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O CONDE DE MONTE-CRISTO
a partir do romance de
Denunciado em 1815 em Marselha como conspirador bonapartista,
o marinheiro Edmond Dantès
passa 14 anos nos calabouços do Castelo de If.
Outro prisioneiro, o abade Faria
revela-lhe antes de morrer o segredo dum tesouro
enterrado numa gruta na ilha de Monte-Cristo.
Dantès consegue fugir e apossa-se do fabuloso tesouro.
Tornado no conde de Monte-Cristo, em 1838 vai a Paris
e encontra lá os responsáveis pela sua desgraça.
O antigo guarda-livros Danglars, agora banqueiro;
o antigo pescador Fernand, agora deputado
e marido da Mercédès, antiga noiva de Dantès;
o antigo alfaiate Caderousse, condenado foragido;
por fim, Villefort, agora primeiro magistrado da capital.
Paris deslumbra-se com a magnificência do conde
mas a vingança de Dantès está a caminho.
A honra do conde de Morcerf está ameaçada.
O Banco Danglars sofre enormes perdas.
Villefort vê ressurgir um crime que um dia cometeu
e descobre ter um envenenador em casa.
Caderousse, encontra a morte no punhal dum cúmplice.
4º episódio A VINGANÇA
Nessa noite eu estava na casa de Auteuil.
O abade Busoni tinha pedido para usar a minha biblioteca
sem incomodar
e cerca da meia-noite ouviu ruídos no salão.
Subiu com o Ali, o meu criado que deixei cá por precaução.
O bairro dos Campos Elísios atrai a bandidagem...
Os seus clientes, Sr. Procurador.
Clientes sem os quais eu não passaria, Sr. Conde.
- Mantêm-no vivo. - E a seguir?
A seguir, o nosso ladrão, que julgou ter a casa vazia,
saiu tal como entrou.
E quando desceu do outro lado do muro,
o cúmplice que vigiava assassinou-o.
O abade Busoni ouviu os seus gritos,
correu para a rua acompanhado do Ali
e trouxeram-no para cá.
mas era um agonizante que o abade deixou morrer.
É o material que ele largou.
Parece surpreendente.
Desapareceu o colete desse Caderousse.
Porque acha que ele usava um colete?
A lâmina que o atingiu três vezes deixou-lhe nas feridas
fios dum tecido castanho diferente da cor da camisa.
É um bom detective, Sr. Procurador.
Mas o depoimento do abade menciona a presença do colete?
Não, precisamente.
Contava interrogar o abade Busoni sobre isto,
mas o criado disse-me que ele foi a Lyon velar por um parente doente.
Conta lá ficar quinze dias.
Então, paciência.
"Morro assassinado pelo corso Benedetto,"
"meu companheiro de grilhão em Toulon"
"com o número 59."
Não compreendo bem.
Ministro, diga-me uma coisa.
Quando o Morcerf foi para a Grécia não era já general?
Não, Sr. Duque.
Era apenas o coronel Fernand Mondego.
Mas já tinha o título de conde de Morcerf.
- Quem o promoveu a general? - O paxá de Janina, Ali-Tebelin.
Senhores deputados,
o Sr. marquês de Bagville pede a palavra.
Senhores deputados,
tenho de vos comunicar algo extremamente grave
e que poderia reflectir-se dolorosamente
na honra da nossa ilustre assembleia.
Peço, portanto, toda a vossa atenção.
O jornal Imparcial escreveu há três semanas
sobre um oficial francês
ao serviço de Ali-Tebelin, paxá de Janina,
o qual não somente entregou a cidadela de Janina,
como também vendeu o seu benfeitor aos turcos.
O nome deste oficial na época era Fernand,
como disse o nosso ilustre colega.
Mas o Imparcial esqueceu-se, talvez por discrição,
de acrescentar a este nome próprio um título de nobreza
e o nome duma terra.
Estamos em posição de revelar
que se trata do Sr. conde de Morcerf, membro da Câmara dos Pares.
A honra do Sr. Morcerf é também a honra desta assembleia.
Para acabar com este escândalo,
peço que seja realizada uma investigação
o mais rapidamente possível,
a fim de desfazer a calúnia antes que esta cresça
e restabelecer a reputação e a dignidade do Sr. de Morcerf.
Tem a palavra o Sr. de Morcerf.
Senhores deputados,
sou um soldado e preferia derramar o meu sangue
para provar aos meus honrados colegas que sou digno de me sentar entre eles.
Tenho aqui documentos que provam que o paxá de Janina
me honrou com a sua confiança.
Posso até dizer com o seu afecto
até à hora da sua morte,
pois tinha-me incumbido duma negociação crucial com o sultão.
Mas infelizmente o sultão troçou de mim
e quando regressei a Janina,
Ali-Tebelin, o meu protector, mestre e amigo
já tinha sucumbido ao punhal dum assassino.
Só pude salvar da morte
a esposa favorita do paxá e a sua filha.
O que foi feito dessas duas princesas, conde?
O azar perseguia-me, senhor presidente.
No dia em que devia embarcar com elas para França,
foram raptadas e nunca soube o que aconteceu às princesas.
Pode apresentar testemunhos que corroborem as suas alegações?
A melhor prova que posso apresentar é precisamente
a ausência total de testemunhos
ou de qualquer depoimento que ponha em causa a minha palavra de soldado
e de cavalheiro.
