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Adelaida...
Adelaida...
eu sempre...
Voc� me fez muito feliz, Montiel.
Voc� me fez muito feliz, Montiel.
Voc� me fez muito feliz, Montiel.
Muito feliz.
Voc� me fez muito feliz, Montiel.
Muito feliz.
Voc� me fez muito feliz, Montiel.
Muito feliz.
Voc� me fez muito feliz, Montiel.
Voc� me fez muito feliz, Montiel.
Muito feliz.
A VI�VA DE MONTIEL
Sr. Carmichael!
Sr. Carmichael, Sr. Carmichael!
Sr. Carmichael, Don Chepe est� morrendo.
Don Chepe est� morrendo.
-Don Chepe est� morrendo? -Sim.
PROIBIDO FALAR DE POL�TICA
Montiel morreu?
Muita gente n�o acredita.
Sem jornal?
S� h� jornais oficiais neste pa�s,
e esses n�o entrar�o neste estabelecimento
enquanto eu estiver vivo.
Est� se embelezando para o funeral, Carmichael?
N�o enche!
Voc� n�o ser� o �nico a comemorar.
N�o comemoro nada!
E a vi�va?
Est� l�...
Um se mata trabalhando
e ela fica sozinha com terras
que n�o podem ser percorridas nem em cinco dias a cavalo.
Ela � a melhor mulher do mundo, n�o sei por que diz isso.
Bom neg�cio... bom neg�cio.
A pol�cia amea�a meus oponentes de morte
e eu compro terras e gado deles com o pre�o que eu mesmo coloco.
Melhor neg�cio? Nem notas falsas.
Jos� Montinel era rico antes do in�cio dos grupos pol�ticos.
Sim, claro...
Sim.
Sentado de cueca
na porta de uma colhedora de arroz, � claro.
A hist�ria do pa�s nos ensina que ele teve seu primeiro par de sapatos
quando come�ou a ditadura.
Por isso, sempre preferi que minha mulher cortasse meu cabelo,
ela n�o cobra nada e tamb�m n�o fala de pol�tica.
Estamos sendo devorados por infort�nios
e voc� ainda tem �dio pol�tico.
A persegui��o acabou!
O abandono em que estamos tamb�m � persegui��o.
Isso � literatura de jornal.
� que estamos cansados de n�o falar.
Raramente um homem imparcial recai sobre n�s aqui.
Com 11 filhos para alimentar,
n�o h� homem imparcial.
Mam�e...
Jos� Montiel morreu.
Adelaida, todos j� sabem,
mas ningu�m acredita.
Vou me trancar para sempre.
Durma, minha menina�
durma com Deus.
Para os anjinhos,
que est�o com Deus...
Este era um rei que tinha um pal�cio de diamantes,
um mercadinho
e uma manada de elefantes...
um quiosque de malaquita e um grande manto de tecido
e uma princesinha gentil, t�o linda margarida,
t�o bonita quanto voc�.
Quando acabarem com os pobres,
eles ficar�o com os ricos.
Voc� ainda est� quente em seu t�mulo, Montiel,
e o mundo volta as costas para n�s.
Onde est�o os sapatos?
Abra a porta, n�o vejo nada!
Quais sapatos?
Do meu falecido pai!
N�o gosto quando p�e os sapatos de um morto, Montiel.
Dizem que hoje vem um novo prefeito!
Eu te disse, Adelaida...
Hoje come�ar�o seus infort�nios.
Pelo rio chegar� um soldado s�brio e valente,
que restabelecer� o toque de recolher,
a guerra contra a subvers�o,
os julgamentos sum�rios,
as proclama��es expeditas,
a parada � primeira voz,
o estado de guerra.
Pedir� aos cidad�os que denunciem os oponentes do governo,
n�o exigir�o identidade, nome
ou senha conhecida.
-Entre, meu amigo. -Obrigado.
Diga-me.
Bem, soube do bando que acertaram na rua.
Ah, sim... j� soube disso.
