem razão, Joseph. Essa parafernália eletrônica...
não serve para nada prático.
Não diga que se livrará de uma acusação com uma calculadora.
Abram! Somos amigos do advogado.
É um assunto importante, e precisamos vê-lo agora mesmo.
O nome é K., pode nos anunciar? Parece mais uma enfermeira.
- O advogado está doente. - Disse que está doente?
Deve ser o coração. Nunca foi saudável.
Pode ser uma hora estranha para uma consulta,...
mas o bom Hastler não recusará.
Estudamos juntos, como já lhe disse.
Ele tinha boa reputação.
- Albert, sou eu, Max! - Leni, estou doente para visitas!
Não os deixe entrar. Vão embora!
Albert, não se lembra de mim?
Sou seu velho amigo, Max!
- Venha, Leni. - Albert, o que há com você?
Teve outro ataque? Tudo bem, você se recuperará.
Estão cuidando de você? Está escuro, aqui não há luz.
Falta de energia claro, mas que tal sua enfermeira?
Quem? Leni?
Boa garota.
Muito boa. Cuida muito bem de mim, não é querida?
Deixe-nos a sós. Preciso falar um assunto pessoal com ele.
Não pode falar com ele, agora.
Podemos falar tudo diante de Leni.
Ela é muito discreta.
Não tenho nada com isso, não é meu assunto.
- De quem se trata? - De meu sobrinho. Eu o trouxe.
- Joseph K. - Quem?
Joseph K.?
Não tinha reparado.
Veio me consultar sobre seu caso. lsso é bom.
- É um caso interessante. - Cuidado agora.
- Então conhece o caso? - O que disse?
Não compreendo...
Eu é que não compreendo.
É sobre o seu caso que quer me consultar?
- Claro, o que há com você? - Parece que ele já sabe de mim.
Nos círculos que frequento, muitos casos são discutidos,...
e lembro dos mais notórios, como o do sobrinho de um amigo.
Claro, é lógico, Joseph.
Diz que frequenta esses círculos.
Está ligado ao tribunal?
Com quem me ligaria, a não ser com homens da profissão?
lsso é indiscutível.
Estou em desvantagem pela doença,...
mas bons amigos do tribunal me visitam...
e ouço coisas interessantes deles.
Por exemplo, há um querido amigo me visitando.
Estávamos conversando quando vocês nos surpreenderam.
Ele preferiu retirar-se com sua cadeira e mesa a um canto.
O presidente do tribunal.
Onde?
Com licença, senhor.
Esqueci de apresentar. Este é meu velho amigo K....
e seu sobrinho. Sei que se interessa pelo seu caso.
Joseph K.
Saia, Leni. O presidente é muito ocupado,...
mas, como o caso interessa a todos, talvez ele fique.
Ficaríamos honrados.
- Só posso ficar alguns minutos. - Sabemos que não tem tempo.
O presidente é que pode dizer, meu velho amigo...
como defendi muitos casos assim.
E até ganhei alguns, parcialmente.
O importante é a petição inicial. lsso determina o processo.
Mas na prática, a petição inicial não é lida pelo júri.
- E por que não? - Costumam arquivá-las.
Seu amigo deve ser alertado...
de que o caso pode passar por muitos tribunais e, às vezes...
Quebrei o vidro.
- Por quê? - Para chamar a sua atenção.
Queria que viesse aqui.
- Você também me intrigou. - Não tirou os olhos de mim.
E me deixou esperando.
Não podia sair sem um motivo. Deixe...
Mas saiu.
Sim. Esse não é o meu casaco.
É melhor sair com ele, estava sem casaco.
Não sairei nem ficarei aqui. Voltarei para lá.
Sei que não gosta de mim,...
mas farei amor com você, e então, não poderá voltar.
O que dirão?
Não gosta mesmo de mim.
Gostar, é uma palavra fraca.
Tem namorada?
Aposto que tem. Um rapaz como você, deve ter alguém.
- Para dizer a verdade... - Fale-me dela.
Não há muito a dizer. Nem sei mais onde mora. Tenho uma foto....
Tem uma foto dela?
É alguma atriz?
Não, dançarina.
Não é tão jovem assim.
Não gostei dela. Parece durona e egoísta.
Não se sacrificaria por um homem.
Certamente, não por mim.
Ela tem defeito físico?
Ela tem algum defeito físico?
Eu não sei. Claro que não.
Se não sabe dela, então não significa muito para você.
Vou descobrir.
Eu tenho um defeito físico.
Mostrarei a você, venha.
Olhe!
A pele dos meus dedos médios.
