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O CONDE DE MONTE-CRISTO
a partir do romance de
1º episódio O PRISIONEIRO DO CASTELO DE IF
MARSELHA 1815
Procura o capitão?
Perdemo-lo quando dobrávamos o cabo Corso.
Como?
Teve uma febre cerebral que o levou em 3 dias.
- Trouxeram-no? - Não, receei o contágio.
Imergimo-lo a 3 milhas da costa com dois pelouros de 36 Kg.
E a carga?
Acho que vai ficar satisfeito.
Com licença.
Soube que perderam o vosso pobre capitão.
E a Casa Morrel tão depressa não acha outro como ele,
capaz de adivinhar o dia que vinha pela frente
e de se colocar à altura.
Ali o amigo Dantès parece entender do ofício.
Naquela idade, não se teme nada.
Correm-se riscos.
O navio chegou a bom porto.
O Leclère não o teria manobrado melhor.
Sim.
Teríamos até poupado dois dias se o capitão Leclère
não tivesse decidido parar na ilha de Elba,
decerto para ver aquele senhor Bonaparte.
Refiro-me a Napoleão.
Eu sou o seu guarda-livros e o senhor é o meu armador.
E dois dias de atraso são despesas que contam.
Evidentemente.
Diga-me, Dantès...
... porque é que o Leclère parou na ilha de Elba?
Ele levava correio para o grande marechal Bertrand.
Creio que era um pacote do rei Murat,
com quem o capitão tinha contactado quando parámos em Nápoles.
Em troca do pacote, o grande marechal entregou uma carta ao capitão.
Que fim levou?
Antes de morrer, ele fez-me jurar que a entregava em Paris.
Se a polícia real a apanha, isso pode custar-lhe caro.
Eu dei a minha palavra a um moribundo.
Um moribundo que era meu capitão.
Senhor Morrel,
espero uma licença de duas semanas.
Para se casar?
A sua bela Mercédès veio por três vezes
pedir-me notícias do Faraó.
Ou seja, de si.
Também preciso duns dias para esta ida a Paris.
Seja prudente.
A única coisa que lhe peço é que esteja aqui
quando o Faraó voltar ao mar.
Ele não pode partir sem o seu novo capitão.
Novo capitão?
Já decidi, será o Edmond.
Eu?
Sim.
Obrigado, Sr. Morrel.
Mas diga-me uma coisa.
Ficou satisfeito com o Danglars durante a viagem?
Com o Danglars enquanto guarda-livros, sim.
Mas como bom colega, não.
Uma vez capitão, tenciona mantê-lo?
Seguirei as suas instruções, Sr. Morrel.
Edmond!
O senhor está doente?
É alegria, meu filho.
Meu bom Deus, parece que vou morrer.
Não é caso para morrer. Estou de volta.
Tenho uma notícia formidável para lhe dar.
O corajoso Leclère, o senhor conhece,
morreu no Faraó.
E o Sr. Morrel nomeou-me capitão.
Tu, capitão?
Não lhe conto mais nada, se é para o deixar nesse estado.
Vou buscar vinho. Um copo de rosé da Provença
vai fazer-lhe bem e a mim também.
Onde o guardou?
Não tenho.
Faltou-lhe dinheiro?
Quando parti, deixei-lhe duzentos francos.
Tinhas uma dívida com o vizinho, o Caderousse,
daquele teu fato de passeio.
Ele reclamou várias vezes. Fartou-se de insistir.
Por isso, paguei-lhe.
E viveu do quê?
Eu preciso de pouco para me governar.
Bom...
Mandamos ir buscar um bom vinho de mesa
e algo para se fazer uma boa refeição.
Temos de festejar os meus galões.
Edmond! Com que então de volta.
Estou às ordens, caro vizinho.
Mas eu não estou precisado de nada.
Os outros é que precisam de mim, às vezes.
O que lá vai, lá vai.
O teu pai pagou-me o dinheiro. Estamos quites.
Nunca estamos quites com quem nos obsequiou.
Rapaz, parece ficaste rico.
Encontrei o amigo Danglars no porto.
Disse-me que te nomearam capitão.
É verdade.
Parabéns! Os teus amigos vão gostar da notícia,
sobretudo uma amiga, na cidadela de S. Nicolau.
A Mercédès.
Não é, Edmond?
Justamente por isso, permita-me ir visitá-la daqui a pouco.
Que Deus te abençoe, meu filho.
Fazes bem em despachar-te.
A Mercédès é uma bonita moça e às catalãs não faltam pretendentes.
Até mesmo bons partidos.
Agora contigo capitão, é evidente que te escolhe a ti.
Tenho as mulheres em melhor conta.
Sobretudo a Mercédès.
Melhor para ti, meu rapaz.