Se tiver novidades, diga...
O dentista...
e o barbeiro...
aquele com o botic�rio
e o comerciante.
Escreva seus nomes aqui.
Que, amigo? N�o me ouviu?
Sim! � que meus sapatos est�o apertados.
Calce essas botas.
N�o � bom um amigo da autoridade usar sapatos ruins.
Obrigado.
Mam�e, tudo isso j� passou.
E continuar� a passar, Adelaida.
Enquanto existirem na terra, ricos e pobres.
N�o se zangue, Adelaida,
voc� sempre soube que gaiolas douradas d�o azar.
Quanto vai cobrar do Baltazar?
Eles est�o se fingindo de mortos.
Devia cobrar mais.
Acha que me dar�o 50 pesos?
� muito pouco para Don Chepe, pe�a 60.
Um homem rico deve ter morrido.
J� s�o mais de 12 badaladas.
Voc� teria se tornado um arquiteto extraordin�rio, de fato.
Nem vai ser preciso colocar passarinhos,
basta coloc�-la entre as �rvores para cantar sozinha.
Bem, n�o h� discuss�o. Eu a levo.
J� foi vendida, doutor.
Pertence ao filho de Don Chepe, ele me mandou fazer.
Mas ele te deu o modelo?
N�o, ele disse que queria uma gaiola para um casal de turpiales.
Mas isso n�o � uma gaiola de turpiales, Baltazar.
Claro, doutor, olha.
As medidas foram bem calculadas.
Mas eu n�o te falei o modelo?
Uma coisa � uma gaiola para turpiales e outra � essa gaiola, Baltazar.
N�o h� prova de que foi isso que ele mandou que fizesse.
� a mesma, doutor, por isso a fiz.
Muito bonita.
Extremamente bonita.
Quanto te deram por ela?
� a gaiola de Pepe, senhor.
O que houve?
Chepe, venha ver, venha.
Ah?
Porra, acabei de adormecer!
Que porra � essa?
� do Pepe, ele me mandou fazer.
Ei, Pepe!
Pepe!
Venha aqui!
Voc� mandou fazer isso?
Responda, merda!
O que vai fazer?
Leve-a imediatamente e tente ver para quem quiser.
Solte-o, deixe-o bater com a cabe�a na parede
e depois ponha sal e lim�o.
Voc� mesma coloca ideia na cabe�a dele.
Esse garoto � uma bichinha!
Vamos, fique com ela.
Afinal, foi para isso que a fiz.
J� falei para levar, Baltazar, pois n�o te darei um centavo.
N�o importa. N�o pensei em cobrar nada.
Ei, idiota!
Vai levar esta merda!
S� faltava voc� mandar na porra da minha casa!
E o que voc�s fazem aqui? V�o para as suas casas, porra!
Eles vieram vender essa porcaria toda.
Vou vender essa casa.
Meus p�sames, senhora.
O maldito est� vivo.
Voc� me fez muito feliz, Montiel, muito feliz.
Montiel�
tive um sonho ontem � noite.
Tenho um cavalo preto e uma ovelha com beb�!
Sou um trabalhador
e dentro de alguns anos serei o dono do rio.
O que me diz, filha?
Sou jovem ainda!
Fale com meu pai!
As grades da ponte
remem quando eu passo
Minha morena, me d� um abra�o!
D�-me sua m�o, morena
Para entrar no bonde,
que est� caindo neve fria
Se est� caindo, deixe cair
Incline-se pela janela, meu amor
Dona da minha alma...
Sou um homem humilde,
mas n�o percebo que os peixes est�o dizendo:
�pescador la�a tua rede.�
Eu venderia meu cavalo preto para voc� ter um barco
e uma cabana � beira do rio.
Meu jovem,
voc� est� me pedindo a m�o de minha filha
e meu destino.
Se eu abandonar minha carro�a,
tenho medo de esquecer as pessoas, digo.
O que acha de trocarmos a farandola pelo rio?