É como uma teia.
Uma teia? Que bela mãozinha!
É melhor você ir. Vá!
lr?
Direi que não se sentia bem, que precisava de ar fresco.
Volto logo com as chaves para você sair.
Não posso sair sem as chaves?
Não quero prendê-lo.
As chaves são para você entrar à noite... quando quiser.
Ótimo.
- Quem é aquele? - Aquele quadro?
- Podia ser meu juiz. - Eu o conheço.
Ele não é assim tão alto. É baixinho, quase um anão.
Ele quis ser pintado assim.
Ele é vaidoso, como todos aqui.
Sou vaidosa e fico chateada, que não se interesse mais por mim.
- Juizes, veem aqui ver você? - Ele só é um magistrado inquiridor.
Magistrado inquiridor!
Como será um juiz da Corte Suprema?
O trono e o traje são de invenção.
Está numa cadeira, com um tapete embaixo, para ficar mais alto.
- Está sempre vendo seu caso? - Não penso o suficiente.
Não, é esse o seu erro.
Você é teimoso e encrenqueiro, foi o que soube.
- Quem lhe disse isso? - Não me pergunte nomes.
Siga o meu conselho, seja mais prestativo.
Prestativo? Ora essa!
Assim que possível, eles o farão confessar.
E nesse caso, nunca mais sairá de suas garras.
Não há esperanças.
E mesmo assim, precisará de ajuda externa.
Leni?
- Querida? - Onde você está, querida?
O presidente vai embora. Acompanhe-o até à saída.
Boa noite.
- Está ficando tarde. - O que falou sobre advogados?
Fazem de tudo para nos desencorajar.
O quarto deles nos tribunais, é tão pequeno!
- Pequeno? - E sem ventilação.
Só uma claraboia. Se quiser respirar, tem de pedir...
para outro levantá-lo! Há um buraco no chão.
Se você cair nele,...
sua perna fica sobre o corredor abaixo.
O lugar onde os clientes esperam.
Não sabia das dificuldades.
Muito humilhante.
Só queria que o meu sobrinho ouvisse isso.
- Quem é aquele homem? - Qual?
- Ali. - Não devia ter aberto a porta.
- Quem é ele? - Não faz diferença.
Como assim?
Preciso ir.
Certo.
Saia por trás. Finja que estava esperando na rua.
Diga que precisava tomar ar fresco.
- O que ele faz? - Ele espera. É um cliente.
A chave.
Leni...
Joseph, como vai?
A enfermeira é amante do advogado.
Está querendo complicar mais sua situação?
Quer perder o caso?
- Procura por alguém? - O que foi?
- Não há sessão? - Hoje, não.
- E por quê? - Virão amanhã.
- Certeza? - Meu marido é segurança aqui...
- Aquele que a beijou e.... - Aquele é estudante de Direito.
- Mas tem influência. - lnfluência?
- Ele é influente. - Deve ser.
Estavam se amando no meio de uma multidão.
Acabamos com seu discurso, mas não pude fazer nada.
Quando ele começa... não pode mexer nisso!
- É do magistrado inquiridor! - Entendo.
É o regulamento, não tenho culpa.
Lembra-se de mim? Ontem à noite?
- Meu nome é Hilda. - Devem ser livros de Direito...
e eu devo estar no meio. Acho que não entenderia...
Que sujeira!
É sujeira mesmo!
São esses os homens que me julgam!
Vou ajudá-lo. Você não quer?
Como? Se seu marido é só o segurança?
Quero ajudar, por isso entrei aqui.
Mesmo sendo proibido.
Obrigado, mas não quero envolvê-la.
Não saia assim, ainda não.
Tem ideias erradas sobre mim.
Sou tão insignificante para não ficar se eu pedir?
Tenho muito tempo. Vim aqui achando que haveria sessão.
Não se ofenda se eu pedir para não ajudar no caso.
Não ligo para o resultado. Se for sentenciado, vou rir deles.
Não chegará a tanto, mas vão protelar...
para tentar me arrancar dinheiro.
Diga ao magistrado que não darei dinheiro...
aos preciosos jurados.
Você falou que só os maiorais podem ajudá-lo.
Acho que sim.
Ele sempre escreve e deve mandar para as autoridades.
Ontem, quando os outros saíram, ele ficou escrevendo até tarde.
Cortaram a luz, e ele trouxe uma vela.
Aí meu marido chegou. Pusemos os móveis no lugar...
e os vizinhos trouxeram cerveja, conversamos à luz de velas.
E esquecemos completamente do magistrado.