Sr. Conde, temos um testemunho de importância considerável,
a julgar pelo bilhete que acaba de me ser entregue.
Façam entrar a pessoa que deseja depor perante a Câmara.
A mensagem que teve a gentileza de me enviar
afirma que foi testemunha ocular
dos trágicos acontecimentos de Janina.
Fui, de facto, embora muito jovem na época.
Então, permita que lhe pergunte como se chama a senhora.
Eu sou a Princesa Haydée,
filha de Ali-Tebelin, paxá de Janina
e da sua amada esposa, a princesa Vasiliki.
Esta é a escritura da venda da minha pessoa
e da da minha pobre mãe.
Ela morreu, não conseguiu sobreviver à desonra.
O homem que nos vendeu é o mesmo oficial francês
que, após trair o meu pai, reservou como parte do seu saque
a mulher e a filha do seu benfeitor!
Minha senhora, como se chamava esse oficial?
Está na escritura que tem diante de si.
Chamava-se Fernand Mondego.
É uma cabala!
Uma trama abominável, urdida pelos meus inimigos, senhores.
É política abjecta e baixa.
Olhe para a princesa.
Trata-se ou não da filha do paxá Ali-Tebelin?
Não me reconheces.
Pois eu reconheço-te, assassino Fernand Mondego!
Senhores deputados, vejam bem o desgraçado sentado ao vosso lado.
Ele tem as mãos sujas com o sangue do meu pai.
Conde de Morcerf, pretende um novo inquérito?
Posso pedir a dois de nós que vão a Janina.
Fale. O que decide?
Nada, senhor chanceler.
Nada.
Sem dúvida.
O Danglars só materializiou a operação.
Foi o conde de Monte-Cristo o instigador da trama.
O Danglars é um capitalista.
Geralmente, os banqueiros não gostam de se bater em duelo.
O Sr. conde de Monte-Cristo também não é apreciador
mas caso se bata, receio que o faça demasiado bem.
Ele acerta num ás de espadas a 30 passos de distância.
O melhor que posso fazer hoje é ser morto em defesa do meu pai.
Boa noite, Sr. de Morcerf. Como está?
Não vim aqui para trocar cortesias banais, Sr. Conde,
mas sim para lhe exigir que me dê uma explicação.
Uma explicação na ópera? Enganou-se no local.
Não estamos na Porta de Saint-Martin ou por aí.
Quando é uma questão de honra,
não se escolhe local para resolver diferendos.
Diferendos? Você está bem?
Bem o suficiente para reconhecer a emboscada duma traição
e desafiá-lo para um duelo!
O senhor modere o seu tom mesmo sendo para fazer uma provocação.
O barulho não cai bem a todos, Sr. de Morcerf.
Considero a sua luva lançada, senhor.
Por isso irei devolvê-la enrolada numa bala de pistola.
E agora, é preciso que o meu criado o faça sair?
O que é que fez ao visconde?
A ele, absolutamente nada. Juro.
E o que irá fazer-lhe?
Irei matá-lo, claro está.
Está aqui uma dama, senhor.
Ela insiste que deseja falar com o Sr. Conde.
Quem é a senhora?
Edmond...
Não mates o meu filho.
Que nome pronunciou, Sra. de Morcerf?
Não é a Sra. de Morcerf aqui está, Edmond.
É a Mercédès.
A Mercédès morreu!
Não conheço mais ninguém com esse nome.
Reconheci-te mal te vi apenas pela tua voz.
Poupa o meu filho.
Ele injuriou-me publicamente.
Ele julga-o responsável
pela terrível desgraça que se abateu sobre o pai.
É a Providência.
É a mão de Deus a punir o pescador Fernand Mondego,
casado com a catalã Mercédès.
A única culpada é...
... é aquela que não esperou o regresso do homem que amava.
Sabes porque fui preso?
Porque um celerado,
chamado Danglars, escreveu uma carta
que outro celerado, chamado Fernand Mondego,
entregou ao procurador régio.
O mesmo que desertou pelos ingleses.
O mesmo que traiu os irmãos em Espanha.
O mesmo que vendeu
e entregou à morte o seu benfeitor Ali-Tebelin.
Perdoa.
Perdoa ao menos a pensar em mim,
que nunca deixei de te amar.
Sabes, Mercédès, o que é agonizar lentamente
mergulhado nas trevas?
Sabes o que é apodrecer na lixeira duma prisão
durante 7814 dias?
187 mil 356 horas?
Não.
Só vejo o homem que amo
prestes a tornar-se no assassino do meu filho.
Vinga-te no Fernand.
Vinga-te até mesmo em mim.
Vinga-te nos culpados e não num inocente.
Então...
O que queres?
Queres que o teu filho continue vivo?
Ele viverá.
Obrigada.
Obrigada, Edmond.
Fico feliz por te reconhecer...
... assim...
... tão bom como eu sonhava.
Agora, não te baterás.
Baterei...
... uma vez que ele me ultrajou publicamente.
É o que ele quer.
Eu é que serei morto.
Há um Deus acima de nós.
Uma vez que estás vivo, Edmund,
tenho a certeza de que ele intervirá.
Ele é bom e misericordioso.
Não pode querer a tua morte.
Se os meus olhos agora não brilham
e se a minha beleza murchou,
O meu amor está presente e vivo dentro de mim.