Vestida com o sud�rio
Com dor e a amargura
Vou cruzando sem sorte
Por caminhos, solit�ria
Solit�ria, moro l�
Vivo desejando a morte
Sou capaz de me suicidar
Pensando na minha sorte
Solit�ria, moro l�
Vivo desejando a morte
Sou capaz de me suicidar
Pensando na minha sorte
Solit�ria, moro l�
Vivo desejando a morte
Sou capaz de me suicidar
Pensando na minha sorte
Pepe, eu nunca deveria ter deixado voc� ir...
Qu�? O que diz?
Nada, estava falando sozinha.
Estava me lembrando de quando Pepe foi para Hamburgo.
Vai para Hamburgo, Pepe.
Pensei num grande futuro para voc�.
Voc� ir� iniciar uma carreira diplom�tica, meu filho,
e depois voltar� para administrar tudo o que � seu.
Terras que n�o podem ser percorridas nem dez dias a cavalo.
Centenas de pe�es com suas mulheres e filhos.
Gado que n�o pode ser contado.
Vai ser como Carmichael,
e pronto!
J� tenho tudo combinado com o prefeito e o senador.
Quest�o de influ�ncia do Compadre.
N�o devia t�-los tirado de mim, Montiel.
Apodreceriam neste povo imundo.
Voc� ver�, Adelaida.
Eles ficar�o chiques...
e elegantes.
Aprender�o a lidar com os homens,
ser�o fortes e duros.
Eles espalhar�o nossa linhagem pela terra.
Am�m.
Santa Maria m�e de Deus,
se voc� n�o tivesse descansado no domingo,
teria tido tempo para acabar bem com o mundo, am�m.
Agora quem, Montiel?
Alcedes, meu tenente.
Alcedes?
Est� atirando muito alto, Montiel.
At� agora, s� atiramos em pardais, meu tenente.
Seu chefe � o mais poderoso da cidade.
Voc� acha?
Se falharmos, teremos um problema muito ruim...
Olha, tenente,
este mundo est� dividido entre espertos e babacas,
e eu, Jos� Montiel, n�o quero ser um babaca.
Voc� me empresta a l� e a for�a, e eu coloco o rosto.
Ouse, tenente...
Ah, esse Montiel...
continue, safado,
mas n�o me falhe, Montiel.
Espere a�.
Boa tarde, senhor.
O que quer?
Vim cumpriment�-lo, chefe.
N�o sou mais seu chefe.
Por isso mesmo...
Por isso mesmo, o qu�?
Vim falar de neg�cios.
Neg�cios, voc�?
Bem, juntei algumas economias
e descobri que o prefeito o deu um prazo de 24h para deixar a cidade.
Bem, eu disse a mim mesmo:
Montiel, se voc� pode ajudar o senhor Alcedes,
ajude-o, como ele o ajudou,
dando-lhe trabalho, comida
e uma casa durante todos esses anos.
Ent�o aqui estou, Sr. Alcedes, � sua disposi��o.
N�o vou vender�
N�o vou vender!
Ei, em algumas horas ter� que abandonar tudo isso.
Enquanto pensa, espero por voc� l� fora.
Filho da puta!
Entrem.
Entrem, idiotas.
Abra a porta!
Sou um ca�ador que vive tranquilo�
Sou um ca�ador que vive tranquilo
Prometi ca�ar na floresta
E este � o meu destino, ser ca�ador
Ainda est� acordada?
Eles n�o pararam nem as balas, nem os gritos � noite toda.
Est� cansado, Montiel?
Est� cansado?
Est� cansado?
N�o.
Deite-se.
Sim.
Adelaida,
vou te contar uma hist�ria.
Voc� est� muito cansado, Montiel.
Comprei uma casa
e voc� n�o vai acreditar, Adelaida.
� uma casa cheia de luzes
e espelhos.
Esta � a sala de jantar.
Vamos ench�-lo de convidados, n�o se preocupe.
Nunca vi uma mesa t�o grande, Montiel!
Olhe, venha!
Um rio!