À noite, acordei, e lá estava ele...
ao lado da cama, cobrindo a luz para não acordar meu marido.
Nem precisava, quando ele dorme, nada o acorda.
Quase soltei um grito, mas o magistrado foi gentil comigo.
Disse que havia ficado escrevendo e que viera devolver a vela.
Disse que, enquanto vivesse, não esqueceria o quadro...
que eu compunha dormindo na cama.
lsto prova que ele anda ocupado escrevendo longos relatórios.
O de ontem, deve ter sido o seu, e alguém deve lê-lo.
E está interessado em mim.
Talvez possa ajudar você.
Mandou-me meias pelo estudante. Quer ver?
Cuidado!
- Bert? - Eu sei, ele é feio.
Viu as pernas dele?
Preciso ficar com ele agora.
Voltarei logo. lrei com você aonde quiser.
E poderá fazer o que quiser comigo.
Não acredita em mim?
Por que deveria?
Pode ser armadilha.
- Está com medo? - Quem é o estudante?
- E se for? - Só estava pensando.
Não pense.
Seria uma doce vingança tirá-la deles.
- Por quê não? - À noite, quando o magistrado...
ficasse escrevendo relatórios sobre mim,...
encontraria sua cama vazia.
Porque não vai embora! Devia ter saído quando cheguei.
- Acha mesmo? - É como deve ser.
Quando eu chego, você dá o fora!
Estou detectando a insolência de um futuro magistrado.
Não deviam deixá-lo solto assim. Foi um erro.
Falei ao magistrado.
Não banque o engraçado!
Espere!
- Não adianta! - Como assim?
- Ele mandou me buscar. - Quem?
O magistrado inquiridor.
Não quero, mas o monstro não me larga!
Desculpe. Preciso ir.
- Agora escute. - Deixe-o, quer me arruinar?
- Ele segue ordens do magistrado. - Está bem, leve-a!
- Mentiu para mim. - Por que eu mentiria?
- Não vai com o magistrado. - Vou sim!
Vai dizer que ele a espera num lugar destes.
São as salas do tribunal. Onde mais seria?
As salas do tribunal...
Um lugar...
Droga!
Você é o réu?
Meu nome é K.
É o segurança do tribunal?
Sou o marido dela.
É domingo de noite.
Não devia trabalhar hoje.
Para que eu não atrapalhe, me mandam fazer tarefas inúteis.
Aquele estudante... se meu trabalho não dependesse disso...
já o teria jogado contra a parede há muito tempo.
Lá, um pouco acima do chão.
Tudo ensanguentado, com os braços, os dedos,...
e aquelas pernas tortas, retorcidas,...
como uma barata esmagada.
Antes ele satisfazia seus prazeres...
mas agora, é o magistrado inquiridor!
E ela não tem culpa?
Ela se atira para ele. Na minha posição, nada posso fazer.
Mas queria que ele levasse uma sova!
Ele é covarde. Nunca mais tocaria nela.
Só você pode fazer isso.
Só eu?
- Como assim? - Não o prenderam?
Por isso, eu é que devo ter medo dele.
- Ouvi falar do seu discurso. - E daí?
Achei que não tivesse medo algum.
E não tenho.
Não tenho medo de jeito nenhum deles. Mas ele tem influência.
É amigo do magistrado, e meu caso já levanta preconceitos.
- Não há preconceitos! - Terei de discordar de você.
- Mas posso cuidar do estudante. - Eu lhe agradeceria muito.
Estas são as salas do tribunal.
Minha esposa e o magistrado estão aqui.
Não tenho a chave desta.
- Quem é essa gente? - São os acusados.
- O que faz aqui? - Estou esperando.
- O quê? - Entreguei várias petições.
Faz tempo, estou esperando o resultado.
- Parece estar tendo trabalho. - Sim, mas é meu caso.
Estou preso e não faço petições. Acha isso necessário?
Não sei exatamente, mas fiz minhas petições.
Não acredita que estou preso?
- Claro que sim. - Por que não acredita?
O que acha que sou?
Acha que sou um juiz?
Abram caminho. Saiam todos da frente!
Como saio daqui? Já me cansei.
- Já vai? Ainda não viu nada. - Nem quero, só quero ir embora.
Fique à direita da passarela...
e depois, vá até...
a segunda esquina, e depois à esquerda pelo saguão...
É melhor me mostrar. Não vou conseguir achar sozinho.
Tenho uma mensagem a entregar.
- Venha comigo! - Não grite!
Quer atrair os seguranças? Terá de dizer que é um acusado.
Não quero esconder nada.
