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Este filme foi restaurado digitalmente pelo Instituto Sueco do Cinema em 2015.
UM CONTO DE
Um dia solarengo. O Sol incide na plan�cie.
Os sinos tocar�o em breve, � domingo.
Entre os campos, dois rapazes descobrem um caminho novo.
Nas tr�s aldeias na plan�cie, o dia de descanso desperta.
Os homens barbeiam-se ao espelho na cozinha.
As mulheres fatiam o p�o.
As crian�as sentam-se, abotoando os corpetes.
� a manh� alegre de um dia triste.
Pois, neste dia, uma crian�a ser� morta na terceira aldeia, por um homem alegre.
A crian�a ainda est� � janela, abotoando o colar domingueiro.
O pai diz: "Hoje vamos remar ao rio."
A m�e sorri e coloca o p�o acabado de cortar num prato azul.
N�o h� sombra sobre a cozinha, no entanto, o homem que matar� a crian�a
est� a abastecer na primeira aldeia.
� um homem feliz, que espreita por uma c�mara
e v� um pequeno carro claro, e junto dele, uma jovem a rir-se.
Enquanto a jovem se ri e o homem tira a fotografia,
o assistente tapa a objectiva e diz: "O dia de hoje vai ser maravilhoso."
A jovem senta-se e o homem que matar� a crian�a tira a carteira
e diz: "Vamos at� ao mar e alugamos um barco,
e vamos para muito longe."
A jovem ouve o que ele diz, fecha os olhos
e v� o mar, e o homem atr�s de si no barco.
N�o � um homem mau, sente-se feliz e afortunado.
Antes de entrar, fica � frente do radiador, que brilha ao Sol
e desfruta da luz, do aroma do combust�vel e do mar.
N�o h� sombra sobre o carro e o p�ra-choques brilhante n�o tem fivelas,
nem tem sangue...
Mas enquanto o homem na primeira aldeia fecha a porta do carro � sua esquerda
e puxa a igni��o,
a mulher na terceira aldeia abre o arm�rio e descobre que n�o h� a��car.
A crian�a, que se vestiu e cal�ou, est� de joelhos no sof�
e observa o rio que corre por entre os amieiros
e o barco preto pousado na margem.
O homem que perder� a sua filha acabou de se barbear e fecha o espelho.
Na mesa est�o as ch�venas de caf�, o p�o fatiado, as natas
e as moscas... S� falta o a��car.
A m�e pede � sua filha para ir a casa dos Larsson pedi-lo.
O homem pede � crian�a que se despache,
porque "o barco est� � nossa espera e remaremos at� mais longe do que nunca."
Enquanto a crian�a corre pelo jardim, pensa no rio,
no barco, e nos peixes a saltar...
E ningu�m diria que s� tem mais oito minutos de vida.
O barco vai ficar onde est� o dia todo e muitos mais dias a seguir a este.
� perto da casa dos Larsson, mesmo em frente.
Enquanto a crian�a atravessa a estrada, o carro entra na segunda aldeia.
� uma pequena aldeia com casas brancas
e pessoas de banho tomado, na sua cozinha,
de ch�vena de caf� na m�o, a ver o carro passar.
O carro � r�pido e o homem v� os choupos e os novos postes telegr�ficos
a piscar como sombras.
A brisa de ver�o entra pela janela.
Correm para fora da aldeia, vigorosamente, no meio da estrada.
Est�o sozinhos na estrada, por agora...
� maravilhoso conduzir sozinho numa estrada larga e tranquila.
Na plan�cie, � ainda melhor.
O homem est� feliz, forte. Com o cotovelo direito, pode sentir o corpo da mulher.
N�o � um mau homem. S� tem pressa de chegar ao mar.
N�o faria mal a uma mosca, mas, mesmo assim, ir� matar uma crian�a.
Enquanto se aproximam da terceira aldeia, a menina fecha de novo os olhos,
e reza para n�o os abrir at� conseguir ver o mar.
Sonha ao ritmo do suave bala�o do carro sobre como ser� calmo.
Como a vida � t�o implac�vel,
um minuto antes de um homem feliz matar uma crian�a, ainda � feliz.
E um minuto antes de uma mulher gritar em terror,
fecha os seus olhos, sonhando com o mar.
Nos �ltimos minutos de vida da crian�a, os pais esperam na cozinha por a��car.
A crian�a fecha o port�o e come�a a atravessar a estrada,
com torr�es de a��car embrulhados em papel.
Durante todo o �ltimo minuto, ela n�o v� mais nada
a n�o ser um grande rio com grandes peixes,
e um barco rec�m-lan�ado com remos silenciosos.
Depois, � tudo tarde demais.
Depois, um carro guina e uma mulher aos gritos tira a m�o da boca.
E a m�o sangra.
Depois, um homem abre a porta do carro e tenta manter-se em p�,
com um vazio de terror dentro de si.
Mas uma crian�a deita-se im�vel com o rosto encostado � estrada.
Depois, duas pessoas p�lidas surgem na entrada sem terem tomado o caf�,
e v�em uma cena na estrada que nunca esquecer�o,
porque n�o � verdade que o tempo cura todas as feridas.
O tempo n�o cura a ferida da morte duma crian�a.
E certamente n�o cura a dor de uma m�e que se esqueceu de comprar a��car
e mandou a filha ao vizinho da frente.
� t�o mau quanto curar a ang�stia de um homem, outrora feliz, que a matou.
Porque algu�m que matou uma crian�a n�o vai at� ao mar.
Algu�m que matou uma crian�a conduz at� casa lentamente... em sil�ncio.
E, ao seu lado, tem uma mulher muda, com um penso r�pido na m�o.
E em todas as aldeias por onde passam, n�o v�em uma �nica pessoa feliz.
E, quando se separam, continuam em sil�ncio.
O homem que matou uma crian�a sabe que este sil�ncio � seu inimigo.
E precisar� de anos para o vencer, antes de gritar que n�o foi culpa dele.
Mas sabe que � uma mentira.
Nos seus sonhos solit�rios, desejar� recuperar um �nico minuto da sua vida...
para tornar aquele minuto diferente.
Mas a vida � t�o impiedosa para algu�m que matou uma crian�a,
que depois tudo � tarde demais.
Legendas: Maria Costa
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