Quando casamos, só a fé nos vale
e acreditamos sempre sermos amados pelo que somos.
Até à vista.
Este Caderousse...
Temos ali um amigo maravilhoso.
Como vai essa vida?
Esperaste-me para beber, que simpático.
A fazer contas?
O Sr. Morrel fará bons negócios com essa carga?
Creio que sim.
Viste o Dantès?
Já se julga o capitão do Faraó.
Está contente, ele?
Está é insolente. Já se acha grande coisa.
Uma vez capitão, ficará irreconhecível.
E a bela catalã dele?
Continua um grande amor.
Mas ou muito me engano
ou ainda o espera um desgosto desse lado.
Ai sim?
Como sabes?
Sei que sempre que ela vem à cidade
traz companhia.
- Sim? - É como te digo.
Um rapagão catalão de olhos negros e ardentes.
Ela trata-o por primo.
Primo! Percebes o que quero dizer?
A Páscoa está a chegar, Mercédès.
É o momento de te decidires.
Temos de casar.
Responde, peço-te.
Fernand...
O que queres que te diga?
Gosto muito de ti, tu sabes.
Gosto de ti como um irmão mais velho.
Não me peças mais do que isso senão perdes a nossa amizade.
É por estares apaixonada por aquele marinheiro?
Sabes bem que os catalães devem casar entre si.
É uma lei sagrada.
Não é uma lei, Fernand. É um costume.
A qualquer momento vais partir para a guerra.
Se estivermos casados, o que será de mim?
Não tenho dinheiro e sou uma pobre órfã.
Portanto...
Vamos ser ricos, tenho a certeza.
Se me amas, Mercédès, dá-me uma oportunidade.
Esse por quem esperas,
estás certa de que ainda pensa em ti?
Todos sabem que os marinheiros têm uma mulher em cada porto.
Fernand...
Julgava-te bom mas enganei-me.
Se o Edmond desaparecer, não o acusarei de infidelidade.
Acharei que terá morrido, amando-me.
E se ele te esquecer?
Morrerei.
Mercédès!
Não tinha notado que éramos três.
É o meu primo Fernand.
- Não o reconheces? - Ah, sim. Bom dia.
Tens um inimigo em casa?
O Fernand é como um irmão.
Fernand?
Não penses mais nisso.
O importante é estarmos os dois juntos.
- É o catalão. - Aquele?
Sem tempo para falar aos amigos se não forem catalães?
Chamou-me, Sr. Caderousse?
Chamei porque da forma como corrias achei que ias atirar-te ao mar.
Senta-te.
Espero que este vinho seja tão bom como o outro.
Este é melhor, Sr. Danglars.
Diz a verdade.
A bela dispensou-te?
A Mercédès é livre para casar com quem quiser.
Disseram-me que quando um catalão era dispensado
era mais violento que o vento mistral.
- E depois? - Nada...
Bons ventos ao novo capitão do Faraó,
futuro marido da bela Mercédès,
prima do bravo Fernand Mondego.
Edmond!
E vem com a bela catalã, cheguem-se cá!
Estás tão apaixonado quem nem reparas nos amigos?
Ficaste tão orgulhoso que nem lhes falas?
Ou são os galões de capitão a ofuscar-te?
É a felicidade que me cega.
Para quando é a boda, Sra. Dantès?
Dá azar tratar-me pelo apelido dele antes de casar.
Perdoa o Caderousse. Foi sem querer.
É para breve?
Sim, amanhã celebramos aqui o noivado.
Está convidado, Danglars. E o Caderousse também.
Muito me honra. E o Fernand também vem?
Se a Mercédès o considera um irmão, eu também considero.
De certeza que o Fernand concorda contigo.
E vai ficar aí encolhido? Que bonito para um catalão!
E quer que faça o quê? Que o mate?
A Mercédès disse-me que morria
se acontecesse alguma coisa ao Edmond.
Sei que ela não está a mentir.
Ela nunca mente.
Nós, os catalães, não mentimos.
Pois, mas é uma pena.
Você é um jovem simpático e eu gostava de ajudar.
Eu também gostava de te socorrer, Fernand.
Mas não mates o Dantès.
Até porque não é indispensável matá-lo para impedir o casamento.
Só a morte poderá separá-los.
A ausência pode impedir o casamento tanto quanto a morte.
Não para o nosso povo.
Suponha que erguemos um muro entre o Dantès e a sua amada.
Um muro?
Sim, um muro muito grosso.
O muro duma prisão, por exemplo.
Minha senhora,
o nosso bom rei não quer ser o rei de duas Franças.
E, como sempre,
estava um senhor a queixar-se de ainda ver
águias e a letra N nos muros de Tulherias...
- Não pode ser. - Mas sim!
