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Santiago de Nova Extremadura, 1548
Levantai-vos, por favor.
Hoje,
Espanha assinará um acordo de paz com o povo mapuche.
Jamais voltará a haver guerra
entre as nossas duas grandes nações.
Jamais.
Viva a governadora de Santiago de Novo Extremo!
- Viva! - Viva!
Viva Dona Inés Suárez!
- Viva! - Viva!
INÉS DA MINHA ALMA
Cusco, Vice-reino do Peru Abril de 1548
Após quatro anos de Guerra Civil Dia da Vitória
Eis o herói que nos levou à vitória:
Dom Pedro de Valdivia,
o meu fiel mestre de campo.
Não, por amor de Deus. Levantai-vos.
Eu é que devo estar-vos agradecido.
Graças a vós, finalmente acabaram as guerras civis no Peru.
Nem Almagros nem Pizarros;
só o imperador manda.
Obrigado, excelência, bispo Lagasca.
Como enviado do imperador e novo vice-rei do Peru,
estou autorizado a conceder-vos tudo o que me peçais.
Só desejo voltar para o Chile, o quanto antes.
E vossa licença para recrutar homens
com os quais terminar a sua conquista.
Sempre para maior glória do nosso grande imperador Carlos.
Sempre para maior glória do nosso grande imperador Carlos,
capitão Valdivia.
Ou devo dizer: Dom Pedro de Valdivia,
governador-geral do Chile e da Araucania?
Dom Pedro de Valdivia...
- Sou eu. - Estais preso.
Em nome de quem? Como vos atreveis?
Por ordem da Santa Inquisição.
Finalmente sorris, Inés. Fico contente.
Lembrei-me de Plasencia, e da minha irmã.
Vendíamos empadas,
num mercado muito semelhante a este.
Ninguém acreditaria que, não há muito,
nesta mesma praça, só se servia caldo de lagartixas.
Sim.
Se alguma destas damas soubesse, de certeza que vomitaria.
Mas, na verdade, não sei que Santiago prefiro.
Com a fome e as privações,
a gente era mais sincera e mais honrada.
Trouxestes a prosperidade, Inés.
Construístes um hospital, uma escola...
Finalmente, reina a paz. E tudo graças a vós.
Senhora governadora.
- Desfrute do mercado, Aguirre. - Claro.
Sim, finalmente reina a paz,
mas os mapuches continuam a trabalhar escravizados,
nos campos e nas minas de ouro.
Senhora governadora... Dona Inés.
Um beijo na mão de vossemecê.
- Dona Carmen. - Um prazer.
Dona Lucía.
Chamam-me governadora, mas, para todas estas,
serei sempre "a puta de Valdivia".
És a pessoa mais rica da cidade.
Isso é-lhes indiferente.
Não sabem o que é esforço nem sacrifício.
Ide com calma e esperai-me na igreja.
Ide, ide. Senhora governadora.
- Padre. - Dona Cecilia.
Não lhe toques.
- Felipe... - Que bruto.
Não gostais de donzelas espanholas?
Talvez seja hora de que tenhas uma mulher.
Eu decidirei quando é altura de roubar uma mulher.
Roubar?
Disse roubar?
Selvagens.
O demónio habita entre vocês.
Então, também habitará entre os espanhóis, não?
Eles tomam as índias, e trocam-nas quando querem.
Talvez se encontrem todos no inferno: espanhóis e mapuches.
Com licença.
Acusa-se Dom Pedro de Valdivia de alta traição
e de agir contra os legítimos interesses da Coroa.
De ter enforcado, sem julgamento,
o enviado do imperador: Dom Sancho de la Hoz.
Sois acusado de agir com tirania e cobiça,
roubando o ouro dos vossos homens, com enganos e ameaças.
De fraude e roubo ao comerciante Francisco Martínez...
Calúnias!
Senhor Dom Pedro de Lagasca,
jamais agi contra os interesses da Coroa.