- O que direi a eles? - A verdade.
Vim ver se este famoso sistema judiciário,...
é tão detestável quanto eu pensava.
Estou muito deprimido para ver mais.
Quero sair e ficar só.
Está com tontura?
Todos passam mal na primeira visita.
É o ar. É o cheiro de roupa lavada.
Não pode impedir que lavem sua roupa.
Não podemos fazer nada.
Aonde vai?
- Quer ir a enfermaria? - Não se incomode.
- Se eu pudesse respirar ar puro. - Falta pouco. Aí está a porta.
Você não queria sair?
Não estou acostumada ao ar fresco.
- lrmie, o que faz aqui? - Eu estava procurando você.
O tio Max deve estar me espionando.
Ele escreve pedindo notícias.
Não tem notícias do caso, e está preocupado. Todos nós estamos.
Diga-lhe que não se preocupe.
Preciso escrever alguma coisa.
- Diga que está tudo sob controle. - Está mesmo?
Não sei...
Detesto ser chata, mas sabe como ele é...
quanto a honrar o nome da família.
- Talvez tenha razão. - Não diga besteiras.
Espero que não tenha dito o que pensei.
- Que vergonha. Qual a sua idade? - Quase 16.
Tem 15, e não devia ter vindo sozinha.
Vim porque você se meteu em encrencas.
- Não a vigiam na escola? - Tentam.
- Sai depois da hora? - Você não é o único malandro.
- Não tem graça. - Diga que sou delinqüente.
O que direi sobre você? Não há novidades?
Estou pensando em me livrar do velho amigo de seu pai.
O Dr. Hastler nada faz além de adiar o processo.
É seu advogado? Vai ficar sem advogado?
Fácil. É só demiti-lo do caso.
E depois?
Eu não sei.
Nada mais concreto?
- Não. Nada. - Mas precisa de advogado.
Hastler vive se gabando de seus contatos, mas o que ele pretende?
Não sou burro, sei me defender. Veja meu cargo no escritório.
Posso chegar a gerente geral do departamento.
É só aplicar os conhecimentos no meu caso.
Livrando-me do advogado, posso fazer meu próprio plano.
- Aqui nos separamos. - Vai trabalhar agora?
O serviço acumulou, preciso terminar o trabalho.
- Devia levá-la até a escola. - Só faltava chegar com um homem.
- Sou seu primo. - Primos se casam.
- Casar com um bandido? - Bandidos se casam também.
Até mais.
É ele!
- Quem é você? - Bloch.
- É empregado. - Não, sou cliente.
Estou só a negócios.
- Em mangas de camisa? - Com licença.
Fazia amor com Leni?
Parece ser honesto. Seu nome é Bloch?
É Bloch.
- É seu nome verdadeiro? - Claro, por que não seria?
Sei lá, pode ter motivos para escondê-lo.
- Sabe quem é? - Um juiz.
- Da Corte Suprema? - Deve ser.
Sabe pouco sobre lei. É o mais baixo dos juizes.
Agora me lembrei! Já me disseram isso.
Claro que já lhe disseram.
- Sim, já me disseram. - Onde ela está agora?
Onde está Leni? Onde se escondeu?
Não está se escondendo. Deve estar na cozinha.
lsso mesmo, deve estar fazendo sopa para o advogado.
- Por que não falou? - la levá-lo lá.
- Não pense que é esperto. - Não mesmo!
Nem eu penso.
Boa noite, Joseph.
- Quem é ele? - Ele se chama Bloch.
Você estava de camisola.
É seu amante?
Quero uma resposta.
Vá até o estúdio, que eu conto.
Quero que me diga aqui.
Está com ciúmes do pobre Bloch? Ele não é nada.
Dou lhe atenção porque é um dos melhores clientes do advogado.
- Vai passar a noite comigo? - Os ovos estão queimando.
Ótimo. Ovos lhe fazem mal.
Se quer ver o advogado, eu digo. Ele perguntou por você.
- Aposto que sim. - Onde você esteve?
Tenho informações. Coisas que descobri.
Mas primeiro tire o casaco.
- Eu o anuncio, ou lhe dou a sopa? - Dê-lhe a sopa, vai precisar dela.
- É cliente do advogado? - O que tem com isso?
Fique quieto, Rudy!
Vou lhe dar a sopa, mas talvez ele durma depois.
Ele ficará acordado.
Falarei de você assim que acabar. Quero que volte comigo.
Fique sentado.
Então...
você é...
cliente do advogado?
Um cliente muito antigo.
Faz tempo que cuida dos seus assuntos?