Sem contar com as abelhas a polinizar sobre o muro.
O rei disse ao senhor, "Meu amigo,"
"se disser mais uma palavra, ponho o busto dele em cima da lareira."
Confiemos no bom senso dele. E na sua clarividência.
Considero o rei muito indulgente com o usurpador que se recusou,
após o Brumário, a largar o lugar.
Repare como aqueles marechais o abandonaram no ano passado.
Compreenderam o quanto
Napoleão era perigoso para a França.
Não concorda, Sr. de Villefort?
Perdão?
Eu lembrava o conde de Salvieux
como os lacaios de Napoleão o abandonaram.
Mas o povo, senhora...
O povo não o esqueceu.
E ainda o considera o filho da revolução,
um modelo da liberdade e da igualdade.
Da igualdade?
Sabe que isso cheira a revolução à légua?
Mas eu perdoo-o.
Sendo filho dum girondino que se tornou Bonapartista
conservará alguns dos seus gostos.
Mãe, não devíamos falar dessas tristes recordações.
Sobretudo hoje.
Gostaria de me juntar, humildemente,
ao pedido da minha noiva.
Duvido que o meu pai ainda seja Bonapartista.
Quanto a mim, sou monárquico, apaixonadamente.
Muito bem, caro Villefort.
Tive oportunidade de o dizer ao ministro da Casa Real
na semana passada.
A sério, Sr. Conde? Falou sobre mim ao rei?
É, sim.
Imagine só que o rei até está a par do seu casamento próximo
e que, sempre com o desejo de reunir todos os franceses
no mesmo manto de perdão e de esquecimento,
aprova a aliança do filho de um girondino
com a filha de um oficial do exército de Condé.
Esqueçamos o passado.
Mas o Villefort não se esqueça que será sempre vigiado.
Sou magistrado e cumprirei o meu dever
para com a monarquia sem piedade.
Rogo a Deus que só lhe envie uns ladrõezecos
e uns vigaristas tímidos.
Se quiser ver-me chegar a procurador régio
deve desejar-me grandes criminosos.
O secretário do procurador régio
pede para falar com o Sr. de Villefort.
- Hoje não! - Renée...
Com a sua licença.
Os meus respeitos, Sr. Substituto.
Lamento vir importuná-lo no dia do seu noivado.
Do que se trata?
Disto aqui.
O Sr. Procurador está ausente até Segunda.
Tomei a liberdade de abrir essa carta
que lhe deixaram debaixo da porta esta manhã.
Ora vejam só.
Se esta carta não for obra de algum engraçadinho, trata-se...
Dum golpe Bonapartista.
É isso, Sr. Substituto.
Mas que ar tão sério num dia tão feliz!
Não corre tudo de acordo com os teus desejos?
É precisamente isso que me assusta tanto.
Esta felicidade toda parece-me demasiado fácil
e eu quero merecer ser o marido da Mercédès.
Marido... Isto ainda é só o noivado.
Experimenta fazer de marido e verás como serás recebido!
Uma catalã não embarca nisso.
Não vale a pena desmentir-me por tão pouco, Caderousse.
Caros amigos,
dentro de hora e meia a Mercédès será minha mulher.
Como assim?
Graças ao Sr. Morrel, que puxou uns cordéis,
o alcaide espera-nos nos Paços do município.
Chegou no dia 24 pela manhã e casa no dia 25 às 15:00.
Não me venham cá dizer
que os marinheiros não são despachados!
O banquete de noivado é um banquete de casamento.
- Bem nos enganaste. - Não ficarão a perder.
Damos um salto a Paris e em oito dias regressamos.
E nessa altura, o verdadeiro banquete de casamento.
Meus amigos...
Meus amigos...
Eu gostaria...
Gostaria de fazer votos...
Meus amigos...
Em nome do rei
queiram dizer-me qual dos senhores é Edmond Dantès.
Sou eu.
Em nome da lei, está preso.
E pode saber-se qual o motivo?
Ignoro.
Sr. Comissário, é um equívoco, com certeza.
Se for equívoco, Sr. Morrel, será prontamente reparado.
Entretanto, tenho aqui um mandado de captura.
Como podem prender o meu filho sem qualquer motivo?
- E logo na hora do casamento? - Não sei.
Talvez não tenha cumprido alguma formalidade aduaneira.
Então porquê o uso de força?
O meu noivo não é nenhum assassino.
Eu obedeço ordens, menina.
O engano será esclarecido e nem sequer entrarei na cadeia.
Pai, confio-a a si.
Amigos, eu regresso não tarda.
Isto é decerto apenas uma desventura que nos fará rir bastante.
Vou com os senhores.
Sr. Substituto...
Imagine que acaba de se cometer um incrível equívoco.
