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UM BARCO PARA A �NDIA (1947)
Sally?
Sally!
Perd�o. Parece uma garota que conhe�o que se chama Sally.
- Pare�o? - Estive fora por sete anos.
Quando pensamos numa pessoa, esperamos encontr�-la logo.
- � mesmo? Que estranho. - N�o sou louco, pode ter certeza.
Desculpe-me. N�o vou incomod�-la mais.
Que pena.
Acho que parou de chover.
- O tempo est� abrindo. - Vamos nadar no mar.
- S� voc� e eu. - Vamos deixar os outros a�.
- O que o marujo est� pensando? - N�o quero nada hoje.
- Voc� n�o � Johannes? - Sim, sou.
N�o reconhece a velha Sofie?
Minha nossa, � mesmo a velha Sofie! Como n�o a reconheci!
- Eu o reconheci de imediato. - Por causa das minhas costas?
Bobo! Venha tomar um caf�. S� estou eu e a Selma.
- N�o quero incomod�-lo... - N�o � inc�modo nenhum.
J� encerrei o trabalho por hoje e Selma nunca sai. Ela tem reumatismo.
E ela � t�o jovem! Eu sempre disse: "N�o saia muito cedo na primavera!".
Como o rapaz cresceu!
Sim. E como ele fica bonito com este uniforme.
- E est� bronzeado e saud�vel. - � um prazer olhar para ele.
Nada mudou por aqui.
E voc� tamb�m n�o mudou.
Minhas costas n�o parecem mais retas?
- Sim, parecem. - Que impressionante.
H� sete anos, eu tinha uma corcunda. Pelo menos, achava que sim.
- Agora pare�o s� ter ombros ca�dos. - Nem d� para perceber.
Provavelmente, isto tem algo a ver com a sua alma.
Voc� n�o imagina como est� certa.
- Ent�o, Sofie, onde est� o caf�? - J� est� saindo.
Que bom que compramos muitos biscoitos!
- Quem mora l�? - Uma mo�a. � tempor�rio.
- Ela deve estar dormindo. - Talvez dev�ssemos falar baixo.
- Ela j� est� doente h� um tempo. - O que ela tem?
N�o sei. Ela diz que est� doente, mas parece saud�vel.
Acho que ela n�o gosta muito da vida.
- Sabe o que � isso? - N�o. Deixe-me ver.
Escrevi isso quando tinha sete anos. E voc� ainda guarda?
Posso ler para voc�?
"A Selma � t�o grande e alta, o que ela mais gosta � limpar.
Corre atr�s de criaturas grandes e pequenas.
Mora com Sofie aqui do lado.
� como uma m�e para todos n�s".
O que � essa algazarra?
- N�o consigo dormir. - Beba uma x�cara de caf�.
- Eu n�o quero. - Fique � vontade.
� t�o malvada, Sofie. Ah, se voc� tivesse uma vida como a minha!
- Venha se sentar. - Eu disse n�o!
Ignore-a, vai voltar a dormir. Parece que ela caiu da cama esta noite.
- Quem � ela? - Voc� a conhece.
- Sofie! - Dever�amos contar para ele.
Eu sei.
- N�o fique triste. - Eu n�o estou triste.
� a vida. Alguns t�m sorte, outros n�o.
- N�o � mesmo, Sofie? - Claro.
Essa garota nunca pareceu capaz de tomar uma decis�o.
- Eu era apaixonado por ela. - Sabemos disso.
Ela sempre achou que apareceria um rico, por isso ignorou voc�.
N�o esque�o que ela foi muito importante para mim.
Acho que devo ir l� v�-la.
Sei que isso � bobo e sentimental...
mas pensei nela todos os dias em que estive fora.
N�o o reconheci de imediato.
S� o reconheci um pouco depois.
Mas n�o achava que as fofoqueiras fossem lhe contar que era eu.
� bom v�-lo.
Voc� parece que est� desabrochando.
Esta noite teve muita trovoada.
Mas limpou o c�u um pouco.
Ainda est� quente.
Talvez eu d� uma sa�da.
Faz muito tempo.
Sete ou oito anos, acho.
E voc� passou bem?
Voc� est� exatamente igual.
Seu pai morreu ano passado, mas provavelmente sabe disso.
- N�o, eu n�o sabia. - Ele morreu de pneumonia.
- E a minha m�e? - N�o sei.
Vai visit�-la?
- N�o posso. Vamos partir de manh�. - Vai partir?
E como voc� est�?
Eu?
Um pouco exausta no momento, mas, de modo geral, muito bem.
E, em breve, estarei rica de verdade.
Coitada.
N�o preciso de sua piedade! V� embora!
- J� vai embora? - Aquela garota estragou nossa noite.