Quanto ao canalha do De La Hoz, tentou assassinar-me duas vezes.
Fomentava o motim e a traição, entre os meus homens.
Também sois acusado de viver amancebado
com uma tal de Inés Suárez,
puta e feiticeira.
E que essa tal Inés Suárez dispõe e manda, como se fosse governadora.
E que a premiastes
com distribuição de terras e comendas de mais de 700 índios.
E digo que ela merece isso e muito mais!
Cega-vos a luxúria.
Quanto àqueles que se atrevem a chamar-lhe bruxa e rameira,
desejo manifestar ante este tribunal
que foi Dona Inés Suárez quem encabeçou a defesa de Santiago,
quando se viu assediada por milhares de mapuches.
Nem o mais valente dos meus oficiais teria feito melhor.
Será que não merece recompensa a ação de defender com a sua vida
as propriedades do nosso senhor imperador?
Graças ao seu valor, a Coroa continua presente no Chile!
Teria eu gostado de ver-vos...
...naquela situação, querido clérigo.
Como...
Como se atreve a comparar-me com uma puta e necromante?
Cão filho da puta!
Largai-me, lacaios!
Basta!
Saiam todos!
Quero ficar a sós com o acusado.
Disse todos!
Não é brincadeira, capitão Valdivia.
Sois acusado de delitos muito graves.
A sentença...
...é a morte.
Vós sabeis
que essas falsas acusações provêm de gente que me tem inimizade.
Eu sei.
Então, não entendo.
Eu podia tentar
que fôsseis absolvido de todas as acusações, salvo de uma:
viver amancebado com essa tal Inés.
É um facto inadmissível, para um governador da Coroa.
O que quereis?
Deveis renunciar a ela.
Perdoais-me tudo,
menos uma falta de amor?
Bem se vê que nunca haveis amado.
Jamais renunciarei a Inés.
Jamais.
Então, seja.
E que se cumpra o vosso destino.
Guardas!
Senhor Quiroga.
Dona Inés.
Ainda há poucos anos,
não conseguíamos alimento para a nossa gente.
E, agora, exportamos trigo para o Peru.
Gosto de passear por aqui.
É como se estivesse perto dele.
A cidade prosperou.
E tudo graças a vós.
Todos insistis em agradecer-me,
mas a prosperidade só se deve ao esforço de todos.
Cada um forja o seu destino.
E, seja como for,
eu é que devo estar-vos agradecida.
Porquê, Dona Inés?
Porque, sem a vossa ajuda,
não teria convencido o conselho para construir a escola e o hospital.
Dantes, Santiago era só um forte militar.
Agora, está a tornar-se uma cidade.
Agora, a gente pode dedicar-se a ser feliz.
E vós sois feliz?
Sim, claro.
Não acredito.
Empenhais-vos em perseguir um sonho.
Porque não tomar a realidade?
Amo-vos, Inés.
- Por favor, não insistais, Rodrigo. - Não fazemos mal a ninguém.
Continuareis à espera que volte?
Se é que volta...
Traiu-vos.
Mas não eu a ele.
Três meses mais tarde
O próprio Dom Pedro de Lagasca, em pessoa,
vem confessar-me, antes de mandar-me enforcar.
Venho dar-vos a absolvição.
E também isto.
É vosso.
Vá, lede-o.
Esse despacho dá-vos licença e faculdade
para conquistar a Araucania até ao Estreito de Magalhães,
em nome de Carlos, o nosso grande César.
Porque me dais isto agora?
O Império precisa de vós.
- E a minha condenação? - Fostes ilibado das acusações.
Várias testemunhas confirmaram
a vossa versão sobre a morte de De la Hoz.
Mas falta um assunto.
Qual?
Agora, sereis capitão-general e governador do Chile,
com poderes absolutos.
Absolutos.
Mas, antes, deveis cumprir uma pequena condição.
Tereis de renunciar a Inés Suárez.
Jamais.
Por amor de Deus, Dom Pedro.