O meu amor dar-me-á força para agir.
Adeus.
Obrigado por aceitar ser minha testemunha.
Conheço pouca gente em Paris.
É uma honra e um dever, senhor.
O meu amigo Morrel falou de si com grande ardor e coração.
Coração é algo que certamente não lhe falta.
O Ali levou o meu testamento ao notário esta manhã.
Se eu morrer, o Maximilien tomará conhecimento dele.
Morrer, o senhor?
Tinha graça...
O Visconde de Morcerf não chegou?
Ele mandou avisar-nos que viria aqui ter.
Então esperemos.
O Sr. Conde renuncia ao direito de usar as suas pistolas.
Antecipámos esta delicadeza.
Trouxemos armas inteiramente novas.
Querem examiná-las?
A sua palavra basta-me, Sr. Beauchamp.
O Albert deixou-me um bilhete a pedir para me juntar a vocês.
Estou a entender.
Como testemunhou a provocação, ele quer que assista à reparação.
Ele está dois minutos atrasado.
O que significa aquilo?
Tem a imprudência de vir a cavalo e a galopar para se bater à pistola.
Irá tremer-lhe a mão.
Contudo, recomendou-lhe que relaxasse antes do encontro.
Estranho traje, de resto.
Mais valia ter um alvo desenhado na barriga.
Obrigado por terem vindo, senhores.
Tu também, Morrel.
Quantos mais homens de honra presentes, mais satisfeito fico.
Tenho de falar ao Sr. Conde de Monte-Cristo
diante de todos.
Meus senhores,
espero que nada do vou dizer ao Sr. Conde de Monte-Cristo se perca
pois deverão repeti-lo a quem quiser ouvir.
Sr. Conde,
peço que me desculpe.
Meu senhor,
por mais culpado que fosse o meu pai,
não me parecia que fosse direito do Conde de Monte-Cristo puni-lo.
Não lhe dizia respeito.
Acabam de me revelar a traição.
Sim, senhor.
A traição de Fernand Mondego
da qual o senhor foi a vítima.
E que incrível desgraça essa deslealdade lhe causou.
Por isso, digo em voz alta
que teve razão em vingar-se.
E poderia tê-lo feito de forma ainda mais cruel.
De outro modo, peço-lhe...
Uma vez que a amizade nos é agora proibida,
salvemos ao menos a estima que temos um pelo outro.
Fiz o que a minha consciência mandou, senhores.
Se alguém se enganar quanto ao sentido da minha atitude,
se o atribuir a outro sentimento,
informem que estou pronto para enfrentar quem quer que seja.
Mais uma vez, obrigado.
O Sr. Conde de Morcerf.
É o Sr. Conde de Morcerf! Julgava ter ouvido mal.
Encontrou-se com o meu filho de espada ou pistola em riste?
Sim. Sem nos matarmos, imagine.
Portanto, o senhor pediu-lhe desculpas?
Não, foi ele quem mas pediu pois estava convencido
de haver alguém com mais culpa do que eu neste caso.
Alguém com mais culpa do que o senhor?
Quem?
- O senhor. - Eu?
Então o senhor é louco e o meu filho é um cobarde.
- Não tem mais nada a dizer-me? - Tenho.
Tenho a dizer-lhe que não tem inimigos que o odeiem mais do que eu.
É recíproco.
Se os jovens renunciam a bater-se, enfrentemo-nos nós em duelo.
Como preferir, Sr. de Morcerf.
Então batamo-nos!
Não precisamos de ir procurar testemunhas
para nos matarmos, Sr. Conde. Não concorda?
Tenho apenas um nome a pronunciar para te fulminar.
Lembras-te do homem
que empurraste para o abismo para lhe roubares a Mercédès?
A minha noiva.
Edmond Dantès?
Dois.
Reflicta, minha mãe.
Tenho amigos em Paris. Posso pedir-lhes que ajudem.
Não, Albert.
Só posso aceitar os 150 luíses de ouro do conde de Monte-Cristo.
- Enterrados no jardim de Marselha? - Sim.
É a soma que o Edmond juntou com sacrifício para podermos casar.
Aceitei por ser o meu dote. De resto, mais nada.
Vem, esta já não é a nossa casa.
Um pouco mais devagar por favor, senhor.
Se o Sr. Noirtier chamou, é urgente, meu amigo.
Posso dizer, avô?
Maximilien, o meu avô quer deixar esta casa maldita.
Caso o Sr. de Villefort mo permita, irei morar com ele.
Caso contrário, espero 18 meses pela maioridade
e manterei a minha promessa de ser tua esposa.
Obrigado, Valentine.
Obrigado igualmente ao senhor.
Juro que vou fazer a sua neta feliz.
O meu avô está convencido e eu também.
Com calor, meu bom Barrois?
O Sr. Morrel fez-me correr, menina.
Deves estar morto de sede. Queres um copo de limonada?
Com prazer.
Obrigado.
É o médico a tocar à campainha.
Tens de ir embora, Maximilien.
Lembra-te da recomendação do meu avô.
Não faças nada que possa dificultar a nossa felicidade.
Torno a prometer-lhe, senhor.
Mas poderei fazer uma visita de vez em quando?
Sai por aí. Adeus.
Barrois, estás a cambalear?
Meu Deus, não consigo ver.
Dr. Avrigny, venha depressa!