- Seria melhor que tivesse morrido! - Isso n�o se fala.
- N�o vai ficar mais um pouco? - N�o, obrigado, vou dar uma volta.
- Nos vemos uma noite dessas. - Tchau.
Devo voltar �quele dia, h� 7 anos, quando tudo come�ou.
Morava com meus pais num barco de salvamento.
Devo voltar �quele dia de ver�o, na casa de m�quinas...
quando ouvia a tripula��o tirando sarro de meu pai.
Preciso pensar em tudo para me livrar disso, de uma vez por todas.
Para me livrar de tudo que me machuca.
- Est� afundando de um lado de novo. - Esse maldito capit�o Blom...
Tr�s dias de trabalho jogados fora.
Tudo por que o capit�o Blom est� na cidade, enchendo a cara.
Ele nunca fazia isso.
- O que est� fazendo? - Estou pensando.
- Para quem est� escrevendo? - � Secretaria da Sa�de.
Quero saber por que cancelaram meus cupons de alimenta��o.
Que situa��o!
- Esse maldito capit�o Blom... - Fa�a alguma coisa, ent�o!
- Se ele n�o vier amanh�, vou embora. - Voc� n�o teria coragem.
� preciso usar margem para escrever � Secretaria?
Se continuar assim, n�o receberemos dinheiro algum.
Por que n�o falamos com o Johannes?
Seu pai bate no corcunda assim que ele come�a a falar.
Pod�amos ao menos falar com ele.
Johannes?
- Qual � o problema? - Nada.
- Algu�m foi malvado com voc�? - Por qu�?
Voc� partir� em breve. S� tem algumas semanas.
- Nunca partirei. - Claro que ir� partir.
Meu pai vai me impedir de alguma maneira.
- Vou ajud�-lo. - A senhora?
- Acha que n�o consigo? - N�o consegue dobr�-lo.
- Ele n�o � t�o ruim quanto imagina. - Ele a trata ainda pior.
- Estamos casados h� 25 anos. - Ele n�o liga para n�s.
Ele iria embora, se pudesse. Devia ouvir como os homens falam dele.
- O que voc� quer? - Queremos perguntar...
Devemos come�ar a resgatar o barco afundado sem o seu pai?
Sen�o, perderemos nosso sal�rio...
e tanto eu como Pecka temos fam�lias para sustentar.
Podemos come�ar imediatamente, sem o capit�o.
Voc� poderia ser nosso comandante e liderar a opera��o...
- O velho vai ficar furioso. - Se nos unirmos, ele n�o far� nada.
- Ele est� com as chaves. - Podemos quebrar o cadeado do motor.
Est� bem.
- Johannes! Pense bem nisso. - Pode apostar que estou pensando.
O velho ver� como os outros podem fazer o trabalho t�o bem quanto ele.
Essa � legal.
Vou compr�-la. Vou pag�-lo bem por ela. Aqui est�.
Ah, voc� quer mais?
Fique com a sua boca suja calada!
Vamos, rapazes.
Meu nome � Alexander Blom, e voc� vai ficar calado!
O qu�? Estou no teatro, deixe-me em paz!
Que diabos? Voc� est� louco?
Se tem algo para me dizer, volte outra hora!
- Est� fazendo muito barulho. - N�o estou?
- � melhor voc� sair. - Por qu�?
- Os policiais v�o chegar logo. - Eles sempre t�m que estragar tudo.
- Voc� � louco. - Essa � uma possibilidade.
Venha comigo.
- Qual � o problema? - Eu n�o sei... meus olhos.
- Seus olhos? - Isso acontece �s vezes.
- Talvez tenha recebido um soco a�. - Talvez.
- Vai voltar logo? - N�o vou demorar desta vez.
Sally!
- O que voc� quer? - Perguntar como voc� est�.
Estou bem.
- Foi a um m�dico? - Sim, fui.
- Est� tudo em ordem? - Sim. Est� tudo bem.
� grave?
Tem a ver com algum nervo e um fluido que est� secando.
Ent�o, tudo ficar� escuro.
- Quando isso acontecer�? - Ele n�o pode dizer.
Na minha opini�o, ser� em breve.
O que voc� far�?
- A pior coisa n�o � ficar cego. - N�o, n�o �.
- � nunca ter visto nada. - Como assim?
Vou resgatar aquele barco...
e depois deixaremos este lugar, voc� e eu, iremos para bem longe.
- Adoraria isso. - Tem certeza?
J� viu o diretor do show de variedades? Quando ver, entender�.
Quero lhe mostrar uma coisa.
Esta fotografia � do Taiti. V� as palmeiras?
Aqui � o Ceil�o, uma ilha perto da �ndia. H� palmeiras l� tamb�m.