Ele é meu representante desde o começo.
Mas meu caso, talvez estivesse pensando nisso,...
está tudo aqui. Não sei lhe dar as datas exatas.
É difícil guardar tudo na cabeça.
Não achei que Hastler estivesse no comércio também.
Claro, ora.
Sabe o que dizem...
que é melhor advogado comercial do que outro tipo.
Não vai me denunciar?
Não sou informante.
Ele é um homem muito vingativo.
Ele não irá querer maltratar um cliente seu.
Se provocado, faz qualquer coisa.
Não faz distinções.
O que ia me contar?
Vai ter de me contar um segredo seu. Por favor.
Para confiarmos um no outro e ficarmos calados.
Eu conto.
Tenho outros advogados.
- Outros? Além de Hastler? - Mais cinco.
Sabe de uma coisa?
Hastler...
Escute aqui.
Hastler...
sempre se refere...
Espere um pouco. Espere um pouco.
Hastler sempre se refere aos outros,...
como grandes advogados.
Claro!
Mas, no protocolo do tribunal,...
- que lugar ocupa? - Qual?
Entre os pequenos advogados, pequenos é claro.
Hastler?
Os grandes advogados, que nunca são vistos...
Então, fez sua defesa? Queria lhe perguntar sobre isso.
- Como consegue? - É cansativo.
lr ao tribunal para ver tudo é demais para um homem só.
Depois disso, irei lá mais vezes.
Na primeira vez, todos se levantaram. Acharam que fosse juiz.
Foi o guarda que estava com você.
Foi para ele, que se levantaram.
Há uma superstição ridícula.
Você deve saber dizer, pelo rosto e pelos lábios de alguém...
como o seu caso vai terminar.
Dizem que pela expressão de seus lábios...
poderiam afirmar que você seria julgado culpado.
- Num futuro próximo. - O advogado está esperando.
- Que espere! - Falem depois, Bloch dormirá aqui.
- Dormirá aqui? - Ninguém é como você...
que espera ter uma entrevista a qualquer hora.
E o advogado está doente.
Seus amigos fazem favores, e você aceita sem discussão.
Não peço que agradeça.
Só quero...
Bem...
- quero que goste de mim. - Eu gosto de você.
Por que Hastler não irá querer me ver?
É meu advogado, que favor é esse?
- A questão não é essa. - Está sendo desagradável!
Sabe por que o advogado recebe? Vou lhe dizer o motivo.
Seu caso ainda está num estágio em que há esperança.
- Depois vai ser diferente. - Você fala demais.
É o problema dele. Por isso o advogado não suporta vê-lo.
Ele me vê de vez em quando.
Mas nunca se sabe quando é enervante.
Nunca se sabe quando irá recebê-lo.
Pode ser a qualquer hora, dia ou noite.
E se eu não for quando lhe der na veneta...
de mandar me buscar, perco minha chance.
Aí, tenho de esperar mais tempo.
Por isso o deixo dormir aqui.
A gente depende do advogado, com o passar do tempo.
A verdade é que ele gosta.
Não da espera.
Mas gosta de passar a noite aqui, não gosta?
Ótimo.
Quer ver o quarto dele?
Tudo bem.
Dorme no quarto da empregada?
Ela me deixa, é muito apropriado.
- Ponha-o para dormir. - Espere, Sr. K.!
- Espere, Sr. K.! - Rudy!
Sr. K.!
Esqueceu-se da promessa. la contar um segredo seu.
Vou lhe contar.
- Vou dispensar o advogado. - O advogado?
Vou dispensá-lo do meu caso.
- Dispensá-lo! - Hastler não fez nada!
- É velho, doente, ou não liga. - Ele não é indiferente.
Dispensar o advogado!
Espere, por favor!
Fique fora disto!
Deixe-o em paz, Leni.
Você andou a chateando de novo?
- Chateando? - Ela gosta de todos os acusados.
É uma peculiaridade dela.
Ela flerta e faz amor com todos eles.
E, quando eu autorizo,...
ela me conta seus casos, para me divertir.
Tudo sobre eles.
Veio aqui por um motivo específico?
Vim dispensar seus serviços.
Não deve estar com pressa.
Sei que fez tudo que podia, mas é preciso dinamismo.
- É um plano a ser discutido. - Não é plano, é fato.
Quantas vezes vim a toa?
Quantos clientes atingem o estágio que você atingiu...
e ficou em pé, na minha frente, dizendo as mesmas coisas?
Talvez tivessem razão para isso, como eu.
É verdade.
Os acusados...
são atraentes.