Ol�!
Sou Hilaria, a empregada dom�stica.
Olhe, esta � sua nova chefa.
Qual � o seu nome?
Hilaria.
Tenho certeza de que nos daremos muito bem.
O que � isto, pai?
� um marcador. Para marcar os animais.
E como os marca?
Voc� coloca na brasa e quando est� quente�
J� vi marcar de outra forma.
Aqui vai fazer do meu jeito!
Adelaida�
-Vamos! -Dan�ar?
Sou parceiro do prefeito, amor.
Esse homem � um criminoso, Montiel.
Expulse-o da cidade.
Expulse-o, sen�o nenhum ser humano ficar� vivo.
Aproveite suas influ�ncias no governo e expulse essa besta.
Essa besta � o governo, amor.
Quem est� a�?
Chegou um telegrama de seus filhos, senhora.
�Como d�i terrivelmente a morte inesperada
do querido e venerado pai.
N�o ignorava a doen�a,
mas as cartas anteriores n�o indicavam seriedade.
Quase engasguei ao ler o telegrama.
Ponto.�
Quando o Pepe chega?
�Irm�s e eu compartilhamos a dor
e nos acompanhamos com a trag�dia.
Espero que as irm�s possam viajar para a cidade
para ficar com voc�.
Assuntos importantes me impedem
deixar o consulado neste momento
e nos pr�ximos meses.
Ponto.�
Leia os telegramas das meninas.
Sente-se, Carmichael.
Estou bem assim, senhora.
�Imposs�vel recuperar a morte, pai.�
Quando v�m?
�A not�cia da morte de Don Chepe.�
Mam�e�
sonhei que era marinheiro
e cavalgava num cavalo preto sobre o mar.
Ser� que ele poder� vir?
N�o pode, senhora, est� fazendo prova.
Pediu dinheiro porque a mensalidade atrasou
e teve que pedir emprestado �s freiras.
Pegue tudo, Carmichael, e me deixe em paz.
Aqui h� algo importante, senhora.
Depois, Carmichael.
Vai continuar chovendo?
Vai continuar chovendo, senhora.
Suas chaves...
N�o encontro o rumo da minha vida nova, filho.
Para mim
� como se tivessem me colocado no mesmo caix�o de Jos� Montiel.
N�o quero saber mais nada deste mundo.
Eles n�o querem mais voltar.
Mas voc� tem que voltar.
Voc� tem que cuidar de tudo isso.
Toda essa grande riqueza que seu pai nos deixou.
J� estou cansada.
N�o entendo nada disso.
N�o entendo nada.
�s vezes tudo me parece t�o estranho.
Como se eu nunca tivesse estado aqui.
Como se ele viesse de viagem
e estivesse sempre para partir.
�s vezes sinto que est�o me perseguindo
e que milhares de olhos me olham de todas as janelas.
E aqueles olhos s�o como cavernas.
S�o como a morte,
que se enreda...
e oprime!
Venha!
Como meu anjo
Quer te esquecer
Se � minha esperan�a no c�u na terra no mar
Adelaida, estes s�o seus mortos!
Seu marido os traiu e o prefeito mandou mat�-los!
Quando voc� ouvir essa valsa, lembre-se de mim
Pense nos beijos de amor
Que voc� me deu e que eu te dei...
Ainda tem seu cad�ver?
Se passaram apenas tr�s dias, madrinha.
Tr�s dias?
J� faz um m�s.
Hilaria...
Venha, minha filha.
Hilaria...
Chepe...
Voc� era feliz com ele?
Sim...
�ramos muito felizes.
Estava sonhando...
Chepe...
Como estou feliz com voc�...
Montiel, eu estava sonhando...
Sonhei que as torres do sino desabaram e eu�
saia voando pela pra�a.
-Bom dia! -Bom dia.
A�, senhor.
A senhora n�o quer sair e vive trancada.
N�o come, n�o dorme, n�o sai
e a casa est� caindo.
A dona Adelaida est� estranha!