Este � um peda�o de pele de tubar�o seca. E veja isto!
Estes s�o corais e conchas marinhas das Ilhas do Pac�fico.
Coral rosa e branco e conchas de v�rias cores e tamanhos.
Esta � azul claro.
E esta muda de cor de acordo com a luz.
Ou�a!
- Est� assobiando. - Isso mesmo.
� o mar que assobia dentro dela.
Posso ficar horas ouvindo esta concha.
Toda vez que ou�o uma concha � como se uma voz me sussurrasse...
e me dissesse para n�o ficar aqui, navegar novamente.
E, todas as noites, as vozes ao meu redor ficam mais claras.
Fique com ela.
- Posso ficar com ela? - Falar� a voc� com a mesma clareza.
Eu sei disso. Anseia por algo novo tamb�m.
Sim, anseio por algo novo.
Pronto!
- Pronto! - J� era hora.
- O barco tinha afundado muito? - Deve dar um bom trabalho.
- Est� pronto? - Tente a bomba e ele pode mergulhar.
Desde que o barco n�o fique numa posi��o pior.
Foi dif�cil colocar as correntes sob o barco ontem � noite.
- O barco deve ter afundado de novo. - Mova aquela corrente at� a popa.
- Eu consertei a v�lvula. - Est� pronto?
� estranho ouvir a bomba quando o Blom n�o est� aqui.
Ent�o � isso?
Ent�o � isso? Mas n�o pode ser t�o estranho agora...
j� que o maldito capit�o Blom est� aqui.
N�o � isso, Pecka? Estou aqui ou n�o?
- Responda! - O capit�o est� aqui.
Diga: "aquele maldito capit�o Blom est� aqui".
Aquele maldito capit�o Blom est� aqui.
O Sr. Pecka poderia desligar a bomba? Est� me incomodando.
Papai?
O que um imediato quer de um homem que n�o cuida do pr�prio barco?
- O barco n�o para de afundar. - Que vergonha.
- N�o entende... - N�o grite. Temos companhia.
Comportem-se, senhores. H� uma convidada no barco.
Sally!
Este � o meu garoto. Meu rapaz. O imediato do barco.
N�o vai cumprimentar a dama? Seu nome � Sally.
N�o vai cumpriment�-la?
Prazer.
Eles n�o est�o acostumados a ver pessoas, sobretudo mo�as.
- Alexander disse que se chama Johannes. - Que Alexander?
Eu sou o �nico Alexander a bordo.
� divertido ficar sob a �gua e ver o peixe nadar?
N�o � educado ignorar uma dama quando ela faz uma pergunta.
� divertido ou n�o ficar sob a �gua e ver o peixe nadar?
Sim, � divertido ver o peixe nadar.
Ouviu isso, Sally? Ele diz que � divertido.
- Esta � a Sally. - Prazer.
- Sally vai ajud�-la. - Mas eu n�o preciso de ajuda.
- Assim, ter� menos para fazer. - Eu n�o entendo.
- Farei o melhor que posso. - Essa � a ideia.
Voc� fica com o beliche de Johannes. Ele ficar� com a tripula��o.
E se eu n�o ficar?
Voc� vai ficar.
Os beliches deles s�o grandes o bastante para voc� e sua corcunda.
Johannes!
Fique calma, mam�e. Um dia ele vai pagar.
- Que horas s�o agora? - Deve ser quase tr�s da tarde.
- Consegue cuidar disso sozinho? - Sem problema. Tchau.
- Para onde voc� estava indo? - Para a cidade.
- Para fazer o qu�? - Sabe o que farei.
Prometeu-me que eu poderia ir hoje � cidade pegar meu passaporte.
- N�o me lembro disso. - Pergunte � mam�e, ela estava l�.
Alice! Venha aqui.
Ele n�o prometeu que eu poderia ir � cidade pegar meu passaporte hoje?
- N�o pode ir outro dia? - Eu lhe disse, ser� muito tarde.
N�o podemos dispens�-lo hoje. Precisamos resgatar o barco logo.
- Por que essa pressa repentina? - Isso n�o � da sua conta!
- Vou pegar o barco das tr�s horas. - Que interessante.
- Se prometeu para ele... - N�o prometi. Ningu�m perguntou, saia.
Limpe seu rosto e suba. N�o vamos discutir mais.
N�o! N�o pode me obrigar! N�o estragar� essa oportunidade!
Estrag�-la?
Sim. Voc� estraga tudo para mim!
- Um dia desses, vou me afogar. - Para que tudo isso?
Imagino que queira ser um marujo. Um imediato ou at� um capit�o.
Imagino que saiba como navegar. E agora est� indo para o mar...