Traga-me imediatamente água, éter,
indutor de vómito e essência de terebentina.
- Foste tu quem gritou? - O Barrois está mal, meu pai.
Não sofra, meu amigo.
Por toda a parte, doutor...
... cãibras pavorosas.
Bebi a limonada...
Desta aqui?
Sim!
Quem fez esta limonada?
Fui eu.
E foi você que a trouxe para aqui?
Não.
Foi a menina.
- Sufoco. - Calma.
O seu sofrimento terminará em breve.
Eu sei.
Diga-me...
Pode arranjar-me xarope de violetas?
Agora mesmo.
Esta limonada contém falsa-angustura
e fava de Santo Inácio.
Venenos fulminantes que não deixam vestígios,
excepto que se lhe juntarmos xarope de violetas,
esta limonada ganha uma coloração verde.
É o mesmo veneno que matou a Sra. de Saint-Méran.
E é a mesma substância que acaba de assassinar o pobre Barrois.
O crime está novamente em minha casa.
Sim, Sr. Procurador.
Tem em sua casa e talvez na pessoa dum familiar
um terrível criminoso dos que há em todos os séculos
desde Locusta à Brinvilliers.
Isso é impossível.
Que provas apresenta para tal acusação?
Uma terrível suspeita.
Como assim? Fale.
Sabia que era o Sr. Noirtier quem devia ter morrido
mas que o assassino ignorava que o trato há um ano com brucina?
Por isso, o seu pai está imune.
Quem pode querer acabar com a vida do meu pai?
O assassino sabia que o Sr. Noirtier destruiu um primeiro testamento,
que fez outro, em benefício da sua filha por não casar com d'Épinay.
Então ataca-o, com medo que faça um terceiro.
O doutor está louco.
Procure quem beneficia do crime.
Está a divagar.
Infelizmente, não estou.
Acuso a Mna. de Villefort.
A minha filha! É impossível.
Não tolero que haja crime em minha casa.
Não tolero, ouviu?
Não tolero crimes debaixo do meu tecto.
O Sr. de Villefort é magistrado. Eu sou médico.
Posso partilhar consigo este segredo horrível
que, neste caso, é um segredo profissional.
Mas a partir de agora, se algo acontecer em sua casa,
incluindo a si próprio,
não mande chamar-me. Eu não voltarei.
Quando os créditos começam a escapar à mão dum banqueiro
o seu banco torna-se um cadáver e foi isso que me aconteceu.
É a bancarrota?
Não abomino as bancarrotas, desde que me enriqueçam.
O que não é o caso.
Mas tu, Eugénie, podes salvar-me.
Como assim?
Ao casar contigo, o Sr. Cavalcanti traz-te um dote de 5 milhões
que coloca no meu banco.
Eugénie, casa com o príncipe.
Torna-te princesa, o que não é de desprezar,
e o meu crédito fica salvo.
Ou seja, penhora-me por 5 milhões.
Quanto maior a soma, maior a lisonja.
Se eu concordar,
poderei dispor livremente da minha pessoa?
Tens a minha palavra.
Muito bem.
Casarei com o Sr. Cavalcanti.
Graças a Deus escapei de casar com o Albert de Morcerf.
Evitei ser a mulher dum cobarde que se desonrou ao recusar bater-se
e a nora dum suicida.
- Escapámos de boa. - Sim.
O que tem, minha querida? Está pálida.
De facto, Valentine Ainda agora tinha sangue no rosto.
Sim, tem sido assim há alguns dias.
À febre segue-se, por momentos, uma estranha palidez.
Retira-te se quiseres, Valentine.
Sim, senhora.
Bebe um copo de água fresca bem cheio para te revigorar.
Não sei o que se passa com esta rapariga ultimamente,
mas admito que me preocupa.
- Valentine! Meu Deus! - Desajeitada.
Agora ando sempre a perder o equilíbrio.
Corra a buscar o Dr. Avrigny. Depressa.
Doutor, venha depressa à minha casa maldita.
Um novo doente, Sr. Procurador Régio?
Não, é a minha filha.
Envenenada como os outros.
É dela que suspeita.
Isso é medonho.
Desta vez saberei quem é o assassino.
Juro que o esmagarei.
Tentemos salvar a vítima. Depois pensamos no resto.
Quer entrar para aquela família abominável?
Quer casar com essa jovem marcada pela morte?
Mas eu amo-a e quero perguntar-lhe como posso salvá-la.
Vem pedir-me logo a mim que salve a filha daquele que...
Seja forte.
Tenha esperança.
Eu velo por si.
Pode alguma coisa contra a morte? É mais do que um homem?
Eu posso fazer muito, meu amigo.
Muito.
Tenha coragem e confiança.
Adeus, doutor.
Olá. Diga-me, os donos estão de mudança?
Não sei o que aconteceu, decidiram de repente esta manhã.
Em menos de duas horas tinham feito as malas.
E ficou alguém com a casa?
É ele.
Um padre italiano.
Abade Busoni.
- Italiano? - Pois.
O Sr. Conde de Monte-Cristo.
Sr. Conde, obrigado por aceitar o nosso convite.
É uma grande honra.
A assinatura dum contrato de casamento
sempre me comoveu muito.
Bem se vê que nunca assinou o seu, Sr. Conde.
Sem dúvida.
- A saúde da Mna. de Villefort? - Sempre delicada, infelizmente.