Prenderam o imediato do meu navio.
Eu sei, caro senhor.
Na ausência do procurador régio eu interrogarei o prisioneiro.
Prisioneiro?
Sr. de Villefort, o Dantès é o homem mais honesto
e um dos melhores oficiais da marinha mercante de Marselha.
Pode-se ser honesto, comandar um barco na perfeição
e ser-se um grande celerado.
Celerado, o Dantès?
Um celerado na política, escusado será dizer.
Há onze meses que temos um rei legítimo.
Quem sonha em derrubar o poder legal do rei
tem que aprender que esse tipo de crime é punível por lei.
Também é sua opinião, não é, Sr. Morrel?
Eu suplico-lhe...
Seja bom, Sr. de Villefort, e restitua-nos logo o pobre Dantès.
Se for inocente, não há o que temer.
Se for culpado, a impunidade seria um exemplo fatal
nesta época agitada em que a França começa a sarar as feridas.
Cumprirei o meu dever, caro senhor. Apenas isso.
Eis todos os papéis que encontrámos com o detido
e na sua cabine.
Aquele homem serviu na Marinha Imperial?
Refiro-me ao regime anterior.
Não, senhor.
Mande-o entrar.
Sente-se.
O que estava a fazer no momento da sua detenção?
Estava no meu banquete de noivado, senhor.
Continue.
Ignoro o motivo da minha detenção.
Não sei de nada que possa interessar à polícia.
Terá opiniões políticas extremistas, para não dizer mais.
Disso não tenho muito a dizer.
Nunca tive o que se chama uma opinião política.
De verdade?
Os meus horizontes sempre estiveram limitados ao caminho do meu futuro.
Menos quando penso na minha noiva, claro está.
- Tem alguns inimigos? - Não.
Ocupo uma posição muito modesta.
Como explica esta carta dirigida ao procurador régio?
Deixaram-lha debaixo da porta ontem à noite.
"O Sr. Procurador Régio é avisado por um amigo do trono e da religião"
"de que Edmond Dantès, imediato do Faraó"
"chegado esta manhã após escala na ilha de Elba,"
"é portador duma carta enviada pelo usurpador"
"ao comité Bonapartista de Paris."
"Encontrará essa carta com ele ou na sua cabine."
Reconhece a letra?
Não.
Mas diria que terão disfarçado a letra.
Sim, como na maior parte das cartas anónimas.
Responda-me com franqueza.
O que há de verdade nesta história toda?
Eis a mais pura verdade pela minha honra de marinheiro.
Ancorámos em Portoferraio e o capitão Leclère foi até à ilha.
Lá, o marechal Bertrand deu-lhe uma carta para ele levar a Paris.
Depois o capitão adoeceu e morreu ao largo do cabo Corso.
Antes de morrer, confiou-me essa carta
e fez-me jurar que a entregaria por ele. É tudo.
E cumpriu esse juramento?
Sim.
Estava a cumprir a última vontade dum homem, senhor.
Do meu capitão.
O senhor é culpado mas é de imprudência.
Seja menos tonto na próxima vez,
dê-me a carta e volte para junto da sua noiva.
Estou livre?
Não saia de Marselha. Tenho a sua palavra?
Tem, pois.
A carta, por favor.
O senhores é que a têm, tiraram-me todos os papéis.
É dirigida a um Sr. Noirtier.
Noirtier?
Sim, Noirtier. Rua Coq-Héron, em Paris.
O senhor conhece esse Noirtier?
Não, é claro que não.
Sou um fiel servidor do rei.
Não conheço qualquer conspirador.
Conspirador?
Mais alguém sabia que esta carta vinda da ilha de Elba
era dirigida ao Sr. Noirtier?
Não, salvo quem ma entregou mas está morto.
E diz ignorar o conteúdo.
Como poderia conhecê-lo?
Meu jovem amigo,
pesam sobre si acusações muito graves.
A principal é esta aqui...
... e eu destruo-a.
Depois disto, espero que confie em mim.
Claro. A sua bondade conquistou-me.
Ouça bem os meus conselhos.
Para o libertar, tenho de consultar o juiz de instrução.
Vou conservá-lo aqui no palácio até anoitecer.
Aconteça o que acontecer, não fale da carta a ninguém.
Ela já não existe.
Se lhe falarem acerca dela, negue!
Negue e estará salvo.
Negarei, senhor. Fique tranquilo.
Acompanhe o Sr. Comissário.
Estes soldados todos só por minha causa?
Para onde me levam?
- Em breve saberá. - Não.
Quero saber agora.
É marinheiro, conhece o Castelo de If?
O Castelo de If?
Vão encarcerar-me no Castelo de If?
Aparentemente.
Vamos, tragam-no.
Senhor...