Antes precisa aprender a ficar calado, o que � crucial no mar.
Disciplina, fazer o que mandam...
mas ainda quer ser tornar um imediato ou at� um capit�o.
- Que sorriso falso. Poderia lhe bater. - Johannes!
- Vai pagar por isso. - Que garoto educado voc� criou, Alice.
- Ele sabe como falar com o pai. - J� chega!
Acha que ele me bateria? Estou esperando, mas n�o acontecer�.
Sabe o que eu acho, Alice? Acho que ele � muito medroso e fraco.
Talvez esteja preocupado que seu pai revide. Nosso futuro capit�o!
- Tente se acalmar, Johannes. - Concordo totalmente.
Seque suas l�grimas e quando subir n�o falaremos mais nisso.
Seu desgra�ado. Vou lhe mostrar!
J� n�o chega eu ter de ver voc� e sua maldita corcunda todos os dias.
- Agora tenho que ouvir suas besteiras! - Seu desgra�ado...
Tenho sido paciente com voc� porque tenho pena, mas chega!
Beba.
Eu disse beba!
N�o? Ent�o, eu vou beber.
- Voc� est� b�bado. - Sim, estou.
Voc� � muito bonita. Deve ser bom ser bonito.
Sabe que � bonita, n�o sabe?
- Deve me achar repugnante. - Por que eu acharia?
Mam�e me perguntou sobre garotas e eu disse que era muito seletivo.
Mas se aparecesse uma garota corcunda, eu ficaria louco.
Sally, o que est� fazendo aqui? N�o h� um homem para cuidar de voc�?
- N�o h� um homem com quem dorme? - N�o � da sua conta!
Por qu�? Eu poderia ser seu homem. Gostaria de dormir comigo?
- N�o me toque. - Voc� � t�o bonita.
- E eu sou uma aberra��o. - N�o diga isso!
N�o sou uma aberra��o? Se diz que eu n�o sou, est� mentindo.
Ningu�m tem uma corcunda maior.
Olhe para ela e depois me diga que dormiria comigo.
- Diga que sou uma aberra��o! - Deixe-me em paz.
Diga que sou uma aberra��o!
Sim, voc� � uma aberra��o.
Bom.
� bom ouvir a verdade.
N�o! Deixe-me em paz!
Largue-me!
Johannes, largue-a!
- Est� doente? - N�o, por qu�?
Pensei que estivesse de ressaca, pois bebeu meu conhaque.
- Hans prometeu restitu�-lo para mim. - Que gentil da parte dele. Est� bem.
O tempo amanh� parece que vai ser bom.
Como foi ontem. Imagino como ser� depois de amanh�?
Ou semana que vem ou daqui a dez anos.
- Algu�m quer mais? - Faz um bom mingau, Alice.
Sim, a Alice n�o tem defeito.
- Se eu n�o a tivesse... - Ent�o como seria?
Nada.
Hans, voc� � sempre t�o tagarela. N�o tem hist�rias engra�adas?
N�o.
- Tenho coisas para pensar. - Como o qu�, posso saber?
Penso em voc�, por exemplo. Agora que se tornou um velho ignorante...
este ser� o �ltimo barco que resgatamos juntos.
Isso quer dizer que pensamos a mesma coisa. Que estranho.
- Boa noite. - Boa noite.
Lembra quando Johannes era crian�a e s� o Hans nos ajudava?
Us�vamos uma bomba manual e Hans e eu nos altern�vamos na bomba.
Resgat�vamos barcos pequenos e bens naufragados.
Us�vamos equipamentos ruins e �ramos jovens. Voc� se lembra?
Eu bombeava ar em seus pulm�es...
para mant�-lo vivo na �gua sob mim.
Era como se eu lhe desse vida cada vez que eu girava a manivela.
Voc� se lembra? Tempos bons aqueles.
N�o posso mudar as coisas, Alice.
E o que restou para mim? 25 anos...
eu n�o tenho mais energia.
Estou ficando velha.
Eu tentei, Alice. Eu juro que tentei.
N�o entendo bem o que voc� quer dizer.
Eu n�o tinha uma vida antes de conhecer voc�.
Meu amor por voc� me deu a for�a para passar pelas dificuldades.
- Sua alegria era a minha alegria. - Eu sei.
N�o acho que as pessoas devam tentar mudar as coisas...
ou voltar atr�s. Apenas nos perdemos.
N�o vou voltar atr�s.
Consegue encontrar o caminho entre nossos 25 anos...
dias, noites, horas, minutos e segundos e n�o se perder?
Minha vida n�o acabou. Ainda n�o.
Estamos nos distanciando. Minhas palavras n�o o atingem e vice-versa.
Preciso lhe dizer algo.