Que triste.
É um regalo para a vista, menina. Os meus parabéns.
- Que sorte a do príncipe. - Obrigada, Sr. Conde.
Que bela recepção, Barão.
Como consegue exibir tamanha pompa com um gosto tão refinado?
É uma questão de preço, meu caro.
Gostaria de lhe apresentar alguns amigos meus.
Homens eminentes.
O notário!
Meus amigos, vamos assinar o contrato.
O meu marido não poderá assistir à cerimónia.
Infelizmente, o Sr. de Villefort não virá.
E nós a contar ter essa honra! Algum impedimento?
Um incidente imprevisível,
acerca do caso de assassínio junto à casa do Sr. Conde.
Receio ter causado involuntariamente a ausência do Sr. Procurador Régio.
Sabe que o abade Busoni levou o infeliz para minha casa
quando ele estava a morrer?
Para sua casa?
Sim, o cúmplice apunhalou-o na avenida dos Campos Elísios.
Pois, era um foragido
chamado Caderousse, se bem me lembro.
A sua memória é mais fiel que a minha, caro Barão.
Para tratar o tal Caderousse, o abade Busoni e o meu criado
despiram-no da cintura para cima.
O Sr. Procurador Régio informou-me
da ausência dum colete nas roupas entregues à justiça.
E encontrámos o colete esta manhã
atrás de uma secretária de onde tinha escorregado.
Estava ensanguentado e perfurado na zona do coração.
Ao revistá-lo, o meu camareiro sentiu um papel no bolso.
Era uma carta.
Dirigida a quem?
- Dirigida a si, caro Barão. - A mim?
Mas e essa descoberta impede o Sr. de Villefort de vir?
Esta carta e o colete
são o que se chama em tribunal "provas materiais", senhora.
Enviei-os ao Sr. Procurador,
que daí terá descoberto detalhes cruciais sobre o caso.
Claro, procedeu bem.
Enfim, estamos aqui para casar dois jovens.
O senhor queira proceder à leitura do contrato.
O Sr. Príncipe Cavalcanti?
O Sr. Príncipe Cavalcanti está aqui?
Príncipe?
Andrea?
Onde se escondeu?
Mas onde está ele?
Qual dos senhores se chama Andrea Cavalcanti?
Parece que já não se encontra aqui.
Quem é afinal o Sr. Cavalcanti?
Um foragido da prisão de Toulon, menina.
O seu nome verdadeiro é Benedetto.
Foi ele quem assassinou nos Campos Elísios
um homem chamado Caderousse,
que tentou roubar a mansão do Sr. Conde de Monte-Cristo.
Está na hora da sua poção, menina.
E agora durma bem.
Para ter mais pesadelos?
Deixe-se disso.
Agora despeço-me até amanhã de manhã, menina.
Pode beber.
Não receie.
Aquele que vê diante de si é o mais terno dos pais
e o mais respeitoso dos seus amigos.
Há quatro noites que estou a velar por si.
Sim, eu protejo-a.
Conservo-a para o nosso estimado Maximilien.
O Maximilien?
- Ele contou-lhe tudo? - Sim.
Disse-me que a ama, que é tudo para ele.
E desde então tenho observado o que se passa neste quarto.
Como?
Escondo-me atrás daquela porta,
que dá para a casa contígua, que aluguei.
Vi as pessoas que a visitavam, os alimentos que lhe servem,
as bebidas que lhe preparam.
Substituí o veneno que lhe administram todos os dias
por uma bebida benéfica
que a faz viver em vez de a fazer morrer.
Um veneno?
Sim.
Vi-o ser colocado no seu copo.
Por quem?
Por quem matou a sua malograda avó
e o pobre Barrois.
Não, é impossível.
Acredite, Valentine.
- Juro por Deus. - Está a blasfemar.
Infelizmente, não.
Para lhe dar provas desta abominação, irei retirar-me.
Mas a Valentine...
... mantenha-se acordada, suplico-lhe.
Não faça um gesto,
sustenha bem a respiração
e verá com os seus próprios olhos
quem queria ceifar-lhe a vida.
Está a soar a meia-noite. Até já.
Eu volto.
Valentine.
Valentine?
E então?
Reconheceu?
Meu Deus...
Mal posso acreditar.
É pelo pobre Édouard que ela cometeu todos os crimes?
Sim, Valentine.
Agora compreendeu.
Meu Deus... O que tenho de fazer?
Quero viver.
Pelo meu avô.
Pelo Maximilien.
Terá de me obedecer...
... cegamente.
Ordene e eu obedecerei.
Então, tome isto.
Vamos.
Aconteça o que acontecer a partir de agora, não tenha medo.
Se por acaso acordar mergulhada na escuridão dum jazigo...
- Dum jazigo? - Sim.
... lembre-se que um homem que só pensa na sua felicidade
está a velar por si.
A Valentine é a minha filha bem-amada.
Acredite em mim
tal como acredita no amor do Maximilien.
Será salva.
Bom dia, menina.
Hoje vamos ter um belo dia.
Nada de pesadelos horríveis esta noite.
Menina?
Acudam!
Acudam!
Senhor!
O que se passa? Que gritaria é essa?
Meu Deus!
Foi incapaz de salvar a minha amada!
- Só me resta morrer. - Não vai atirar.
Mas quem é o senhor para se arrogar tal poder?