Não que o fato de ser acusado, apareça de imediato...
na aparência de um homem.
Mas, se você tiver olho para isso...
pode ver um acusado no meio de uma multidão.
Há algo neles, algo...
atraente que pode ser um sentimento de culpa.
Não podemos ser todos culpados.
Uns são mais que outros, mas todos são.
Até aquela criatura horrível do Bloch. Vamos trazê-lo aqui.
É hora de ver como os acusados são tratados.
Traga o Bloch aqui, Leni!
Vá e traga o Bloch.
- Minha decisão é definitiva. - É melhor pensar bem.
O advogado quer vê-lo.
Vamos.
É você, Bloch?
O que quer?
- Mandei chamá-lo? - Mandou.
Chegou na hora errada!
Vim assim que ouvi meu nome.
Devo sair?
- Não está aqui? - Sim, senhor, estou.
Então, fique.
Ontem vi meu amigo, O Terceiro Juiz.
A conversa girou sobre seu caso.
Quer saber o que disse?
Nestes casos, há opiniões tão divergentes, que a confusão...
é impenetrável. Num certo momento...
por uma velha tradição, um sino deve tocar.
O juiz disse que isso é o início do processo.
Há muita controvérsia a respeito disso, mas você não entenderia.
Por que se ajoelha?
- Quem é seu advogado? - O senhor!
- Fora eu? - Ninguém, senhor!
- Não dê atenção a ninguém! - Pode rastejar!
Não fale assim comigo!
Não na frente do advogado! Como se atreve?
Como ousa me insultar?
- Você o humilha, para mostrar poder! - Não dê atenção a ninguém.
Faça o que sua consciência lhe mandar.
Estou de joelhos, advogado. De joelhos, senhor.
Como ele se comportou hoje?
Calmo e trabalhador.
O que fez o dia todo?
Ficou trancado no quarto da empregada para não me amolar.
É onde sempre fica.
Então, não sabe com certeza o que fez?
Olhava às vezes pelo exaustor.
Ficava ajoelhado na cama, lendo o livro que lhe emprestou.
Havia pouca luz. Prova que ele fez o que lhe é ordenado.
Ele entendeu o que leu?
Seguia as linhas com os dedos.
Só sei que passou o dia todo na mesma página.
O livro deve ser difícil.
As escrituras são difíceis.
Servem para lhe dar uma vaga ideia...
das lutas que travo em nome dele.
- Leu sem parar? - Quase sem parar.
Pediu água, e eu lhe passei pelo exaustor.
Às 8 horas, o deixei sair para comer.
Você o elogia demais. Agora fica difícil dizer a verdade.
As observações do juiz foram confortáveis.
Como?
lrritou-se a ouvir seu nome.
Falou que estou perdendo tempo
Ele não tem esperança.
Não quis acreditar. Falei que Bloch era escrupuloso,...
que pessoalmente era um tanto repugnante,...
tinha péssimos modos e que era sujo.
Mas, como cliente, falei que era irrepreensível.
O que foi um exagero.
E o juiz respondeu que meu cliente tinha...
uma esperteza reles.
Que aprendera ao longo dos anos, a manipular a situação.
E o que acharia se lhe disséssemos,...
que o sino que indica o início do processo...
nem havia sido tocado?
Fique calado! Não tem vergonha?
Está destruindo sua confiança em mim.
O que há com você? Ainda está vivo.
- Sob minha proteção. - Estou dispensando seus serviços.
Vai mudar de ideia.
Estar acorrentado, pode ser melhor que estar livre.
- Aonde vai? - Abra a porta.
- Deve estar louco. - Abra!
- Não tem para onde ir. - Ele é que é louco.
Quase que caio nessa. Toda essa encenação foi para me convencer.
Até onde pensa que pode ir sozinho?
Até agora, aonde cheguei? Para onde estou indo?
É melhor falar com ele.
- O juiz da Corte Suprema? - Não banque o engraçadinho.
Titorelli, pintor oficial do tribunal, conhece todos eles.
Ninguém tem mais influência com os juizes do que Titorelli.
Ele pode me ajudar?
- Ele pinta e ajuda as pessoas. - Abra a porta.
- Vá amanhã. - E as chaves?
Estão com o advogado.
- Adeus e obrigado. - Vai voltar?
- Não terá escolha. - Vi o que é ser cliente dele.
Bloch não é mais cliente, é o cachorrinho dele.
- Conhecem o Sr. Titorelli? - Quem?
Um artista que mora aqui. Conhece o pintor Titorelli?
- O que quer dele? - Que pinte meu retrato.
Aprenda a lidar com garotas.