Tende bom juízo.
Um governador, um representante da Coroa,
não pode viver amancebado.
- É indigno da sua condição. - Não!
Não quereis entender?
Este vosso sacrifício não vos valerá de nada.
Se vos castigarem, irão depois atrás dela.
E ninguém poderá salvá-la.
Sabeis que refinadas torturas reserva a Inquisição
para mulheres como ela?
Também estareis a salvar a vida a Inés Suárez.
Talvez certa pessoa possa ajudar a convencer-vos
de que tomais a decisão mais prudente.
Vós?
Voltou! O "taita" voltou!
O que dizes? Acalma-te.
Chegou um barco à costa.
Mandaram um emissário; chegará em três dias.
Avisa as criadas, que há muito que preparar, Catalina.
- Sim, "mamitay". - Vá.
Ide à adega e trazei vinho, Catalina.
Do bom, não da zurrapa que damos a Aguirre.
E tu, Felipe,
vai ao mercado e traz a maior ave que tenham.
Diz-lhes que é para Dom Pedro.
Não te entendo, Inés.
Pedro merece um cadafalso, não um banquete de boas-vindas.
Quando foi embora e durante estes anos,
quis matá-lo.
Mas, agora que sei que está perto,
só penso em voltar a apertá-lo entre os meus braços.
- Padre... - Com vossa licença.
A que se deve a vossa visita?
Trago-vos uma carta de Dom Pedro.
Viste-lo? Como está?
Será melhor que leiais a carta.
O que é? O que foi, Inés?
E esta maldade? É ideia vossa?
Não, Dona Cecilia.
São ordens de Lagasca,
máxima autoridade do rei e da Igreja, no Peru.
O vosso adultério com Dom Pedro pode ser motivo de um escândalo.
Agora que já não precisa de mim, o meu amor é um escândalo?
Mas quando encontrei água no deserto,
curei os seus feridos ou salvei Santiago dos índios,
era uma santa.
- Sei o que sentis. - Não, padre.
Não podeis saber o que sinto.
Não me surpreende a baixeza de Lagasca,
mas a cobardia de Pedro, sim.
Não teve escolha, Dona Inés.
Homem bem nascido tem sempre, quando se trata de defender a honra.
Não sairei do Chile.
Fui eu quem o conquistou e fundou.
Cuidai-vos com a soberba, Inés.
Imagino que não queirais que venha a Inquisição resolver à sua maneira.
Ameaçais-me?
Sede judiciosa.
Dom Pedro oferece-vos dinheiro pela comenda que vos deixou.
É um acordo justo.
- Espera a vossa resposta. - Que venha pedir-mo pessoalmente.
Suspendemos o banquete.
Não.
Pedro terá o banquete de boas-vindas que merece.
Viva Dom Pedro de Valdivia!
- Viva! - Viva!
Dom Pedro.
Senhor Quiroga.
Pedro.
Francisco.
Desejava voltar a ver-te.
Pedro.
Inés.
Senhora,
apresento-vos a minha esposa: Dona Marina Ortiz de Gaete.
Dona Marina,
esta é Dona Inés Suárez, administradora de Santiago.
Viúva de guerra,
mulher muito devota e temente a Deus.
Lamentavelmente, não poderá acompanhar-nos por muito tempo.
Regressais prontamente a Espanha, não é verdade?
Que pena que ides embora.
Temos muito de que falar.
Em Cusco, fala-se muito sobre vós
e sobre os vossos...
...serviços ao meu marido.
Desejava conhecer-vos pessoalmente.
Sois muito mais bela do que me disse Pedro.
Estou um pouco fatigada, pela viagem desde Valparaíso.
- Os aposentos? - Claro.
Não.
Ainda falta concluir alguns detalhes, Dom Pedro.
Espero que esteja preparada o quanto antes,
como ordenei por carta.
Assim se fará.
Terão de passar a noite no conselho, até tudo estar em ordem.
Um prazer.
Bem.