E o senhor, cheio de sujeira
que trouxe da rua, n�?
H� muita po�a!
Todas as flores do campo...
Oh ele vai
Procurar seu viol�o
Oh ele vai
Senhora! Senhora Adelaida!
Procuramos meticulosamente
a combina��o do cofre de Don Chepe
-e n�o encontramos. -Carmichael, n�o sei de nada.
Cuide de tudo e n�o me incomode!
Preparem�
Atirem!
Carmichael...
Preparem�
Atirem!
Chega!
Acabem com esse esc�ndalo!
Carmichael, mande-os irem!
Calma, senhora, j� vamos acabar.
Queremos as economias do falecido.
Preparem�
Atirem!
Era s� o que faltava!
H� cinco anos imploro a Deus para cessar os tiros
e agora devo agradecer por dispararem na minha pr�pria casa!
Nos deu a combina��o, senhora?
Ent�o aguente, Sra. Adelaida, aguente...
Preparem�
Atirem!
Agora sim, chegamos ao fim.
S� precisamos entrar num t�mulo e esperar
at� que a morte venha at� n�s.
N�o proteste, senhora, n�o proteste.
Seria pior se a senhora acabasse na desgra�a.
Preparem�
Atirem!
Santa Maria, m�e de Deus�
Santa Maria...
Preparem�
Atirem!
Diz que est� a�
atr�s da porta.
Vamos ver se essa porra n�o abre agora.
Explodam, rapazes.
Como a porra do cofre n�o abria, hein?
Dona Adelaida,
falei que abriria esse cofre de merda e abri.
Entre.
Boa tarde.
Ai, doutor,
as inje��es n�o passam.
A inje��o � a melhor coisa j� inventada
para alimentar os m�dicos.
Doutor, estou t�o sobrecarregada que nem consigo nem tocar.
Ent�o n�o toque...
Vamos ver... me ajude, arregace a manga
e vamos ver como est�.
Isso!
� o rel�gio mais estranho que j� vi.
Ele � o �nico que lentamente marca a hora de se levantar.
Se n�o quiser mais inje��es, n�o haver� mais inje��es.
-Eu nunca tive nada. -Relaxe, eu sei.
Mas precisava inventar algo para justificar a conta.
Agora cuide desse dedo, parece que est� com lepra.
Mam�e!
Mam�e�
Voc� n�o entendeu nada, Adelaida!
Os mortos n�o falam com os vivos!
-Mam�e� -E comia ameixas em cemit�rios...
Perdi o rumo da minha nova vida...
Cuidado, Adelaida...
L� vem o touro com cauda de prata
e chifres de ouro.
Deve ter custado uma fortuna!
Sim, claro que custou.
Mas o roubo foi sua transfer�ncia da �ndia.
Eu gostaria de ter esse poder, Menriques!
E esse touro vai me dar os melhores bezerros do pa�s.
Tire uma foto nossa, rapaz!
Sa�de!
Qu�? Vamos ou n�o?
Tenho o rei, tenho o �s,
tenho o ouro,
tenho o rei com a espada na m�o.
Sob a aba do chap�u, quantas vezes, abafada
Apareceu uma l�grima que n�o pude conter
Se eu cruzasse as estradas, como um proscrito esse destino
Ele insistiu em desfazer
Se eu fosse pregui�oso, se fosse cego
S� quero que entenda
O valor que representa a coragem de amar
Foi, para mim, a vida toda
Como um sol de primavera
Minha esperan�a e minha paix�o
Sabia
Que n�o havia espa�o no mundo
Toda a humilde alegria do meu pobre cora��o
Agora
Descendo a colina no meu passeio
Ilus�es do passado
N�o posso mais inici�-las
Sonho
Com o passado que sinto falta
A velha hora que choro
E que ele nunca mais vai voltar...
Bravo! Bravo!
Para tudo existe...
Para todas existe dinheiro e o que � necess�rio.
Para voc� e para voc�.
Suas preciosidades...