Sou o homem que tem o direito de te ordenar que vivas.
- Em nome do teu pai. - Do meu pai?
Porque fala dele?
Porque também lhe salvei a vida
num dia em que, como tu, tinha perdido toda a esperança.
Porque o coração do teu pai adivinhou o nome do seu salvador,
o mesmo que será hoje, se assim o quiseres,
o teu salvador.
O senhor é o Edmond Dantès?
Sim.
Meu pai...
... sabe quem é o assassino?
Sabes que o conde de Monte-Cristo possui suficiente fé em Deus
para obter milagres?
E para devolver a vida àquela que perdi?
Estamos a 5 de Setembro e é meio-dia.
Encontremo-nos daqui a um mês, à mesma hora e no mesmo dia.
Ou bem que estarás curado...
... ou bem que eu próprio te colocarei a pistola na mão.
Promete-me?
Não te prometo, juro-te.
- É mesmo o Mestre Bertuccio? - Sim.
Não demorou muito para seres apanhado.
Seguiste por maus caminhos.
Roubaste e mataste.
Suponho que não veio aqui para me dar um sermão.
Ia cair em saco roto.
Quem o enviou? Foi o seu senhor Monte-Cristo?
Foi.
És acusado de assassínio.
Sei que te espera o cadafalso
mas tens uma mão amiga ao teu alcance.
Podes ser salvo.
Ouve-me.
Vai exigir hoje alguma cabeça no tribunal?
Sem dúvida alguma.
Tome.
Acho que um pouco de chocolate lhe dará a força necessária.
É a última refeição do condenado.
Sente-se indisposto? O que tem?
Curiosamente, muito pelo contrário.
Não deitou nesta chávena o veneno que serve habitualmente?
Como? O que está a dizer?
A senhora assassinou a Marquesa de Saint-Méran,
o infeliz do Barrois
e depois a minha filha Valentine.
Vai negar?
Nem poderia fazê-lo.
Não é mais o seu marido quem lhe fala.
É o seu juiz.
Quem sabe do seu crime sou eu, o meu pai e o dr. Avrigny.
Há também quem desconfie. Em breve será público.
Escute... Eu imploro, meu querido!
Eu já não sou seu querido.
Sempre notei a incrível cobardia dos envenenadores.
Porém, espero que tenha guardado para si um veneno mais fulminante
do que os que dava às suas vítimas.
Não sei a que se refere.
A mulher do primeiro magistrado de Paris
não levará o nome do marido e do filho para o cadafalso.
Não...
Meus Deus, isso não!
Estou no mundo para punir, minha senhora.
É o meu triste ofício.
Mas deixo-lhe à escolha a execução
pois sei que os seus conhecimentos são, infelizmente,
incomparáveis nesse campo.
Peço-lhe em nome do nosso filho...
Piedade, suplico-lhe! Deixe-me viver!
Em nome da minha filha morta pela sua mão,
juro que será feita justiça.
Vou ao palácio pedir a pena de morte para um assassino.
Se no meu regresso a encontrar aqui viva,
juro que dormirá esta noite na prisão.
Espero ter-me feito entender.
Adeus, minha senhora.
Adeus para sempre.
Se os antecedentes do réu que comparece hoje neste tribunal
explicam o crime mas não diminuem o horror.
Se a linhagem de Benedetto é duvidosa,
a de César é, infelizmente, demasiado notável.
O mal está gravado em letras sangrentas, indeléveis
desde as suas origens e, receio,
vendo os sentimentos que o animam hoje diante de vós,
temo que este mal esteja gravado para toda a eternidade.
Levante-se o réu.
Diga o seu nome e apelido.
Tenho um pedido, Sr. Presidente.
Eu gostaria de responder às perguntas que serão feitas
numa ordem algo invulgar.
Antes de mais, tenho 21 anos.
Nasci na noite de 27 para 28 de Setembro de 1817.
Podemos saber onde nasceu?
Perto de Paris, Sr. Presidente.
Em Auteuil.
- A sua profissão? - Comecei como falsário.
Depois tornei-me ladrão e assassino recentemente.
Perdão...
Esqueci-me duma das minhas profissões, Sr. Procurador.
Condenado foragido.
O réu consente agora em dizer-nos o seu verdadeiro nome?
Decerto queria dar-lhe maior nobreza com os títulos
que escandalosamente ostenta.
É extraordinário, leu-me o pensamento.
Não sei o meu verdadeiro nome.
Mas posso dizer-vos o do meu pai.
Então diga-o e vamos lá acabar com isto!
O meu pai é procurador régio, Sr. Presidente.
O seu nome é Gerard de Villefort.
Silêncio!
Silêncio, se não mando evacuar a sala!
O réu agrava o seu caso ao zombar da justiça.
Deus me livre de insultar o tribunal, Sr. Presidente.
Eu repito,
o meu pai é o Gerard de Villefort e estou pronto a prová-lo.
Nasci no quarto vermelho da casa número 28
da rua de La Fontaine em Auteuil.
O meu nascimento foi, bem entendido, ilegítimo.
O meu pai jurou à minha mãe que eu morrera à nascença.
Envolveu-me num cueiro com as iniciais H e N
e enterrou-me vivo.
Se estou hoje perante vós, devo-o a algum tipo de milagre
que me permitiu sobreviver contra a vontade do meu pai.