Pestes! Fora daqui!
Brincadeiras bobas! Ele veio à negócios!
Fora, suas pestes!
Por quê não vão a outro ateliê?
Estou vendo vocês.
Estou vendo vocês, não enganam Titorelli!
Fora!
Todas vocês, fora do meu ateliê.
Peço desculpas por recebê-lo assim.
Voltei tarde ontem. Está uma bagunça.
Quando estava quase dormindo, uma mão horrível me segurou.
Ela esperava embaixo da cama.
Podemos entrar?
- Não podem! - Nem eu?
Conheço umas garotas que vão ficar feias quando eu as pegar.
Vão preferir que suas mães as tivessem afogado num balde.
Vou pegar meu furador de gelo. Vocês se lembram dele?
Em que posso ajudar?
Queria uns conselhos.
Quer comprar algum quadro?
É claro. Está pintando algum agora?
Um retrato. Ainda incompleto.
- Deve ser um juiz. - Juizes são minha especialidade.
O que isso quer dizer?
Não está vendo? Justiça.
Há uma venda nos olhos, mas isso aqui não são...
- asas nos calcanhares? - Fui instruído a pintar assim.
A justiça deve ficar parada, senão as balanças se desequilibram.
É a justiça e a Deusa da Vitória juntas.
O que ela lhe parece?
A Deusa da Caça em ação.
Titorelli, podemos entrar?
- Estamos ocupados! - Nem tanto.
Vai pintá-lo? Não pinte um tipo tão feio!
- As garotas são do tribunal. - Elas também?
Quase tudo pertence ao tribunal.
Mas é por trás do pano neste ateliê, que as coisas andam.
Você quer absolvição ostensiva, definitiva, ou adiamento?
A definitiva é melhor, mas não posso influir no veredicto.
Nunca soube de um caso de absolvição definitiva. O que foi?
- Não tem uma janela para abrir? - Entra bastante ar pelas frestas.
Mas há essa porta. O juiz que estou pintando...
tem a chave. Caso eu tenha saído.
O Meritíssimo chega cedo, quando ainda estou dormindo.
Não é gostoso acordar e dar de cara com um juiz,...
com aquelas roupas esquisitas andando por cima de você.
Ele tirou o casaco.
Acham que vou pintá-lo, porque tirou o casaco.
Há alternativas?
As alternativas legais? Já lhe disse, absolvição...
ostensiva, adiamento. O que foi, está passando mal?
Deve ser o calor.
Se abrir a porta, as meninas invadirão.
- Não abra... - Na absolvição ostensiva,...
faço uma declaração de sua inocência.
Levo aos juizes que conheço, começando pelo que pinto agora.
Explico que você é inocente, e que garanto isso pessoalmente.
- E se acreditarem? - Como devem acreditar.
Não devemos ser tão pessimistas.
Alguns acreditarão em mim.
E eu estaria livre?
Ostensivamente livre.
Os juizes que conheço, são de um escalão inferior.
Não têm poder para conceder absolvição final.
O Alto Tribunal é inacessível para todos nós.
As chances que temos lá em cima,...
não sabemos, nem queremos saber.
- Sei que você entende. - Não tenho certeza.
Podem aliviar o peso da acusação.
Tirá-la dos seus ombros por uns tempos.
Numa absolvição definitiva, todos os documentos são anulados.
Na ostensiva, seu dossiê continua circulando...
nos tribunais de primeira e de segunda instâncias...
Nem sabemos como funcionam essas peregrinações.
- Nem adianta saber. - Não há chance.
Conheço casos de pessoas absolvidas,...
e que a polícia vai prendê-las novamente.
Mas é possível obter outra absolvição ostensiva.
Que não seria definitiva.
É seguida de uma 3ª prisão, e a 3ª absolvição, e a 4ª prisão...
Um adiamento seria melhor?
- Não sei dizer. - Não se pode adiar para sempre.
Medidas têm de ser tomadas. Perguntas, interrogatórios,...
observações, mais interrogatórios, provas colhidas.
- Já vai? - Voltarei muito em breve.
Terá de manter sua palavra.
Ou irei ao escritório. Não irá gostar.
- Quer abrir a porta? - As meninas vão amolá-lo.
É melhor sair por aqui.
- Espere. - Por quê?
Não quer ver meus quadros? Deve haver um que queira comprar.
Este é moderno. Um quadro de ação.
- Chamo-o de ''Natureza Selvagem''. - Eu compro.
- Eis o companheiro. - Levo os dois.
- Parece que gosta do tema. - Gosto.