GRITA
Cão malparido!
Raios te partam!
Senhores,
finalmente, a Araucania será nossa.
Temos homens,
temos dinheiro
e o total apoio da Coroa.
O que tendes?
É uma loucura.
Serão precisas centenas de soldados, para lograr com êxito esta campanha.
Vêm a caminho três mil dos melhores.
Tropas veteranos recrutados por todo o continente,
desejosos de glória e fortuna.
Agora que o Norte está pacificado,
ordenei fortificar a cidade de La Serena.
Será a ligação com o Peru.
Se o Norte está pacificado, é preciso começar uma nova guerra?
O que foi, Gómez?
Tantos anos com a tua princesa índia murcharam-te o caráter?
Estabeleceremos uma série de cidades,
para lá do rio Biobio.
Relatórios de navegantes confirmam a existência
de terras férteis e minas ricas em ouro.
Por isso, continuaremos a conquistar e povoar,
até ao Estreito de Magalhães.
Abarcaremos o maior território
jamais conhecido em todas as Índias.
Senhores... Por Pedro de Valdivia.
- Por Valdivia. - E não vos preocupeis, Sr. Quiroga.
Teremos um novo aliado
desejoso de lutar contra o nosso inimigo.
Fazei-o entrar.
Bem-vindo. Sentai-vos.
Aguirre,
serve vinho ao nosso convidado.
O grande "toqui" Michimalonco.
Podemos confiar nele?
De certeza que sim.
Há séculos que estão em guerra com as tribos do Sul.
Prometemos ajuda, para ficarem com as suas terras.
E eles dar-nos-ão exploradores e guerreiros, para a conquista.
Divide e vencerás.
Quiroga...
O que dizeis agora?
Digo que continua a ser uma loucura.
E eu digo que Deus está no céu,
o imperador está em Espanha, e aqui mando eu.
Honra e glória.
- Honra e glória. - Honra e glória.
Honra e glória.
Depressa esqueceu o que fiz por ele.
Sem mim, nunca teria cá chegado. E é assim que me paga?
- Larga! Larga-me! - Não largo!
Catalina!
Chega. O que se passa?
A bruxa velha quer arrancar-me o cabelo.
Este demónio calcou as folhas de coca, "mamitay".
Não quero que vejam o meu destino. O meu destino é só meu.
Bem dito, rapaz.
Princesa.
Felipe.
Estás um homem.
E vejo que continuas a jogar xadrez.
Teremos de retomá-lo.
Não, obrigado.
Não gosto de deixar passar anos entre partidas.
Felipe...
Dom Pedro,
quero falar a sós com vós.
Parece que foi ontem...
Está tudo igual.
Soubestes cuidar da casa.
Tal como me ordenastes, Dom Pedro.
Não faço se não cumprir a minha obrigação de...
...vossa governanta.
Todos cumprimos o nosso dever,
ainda que nos pese.
Também cuidastes bem de Felipe.
É um bom moço. Não tardará a ser um grande soldado.
Teve muitas saudades vossas.
E vós?
Só os dois primeiros anos sem ter notícias vossas.
Eu, de vós, todos os dias e a toda a hora.
Todos os minutos que passei longe de vós.
Foi um suplício.
E a vossa esposa?
Não vos lembravas dela?
Sabeis o que mais me dói?
Não é que me tenhais renunciado ou abandonado.
É que não tenhais tido a coragem de vir dizer-mo em pessoa.
Seduziram-me o vosso valor e o vosso idealismo.
Teria dado a minha vida, por vós. E o que recebo em troca?
Que me trateis com mais crueldade que ao pior dos vossos inimigos.
Inés...
Tendes de entender que há coisas que estão muito acima de nós.
Sim?
Acima do amor que sentimos?
Da nossa fidelidade?
Acima de tudo o que passámos juntos? Diz-me.
Vá, dizei-mo na cara.
Tende a decência de dizer-mo na cara! Vá.
- Não tendes valor. Dizei-mo! - Sim! Sim!