Pode provar estas acusações atrozes?
Todas as provas estão à disposição do tribunal, Sr. Presidente.
Mas parece-me ser suficiente olhar para o rosto do Sr. de Villefort.
Meu pai,
devo relatar os detalhes que antecederam o meu nascimento
e os acontecimentos que se lhe seguiram?
Não.
Não, é inútil.
O que quer dizer, Sr. Procurador?
As provas...
... são inúteis.
Portanto, tudo o que o réu acabou de dizer é verdade?
Reconheço-me culpado Sr. Presidente.
E coloco-me desde já ao dispor do novo procurador régio,
meu sucessor.
Senhores...
Está feito, senhor.
Tal como ordenou.
Édouard.
Édouard.
Sr. Abade, o que deseja?
Dizer que a sua dívida está quitada, senhor.
Vou rezar a Deus
para que suspenda este golpe sobre si e sobre os seus.
Essa voz...
Não é a voz do abade Busoni.
Monte-Cristo?
Ainda não é essa, senhor.
Procure melhor.
Sr. Procurador, mais longe.
Mais longe.
Quando era substituto no tempo do rei Luís XVIII.
Essa voz...
Onde a ouvi pela primeira vez?
Em Marselha, a 25 de Fevereiro de 1815.
Prejudiquei-o em Marselha em 25 de Fevereiro...?
Mas quem és tu?
Um fantasma.
Um homem que enterraste vivo nas profundezas do Castelo de If
e a quem tiraste com um golpe o amor e a liberdade.
Edmond Dantès!
Estou a reconhecer-te.
Aí tens a tua vingança.
Olha.
É terrível.
A nossa geração está a passar poucas e boas este ano.
Tem sorte, meu caro Conde, sem esposa nem filhos.
Os desgostos domésticos são suportáveis para um milionário.
Sim, é verdade. Tenho a sorte de ser rico.
Eu estava justamente a assinar cinco pequenos títulos.
São títulos ao portador no Banco de França.
Você que parece fazer malabarismos com milhões,
já viu muitos pedaços de papel como este
valerem um milhão, cada?
Cinco milhões ao todo?
Que desembaraço, Sr. Creso! É preciso ver para crer.
Esta soma será paga em numerário no balcão do Banco de França?
Duvida?
É deveras curioso, a ser confirmado.
Quero fazer eu próprio a experiência.
O senhor...
... leva os meus títulos?
O meu crédito é de seis milhões por ano.
Levantei 900 mil francos. Restam 5 milhões e 100 mil.
Preparei-lhe o recibo, preciso de dinheiro hoje.
Umas despesas inesperadas.
Perdão, devo os 5 milhões aos hospícios, que mos reclamam!
Isso é diferente. Pague-me noutros valores.
Teria o prazer de proclamar ao mundo que a Casa Danglars me pagou
cinco milhões em numerário sem pestanejar.
Aguarde.
Um recibo do Conde de Monte-Cristo é dinheiro vivo.
Se estivesse em Roma,
a Casa Thomson & French pagar-lhe-ia à vista imediatamente.
ROMA
Para o Hotel Londres. Allegro!
Não se mexa. Não grite, senão morre.
O Hotel Londres mudou muito desde a minha última viagem a Roma.
Aviso a Vossa Excelência que não está aqui para brincar.
Ei! Alguém!
Bom dia, meu bom homem.
Há 24 horas que não como e estou esfomeado.
Nada mais fácil.
Vossa Excelência pode ter tudo o que desejar.
- Têm cozinha? - É claro!
Acha que os bandidos se alimentam do ar?
Disse que eu não estava aqui para brincar.
Tem razão. E o que deseja Vossa Excelência?
Adoraria comer um frango carnudo.
Um frango carnudo para Sua Excelência!
Magnífico!
Perdão, Excelência. Aqui paga-se antes de se comer.
É justo.
Aqui tem...
... um Luís. Fique com o troco.
Desculpe, Sr. Barão,
Vossa Excelência ainda me deve 99 mil 980 francos.
Teve graça. Um frango a cem mil francos!
Demais. Agora deixe-me comer.
Estou à espera do dinheiro, Excelência, ou não comerá.
Bandido!
Nunca escondi a minha profissão.
Vossa Excelência deseja outra coisa? Estamos bem abastecidos.
- Um bocado de pão seco. - Nada mais fácil!
Temos um pão excelente a cem mil francos cada,
é um preço de amigo.
Querem que morra de fome?
Ora, Excelência...
Tem no bolso uma letra de crédito da Casa Thomson & French,
no valor de seis milhões.
Se me assinar um título de cem mil francos
Dou-lhe um frango dourado, bem assado na brasa.
Outro título e dou-lhe pão.
O melhor vinho do mercado é o Valpolicella.
25 mil francos a garrafa.
E a garrafa tem um litro.
Compreendo a situação, seu patife.
O frango de Sua Excelência!
Capitão! Sua Excelência chama por si.
Chamou-me, Excelência?
Senhor, gostaria de saber o valor do resgate que espera de mim.
É evidente, Excelência.
Os seis milhões que traz consigo.
Seis milhões por cama e mesa, bem entendido.
Tire-me antes a vida!
Aquele a quem obedecemos proíbe-nos de derramar o seu sangue.
- Mas a quem obedecem vocês? - A alguém que só obedece a Deus.