Eu sou a noiva do Edmond Dantès.
O que fez com ele? Responda-me.
O homem de quem a menina fala é um grande criminoso.
Um criminoso?
O Edmond?
Não é possível.
Onde é que ele está?
O paradeiro dele já não é da minha alçada.
Vem, Mercédès.
"Canimus surdis"
Vossa Majestade pode ter razão ao contar com a sensatez da França,
mas creio não estar enganado ao recear uma tentativa desesperada.
Da parte de Horácio?
"Pastor quum traheret"
- Sire... - Estou a trabalhar, Blacas.
Tenho uma nota muito feliz sobre o "Pastor quum traheret".
O Sr. Barão Dandré.
Barão, conte ao Duque de Blacas
o que apurou recentemente acerca do Bonaparte.
Ele imagina que a ilha de Elba é um vulcão
que vai vomitar o Bonaparte aqui.
Sr. Duque, Bonaparte não tenciona dar-se com os locais.
Por ora, ocupa-se apenas dos pastos e das mulas dele
e um bom alimento para os bichos-da-seda.
Não ignoro que paira pelo reino uma espécie de fermentação,
mas isso não me inquieta.
A França não se mede por mil homens.
O Sr. Ministro da Polícia não estará enganado.
Serei eu quem está errado.
- No entanto, Sire... - Sim?
Vossa Majestade poderia interrogar a pessoa de quem lhe falei.
Ouvi-la-ei.
Tem algum relatório mais recente do que este?
Receberei outro a qualquer momento.
Eu saí esta manhã. Entretanto já deve ter chegado.
Deveria ir lá ver.
É só um instante, Sire. Irei num pé e virei noutro.
O meu mensageiro percorreu 220 léguas em posta
apenas em três dias, Sire.
E o Sr. de Salvieux recomendou-me vivamente este jovem Villefort.
Villefort, o substituto?
Sim.
Porque não me disse logo? Conheço-o muito bem.
Trata-se de um espírito elevado, sério...
Ambicioso, acima de tudo.
Para chegar onde quer, sacrificará tudo.
Até mesmo o pai.
Faça-o entrar, por favor.
"Justum et tenacem propositi virum"
Entre, Sr. de Villefort.
Com licença.
O Sr. Duque de Blacas insiste que o senhor
tem uma coisa importante a dizer-nos.
Sire, o exercício das minhas funções permitiu-me saber duma conspiração
que ameaça o trono de Vossa Majestade.
O usurpador armou três navios.
A esta hora já terá deixado a ilha de Elba em direcção a França.
Ele fugiu?
Como soube desses pormenores?
Interroguei pessoalmente um marinheiro, que mantenho sob vigilância.
Ele tinha por missão anunciar o plano aos Bonapartistas de Paris.
Sire...
Sire, um terrível infortúnio.
O que foi?
O usurpador desembarcou no golfo Juan.
Desembarcou?
É um acto de loucura.
Bastarão alguns guardas para fazer justiça.
Parece que ninguém se opôs à marcha dele.
Ele avança em direcção a Lyon por Gap e Sisteron,
onde já deverá ter chegado hoje.
Aí tem o despacho.
Foi-me entregue agora mesmo nos portões de Tulherias.
Eis que Bonaparte marcha sobre Paris.
Temos de o deter. Quem lhe transmitiu o despacho?
- O telégrafo, Sire. - Levou três dias?
De Marselha, o marechal Masséna enviou um correio a Lyon,
que é até onde chega o telégrafo.
E aqui o Sr. de Villefort é mais rápido pela estrada
do que o seu correio e o seu telégrafo!
Sire, foi uma fatalidade.
Foi incapacidade, senhor! E inépcia!
Tem razão.
Também se pode chamar a isto uma fatalidade.
Mas o senhor, que é um simples magistrado de Marselha,
sem agentes, informantes, espiões, nem financiamentos secretos,
sabe mais do que você e toda a polícia!
Sire, eu só aproveitei um acaso enquanto servidor dedicado.
Instalou-se com certeza em casa do seu pai?
Não, Sire.
Estou no hotel de Madrid.
Mas irá vê-lo, ao menos?
Não tenciono fazê-lo, Sire.
Esquecia-me de que não estão de boas relações.
Tenho de recompensá-lo
por este novo sacrifício pela causa monárquica.
Não o esqueceremos, esteja tranquilo.
Entretanto, aceite esta cruz da Legião de Honra.
Quais são as ordens que me dá Vossa Majestade?
Descanse o tempo que precisar
e regresse a Marselha, onde me será muito útil.
Sire, dentro de uma hora terei deixado Paris.
O senhor entrou com o pé direito.
A sua sorte está lançada.
O número 34 está cá há um ano e meio.
Tentou matar este chaveiro.