Sim! Sim!
Acima de tudo isso, maldita seja! Sim!
Se é isso que quereis ouvir.
Já percebi...
Estais obcecado...
...com esse vosso sonho louco de conquistar a Araucania.
E, enquanto me abandonais como quem abandona...
...um cavalo velho e inútil,
toca-me renunciar a uma vida inteira.
Não necessariamente.
Lagasca deu-me uma solução.
Solução?
Poderíeis ficar em Santiago
e poderíeis conservar todas as vossas posses.
Não vo-lo disse antes porque...
...queria...
Só teríeis que casar.
Como?
Com outro homem, claro.
Tenho alguns candidatos.
Alderete ficaria agradado de tomar-vos como esposa.
E Aguirre.
E não vos preocupeis.
Podeis ir tranquilo, este domingo, à nomeação como governador do Chile,
que eu deixarei a nossa...
A vossa casa.
Não voltareis a ver-me.
Será como se jamais tivesse existido, para vós.
Não vás.
Não vás, por favor.
Não tens por que fazê-lo.
Odeio-o.
Odeio-o.
Volta depois de abandonar-nos só para te afastar de mim.
Não...
Não o odeies.
Ele deve-se à honra.
E, às vezes, isso está acima do querer.
É o teu pai, Felipe.
É o teu pai.
Agora, vai.
Ele quereria que estivesses na sua cerimónia.
Vá...
"Com a autoridade que me concede sua majestade, o imperador Carlos,
"concedo o título de governador e capitão-general do Chile
"a Dom Pedro de Valdivia,
"com direito e alargar os seus domínios
"até ao Estreito de Magalhães.
"Assim como para ser meu representante,
"com poderes absolutos sobre os seus habitantes e as suas posses.
"Assinado em seu nome:
"Pedro de Lagasca, vice-rei do Peru."
"E disse o Senhor:
"Darei a minha lei na sua mente e escrevê-la-ei no seu coração.
"E eu lhes serei por Deus
e eles me serão por povo."
Leva aquele lá para fora, sim?
Vai recolher as tuas coisas, que eu trato disto, Catalina.
Inés...
Inés...
Estais disposta?
Os guias estão ali fora.
Disposta?
Disposta a dizer adeus a 10 anos da minha vida,
ao meu lar,
a vós, que sois como minha irmã?
Não.
Nunca estamos dispostas para algo assim.
Inés...
As recordações são demasiado fortes, Cecilia.
Minha amiga...
Inés...
Quando Atahualpa matou toda a minha família,
fiquei sozinha.
Pensei que não havia mais nada.
Mas há que seguir em frente.
Sempre.
E, ainda que às vezes nos doa,
há que matar o passado, para que nasça o futuro.
Viva Dom Pedro de Valdivia!
- Viva! - Viva!
Viva Dom Pedro de Valdivia!
- Viva! - Viva!
Despedi-me do vosso esposo.
Que viva o nosso senhor governador!
- Viva! - Viva!
- Viva Dona Marina Ortiz de Gaete! - Viva!
- Viva a nossa governadora! - Viva!
Viva Dom Pedro de Valdivia!
- "Mamitay"... - Deixa-a, Catalina.
Viva Santiago de Nova Extremadura!
Viva!
Que viva o nosso senhor governador!
- Viva! - Viva!
Senhor Quiroga,
gostaria que fósseis meu esposo, se o desejardes.
Meu Deus...
O que dizeis?
O que digo?
Que sim.
Vamos.
Viva Dom Pedro de Valdivia!
- Viva! - Viva!
Vamos, Pedro.
Espera-vos o banquete,
senhor governador.
Seguramente, não é ao que estais acostumada.
Ao que estamos acostumados nem sempre é o melhor.
Agora, arrependo-me.
De quê?
De todo o tempo perdido.
Resta-nos toda uma vida juntos, para recuperar.
Como pude ser tão cega?
Tu tão perto, e eu...