- Estou ficando cego. - Sim, eu sei.
Em um ou dois meses. Um ano no m�ximo.
Eu sei.
Vou embora e estou levando a Sally comigo.
Estou exigindo da vida tudo aquilo que n�o tive antes.
Voc� entende?
Sim.
Sally � uma grande parte do que eu n�o tive. Entende?
Sim.
Sally e eu vamos para bem longe daqui.
- Sim. - Precisa tentar entender.
- O que acontecer� depois disso? - Acontecer?
Nada.
Nunca mais voltar�?
N�o.
- O que acontecer� comigo? - Receber� uma pens�o da companhia.
Vai ganhar um chal� em terra firme. Este sempre foi o seu sonho.
- Meu sonho era viver l� com voc�. - Tente entender.
- Ol�. - Ol�!
- Ou�a... - Sim?
- Sobre ontem � noite... - Sim?
Podemos esquecer isso?
- Eu entendi voc�. - Entendeu?
Que bom.
- Voc� tem seus problemas. - Acho que tenho.
Olhe!
�frica, Estados Unidos, �ndia.
Voc� n�o sabe como � a �frica.
Chegando � noite, devagar, ap�s passar meses no mar.
Chegando � noite em um porto repleto de luz.
A �gua escura e calma...
e o ar tem um cheiro diferente daqui. Tem um cheiro selvagem.
Que deixa a gente louco.
- Como sabe tudo isso? - Li em livros.
E os negros o encaram com seus olhos brancos.
Voc� ouve idiomas que n�o compreende.
As pessoas s�o negras e n�o brancas.
Tudo � novo e diferente.
Estranho. Nunca o ouvi falar tanto antes.
- Posso lhe mostrar algo na costa? - Sim.
- Subo aqui de vez em quando. - Fica aqui sentado sozinho?
- N�o, n�o fico. - Quem voc� traz para c�?
Imagino algu�m com que possa falar...
sobre o que penso e sonho.
- O que voc� mais quer? - Me livrar da minha corcunda.
N�o � uma corcunda. Voc� s� tem ombros ca�dos.
N�o...
- notei uma coisa. - O que foi?
- Seus olhos. Eles parecem tristes. - Parecem?
- Me faz imaginar por que est� triste. - Eu n�o sei.
Talvez seja por que eu nasci na pobreza. Tanto minha como dos outros.
- N�o deve desistir. Eu nunca vou. - Sei que n�o vai.
Mas sou um pouco pregui�osa e indiferente. Voc� n�o � assim.
Vou me livrar de todos meus problemas. Voc� s� precisa se decidir.
Eu nunca me decido.
Voc� ama meu pai?
- Por que voc� pergunta? - N�o � muito divertido para minha m�e.
- Deseja que eu n�o estivesse aqui. - Eu gosto de t�-la aqui.
- Mas minha m�e n�o gosta. - N�o se preocupe, n�o amo seu pai.
H� outra pessoa?
N�o, n�o h� ningu�m.
O que voc� fazia antes do show de variedades?
Era pobre. T�o pobre que decidi fazer algo para mudar, do meu jeito.
- Que jeito � esse? - O que voc� acha?
- Isso d� um bom dinheiro? - Claro que d�.
Mas nos endurece. Voc� para de se preocupar com os outros.
Ainda acredito que h� algo bom e verdadeiro.
Acredita? Bem, voc� ver�.
Olhe para mim.
Eu sou bem atraente.
Mas n�o tenho nada, n�o sou nada, n�o sei nada.
Imagine ser um rico me vendo e pensando: "quero essa garota!"
Imagine que me pergunta: "Quanto �, senhorita?"
E que respondo: "Um bom emprego. Um bom sal�rio e pouco trabalho.
Um casaco de pele e um cachorro para o ch�o da minha sala de visitas".
- Isso � nojento! - Pode dizer isso, n�o � esse homem.
Acho esse acordo correto e honroso. E combina com meu estilo.
Acha que n�o sou melhor do que uma puta qualquer, admita!
- Quer me bater. Fa�a isso! - N�o se importa com o que penso.
Eu realmente me importo com o que voc� pensa.
� a primeira pessoa a ser gentil comigo sem querer nada em troca.
Se eu conseguisse me apaixonar por algu�m, me apaixonaria por voc�.
N�o entende o que est� dizendo. Voc� est� louca.
Estou totalmente louca. As pessoas n�o podem ser loucas �s vezes?
Sempre fui sozinho. Ningu�m nunca se importou comigo.
As pessoas n�o deviam ficar sozinhas.
Precisa cuidar de algu�m. Precisa de algu�m para amar.
De outra forma, poderia estar morto.
Deve ser hora do caf� da manh�. Estou morto de fome. Venha, Sally.