AQUI JAZ OS RESTOS DE JOSE MONTIEL
O BENFEITOR DESTA CIDADE
Ei, voc�, ponha aquele anjinho a�!
Mas o que est� fazendo, Adelaida?
Vou me enterrar viva, Montiel!
Agora s� falta o dil�vio.
Chegamos ao fim.
Precisamos apenas deitar serenos no t�mulo ao sol,
at� que a morte venha.
Quando a chuva passar, as coisas v�o melhorar, senhora.
N�o passar�o.
A prata � o cora��o do dem�nio, Carmichael!
Mas neste caso, tamb�m � resultado do trabalho �rduo de Don Chepe.
Voc� sabe que n�o � verdade,
� dinheiro ruim
e o primeiro a pagar pegou fogo, e foi Montiel.
A culpa � do prefeito,
mas cabe a mim expirar.
Este homem agiu na hora
e na posi��o que devia.
Hilaria...
Hilaria.
Madrinha, que bom que saiu.
Esses confinamentos n�o s�o bons.
Hilaria, chame o estofador.
Devemos cobrir os m�veis de preto.
Ah, Hilaria,
ponha la�os f�nebres em todos os retratos de Montiel�
No corredor.
Sim... Madrinha�
Madrinha, lembra que o saudoso Don Chepe
me prometeu um terreno?
Bem, o Sr. Carmichael disse
que deve assinar a escritura por mim.
N�o � que eu tenha interesses, madrinha,
mas estava no testamento de Don Chepe.
Voc� deve abrir as portas.
S� preciso que assine.
Antes que o prefeito leve tudo.
Alimente-se, madrinha, alimente-se.
Nesses momentos � preciso se alimentar bem.
Diga a Hilaria para me trazer papel e caneta.
Vou escrever uma carta para meus filhos.
Eles devem ser muito felizes entre as pessoas civilizadas.
Dizem que para isso voc� confina.
A morte leva mais tempo.
Madrinha, Pepe cuidaria de tudo.
Certamente est� no consulado arrumando tudo que est� por vir.
Feche esse guarda-chuva, Carmichael!
S� enquanto seca, senhora!
Chega de tantos infort�nios.
Este inverno�
parece que nunca passa.
N�o vai parar nem hoje nem amanh�.
Seus calos?
Eles n�o me deixaram dormir a noite toda, senhora.
Eu queria saber se eles est�o bem.
Deixe o sangue subir...
Os sonhos...
s�o sonhos de Deus.
Mas Deus � a morte.
Feche esse guarda-chuva, Carmichael.
Trago m�s not�cias, senhora.
Outra vez, roubaram.
Agora havia 50 bois, e tamb�m queimaram os est�bulos.
O prefeito diz que foram os guerrilheiros.
-Qu�? -Os guerrilheiros...
Eles lutam nas montanhas h� muitos anos.
E agora parece que t�m mais for�a.
Deve ser.
E o prefeito restabeleceu o toque de recolher.
Ele j� atirou em muita gente e nem assim,
quanto mais caem, mais aparecem...
Jos� Montiel j� dizia.
� uma cidade ingrata.
Aqui eu trago uma lista de todas as suas propriedades.
Tamb�m quero inform�-la
de tudo o que se perdeu desde que Don Chepe morreu.
E tivemos que vender a terra para mandar o dinheiro aos seus filhos.
No que diz o prefeito,
os guerrilheiros t�m roubado gado.
Quem?
Os guerrilheiros.
J� falou com a senhora?
J�.
Ele est� perdendo a cabe�a.
�Mam�e, voc� deve nos perdoar,
pois nem n�s nem Pepe queremos ir a�.
Mas temos que te falar a verdade,
ap�s tanto tempo fazendo promessas
que n�o pretendemos cumprir.
Esta � a civiliza��o, m�e.
Por outro lado, n�o � um bom meio para n�s.
� imposs�vel viver num pa�s t�o selvagem.
Onde o tempo todo se matam por motivos pol�ticos.�
� isso mesmo. Isso mesmo.