Eu num sonho estúpido que se tornou um pesadelo.
Esquece isso, Inés.
Agora, toca-nos olhar em frente
e esquecer tudo o resto.
És muito generoso, Rodrigo.
Tens frio?
Estás a tremer.
Promete-me.
O quê?
Que nunca me abandonarás.
Inés...
Não o faria nem por todos os reinos da Terra.
Vejamos o que aguentas.
Como podes beber com estes "huincas" que nos escravizaram?
Deixa-o, Aguirre. Não.
Não.
Estamos em paz.
Ouve-me, Tajalonco.
Ouve-me, irmão.
Vou...
...dar-te...
...um conselho.
Um guerreiro deve saber honrar...
...os antepassados...
...e os que ainda estão por vir.
Ainda que seja...
...aliando-se a forças obscuras.
É o que deve fazer.
Quer-me é parecer que estás velho.
Metes-me nojo.
Pela paz.
Vá...
O que já te disse mil vezes?
Que nunca me fie
e esteja sempre preparado para o imprevisível,
pois assim é o inimigo.
Estais a ser um pouco duro com o rapaz.
O que dizeis? Pelo contrário.
És demasiado protetor.
Senhora...
Posso falar um momento com vós?
Claro.
Celebro que fiqueis em Santiago.
Mas creio que, na vida,
temos de saber que lugar ocupamos, em cada momento;
tal como um soldado no Exército.
Descuidai, Dona Marina.
Podeis ficar com o vosso general,
que, no que respeita a este soldado,
a guerra já terminou.
Só quero paz e concórdia.
Não vos considero minha inimiga.
Muito obrigada.
Tenho de falar com vós.
Em privado.
Não há segredos, entre soldados.
Senhor governador,
peço-vos que canceleis a expedição à Araucania.
E as vossas razões?
Estamos em paz com estas gentes há já dois anos.
Por isso o fazemos, Sr. Quiroga. Precisamente por isso.
Vimos trazer a verdadeira religião e o bom governo, a estas gentes.
Assim me ordena o despacho do imperador.
Senhor governador, entendei que não é...
Não. Entendei vós.
Esta terra é bela,
mas selvagem.
É preciso muito valor e muita virilidade,
para domá-la.
Talvez não sejais homem o suficiente para lográ-lo.
Estais há demasiado tempo longe desta terra.
As coisas mudaram.
Socorro!
Ajuda...
La Serena. Atacaram La Serena.
- O que aconteceu? - Massacraram a guarnição.
É esta a vossa paz?
Aguirre.
Diz ao corneta que toque a reunião, Gómez.
Vai!
Partiremos daqui a uma hora. Vinte a cavalo.
E tu poderás finalmente acompanhar-nos em campanha.
Cavalgarei contigo, como o tal Júlio César de que tanto me falaste?
Isso mesmo.
Não é preciso que venhais, se não tendes estômago, Quiroga.
Ficai com Gómez, a guardar a cidade por mim,
como tão lealmente sempre o fizestes.
Vamos, senhores.
Aonde pensas que vais? Prepara os cavalos.
- As armaduras, Alderete! - Sim.
- O que se passa, Felipe? - Vou com o "taita".
Não te temo, "huinca"!
Não te temo, "huinca"!
- Não te temo, "huinca"! - Cão "huinca"!
Não temais! Não temais!
Não temais.
O grande "toqui huinca" não vos fará mal.
Era esfaqueá-los a todos,
como eles fizeram em La Serena.
Não.
Não os mataremos.
- Cortai as mãos a todos os homens. - Não, "taita".
Renderam-se sem lutar, tal como pediste.
Cala a boca.
As mulheres e as crianças serão levadas para trabalhar nas minas.
E queimai a aldeia.
Não, "taita".
Se aprendi algo a lutar com estes índios
é que, se não te temem, jamais te respeitarão.
E diz-lhes que acontecerá o mesmo
a todos que se atrevam a desafiar o nosso grande Império.