- Vou pendurar no escritório. - Por sorte, tenho outro parecido.
- Quanto custa os três? - Acertamos na próxima.
Hoje você está com pressa. Mas nós vamos manter contato...
frequente de agora em diante, não?
Aqui é o tribunal.
Parece surpreso.
O que mais me surpreende, é não conhecer esse seu tribunal.
Para um acusado é um erro. Nunca deveria dormir...
nem desviar o olhar para o lado.
Um juiz ou alguém assim,...
pode estar espiando do outro lado.
Vocês!
Deixo vocês inquietos, não?
Sentem-se mal em minha companhia.
Já me disseram isso.
Pensaram que eu fosse um juiz ou um oficial de justiça.
Achei que sentissem medo, mas o que sentem é dor!
Não gostam do que veem. É a minha boca!
Acham que podem saber pela minha boca que serei condenado.
Que serei considerado culpado, culpado!
Joseph K.!
Joseph K.!
Você é Joseph K.?
Um acusado?
- Foi o que me informaram. - Seu caso está indo mal!
Minha petição inicial não foi feita.
- Sua culpa não foi provada ainda. - Mas não sou culpado.
Por falar nisso, como pode qualquer um ser culpado?
- Somos todos homens iguais aqui. - Os culpados sempre dizem isso.
O que pretende fazer agora?
- Conseguir mais ajuda. - Ajuda?
Possibilidades não exploradas.
Deposita muita esperança na ajuda das mulheres.
Elas têm influência. Veja, o magistrado...
quer derrubar o réu para pegar a mulher dele.
É um lado da lei que não conhece.
E a porta? Preciso ir trabalhar.
Afinal sou subgerente do meu departamento.
O que faz na igreja?
- Ou isso aqui ainda é tribunal? - Saí da cama.
- Pois pode voltar! - Como pode achar...
que conseguirá se defender?
Que escolha. Defender-me ou desafiá-lo.
- Desafiar o tribunal. - O que é isso?
- Usamos recursos visuais. - Palestras e sermões.
Seus enganos peculiares estão descritos nas Escrituras,...
que são o prefácio da lei. Diante da justiça, há um guarda.
Um homem vem do interior e pede para entrar.
Mas o guarda não pode deixá-lo entrar. Ele espera entrar depois?
Todos nós já ouvimos isso. Ele morre de velho, de tanto esperar.
E no final, o guarda diz que a porta era só para ele.
Ele diz que ninguém poderia entrar.
E agora, eu vou fechá-la.
Alguns dizem que o homem foi até à porta...
- por vontade própria. -Temos de acreditar nisso tudo?
Não é preciso aceitar isso tudo. Somente o necessário.
Que triste confusão! Faz da mentira um princípio universal.
Quer desafiar a lei. Com esse gesto, espera alegar insanidade.
Reforçou isso fingindo-se de vítima de uma conspiração.
Não é sintoma de insanidade.
- Mania de perseguição. - Mania?
Não finjo ser mártir.
Nem ser vítima da sociedade?
Sou um membro da sociedade.
Crê que convencerá o tribunal de que é irresponsável por insanidade?
Eles querem que eu ache isso.
Essa é a conspiração. Convencer todos de que todos são loucos.
Sem forma, sem sentido, absurdos. Esse é o jogo sujo.
Perdi meu caso, mas e daí?
Você também perde.
Está tudo perdido. Perdido!
E daí?
lsso condena o universo todo à loucura?
Será que não vê nada?
- Claro, sou responsável. - Meu filho...
Não sou seu filho.
Esperam que eu pegue a faca e me mate? Vocês terão de fazê-lo.
Vocês.
Vocês.
Vocês.
Vocês!
Vocês!
Vocês!
Vocês seus imbecis! Vocês terão de me matar!
Vamos! Vamos!
Este filme, ''O Processo''...
foi baseado no romance de Franz Kafka.
Os atores, em ordem de aparição foram...
Antony Perkins...
Arnoldo Foa...
Jess Hahn, Willian Kearns...
Madeleine Robinson, Jeanne Moureau...
Maurice Teynac, Naydra Store, Suzanne Flon...
Raoul Delfosse, Jean-Claude Remoux, Max Buchsbaum...
Karl Studer, Max Haufler, Romy Schneider...
Fernand Ledoux, Akim Tamiroff, Elsa Martinelli...
Thomas Holtzman, Wolfgang Reichman, William Chapel...
e Michael Londsdale.
Eu interpretei o advogado, escrevi o roteiro e dirigi.
Meu nome é Orson Welles.
Legenda: DVDrip Continental
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