Bem, estou surpreso...
N�o est� me ouvindo? Sou eu, Alice.
Por favor, abra a porta. Precisa comer.
Trouxe seu caf� da manh�. Abra!
- Qual � o problema? - N�o aguento mais.
- Vai passar. - N�o tem mais jeito.
- Johannes fez bem em revidar. - Nunca � certo revidar.
Imagine s� se eu tivesse revidado todas as vezes que apanhei.
- Ent�o, n�o estaria t�o cansada. - Tem de aceitar como as coisas s�o.
N�o. N�o precisa aceitar nada.
N�o precisa ser como um animal que as pessoas batem at� a morte.
Era diferente. Quando Blom e eu �ramos jovens.
- Mas depois veio o Johannes. - E as coisas mudaram?
- N�o para mim. - Mas para Blom?
Ele n�o suportava o menino. O fato de ele ser deformado.
Tinha de proteg�-lo para que Blom n�o o chutasse, como um c�o.
�s vezes, quando estava b�bado, ele segurava Johannes e chorava.
N�o havia como se proteger disso. Era contagioso.
Com o tempo, acabei enxergando a corcunda tamb�m.
Quando crian�a, ele sempre estava doente.
Eu desejava que ele morresse.
Ent�o, ele come�ou a me atormentar. Ele era malvado, malicioso.
N�s o deixamos em paz e ele ficou quieto.
�s vezes, ele fugia e ficava fora durante dias.
Quando o encontr�vamos, Blom batia nele com o cinto.
Ele parecia morto. Mas nunca chorou, como outras crian�as fariam.
Ele ficava im�vel, vesgo e rangia os dentes.
Nesse caso, estou muito contente que o Johannes tenha revidado hoje.
- Ama Johannes? - N�o.
- N�o se importa com ningu�m? - N�o.
Talvez eu gostaria de fazer isso, mas tenho medo.
- N�o quero terminar como voc�. - Estou melhor que muita gente.
- Como aceita minha presen�a aqui? - N�o � a primeira. Isso vai passar.
- Quando ele ficar cego. - Est� esperando por isso?
Sim. Vou cuidar dele. Conseguiremos nossa pens�o e chal�.
Penso nisso todos os dias.
- Que terr�vel. - � mesmo?
- Estou indo embora com Johannes. - Qual � o motivo?
Se ele ficar aqui, as coisas n�o acabar�o bem.
- Vou falar com Blom. - N�o vai deix�-la entrar.
Sim, ele vai deixar.
Abra!
Coloque minha comida sobre a mesa.
- Pronto. - H� mais alguma coisa?
Estou partindo amanh� e estou levando Johannes comigo.
- O que voc�s est�o aprontando? - N�o fale comigo assim.
- Esse � o obrigado que recebo. - N�o seja rid�culo.
Ent�o, v� embora. Mas Johannes fica, est� decidido.
- Decidiu que ele devia lhe bater? - Ele pagar� por isso, confie em mim.
Ser� voc� que ir� pagar pelo que fez a mim e a Alice.
N�o fique t�o cheia de si. H� coisas que eu poderia contar a Johannes.
Eu j� contei, n�o se incomode.
Sally!
N�o v�.
Voc� quer algo?
Lembra quando lhe dei a concha? As coisas eram diferentes ent�o.
- N�o o conhecia. Agora conhe�o. - N�o. Voc� n�o me conhece.
Voc� n�o sabe nada. N�o sabe como � ficar cego.
Acordar de manh� e saber que est� um dia mais pr�ximo.
Ter medo de fechar os olhos e dormir.
Ver as coisas e saber que tudo pode acabar amanh�.
Ver tudo sem ter visto nada.
Nunca estive em nenhum outro barco.
Fiquei acorrentado a esse barco...
durante anos com Alice e Johannes.
O que acha que isso fez a mim? O que acha que isso me faz querer?
Sabia que n�o vira todas aquelas coisas. Mas sentia pena de voc�.
- As pessoas riem de voc�. - Acha que n�o sei disso?
Vou mostrar para os desgra�ados que riem de mim.
Aqueles que riem nas minhas costas e t�m medo quando olho para eles.
- Voc� e Johannes! - N�o pode nos ferir.
Voc� e Johannes... eu confiei em voc� mais do que ningu�m.
- Pode ir embora agora. - N�o pode nos ferir.
Estamos indo embora. Voc� pode ficar aqui.
Sally... era para voc� ter acertado as coisas.
Voc� n�o passa de um infeliz!
Voc� n�o passa de um infeliz!
Ei!
Diga alguma coisa!
Sim?
N�o podemos resolver isso juntos?
N�o.
N�o acho que me conhe�a.
N�o mesmo.