Mateo! Redondo!
Como és capaz de trair o teu povo
por estes cães "huincas"?
Trazei-me essa índia; vai comigo.
Larga-me!
Larga-me!
Não te temo, "huinca"!
Vamos, senhores! Com mais brio!
Não temos toda a tarde, cortai já essas mãos.
Pegai fogo a esta aldeia.
Anda cá, filho da puta!
Bastardos!
Cortaram mãos, incendiaram casas e violaram mulheres.
Pedro não pode ter feito isso.
Que propósito poderia ter tal carnificina?
Os mapuches vão odiar-nos, e querer vingança.
Isso faz-se para aterrorizar o inimigo.
Nunca pensei que Valdivia se atrevera.
Felipe, meu filho...
Não.
Não sou teu filho.
Não és minha mãe nem ele meu pai.
Nunca fostes.
Aguirre tinha razão.
Sempre fui apenas vosso criado, como um cão ou um cavalo.
Felipe...
E lembram-se das caras dos "franciús" com as suas barbas,
quando nos viram a aparecer de repente?
O marechal Pescara mandou-nos vestir apenas camisa
e avançar coladinhos à neve, para não sermos vistos.
Ficámos com os tomates mais duros que carne curada!
Nunca na minha vida os tinha tido tão pequenos.
E continuas a tê-los!
Filho da puta...
Filho da puta.
Anda cá, mapuche do inferno.
Vais voltar...
...a desfrutar do paraíso.
Larga-a, Aguirre!
Vai dormir, rapaz.
Disse para a largares!
- O que me disseste, cão? - Francisco...
Não ouviste o que me disse?
Dá a índia ao rapaz.
Porquê?
Dá-la.
O rapaz não está acostumado aos horrores da guerra.
É justo que desfrute dos prazeres do amor.
Está bem.
Leva-a.
Mas não a desgastes muito,
que depois vou eu.
Mais vinho! Alderete...
Põe-me vinho, Alderete.
O que fazes?
És meu amo.
Podes fazer o que quiseres.
Veste-te.
Veste-te.
Vai, vai, vai.
Vai.
Quando eu era pequeno,
usava isto...
...para ir caçar.
Atravessa o rio e segue o caminho,
que vai dar...
...à costa e à tua aldeia.
Como te chamas?
Felipe.
Não, o teu nome mapuche.
Vai.
Vai.
Tinhas saudades do Sultão?
Sim.
E ele tuas.
Ninguém o cuidou como tu, durante estes anos no Peru.
Obrigado.
Olha para ele...
Velho e cheio de cicatrizes, mas ainda resiste.
O que foi? Porquê essa cara?
Nada.
Não gostaste da índia?
Claro que gostei.
Então, estás preocupado com algo.
Achas que fui cruel, no outro dia na aldeia, não é?
Olha, Felipe...
Ouve-me.
O Império de Carlos, o nosso invictíssimo César,
nem sempre foi como o conhecemos agora.
A nossa terra foi invadida muitas vezes,
ao longo dos séculos.
Primeiro, os romanos,
a seguir, os visigodos e, depois, os mouros.
E sempre foi o mesmo:
o mais forte é o que se impõe.
Assim gira o mundo.
Não o esqueças.
E o que fizeram os espanhóis, quando chegaram esses invasores?
Combateram-nos até à morte, claro,
até que, finalmente, os expulsámos da nossa pátria.
Inés?
Pedro...
Não...
Não, não...
Não...
Pedro...
Não.
Não!
Deixai-me!
Largai-me! Largai-me!
Deixai-me!
Largai-me!
O que fazeis?
Estais...
...como que possuído.
Perdão.
Não te esperava...
Sois vós...
Rodrigo não tardará a chegar.
Duvido.
Tinha ronda, esta tarde.
Eu próprio ordenei.
O que quereis?
O que quereis vós?
Não sei a que vos referis.
Dissestes que iríeis embora para sempre.
Isso já não vos concerne.