Por isso, prepare-se para comer por seis milhões.
Será rápido, já conhece os nossos preços.
E quando me acabar o dinheiro, deixam-me morrer à fome.
Mas disse que não queria matar-me!
Não é o mesmo, Sr. Barão.
MARSELHA
Infelizmente, já não posso dar-te felicidade.
Aceita ao menos o consolo.
O meu filho fez-se soldado.
Partiu para África.
É um coração nobre.
Ele irá reconstruir o futuro de ambos.
O dele, sim.
Pedi a Deus do fundo do coração
que Ele nunca o abandone.
Mas o meu...
Quebraram-se tantas coisas em mim, Edmond.
Sinto-me agora perto da sepultura.
Eu sou a causa de todos os teus males.
Deves odiar-me.
Odiar-te?
Odiar-te, Edmond?
Olha para mim.
Hoje pode-se suportar o brilho dos meus olhos.
Já não sou a Mercédès que corria sorridente ao teu encontro.
Lembro-me que era aqui, na casa do teu pai.
E apesar de tudo, poupaste-me, Edmond.
A mim que era, de todos, a maior culpada.
Os outros agiram por ódio, por vaidade.
Eu fui cobarde.
Os outros agiram por interesse.
Foi o medo que me perdeu.
Nunca duvidaste de Deus
e Deus não te abandonou.
Deus estava atrás de mim, desconhecido,
invisível, irritado.
Fui o Seu mandatário
Ele não quis deter o raio que eu lançara.
E digo-o com orgulho, Mercédès,
Deus necessitava de mim.
Foi por isso que eu vivi.
A vingança
tornou-me vingativo, dissimulado,
perverso,
sobretudo impassível como a fatalidade fria.
Estou cansado.
Sou a única que te reconheceu.
Sou a única que te compreende e te admira.
Não!
Não me dês a mão, Edmond.
Não sou digna disso.
O mal cavou um abismo entre nós.
Não, por favor.
Peço-te, meu amor.
Por favor, não me toques mais.
Agora diz-me adeus.
Eu irei embora.
Terei as lembranças.
Levo-as comigo. Vou guardá-las até à morte.
Não quero perdê-las por nada no mundo.
O que deseja?
Não tenho mais nada para vos dar
mas suplico que me deixem viver.
Já nem sequer peço a liberdade,
mas um pedaço de pão.
Há homens que sofreram mais do que o senhor.
Não, é impossível.
Lembras-te dum jovem marinheiro que mandaste para um calabouço
mesmo sabendo-o inocente?
Ele esteve lá 14 anos.
Um jovem marinheiro?
Sim.
Lembras-te dum velhote
que deixaste morrer à fome em Marselha há 23 anos,
ao privá-lo do filho?
Louis Dantès?
É o seu fantasma que me aparece todas as noites?
Arrependes-te, ao menos?
Sim, como me arrependo!
Perdoo-te,
porque eu próprio preciso de ser perdoado.
Edmond Dantès!
Foste o mais canalha de todos e tens a vida salva,
mas estou com o braço demasiado pesado.
Creio que o próprio Deus
está a mandar-me abandonar a vingança.
Come...
Bebe...
Vai-te embora.
Mas atenção, condeno-te...
Tu que tanto adoras ouro,
condeno-te a mendigar pelo teu pão doravante.
Se eu souber que recomeçaste a trabalhar,
a "fazer negócios" como lhes chamavas,
onde estiveres saberei alcançar-te e esmagar-te.
Desaparece
antes que eu abafe no meu coração a voz que me manda deixar-te viver.
Cá está.
Eis o que lhe prometi.
Beba.
Adeus, meu generoso amigo.
Vou juntar-me àquela que amo...
Para reencontrá-la, ele lançou-se à morte.
Caso necessário fosse, foi-lhe dada a prova
de que a ama mais do que à própria vida.
Agora pertencem um ao outro.
Que Deus tenha em conta estas duas vidas que estou a salvar.
Tornei-a feliz?
Pergunte à minha querida irmã.
Encontraste uma irmã, Haydée.
Que bom.
Hoje és livre.
Restituo-te o nome e todas as riquezas do teu pai.
És bela e jovem.
Sê feliz.
Esquece-me.
Vou obedecer-lhe.
Não vê como ela sofre?
Não, minha irmã. O senhor tem o direito de nada ver.
O que vais fazer, Haydée?
Visto que me abandona, quero morrer.
Amas-me então?
É como se perguntasse a ela se o ama.
Amo-o como se ama a vida, como se ama Deus.
Seja feita a tua vontade.
Ama-me, então.
O teu amor talvez me faça esquecer agora
o que preciso esquecer.
O conde, Jacopo?
- E a Haydée? - Foi com ele, menina.
O Sr. Conde deixou-lhe esta carta, Excelência.
"Meu caro Maximilien,"
"O Jacopo levá-los-á a Liorne,"
"onde o Sr. Noirtier vos espera para o vosso casamento."
"Tudo o que me pertence em Monte-Cristo e em Paris"
"é o presente de casamento do marinheiro Edmond Dantès"
"ao filho do armador Morrel."
"Sejam felizes, meus filhos."
"Peçam ao anjo que velará pela vossa vida"
"que ore por mim também."
"Essas orações talvez aliviem"
"o remorso que sinto no fundo do meu coração."
Tradução e Legendagem LAPORT INC.
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