Esse barco paira sobre n�s como uma maldi��o.
Um dia desses, um fio vai estourar ou um parafuso soltar...
e ele vai afundar e nos levar com ele.
Ele vai ficar na lama e nunca vir� � tona novamente.
Que horas s�o?
Dez para meia-noite.
Hora de voc� ir para cama, n�o �?
N�o consigo dormir.
Fico horas acordado, ouvindo esse barco fantasma rangendo.
A �gua come�ou a corro�-lo.
Ele est� cheio de lama e algas.
Ele tem algo de assustador.
Aposto que milhares de conchas crescem l� dentro, como fur�nculos.
Como se o barco levasse cad�veres.
Barcos velhos n�o deviam ser resgatados ap�s tanto tempo.
Por�m, � preciso fazer isso �s vezes.
Bem, isso n�o depende de mim.
Johannes!
Sim? O que � isso?
- Preciso falar com voc�. - Qual � o problema?
- Estou assustada. - Como?
- Estou assustada. - Por qu�?
- Est� tudo errado. - Quer dizer com o velho?
� como se esper�ssemos algo acontecer, mas n�o sei o qu�.
Isso vai passar.
�s vezes, esse barco parece se mexer, mas ningu�m sabe para onde ele vai.
- Estou com medo. - De o barco encalhar?
Talvez. Ou de navegar t�o longe e nunca acharmos o caminho de volta.
� melhor ir embora e n�o achar o caminho de volta do que ficar parado.
Vamos pegar o bote na popa. Ningu�m vai perceber.
Podemos chegar � cidade em tr�s horas.
- Johannes, voc� me ouviu? - Sim, ouvi o que est� dizendo.
- Vamos antes que aconte�a algo. - N�o ir� acontecer nada.
O barco precisa ser resgatado. Essa � a minha responsabilidade.
Entenda, Sally... agora eu estou no comando aqui.
Mas estou t�o assustada...
Sou eu. Precisamos conversar.
Hans est� doente.
Precisa nos ajudar.
- Quem mergulhar� no lugar de Hans? - Pecka ou eu terei de ir.
- Pecka n�o pode fazer isso. - Bem, ent�o eu mergulharei.
Est� bem. Em um minuto, estarei de l�.
- A terceira corrente est� solta. - Vou cuidar dela.
- Que Pecka e voc� operem a bomba. - Eu farei isso.
- � melhor que o Bertil fa�a isso. - Est� com medo?
- Por que acha isso? - Nunca se sabe.
Ent�o, opere a bomba de ar e se fa�a �til.
Ol�, Alexander. Quanto tempo, hein.
Como a Sally est�? Ela se exibe para voc�?
- Ele est� estranho. - Parece que tem algo de errado.
Talvez algo tenha acontecido a Sally.
- A porta est� trancada. - Onde est� o zelador com a chave?
Saia da minha frente!
Ele bloqueou a porta.
Venha conosco, papai. N�s entendemos. N�o est� bem.
Ningu�m est� mais bravo com o senhor.
Deixe-me ajud�-lo.
Eu posso me virar sozinho.
Sabia que havia esse quarto?
- H� uma janela l�? - Consegue ver, n�o?
- H� um pouco de luz. - Vamos?
- Como ele est�? - Ele vai sobreviver.
- Como assim? - Provavelmente ficar� paral�tico.
Que horr�vel.
Gostaria de sentir o mesmo.
� estranho...
Amanh� tudo come�a de novo.
As velhas can��es, o piano desafinado, as roupas �midas.
O cheiro de ratos, bolor e pobreza.
Mas o diretor � gentil em me aceitar de volta.
E eu estou indo embora.
Sim.
Est� partindo.
Como estamos ocupados esta noite!
Para quem est� assobiando? Assobia para c�es, n�o para pessoas.
- N�o pode ficar aqui. - Sally disse que eu podia.
- Sally n�o pode autorizar isso. - Onde posso esper�-la?
Espere l� fora. S� faremos um show esta noite.
- Ent�o conhece a Sally? - Sim.
- Conhece-a bem? - Por que a pergunta?
Pensei que pudesse saber por que ela ficou este tempo fora.
- N�o, n�o sei. - Ent�o est� bem.
Ela voltou h� alguns dias. � bem imprevis�vel, n�o �?
- Eu n�o sei. - N�o, � claro.
Ela � atraente e talentosa.
Ela vai chegar longe.
Ela � do tipo de garota que diz: "Senhor, olhe para mim".
Quando voc� pergunta "quanto?", ela responde...
"Um bom emprego. Um bom sal�rio e pouco trabalho. Um casaco de pele.
Talvez um carro e um cachorro para o ch�o da minha sala de visitas".