Não podeis estar apaixonada por um homem como Quiroga.
Não é como vós nem como eu.
Ele gosta de mim.
E não só para tornar-me rainha de um mundo de fantasia. Ele é real.
Um medíocre que carece de ambição.
Ide, por amor de Deus.
Só podes gostar de mim.
Sabe-lo bem.
Largai-me.
Às vezes, pergunto-me
se a razão pela qual nunca tivemos filhos...
...foi porque te tratei com demasiada delicadeza.
Talvez a causa esteja em vós.
A Marina não tem 100 filhos.
Não. Não...
- Parai! Parai! - Saí!
Rodrigo...
Alerta!
Alerta!
Pensei que éreis um senhor,
mas não passais de um velhaco da pior estirpe.
Malparidos...
- Quem fez isto? - Malditos mapuches.
Onde está o Felipe? Não se separava do Sultão...
Credo...
- Viste o Felipe? - Não, senhor.
Dobrai a guarda e vasculhai a cidadela!
Tu...
Foste tu quem o matou, maldito miserável.
Felipe morreu por tua culpa!
Largai-me.
Eu te acuso, Pedro de Valdivia.
Mataste o Felipe,
com as tuas guerras e os teus rancores!
Assassino...
Assassino!
Assassino!
Assassino...
- Lamento, Pedro. - Deixa-me.
Que parta a guarnição.
Prendei os assassinos...
...e trazei-mos.
Matá-los-ei com as minhas próprias mãos.
Eu vos amaldiçoo,
mapuches do inferno!
Eu vos amaldiçoo!
Felipe?
Leftraru.
Chamo-me Leftraru.
Vamos.
Construiremos cidades fortificadas, à nossa passagem,
até ao nosso objetivo: o Estreito de Magalhães.
Ninguém em Santiago quererá acompanhar-vos nessa aventura.
Fareis o que o governador ordene.
Vai e diz a Valdivia que vá embora da sagrada terra araucana,
ou iremos com o meu exército a Santiago, e mataremos toda a gente.
Quem és?
Leftraru.
- As vãs ameaças de um bárbaro. - Não, é mais que isso.
Há vários meses que esse Lautaro ataca as nossas tropas.
Conhece as nossas táticas. Nunca nos ataca em campo aberto.
Não vi no Novo Mundo nada igual a estes guerreiros.
- Quem é Lautaro? - Um inimigo digno de matar.
Dizei-me... Sinto muita curiosidade.
É o meu primeiro casamento, no Novo Mundo.
Também o meu.
Não fosse por enviardes o meu noivo nas missões mais longínquas,
há muito que seria meu marido.
Razões de Estado.
Pois... Não serão ciúmes?
Comecemos uma vida nova, longe de Valdivia e suas ânsias de conquista.
Não.
Ganhámos o direito de viver aqui.
Pedro...
- Sabes aonde vai? - Ao casamento de Inés.
Outorgas-te como mulher e esposa legítima?
Quere-lo como teu esposo e marido?
- Sim, estou aqui. - Amor...
Sonhei que te perdia.
Parece-me que não vos faço falta aqui.
Tenho a minha própria família.
O meu dever é lutar pela sua liberdade e pela do meu povo.
Os "huincas" não são invencíveis.
Morrem e sangram, como nós.
Todos prontos para marchar, quando ordeneis.
Estais loucos? Não sabeis que forças podereis encontrar.
Bastam-me as minhas, para acabar com esses selvagens.
Alguém confiou no meu senhor Pizarro,
quando se lançou à conquista do Peru?
Os que rejeitaram a sua visão arrependeram-se!
Avisai os nossos irmãos do sul, do leste e do oeste
que os "huincas" vêm a caminho.
A campanha será longa.
- Poderá durar anos. - Voltai com vida.
Lembrai-vos que todos os novos reinos se conseguem através das guerras.
E que a vitória só se alcança com a destruição do inimigo
ou com o seu despojo.
ptados
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