� uma cidade amaldi�oada.
Fiquem a� para sempre.
�M�e, voc� tem que ver os a�ougueiros em Paris.
Eles matam porcos rosas
e os penduram inteiros nas portas,
adornados com grinaldas e guirlandas de flores.�
�Imagine, m�e, o maior e mais lindo cravo
que colocam no cu do porco.�
Baltazar, pegue.
� seu.
Voc� deve consertar,
� uma gaiola muito bonita.
Senhora, nunca fiz uma gaiola.
Voc� pode consert�-la
e pendur�-la numa �rvore
com um casal de turpiales.
H� muito tempo ele ficou cego, senhora.
� melhor lev�-la.
Venha, entre!
Sente-se, Carmichael.
Seus ombros e calos devem estar doendo como nunca.
Est�o mesmo, Sr. Prefeito.
O que sabe sobre Pepe? Ele vir�?
Ele disse que n�o,
que aqui com certeza ser� morto a tiros.
Estive analisando
a lista de bens de Chepe que ele me trouxe.
Dizem muitas vezes
porque os bandidos o estavam roubando.
Voc� fala "bandidos" como se n�o fossem,
e voc� suspeita de algu�m?
Diga-me.
Bem, vamos direto ao ponto.
Os especialistas do munic�pio vir�o fazer uma avalia��o das propriedades
porque quero compr�-las.
Quero dizer,
eu n�o, a na��o.
Sr. Prefeito,
a partir de agora anuncio minha recusa
de permitir uma venda.
At� que a sucess�o seja resolvida.
Ah, voc� � uma mula, Carmichael.
Sabemos que � um homem honesto.
Pense em como Chepe fez sua fortuna.
Acha que um homem que � capaz
de vender seu povo por nada
merece tudo o que tem?
Por outro lado...
Pense em seus filhos, Carmichael.
N�o se preocupe, eles saber�o se defender.
Voc� ainda tem recursos, Sr. Prefeito.
Atire em mim!
Gravata, gravata.
Sapatos.
-Devo tirar? -Sim.
Revista-o.
Entre, entre.
Levante, levante!
Quase ningu�m apareceu.
O rio continua subindo, madrinha.
Esta manh�, os homens afogados apareceram novamente.
A cidade inteira cheira a sangue.
Ah, madrinha,
e a casa est� ficando assustadora.
Lupe e Josefina sa�ram
e nem avisaram.
Madrinha,
o Sr. Carmichael disse
que h� cartazes contra a ditadura em todas as paredes.
E tamb�m disse que chegaram mais soldados.
E alguns homens uniformizados sa�ram do helic�ptero.
Deveria ter visto�
Deveria, madrinha, a cidade inteira estava deserta.
� o medo que chegue na gente...
�s vezes acho que nunca vai parar de chover.
�s vezes acho que estou sonhando...
E vejo tudo assim,
atrav�s de um espelho quebrado...
E todos os animais
e pessoas sangram, madrinha.
E se decomp�em em horror e medo.
Ele disse que cortaram o arame farpado.
E queimaram os est�bulos.
E tamb�m disse que os guerrilheiros descem o rio
e falam de igualdades�
e que ap�s 100 anos
tudo vai come�ar de novo.
Ai, madrinha...
Mam�e...
quando vou morrer?
Quando come�ar a fadiga do bra�o.
Agora h� muita gente na cidade.
Gente nova.
Est�o fazendo um filme.
Est�o filmando a hist�ria da vi�va de Montiel.
Deixe que sejam idiotas por conta pr�pria.
Eles que sabem...
Mas quem sabe disso sou eu...
e me mantenho quieto por respeito.
Quando Jos� Montiel morreu,
toda a cidade se sentiu vingada,
menos sua vi�va.
�S VEZES PARECIA ESCUTAR VOZES,
MURM�RIOS DISTANTES,
COMO SE ALGU�M SE QUEIXASSE NO FUNDO DO RIO�
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