É um autêntico demónio.
- Quer apresentar queixa? - É inútil.
Acredite na minha experiência.
Mais um ano e terá enlouquecido de todo.
Tanto melhor para ele, sofrerá muito menos.
Vou entrar para vê-lo.
Sou inspector, tenho de inspeccionar.
Vamos.
Quem é o senhor?
O Sr. de Boville é inspector-geral das prisões.
Então, o senhor é a justiça em pessoa.
Tenha piedade dum miserável que lhe implora em nome de Cristo.
Ao seu louco furioso agora deu-lhe para a devoção.
O que tem a pedir?
Peço me digam que crime cometi, senhor.
Peço que me dêem juízes.
Peço que o meu processo seja instruído.
Que me fuzilem se for culpado.
É bem alimentado?
Isso pouco importa.
O importante para mim, para a justiça e para o rei
é que nenhum inocente morra enterrado vivo
a amaldiçoar os carrascos.
Meu caro amigo,
tentou agredir o seu guarda, pelo que contaram.
Prenderam-me sem motivo!
Estava louco de fúria.
E já não está mais?
O cativeiro aniquilou-me.
Há uma eternidade que estou aqui.
Faz apenas ano e meio.
Apenas ano e meio?
Não são apenas 17 meses.
O senhor não sabe o que são 17 meses de prisão.
17 meses para um homem habituado ao ar do mar,
ao espaço, ao infinito.
Ia casar com a minha amada, assumir o comando dum navio.
Nesse dia maravilhoso fui lançado na mais terrível escuridão
sem ir a tribunal!
Sem julgamento.
Sem saber se ela ainda me ama.
Sem saber se o meu velho pai ainda está vivo.
Eu não peço por clemência, senhor!
Apenas juízes.
Não se pode recusar juízes a um acusado.
Compreendi.
Vou examinar o seu processo, prometo.
Então, estou salvo.
Obrigado, senhor.
Pobre diabo...
Há-de mostrar-me o registo prisional dele.
Claro, Sr. Inspector-Geral.
Agora temos um espécime pitoresco que deverá animá-lo.
Quero dizer, interessá-lo. Trata-se de um louco autêntico.
Absolutamente autêntico.
O número 27,
conhecido como abade Faria, dirigente dum partido italiano.
Está cá desde 1811.
E qual é a sua loucura?
Julga-se possuidor de um tesouro imenso.
Oferece milhões ao governo pela sua liberdade.
Mais um milhão a cada ano que passa.
Se as minhas contas estão certas, deverá oferecer-lhe seis.
Aqui tem o registo do número 34.
"Edmond Dantès. Bonapartista convicto."
"Tomou parte activa no regresso da ilha de Elba."
"Manter no maior sigilo e sob a mais rigorosa vigilância."
Esta nota foi adicionada pelo juiz de instrução.
Qual juiz?
O Sr. de Villefort.
Esse Villefort já tem atrás de si uma bela carreira.
Apesar de ter só 28 anos foi nomeado procurador.
Parece que é tido em alta estima em Tulherias.
Mas diga-me...
Vejamos, já fazem...
... 17 meses.
Isso quer dizer que o Edmond Dantès
foi preso na véspera do regresso do usurpador, certo?
Sim, efectivamente foi em 26 de Fevereiro de 1815.
Normalmente deveria ter saído da prisão
assim que Napoleão chegou a Paris.
Sei que o Sr. de Villefort permaneceu aqui por cem dias
e se não decidiu libertar o Dantès, deverá ter tido fortes motivos.
Pois.
A acusação é demasiado grave e segura para ser discutida.
Nada a fazer.
- Alguma novidade para mim? - Não trouxeram nada.
Fazem seis meses que o inspector me visitou.
Deve ser um caso muito especial.
É Domingo, almirante!
Estou a falar contigo.
Estás doente? Queres que chame um médico?
Se não queres dizer nada, nada posso fazer por ti.
Meu Deus...
Quem fala de Deus?
Quem?
Falai.
Falai de novo.
Quem sois vós?
E vós?
Sou o prisioneiro número 34.
Há quanto tempo estais aqui?
Desde 26 de Fevereiro de 1815.
E vós?
Eu sou o número 27.
Para onde dá a sua cela?
Para uma passagem coberta.
E ali são galerias abaixo do nível do mar.
Tanto trabalho para nada. Enganei-me.
Achei que esta fosse a parede da fortaleza.
- Queria chegar ao mar? - Sim.
Para fugir a nado.
Não teria tido forças.
Teria pois.
Sou mais forte do que pareço.
Tanto tempo perdido.
Parece-me impossível fugir da sua cela.
Impossível.
- E então? - Belo trabalho.
Levei quatro anos a escavar
com o auxílio destas ferramentas.