Do ponto de vista da Sally, essa atitude � sincera e �tica.
N�o concorda?
Sim. � tanto sincera como �tica.
Estou feliz de t�-la de volta.
Poderia fazer muito por esta mo�a. J� fiz um pouco.
Sally, querida.
Foi �tima esta noite.
Sei o que est� pensando.
Sei o que voc� quer dizer, mas n�o diga nada.
N�o pense nada.
N�o se incomode com essa sujeira. O importante � o que h� entre n�s.
Vou tirar voc� daqui assim que puder, eu prometo.
Que gentil. Mas n�o fa�a promessas que n�o pode cumprir.
Sim, eu prometo.
Eu prometo mesmo.
Vou esperar todos os dias.
Vou pensar em voc� o tempo todo.
Vai ser muito dif�cil.
Nunca conseguirei pensar direito em outra coisa.
� estranho... amanh� conseguirei o que eu quis todos esses anos.
Mas n�o me sinto feliz.
Voc� vai ficar feliz.
Sei que vai.
Voc� sofreu muito.
Voc� me ajudou.
Quando chegou, eu era um punhado de mal�cia e �dio.
Fico feliz de ouvi-lo dizer isso, apesar de saber que n�o � verdade.
Por que est� chorando?
Vamos prometer que seremos fi�is e que sempre nos amaremos.
Vamos nos abra�ar bem e nos sentir felizes e infelizes.
- Enquanto isso durar. - Claro que ir� durar.
Durar� para voc�. Voc� est� como deveria.
Mas eu temo o amanh� e todos os dias que vir�o.
Sinto que n�o h� nada que dure.
Nem a tristeza nem o amor.
Nada que seja doloroso ou belo.
- N�o para mim. - N�o diga isso.
N�o...
n�o quero assust�-lo.
S� sei que eu amo voc� e isso � o que importa.
- Minha nossa, pensei que estava morto. - N�o, s� est� b�bado.
- Eu peguei no sono. Que horas s�o? - Quase quatro, eu acho.
- Estou bem, garanto. - Bom dia, ent�o.
- Assustei voc�? - O qu�?
N�o.
Pensou que eu fosse outra pessoa?
- N�o olhe para mim. - Estou sentado aqui faz tempo.
- Que mal educado. - Quero lhe falar uma coisa.
Ou�a, Sally. � importante.
N�o temos nada para dizer. Deixe-me em paz!
Tenho algo importante a dizer.
Ent�o diga e v� embora!
- Sabe por que voltei? - Como eu saberia?
Lembra-se da nossa conversa antes de eu partir h� sete anos?
Prometi que viria para busc�-la assim que poss�vel.
E da�?
Estou aqui agora.
- Coloque isso e venha comigo. - N�o quero ir.
Disse que cuidaria de mim.
- Deve ter visto que � imposs�vel. - O que voc� quer dizer?
� mais idiota do que eu pensava.
N�o quero ir! Deixe-me em paz, v� para o inferno!
Voc� quer vir, mas tem medo.
Por que n�o me deixa em paz?
Lembra-se quando nos conhecemos? Como ficou do meu lado e me ajudou?
Por que n�o me deixa sozinha?
� minha vez de cuidar de voc�. Senti sua falta todos esses anos.
- Gosto de voc� como naquele tempo. - N�o quero nada com voc�!
- O que est�o fazendo? - Tendo uma discuss�o.
Pensei que estava matando ela.
Feche a porta.
Feche a porta!
Sally, me ou�a.
Vimos o que aconteceu a meu pai. Isso n�o pode acontecer com voc�.
Precisa se libertar dessa pris�o.
N�o pode fechar a porta e ficar cada vez mais assustada.
Precisa superar isso, mesmo que tudo pare�a perdido.
Sen�o tudo se agiganta � sua volta, tornando-se impenetr�vel.
E voc� acaba pulando de uma janela.
Sally. Sally...
me ou�a.
Sally...
Abra! Para que tudo isso?
Abra!
Deixe-a ficar a� dentro chorando.
Cale-se ou vou bater na senhora.
- Abra a porta! - Ele ficou maluco.
Eu nunca vou sair! Ficarei aqui at� o seu barco partir.
- Abra ou vou arrombar a porta. - Vou pular pela janela.
- N�o h� janela l� dentro. - A Sofie diz que n�o h� janela.
O que ele est� fazendo?
Entende? N�o pode fugir de mim.
Fa�a como quiser. Mas voc� n�o me quer.
Voc� n�o pode julgar isso.
N�o sei por que estou brigando. Se me quer, pode me ter.
Vou embora quando se cansar de mim. Eu prometo.
Por favor, arrumem as coisas dela.
Sally?
Voc� sempre causou confus�o.
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