- Ferramentas? - Sim.
Levei dois anos a fazê-las.
Tenho tudo, menos uma lima.
Fiz um escopro com o pé duma cama,
um alicate
e uma alavanca.
Ajude-me.
O meu tesouro.
O que é?
O meu tratado sobre a possibilidade
duma monarquia geral e única na Itália.
Terminei há oito dias.
E o papel?
Bastaram duas camisas.
Inventei um preparado que deixa o pano liso
e compacto como o pergaminho.
O senhor é um químico.
Um pouco, talvez.
Correspondi-me com Lavoisier e privei com Cabanis.
Eu sou o abade Faria.
Nasci em Roma.
Fui durante vinte anos secretário do cardeal Rospigliosi.
Tinha à minha disposição uma biblioteca com cerca de cinco mil volumes.
À força de os ler e reler, dei-me conta
de que com 150 obras bem escolhidas
se obtém a totalidade do saber.
Sabia perto de 150 volumes de cor quando me prenderam.
E escreveu com tinta e pena?
Não.
Com fuligem
misturada com vinho que nos dão aos Domingos.
As penas.
Fi-las com as cartilagens das pescadas horríveis
que nos servem às Sextas. E para lhes dar forma...
Aqui está o canivete. É a minha obra-prima.
Fi-lo com um velho castiçal de ferro que encontrei aí num canto.
Para me alumiar, gordura
das abomináveis refeições de Domingo
das quais só cozinheiro do Castelo de If sabe o segredo.
Fui guardando-a.
Poupei o meu estômago e fiz esta vela
que acendo com estas duas pedras
e com esta torcida.
Muito bem.
O que teria feito se tivesse permanecido em liberdade?
Nada, talvez.
É necessária a desgraça para se desenvolver a inteligência
e fazer nascer o engenho.
O procurador foi muito bondoso. Caloroso, até.
Ia voltar para a minha noiva nesse mesmo dia.
Depois de anoitecer, uns guardas levaram-me ao porto
e trouxeram-me num barco para aqui.
Se quiser descobrir o culpado, como diz um axioma de direito,
procure quem beneficiaria com o crime.
Quem poderia beneficiar com o seu desaparecimento?
Ninguém.
Todos gostavam muito de mim a bordo do Faraó.
- Alguma querela a bordo? - Não.
Ah sim...
Com quem?
Com o guarda-livros, Danglars. Mas ele já tinha esquecido.
Uma vez promovido a capitão
conservaria esse Danglars no seu posto?
Creio que não.
Poderia ele ter ouvido as últimas palavras
do capitão Leclère sobre a carta do grande marechal Bertrand?
É possível.
O Danglars é indiscreto por natureza.
Estamos na pista correcta. Segunda pergunta...
Havia alguém interessado
em que não se casasse com a Mercédès?
Sim.
Um jovem catalão chamado Fernand Mondego.
Acho que ele seria incapaz de escrever a carta.
Ele conhecia o Danglars?
- Sim. - Ora aí está!
Na véspera do meu casamento, vi-os na taberna do velho Pamphile
com um vizinho do meu pai, o alfaiate Caderousse.
Espere. Como não me lembrei disto?
Na mesa onde bebiam, o Danglars fazia contas,
tinha um tinteiro e papel.
"O Sr. Procurador Régio é avisado"
"por um amigo do trono e da religião"
"de que Edmond Dantès..."
Foi assim que tudo se passou. Foi ele!
Foi o Danglars quem escreveu a carta!
Passemos a outra coisa.
- Quem o interrogou? - O substituto do procurador régio.
Mas ele tratou-me com modos muito afáveis.
- Até ao final do interrogatório? - Sim.
Quando viu o que me comprometia...
... pareceu mais sombrio.
Mas logo me deu uma grande prova de simpatia e queimou a carta.
Queimou?
Na lareira.
A quem era endereçada?
A um senhor... Noirtier.
- Na rua Coq-Héron, em Paris. - Noirtier?
Em tempos, conheci um Noirtier em Piombino.
Funcionário do império, fora girondino durante a Revolução.
Era um feroz Bonapartista.
- Como se chamava o seu substituto? - Sr. de Villefort.
Que idade tinha?
Entre 25 e 30 anos.
O Noirtier de quem lhe falei,
a quem era dirigida a carta do grande marechal Bertrand,
chamava-se não só Noirtier
mas Noirtier de Villefort.
É certamente o pai desse honesto magistrado
que lhe demonstrou tanta...
... simpatia.
Os infames!
O que tem?
Um mal terrível vai-me atacar.
Já me atacou uma vez.
Retire a barra dos pés da minha cama.
No pé direito.
Tire o frasco que está lá dentro.
Depressa, deite-me o conteúdo na boca.
Está salvo!
À terceira vez, ficarei paralítico
ou morro.
Se ninguém me socorrer...
Juro que jamais o deixo!
Será recompensado pela sua generosidade, meu filho.
A partir de hoje,
metade do meu tesouro pertence-lhe.
Sim, eu sei o que está a passar-lhe pela cabeça.
Há mais de quinze anos que estou preso,
mas eu não estou louco. O tesouro existe.
Um dia pertencer-lhe-á.
Conhece a ilha de Monte-Cristo?
Numa gruta dessa ilha
esconde-se toda a fortuna de um dos mais nobres
e mais ricos romanos da época dos Borgia,
o cardeal Spada.
Como soube da existência desse tesouro?
O último conde de Spada a morrer
legou-me o breviário do cardeal,
o breviário que ele tinha na prisão.
Quando o lia encontrei este papel
coberto por uma escrita feita com tinta invisível
que acidentalmente fiz surgir.
É feita com sumo de limão.
O testamento do cardeal?
"Neste dia 23 de Abril de 1498"
"enterrei na gruta da pequena ilha de Monte-Cristo"
"tudo o que possuí em lingotes de ouro, moedas, jóias e pedras"
"e que montará a cerca de dois milhões de escudos romanos."
Em 1807 isso correspondia a 13 ou 14 milhões de francos em ouro.
"Para encontrar este tesouro é necessário levantar a vigésima rocha"
"a partir da pequena enseada no lado leste, em linha recta."
"Foram feitas duas aberturas nessas grutas."
"O tesouro está no canto mais afastado da segunda."
O Edmond agora também precisa de saber este texto de cor.
Vamos, diga a sua lição.
Foram feitas duas aberturas nessas grutas.
O tesouro está no canto mais afastado da segunda.
Nesta parte da ilha.
Isso não passa duma quimera.
O tesouro não será mais meu do que seu.
Um dia tê-lo-á.
E o que importa?
O verdadeiro tesouro
é tê-lo comigo o máximo de tempo possível.
Tê-lo ouvido fez de mim outro homem.
Pois vou repetir-lhe e até mesmo vaticinar...
Quando eu tiver partido, há-de recuperar a liberdade.
Se esse dia chegar,
graças a si, farei coisas grandiosas.
Desta vez, meu filho, acabou-se.
Não!
Vou salvá-lo como da outra vez.
Meu pai...
Fuja, meu filho.
Fuja, senão eu sofro.
Monte-Cristo.
Não se esqueça.
Monte-Cristo.
Usufrua...
... da sua fortuna.
Precisamos de nos assegurar que está morto.
Garanto-lhe, senhor.
Mas é necessário cumprir as formalidades prescritas na lei.
- Complete o trabalho. - Pois não, senhor.
Ainda é pesado para um velho tão magro.
Deve ser o peso do tesouro que tinha na cabeça.
Ei!
Ei, ó do barco!
Ó do barco!
Está um homem no mar!
Virar de bordo!
Quem és tu?
Um marinheiro...
... de Malta.
Pareces mais um salteador do que um marinheiro
com essa barba e essa trunfa.
Isto é...
... uma promessa que fiz a Nossa Senhora del Pie de la Grotta.
Sou devoto.
Bem...
Vamos para Liorne.
Conheces a rota?
É para lá.
Evitamos a ilha de Rion.
Percebes do ofício.
Passa-se alguma coisa no Castelo de If.
É um canhão de alarme.
Foi algum prisioneiro que fugiu.
À saúde do fugitivo.
Em Monte-Cristo há imensa caça.
Vou arranjar um belo jantar.
Levantamos âncora às seis horas.
Eu vou contigo.
Maltês!
O que aconteceu?
Caí mal e devo ter partido alguma coi...
- Eu levo-te para o barco. - Não.
Se tiver de me levantar, prefiro morrer.
Chefe!
Ele não quer que o levemos para o barco.
Então, Maltês? Não podemos abandonar-te aqui.
Vamos buscar de comer e beber.
Só partimos de noite.
Até lá, melhoras.
É muito simpático, capitão, mas não posso atrapalhá-los.
Fui imprudente e devo pagar por isso.
Não vos posso atrasar na entrega duma carga que vale 600 piastras.
Deixem-me uns biscoitos, água e munições...
... e partam.
- Eu fico contigo. - Não.
Jacopo, eu não preciso de ninguém.
Desembaraço-me sozinho, sei de umas ervas que curam.
Podem vir apanhar-me no regresso da Córsega.
Serão pelo menos oito dias.
Irão encontrar-me de pé.
Foi o que te disse.
O que lhe disseste?
Que não és um homem que fale de ânimo leve.
Faria...
Tradução e Legendagem LAPORT INC.
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